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agosto 24, 2026

.................................... A ARTE SONHADA de CHRISTINA OITICICA

 


 

Entrevista publicada na revista Premiere BR
 número 58, julho de 2026
 
Por Antonio Nahud 
 
Fotografias:
Alex Teuscher e Chris Heeney
 A artista carioca CHRISTINA OITICICA, radicada em Genebra, na Suíça, e que tem sangue potiguar por parte de mãe, Paula Francinete Medeiros Bastos Oiticica, prepara uma nova exposição para setembro. Intitulada “Quando o Céu Invade a Terra”, no Grand Hotel Majestic, às margens do Lago Maggior e, no norte da Itália,de 12 de setembro a 30 de outubro. Na curadoria, a premiada Adelina von Fürstenberg, e na cenografia, o arquiteto grapiúna Marcelo Mendonça. A mostra reúne obras inspiradas na profunda relação da artista com a natureza, a espiritualidade, o sonho e os processos de transformação por meio de elementos naturais.
 
Ao longo da carreira, ela desenvolveu uma linguagem artística singular, em que a natureza se tornou coautora. A experiência de expor suas obras ao tempo, à chuva, ao sol e ao vento imprime marcas únicas sobre as telas, dando origem a trabalhos inovadores. A artista já realizou intervenções ao redor do mundo, incluindo a Amazônia, os Pirineus franceses, o Japão e as Ilhas Eólias. Em cada projeto, a ação da natureza torna-se parte essencial do resultado final. A nova exposição tem como destaque a grande tela “Mamã Muxima”, que está submersa nas águas do Lago Maggiore, em frente ao hotel que receberá o evento, até o dia da inauguração da mostra. Ela nasceu a partir de um sonho onírico.
 
Eu a visitei no seu charmoso apartamento em Genebra e, certa vez, a entrevistei para jornal e TV, em Santiago de Compostela. Ficaram boas recordações. Nesta segunda entrevista, anos depois, a cordial Christina explica o curioso método de criação das suas obras, fala sobre a sua visão espiritualizada da arte, sua origem familiar potiguar e trabalhos sociais produzidos através da fundação que mantém na Suíça com o prestigiado escritor Paulo Coelho, seu companheiro há mais de quatro décadas.
 
Quando descobriu seu talento na arte?

 
Eu nasci com ele e desde pequena sabia que estava dentro de mim. Teria que desenvolvê-lo de alguma maneira. O meu sonho era estudar na Escola Nacional de Belas Artes, que ficava no museu que a minha mãe me levava para visitar. Desde o primário fazia arte para vender nas barracas de São João e era encarregada das capas dos trabalhos escolares. Eu sabia que seria artista.
 
Certa vez me disse que sua família veio do Rio Grande do Norte. Conte um pouco sobre isso, já que nossa revista é potiguar.
 
Minha mãe nasceu em Natal. Meus pais se conheceram na Segunda Guerra Mundial. Christiano Monteiro Oiticica, meu pai, nasceu em Alagoas, veio trabalhar na base militar norte-americana de Parnamirim como tradutor de inglês. Nessa época, ele viu minha mãe no bonde e se encantou. Por acaso, foi morar do lado da casa dela. A família do lado materno é Leite, Medeiros e Bastos. Augusto Leite (1863 - 1921), meu parente, além de técnico tipográfico de reconhecida competência, é apontado como o primeiro líder operário do Rio Grande do Norte, tendo dirigido a Liga Artística Operária Norte-Rio-Grandense, fundada em 1904 por ele próprio, combatendo ideias anarquistas. Foi a primeira associação do século XX. Ele era encarregado do jornal “A República”. Em sua homenagem, a Praça Augusto Leite, no bairro do Tirol. Meu avô era Aureliano Clementino de Medeiros, Coronel Aureliano como era chamado. Para sua residência, mandou construir em 1907 um palacete neoclássico, o Solar Bela Vista, tombado pelo Iphan e funcionando atualmente como centro cultural da capital potiguar. Foi intendente de Macaíba e comerciante de loja de tecidos chamada “Paris”, em Natal. Sobre a família do avô Bastos, nada sei.
 
O que é arte? Seria a transformação do ordinário no extraordinário?
 
