setembro 30, 2026

.................................... Uma VIAGEM SENTIMENTAL pela SUÍÇA

 

 

EM CONSTRUÇÃO
 
A vida é um livro 
e quem não viaja
lê apenas a primeira página.
SANTO AGOSTINHO
 
Por muito que envelheça, 
que fique fatigado, 
por vezes sem esperança, 
dificilmente desprezarei 
o encanto de viajar.
ANTONIO NAHUD
 
 
Fotografias: ANTONIO NAHUD
e MARCELO MENDONÇA
 
 

Este é parte de um relato da viagem feito em Genebra. Tomo notas em um velho caderno, fotografando e transbordando de gratidão sagrada. Enquanto escrevo, lembro narrativas de D. H. Lawrence e Laurence Sterne. Às margens do Lago Léman, deixo-me levar sem destino pelo meu irmão Marcelo, um arquiteto que mora na Suíça há cerca de 15 anos. Nos meus relatos escritos, misturo diário de viagem, ensaio filosófico, introspecção, descrições sensoriais, reflexões filosóficas sobre a paisagem marcada por imponentes montanhas, vales profundos, lagos de águas cristalinas e construções medievais. É a segunda visita que faço à Suíça, talvez o mais formoso dos inúmeros países que conheci. Da primeira vez, em 2017, eu não estava bem, fragilizado por profunda depressão resultante do suicídio inesperado de um jovem companheiro. Era como estar num sonho ou num filme romântico, embora a sombra da melancolia persistisse. Desta vez, está sendo diferente, aconteceu repentinamente. Aproximando-me dos 60 anos, não esperava voltar à Suíça no crepúsculo da maturidade.
 
Quando surgiu o generoso convite, foi tudo muito rápido. Renovação do passaporte, a procura de um hotel de animais decente para hospedar Puck, um segurança para cuidar da casa e adiantamento de inúmeros textos profissionais para acumular os quinze dias de folga. O projeto será regressar poucos dias antes das eleições para votar em Flávio 22 e em governador, senadores e deputados conservadores. Deu tudo certo. Depois de uma escala em Lisboa, fui recebido por meu irmão no aeroporto de Genebra. Hospedado em seu charmoso apartamento, decorado com obras de arte e plantas, senti-me em casa. Perguntou-me o que eu queria fazer nestas férias, respondi não ter um roteiro, somente sabia que evitaria a dieta, comendo o que me agradasse. Assim está acontecendo. No primeiro dia, almocei no acolhedor restaurante Império da China um porco ao forno com abobrinha e queijo gratinado. Uma maravilha. Na cobertura do escritor Paulo Coelho e da artista visual Christina Oiticica, foi a vez de um fígado de pato com maçã caramelizada e geleia de figos.
 
Uma cidade pequena – são menos de 200 mil habitantes (40% da população é estrangeira pois é um lugar da burocracia internacional, de diplomatas e organizações mundiais importantes) – e um detalhe importante a se ter em conta, Genebra é muito cara. Às margens do cristalino Lago Léman e emoldurada pelas imponentes silhuetas dos Alpes e das montanhas do Jura, é mais do que o centro diplomático e financeiro do mundo. A chamada “Capital da Paz” sabe combinar a sofisticação e o luxo de suas butiques de alta relojoaria com a simplicidade dos passeios por ruelas medievais, tornando-se um dos destinos turísticos mais incríveis e procurados. Visitar Genebra envolve uma jornada por séculos de história, desde a herança da Reforma Protestante na Cidade Velha até as inovações científicas de ponta no CERN. Há várias formas de contemplar a natureza e as belas paisagens, museus interessantes e atrações que recheiam a programação. Uma cidade charmosa e romântica, localizada na parte francesa da Suíça, tendo como língua oficial o francês.
 
