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novembro 30, 2022

.......................... DEZ VEZES RAYMOND CHANDLER e um POEMA

 


 
Há pessoas que matam por ódio, por medo, por ganância. Existem criminosos astuciosos que planeiam os seus crimes julgando livrar-se das consequências. E há criminosos dominados por tal fúria que não fazem planos. Há os que estão apaixonados pela morte, para quem o assassínio é uma espécie de suicídio.
O LONGO ADEUS
 
Ilustrações:
ROCKWELL KENT
(1882 – 1971. Tarrytown, Nova York / EUA)
 
 
Ele reinventou a literatura policial, contribuindo para que deixasse de ser olhada como um gênero menor. Teve uma infância conturbada com a separação dos pais, mudando-se aos sete anos de idade para a Irlanda e depois Londres, com a mãe, onde foi free-lancer no “The Westminster Gazette” e no “The Spectator”. Regressou ao seu país natal aos 24 anos, estabelecendo-se na Califórnia. Depois de ser militar, contabilista, revisor, jornalista, detetive particular e funcionário público, RAYMOND CHANDLER (1988 – 1959. Chicago, Illinois / EUA) tornou-se executivo de uma poderosa companhia petrolífera, a Dabney Oil. Após uma carreira brilhante de 13 anos, promovido a vice-presidente, terminou demitido em plena Grande Depressão por conta do alcoolismo. Cada um dos seus livros carrega a tensão que cercou sua vida. Admirado por W.H. Auden, Evelyn Waugh e Ian Fleming, entre outros, é prestigiado pela crítica. Confira abaixo dez curiosidades sobre o escritor.


01
“Não há nada como ficarmos sem dinheiro para vermos quem são os nossos amigos”, desabafou, ao ficar desempregado. Como não tinha nenhum, o seu plano foi tornar-se escritor. Aos 45 anos começou a vender seus contos policiais para a célebre revista pulp “Black Mask Magazine”, iniciando com “Os Chantagistas não Matam / Blackmailers Don’t Shoot” (1933), “Smart-Aleck Kill” (1934) e “Finger Man” (1934). As revistas pulp, impressas em papel barato, eram muito populares na época. Despedido, agora sóbrio e com tempo livre, RAYMOND CHANDLER começou a ler uma delas e decidiu que era uma boa forma de receber algum. Passou cinco meses escrevendo uma novela que vendeu por 180 dólares. “O Sono Eterno / The Big Sleep”, seu primeiro e extraordinário romance, surgiria em 1939.
 
02
O detetive particular Philip Marlowe é o herói dos seus romances. Quarentão, alto, magro, irônico e de poucas palavras, ele deu as caras em “O Sono Eterno”. Com estilo único, aguenta porrada, toda a sorte de enrascadas, mas, no fundo, é um sentimental enfrentando a dura realidade das metrópoles. Continua a ser a maior criação do universo policial literário, suplantando companheiros de profissão como Holmes, Maigret ou Poirot. Com Marlowe, o escritor deu-nos um novo herói norte-americano: cerebral, honesto, sarcástico, rebelde e com um inabalável sentido de honra. Ele é o grande detetive da literatura.

 

03
Para o cinema, ele escreveu o roteiro do clássico “Pacto de Sangue / Double Indemnity” (1944), de Billy Wilder, adaptado do romance de James M. Cain. Também roteirizou “A Dália Azul / The Blue Dahlia” (1946). Ambos foram indicados ao Oscar de Melhor Roteiro. Foi co-autor de “Pacto Sinistro / Strangers on a Train” (1951), realizado por Alfred Hitchcock e baseado em obra de Patricia Highsmith, e de mais dois filmes.
 
04
Philip Marlowe é um solitário. Um herói honesto, por vezes, sentimental. Símbolo do detetive durão, foi vivido no cinema por Dick Powell, Humphrey Bogart, Robert Montgomery, James Garner, Elliot Gould e Robert Mitchum. Com excepção de “Para Sempre ou Nunca Mais / Playback” (1958), todos os romances do escritor tiveram adaptação cinematográfica, alguns deles mais de uma vez.
 
05
Sucesso de crítica e de vendas, escreveu oito romances e uma infinidade de contos. Entre suas obras estão “O Sono Eterno”, “Adeus, Minha Querida / Farewell, My Lovely” (1940), “A Dama do Lago / The Lady in the Lake” (1943) e “O Longo Adeus / The Long Goodbye” (1954). Deixou inacabada a novela “Amor e Morte em Poodle Springs / Poodle Springs” (1959), que foi concluída por Robert Parker e publicada em 1989. Seus contos foram reunidos nos volumes “A Simples Arte de Matar” e “Assassino na Chuva”.
06
O magnífico “O Sono Eterno”, sua obra prima, retrata um mundo sórdido, povoado de pornógrafos, um assassino bissexual, uma ninfomaníaca psicótica e toxicodependente, diversos bêbados, bares fumarentos, loiras oxigenadas, múltiplos adultérios e cadáveres descritos detalhadamente. Além de assassinatos, claro, chantagens, policiais corruptos e mulheres fatais sem escrúpulos.
 