Para mim tudo é arte: cozinhar, bordar, curar, desenhar, pintar etc. São dons que Deus nos deu. Que temos que fazer com amor e total entrega. Seria a transformação das coisas do nosso dia a dia em coisas especiais.
 
Como sua carreira se iniciou? Qual foi o verdadeiro impulso?
 
Fiz a Escola Nacional de Belas Artes, de 1969 a 1975, no Rio de Janeiro, como queria tanto. Comecei aos 17 anos. Depois fiz arquitetura, trabalhei uns anos como arquiteta, mas sempre as artes plásticas me chamavam. Pintei e desenhei toda a minha vida. Tive uma editora e um centro cultural no Rio, embora a vontade fosse só de me dedicar às artes. Vi que Paulo, meu marido, desde cedo queria ser escritor, era a sua legenda pessoal. Depois do Caminho de Santiago, se dedicou somente a escrever livros. Antes criou letras de músicas de sucesso, trabalhou como jornalista, mas o seu sonho era ser escritor. Eu em 90 fiz o Caminho de Santiago e mudei a minha vida. A partir daí comecei a expor no Brasil e em outros países, dedicando-me às artes plásticas. O verdadeiro impulso foi o trabalho cotidiano, um após o outro.
 
Como definiria o panorama da produção prolífica que tem mantido?
 
Dedicação e ajuda de Deus.
 
Se sente mais confortável em pintura, desenho, escultura, gravura ou instalação?
  
Com pintura e desenho. Me dedico mais a essas duas técnicas. Mas amo a instalação e a escultura.
 
Pensando na sua fase inicial, quais foram as mudanças de linguagem que experimentou até chegar ao mais recente trabalho?

 
Ontem conversando com um curador, pude fazer uma viagem no tempo. Às vezes é muito difícil ter essa visão global do nosso trabalho. Acho que cada fase é importante. Vejo trabalhos que fiz anos atrás como praticamente novos. A grande mudança foi quando deixei os trabalhos na Natureza para serem interferidos por Ela.
 
Acredita na busca de uma nova ideia visual ou na variação infinita das ideias que já existem? Pode falar sobre isso?
 
Nada é novo debaixo do sol, mesmo com todas as mudanças tecnológicas, sociais etc. A essência humana permanece. Tudo está ligado por uma teia invisível: a alma do mundo. O que eu penso, tem várias pessoas no mundo pensando a mesma coisa.
 
Qual é o papel da natureza no seu trabalho?
 
A Natureza representa 50% no meu trabalho.Compreendi que o meu trabalho precisava sair das paredes do ateliê. Tornei-me uma parceira da Natureza, e o meu trabalho recebeu a sua impressão digital.
 
Como surgiu a técnica de enterrar telas?
 
Morava nos Pirineus franceses num hotel pequeno, precisava preparar uma exposição em Paris e não tinha como fazê-lo. Para o Paulo é simples, basta um laptop. Eu preciso de espaço. Acabava sujando o quarto do hotel com a tinta, além do incômodo cheiro forte. Resolvi levar as telas grandes para o campo e florestas que circundam a cidade. Deixava pela noite para a tinta secar, e no outro dia ia buscar. Sempre me deparava com folhas que tinham caído na tela, insetos etc... e ficava alarmada! Estragou o meu trabalho! Então me dei conta que seria muito bom fazer uma parceria com a Natureza. A partir daí, comecei a enterrar, deixar nas árvores, nos leitos dos rios, e recentemente em lagos e em salinas.
 
Elas não se estragam ou desaparecem?
 
Não digo que estragam, elas se transformam. Fico emocionada e encantada ao descobrir o que as mãos da Natureza fizeram das minhas obras originais. E poucas desaparecem.
 
Por que recorre a materiais inusitados para criar?
 
É uma questão de experiência, me faz bem. Lugares diferentes, materiais além da tela tradicional, como o cobre. Sempre experimentando.
 
Acha que a arte deve refletir a atual crise mundial?
 
Ela queira ou não reflete o mundo em que vivemos.
 
christina oiticica e paulo coelho
Tem um artista favorito? Quais são as suas referências, inspirações?

