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setembro 27, 2015

............................................. SOB o OLHAR de u JOVEM POETA




Ilustrações:
IBERÊ CAMARGO
(1914 - 1994. Restinga Sêca / Rio Grande do Sul)


Nasceu no Rio Grande do Norte, em Natal , em 1985. Poeta, AUGUSTO B. MEDEIROS participou da coletânea “Libertárias Saudações”. Foi um dos nomes selecionados para publicação vinculada ao prêmio Luís Carlos Guimarães, da Fundação José Augusto. Uma coletânea que conta com dezoito poetas, três primeiros lugares e outros quinze contemplados com menção honrosa. Desenhista, sua arte, marcada por traços minimalistas - em grafite, preto e branco -, reflete sobre a condição humana. São desenhos que também abordam temas históricos, talvez influenciados pela formação acadêmica do autor em História, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O artista realizou duas exposições individuais em 2015, ambas intituladas “Rabisco Noir”, homenageando o emblemático cinema noir da década de 1940. Confira o pensamento do poeta-desenhista.


Augusto, qual foi o primeiro livro de poesias que leu? Lembra-se do impacto que teve?

Não lembro o primeiro, mas o contato com poesias iniciou cedo. Meu avô materno escrevia poesias, no entanto seus textos eram mais voltados para temáticas do espiritismo. Acostumei-me a vê-lo escrever em sua Smith-Corona anos 1950 que conservo até hoje. Ele possuía uma biblioteca bem interessante, foi através dele que descobri a poesia romântica de Augusto dos Anjos, por exemplo. Curiosamente, o gênero poesia não era o que eu mais apreciava. Gostava de ler, mas comecei a me desinteressar pelas fórmulas mais tradicionais, as rimas, as métricas. Passei a preferir a prosa, me identificava mais, parecia algo mais livre. A poesia que eu conhecia era algo mais preso a regras. Essa visão só veio a mudar anos depois, quando descobri as vertentes mais transgressoras e fluidas da poesia, como os concretos, o poema-processo e até mesmo a poesia da contracultura, que acabaram me aproximando do gênero.

Quando, exatamente, sentiu vocação para a literatura?

Eu não sei ao certo se tenho uma “vocação”, sou apenas um aprendiz, um iniciante. Mas a questão é que sempre gostei de escrever, sempre busquei meios de expressar minhas inquietações diante desta suposta realidade que nos cerca. Foi assim com o desenho, e vem sendo assim também com a poesia. Eu já escrevi muitas coisas, mas rasguei e apaguei dos computadores. Os poemas foram os escritos que decidi guardar, que olhei e me enxerguei neles, entende? Foram também os primeiros que eu decidi mostrar. Mudando de assunto, mas ainda falando sobre poesia, este ano aconteceu algo muito interessante comigo, tive uma grata surpresa ao descobrir poemas do meu pai. Durante uma mudança, minha mãe encontrou um pequeno calhamaço de textos de autoria dele e com a letra dele. Foi uma surpresa, pois quando meu pai morreu eu tinha apenas 13 anos, nunca imaginei que ele escrevesse poemas. O primeiro que eu li me identifiquei muito, era um poema bem pessoal, existencialista. A poesia me conectou ao meu pai em um tempo e em um espaço diferente.
  

Sua poesia é um retrato da sua própria persona ou é fruto exclusivo da imaginação?

Eu posso utilizar a imaginação, sempre utilizamos, mas minha poesia é muito da minha personalidade. Elas são muito pessoais. Meus versos são impulsionados pelos efeitos causados pelo meu cotidiano e pelas sensações que experimento, seja por coisas simples, que poderiam ser banais, mas nunca são, seja pelos sentimentos mais importantes que julgo ter pelas pessoas ou pela vida. A imaginação surge quando me coloco no lugar de outra pessoa para escrever, quando me imagino em outro ser, mas sou ainda meu olhar, minha carga.

Seu cenário é Natal, onde sempre viveu. Acredita que a ambientação é importante para o escritor? Se mudasse de cidade sua poesia seria diferente?

Creio que a ambientação é importante, mas não é fundamental. Acredito que seu eu vivesse em outra cidade teria outras vivências, claro, porém julgo os elementos que estão em meus textos como pessoais, e por isso, universais. Escrevo sobre minha ansiedade, meus sentimentos, sobre a incerteza em relação ao futuro, sobre um presente hostil, sobre o avesso das aparências, e esses aspectos encontramos em todo ser e em qualquer cidade. Natal está nos meus textos por estar em mim, mas meus textos não devem obediência a Natal.
  

