O
verdadeiro lar do Homem não é uma casa,
mas a estrada, e a vida em si é uma jornada
a ser percorrida a pé.
BRUCE CHATWIN
(1940 – 1989. Sheffield / Reino Unido)
Os vagalumes
iluminam minha noite
e me emprestam
sua luz e suas asas.
Então, feliz,
a estrada clareada,
eu vou te ver.
VALDELICE PINHEIRO
(1929 – 1993. Itabuna / Bahia)
mas a estrada, e a vida em si é uma jornada
a ser percorrida a pé.
BRUCE CHATWIN
(1940 – 1989. Sheffield / Reino Unido)
Os vagalumes
iluminam minha noite
e me emprestam
sua luz e suas asas.
Então, feliz,
a estrada clareada,
eu vou te ver.
VALDELICE PINHEIRO
(1929 – 1993. Itabuna / Bahia)
Ilustrações:
JUAN de ZURBARÁN
(1620 – 1649. Llerena/ Espanha)
para Joan Ribas Sebastian
JUAN de ZURBARÁN
(1620 – 1649. Llerena/ Espanha)
para Joan Ribas Sebastian
Eu sei como é duro o ofício do escritor em viagem. Ofício? Sim, e dos mais nobres que existem. Nobre porque exige o maior despojamento, a maior humildade interior para conseguir apreender o estranho, o bizarro, o perigoso, o abismático Outro. Apreendê-lo até ele se tornar algo de nós, um sentimento de pertença. Tal compreensão resultou de uma longa conversa com um amigo poeta, o português Jorge Telles de Menezes, numa noite de céu estrelado em Sintra. Naquela época, eu havia acabado de publicar em Portugal “Se um Viajante em Uma Espanha de Lorca”, reunindo cerca de vinte crônicas escritas entre junho de 2004 e janeiro de 2005. Visitei várias cidades espanholas, lugares históricos e monumentos religiosos, narrando também no livro a paisagem natural e referências à arte e à literatura de minha eleição. Um discurso intimista e metafísico na senda do sentido da vida. Uma viagem de desenvolvimento espiritual. Sobressai um tom positivo onde me assumo como espião da formosura, ser ibérico de alma cigana. Reproduzo três crônicas. Confira:
I RES MÉS
A rodovia
a caminho de Cadaqués é pintada por giestas, umas flores campestres de um
amarelo dourado. Na entrada da cidadezinha idílica, de mil habitantes, situada
no ponto mais oriental da Península Ibérica, lê-se numa placa: “I Res Mès” (E
Nada Mais, em catalão). No Cap de Creus (Cabo das Cruzes), chamado também de
Cabo do Inferno, um farol de 1853, do tempo de Dona Isabel II, avistei gaivotas
eufóricas sob o azul mar mediterrâneo, barcos de pescadores, sólidas casas
brancas, muitos turistas franceses e tufos de alfazema. É uma zona de pântanos
dentro de uma reserva marítima e terrestre, queda dos pirineus até as águas
tranquilas, sem ondas, do mar em forma de enseadas. Em Port Lligat (Porto
Atado), estive na casa-museu do irreverente Salvador Dalí, cenário familiar do
surrealista que passava verões nele com o amante Federico García Lorca e onde terminou
conhecendo a musa de toda a vida, Gala, então mulher do poeta francês Paul
Eluard. Dalí, que aprendi nestes dias que vem de “delir-se”, ou seja, ansiar,
graças ao seu centenário está presente em várias mostras na Espanha. Uma delas,
na sala subterrânea de exposições da La Pedrera, aborda a sua admiração
por Antoní Gaudí, que em catalão
significa “gaudir”, gozar. Entre curvas perigosas e cidades de nomes
impressionantes (Olot, Ripoll, Rupit, Vic, Ogassa, Figueres, Girona), cortei o
parque natural de Montseny, montanhas de mais de dois mil metros de altura,
pontes romanas, vales, rios gélidos e trasnsparentes.
