setembro 30, 2026

.................................... CREPÚSCULO na SUÍÇA

 

 

EM CONSTRUÇÃO
 
A vida é um livro 
e quem não viaja
lê apenas a primeira página.
SANTO AGOSTINHO
 
Por muito que envelheça, 
que fique fatigado, 
por vezes sem esperança, 
dificilmente desprezarei 
o encanto de viajar.
ANTONIO NAHUD
 
 
Fotografias: ANTONIO NAHUD
e MARCELO MENDONÇA
 
 
Este é um relato de viagem escrito em Genebra e cidades próximas. Tomando notas em um caderno, fotografando e transbordando de gratidão divina, às margens do Lago Léman, deixe-me levar sem destino por meu irmão Marcelo, um arquiteto que mora na Suíça há cerca de 15 anos. Nos meus relatos, uma mistura de diário de viagem, ensaio filosófico, introspecção e romantismo literário sobre a paisagem marcada por imponentes montanhas, vales profundos, lagos de águas cristalinas e cidadelas medievais. É a minha segunda visita à Suíça, talvez o mais formoso país que conheci em toda a minha longa vida de viajante. Da primeira vez, em 2017, eu não estava nada bem, tratando-me de uma profunda depressão resultante do suicídio inesperado de um jovem companheiro. Na época, sentia-me num sonho ou num filme romântico, embora com a persistente sombra da melancolia à vista. Desta vez, está sendo diferente, aconteceu repentinamente. Com a juventude perdida, praticamente recluso por opção literária, não esperava voltar à Suíça no crepúsculo da maturidade.
 
Quando surgiu o generoso convite, foi tudo muito rápido. Renovação do passaporte, a procura de um hotel de animais decente para hospedar Puck, um segurança para cuidar da casa e adiantamento de inúmeros textos profissionais para acumular 15 dias de férias. O projeto será voltar poucos dias antes das eleições para votar em Flávio 22 e em governador, senadores e deputados conservadores. Deu tudo certo. Depois de uma escala em Lisboa, fui recebido por meu irmão no aeroporto de Genebra. Hospedado em seu charmoso apartamento, decorado com obras de arte e plantas, senti-me em casa. Perguntou-me o que eu queria fazer nestas férias, respondi que ele decidia, não tinha um roteiro, somente sabia que não faria dieta e esqueceria a diabetes, comendo o que me agradasse. Assim está acontecendo. No primeiro dia, comi no bucólico restaurante Império da China um porco ao forno com abobrinha e queijo gratinado. De sobremesa, mousse de frutas silvestres. Uma delícia.
 
Genebra é uma cidade pequena – são menos de 200 mil habitantes (40% da população é estrangeira pois é uma cidade da burocracia internacional, de diplomatas e organizações mundiais importantes) – e um detalhe importante a se ter em conta, é muito cara. Às margens do cristalino Lago Léman e emoldurada pelas imponentes silhuetas dos Alpes e das montanhas do Jura, é muito mais do que o centro diplomático e financeiro do mundo. A chamada “Capital da Paz” sabe combinar a sofisticação e o luxo de suas butiques de alta relojoaria com a simplicidade dos passeios por suas ruelas medievais, tornando-se um dos destinos turísticos mais incríveis. O que fazer em Genebra envolve uma jornada por séculos de história, desde a herança da Reforma Protestante na Cidade Velha até as inovações científicas de ponta no CERN. Há várias formas de contemplar a natureza e as belas paisagens, museus interessantes e atrações que recheiam a programação. uma cidade elegante, charmosa e romântica. Está localizada na parte francesa da Suíça e sua língua oficial é o francês.
 