Tem quem diz que a literatura deve traduzir o espaço natal do escritor. O que pensa?

É muito difícil falar hoje em aspectos regionais. Hoje somos de todo lugar. A própria noção de espaço é bem abrangente, não se restringe mais a fronteiras fisicamente estabelecidas. Compreendemos que os espaços são construções humanas e não elementos naturais delimitados por clima ou qualquer outra coisa. É o homem que elabora a noção de recorte espacial e dá a ele um rosto. É o homem que conecta e mistura espaços. Meus textos falam mais sobre o homem do que sobre o espaço, do que sobre um único espaço natal ou região.

A poesia parece ser o seu gênero favorito. Por que? Não se sente à vontade escrevendo prosa?

A poesia me agrada pela carga de sentimento que é lançada, muitas vezes, com poucas palavras, pelo corte dos versos, que não se cortam efetivamente. Gosto muito da prosa, quem sabe um dia eu não escreva algo do tipo. Hoje não me vejo escrevendo prosa. Muito menos uma narrativa que exija continuação de dias na concentração de certo núcleo de personagens. A poesia e suas possibilidades me deixam satisfeito.
  

Quanto tempo leva escrevendo um poema? Qual o seu processo de escrita? Como constrói um poema?

Tudo varia bastante. Alguns nascem em um segundo, os textos praticamente se apresentam como uma visão. Vejo e digo...é isto! É o que quero dizer! E não importa o local, tenho que escrever logo. Outras vezes a criação se estende para alguns dias, não muitos, semanas. São poemas que surgem em partes, verso a verso, assim vou montando-os como quebra-cabeças, claro que neles não existem peças que se encaixam perfeitamente, mas fecho quando a composição fica ao meu agrado, pelo menos naquele dia.

Como os seus versos nascem? Através de uma palavra, uma sensação, uma imagem ou de uma situação?

Gosto da ideia de imagem! Sim, uma imagem ecoada por uma situação, ou mesmo uma palavra, mas gosto da ideia de imagem! São como cenas de filmes ou peças teatrais. Nelas eu represento, encontro pessoas, os lugares, os objetos, o meu próprio corpo e os sentimentos que envolvem tudo.


Escreve com qual objetivo?

Busco apenas expressar os meus incômodos em relação à existência. Sinto-me bem escrevendo e acreditando que alguém vai ler, é como em um confessionário, me alivio ao contar.

Algum poeta o influenciou?

Palavras me influenciam, sejam elas em prosa, em verso, cantadas ou não. O existencialismo da prosa de Clarice Lispector é sempre uma inspiração. Os textos de Jack Kerouac, sejam em prosa ou haikai, posso dizer que me encantam muitíssimo, principalmente em relação ao olhar que lança para a nossa sociedade ocidental tão marcada pela técnica, pelo capitalismo e que condena modos alternativos de viver e de comportamento. Além do olhar sobre o que está às margens, a escrita de Kerouac tem ritmo, é algo visceral e frenético. Fascina-me a associação que fez entre a estrada e a vida.  Também me inspiram a música de Bob Dylan, a música de Nina Simone, sua voz intensa e pesada, as composições de Blues com suas vozes melancólicas e letras que contam sobre dores, desventuras, fazem, de certa forma, um elogio ao perdedor. Posso incluir também poetas como Leminski, Chacal e Moacy Cirne. Diferentes tempos e formatos, poesias que me inspiram.
  

Como traçaria um perfil da literatura potiguar? Troca impressões literárias com escritores locais?

Não sou capacitado para elaborar um perfil, mas em Natal, assim como em outros locais, existem grupos mais ligados a uma poesia conservadora em termos de formato, e outros grupos mais experimentais. A existência desses grupos é refletida também nos meios que utilizam para fazer circular sua arte. Em Natal além das editoras e da publicação em livros, existem editoras que produzem volumes como zines. Também é possível fazer circular a poesia de forma independente ou através de iniciativas de coletivos. Acerca da troca com escritores locais, faço muito, seja por meio dos diferentes saraus que ocorrem na cidade como também nos caminhos subterrâneos das redes sociais. Sim, por trás da superfície de banalidades e culto a imagem, tão comumente associados a esses veículos, existe uma teia de trocas poéticas nessas redes. Natal possui uma cena jovem muito rica em termos de poesia, aí eu me incluo. É possível se deleitar nas leituras e se inspirar.

Fale sobre seus desenhos.