A partida, depois de uma
hora de trem da Estação de Sanz, na cidade de Sant Celoni, revelou-se
impactante com o número de imigrantes africanos e romenos que lá vivem, além de
uma bucólica ponte milenar derrubada em parte por seus moradores para evitar a
invasão das tropas napoleônicas em 1810. A história está presente em todas as
partes. O idioma catalão também, quanto mais me aprofundava na Catalunha ficava
visível que não havia interesse dos nativos em comunicar-se em castelhano. Os
bosques, como o La Selva, protegidos por rigorosas leis ambientalistas, são
viveiros de perdizes, coelhos, javalis e cervos. Para chegar a Rupit, uma inacreditável
cidade medieval do século XVI, de 400 habitantes, atravessei uma ponte de madeira
e aço, estilo Indiana Jones, dezenas de metros acima de um belo rio. Neste
rochoso vilarejo, praticamente sem ninguém nas ruas - o que é comum na Catalunha profunda -,
parei numa pousada-restaurante em que uma bonita adolescente entediada estudava piano.
“É uma lástima viver aqui”, queixou-se. Antes de seguir viagem, comi um
delicioso sanduíche de pá de pagés amb tomáquet recheado com vários embutidos
(pernil salat, catalona, bull, llonganissa e fuet) acompanhado por uma gelada
clara (cerveja com refrigerante de limão) num recipiente centenário. Orei com fé intensa, dando graças a Deus, no
santuário de Nossa Senhora del Far, na capela de Sant Martí de Surroca e no
mosteiro de Santa Maria de Ripoll, dos séculos X-XI, túmulo de muitos nobres.
Dormi na minúscula Ogassa, terra de minas de carvão, que pertence a comarca do
Ripollés, no grande, sinistro e sem outros hóspedes hotel Can Costas, como o habitado por um satânico Jack Nicholson em “O Iluminado”. Do meu
quarto, vi a lua minguante, Vênus, a montanha Taga, robles e a Fonte del Miner.
Antes de dormi, devorei parte de um coelho assado e batatas recheadas fritas,
tomando o bom vinho Sangre de Toro. Em Besalu, conheci uma sinagoga do século
XIII e a soberba Ponte Velha, estilo românica, do século XI. Deslizando pelos
vales pirenaicos avistei gordas e brancas vacas ao sol, com pequenos sinos
pendurados nos pescoços, e plantações de oliveiras. Terminei na comarca de
L´Empordá, na Costa Brava, nas ruínas gregas e romanas de L´Empuriés. A noite
caía. Uma estátua de Ifigênia, a filha de Agamenón, do século III a.C., reinava
perfeita e soberana no mágico recanto à beira do mar. Em 1925, Dalí trouxe
Lorca para este mesmo lugar. Quem sabe não namoraram encostados no porto grego
que rasga o mar? O meu coração pulsava acelerado. O tempo não tinha fronteiras.
De volta a Barcelona, li no jornal “La Vanguardia” sobre as boas relações do
ex-presidente José María Aznar com Bush. Na Califórnia, Aznar criticou o novo
governo espanhol, acusando-o de trair alianças políticas fundamentais. Aznar,
do PP (Partido Popular), segue uma política de direita.
A Espanha é belo, místico e acolhedor país. É uma terra atualmente
inclinada para os sentimentos anti-violência e anti-belicista, por uma Europa
unida política, econômica e socialmente. Até mesmo a boda real do príncipe
Felipe de Borbón com a plebeia Leticia Ortiz, uma ex-apresentadora de
telejornal, no último sábado, em Madri, foi tratada por muitos espanhóis como
uma pomposa e ultrapassada encenação teatral. Longe da paixão britânica, poucos
jovens neste país levam a sério a nobreza. A ambígua sexualidade do herdeiro do
trono é questionada por eles quase com desdém; se preocupam muito mais com os
feitos futebolísticos de Ronaldinho ou as noitadas “calientes” regadas a vinho
tinto e haxixe. Antes de iniciar este artigo, liguei a tevê para assistir
“Manjar de Amor”, do interessante cineasta catalão Ventura Pons, uma história
passada em parte na considerada capital gay europeia, Barcelona. A tevê
espanhola é vulgar e pouco criativa, mas o cinema é vigoroso. Seguindo minhas
próprias regras de dedicar-me as artes do país que visito, vi nos últimos dias “La
Mala Educación”, de Almodóvar, que não está nos seus melhores dias, mas supera “Fale
com Ela”; o competente drama histórico “Juana la Loca”, de Vicente Aranda; e
uma impressionante performance de Victoria Abril no mais novo Carlos Saura, “El Séptimo Dia”.