É mais do que a Capital da Paz – por ser a sede europeia da ONU e quartel general da Cruz Vermelha. Tem uma bossa que mistura elegância, tranquilidade e romance. Tem cafés charmosos, parques, lojas atraentes e um excelente transporte público. Sem grandes badalações até altas horas, é uma cidade diurna com inúmeras mesas ao ar livre convidando para um café, um vinho, um suspiro diante da paisagem. Detalhes que contribuem para que seja reconhecida mundialmente pela qualidade de vida que oferece aos habitantes. Afinal, é frequentemente indicada como uma das 10 melhores cidades do mundo para se viver. Além disso, é muito fácil de se localizar e percorrer seus principais atrativos a pé. É chamada de a “menor metrópole do mundo”. Para quem gosta de cidade pequena (como eu) é uma maravilha! Assim como grande parte da Suíça (país internacional do asilo político e do mecenato), a cidade é famosa por seus moradores ilustres que vieram aproveitar as belezas e a tranquilidade da região. Muita gente famosa viveu em Genebra e arredores, como Jorge Luís Borges, Alain Delon, Charles Chaplin, Sophia Loren, Paulo Coelho, Audrey Hepburn.
 
É a cidade dos hotéis cinco estrelas notáveis (como o Beau Rivage) e das marcas mais caras e desejadas de relógios do mundo (como Patek Philippe). Colony é o bairro dos ricos e das mansões, conhecido como a “Beverly Hills” de Genebra. Artistas internacionais e muita gente importante teve ou tem casa por lá. No século VI a.C., o povoado celta habitava onde atualmente está situada Genebra. Mais tarde, a região foi conquistada por romanos. Contudo, o que mais você verá na cidade (igrejas, monumentos, museus) trata do período do século XVI quando João Calvino transformou a cidade num centro protestante, governado pelas regras religiosas. Mais tarde, atraiu pensadores como Voltaire e Jean-Jacques-Rousseau. Outro fato de relevante importância histórica para a cidade aconteceu em 1864. Foi o encontro diplomático e que se oficializou como Convenção de Genebra, determinando regras para proteger os feridos das forças armadas (origem da Cruz Vermelha – sua aplicação ocorreu durante a Primeira Guerra Mundial). A partir daí, nasciam as bases dos Direitos Humanos Internacionais. Por fim, batendo perna pela magnífica cidade ou circulando de carro por cidades próximos, listo maravilhas de Genebra e arredores.
 
POST TENEBRAS LUX
(Depois das trevas, a luz)

 
01
LAGO LÉMAN e RIO RÓDANO
 
02
CIDADE VELHA e CATEDRAL SAINT PIERRE
 
03
MURO dos REFORMADORES
 
04
JARDIM BOTÂNICO
 
05
ESPAÇO JEAN-JACQUES ROUSSEAU
 
06
FUNDAÇÃO PAULO COELHO e CHRISTINA OITICICA
 
07
MUSEU de ARTE e HISTÓRIA
 
08
BAIRRO das NAÇÕES
 
09
MAISON TAVEL
 
10
RELÓGIO das FLORES
 
11
MUSEU PATEK PHILIPPE
 
12
CASA de JORGE LUÍS BORGES
 
OUTRAS PRECIOSIDADES
 
CIDADE MEDIEVAL e MUSEU XXX em GRUYÈRES
 
FUNDAÇÃO XXX
 
Os VINHEDOS de LAVAUX
 
MUSEU CHAPLIN em VEVEY
 
CASTELO de CHILLON em MONTREAUX
 
MUSEU das OLÍMPIADAS em LAUSANNE
 
 

setembro 07, 2026

........................................ A MORTE NÃO MANDA AVISO

 


 

Morrer. Mas não sem antes ter vivido.
Mas não sem antes ter amado.
JEAN-YVES LELOUP
(1950. Angers / França)
 