Assim como a poesia os meus desenhos são necessidade para mim. Os desenhos vieram primeiro. É clichê falar que se faz algo desde a infância, mas honestamente é o que lembro que gostava mais de fazer. Após anos, afastado dos contornos, voltei a desenhar, comecei a guardar, acumular, por sugestão de amigos busquei meios para expor. Foi a Galeria do IFRN que primeiramente me abriu as portas. A exposição teve uma boa repercussão por parte dos visitantes e também dos amigos que já conheciam o meu trabalho. Também este ano tive a oportunidade de mostrar meus desenhos na Livraria Nobel Salgado Filho. Atualmente preparo uma nova exposição que terá como tema o circo, diferente da anterior, a Rabisco Noir, com tema e estética inspirada no meu cotidiano, como também no Cinema Noir. A nova exposição se chamará Circo Reverso e ainda não possui data. Ambas tem em comum uma preocupação com o lado mais escuro da existência humana. Meus trabalhos podem ser vistos através da minha página no facebook, Garabatos por Augusto B. Medeiros.

augusto b. medeiros
Vale a pena escrever?

Vale! Não em relação ao dinheiro, mas não é o intuito da minha arte servir como ganho financeiro. Sou professor de História e gosto muito da profissão que escolhi. Faço arte por necessidade de fazê-la, por isso tem valido a pena. Eu vendo meus quadros, publicações, gosto quando alguém se identifica e se agrada e quer levar, cobro por isso, pois para produzir eu tenho meus custos. Evidente, que os artistas também pagam suas contas, sendo necessário que sejam valorizados também financeiramente, mas minha arte não é feita visando agradar um possível comprador, não é feita para agradar as expectativas de alguém.  É como costumo dizer, não é apenas traço, é pedaço de mim, ou seja, não são apenas linhas ou palavras, é algo mais profundo.


POEMAS de AUGUSTO B. MEDEIROS

BABY

Quantos frascos de perfume, Baby?
Quanto esforço
Para disfarçar o mau cheiro de sua dor
Nestes hard times
Não reclame!
Não lamente ou se decepcione!
Se você já sabe
Sobre sua cidade Natal
Ela já te renegou
Até sua grana já acabou
Então se vista com seu corpo
E com o charme que lhe restou
Junto com as artimanhas bandidas
Que você sempre ocultou
Mas você sabe que tem
Todos tem, Baby

BAGUNÇA OXIGÊNIO

Quando arrumei a gaveta
Eu queria cada coisa em seu lugar
E fui alinhando
E me alinhando
Desejo imaturo
Ação impossível
De sustentar
Qualquer ordem
Todo dia é panela, mesa e prato
É meia e sapato
É gente
É desconforto sem fim
Sou eu apertado
Em minha bagunça oxigênio...

DOMINGO

Só hoje para ser feliz
Este domingo
Em minhas mãos
Linda estátua a ser dedilhada
E por isso saber
Ele já rompeu a cortina como saudade
Ele já nasceu com a culpa
Por eu não saber fingir a velocidade
De cada instante
Domingo por um triz

ENCOSTO

Anteontem
Estavas de costas
Te vi
Aos meus olhos
E eu quis
O seu lugar
No mundo
O seu vazio
Existencial
O seu suor imundo
E respirar
Teu bafo nasal
O que me prende
Vai bem além do teu corpo
Quero mais que pegar!
Encosto!

PAREDE

Era uma vez....
Um prego torto
Em minha parede
E não era conto ou metáfora
Era fisicamente eu, a parede, e o prego
Ecoando
Em minha cabeça a marteladas
Eu era refém da repetição das pancadas
Mas era possível ser diferente
Não muito longe dali
Diziam existir almas livres, soltas, flutuantes
Desapegadas de expectativas, pregos, paredes e martelos
Mas não! Eu não era um deles!
Eu pertencia aos cantos laterais das paredes
Da espécie dos que se fixam
Tortos


fevereiro 27, 2015

.................................... ESCRITORES SOB o EFEITO de DROGAS







Ilustrações:

HENRI MICHAUX


Muitos escritores, dos mais importantes, usaram drogas, e alguns escreveram obras inteiras sob influência delas. Seriam as drogas alguma espécie de combustível criativo? Charles Baudelaire, em “Paraísos Artificiais”, argumenta que o artista não pode depender de um veneno – como ele mesmo define as drogas – para pensar; porém não é novidade que, quando sob o efeito de substâncias que alteram a percepção, é possível ver as coisas de formas diferentes, fator este que, consequentemente, amplia a visão do escritor. Apesar de, obviamente, não ser necessário o uso de substâncias químicas para escrever, inúmeros escritores parecem precisar usar tais substâncias. Seria consequência da ansiedade daqueles que questionam o mundo a seu redor, por isso sentem a necessidade de escrever, e assim também a necessidade de se entorpecer de alguma forma? Bem, cada um usa drogas por seus próprios motivos, e não é válido julgar que é exatamente por esta ou por outras razões, mas o certo é que há uma forte presença do uso das drogas entre os escritores.

