maio 09, 2013

............................. ESBOÇOS de ARCO-ÍRIS

hans andersen

Ilustrações: HANS THOMA

(1839-1924)Durante três meses, em 2007, viajei sem pouso certo pela Alemanha, Itália e Áustria. Depressivo e perdido, em busca de renovação interior, consolou-me escrever os RAINBOW’s SKETCHES (Esboços de Arco-Íris), uma série de crônicas, poemas e ensaios retratando o que via e sentia. Resultado: cinco crônicas, uma dezena de poemas e um único ensaio: “Investigação de um Poeta Acima de Qualquer Suspeita: Rilke no Castelo de Duíno”. Confira.

                          
RAINBOW´S CHRONICLES / CRÔNICAS DO ARCO-ÍRIS
 (01)

COMO UM RELÂMPAGO RASGANDO A NOITE

Nunca se deve lamentar o que passou, repito, convicto, ao atravessar a clareira no alto da montanha, sob um céu de chumbo iluminado subitamente por trovões, relâmpagos e raios. A pertinência de viver intensamente, sem nostalgia ou sofrimento, exige persistência. Assim, lúcido, desfruto os últimos dias do “Rainbow Alemanha”. Diante de olhos confusos, a inexistência, o vazio, o desatino sem salvação. Os repetidos rasgões de luz na noite esmagam a razão, abrindo precipícios n’alma. Diminuo os passos, abençoado pela chuva gélida, atento às formas misteriosas na escuridão. Trilho a estrada úmida, salpicada por ramos espinhosos de framboesas maduras, em direção à selva de faias. Na entrada da mata, numa tenda, dois nórdicos grandalhões, saudáveis como lendários vikings, preparam o Tchai (chá de gengibre, cardamomo, canela, cravo-da-índia, anis e algumas ervas secretas), invocando sensações alegóricas e emanando um forte odor de madeira aromática. Insone no diálogo interior voluptuoso, sinto uma inexplicável e secreta metamorfose animalesca, penetrando-me cada vez mais fundo, com firmeza. Procuro manter-me sereno, não me desviando o mínimo que seja dos planos estabelecidos, mas sou capaz de rastejar feito réptil ou voar como um solitário falcão.


Atravesso entre árvores, escorregando gradualmente sobre folhas mortas até a barraca violeta, camuflada no reino vegetal. Logo a tempestade repentina vai-se. Cato galhos para a fogueira, enquanto recordo o menino que fui pernoitando numa fazenda de cacau. As chamas emolduram o sorriso inocente. Sou uma alma livre, nada me pertence. Aprendi que a vida caminha para além da nossa vontade; que não pisamos em terra firme; que minhas palavras fogem de mim, para longe, mal são ditas, separam-se; que os corpos têm desejos infindáveis e, por vezes, assustadores; que o amor doa-se sem medo. Distante da preciosa Bahia de Todos os Santos, sou parte do cenário da Floresta Negra, a Terra dos Nibelungos, no sul da Alemanha, florescendo vales e montanhas de contos de fadas. Personifico um homem-lobo, um selvagem, o Knulp de Hermann Hesse. Nu, sem energia elétrica, sem água potável, sem televisão, sem celular, sem computador, sem automóvel e sem outros méritos da indolência. Que alívio! Que triunfo de viver! Somando pessoas de quase cinquenta países, percebo uma Torre de Babel às avessas, pois parecem entender-se à perfeição. Mais de quatro mil seres participam dessa vivência comunitária com alma de Robin Hood. Freaks, hippies, alternativos, doidos, artistas, religiosos, ativistas sociais e ambientais. Fogem do urbano, da sociedade mercenária e injusta, unindo-se - sempre no verão - fraternalmente e em comunhão com a natureza, repartindo o pão, comendo juntos com alegria e singeleza. Em tempos antigos, agrupamentos com conceitos parecidos foram acusados de heresia, perseguidos e massacrados: os Cátaros, da Irmandade do Livre Espírito, na Idade Média; os Quilombos brasileiros, refúgios de escravos rebeldes, que realçou a figura majestosa de Zumbi dos Palmares etc .


O sistema organizacional funciona com a colaboração voluntária, gente disposta revezando-se na cozinha, servindo refeições, lavando tachos, preparando a fogueira e ensinando o que sabe fazer melhor. Não se come carne, não se bebe álcool e a única droga tolerada é o haxixe. Mas fumamos tabaco Golden Virginia e tomamos café em excesso. Dezenas de circenses amadores animam a festa pagã: acrobatas, palhaços, saltimbancos, malabaristas, dançarinos, cuspidores de fogo, pernas-de-pau e contorcionistas. Na nervura dos troncos, na terra, no voo, borboletas, abelhas, caracóis, formigas, besouros, grilos, aranhas, joaninhas, lacraias e outros insetos não identificados. Flores-do-campo de diversas cores e tamanhos, girassóis, roseiras silvestres, cardos. Toda a paisagem é de um prazer irrepreensível, de um deleite para os olhos. A solidariedade expande tal fraternidade que deita por terra ambições materiais, despertando bons sentimentos. Justamente o que precisamos neste milênio de religiosidade fanática, valores ultrapassados, depressão em série, corrupção e violência gratuita. Com o espírito gozando a paz e o bem-estar, no doce sopro da noite, submeto-me a presságios. São lugares como este que amo acima de tudo. A esperança renasce quando sou tocado pelo silêncio e pela cumplicidade dos entes invisíveis. Um ligeiro arrepio percorre o meu corpo ao perguntar-me: “O que está para além? Para além da escuridão, da noite absoluta?”. Evitando reflexões obscuras, presto homenagem a jóia do pensamento sublime escrevendo versos.


As chamas da fogueira acentuam a intensidade do paraíso. Pedras, a relva, folhas e troncos iluminados brilham estranhamente. De uma fresta na copa das árvores, vejo estrelas. A existência inquestionável, imutável. Guardarei na memória a luz, as sombras, a dança das árvores ao vento. Movo-me em silêncio e na maior discrição. Tudo inteiramente conhecido e inteiramente novo. Como um relâmpago rasgando a noite, comungo o sentimento de navegar ainda mais longe nas águas do místico. E em mim, distante dos anos imaturos, descubro a plenitude modelada e em crescimento. Relaxado, deito o corpo desnudo no chão de terra batida, ao lado da fogueira, confiando no destino. O mais leve movimento faz-me cair na semi-inconsciência. Um feitiço demasiado difícil de quebrar.
Alemanha, 2007.


2 comentários:

Nino Carone disse...

Que crônica emocionante. Viajei na sua aventura. Já tô à espera da próxima. Vc vai publicá-las em livro?

Italo Trindade disse...

Lindo Antonio, muito bem ilustrado!