É mais do que a “Capital da Paz” – por ser a sede europeia da ONU e quartel general da Cruz Vermelha. Tem uma bossa que mistura elegância, tranquilidade e romance. Cafés charmosos, parques, lojas atraentes e um excelente transporte público. Sem grandes badalações até altas horas, de tradição diurna, com inúmeras mesas ao ar livre convidando para um café, um vinho, um suspiro diante do panorama. Detalhes que contribuem para que seja reconhecida mundialmente pela qualidade de vida que oferece aos habitantes. Afinal, é frequentemente indicada como uma das 10 melhores cidades do mundo para se viver. Além disso, é muito fácil de se localizar e percorrer seus principais atrativos a pé. É chamada de a “menor metrópole do mundo”. Para quem gosta de cidade pequena (como eu) é uma maravilha! Assim como grande parte da Suíça, ela é famosa por seus moradores ilustres que vieram aproveitar a tranquilidade da região. Muita gente famosa viveu em Genebra, como Jorge Luís Borges, Alain Delon, Sophia Loren, Paulo Coelho, Petula Clark, Nana Mouskouri.
 
Cidade dos hotéis cinco estrelas notáveis (como o Beau Rivage) e das marcas mais caras e desejadas de relógios do mundo (como Patek Philippe). Colony é o bairro dos ricos e das mansões, conhecido como a “Beverly Hills” de Genebra. Artistas internacionais e muita gente importante teve ou tem casa por lá. No século VI a.C., o povoado celta habitava onde atualmente está situada Genebra. Mais tarde, a região foi conquistada por romanos. Contudo, o que mais se vê trata do século XVI, no período protestante de João Calvino. Mais tarde, atraiu pensadores como Voltaire e Jean-Jacques-Rousseau. Outro fato de importância histórica aconteceu em 1864: o encontro diplomático, que se oficializou como Convenção de Genebra, determinando regras para proteger os feridos das forças armadas (origem da Cruz Vermelha – sua aplicação ocorreu durante a Primeira Guerra Mundial). A partir daí, nasceram as bases dos Direitos Humanos Internacionais. 
 
MARAVILHAS de GENEBRA
POST TENEBRAS LUX
(Depois das trevas, a luz)
frase no Muro dos Reformadores

 
01
LAGO LÉMAN e RIO RÓDANO
O Ródano é o grande rio que drena o Lago Léman, atravessando o centro de Genebra com águas de tom azul-turquesa e seguindo em direção à França. O maior lago da Europa Ocidental, bem na divisa da Suíça com a França, o Léman é dividido em duas partes. O chamado Petit Lac está no coração de Genebra, bem perto de onde deságua o Rio Ródano. Já o Grand Lac é a parte mais larga e profunda do Léman e banha cidades como Lausanne, Vevey e Montreux (Suíça) e Yvoire e Évian (França). O Petit Lac é o coração, a praia, o lazer dos genebrinos.  Não é por menos que o principal símbolo da cidade é o “Jet d’eau” – um jato d’água de 140 metros de altura cravado no centro do lago. No verão, o Bains de Pâquis (no lago) se transforma em praia.
 
02
CIDADE VELHA e CATEDRAL SAINT PIERRE
A Vieille-Ville, na parte alta de Genebra, é onde nasceu a cidade. É um belo local com prédios históricos, cafés, restaurantes, museus, entre outras atrações importantes. A Catedral Saint Pierre foi erguida entre 1150 e 1250. Por volta de 1535, durante o período da Reforma Protestante, se tornou um lugar de culto protestante. Nessa época, retiraram as imagens sacras do local e até hoje permanece uma igreja sem a presença de estátuas ou santos. Ela não é apenas o coração espiritual de Genebra, mas também um de seus principais mirantes. Do alto das duas torres do templo, é possível ter uma vista privilegiada da cidade, do Lago Léman e até do Mont Blanc. São 157 degraus em escadas de caracol estreitas, típicas das construções medievais.
 
03
MURO dos REFORMADORES
O Parc de Bastions é uma das áreas verdes centrais mais emblemáticas. Nele está o Muro dos Reformadores, um monumento de cerca de 100 metros de comprimento, construído em 1909 para celebrar o 400º aniversário de nascimento de João Calvino. No centro do muro, estão figuras gigantes dos quatro líderes da Reforma Protestante: Guilherme Farel (1489 – 1565), João Calvino (1509 – 1564), Teodoro de Beza (1513 – 1605) e João Knox (1513 – 1572). E está em destaque o lema POST TENEBRAS LUX (Depois das trevas, a luz), que resume a filosofia da Reforma, de que a difusão da Bíblia e do conhecimento trouxe luz à humanidade.
 