 
Tenho muitos artistas que amo, como Salvador Dali, Sorolla, Botticelli etc. A minha inspiração pode vir de muitos artistas, mas a maior fonte é o trabalho, no momento que me sento para trabalhar.
 
A idade é uma questão da mente ou limita a criação artística?
 
A arte não tem idade. Depende de cada circunstância.
 
Há uma proposta de transcendência no seu trabalho? De representar o consciente e o inconsciente? O humano e o divino? A sombra e a luz?
 
Acho que trabalho muito com a dualidade. A luz e a sobra, o profano e o sagrado, o consciente e o inconsciente. Agora mesmo deixei um trabalho num lago na Itália. O lago para mim é o inconsciente e o trabalho é o consciente. O divino interferindo na matéria.
 
Seu trabalho de fundir arte e natureza é respeitado por ter mantido a mesma atitude de sempre com seriedade?
 
Você tem razão, acho que ele é respeitado pela continuidade, e pela constância do trabalho.
 
Sua arte funciona na base da intuição ou há toda uma pesquisa?
 
Aí depende, é mais na intuição. Mas costumo fazer pesquisa.
 
Como funciona o seu cotidiano criativo? Trabalha todos os dias ou somente quando tem vontade e disposição?
 
Por exemplo, agora estou entre os trabalhos realizados e uma exposição em setembro. Então a parte criativa fica guardada, mas todos os dias ela sai para me dar um alô. Tenho tido muitas ideias para um novo trabalho, mas elas ficam amadurecendo dentro de mim. Nesse momento eu trabalho com a exposição em si. Os convidados, a divulgação etc. Apesar de ter uma curadora superexperiente e consagrada, que ganhou o Leão de Ouro de Veneza, Adelina von Fürstenberg. E uma divulgadora ótima, Herica Marno, e um arquiteto maravilhoso para a montagem, Marcelo Mendonça. Tudo faz parte de um só trabalho. Depois eu me concentro numa próxima etapa, e para isso tenho que estar muito envolvida.
 
Quem são os colecionadores de suas obras?
 
Uma fundação em Genebra voltada para a sustentabilidade, Ethos Fondation Suisse. A Fundação Basileia em Basel, que trabalha com artistas brasileiros, e vários colecionadores particulares.
 
Como vê sua recepção pela crítica e pelo próprio meio artístico?  Se sente realizada?
 
Até o momento sim, mas tenho ainda muito que fazer. A realização é relativa, acho que só é satisfeita quando dizemos basta ou quando a vida diz por ela.
 
Usa a criação e visibilidade para projetos sociais?

 
Temos uma fundação na Suíça: Fundação Filantrópica Paulo Coelho e Christina Oiticica. Além do objetivo de preservar o trabalho de Paulo e o meu, manter o legado, nossa fundação se encarrega de trabalhos sociais no mundo inteiro, mas principalmente no Brasil. Como no Hospital de Santa Irmã Dulce, Crianças com Câncer, na Bahia; no Rio, Meninos de Luz, nas favelas Pavão e Pavãozinho; em Minas Gerais, no Orfanato Nhá Chica Esses são os mais conhecidos no Brasil. Trabalhamos com Ongs que cuidam da medicina e da nutrição na África e Oriente Médio, famílias de presos, e renovamos cada ano essas doações, embora algumas sejam fixas. A minha arte também tem teor social.
 
Paulo Coelho faz sugestões ou influencia seu trabalho e vice-versa?
 
Muitas vezes ele opina, me ajuda no meu trabalho. Eu faço a mesma coisa com ele. Isso desde o início.
 
Como vê a arte do Brasil?
 
Maravilhosa! Muitos artistas bons e muita criatividade. O Brasil também está na moda nesse momento.
 
Acompanha e respeita as novas gerações artísticas?
 
Respeito e acompanho. Estou a algum tempo longe do Brasil, mas amo as minhas raízes. Fiz uma exposição linda com um indígena Pataxó do Sul da Bahia, no ano passado. Representava as nossas raízes.
 
A Europa, por muito tempo, foi um dos mais inspiradores centros da arte no mundo. Como é agora? Como é fazer parte do meio artístico europeu?
 