As drogas desde há quase um século, pelo menos, tem sido um assunto de rejeição social. Nem sempre foi assim, no entanto. Desde os primórdios, a humanidade faz uso dessas substâncias, e somente no último século devido a aspectos legais a proibição veio a ser a tônica do discurso popular e científico. O abuso de drogas (incluindo o álcool) pode ser diretamente relacionado com o sucesso de alguns dos escritores mais admirados do mundo. Ernest Hemingway é amplamente conhecido como um alcoólatra desesperado e trágico; Aldous Huxley defendia o LSD (a banda The Doors leva o nome de seu livro “The Doors of Perception”); Edgar Allan Poe e Lewis Carroll foram alguns dos consumidores de ópio da literatura. Sir Arthur Conan Doyle foi um famoso viciado em cocaína, cujas condições de usuário ele transfere para seu personagem mais ilustre, o detetive Sherlock Holmes.
Sobre a cocaína, cita-se Sigmund Freud e seu entusiasmo com a substância, da qual foi um defensor, e provavelmente um usuário durante toda sua vida; ainda assim, um dos mais brilhantes sujeitos de todos os tempos. Jean-Paul Sartre é lembrado também pelo uso de drogas, entre as quais corydrane. Segundo a biógrafa Annie Cohen-Solal, ele acordava com uma xícara de café e um tablete de corydrane, depois quantos mais fossem necessários enquanto durasse a escrita.

A literatura mundial seria provavelmente bem mais pobre se os escritores fossem disciplinados. Pó branco, cogumelo mágico ou erva maldita, as drogas resultaram em liberação para muitos autores. E perdição. Os poetas românticos foram os primeiros a explorar o misterioso mundo do inconsciente. Os “Hinos à Noite” de Novalis nasceram sob o efeito do ópio. Também o escocês Robert Louis Stevenson inventou num delírio alucinótico a dupla personalidade de seu “O Médico e o Monstro”. E, na França, um grupo de poetas / escritores - Charles Baudelaire, Théophile Gautier, Victor Hugo, Charles Baudelaire, Honoré de Balzac, Alexandre Dumas etc. -  criou um “Clube do Haxixe”. A experimentação com alucinógenos, visando escrever melhor, levou muitos autores à dependência. Como prova o caso de Benjamin von Stuckrad-Barre, celebrado literato pop de nossos dias. Em entrevista a um jornal, em 2004, ele reconheceu como chegou à beira do abismo, através do consumo de cocaína, esperando recolher material para um romance borbulhante de vida. Até reconhecer – ainda a tempo: “Meu instrumento de trabalho, o cérebro, está em jogo”. Outros não acharam mais a saída para a dependência: Georg Trakl, Klaus Mann, Hans Fallada, Jack Kerouac, Irmgard Keun, Joseph Roth etc. Esses e muitos outros autores morreram em consequência do consumo excessivo de álcool ou narcóticos. Friedrich Glauser, morto pela morfina aos 42 anos de idade, não se iludia: “Todas as justificativas inventadas para justificar o vício são muito bonitas do ponto de vista literário ou poético. Concretamente, é uma desgraça. Pois a pessoa se arruína, a si e a sua vida.” Segue uma lista com alguns escritores que usaram drogas.

 
ALDOUS HUXLEY
(1894 - 1963. Godalming / Reino Unido)

O autor do famoso “Admirável Mundo Novo” considerava o LSD e outros alucinógenos como portais para percepções espirituais profundas, místicas. Ele escreveu “As Portas da Percepção”, na qual descreve experiências com o uso de drogas como o ácido lisérgico, a mescalina, entre outras. Huxley disse, em uma entrevista à Paris Review, em 1960, que, indiretamente, o uso de tais substâncias pode ajudar no processo criativo, mas não de forma que alguém possa dizer “agora vou tomar um ácido para escrever um poema brilhante”, isso ele não acreditava que funcionasse. Quando estava nos estágios finais de um câncer na garganta, escreveu um bilhete para a esposa pedindo-lhe para injetá-lo com 100 mg de LSD. Foi o que ela fez, e ele morreu pacificamente dentro de algumas horas.