São dias comoventes, que iluminam o viver: aprendizado, alegrias, belezas
naturais e históricas, arte, cultura, exploração zero e bom acolhimento.
Olé!
As COVAS de
FRANCO
Mais de sessenta anos do final da Guerra Civil e quase trinta da morte do General Franco, passando pela libertária “movida madrilenha” e a complexa União Europeia, a Espanha expõe suas feridas através de livros, filmes, documentários e espaço na mídia impressa. Uma dessas chagas mais dolorosas, alerta para um número macabro: trinta e cinco mil espanhóis assassinadas pelo regime franquista durante e depois da guerra da década de 30, e enterradas em fossas coletivas e anônimas. Superando a dor, o medo e o silêncio, os parentes exigem os restos dos cadáveres, para que sejam resgatados e identificados por legistas e antropólogos. O poeta Federico García Lorca, o símbolo de todos os mártires do fascismo em Espanha, decompõe-se numa dessas covas infames. Segundo Ian Gibson, na sua excepcional biografia sobre o autor de “A Casa de Bernarda Alba”, um dos criminosos, Juan Luís Trescastro, “alardeaba ruidosamente de haber participado no sólo en la detención, sino en la muerte de Lorca. Acabamos de matar a García Lorca – se jactaba la mañana del asesinato -. Yo lo metí dos tiros por el culo, por maricón”. Mesmo assim, pediu ao pai do poeta uma considerável quantia para salvá-lo da morte certa. O rico senhor, iludido que o filho ainda vivia, desembolsou o resgate pedido. O cemitério invisível de Lorca, no campo granadino de Alfacar, visitado por Marguerite Yourcenar, recebeu dela tais palavras: “Não se pode imaginar uma sepultura mais formosa para um poeta”.
Não é o que todo mundo pensa. Com o apoio de escritores, atores,
cineastas e músicos, associações para a recuperação da memória histórica
organizam atos solidários contra a impunidade, pedindo os meios necessários
para exumar, identificar, praticar provas legistas e entregar as famílias os
restos da vítima. É uma luta heroica contra o esquecimento amargo e injusto.
Algo assim deveria ser reabilitado no Brasil. Seria impagável ouvir relatos dos
anos de chumbo, de ambos os lados, dos militares e dos comunistas;
desaparecidos lembrados, assim como os carrascos; censuradas obras literárias,
musicais e teatrais relançadas, independentemente do valor artístico. É mais
fácil esquecer o passado ingrato, mas muito mais valente enfrentar os
fantasmas, para que as infâmias e seus massacres monstruosos não contaminem o
presente. Todo mundo sabe disso, não é novidade, e mesmo assim as novas gerações
não são esclarecidas sobre o passado recente – só para não ir além do
sanguinário século 20. O escritor inglês Martim Amis, que entrevistei e faz
parte do meu livro “ArtePalavra – Conversas no Velho Mundo”, acredita na
memória, provocando celeuma com “Koba el Temible”, lançado recentemente para o
leitor espanhol. Trata-se de uma coleção de observações e testemunhos ao redor
de um tema central: os inimagináveis extremos que o totalitarismo estalinista
foi capaz de chegar. O cruel ditador (qual deles não é?) soviético Stalin,
entre outras barbaridades, ceifou vidas de escritores e poetas fantásticos.