Acho muito estimulante trabalhar na Europa, pois a repercussão é ótima, o trabalho artístico é valorizado. E a multiplicidade de culturas é grande. No Brasil também, por ser um país muito grande e diferente em cada região. A arte que faz no Sul é diferente da que faz no Norte. O que se faz no Centro Oeste é diferente do que se faz no Nordeste. Então é muito rico. Acho que o mundo vive um momento rico criativamente.
 
Não pensa em fazer uma série pictórica com releituras de obras literárias do seu marido?
 
Nunca se sabe, mas no momento não penso. Nesta nova exposição, apresento uma série de ilustrações criadas para uma edição especial do livro “Histórias para Pais, Filhos e Netos”, de Paulo.
 
verena andreatta, christina oiticica e marcelo mendonça
Poderia nos indicar uma obra de arte que todo mundo deveria conhecer e que você gosta muito.

 
“Guernica”, de Picasso.
 
Morando fora do Brasil e cumprindo uma série de viagens a trabalho, sobra algum tempo para voltar ao país natal?
 
Nesse momento, fico mas em casa, em Genebra. Meu ateliê se tornou um pouco as minhas quatro paredes. Penso em ir ao Brasil este ano. Estou com saudades. A vida se modifica com os momentos que vivemos.

O público precisa ser instigado a conhecer arte como uma experiência mais criativa e profunda?
 
A arte está em todos os lugares, depende dos olhos de quem vê. Nas ruas está a arte viva! Na internet temos acesso a todas as artes.  E os museus andam cada vez mais cheios. Para ir a uma exposição em Paris, temos que comprar ingresso muitos meses antes. A moda são os shows musicais, verdadeiros shows de arte.
 
Por que sua próxima exposição tem como título “Quando o Céu Invade a Terra”?
 
Nasceu da ideia de que mudanças profundas acontecem quando o divino toca a realidade humana. As obras desta exposição foram transformadas pela água, pela terra, pelo sal e pelo ar. Da mesma forma, os textos que inspiraram algumas delas são transformadores. Quando o céu invade a terra, mudanças profundas acontecem nos corações dos seres humanos. E o inconsciente interfere no físico.
 
O destaque da exposição é a obra 
“Mamã Muxima”. Soube que foi criada a partir de uma experiência onírica.
 
Exato. Sonhei que subia uma montanha para visitar uma igreja dedicada à Nossa Senhora da Conceição. Quando entramos, estava tudo escuro e eu não conseguia ver a imagem. Só via uma figura vermelha. Quando as luzes se acenderam, vi que era vermelho por ser uma Nossa Senhora coberta de corações. No dia seguinte, um amigo me enviou um vídeo de uma igreja no alto de uma montanha em Florianópolis, dedicada justamente à Nossa Senhora da Conceição. Resolvi pintá-la com os corações. Descobri depois, por acaso, a Nossa Senhora da Conceição da Muxima, em Angola, conhecida como a Nossa Senhora dos Corações e padroeira do país.
 
Quais são os seus projetos, além da nova exposição, e quais as questões que mais têm lhe interessado?
 
Tem questões que me interessam, como a fome da humanidade, as guerras, a espiritualidade, a imigração e as fronteiras desse imenso mundo, que tem lugar para todos. Muitas ideias habitam o meu cotidiano. Os projetos voam nesse momento. Quando chegar a hora, pesco um.
 
Obrigado. 
 
antonio nahud e christina oiticica









setembro 22, 2024

............................................ POVO do RAINBOW: a VOZ da LUA

 

 

“Onde místicas memórias se entrelaçam
como coroas de flores raras, que um peregrino
colhesse em longínqua Terra Prometida!”
LEWIS CARROLL
(1832 - 1898. Daresbury / Reino Unido)
Alice no País das Maravilhas
 
“How can you ever give your more to receive your less?
(Como dar o que tem a mais para receber o que tem a menos?)”
BOB MARLEY
(1945 - 1981. Nine Mile / Jamaica)
da canção Misty Morning (1978)
 
Fotografias:
BENOIT PAILLÉ
(1984. Montreal / Canadá) e
ANTONIO NAHUD
(1969. Itabuna / Bahia)

 
 
