fevereiro 11, 2012

............................................................... ANTES DE TUDO


siron franco
No princípio era a mata sem fim. Vasta beleza cercada por uma solidão bruta. Lugar onde foram viver os homens e seus sonhos de fortuna. Vindos de longe, fugindo da pobreza, ainda mapeados pelo chão dos agrestes ou pela brisa fresca do mar. Procuravam terras e abrigos para plantar sementes de famílias e rebanhos. Cultura e civilização, num caldeamento permanente de hábitos, costumes e tradições.

Os homens, como os apóstolos, na hora antes do milagre, apenas podiam acreditar no que viam e ouviam. Audazes e malditos, criaram e plantaram. Cresceram e multiplicaram-se. Fundaram na terra selvagem vilas e façanhas, lendas e vergonhas. Crentes, espalharam frutos de ouro. Colheram, produziram, gastaram. Dominaram o ferro e o couro. A madeira e a pedra. O espinho e a flor. A ignorância e o desconforto. 

Quando a civilização ancestral, arcaica, se metamorfoseou por inteiro, e o olhar humano dominou a vastidão das serras, os grotões e os vales, o Nordeste tinha senhores de terras e jagunços. Suas casas, plantadas na temível Mata Atlântica, tinham alpendres, verdadeiros abrigos contra o sol e a chuva. O pé direito elevado e destemido para afugentar o calor, soprando a viração dos dias e das noites, sob o mormaço das telhas. 

Pequenas fortalezas, simples e altaneiras, arquitetadas para defender o humano e a propriedade, a honra e o suor. Numa delas, no sul da Bahia, vindo de longe, viveu meu bisavô Zé Latão. E aqui estou, caro leitor, com um passado épico correndo no sangue.

Um comentário:

Ligéia disse...

Sensível e emocionate a maneira como você conta a história de suas origens, Antonio. Surpreendentemente belo esse texto. Li e reli, cheguei a ver as casas de alpendre, imaginei-as brancas, caiadas...

Um abraço.