04
JARDIM BOTÂNICO
Pertinho do Lago Léman, ele abriga mais de 12 mil espécies de plantas de todo o mundo e um herbário com quase 6 milhões de espécimes. No local, um conjunto de estufas (tropicais e temperadas) que reúnem plantas exóticas de várias partes do mundo, jardins temáticos, jardins temáticos, biblioteca e centro científico.
 
05
ESPAÇO JEAN-JACQUES ROUSSEAU 
Conhecido como Maison Rousseau et Littérature (MRL), localiza-se na Grand-Rue 40, na Cidade Velha — na casa onde o filósofo nasceu em 28 de junho de 1712. Funciona como um centro cultural e museu que mistura textos, filmes, fotografias, imagens e peças musicais para explorar a vida e o pensamento do famoso filósofo.
 
06
FUNDAÇÃO PAULO COELHO e CHRISTINA OITICICA
Instalada em um antigo edifício bancário reformado e ampliado pelo arquiteto Marcelo Mendonça, conta com salas de exposição, projeção e espaços dedicados ao acervo do casal. Reúne cerca de 3 mil livros em 82 idiomas, manuscritos originais, prêmios internacionais, o fardão da Academia Brasileira de Letras (ABL) e itens históricos. Além da vertente cultural e de preservação de memória, atua em iniciativas filantrópicas, apoiando crianças, hospitais, instituições no Brasil e na Suíça, e parceiros como os Médicos Sem Fronteiras.
 
07
MUSEU de ARTE e HISTÓRIA
Inaugurado em 1910, tem entre seu acervo obras de grandes mestres europeus como Rembrandt, Cézanne, Monet, Renoir, Rodin e o famoso retábulo de Konrad Witz (1444), considerado a primeira representação exata de uma paisagem na pintura ocidental. Bem como artefatos das civilizações romanas, egípcias e mesopotâmicas. Além de coleções históricas de relojoaria, ourivesaria, armas, tapeçarias e mobiliário.
 
08
BAIRRO das NAÇÕES
Coração diplomático e humanitário do mundo, tem zona inteira dedicada às sedes de importantes organizações mundiais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), Organização Mundial de Saúde (OMS), Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICR).
 
09

MAISON TAVEL
Reconstruída após um incêndio em 1334 pela nobre família Tavel, a fachada conta com cabeças góticas esculpidas no século XIV. Localizada na Rue du Puits-Saint-Pierre 6, 1204, e é a residência privada mais antiga preservada em Genebra, funcionando como um museu dedicado à história urbana e ao cotidiano da cidade. O edifício possui 6 andares que mostram a evolução da arquitetura e da vida local desde a Idade Média até o século XIX. Inclui objetos, móveis antigos, pinturas, mapas e uma guilhotina do final do século XVIII.
 
10
RELÓGIO das FLORES
Um dos cartões postais de Genebra. Simboliza a tradicional indústria relojoeira da cidade, sede de marcas de luxo como Patek Philippe e Rolex. Os ponteiros marcam a hora com precisão e estão cravados em um gramado com 6 mil plantas e flores. O design e as cores mudam quatro vezes por ano, de acordo com as estações.
 
11
MUSEU PATEK PHILIPPE
Desde o século XVI, a Suíça é famosa por sua indústria de relógios de alto padrão. Para os amantes de relógios, esse museu, na Rue des Vieux-Grenadiers, 7, é um tesouro. Conta a história dos relógios no mundo, com relíquias da realeza europeia. E ainda a trajetória da marca mais sofisticada no mundo, a Patek Philippe.
 