 CRÔNICAS da FLORESTA NEGRA 05
 
Sob a majestosa Floresta de Abetone, na Toscana, entre caminhos e estradas de terra, cercado por árvores centenárias e prados. Na riquíssima flora local, arbustos perfumados de alecrim, tomilho e lavanda. À luz de uma Lua avassaladora que clareia o meu corpo, as palavras e a benéfica solidão. Nesse paraíso, conto no “Diário” um coração tão longe e tão perto, insistindo no milagre das palavras. Viajar é um resumo feliz da vida. Ainda menino, ao ler “Alice no País das Maravilhas / Alice in Wonderland” (1865), mergulhei em êxtase, desejando aquela viagem surrealista de Lewis Carroll. Viajar, ler, escrever, são satisfações. Em autodescoberta, participo de uma odisseia italiana, numa experiência intensa, pondo em causa a sociedade convencional e dando significado à existência incerta. Nos últimos dias, conheci hippies e nômades, anarquistas radicais, profetas, reencarnações de figuras religiosas famosas e artistas mambembes - todos em comunhão.
 
Observo façanhas, ditos cheios de espiritualidade, habilidades inesperadas. No meio desses bem-aventurados, loucos de amor um pelo outro, passo por uma metamorfose, como um mutante em uma comunidade sobrenatural. O chão foge debaixo dos pés. No que deu andar sem destino pelo mundo! Olho sem julgamentos. Neste segundo encontro com o POVO do RAINBOW, ouço nitidamente a VOZ da LUA. Sonâmbulo e lírico, desnudo e descalço, há semanas convivo com viajantes que realizam encontros temporários em diversos países, com a finalidade de experimentar uma sociedade em comunhão. Duram um mês e seguem o ciclo lunar, de lua nova a lua nova, culminando com uma celebração de lua cheia no meio. A primeira experiência, arrebatadora, aconteceu na Floresta Negra, na Alemanha. Agora, abrigado em uma pequena barraca, ao lado de um pessegueiro coberto de flores, ouço o silêncio e recordo imagens telúricas.
 

Na noite que revela não apenas o mais vistoso, canta uma voz de rouxinol. Cada canção nesse local é um hino de louvor. A batida do coração é a música e os círculos de canto. Canções de arco-íris que abrem o coração, canções de cura, bhajans e mantras cantados em dança, em reverência – ao redor de fogueiras ou em tipis. Enquanto escrevo, uma estrela cadente corta o céu. Tudo nesse éden se movimenta lúdico e religiosamente. O RAINBOW propõe o parentesco voluntário entre os seres, a partir de sensações. Nenhum rancor aparente, nenhum ódio, nenhuma desconfiança do futuro. Não há tristeza que entre nessas almas. De súbito, compreendo que fui presenteado por luz e sombras: longas e proveitosas horas namorando a Lua; a eternidade nos aspectos mais honestos, como numa pintura de Sandro Botticelli ou uma ópera de Giuseppe Verdi. Por muito que envelheça, que fique fatigado, por vezes sem esperança, dificilmente desprezarei o encanto de viajar.
 
Num esquecimento coletivo das misérias e dos desenganos, milhares de almas unidas, de 48 países diferentes. O coração é a fogueira, como talvez seja uma fogueira o coração do corpo humano. A arte pinta seu entorno, principalmente música (com instrumentos acústicos) como uma forma de oração, de conversa com a natureza. É uma comunidade imprevisível, sem líderes, qualquer autoridade ou hierarquia que se insinue é imediatamente dissolvida. No senso do sagrado, vivencia-se atitudes de culto e de cuidado. A religião faz parte da natureza. As relações entre pessoas, plantas, consciências, espíritos, se comunicam de modo igualmente significativo. O xamanismo é respeitado, num entrosamento entre o humano e o não-humano, num pensamento fixado na floresta e em atividades comuns. Por toda parte, pessoas cozinhando, cuidando das crianças, fazendo trilhas, tocando música, dançando, lavando pratos, realizando atividades físicas, educacionais e/ou recreativas.