07
Virgem até aos 32 anos, ele conhecia muito da vida, menos as mulheres. A violência do casamento dos pais o atirou para a castidade. Engenheiro civil, o pai, talvez por ser bêbado, espancava a mãe, cobrindo-a de nódoas e dores. Sem ninguém, RAYMOND CHANDLER tinha um salário de três mil dólares por mês e sofria de alcoolismo que lhe provocava desmaios e amnésia.
 
08
Aos 31 anos, apaixonou-se pela melhor amiga da mãe. Ela tinha 49 e um marido. Casaram assim que a mãe do escritor, que era contra o relacionamento, morreu. Cissy Pascal era uma antiga modelo e pianista clássica. Costumava limpar a casa toda nua. Foi a sua musa, já que ele não escreveu nada antes de a conhecer e pouco escreveu depois de ela ter falecido.
 
09
Após perder a esposa, em 1954, entrou em profunda depressão, recaiu no alcoolismo e tentou o suicídio. Viria a morrer, quatro anos depois, em 1959, aos 70 anos, em San Diego, nos Estados Unidos, deixando expresso o desejo de ser cremado e colocado junto às cinzas da sua amada.
 
10
Em 1994, a Praça Raymond Chandler, em Los Angeles, foi designada monumento histórico-cultural. Situa-se na esquina das avenidas Hollywood e Cahuenga, o local exato do escritório de Philip Marlowe. A Los Angeles que RAYMOND CHANDLER descreveu é uma paisagem moralmente bárbara, mas bela – palmeiras a contraluz, a beleza das manhãs e o ambiente enigmático das noites. Terra de atores de segunda categoria, produtores fracassados, gângsteres, prostitutas, tiras corruptos, atrizes decadentes e figurões em busca de oportunidade para ganhar um bom dinheiro, seja limpo ou não.
 

POEMA PARA CISSY
 
RAYMOND CHANDLER
 
Há um momento após a morte
em que o rosto se torna belo
e os suaves olhos fatigados se fecham;
em que a dor acabou
e a antiga, antiga inocência do amor
gentilmente retorna e fica por perto
apenas por mais um instante.
 
Há um momento após a morte (que sequer é um momento)
em que as coloridas roupas penduradas no armário perfumado
e o sonho perdido fenecem lentamente;
em que os vidros e o copo de prata e o espelho vazio
e os três compridos fios de cabelo na escova
e o lenço dobrado e a cama refeita
com seus gordos travesseiros (onde nenhuma cabeça
se pousará) é tudo que restou de um grande sonho selvagem.
 
Mas existem sempre as cartas.
Eu as seguro nas mãos, amarradas numa fita verde,
com firme pureza entre os suaves e fortes dedos do amor.
As cartas não morrerão, esperando pelo estranho que virá lê-las.
Virá lentamente, emergindo da névoa do tempo e da mudança.
Virá lentamente, desafiador, pelo correr dos anos
cortará a fita e as espalhará a sua volta
e cuidadosamente as lerá página por página.
 
E a antiga inocência do amor voltará
Virá lentamente, emergindo da névoa do tempo e da mudança,
suave como uma borboleta por uma janela aberta no verão
só por mais um momento, em silêncio, para estar perto,
mas o estranho nunca saberá. O sonho acabou.
O estranho sou eu.
 
Tradução de Newton Goldman
 

FRAGMENTOS
 
“Sou detetive particular há já bastante tempo. Sou solitário, solteiro, quarentão e pobre. Já estive preso mais do que uma vez. Gosto de beber, de mulheres, de xadrez e de mais umas coisas. Os tiras não gostam de mim, mas conheço alguns com quem me dou bastante bem. Se algum dia derem cabo de mim num beco escuro, como pode acontecer a qualquer um com a minha profissão, ninguém ficará chorando de pena”.
 
“O que importa onde descansamos depois de morrermos? Que diferença pode haver entre um reservatório imundo e uma torre de mármore, no topo de uma alta colina? Estamos mortos, dormimos o grande sono e essas preocupações não nos incomodam. Petróleo e água são o mesmo que vento e ar, para nós. Dormimos o sono eterno, sem nos importarmos com a perversidade que nos matou nem onde caímos.”





outubro 03, 2019

.................................................. O MUNDO VIOLENTO de ELLROY




 O papel da literatura é induzir compaixão 
mostrando às pessoas o que o mundo realmente é 
e explicando como se dão mudanças pessoais nos indivíduos.
JAMES ELLROY

Ilustração: 
EDWARD HOPPER
(1882 - 1967, Upper Nyack, Nova York / EUA)

Em entrevista que fiz em Madri, Espanha, 2001, o autor fala sobre seu novo romance.


Poeta urbano impiedoso, JAMES ELLROY (Los Angeles, Califórnia, EUA. 1948) afirma que seus livros de prosa pessimista “cospem o mal, cospem o diabólico”. A sua biografia revela uma infância dura, expulso da escola e de casa, dormindo em parques e sob viadutos, drogas, álcool em excesso, delinquência juvenil, cárcere e violência ininterrupta – tudo narrado, anos depois, no livro “Meus Lugares Obscuros”. Depois veio a literatura, a redenção. Tinha mais de 30 anos quando publicou o primeiro livro. Diz que escreve romances policiais porque é obcecado por crimes violentos desde a infância, quando a mãe foi encontrada morta por um dos inumeráveis amantes dela, em Los Angeles. Ele tinha 10 anos.
 