12
CASA de JORGE LUÍS BORGES
Na Rue Ferdinand-Hodler, 7 (antigamente chamada Malagnou), situa-se a casa onde o genial escritor e poeta argentino Borges (1899 - 1986) Buenos Aires / Argentina) morou com a família na juventude (entre 1914 e 1918). Atualmente, o edifício abriga escritórios de advocacia, um consultório médico e um instituto educacional.
 

setembro 07, 2026

........................................ A MORTE NÃO MANDA AVISO

 


 

Morrer. Mas não sem antes ter vivido.
Mas não sem antes ter amado.
JEAN-YVES LELOUP
(1950. Angers / França)
 
O que eu fiz é muito pouco
Mas é meu e vai comigo
Deixo muito inimigo
Porque sempre andei direito
Agasalhei neste peito muita cabeça chorando
Morena minha até quando você de mim vai lembrar?
PAULO VANZOLINI
(1924 – 2013. São Paulo / SP)
“Quando Eu For, Eu Vou sem Pena” (1977)
 
para Cecília Veloso e Salomão,
que partiram e deixaram saudades
 
Ilustrações:
MICHAEL MAGIN
(1978. Espira / Alemanha)
“Fita Amarela” (Noel Rosa, 1932)
interpretação de Elizeth Cardoso e Silvio Caldas
 
 
Não ignoro a morte, até escrevi contos e crônicas sobre ela. Para muitos não é confortável admitir a finitude. A vida contemporânea chegou ao paroxismo em termos de ocultá-la. São tantas as requisições, os compromissos, as obrigações, tudo forçando a um ritmo alucinante em que a maioria das pessoas caminha. Não há tempo de pensar no encontro definitivo destinado a todos nós. Eu não tenho medo de morrer e trato o assunto fatal com naturalidade. A morte é imprevisível e inevitável. Não sabemos quando vem, mas que é certa para todo mundo, ela é. Só não avisa a hora do adeus ao planeta Terra. Amo a vida, agradeço ao Senhor por ter chegado a essa idade, mas um dia terei que ir embora. Os meus sonhos noturnos, que considero uma espécie de premonição do outro lado da vida, são satisfatórios. Encontro desconhecidos e há um clima de camaradagem. Estou bem naquele lugar. Não há animais. Na paisagem, bosques, rios, casas medievais, montanhas verdes. São devaneios recorrentes há décadas, acordo em nome da paz, sentindo-me abençoado.

Acredito que morrer não é sinistro. Deve ser uma réplica dessa utopia bonita, sem despertar. Nesse além misterioso, pouco importa o que aconteceu de bom ou ruim na vida terrestre, o panorama induz a atitudes transcendentais. Contextualizo essa crença, como em um filme denso de Carl Th. Dreyer ou Andrei Tarkovski. Portanto, morrer não me resulta em um tormento assustador, afinal não roubei aposentados, não coloquei na masmorra idosas com a “Bíblia” e não recebi propina de 131 milhões do Banco Master. Vez ou outra, a “indesejável” nos convida a pensar sobre ela, mesmo quando não se está preparado para deixar esta vida venturosa. É evidente que há planos incompletos. O remorso de não ter se dedicado com afinco aos seres queridos. Projetos que podem nunca se concretizar. Assim como intenções que serão descartadas de forma abrupta. No meu caso, quando eu morrer, ficarei agradecido por ramos de mirra, flores azuladas ou amarelas, velas, orações, leitura de poemas clássicos, jazz no velório, lembranças emocionadas, o beijo derradeiro.

Desde sempre, compreendo a impermanência do mundo físico em que habito. Tenho consciência, sem vitimismo, que tudo o que enxergo vai desaparecer a qualquer momento. As pessoas que amo ou aquelas que me traíram sumirão para todo o sempre. Nessa verdade, aproveito os últimos anos afagando a escrita, a arte, a família, viagens, gratidão, justiça e fé em Deus. Procuro não os desperdiçar sofrendo com artimanhas que não tenho controle. A meta é aperfeiçoar o caráter a cada dia. O resto é uma completa perda de tempo. Houve uma época em que, angustiado, perguntava-me o que aconteceria com as lembranças, o relicário pessoal, assim que morresse. Qual o destino dos livros, papéis, fotografias, coleção de filmes e cartas de amor? E o harmonioso jardim e o cãozinho Puck? E os blogs, textos, crônicas, ensaios e contos? Já não sofro por isso. Entrego a Deus. Não é difícil imaginar o que os herdeiros fazem com o acervo material de uma vida que não foi a deles. É evidente que se perdem documentos, relatos, confidências e narrativas para nunca mais.