 

Andarilhos, nudistas, hippies, itinerantes, místicos, vagabundos, artesãos, artistas de rua. Jovens, idosos e crianças. Se juntam para viver dias de utopia, ao ar livre, celebrando ideais de paz, amor, harmonia e liberdade. São acampamentos afastados das grandes cidades, onde há água boa para banho e para consumo, lenha para fazer fogo e condições para acampar. Organiza-se de forma não-comercial, através da colaboração voluntária. As atividades básicas consistem no preparo de duas refeições coletivas por dia, coleta de lenha e de água, escavação de buracos para os vasos sanitários. Oficinas de filosofia, percussão, artesanato, mantra, meditação, entre outras. Nas rodas de conversas, os “Guardiões” zelam pela paz e resolvem conflitos. Há consensos prévios, como a proibição do álcool, do consumo de carne e do uso de equipamentos eletrônicos. Reúne influências do movimento hippie, do ciganismo, neopaganismo, de tradições indígenas, orientais e outras.
 
Uma densa atmosfera de paz, de almas purificadas. Revivendo antigos valores da contracultura, tais como o pacifismo de Gandhi, a preservação ecológica e contra o consumismo, os encontros do POVO do RAINBOW investem em um estilo alternativo, valorizando a simplicidade, a autossuficiência e o desapego aos bens materiais. Se reduz o uso do dinheiro, incentivam trocas, trabalho voluntário e a gestão dos recursos ambientais de maneira consciente. A alimentação é vegetariana. Em um Centro de Medicina Alternativa curandeiros prestam socorros nos casos de acidentes. O primeiro encontro foi realizado em 1972, nos Estados Unidos, no Parque Nacional Rocky Mountain, Colorado, durante quatro dias. A partir daí tem se repetido todos os anos, nas florestas em todo o mundo. Alcançou a Europa no início dos anos 1980 e o Brasil em 2003.Durante um mês somos irmãos e irmãs da mesma tribo. Há uma energia muito positiva, de liberdade e comunidade.
 

O céu, sem nuvens, nos cobre como um teto de cetim. Avanço andando à toa pela floresta. A natureza vegetal desponta da terra. Há outeiros com minúsculas flores azuladas em aleluia. Montes cobertos de urze, roxos. O cheiro de ramos de alfazema ao vento embebeda os sentidos. Como em transe, mergulho os pés no riacho gélido que serpenteia junto à floresta. Um casal sentado, de pernas cruzadas, olhos fechados e mãos pousadas sobre os joelhos, em pose de meditação. O riacho parece veias fecundas de um corpo. A mulher, de longos cabelos loiros e pele enrubescida pelo sol, levanta-se e mergulha na água. Tal como eu e muitos outros participantes do encontro, está nua. Ainda no curso aquático, avisto famílias inteiras com crianças nas águas, ou brincando nas encostas. Todos se cumprimentam com um sorriso genuíno. Por vezes, há abraços que duram uma eternidade. No alto de uma árvore, num imenso cartaz, “Welcome home! Bienvenidos a casa!”.
 
Poucos metros à frente, numa tenda tipi decorada com corações e símbolos da paz, partilho uma taça de chai (chá preto com gengibre, canela e cardamomo). “Aqui nos sentimos em casa, reencontrando-se com a nossa verdadeira tribo”, explica Haya. “Esse é um lugar de cura. Para mim é muito espiritual”, confessa uma garota de meigos olhos azuis. Ela nasceu nos Estados Unidos, mas não assume sua nacionalidade. “Sou da Terra”, declara. Acenando com a cabeça de cabelos num tom loiro platinado, presos na nuca, sua amiga Isabelle acrescenta: “Sempre que venho a um encontro Rainbow, algo muda em mim”.  Mickey, de chapéu à cowboy, faz uma análise mais política. Comenta a evolução das reuniões desde a década de 1970, defende que esse modo de vida supera as vicissitudes do mundo. Federico, que há 10 anos abandonou a discoteca que tinha em Ibiza, foi para Paris tornar-se pintor, e terminou viajante, diz: “o viajante é o mensageiro da alma”.
 