O que eu fiz é muito pouco
Mas é meu e vai comigo
Deixo muito inimigo
Porque sempre andei direito
Agasalhei neste peito muita cabeça chorando
Morena minha até quando você de mim vai lembrar?
PAULO VANZOLINI
(1924 – 2013. São Paulo / SP)
“Quando Eu For, Eu Vou sem Pena” (1977)
 
para Cecília Veloso e Salomão,
que partiram e deixaram saudades
 
Ilustrações:
MICHAEL MAGIN
(1978. Espira / Alemanha)
“Fita Amarela” (Noel Rosa, 1932)
interpretação de Elizeth Cardoso e Silvio Caldas
 
 
Não ignoro a morte, até escrevi contos e crônicas sobre ela. Para muitos não é confortável admitir a finitude. A vida contemporânea chegou ao paroxismo em termos de ocultá-la. São tantas as requisições, os compromissos, as obrigações, tudo forçando a um ritmo alucinante em que a maioria das pessoas caminha. Não há tempo de pensar no encontro definitivo destinado a todos nós. Eu não tenho medo de morrer e trato o assunto fatal com naturalidade. A morte é imprevisível e inevitável. Não sabemos quando vem, mas que é certa para todo mundo, ela é. Só não avisa a hora do adeus ao planeta Terra. Amo a vida, agradeço ao Senhor por ter chegado a essa idade, mas um dia terei que ir embora. Os meus sonhos noturnos, que considero uma espécie de premonição do outro lado da vida, são satisfatórios. Encontro desconhecidos e há um clima de camaradagem. Estou bem naquele lugar. Não há animais. Na paisagem, bosques, rios, casas medievais, montanhas verdes. São devaneios recorrentes há décadas, acordo em nome da paz, sentindo-me abençoado.

Acredito que morrer não é sinistro. Deve ser uma réplica dessa utopia bonita, sem despertar. Nesse além misterioso, pouco importa o que aconteceu de bom ou ruim na vida terrestre, o panorama induz a atitudes transcendentais. Contextualizo essa crença, como em um filme denso de Carl Th. Dreyer ou Andrei Tarkovski. Portanto, morrer não me resulta em um tormento assustador, afinal não roubei aposentados, não coloquei na masmorra idosas com a “Bíblia” e não recebi propina de 131 milhões do Banco Master. Vez ou outra, a “indesejável” nos convida a pensar sobre ela, mesmo quando não se está preparado para deixar esta vida venturosa. É evidente que há planos incompletos. O remorso de não ter se dedicado com afinco aos seres queridos. Projetos que podem nunca se concretizar. Assim como intenções que serão descartadas de forma abrupta. No meu caso, quando eu morrer, ficarei agradecido por ramos de mirra, flores azuladas ou amarelas, velas, orações, leitura de poemas clássicos, jazz no velório, lembranças emocionadas, o beijo derradeiro.

Desde sempre, compreendo a impermanência do mundo físico em que habito. Tenho consciência, sem vitimismo, que tudo o que enxergo vai desaparecer a qualquer momento. As pessoas que amo ou aquelas que me traíram sumirão para todo o sempre. Nessa verdade, aproveito os últimos anos afagando a escrita, a arte, a família, viagens, gratidão, justiça e fé em Deus. Procuro não os desperdiçar sofrendo com artimanhas que não tenho controle. A meta é aperfeiçoar o caráter a cada dia. O resto é uma completa perda de tempo. Houve uma época em que, angustiado, perguntava-me o que aconteceria com as lembranças, o relicário pessoal, assim que morresse. Qual o destino dos livros, papéis, fotografias, coleção de filmes e cartas de amor? E o harmonioso jardim e o cãozinho Puck? E os blogs, textos, crônicas, ensaios e contos? Já não sofro por isso. Entrego a Deus. Não é difícil imaginar o que os herdeiros fazem com o acervo material de uma vida que não foi a deles. É evidente que se perdem documentos, relatos, confidências e narrativas para nunca mais.