Essa é a vida. Essa é a maneira que escolhemos para passar as poucas décadas que essa trajetória frágil e efêmera nos oferece. Só não posso dizer como Paulo Vanzolini em sua canção,
“quando eu for eu vou sem pena”! Ao contrário, irei com enorme pena de deixar este mundo, que não é o paraíso terrestre, todavia é ele que me faz apreciar a chuva, as estrelas, as matas, os bichos, e amar. A música do Vanzolini diz que “pena vai ter quem ficar”. Será? Talvez um ou outro sinta falta, poucos, ninguém é insubstituível. Já vivi o suficiente para constatar que a memória é volúvel. O Brasil é a expressão mais consumada do ditado “O Rei Morreu! Viva o Rei!”. Além disso, não há como mudar aquilo que já passou. O tempo não tem ponteiros para voltar atrás. Não se ensaia, na existência. Vive-se ao vivo, sem edição. Seja como for, quem tiver paciência de ler esta crônica até a última linha, saiba que quando eu partir, irei com firmes convicções! Não levarei saudade do ladrão de Nove Dedos e sua quadrilha, o Partido das Trevas! Nem da Globolixo e outros conspiradores canais de TV!

Não levarei saudade dos artistas e influenciadores lacradores. Não levarei saudade do Sinistro Tribunal Federal e suas hienas togadas anti-democráticas. Quando eu morrer, não levarei saudade do jornalismo apodrecido, do cinema brasileiro comunista, do futebol nacional decadente, do carnaval seboso, das canções vazias, dos discursos demagogos dos políticos, de vídeos dissimulados em busca de likes, do narcisismo das redes sociais, das fake news. Quando eu morrer, não levarei saudade de desertos, do sertão, do calor excessivo, de lixo nas ruas, das enchentes brutais, da violência, do mal gosto, da ignorância, da fofoca. Não levarei saudade da ridícula Xuxa, dos comediantes toscos, das múmias da Academia Brasileira de Letras, da inflação, dos drogados, dos bêbados chatos, dos ateus, dos suicidas, dos abortistas, dos pedófilos e estupradores. Não levarei saudade da ditadura cubana ou do patrimônio histórico em ruínas. Não levarei saudade de tatuagens, rapazes musculosos, afeminados, sovacos femininos cabeludos, cabelos coloridos, peitos e lábios sintéticos.

 Não terei saudade das mulheres que usam silicone e exibem o corpo como carne em açougue, dos remédios que preciso tomar e dos doces que não posso comer. Não levarei saudade dos que fedem, das filas intermináveis, da burocracia, da corrupção. Não levarei saudade dos aeroportos, de lugares altos ou apertados, das multidões, dos rios poluídos, dos desmatamentos, dos cães e gatos abandonados, dos meninos sem pais, dos moradores de rua. Não terei saudade do fanatismo religioso, dos pais de santo farsantes, de gente correndo, de gritos, de turistas, selfies, vulgaridade, palavrões. Não levarei saudade de histeria, pieguice, barulho, celular usado publicamente, apartamentos kit-net, idosos vestidos como adolescentes, túnel, cavernas, elevadores, arte moderna, telenovelas ou performances wokes. Enfim, não levarei saudade dos meus fracassos, dívidas e desilusões. Não terei saudade do funk ou do rap, do surrealismo ou do concretismo, de sujeitas sem classe como Esbanja da Silva ou Anitta, de homem travestido de mulher ou mulher travestida de homem.