CARLOS CASTANEDA
(1925 – 1998. Cajamarca / Peru)

Um dos autores mais lidos e mais famosos ao redor do mundo. No entanto, pouco se sabe sobre sua vida pessoal. O autor de “O Poder do Silêncio” sempre teve o cuidado de resguardar-se das pressões contraditórias e desencontradas da sociedade de consumo. Ele mantinha uma cuidadosa cortina de desinformação em torno da sua pessoa. Somente em língua portuguesa, os livros de Castaneda venderam até 1998 cerca de 600.000 exemplares. No mundo,  o total ficava entre dez e vinte milhões de volumes. Mas não recebeu apenas aplausos. Era conhecido como o “guru das drogas”, principalmente das plantas psicotrópicas. Numa entrevista, disse: “Paguei um alto preço, meu corpo ficou debilitado, e precisei de muitos meses para recuperar-me. Sofria de ansiedade e funcionava a um nível muito baixo. Se tivesse me comportado como um guerreiro, aceitando a responsabilidade, não teria sido necessário tomá-las.” O escritor usava peiote (cacto que causa alucinações).

CARSON MCCULLERS
(1917 – 1967. Columbus, Geórgia / EUA)

Ela não teve uma vida nada fácil. Um marido suicida, o alcoolismo e vinte anos com o lado esquerdo paralisado. Seus livros, a começar por “O Coração é Um Caçador Solitário”, que escreveu aos 23 anos, e foi inesperado sucesso de público e crítica, contam histórias de personagens vivendo à margem da sociedade. Alguns porque não conseguem se adaptar, outros porque têm algum tipo de deformidade física ou moral. Morreu de alcoolismo, enrolada num cobertor, em uma cadeira do convés de um navio.

CHARLES BAUDELAIRE
(1821 – 1867. Paris / França)

Famoso por sua poesia ligada ao vinho e às drogas, escreveu “Paraísos Artificiais”, na qual narra sobre as experiências geradas pelo uso do haxixe, ópio e vinho. Inclusive, fez parte de um grupo chamado “Clube do Haxixe”, que se reunia, obviamente, para usar haxixe. Baudelaire narra, de forma lírica, em sua obra, diversas formas como o haxixe, o ópio e o vinho, mas principalmente o haxixe, pode ampliar a percepção do artista, iluminando sua inteligência. Porém, no fim do livro, ele condena o uso de substâncias como auxílio à criatividade, dizendo: “Aquele que puder recorrer a um veneno para pensar, em breve não poderá mais pensar sem o veneno. É possível imaginar o terrível destino de um homem cuja imaginação paralisada não soubesse mais funcionar sem o recurso do haxixe ou do ópio?”

CHARLES BUKOWSKI
(1920 – 1994. Andemach / Alemanha)

O próprio já dizia: “Beber é algo emocional. Faz com que você saia da rotina do dia-a-dia, impede que tudo seja igual. Arranca você pra fora do seu corpo e de sua mente e o joga contra a parede. Eu tenho a impressão de que beber é uma forma de suicídio onde você é permitido voltar à vida e começar tudo de novo no dia seguinte. É como se matar e renascer. Acho que eu já vivi cerca de dez ou quinze mil vidas.” Em suas obras há muitas referências ao álcool, assim como à maconha, apesar do escritor ter dito ser contra o uso de drogas, ele gostava realmente era de beber, de beber muito, inclusive defende o uso do álcool abertamente, dizendo que se não fosse a bebida, provavelmente teria se matado.

DYLAN THOMAS
(1914 - 1953. Swansea / País de Gales)

Sua poesia era pontuada por temas como as tradições célticas, as convenções das Sagradas Escrituras, o surrealismo britânico. Com o êxito de vendas de seus livros, vêm também o alcoolismo e os constantes débitos financeiros. De seus livros jorram densas emoções e paixões intensas. Aos 35 anos de idade mudou-se para os Estados Unidos, tornando-se uma lenda graças a embriaguez habitual, dramaticidade e romantismo incurável. Ele se transforma em um mito para os poetas que integram o conhecido Movimento Beat. Sua influência se estendeu até mesmo à esfera musical, marcando o gênero pop. Robert Allen Zimmerman assumiu o pseudônimo Bob Dylan como uma forma de prestar homenagem ao poeta do País de Gales. Morreu aos 39 anos, vítima do álcool. Pouco antes de falecer, já com a saúde abalada, teria consumido 18 doses de uísque.

EDGAR ALLAN POE
(1809 – 1849. Boston, Massachusetts / EUA)

O escritor passou por diversos dilemas sérios no decorrer de sua vida, e entre eles (ou talvez em decorrer deles) estavam a dependência do álcool e do ópio. Poe inclusive mostra, em alguns de seus contos como “Berenice” e “Ligéia”, protagonistas dependentes do ópio. O escritor também usava láudano (uma combinação que mistura ópio, álcool, morfina e codeína), e foi isso que utilizou em sua tentativa de suicídio, em 15 de novembro de 1848, um ano antes de sua morte.