Essa é a vida. Essa é a maneira que escolhemos para passar as poucas décadas que essa trajetória frágil e efêmera nos oferece. Só não posso dizer como Paulo Vanzolini em sua canção,
“quando eu for eu vou sem pena”! Ao contrário, irei com enorme pena de deixar este mundo, que não é o paraíso terrestre, todavia é ele que me faz apreciar a chuva, as estrelas, as matas, os bichos, e amar. A música do Vanzolini diz que “pena vai ter quem ficar”. Será? Talvez um ou outro sinta falta, poucos, ninguém é insubstituível. Já vivi o suficiente para constatar que a memória é volúvel. O Brasil é a expressão mais consumada do ditado “O Rei Morreu! Viva o Rei!”. Além disso, não há como mudar aquilo que já passou. O tempo não tem ponteiros para voltar atrás. Não se ensaia, na existência. Vive-se ao vivo, sem edição. Seja como for, quem tiver paciência de ler esta crônica até a última linha, saiba que quando eu partir, irei com firmes convicções! Não levarei saudade do ladrão de Nove Dedos e sua quadrilha, o Partido das Trevas! Nem da Globolixo e outros conspiradores canais de TV!

Não levarei saudade dos artistas e influenciadores lacradores. Não levarei saudade do Sinistro Tribunal Federal e suas hienas togadas anti-democráticas. Quando eu morrer, não levarei saudade do jornalismo apodrecido, do cinema brasileiro comunista, do futebol nacional decadente, do carnaval seboso, das canções vazias, dos discursos demagogos dos políticos, de vídeos dissimulados em busca de likes, do narcisismo das redes sociais, das fake news. Quando eu morrer, não levarei saudade de desertos, do sertão, do calor excessivo, de lixo nas ruas, das enchentes brutais, da violência, do mal gosto, da ignorância, da fofoca. Não levarei saudade da ridícula Xuxa, dos comediantes toscos, das múmias da Academia Brasileira de Letras, da inflação, dos drogados, dos bêbados chatos, dos ateus, dos suicidas, dos abortistas, dos pedófilos e estupradores. Não levarei saudade da ditadura cubana ou do patrimônio histórico em ruínas. Não levarei saudade de tatuagens, rapazes musculosos, afeminados, sovacos femininos cabeludos, cabelos coloridos, peitos e lábios sintéticos.

 Não terei saudade das mulheres que usam silicone e exibem o corpo como carne em açougue, dos remédios que preciso tomar e dos doces que não posso comer. Não levarei saudade dos que fedem, das filas intermináveis, da burocracia, da corrupção. Não levarei saudade dos aeroportos, de lugares altos ou apertados, das multidões, dos rios poluídos, dos desmatamentos, dos cães e gatos abandonados, dos meninos sem pais, dos moradores de rua. Não terei saudade do fanatismo religioso, dos pais de santo farsantes, de gente correndo, de gritos, de turistas, selfies, vulgaridade, palavrões. Não levarei saudade de histeria, pieguice, barulho, celular usado publicamente, apartamentos kit-net, idosos vestidos como adolescentes, túnel, cavernas, elevadores, arte moderna, telenovelas ou performances wokes. Enfim, não levarei saudade dos meus fracassos, dívidas e desilusões. Não terei saudade do funk ou do rap, do surrealismo ou do concretismo, de sujeitas sem classe como Esbanja da Silva ou Anitta, de homem travestido de mulher ou mulher travestida de homem.

Finalmente, não terei saudade de uma sociedade insensível e nada romântica nem de um mundo cada vez mais abominável e sem nuances. Não levarei saudade de jornalistas, padres e professores marxistas, da educação chinfrim de Paulo Freire ou de escritores patéticos vendidos como gênios literários. Não levarei saudade de artistas sem coração como Caetano Veloso, Wagner Moura e outros vigaristas mercenários de plantão. Não levarei saudade dos maus hábitos, do movimento LGBT, de mentiras como aquecimento global e pandemias. Não levarei saudade da pobreza e dos conflitos, da misoginia, de mulheres que traem ou matam seus companheiros, do estresse no trabalho ou em casa, e até mesmo atitudes como arrogância, preguiça ou reclamação demais. Não levarei saudades das perdas, do sofrimento, da incompreensão, da raiva, da injustiça, das acusações injustas, do medo, do desamor, das carências, das feridas e degradação institucional. Não levarei saudade da máquina corrupta do Estado, da desigualdade estrutural, das alianças oligárquicas, das urnas eletrônicas fraudades e do sistema político imoral.