Finalmente, não terei saudade de uma sociedade insensível e nada romântica nem de um mundo cada vez mais abominável e sem nuances. Não levarei saudade de jornalistas, padres e professores marxistas, da educação chinfrim de Paulo Freire ou de escritores patéticos vendidos como gênios literários. Não levarei saudade de artistas sem coração como Caetano Veloso, Wagner Moura e outros vigaristas mercenários de plantão. Não levarei saudade dos maus hábitos, do movimento LGBT, de mentiras como aquecimento global e pandemias. Não levarei saudade da pobreza e dos conflitos, da misoginia, de mulheres que traem ou matam seus companheiros, do estresse no trabalho ou em casa, e até mesmo atitudes como arrogância, preguiça ou reclamação demais. Não levarei saudades das perdas, do sofrimento, da incompreensão, da raiva, da injustiça, das acusações injustas, do medo, do desamor, das carências, das feridas e degradação institucional. Não levarei saudade da máquina corrupta do Estado, da desigualdade estrutural, das alianças oligárquicas, das urnas eletrônicas fraudades e do sistema político imoral.

Não sentirei saudade das facções, dos pesadelos, da timidez juvenil, da infidelidade, da deslealdade, do ódio, das doenças, do consumo de alimentos processados, do sedentarismo, do uso excessivo de equipamentos eletrônicos, da amargura, dos invejosos, dos falsos, dos amores que eu não soube amar, de tempestades em copo d’água, de trabalhos enfadonhos para sobreviver, da temporada em que morei em São Paulo, do filho que permiti ser abortado. Quando eu morrer, não levarei saudade do Big Brother, do Faustão, dos telejornais militantes ou dos Trapalhões. Não levarei nenhuma saudade dos governadores petistas e tucanos. Não levarei saudade dos sambas-enredo do Carnaval, da medíocre panelinha literária, da arquitetura desumana, dos buracos das ruas, do Imposto de Renda e demais impostos, e muito menos levarei saudade dos ruins cantores de axé. Não levarei saudade das dívidas externas do Brasil. Não levarei saudade dos milagres fajutos dos pastores evangélicos, das previsões ilusórias dos videntes e nem de um mundo cada vez mais sórdido.

Pensar publicamente não é uma atividade feita para agradar. Acredito na verdade, escrevo intensamente. A morte é um tema espinhoso. Já ouvi muitas opiniões contraditórias sobre ela. A morte atormenta a consciência de quem se sente ameaçado. Poucos falam dela. É um assunto tabu. Preferem evitar, fingir que não existe e que não está em todo lugar. A ideia de que a existência pertence ao Senhor me parece relevante. Como tenho fé em Deus, entendo que meu destino está em suas mãos. Mas, à medida que envelheço, preparo-me para deixar esse mundo. A morte pode chegar quando menos se espera e para quem menos se espera. Somos confrontados com a realidade implacável de que alguém, que ontem estava aqui, talvez não esteja amanhã. Por se tratar de uma realidade muito dura de ser experimentada, contudo, resiste-se a ela, evidenciando que, emocionalmente, poucos estão preparados para a partida. Certo é que ao perder a ilusão de imortalidade, passamos a ser confrontados com a finitude e o valor da existência.

Evidente que a morte é uma experiência abrupta e dolorosa para quem fica. Entretanto, como o nascimento, é um acontecimento natural, está presente independente da classe social, cor, idade, cultura. Todos os homens se igualam diante do fim. A morte é vista como um episódio que gera intensa dor e tristeza diante da perda ou da separação do outro. Desde a antiguidade, inconformados, utilizam-se rituais para a simbolização do destino final. Os cultos, vestuário preto, luto, velório, novena, coroa de flores, discurso de despedida, acompanhamento final, crematório, enterro, a última despedida no cemitério. Rituais melancólicos em diferentes povos e épocas, ou seja, o carinho funéreo que se incorporou em nossa cultura. Em função, principalmente, da violência urbana, das guerras e do desenvolvimento das telecomunicações, a morte no século XXI praticamente banalizou-se, aproximou-se das pessoas. Ainda assim, constitui um evento pavoroso para muitos, causador de angústia, insegurança, medo, pânico e negação.

