julho 11, 2026

............................................................. O ÓBVIO ULULANTE: CRÔNICAS

nelson rodrigues e joão guimarães rosa em 1967

 

Cá estou eu a escrever tolices.
Com imensa facilidade - convenhamos.
Vivemos dias em que é preciso escrever tolices.
Há uma dor preponderante em cada coração.
ANTÔNIO MARIA
“Evangelho Segundo Antônio” (1964)
 
Faz parte da minha doutrina pessoal o princípio
de que escrever é algo tão efêmero quanto existir.
Vou largando as minhas páginas pelo caminho,
como a lesma vai deixando no canteiro a sua baba.
CARLINHOS OLIVEIRA
“O Búzio” (1965)
 
para o amigo ilheense euzner telles
 
 
O desejo que nos leva a vislumbrar um mundo justo, é o desejo que, como Jesus disse à mulher samaritana junto ao poço, só as águas vivas de Deus podem saciar. Nas fronteiras infinitas da literatura, ali onde os gêneros se confundem, desejo com nitidez a cintilância da CRÔNICA. Sei que nem todos se arriscam a valorizá-la. Para alguns, é literatura barata. Para outros, nem é literatura, é jornalismo chulo. Há quem acredite que seja um gênero que não deve ser levado a sério. Para mim, pode ser traduzida como uma conversa agradável, entre o jornalismo e a literatura. Nascida de uma gênese que não lhe concedia ir além de um breve relato sobre um tema qualquer - daí ser só crônica, de Kronos, o deus do tempo - levou muitos anos para ser consagrada como um olhar contundente ou um toque de inconformismo. Na origem de tudo, cronistas eram os historiadores do rei. Pero Vaz de Caminha e Fernão Lopes, para citar apenas dois dos mais destacados escribas reais do reino que nos diz respeito, o de Portugal, relatavam as ações vaidosas dos monarcas.

Esses pioneiros já exibiam o que a partir do século 19 será o princípio básico da CRÔNICA: registrar o circunstancial. Tempo em que elas nasciam, viviam algumas horas e morriam nas páginas dos jornais, sem a glória literária. Nossos primeiros cronistas, José de Alencar, Machado de Assis, Joaquim Manoel de Macedo e Olavo Bilac, foram, antes de tudo, grandes escritores.
“Não posso dizer positivamente em que ano nasceu a CRÔNICA, mas há toda probabilidade de crer que foi coetânea das primeiras duas vizinhas”, comentou Machado de Assis em “O Nascimento da Crônica” (1877). No século 20, o texto enxuto surpreendeu com João do Rio, engajado nos fatos que deveria apenas informar. O segundo e definitivo marco na CRÔNICA tupiniquim, na década de 1930, foi o autor canônico Rubem Braga, lançando uma sólida tradição que prevalece até hoje e junta prosa e lirismo. Ele escreveu cerca de 15 mil CRÔNICAS em seis décadas. Ficou famoso o veredicto de Manuel Bandeira, segundo o qual Braga “é sempre bom, e quando não tem assunto então é ótimo”.

carlos drummond de andrade e lygia fagundes telles

Nos anos seguintes, ninguém mais segurou a CRÔNICA, se firmando como imbatível. Nas mãos de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Carlinhos Oliveira, Fernando Sabino, entre muitos outros, ela se torna o lugar da liberdade. Eu nunca tive dúvidas, ela é um gênero literário. Não é ficção, não é poesia, não é crítica, nem ensaio, é CRÔNICA. Ao escrevê-la, o escritor pode ser ligeiro, pode ser informal, pode dispensar a originalidade, desprezar o estilo, pode tudo. Na CRÔNICA, ainda mais que na ficção, não há compromissos com estilo ou linguagem. Definida com limitações pelo dicionário como
“narração histórica, ou registro de fatos comuns”, se equilibra entre a sinistra realidade e a sinuosidade da imaginação. Sua popularidade é vencedora na disputa com a prosa ficcional (conto, novela, romance). Supõe-se, em geral, que os cronistas digam a verdade. Porque costumam narrar na primeira pessoa, e o Eu sempre evoca a ideia de confissão. Há os que insistem em cooptá-la para o lado do jornalismo, como uma espécie literária de observação do cotidiano.