EDNA ST. VINCENT MILLAY
(1892 – 1950. Rockland, Maine / EUA) 

Poeta e dramaturga, vencedora do Premio Pulitzer de poesia, conhecida pelo seu estilo de vida boêmio, pouco convencional para a época, e pelos seus casos amorosos. Era bissexual e bebia sem limites.

ELIZABETH BARRETT BROWNING
(1806 – 1861. Coxhoe / Reino Unido)

Autora de “The Seraphim and Other Poems” (1838) e “Poems” (1844), entre outros livros, tinha uma doença misteriosa e o seu tratamento com láudano lhe deixou com a saúde ainda mais debilitada, levando-a à morte.

ERNEST HEMINGWAY
(1899 – 1961. Oak Park, Illinois / EUA)

Quando falam de Hemingway, muitos o associam facilmente à bebida. São diversas as frases do escritor relacionadas ao assunto, como: “Eu bebo para tornar as outras pessoas mais interessantes” ou “Para conviver com os tolos, um homem inteligente precisa beber”. Suas bebidas preferidas eram o absinto, rum, mojito e também uma versão especial de daiquiri, que hoje é chamada de “Special Hemingway”. O escritor, que bebia excessivamente em decorrência da depressão (ou vice-versa), suicidou-se em 1961.

F. SCOTT FITZGERALD
(1896 – 1940. Saint Paul, Minnesota / EUA)

Principal cronista da vida da alta sociedade dos Estados Unidos nos anos 1920, por ele definida como “Era do Jazz”. Pelo estilo de vida farrista, torna-se uma espécie de ídolo da chamada “Geração Perdida”, que proclama a falência do sonho norte-americano de uma sociedade harmônica. Em 1925 escreveu “O Grande Gatsby”, que hoje é considerado sua obra-prima, mas na época vendeu muito pouco. Também escreveu roteiros para filmes de Hollywood. Enfraquecido pelo álcool, tentou duas vezes o suicídio, morrendo jovem.

GÉRARD de NERVAL
(1808 – 1865. Paris / França)

Poeta romântico que fez parte do círculo boêmio de Charles Baudelaire. O grupo ficou famoso pela criação artística e por realizar experiências com drogas. A sua obra poética é marcada por atmosfera simbolista, que em parte reflete seu fascínio pelos sonhos (que considerava como viagens para “outra vida”). Apesar do grande talento e sensibilidade, era mentalmente instável e foi internado em sanatório durante episódios psicóticos. Suicidou-se após uma longa luta contra a esquizofrenia.

JOHANN WOLFGANG von GOETHE
(1749 – 1832. Frankfurt am Main / Alemanha)

Romancista, dramaturgo, poeta e filósofo, fez parte dos movimentos literários romantismo e expressionismo. Sua grande obra foi “Fausto”, escrito em 1806. Baseada numa lenda, relata a vida de Dr. Fausto, que vende a alma para o diabo em troca de prazeres, riqueza e poderes ilimitados. Goethe utilizava ópio diariamente.

HENRI MICHAUX
(1899 - 1984. Namur / Bélgica)

Escritor, poeta e pintor, explorou o eu interior e o sofrimento humano através de sonhos, fantasias e experiências com drogas. Usava mescalina, uma droga que altera a percepção do tempo e cria alucinações visuais. Nos anos 1960 fez um filme sobre o haxixe e a mescalina.

HONORÉ de BALZAC
(1799 – 1855. Tours / França)

No século XIX, o haxixe virou moda entre intelectuais franceses. Eles se reuniam para fumar essa forma mais concentrada da maconha e pesquisar os efeitos da droga. Balzac foi um deles. Sua obra máxima, “A Comédia Humana”, é composta de 89 romances, novelas e histórias curtas.

HUNTER S. THOMPSON
(1937 – 2005. Louisville, Kentucky / EUA)

Para além do jornalista e escritor, ele ficou conhecido pelo consumo intensivo de bebidas alcoólicas, LSD, mescalina e cocaína, entre outras substâncias. Também era conhecido seu amor às armas de fogo e o ódio a Richard Nixon. Sofrendo graves problemas de saúde, cometeu suicídio aos 67 anos. Seu forte apreço pelo álcool lhe rendeu a fama de ter sido o fundador do jornalismo Gonzo, expressão que significa algo como “o último homem a permanecer em pé após muita bebida”, e como se isso não fosse o suficiente para colocá-lo com louvor nesta lista, ele até chegou, certa vez, a dizer: “Eu odeio recomendar drogas, álcool, violência, ou insanidade para qualquer um, mas isso tudo sempre funcionou comigo.”  Seu mais famoso livro, “Medo e Delírio em Las Vegas”, foi o resultado de uma matéria que ele ficara de fazer para uma revista, porém gastou o dinheiro em drogas e bebidas, e acabou escrevendo, em vez da matéria, um relato sobre seu entorpecimento.