Ao longo da vida, estive algumas vezes perto, muito perto, da morte. Na infância, sem saber nadar, mergulhei em um poço de um rio desconhecendo sua profundidade. Afundei suavemente, sem retorno, observando plantas aquáticas e rochas tomadas pelo limbo, deixando-me levar. Subitamente, meu pai arrancou-me das águas pelos cabelos. Morando na capital paulista, na madrugada, à espera de um taxi depois de uma festa de aniversário do ator Marco Nanini, ao acender um cigarro, dois jovens elegantes em um carro de luxo pediram fogo. Ao aproximar o isqueiro, um deles apontou-me um revólver e ordenou que eu entrasse no automóvel. Circulamos pela metrópole até o amanhecer. Eles cheiravam cocaína e me humilhavam com ofensas verbais. Em um terreno baldio, próximo ao Galeão, mandaram que eu descesse e tirasse a roupa. Assim o fiz. “Vá em frente sem olhar para trás”, disse o motorista. Seria baleado ou atropelado. Então, surgiram do nada dois senhores em nossa direção. Os pulhas partiram e esses operários do aeroporto, quiçá anjos, socorreram-me.
 

Ainda em São Paulo, no meu apartamento na esquina da Avenida Paulista com a Consolação, e
m um final de semana recebi a visita de uma conhecida que eu tinha pouca intimidade, filha de uma poderosa família. Ela trouxe vinhos, queijos e cassetes musicais. Bebemos, conversamos, dançamos. Uma garota inteligente e estranha. Por fim, anunciou que tinha uma
“novidade”. Tirou da bolsa gordos papelotes de pó. Eu argumentei que não me interessava, mas que ficasse à vontade. Ela insistiu, eu resisti. Ansiosa, fez diversas fileiras de cocaína na mesa de vidro, aspirando-as. Com o tempo, percebi que seu olhar mudara, apresentava um toque diabólico. Senti que algo de ruim iria acontecer, mas não sabia o que seria. Depois de umas duas horas juntos, sorrindo malevolamente, ela mostrou um canivete e disse que iria me marcar. Não era brincadeira. Houve um corre-corre de gato e rato pela grande sala do apartamento antigo. Apunhalado duas vezes, no braço direito e nas costas, mas nada grave, tranquei-me no quarto e nunca mais voltei a vê-la.

Há muitos anos, em Ilhéus, aconteceu outra cena de terror. Um amigo, em suas inquietações espirituais, envolveu-se com uma seita satânica. Quando me contou, tentando me convencer a fazer o mesmo, eu não o levei a sério, crendo que não passava de fantasia da sua cabeça carente. Ao visitá-lo, dias depois, percebi que ele não era o mesmo, dando gargalhadas súbitas assustadoras. Pouco depois, testemunhei uma surpreende possessão, culminando com ele me perseguindo com uma faca. Na campanha de 2018, vestido com camisa com a estampa de Jair Messias Bolsonaro, em uma feira popular, quatro esquerdistas me cercaram, rasgaram a camisa, me deram pancada e me forçaram a beber um líquido de uma garrafa plástica. Passei mal, fiquei internado, pensei que morreria. Em mais dois ou três casos estive próximo da morte. Tentei evitá-la, mas não me acovardei, entregando a situação dramática à Deus, pois se tivesse de ser a minha hora, nada poderia fazer. Entretanto, em orações peço para não ter uma partida sofrida ou violenta, e Deus tem me abençoado.

Quase finalizando esta reflexão, se um dia perguntarem o que eu fiz da vida, não começaria pela literatura. Não porque ela não importa — importa, e muito, eu tenho o privilégio de servir ao leitor com dedicação. Mas, respondendo ao que realmente fiz ao longo desses quase 60 anos, consideraria primeiro a família, relacionamentos e amizades. E, segundo a experiência, posso dizer que esse tem sido meu suporte fundamental ao longo da existência. Eu não fui o melhor aluno da minha turma, nem o mais popular, nem o mais lembrado pelos professores. Mas me tornei um bom sujeito. Apoio companheiros e amigos quando eles mais precisam, para acolher, para aconselhar. Fui, talvez, obstinado em recusar que a distância — geográfica, temporal, emocional — tivesse a última palavra sobre quem amei. Gostaria de ser lembrado principalmente pelos momentos de felicidade. As reuniões festivas que organizei, hospedagens cordiais, casamentos que influenciei, aventuras internacionais e até as falhas técnicas (por exemplo, não aprendi a dirigir automóvel).