Genuinamente nacional, foi preciso que o celebrado crítico e professor Antônio Cândido escrevesse sobre ela para não ser condenada sem perdão. A propósito do cronista-poeta Carlos Drummond de Andrade, ele definiu suas CRÔNICAS como
“uma poesia diferente, peculiar e acolhedora”. E só aí, mais de cem anos depois das primeiras criações oficiais, tornou-se um gênero literário que venceu a opressão da crítica preconceituosa. Quem narra é o seu autor, e tudo o que ele diz parece ter acontecido de fato, como se estivesse trabalhando em uma reportagem. Ela pode ser esportiva (com Nelson Rodrigues durante a era de ouro da Seleção Brasileira), social, policial, política, econômica, artística. No icônico e esquerdista “Pasquim”, nos anos 1960 e 1970, uma constante era o tom cômico. Já David Nasser era capaz de iniciar uma de suas popularíssimas narrativas na revista “O Cruzeiro” com a frase: “Na minha terra, quando morria uma virgem, o caixão era todo branco e todas as flores que se jogavam sobre a cova eram brancas também”. Espetacular romantismo.

rubem braga, vera jordão, josé olympio e augusto frederico schmidt

A CRÔNICA tradicional cumpriu sua via crucis. Seja como narrativa de costumes, relatos reais ou perfis ácidos, nos quais expôs os bastidores do poder e a hipocrisia social de cada época. Alguns cronistas subvertem as regras. Seus textos são longos, mas repletos de poesia, sentimento e política. Ao publicar crônicas reflexivas sobre os ciclos da vida, o envelhecimento, as relações humanas ou a família, o cronista, sem precisar deixar de ser um repórter à procura de notícias atraentes, tem sido também um repórter das profundezas da alma. Equilibra-se no arame esticado, entre o real e o tangível, por mais que o inescrutável pareça ser matéria nunca prestigiada. Eu desde sempre apreciei ler e escrever CRÔNICAS, considerando-as um precioso exercício literário. Uso-as geralmente como uma perigosa linha de tiro. Falo de mim, relato fatos que vivi, faço exercícios de memória, confesso-me. Se acaso minto, distorço, não o faço propositalmente, são as artimanhas fantasiosas da memória. O cronista me inspira, em geral, e desde sempre, a uma conexão profunda, sentimental.

Tudo começou na adolescência, acompanhando a arte da CRÔNICA através de Otto Lara Rezende, Hélio Pólvora, Paulo Francis, Sérgio Augusto, Fernando Gabeira e Pepe Escobar, inicialmente na
“Ilustrada”, quando a “Folha de S. Paulo” ainda era honrada. Me envolvo, me afeiçoo, fico magoado quando cronistas se revelam levianos, apressados, irresponsáveis, interesseiros, imprudentes, até venais. Já cheguei a escrever furioso para Diogo Mainardi, que eu seguia na “Veja”, afirmando que ele era patético e nunca mais voltaria a lê-lo. Não houve resposta e eu cumpri a promessa. C. S. Lewis observou que os desejos inatos correspondem a objetos reais. E muitos desejam um reconhecimento completo. O mais próximo aos desejos complexos que alcanço vem da escrita e da espiritualidade. Lembro Agostinho: Fecisti nos, Domine, ad te et inquietum est cor nostrum donec requiescat in te (“Tu nos criaste para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.”). Tenho um modo singular de dizer, um viés de contar sobre o esplendor e a miséria da vida besta.

adalgisa nery

O meu olhar é o meu olhar, um registro pessoal da importância, da suspeita e da certeza das impróprias verdades. Do falso e do verdadeiro. Do pecado e da virtude. Do bem e do mal. Da esquerda maldita e da direita redentora. Na cor e na ausência de cor. No claro-escuro das esquisitices da alma. No baixo e no alto relevo da ideologia política. Não utilizo na escrita um maniqueísmo capaz de desfigurar o meu olhar e fazê-lo imundo. Minha CRÔNICA não é aquela alegria social a qual se referiu Afrânio Peixoto. Se aproxima mais da indignação, da desesperança, do desprezo, da melancolia da comoção, e quase sempre com esperança e lirismo. Ao voltar a Itabuna, depois de doze anos na Europa, traduzi em CRÔNICAS a cidade natal. Desencantado, não soube ser com ela, talvez por falta de tolerância, o favo bom. No amargo regresso, insatisfeito com um romance com um advogado drogado, espetava com palavras o excesso vulgar dos dias e das noites. Transformei-me em um terrorista a espreitar de uma torre invisível, diante do sinistro cenário grapiúna, as ilusões da vida e da arte.