Não sentirei saudade das facções, dos pesadelos, da timidez juvenil, da infidelidade, da deslealdade, do ódio, das doenças, do consumo de alimentos processados, do sedentarismo, do uso excessivo de equipamentos eletrônicos, da amargura, dos invejosos, dos falsos, dos amores que eu não soube amar, de tempestades em copo d’água, de trabalhos enfadonhos para sobreviver, da temporada em que morei em São Paulo, do filho que permiti ser abortado. Quando eu morrer, não levarei saudade do Big Brother, do Faustão, dos telejornais militantes ou dos Trapalhões. Não levarei nenhuma saudade dos governadores petistas e tucanos. Não levarei saudade dos sambas-enredo do Carnaval, da medíocre panelinha literária, da arquitetura desumana, dos buracos das ruas, do Imposto de Renda e demais impostos, e muito menos levarei saudade dos ruins cantores de axé. Não levarei saudade das dívidas externas do Brasil. Não levarei saudade dos milagres fajutos dos pastores evangélicos, das previsões ilusórias dos videntes e nem de um mundo cada vez mais sórdido.

Pensar publicamente não é uma atividade feita para agradar. Acredito na verdade, escrevo intensamente. A morte é um tema espinhoso. Já ouvi muitas opiniões contraditórias sobre ela. A morte atormenta a consciência de quem se sente ameaçado. Poucos falam dela. É um assunto tabu. Preferem evitar, fingir que não existe e que não está em todo lugar. A ideia de que a existência pertence ao Senhor me parece relevante. Como tenho fé em Deus, entendo que meu destino está em suas mãos. Mas, à medida que envelheço, preparo-me para deixar esse mundo. A morte pode chegar quando menos se espera e para quem menos se espera. Somos confrontados com a realidade implacável de que alguém, que ontem estava aqui, talvez não esteja amanhã. Por se tratar de uma realidade muito dura de ser experimentada, contudo, resiste-se a ela, evidenciando que, emocionalmente, poucos estão preparados para a partida. Certo é que ao perder a ilusão de imortalidade, passamos a ser confrontados com a finitude e o valor da existência.

Evidente que a morte é uma experiência abrupta e dolorosa para quem fica. Entretanto, como o nascimento, é um acontecimento natural, está presente independente da classe social, cor, idade, cultura. Todos os homens se igualam diante do fim. A morte é vista como um episódio que gera intensa dor e tristeza diante da perda ou da separação do outro. Desde a antiguidade, inconformados, utilizam-se rituais para a simbolização do destino final. Os cultos, vestuário preto, luto, velório, novena, coroa de flores, discurso de despedida, acompanhamento final, crematório, enterro, a última despedida no cemitério. Rituais melancólicos em diferentes povos e épocas, ou seja, o carinho funéreo que se incorporou em nossa cultura. Em função, principalmente, da violência urbana, das guerras e do desenvolvimento das telecomunicações, a morte no século XXI praticamente banalizou-se, aproximou-se das pessoas. Ainda assim, constitui um evento pavoroso para muitos, causador de angústia, insegurança, medo, pânico e negação.