Assim como Franco enfiou dois tiros no cu de Lorca. Lorca está morto, enterrado
(e talvez desenterrado em breve) e vive em livros, na imprensa, não somente
devido ao talento inquestionável (é o melhor poeta em língua hispânica, me
perdoe os fãs de Neruda), como também ao assassinato bizarro. Sou daqueles
crentes que o esquecimento não é o contrário do rancor, só é o contrário da
memória. Na Andaluzia, a cada imigrante africano detido ou afogado na difícil
travessia do Estreito de Gibraltar, recordo dos 90 mil mouros expulsos da região
e outros tantos massacrados em intermináveis batalhas no século 13. Uma
barbaridade pouco recordada. Os heróis da história geralmente levam a marca da embromação
oficial e cheiram a fanatismo e sangue. O mundo é para todos. O importante é
respeitar e compreender. Desenterrar atrocidades é uma boa forma de abrir a
boca, pedir paz, formar uma corrente poliglota por um mundo melhor. Ou a
humanidade, prisioneira do consumismo e do vazio, caminha para o fim e nada
podemos fazer? O evidente é que o século 21 começou muito mal. Se abriu uma
nova era, a do terrorismo. E não se trata somente de Al Qaeda. Existe como um
culto ao massacre. O século anterior foi dominado por uma espécie de concurso
de pesadelos. A Guerra Fria poderia ter acabado com a aventura humana, porém não
foi assim. Agora sabemos que o mundo dito civilizado terá que sofrer ainda
muitas atrocidades. Preparem-se, a violenta fera do mal está solta e esfomeada.
QUE
ALEGRIA de VIVER!
Sou de família pouco dada à arte culinária. Os homens não chegam perto do fogão nem para fazer café; as mulheres são cozinheiras básicas, preparando com dedicação pratos rápidos e tradicionais com produtos da temporada, e renovando o menu a base de ingredientes ensinados de mãe para filha. Por exemplo, Nininha, minha adorável avó materna, fazia um simples bife com sabor único que recordo até hoje, vinte anos passados, mas não amava temperos, molhos, verduras ou frutos do mar como “alimentos de coração”. Eu nada cozinhei até a idade adulta, brigando ridiculamente com ovos em caçarola durante muito tempo, e na década passada, vivendo em Madri com cinco pessoas de quatro nacionalidades diferentes, inexperiente, passando dificuldades econômicas, tornei-me “cozinheiro” da noite para o dia. Em busca de reportagens com brasileiros famosos que visitavam a capital espanhola, batia ponto na Embaixada do Brasil, pedindo a Norma, funcionária do Itamaraty de intermináveis décadas, que facilitasse conversas com patrícios célebres, ajudando assim um jornalista free-lancer sem contatos. O máximo conseguido: entrevistar a bela pintora Solange Costa, mãe de Teresa Collor, que me recebeu num apartamento luxuoso e é autora de quadros ruins; e a sofrível esquerdista Lícide da Matta, ex-prefeita de Salvador, ao receber um prêmio humanitário das mãos da Rainha Sofia.
Flávio, estudante de
psicologia, goiano, vizinho de quarto, veio com a louca ideia que nos tiraria
do aperto financeiro: “Somos cozinheiros. Vamos responder a este anúncio”. O
anúncio publicado no “El País” procurava cozinheiros de outros países para
durante dois dias na semana criar e executar menu “exótico” - com quatro pratos
de entrada, quatro principais e duas sobremesas -, pagando muito bem. “Não sei
cozinhar, Flávio, e você muito menos”, rebati, tentando evitar a
irresponsabilidade. “O chefão não precisa saber desse detalhe”, respondeu.
Marcamos a entrevista, o proprietário aprovou o duplo currículo, e dentro de
três dias seria a estreia. Enlouquecemos, ligando para as nossas mães pedindo
receitas, consultando livros e revistas, estudando cada prato teoricamente,
pois não havia dinheiro para testes. A lista de compras passada ao gordo
proprietário, poderia ser tratada como um verdadeiro tesouro para brasucas no
exterior: feijão preto, dendê, leite de coco, mandioca, abacaxis, mangas,
pimenta malagueta, cebola roxa. Iniciamos o trabalho às oito da manhã,
consultando discretamente as receitas selecionadas e ouvindo grunhidos de reclamações
dos ajudantes portugueses, que alegavam a impossibilidade de fazer um bom arroz
da nossa forma, entre outras coisas. Às onze, operários de diversas
nacionalidades - inclusive brasileiros -, ocuparam todas as mesas.