JACK KEROUAC
(1922 – 1969. Lowell, Massachusetts / EUA)

Um dos maiores escritores da famosa Geração Beat, escreveu muito vezes sob efeito de drogas. Seu amigo, o poeta Allen Ginsberg, comentou que o próprio Kerouac disse que sentia que conseguia escrever com mais facilidade dessa forma. Muitos de seus romances, entre eles, o aclamado “Pé na Estrada / On the Road”, foram escritos sob a influência de benzedrina, entre outras drogas. Também bebia muito, o que pode ser considerado um suicídio lento, uma vez que o escritor chegou a declarar que, por ser católico, não podia cometer suicídio, mas podia beber até a morte. E foi o que ele realmente fez: sofreu uma hemorragia de varizes no esôfago, o que o levou a fazer 26 transfusões de sangue, e foi em virtude do alcoolismo que morreu.

JAMES ELLROY
(1948. Los Angeles, Califórnia / EUA)

Ícone da literatura policial. Teve a mãe assassinada, num crime sem solução. Praticou pequenos furtos e delitos, vivendo em meio a problemas policiais. Utilizava drogas como o benzedrex, e álcool, muito álcool.

JEAN COCTEAU
(1889 – 1963. Maisons-Laffitte / França)

Poeta, romancista, cineasta, designer, dramaturgo e diretor teatral, abandonou-se ao vício do ópio. O consumo da droga e os seus esforços para deixá-lo afetaram profundamente o seu estilo literário. O seu livro mais famoso, “Os Meninos Diabólicos”, foi escrito numa semana durante uma dolorosa tentativa de abandonar o ópio. Em “Ópio, Diário de Uma Desintoxicação”, narra a experiência da sua recuperação do vício. O relato, que inclui vívidas ilustrações a tinta, alterna entre as suas experiências diárias de ressaca da droga e comentários sobre a sociedade e os acontecimentos do mundo.

JEAN-PAUL SARTRE
(1905 – 1980. Paris / França)

O escritor e filósofo era viciado em uma substancia que alucinou muitos hippies nos anos 1960: a mescalina. Começou a consumi-la em 1935 e, a partir desse momento, libertou-se dos famosos “bloqueios de escritor”. A mescalina teve papel fundamental enquanto escrevia seu livro mais conhecido, “A Náusea”. Como efeitos secundários, era acossado pela alucinação de lagostas que o perseguiam por todos os lados, referindo-se a elas como “minhas pequenas”. Era também viciado em anfetaminas.

JIM CARROLL
(1949 – 2009. Nova Iorque / EUA)

Autor de “Diário de Um Adolescente” e músico punk rock, chegou a se prostituir para manter o vício em heroína.

JOHN KEATS
(1795 – 1821. Londres / Reino Unido)

Viciado em ópio, sua poesia recria devaneios e visões experimentadas durante transes do narcótico. Faleceu muito cedo, aos 25 anos, deixando uma vasta coleção de obras poéticas.

KEN KESEY
(1935 – 2001. La Junta, Colorado / EUA)


Autor do famoso “Um Estranho no Ninho”, fazia usos de LSD, mescalina, cocaína, peiote, entre outras drogas.

LEWIS CARROLL
(1832 – 1898. Daresbury / Reino Unido)


Todo mundo conhece “Alice no País das Maravilhas” (1865), que virou filme, peça de teatro e o que mais se possa imaginar. Seu autor, um professor de matemática da Universidade de Oxford, usava drogas alucinógenas e isso influenciou muito o livro, que tem uma narrativa surrealista onde tudo pode acontecer. Uma obra muito divertida, fantástica, e ao mesmo tempo maluca.

LORD BYRON
(1788 – 1824. Londres / Reino Unido)
 
Célebre e belo poeta romântico envolvido em escândalos. Tinha título de nobreza, vida dissoluta, rebeldia, amores bissexuais (entre esses, uma ligação incestuosa) e usava ópio. Porém, toda essa vida conturbada é deixada de lado quando nos deparamos com seus maravilhosos poemas e por sua incontestável qualidade.