Ao longo da vida, estive algumas vezes perto, muito perto, da morte. Na infância, sem saber nadar, mergulhei em um poço de um rio desconhecendo sua profundidade. Afundei suavemente, sem retorno, observando plantas aquáticas e rochas tomadas pelo limbo, deixando-me levar. Subitamente, meu pai arrancou-me das águas pelos cabelos. Morando na capital paulista, na madrugada, à espera de um taxi depois de uma festa de aniversário do ator Marco Nanini, ao acender um cigarro, dois jovens elegantes em um carro de luxo pediram fogo. Ao aproximar o isqueiro, um deles apontou-me um revólver e ordenou que eu entrasse no automóvel. Circulamos pela metrópole até o amanhecer. Eles cheiravam cocaína e me humilhavam com ofensas verbais. Em um terreno baldio, próximo ao Galeão, mandaram que eu descesse e tirasse a roupa. Assim o fiz. “Vá em frente sem olhar para trás”, disse o motorista. Seria baleado ou atropelado. Então, surgiram do nada dois senhores em nossa direção. Os pulhas partiram e esses operários do aeroporto, quiçá anjos, socorreram-me.
 

Ainda em São Paulo, no meu apartamento na esquina da Avenida Paulista com a Consolação, e
m um final de semana recebi a visita de uma conhecida que eu tinha pouca intimidade, filha de uma poderosa família. Ela trouxe vinhos, queijos e cassetes musicais. Bebemos, conversamos, dançamos. Uma garota inteligente e estranha. Por fim, anunciou que tinha uma
“novidade”. Tirou da bolsa gordos papelotes de pó. Eu argumentei que não me interessava, mas que ficasse à vontade. Ela insistiu, eu resisti. Ansiosa, fez diversas fileiras de cocaína na mesa de vidro, aspirando-as. Com o tempo, percebi que seu olhar mudara, apresentava um toque diabólico. Senti que algo de ruim iria acontecer, mas não sabia o que seria. Depois de umas duas horas juntos, sorrindo malevolamente, ela mostrou um canivete e disse que iria me marcar. Não era brincadeira. Houve um corre-corre de gato e rato pela grande sala do apartamento antigo. Apunhalado duas vezes, no braço direito e nas costas, mas nada grave, tranquei-me no quarto e nunca mais voltei a vê-la.

Há muitos anos, em Ilhéus, aconteceu outra cena de terror. Um amigo, em suas inquietações espirituais, envolveu-se com uma seita satânica. Quando me contou, tentando me convencer a fazer o mesmo, eu não o levei a sério, crendo que não passava de fantasia da sua cabeça carente. Ao visitá-lo, dias depois, percebi que ele não era o mesmo, dando gargalhadas súbitas assustadoras. Pouco depois, testemunhei uma surpreende possessão, culminando com ele me perseguindo com uma faca. Na campanha de 2018, vestido com camisa com a estampa de Jair Messias Bolsonaro, em uma feira popular, quatro esquerdistas me cercaram, rasgaram a camisa, me deram pancada e me forçaram a beber um líquido de uma garrafa plástica. Passei mal, fiquei internado, pensei que morreria. Em mais dois ou três casos estive próximo da morte. Tentei evitá-la, mas não me acovardei, entregando a situação dramática à Deus, pois se tivesse de ser a minha hora, nada poderia fazer. Entretanto, em orações peço para não ter uma partida sofrida ou violenta, e Deus tem me abençoado.

Quase finalizando esta reflexão, se um dia perguntarem o que eu fiz da vida, não começaria pela literatura. Não porque ela não importa — importa, e muito, eu tenho o privilégio de servir ao leitor com dedicação. Mas, respondendo ao que realmente fiz ao longo desses quase 60 anos, consideraria primeiro a família, relacionamentos e amizades. E, segundo a experiência, posso dizer que esse tem sido meu suporte fundamental ao longo da existência. Eu não fui o melhor aluno da minha turma, nem o mais popular, nem o mais lembrado pelos professores. Mas me tornei um bom sujeito. Apoio companheiros e amigos quando eles mais precisam, para acolher, para aconselhar. Fui, talvez, obstinado em recusar que a distância — geográfica, temporal, emocional — tivesse a última palavra sobre quem amei. Gostaria de ser lembrado principalmente pelos momentos de felicidade. As reuniões festivas que organizei, hospedagens cordiais, casamentos que influenciei, aventuras internacionais e até as falhas técnicas (por exemplo, não aprendi a dirigir automóvel).