Semanas depois, o proprietário dando como desculpa o
alto custo do nosso cardápio, ultrapassando o orçamento previsto, não
compensando, pagou-nos o prometido e desejou melhor sorte noutro lugar. Nunca
soubemos se o intento agradou ou provocou indignação, porém temos uma pista
positiva: os pratos voltavam vazios. Depois dessa farsa digna das comédias de
Woody Allen, comecei a me interessar pela cozinha baiana, aprendendo alguns
truques para facilitar a preparação e usando ingredientes alternativos, e no
ano de 1999, em Barcelona, me lancei publicamente como cozinheiro, chamando
quinzenalmente amigos para provar comidas com nomes de escritores brasileiros:
“Tabule Jorge Medauar”, “Peixe grelhado com batatas e romero Aninha Franco”,
“Vatapá Gregório de Mattos” etc. Neste verão terrivelmente quente no balneário
andaluz de Tarifa, convidaram-me para cozinhar nos finais de semana no La
Sacrístia, hotel-restaurante sofisticado frequentado por milionários, artistas,
nobres e turistas enlouquecidos. Topei a parada, apostando na renovação como
alegria de viver, atirando-me no desconhecido de coração aberto e com certa
experiência. No primeiro jantar, tivemos como degustadores uma condessa vasca,
um príncipe hindu, uma apresentadora de televisão, alguns jornalistas do “Harper’s
Bazar Magazine” e a rica brasileira Penny Shorto, que vive em Marbella.
Puta responsabilidade
que não me intimidou. Na cozinha, entre ervas, azeites, peixes frescos e
intermináveis panelas, divirto-me, intenso como a Babette de Isak Dinesen. Esta
semana fiz gaspacho e o frango ao forno com limão e gengibre esgotou-se num
piscar de olhos. Antes de começar a cozinhar na existência basicamente nômade,
já me sentia atraído pelas histórias que falam de comida, melhor dizendo, pelas
histórias em que os personagens param para comer e passam um tempo na cozinha
ou reunidos em torno de uma mesa. A comida realça a realidade da ficção, sua
simples menção humaniza uma história. Como esquecer os magníficos banquetes das
novelas de Balzac, os frutos secos e raízes comidos pelo monstro Frankenstein,
a compota de anêmona preparada pelo Capitão Nemo ou o “pão, arroz, três queijos
holandeses, cinco peças de carne seca de cabra e milho” que Robinson Crusoé
resgata de um naufrágio? Quase todos os escritores, em algum momento da
narrativa, mencionam os alimentos que comem seus protagonistas, embora muitas
vezes seja de forma apressada. Colette, Jorge Amado e Georges Simenon nos
deixaram receitas em suas novelas que dão água na boca. Don Quixote come ovos, pimentões
picados e bacon todos os sábados; Kim, de Rudyard Kipling, curry com verduras;
e Sherlock Holmes, uma torta de patê de foie gras.
Gosto de me identificar com
os livros que estou lendo, transformar-me de alguma maneira no personagem cuja vida
seguimos nas páginas. Em Paris, li todo um capítulo sobre Quasímodo numa das
torres da Notre Dame; folheava em praças e parques londrinos “Mrs. Dalloway”,
de Virgínia Woolf. Claro que é difícil empreender as mesmas viagens de
Gulliver, as aventuras de Simbad ou apaixonar-se perdidamente como Anna
Karenina, porém não há nenhuma dificuldade em provar o que eles comem. E assim,
cozinhando, me aproximo ainda mais dos livros. Nesse momento, ao escrever “Homem
Sem Caminho”, persigo receitas e cardápios de restaurantes para elaborar pratos
para dois ou três personagens. No bosque La Selva, o imigrante Lubião e o
cigano José Navarra comem sanduíches de pimentões verdes assados, jamón
serrano, cogumelos e morcilla, uma linguiça de sangue de porco. Longe de
qualquer futilidade, toda comida é em essência uma prova de humanidade. Sua elaboração,
tendo como justificativa o paladar e a estética, pode levar-nos com sorte a
manjares imaginativos e audazes. É o que venho tentando fazer nos últimos
finais de semana, seguindo radiante pela trilha de dias serenos e novas
descobertas para uma melhor qualidade de vida. Quer provar a salada de
polvo, meu caro leitor? Ou prefere peito de peru ao creme de abacaxi?
,_fiori_e_frutta_in_una_ciotola_di_porcellana,_1645_ca.jpg)