Mexendo e remexendo na podridão da sociedade local, provoquei com honestidade, até causando pânico ao revelar o proibido. E, no entanto, muitos sabiam e se calavam. À deriva, evitei os privilégios literatos pomposos e usei na escrita cobaias da geração viciada e condenada. Não fui hábil. Mexi num vespeiro em prol da palavra. O bem e o mal fundidos na CRÔNICA que denuncia um mercado de farsantes, da política ao judiciário, dos intelectuais aos religiosos. Por fim, atualmente, esperando sem pressa a morte chegar, com a palavra escrita vou e volto a toda parte, e acredito no realismo e no imaginário que perfuma a literatura movediça que me dá tino e aprendizado. Na expressão gasta, apolínea e dionisíaca, íntima e gélida, o lirismo do virtuoso. Entre a dor e o amor, às vezes indolente, vago pelas ruas da capital potiguar, subindo e descendo dunas, na esperança tostada de sol numa cidadela no fim do mundo. Como companheiros leais, os cronistas J. R. Guzzo, Paulo Briguet, Luís Ernesto Lacombe, Paulo Cruz, Roberto Motta, José Paulo Cavalcanti e Rodrigo Constantino.

Na cabeça, a escrita como um exercício brutal de visões e miragens. No texto, nenhuma verdade eterna. Caçador dos riscos luminosos da alma, inclusive nos eclipses de escuridão, considero-me um cronista, e se me perguntam quem sou, respondo:
“Um nômade que escreve e nas horas vagas salva o mundo”. Aventureiro dos rios existenciais, entre a solidão e a desilusão, pesco o coração da escrita, navegando em uma espécie de barco excêntrico dos fatos. Como escritor do meu tempo, existencialista e espiritualizado, terno e conservador, honesto e implacável, sincero e delirante, sou um lírico sobrevivendo às armadilhas dos dias errantes. Procuro a intimidade com o leitor, a serviço da composição de um texto coeso, crítico, poético. Misturo vivências pessoais, política, arte, comportamento e espiritualidade. Outrora desconfiado e cético, amadureci na fundamental presença do Senhor. E me firmo como um corsário da palavra, com um punhal afiado e uma flor azulada em cada (in)significância. E pela CRÔNICA respiro o perfume do destino que Deus me deu.
 
“Fácil na aparência, volátil por natureza,
de vocação camaleônica e de alta circulação,
a crônica é um gênero que parece sempre
escapar de definições teóricas.”
CRISTOVÃO TEZZA
(1952. Lages / Santa Catarina)
 
nelson rodrigues e candido portinari em 1934
25 CRONISTAS BRASILEIROS ADMIRÁVEIS
 
01
ADALGISA NERY
(1905 – 1980. Rio de Janeiro / RJ)
Livro de crônicas: “Retrato Sem Retoque” (1963)

02
ANTÔNIO MARIA
(1921 – 1964. Recife / Pernambuco)
Livro de crônicas: “Vento Vadio: as Crônicas 
de Antônio Maria” (2021)
 
03
ARTUR da TÁVOLA
(1936 – 2008. Rio de Janeiro / RJ)
Livro de crônicas: “Mevitevendo” (1977)
 
04
CARLINHOS OLIVEIRA
(1934 – 1986. Vitória / Espírito Santo)
Livro de crônicas: “A Revolução das Bonecas” (1967)

05
CARLOS DRUMMOND de ANDRADE
(1902 – 1987. Itabira / Minas Gerais)
Livro de crônicas: “O Poder Ultrajovem” (1972)
 
06
CARLOS HEITOR CONY
(1926 – 2018. Rio de Janeiro / RJ)
Livro de crônicas: “O Ato e o Fato” (1964)
 
07
CECÍLIA MEIRELES
(1901 - 1964, Rio Comprido / Rio de Janeiro)
Livro de crônicas: “Escolha o Seu Sonho” (1964)
 
08
CLARICE LISPECTOR
(1920 – 1977. Chechelnyk / Ucrânia)
Livro de crônicas: “Todas as Crônicas” (2018)

09
DANUSA LEÃO
(1933 – 2022. Itaguaçu, /Espírito Santo)
Livro de crônicas: “As Aparências Enganam: 
101 Crônicas” (2004) 

10
DAVID NASSER
(1917 – 1980. Jaú / São Paulo)
Livro de crônicas: “A Face Cruel e Outras 
Histórias Desagradáveis” (1967)