Nunca exigi que os outros fossem perfeitos, já que eu mesmo não sou. Chorei quando precisava chorar. Soube ouvir. Uni mais do que separei. Não fiz nada sozinho — ninguém faz nada importante sozinho. Mas, se há algo que eu gostaria que ficasse marcado, é que, quando a vida me deu a oportunidade — depois de todos esses anos em que eu nem sempre estive junto — de escolher entre me afastar completamente e ficar em contato com amizades e familiares distantes, eu escolhi, sem nenhuma dúvida, ficar em contato. Quando eu morrer, quando o anjo virar discretamente a página da surpreendente vida, quando eu tiver deixado de iluminar as palavras, quando chegar o tempo de partir, findo todo os acontecimentos cotidianos, a alma azul seguirá como o silêncio, livre nos confins da ausência. Quando for preciso ir-se, sem mais pressa, passada a hora de louvações, darei adeus à escrita, reprisarei solidões, guardando sonhos no armário das sombras. Nesse dia, fecharei os olhos da memória, firme na expectativa da luz e na tenaz esperança.


A alma esconde nessas folhagens suas horas resignadas num vasto devaneio. Antes que eu me vá, preciso dizer que foi bom viver, mesmo sentindo vez ou outras dores na alma, mesmo demorando para aprender a ser grato ou superar a futilidade juvenil. Foi bom amadurecer, perceber a sabedoria de Deus, evoluir como pessoa, educar-me sempre. Mas antes de dizer adeus, registro que todo amor é frágil, que os poderosos deste mundo amam o poder mais do que as pessoas e cada indivíduo é naturalmente livre e vigia do próprio corpo, desde que não se deixe doutrinar ou vulgarizar, pois o tribal é uma massa idiota de manobra de propriedade dos seus caciques, não mais naturalmente livre. Antes de dizer adeus, assumo desenganos: peço perdão pelos corações apaixonados que consciente ou inconscientemente parti, peço perdão pela rebeldia diante dos meus amados pais, peço perdão pelos amigos que eu não soube valorizar. Antes de dizer adeus, tenho de tratar de algumas coisas. Preciso dizer obrigado a alguns. Preciso de um mergulho de rio, de pirilampos, de colibris e abelhas.

Preciso de orquídeas selvagens, champanhe francesa, de uma sinfonia de Tchaikovsky, chuva forte caindo no corpo nu, uma cachoeira nordestina, um drama de Ingmar Bergman, um poema de Rainer Maria Rilke, uma comédia de William Shakespeare, passar mais uma vez horas em um museu europeu, contemplar a
“Alegoria do Amor” de Paolo Veronese, atravessar países em um trem veloz, cavalgar na Fazenda Bela Vista, sentir o perfume do cacau, abraçar apertado minha adorável mãe e irmãos queridos, e um olhar de paixão. Um olhar de amor como antes, como nunca, como um dia, quem sabe, poderia ter sido. Acho que isto vai satisfazer o humano que se despede. Aprendi que o amor não é para sempre. Mas a morte é para sempre. E o que é para sempre tem privilégios. Podem dizer que não se sabe o que vem depois da vida, mas eu tenho plena convicção de que sei. Podem chamar isso de fé, porque é verdade. Sinta-se abraçado. Que o Eterno nos dê a paz eterna.


EPITÁFIO

Não era um mau sujeito
o falecido Antonio Nahud.
Não roubou nem matou
Não humilhou nem explorou
Tinha vocação misantropa
e pouca paciência com esquerdistas.
Gostava de plantas, filmes, viajar,
de chuva e escrever noite adentro
caminhar na areia à beira-mar
e mergulhar em águas transparentes
Ele partiu serenamente,
sem saber que expresso tomava.