PAULO COELHO
(1947. Rio de Janeiro, RJ / Brasil)

Nem sempre foi um “mago de luz”, e durante o período que se dedicou ao satanismo, numa época dark, o popular autor fez uso de vários tipos de drogas, entre elas cocaína, LSD e maconha.

PHILIP K. DICK
(1928 – 1982. Chicago, Illinois / EUA)

Autor de ficção científica, muito produtivo nos anos 1960, usava alucinógenos, entre eles semoxydrine.

ROBERT LOUIS STEVENSON
(1850 – 1894. Edimburgo, Escócia / Reino Unido)

Escreveu “O Médico e o Monstro” em seis dias e seis noites num frenesi de cocaína.

SAMUEL COLERIDGE
(1772 - 1834. Ottery St. Mary / Reino Unido)

Láudano e ópio eram as drogas preferidas do autor de “A Balada do Velho Marinheiro”, um dos poemas épicos mais fortemente influenciado pelo uso de drogas. Ele pertencia ao mesmo círculo social de Quincey, que chegou a escrever um ensaio sobre Coleridge e seu uso excessivo de ópio.

STEPHEN KING
(1947. Portland, Maine / EUA)

O mais famoso escritor de terror contemporâneo diz não se lembrar muito bem de como escreveu alguns de seus livros, pois na época  - de 1979 a 1987 - andava mal por conta do uso de cocaína e álcool. Seu alcoolismo é até refletido em sua mais célebre obra, “O Iluminado”, na qual Jack Torrance mostra ter problemas com bebidas. Com a agravação do vício, sua família e amigos interviram e desde então ele está sóbrio.

TENNESSEE WILLIAMS
(1911 – 1983. Columbus, Mississipi / EUA)

Vencedor do prêmio Pulitzer, suas obras tornaram-se clássicos, referências essenciais para atores e amantes do teatro no mundo inteiro. Era alcoólatra e tinha dependência química de anfetaminas e barbitúricos. Foi encontrado morto num quarto do Hotel Elysée, em Nova York.

THOMAS de QUINCEY
(1785 – 1859. Manchester / Reino Unido)

Sua autobiografia chama-se “Confissões de Um Comedor de Ópio”. Também usava láudano. Quando estava sem se entorpecer, sua produção literária decaia, o que demonstra a importância das drogas em sua vida. Baudelaire foi fortemente influenciado por ele, e em “Paraísos Artificias” há diversas citações da biografia deste.

TRUMAN CAPOTE
(1924 – 1984. Nova Orleans, Luisiana / EUA)

Morreu por causa dos vícios (álcool, cocaína e barbitúricos). Sua vida foi polêmica. Pai do romance de “não ficção”, criou um novo gênero literário. Algumas de seus livros foram levados para o cinema. Possuía uma língua afiada e provocativa, cultivando a imagem de escritor maldito. Ele inventou até um “Cocktail Capote”, uma mistura de álcool e barbitúricos. O consumo de álcool o levou a ter muitos problemas pessoais, além de outros com a polícia, que o deteve várias vezes por dirigir bêbado.

W. H. AUDEN
(1907 – 1973. York / Reino Unido)

Sempre referido como um dos grandes nomes da poesia do século XX, o poeta era alcoólatra e viciado em benzedrina (atua como estimulante no sistema nervoso central).

WILLIAM FAULKNER
(1897 – 1962. New Albany, Mississipi / EUA)

Em 1954, esteve no Brasil, quase sempre bêbado. Certo dia, segundo uma das versões, teria perguntado: “O que estou fazendo em Chicago?” A história de sua visita ao Brasil, quatro anos depois de ter recebido o Nobel de Literatura, é contada, de modo romanceado, no livro “Dias de Faulkner”, de Antônio Dutra. “As ferramentas de que preciso para meu trabalho são papel, tabaco, comida e uísque”, costumava dizer. Viveu episódios terríveis de alcoolismo e foi submetido à terapia do choque elétrico para se curar da depressão. Morreu de um ataque cardíaco induzido por doses exageradas de bourbon.

WILLIAM S. BURROUGHS
(1914 – 1997. San Luís, Missouri / EUA)


Para começo de conversa esse cara escreveu um livro chamado “Junkie”, entre outros clássicos de temática semelhante sob o efeito de drogas. Viciado em heroína e eukodol, era um escravo dessas substâncias, chegando a escrever com as agulhas enfiadas no braço. No entanto, estava bêbado, e não chapado, quando atirou em sua esposa, matando-a, enquanto brincava de “Guilherme Tell” com uma arma carregada.