Em Madri, apresentou seu mais recente romance, “Seis dos Grandes”, um calhamaço de quase 900 páginas e segunda parte da “Trilogia Americana”, iniciada há cinco anos com “América”. É uma narrativa documentada por fatos policiais e notícias de jornais, produto do trabalho de documentação do autor. A trama se inicia no dia do assassinato do presidente John F. Kennedy, em 1963, numa série de conflitos raciais. Um agente do FBI chega a Dallas para eliminar um suposto assassino e estuprador negro. O sangue jorra forte à sombra da Ku Klux Klan, J. Edgar Hoover, a máfia e drogas, ou seja, todo a infâmia do império norte-americano, ao lado de assassinos de aluguel com sentimentos e prostitutas com escrúpulos.

Ele diz que não lê os colegas “para não ser influenciado”. Considera-se “como Tolstói para o romance russo e Beethoven para a música”. Não tem televisão nem telefone celular. Escreve à mão e conta com uma secretária para digitar seus livros. Autor de muitos romances (“A Dália Negra”, “Jazz Branco”, “Sangue na Lua” etc.), considerado o mestre atual do policial noir, comparado a Raymond Chandler e Dashiel Hammett, chegou ao sucesso com “Los Angeles: Cidade Proibida” (1997), graças à adaptação para o cinema de Curtis Hanson. 
 
O escritor tem hoje 53 anos, mas aparenta mais. É esguio e elegante. Com mais de 1,90m de altura e alma atormentada, JAMES ELLROY diz que o sonho norte-americano é feito de lixo, violência e mentiras. Confira:

Seus personagens são severamente julgados. Não entendo como o comparam a Raymond Chandler, escritor cujos detetives e mulheres fatais são amorais.

Procuro uma viagem moral, descrevendo homens e mulheres. Julgo meus personagens com severidade e creio que este novo livro tem uma forte base moral, além de honra e decência. Quanto a Chandler, era um péssimo escritor. Não entendia bulhufas de policiais.

O senhor parece preferir os policiais aos detetives particulares.

Claro. Os investigadores privados não entendem nada do assunto. São amadores bisonhos.

Acredita que os escritores devem julgar costumes e pessoas como um cronista da miséria moral?

Não sou cronista, sou um escritor. Não opinaria sobre a pena de morte ou os distúrbios raciais em Cincinnati. Não sou um crítico cultural dos EUA. Não aceito essa limitação. Não me encerro em categorias literárias. 
 
Como gostaria de ser definido?

Um conservador. Sou a favor da pena de morte. Há certas pessoas que não merecem viver… Aprovo o controle do comércio de armas. Sou um homem que odeia o niilismo, a promiscuidade, a rebeldia institucionalizada, os psicopatas e o rock and roll. Parece incrível, mas gosto de música clássica.

Qual o seu leitor ideal?

Escrevo fundamentalmente para a gente que quer escapar da realidade e se meter em novos mundos, mesmo que neste mundo encontre o maligno. Eu respeito meus leitores escrevendo de maneira visceral, com descrições e uso consciente da repetição, linguagem própria e rica em detalhes e trama complexa.

Como traduziria os Estados Unidos?

A melhor coisa dos EUA é o capitalismo, o quase apartheid do sistema de governo, as duas casas do Congresso, direitos de Estado. É um fato que é uma república que representa a democracia. E acredito ser imperativo que os EUA permaneçam como um poder dominante. Tenho uma visão militar da história.

Qual o seu presidente dos EUA favorito?
           
São dois grandes presidentes do século 20: Roosevelt e Ronald Reagan. Roosevelt iniciou os programas sociais e Reagan ofereceu suspensão de impostos para todo mundo. 
 
Diversas obras suas foram adaptadas para o cinema com muito sucesso. “Los Angeles: Cidade Proibida” foi indicado para nove Oscars e ganhou dois. Gosta dos filmes que foram feitos a partir de seus livros?

É só uma forma de ganhar dinheiro. Eles ferram seu livro com o roteiro e lhe dão um bom dinheiro. O melhor filme feito de um de meus livros foi “Los Angeles: Cidade Proibida”. Me rendeu um bom dinheiro. É uma versão mais romântica de meu livro, que é muito mais sobre corrupção institucional e racismo. Mas também reconheço isso como um trabalho de arte que não criei.

O que tem feito além de promover seu mais recente romance?

Ando estudando o fascismo para o próximo livro. Descobri que não há diferença entre fascismo e comunismo.

O que se deve esperar de “Seis dos Grandes”?

A leitura de uma obra-prima, ou melhor, a segunda obra-prima de três chamadas “Trilogia Americana”. Tomo personagens e fatos verídicos e fictícios e os uno de tal forma que o leitor crê que tudo é real.