Com olhos profundos, fincados entre as rugas da sua pele queimada, “Aquele que Sabe”, que já ascendeu à 4.ª dimensão, “em que o cosmos dá a solução para todos os problemas”, está esculpindo um pedaço de madeira e de olho no círculo central, onde uma gigantesca fogueira é acesa nas noites. A forma circular, explica numa voz grossa e sonora, é a mais perfeita: “a arquitetura moderna quadrada é caótica, porque não permite o fluxo da energia. E, se vivemos num local caótico, teremos uma vida caótica”. O xamã, como se designa, propõe-se iluminar a obscuridade. “Religião, política - está tudo contaminado”, critica, completando: “procuro ser a luz na noite de ódio e ganância que escurece o planeta”. A conversa é interrompida pelo som de um violão. Uma dançarina sobe em uma rocha, movendo os pés e as mãos ao ritmo da música, de olhos fechados, o rosto virado em direção ao sol, como uma moderna Isadora Duncan. Seus formosos seios saltam vigorosos.
 
A melodia numa voz harmoniosa diz: “I am a rainbow, i am a rainbow (Eu sou um arco-íris, eu sou um arco-íris)”. Debaixo de um toldo azulado, esticado em troncos de altos carvalhos, mulheres cortam melões, em cima de uma mesa improvisada. No chão, um outro grupo descasca legumes e separam feijões. Outros desfazem os condimentos e especiarias numa pedra no chão. As crianças correm por entre as pernas dos adultos, com os pés cobertos de terra e os rostos pintados com desenhos coloridos. No fogão a lenha, os tachos de tamanho industrial são pousados. Ágnes mexe a aveia com uma comprida colher de pau e suspira de fadiga, passando a mão pelos cabelos curtos, raspados nos lados. Nascida na Hungria, viveu a maior parte da vida em Israel. Veio sozinha para a Toscana, mas rapidamente reencontrou caras familiares, de antigos encontros. “Venho pelo amor, pela liberdade”, explica despejando os cereais cozinhados em um recipiente de cobre.
 

Quatro ou cinco pessoas realizam a coreografia de yoga de saudação ao sol. Um pouco mais perto, vários rapazes dormem debaixo do espanta-espíritos suspenso entre duas faias. Aos poucos, vindas de diversos caminhos, as pessoas se juntam e dão as mãos, formando um cortejo circular. Um mar humano invade o acampamento. O compasso de espera é preenchido com uma popular música RAINBOW: “I´m so glad... Every little cell in my body is happy and well (Estou tão contente... Cada pequena célula do meu corpo está feliz e bem)”. Repetimos vezes sem conta, correndo para a frente e para trás, ondulando o círculo. Batemos palmas e alguém levanta a voz: “Por favor, façam silêncio para o Om”. Pedido satisfeito em poucos segundos. O Om, o som do universo, aumenta progressivamente, numa fusão de vozes que cria a vibração própria do mais importante mantra do hinduísmo. Recuperado o silêncio, nos sentamos no chão para dar início à refeição.
 
Dança, malabarismo, discos e bambolês. Violão, didjeridu e flautas. Depois da sopa de abóbora, penetro na floresta, onde um perfume de ervas queimadas se mistura com o odor do chá e do café. O francês Julian prefere ser tratado como Sananda, um nome místico. Desnudo, com um sorriso sossegado, afirma: “Depois de um Rainbow, as pessoas mudam”. Sananda veio ao encontro pelo “ritmo de liberdade, de solidariedade, de abertura ao mundo”. Um pouco mais dentro da floresta, encontro o belga Gérard. Ele me convida para subirmos num frondoso carvalho. No alto, nos abraçamos. “Aqui posso ser livre, ser como sou, sem que a sociedade me julgue”, explica. “Para cada um a experiência é diferente. Eu estou aqui para doar amor. Estou habituado a viajar sem dinheiro, vivo do que me dão. Venho aqui para dar aquilo que eu tenho”, diz. Um homem do mundo, com a tatuagem de uma pomba nas costas e uma rosa azul num ramo de espinhos nas nádegas.
 