Nunca exigi que os outros fossem perfeitos, já que eu mesmo não sou. Chorei quando precisava chorar. Soube ouvir. Uni mais do que separei. Não fiz nada sozinho — ninguém faz nada importante sozinho. Mas, se há algo que eu gostaria que ficasse marcado, é que, quando a vida me deu a oportunidade — depois de todos esses anos em que eu nem sempre estive junto — de escolher entre me afastar completamente e ficar em contato com amizades e familiares distantes, eu escolhi, sem nenhuma dúvida, ficar em contato. Quando eu morrer, quando o anjo virar discretamente a página da surpreendente vida, quando eu tiver deixado de iluminar as palavras, quando chegar o tempo de partir, findo todo os acontecimentos cotidianos, a alma azul seguirá como o silêncio, livre nos confins da ausência. Quando for preciso ir-se, sem mais pressa, passada a hora de louvações, darei adeus à escrita, reprisarei solidões, guardando sonhos no armário das sombras. Nesse dia, fecharei os olhos da memória, firme na expectativa da luz e na tenaz esperança.


A alma esconde nessas folhagens suas horas resignadas num vasto devaneio. Antes que eu me vá, preciso dizer que foi bom viver, mesmo sentindo vez ou outras dores na alma, mesmo demorando para aprender a ser grato ou superar a futilidade juvenil. Foi bom amadurecer, perceber a sabedoria de Deus, evoluir como pessoa, educar-me sempre. Mas antes de dizer adeus, registro que todo amor é frágil, que os poderosos deste mundo amam o poder mais do que as pessoas e cada indivíduo é naturalmente livre e vigia do próprio corpo, desde que não se deixe doutrinar ou vulgarizar, pois o tribal é uma massa idiota de manobra de propriedade dos seus caciques, não mais naturalmente livre. Antes de dizer adeus, assumo desenganos: peço perdão pelos corações apaixonados que consciente ou inconscientemente parti, peço perdão pela rebeldia diante dos meus amados pais, peço perdão pelos amigos que eu não soube valorizar. Antes de dizer adeus, tenho de tratar de algumas coisas. Preciso dizer obrigado a alguns. Preciso de um mergulho de rio, de pirilampos, de colibris e abelhas.

Preciso de orquídeas selvagens, champanhe francesa, de uma sinfonia de Tchaikovsky, chuva forte caindo no corpo nu, uma cachoeira nordestina, um drama de Ingmar Bergman, um poema de Rainer Maria Rilke, uma comédia de William Shakespeare, passar mais uma vez horas em um museu europeu, contemplar a
“Alegoria do Amor” de Paolo Veronese, atravessar países em um trem veloz, cavalgar na Fazenda Bela Vista, sentir o perfume do cacau, abraçar apertado minha adorável mãe e irmãos queridos, e um olhar de paixão. Um olhar de amor como antes, como nunca, como um dia, quem sabe, poderia ter sido. Acho que isto vai satisfazer o humano que se despede. Aprendi que o amor não é para sempre. Mas a morte é para sempre. E o que é para sempre tem privilégios. Podem dizer que não se sabe o que vem depois da vida, mas eu tenho plena convicção de que sei. Podem chamar isso de fé, porque é verdade. Sinta-se abraçado. Que o Eterno nos dê a paz eterna.


EPITÁFIO

Não era um mau sujeito
o falecido Antonio Nahud.
Não roubou nem matou
Não humilhou nem explorou
Tinha vocação misantropa
e pouca paciência com esquerdistas.
Gostava de plantas, filmes, viajar,
de chuva e escrever noite adentro
caminhar na areia à beira-mar
e mergulhar em águas transparentes
Ele partiu serenamente,
sem saber que expresso tomava.