11
FERNANDO SABINO
(1923 – 2004. Belo Horizonte / Minas Gerais)
Livro de crônicas: “O Homem Nu” (1960)

12
FERREIRA GULLAR
(1930 – 2016. São Luís / Maranhão)
Livro de crônicas: “Resmungos” (2006)
 
13
GUSTAVO CORÇÃO
(1896 – 1978. Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)
Livro de crônicas: “Dez Anos: Crônicas” (1956)
 
14
JOÃO do RIO
(1881 – 1921. Rio de Janeiro / RJ)
Livro de crônicas: “A Alma Encantadora das Ruas” (1908)
 
15
LYA LUFT
(1938 – 2021. Santa Cruz do Sul / Rio Grande do Sul)
Livro de crônicas: “Perdas e Ganhos” (2003)
 
16
MARINA COLASANTI
(1937 - 2025. Asmara / Eritreia)
Livro de crônicas: “Eu Sei, Mas Não Devia” (1979) 

17
MOACYR SCLIAR
(1937 – 2011. Porto Alegre / Rio Grande do Sul)
Livro de crônicas: “O Imaginário Cotidiano” (2001)
 
18
NELSON RODRIGUES
(1012 – 1980. Recife / Pernambuco)
Livro de crônicas: “A Vida Como Ela É...” (1961) 

19
OTTO LARA REZENDE
(1922 – 1992. São João del-Rei / Minas Gerais)
Livro de crônicas: “O Príncipe e o Sabiá” (1994)
 
20
PAULO FRANCIS
(1930 – 1997. Rio de Janeiro / RJ)
Livro de crônicas: “Diário da Corte” (1996)

21
PAULO MENDES CAMPOS
(1922 – 1991. Belo Horizonte / Minas Gerais)
Livro de crônicas: “Cego de Ipanema” (1960)
 
22
RACHEL de QUEIRÓZ
(1910 – 2003. Fortaleza / Ceará)
Livro de crônicas: “O Caçador de Tatu” (1967)

23
RUBEM BRAGA
(1913 – 1990. Cacheiro do Itapemirim / Espírito Santo)
Livro de crônicas: “Ai de Ti, Copacabana” (1960)
 
24
SÉRGIO AUGUSTO
(1942. Rio de Janeiro / RJ)
Livro de crônicas: “Lado B” (2001)
 
25
STANISLAW PONTE PRETA
(1923 – 1968. Rio de Janeiro / RJ)
Livro de crônicas: “Febeapá - Festival de Besteiras 
que Assola o País” (1966)
 
fernando sabino, hélio pellegrino, paulo mendes campos e otto lara resende
“Uma crônica é um conto que é verdade”
GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ
(1927 – 2014. Aracataca / Colômbia)
 
“Todo cronista tem seu dia em que, não tendo nada a escrever, fala da falta de assunto. Chegou meu dia. Que bela tarde para não se escrever! (...) Portanto, meu distinto leitor, minha encantadora leitora, queiram ter a fineza de retirar os olhos dessa coluna. Não leiam mais. Fiquem sabendo que eu secretamente os odeio a todos, que vocês todos são pessoas aborrecidas e irritantes; que eu desejo que todos tenham um péssimo Carnaval, uma horrível quaresma, um infelicíssimo 1934, uma vida toda atrapalhada, uma morte estúpida!

RUBEM BRAGA
Trecho de “Ao Respeitável Público” (1934)
 
“Eu me considerava um profissional decente. Até semana passada, procurava cumprir o dever dentro de limitações. Não foi possível chegar ao gabinete onde, quietinha, deitada a meus pés, esperava que eu acabasse a crônica para ficar com ela. Até o último momento, olhou para mim, me aceitando. Levei-a, em meus braços, apoiada em meu peito. Apertei-a com força, sabendo que ela seria maior do que a saudade.”
CARLOS HEITOR CONY
Trecho de “Mila” (1995)
 
GALERIA de FOTOS
 
lygia fagundes telles, cecília meireles e outros em 1945
antonio cândido, ribas, décio de almeida prado e érico veríssimo, em 1940
drummond, vinicius, manuel bandeira, quintana e paulo mendes campos
danusa leão
quintela, cavalcante, graciliano ramos, branco, raquel de queiroz e auto, 1931
condé, murilo mendes, adalgisa nery, fontes e adour da camara, 1939
marina colasanti

                                Rubem Braga, Vinicius de Moraes e Fernando Sabino (sentados), Paulo Mendes Campos,                                        José Carlos Oliveira e Sérgio Porto (em pé) em 1967