Mata adentro, possuído pelo mistério, aproximo-me do tipi do grupo do australiano Mel. Ao seu lado, entre giestas floridas, uma mãe embala o seu bebê de dois meses. Pouco depois, uma outra mãe pousa a sua criança adormecida no chão, serena como um anjo. Nesse encontro inicial, Mel parece que me conhece há anos e fala sobre os RAINBOW: “É uma união pela paz. Comemos comida orgânica, vivemos em tendas, cozinhamos com lenha, não há eletricidade, não há álcool, não há drogas... Vivemos naturalmente. Há tolerância e cada um é responsável por todos. Há todo o tipo de religiões, idades e nacionalidades. Há punks, há doutores, há praticantes de reiki... Muitos vêm pela medicina alternativa. Há também tendas dedicadas a saunas ou banhos de vapor cerimoniais. E há muitos músicos”, informa. Aliás, é difícil encontrar um lugar no acampamento onde não se ouça violão, djembê, flauta ou didjeridu. O próprio Ben é músico.
 
“Foi um Rainbow que me inspirou a viajar”, confessa o alemão Thomas, enquanto beberica uma taça de chai. As palavras saem da sua boca carnuda límpidas, quentes e esperançosas. Conta que são sete anos de viagens e muitos RAINBOW. “Gosto como as pessoas se juntam nestes encontros. São equilibradas e positivas”, explica. Pouco depois, mergulho no riacho sob o céu dourado de final de tarde. Secando o cabelo molhado, Silvana sorri sem motivo aparente. Para chegar à Toscana ela pedalou sozinha, numa bicicleta cor-de-rosa, durante duas semanas desde a sua cidade natal. Sofreu um acidente no caminho, que deixou uma marca roxa na sua face direita. No riacho também fico conhecendo Kate. Ela veio para encontrar “pessoas interessantes”. Nasceu no Reino Unido e viveu anos numa comunidade hippie no México, de onde acaba de regressar. “Depois daqui vou pra Londres. Esta é a última oportunidade de liberdade, o último momento de utopia”.
 
Ao anoitecer, faz-se um profundo silêncio. O vento assobia, passando entre os galhos das faias e pelas chamas da fogueira. A Lua, no fim do infinito, parece dizer que é tempo de aconchego. Eu choro, sim, eu choro, mas o que se pode fazer? A felicidade é tanta! Cada vez mais agradecido a Deus pela redenção. A Lua, num tapete de luz, ilumina em cheio o acampamento sonífero. Uma doce solidão cobre tudo. E assim, em paz, adormeço.
 
Floresta de Abetone
Toscana, Itália
agosto de 2005
 

SOBRE o POVO do RAINBOW
“People of the Rainbow: A Nomadic Utopia” (2011)
de Michael Niman
“Derivas y tensiones en la materialización de la utopía:
etnografía al movimiento Arcoíris en Chile” (2016)
de Leonardo Cancino Pérez
“The Rainbow Family:
an Ethnography of Spiritual Postmodernism” (2006)
de Adam Berger
 
ENCONTRO RAINBOW
 
ESPAÇOS COMUNITÁRIOS
Recepção
Cozinha
Padaria
Centro de Medicina Alternativa
Armazém
Aldeia das Crianças
Fogo Sagrado
Buracos Sanitários
Temazcal
Espaço de Concílio
Jardinagem
Estação de Germinação
Banco de Sementes
Jardins Medicinais
Jardins de Fruta
 
O QUE TRAZER
Barraca de Campismo
Lanterna
Utensílios (prato, copo, talheres etc.)
Comida
Medicamento
Instrumento Musical
Livros
 
O QUE NÃO TRAZER
Álcool
Drogas
Animais de Estimação
Armas de Fogo
Plásticos desnecessários
Equipamentos eletrônicos
 
PERGUNTE-SE
“O que posso ensinar ou partilhar?”
“Que instrumentos ou provisões posso levar?”
“Que projeto ou workshop posso criar?”
 
Se desejar, doe dinheiro para o “Chapéu Mágico” (fundo comunitário).
 

LEIA TAMBÉM
 
CRÔNICAS da FLORESTA NEGRA 01
RELÂMPAGOS RASGANDO a NOITE
http://cinzasdiamantes.blogspot.com/2018/06/como-um-relampago-rasgando-noite.html

CRÔNICAS da FLORESTA NEGRA 02
A ENCRUZILHADA dos DESTINOS

CRÔNICAS da FLORESTA NEGRA 04
LA GIORNATA D’UNO INESISTENTE
 
 GALERIA de FOTOS