junho 17, 2012

....................................................... O ELOGIO DA VIAGEM

miró
Uma das melhores sensações da vida é a de chegar a uma cidade desconhecida e tentar perceber-lhe os contornos. A expectativa da diferença da língua, dos costumes, dos rostos, da paisagem. Uma estrada nova desenhada pelos nossos medos, impulsos e finalidades, um vestígio de infância e do sentido de descoberta que os meninos conhecem e os homens crescidos ignoram. Na idade adulta, só o amor provoca essa estranheza, essa agonia de estar sem desejar estar, de partir sem saber para onde, de ir sem perguntar. Peter Pan que sou, não aceito a morte do desejo de viajar, não aceito lugares onde o meu coração não pulsa. A viagem é uma porta sempre aberta, uma lâmpada que arde na noite sem se apagar, um mistério como uma chuva de estrelas cadentes. A viagem é como um par de asas que substitui sapatos. Nos dias de tédio, de revolta contra os políticos que fingem que nada é culpa deles, de angústia provocada pela barbárie de todos os preconceitos, conforto-me com as recordações de viagem, levando-me a alegrias serenas. Em geral, o ruim é esquecido. Não há nada mais enfadonho do que falar de problemas na alfândega, da sujeira das ruas de Roma ou da péssima comida de Londres. Viajar significa contar o sublime do visto e vivido, aprender com o desconhecido ou somente fugir da rotina cotidiana?

Lembro com embevecimento do canto do Alcorão numa noite marroquina, do inverno nos Pirineus espanhóis, da casa em Londres de Vivien Leigh (a mimada Scarlet O’Hara de “...E o Vento Levou”), dos antros delirantes do Bairro Alto lisboeta, do cheiro de cacau na rodovia Ilhéus-Itabuna, das dunas intermináveis de Galinhos, das noites poéticas de Sintra, de um encontro místico no parque El Retiro em Madri, de certas identificações com museus e livrarias parisienses, de um barco durante uma estranha madrugada de lua cheia em Boipeba, da magia da Floresta Negra na Alemanha, dos bosques austríacos montanhosos, de daiquiris em Cuba e museus italianos. Não viajar é evitar o imprevisto. Viajar limpa a alma, aclara o pensamento. O desconhecido autoriza-nos a enxergarmos diferente, sem as contrariedades e os naufrágios do cotidiano. A viagem deixa-nos livres para sermos poéticos e falharmos à vontade. Livres para procurarmos o que não existe. Viajar é um santo remédio contra o provincianismo, a monotonia ou a maledicência de quem não tem mais o que fazer. Foi com o pé na estrada que muitos escritores e poetas construíram sua obra: Michaux, Algiéras, Rimbaud, Ginsberg, Whitman, Gide etc. No dia em que eu não puder viajar, nem aquela viagem interior que é a do leitor de livros, o mundo terá para mim o tamanho de uma pequena gaiola de aço, e eu serei um pássaro mudo. Mas não quero pensar nessa impossibilidade, prefiro ver-me como um poeta-aventureiro até o último dos meus dias.

armstrong
Cada viajante tem a sua arte. Como dizia Paul Bowles e Bruce Chatwin, grandes escritores-viajantes ou vice-versa, “o importante é ser viajante, nunca turista”. O turismo vive de folclore e vaidades, destruindo simultaneamente as cidades litorâneas do nordeste brasileiro como as selvas de Costa Rica para construir hotéis, arrecadar muito dinheiro e operar como bálsamo para uma classe acomodada entediada. É só comparar, por exemplo, Pipa ou Porto Seguro, o que foram um dia com o que são hoje. Tenho a sorte de ter elegido uma profissão que me permite viajar, abrindo os olhos para a beleza das coisas simples da vida. Eu gosto de explorar as cidades de noite e de madrugada. Nunca deixo de ir ao cinema ou ao teatro mesmo que não entenda o idioma. As igrejas e os templos fora da rota turística são indispensáveis, assim como os mercados populares, as zonas sórdidas, os cemitérios, os bares frequentados por artistas fracassados, os mosteiros, os bosques e os rios. Não se descobre segredos de um mundo que já está descoberto. Visitar a Torre Eiffell ou o Corcovado é pura redundância. É enfadonho visitar muitos monumentos em poucas horas, gastar rolos de fotografias, ouvir o lengalenga de guias. Bom é passear suavemente, sem destino, parar, observar.

É preciso viajar para deixar a cabeça girar e evoluir o cérebro. Primeiro elegendo um destino como se elege um amante. Haverá que intuir, perguntar, ler, arriscar. Conheço muita gente que procura impor a sua forma burguesa de férias. Falam de compras fantásticas em Nova York, discotecas enlouquecidas em Ibiza e hotéis de sonho em Cancun. Os cruzados da Idade Média viajavam para salvar a alma e viver aventuras. Os turistas obcecados pelo consumo apenas enganam o vazio de suas existências. Viajar é pedir pouco, não ter medo, apostar no inesperado, compreender que o movimento cura a melancolia. Como dizia Robert Louis Stevenson, outro escritor-viajante, “quando viajo peço somente o céu sob meu corpo e um caminho para os meus pés”.

Pela primeira vez em Londres hospedei-me no apartamento de um velho amigo de infância, um escultor, na agradável Wimbledon. Ele preparava jantares perfeitos, dava dicas das melhores galerias e chamava-me para ver os debates da inteligente Germaine Greer na BBC. Não era bem o que queria. Mudei-me para um prédio vitoriano invadido por jovens, sem energia elétrica, aquecimento ou água canalizada, num turbulento bairro de negros e imigrantes: Elephant and Castle. Do meu imenso quarto no último andar, iluminado por velas em candelabros, escrevi diversos poemas e organizei reuniões festivas. Banhava-me em banheiros públicos. Bastante divertido e enriquecedor, e eu só deixei-o quando neo-nazistas ameaçaram atear fogo no local. Eles haviam queimado uma família de hindus uma semana antes. Perigos existem, mas o êxito de uma viagem depende principalmente do aprendizado, da paixão, da descoberta e nada disso se encontra em grupos turísticos ou numa loja de souvenires. Deixo de lado as mordomias dos nossos costumes burgueses e parto para o desconhecido. Ou seja, viajo sem problemas pré-concebidos. O que posso dizer com a experiência própria de anos como viajante, é que minha vida cresceu e minha origem é só uma peça que completa meu quebra-cabeças interior. Entre outras coisas porque minha memória - intelectual, espiritual, erótica - tornou-me um sem pátria.

vladimir kush

3 comentários:

Telma Antônia Silva Lima disse...

Muito bom.

Ana Maria Rosa disse...

Adorei esse blog. Li os artigos sobre HH e vou achar um tempo para ler muito mais!

Sibele Gava disse...

Amigo,
li o seu conto Elogio da Viagem e fiquei encantada, cada palavra calou fundo no meu coração. Que coisa linda é compreender de forma subjetiva toda a beleza e com que talento flui o seu texto e como você consegue traduzir os sentimentos da nossa alma de forma tão sincera.
Senti a sua viagem, viajei com vc e deu uma saudade danada de viajar sem dia de voltar... Beijos