Se a tua
vida se estender
Mais do que a minha
Lembra-te, meu ódio-amor,
Das cores que vivíamos
Quando o tempo do amor nos envolvia.
Do ouro. Do vermelho das carícias.
Das tintas de um ciúme antigo
Derramado
Sobre o meu corpo suspeito de conquistas.
Do castanho de luz do teu olhar
Sobre o dorso das aves. Daquelas árvores:
Estrias de um verde-cinza que tocávamos.
E folhas da cor das tempestades
contornando o espaço
De dor e afastamento.
Tempo turquesa e prata
Meu ódio-amor, senhor da minha vida.
Lembra-te de nós. Em azul. Na luz da caridade.
HILDA HILST
(1930 – 2004. Jaú / São Paulo)
Irreverente,
guardando muita sabedoria estranha na cabeça. Sempre fora hábil na formulação
de belas frases. Via como as luas sobem no céu e os sóis se põem. Lembro-me do
seu aniversário em que passamos juntos, pela primeira vez, em 2010, em um
condomínio no bairro do Satélite, na capital potiguar. Ao acordar, fomos nos
banhar em um cálido riacho, próximo de casa. Era um dia de beleza estonteante.
A alvorada branca e radiosa. O vermelho furioso do sol acendia e reluzia a
mata. O riacho fluía preguiçosamente. Eu mergulhava inocente como um peixe e
ele fotografava as estripulias aquáticas, saciados com o sol dourado. Na volta,
na curva de um bosque de mangueiras e cajueiros, o horizonte abriu-se para
mostrar a cidade resistente ao longe, estendida depois da mata turquesa.
Naquele mesmo dia, comparsas, humorados e famintos, eu cozinhei uma moqueca mista de peixe
e camarão com ele interpretando com valor a “Ode 11”, de Quintus
Horatius Flaccus: “O vinho decanta e ajusta / a longa esperança à vida breve. /
Enquanto conversamos, foge invejoso / o tempo: colhe o dia de hoje, crendo / o mínimo possível no amanhã.”
Depois do banquete, assistimos “Na Natureza Selvagem” outra vez. Talvez foi o filme da sua vida. Suas mãos se perdiam no meu corpo como num vale palpitando a primavera. Por fim, deitamo-nos na rede, conversando. Falávamos com cumplicidade, mantendo, sem dificuldade ou artifícios, uma prosa sobre as ideologias e a política, a violência e a paz, o barbarismo e a civilização – questões todas, na verdade, que faziam parte das nossas preocupações morais e intelectuais. Sempre procurei ter algum conhecimento de política, é obviamente necessário para entender as disputas que corroem o mundo. A pessoa desinformada, com uma mente pouco treinada, provavelmente não poderia tratar dessas indagações de maneira satisfatória. A política está, pois, além da compreensão da mente pouco instruída. Então, discutíamos política com realismo. Ele não acreditava no Planalto, no Congresso, não tinha convicção. Confessou-me encabulado fingir aprovar a esquerda para evitar a marginalização universitária. Pediu que eu contasse minha trajetória política, ouviria com atenção.
De volta ao passado, falei da origem e educação em uma família grapiúna unida e conservadora, de como um culto pai advogado respeitava o Regime Militar e desprezava os comunistas. Segundo ele, era uma época de progresso, ordem e segurança. Por fim, recordei Antônio Carlos Magalhães, o governador e senador baiano que eu via com bons olhos por transformar a Bahia num polo turístico internacional, restaurar a arquitetura histórica, acreditar em artistas, frear a violência e dar asilo aos moradores de rua. Expliquei que votava nos tucanos por não haver em quem acreditar. Foi um diálogo expressivo, imparcial. No seu último aniversário juntos, cinco anos depois, em Maxaranguape, na Árvore do Amor, pensativo e distante, ele disse avistando o mar: “O horizonte olha dentro de tua imensidão, Antonio”. Uma frase arrebatadora, inesquecível, e tristonha por me parecer um adeus. Meses depois ele se foi inesperadamente. Ao vê-lo morto, apodrecido na morgue, reconheci aqueles cabelos cobertos por um enxame de estrelas e aqueles olhos abençoados como os únicos pedaços que lhe haviam restado do humano. Estava branco como um lírio. Não era agradável de se olhar.
Podia ser
o cadáver de um homem, ou de uma mulher; estava tão desfigurado que poderia
ser, por outro lado, o corpo de um animal selvagem. Aturdido e entorpecido,
nada pude fazer por algum tempo senão observar o corpo morto diante dos meus
olhos. Passei noites em claro, tremendo sobre a incompreensão e o pranto. O
pranto e as súplicas eram unicamente meus. Eu sabia que nada de bom adviria
daquele suplício. Havia renunciado a todas as esperanças. Sonhava muitas vezes
com ele pendurado na corda ou fazendo o laço fatal; testemunhando o extermínio
e acreditando no arrependimento no último instante. Um vento frio varria o pesadelo.
Despertava cada noite sob o incêndio da ausência. Fiquei
próximo do estigma das feridas sinistras, pleno de inquietações e lágrimas.
Após
a morte de Morvan, as amizades ignóbeis já não possuíam laços. Espantei tais
corvos que ciscavam ao nosso redor. As revelações vieram à luz da prudência. Os
recantos sombrios tornaram-se evidentes, como a água parada no fundo dos poços.
Eles eram feios como o sofrimento e sujos como o pecado.
Para aqueles que sofrem, o tempo não existe. Cada hora de um martírio é um relâmpago de séculos. De joelhos, engolia a dor, incapaz de acrescentar alguma salvação ao peso sádico da angústia. Caía inesperadamente ao chão com os braços abertos, derrubado pelo peso dos próprios sentimentos. Além da dor e da frustração da finitude, torturei-me com a ausência dele no dia a dia. Era um sentimento complexo, existia a raiva, a indignação, a saudade e a tristeza. Com o luto, me fechei completamente. Em sensações transcendentais, tive uma amplitude capaz de alcançar diferentes estados emocionais. Se no cotidiano era um homem intenso, alegre, gentil e carismático, depois da morte de Morvan perdi de uma só vez tudo isso. A devastação íntima estampada no rosto. O luto, uma jornada desesperada. O coração fechado para o mundo. Nunca pensei em me matar. Esquecem-se muito depressa os mortos. Nu, deitado sobre o assoalho, esforçando-me por imitar o cadáver deformado, eu me deixava corroer pelos vermes das lembranças.
Em um amanhecer cinzento, vendo a chuva que caia com
veemência, ele me afirmou: “Existe entre nós muito mais que sortilégio e amor:
existe uma conexão irreversível e fatal”. Todas as particularidades de que
me lembro ao pensar nele, isto é, sua palidez, seus olhos soturnos, suas
espáduas rígidas, sus lábios de pétalas mamando meu sexo avantajado, o peso do
seu corpo caindo sobre meu corpo com uma densidade de paixão, adquirem, afinal,
seu pleno sentido de atributos póstumos. Não existem amores estéreis. De
nada valem as precauções. Seus olhos curiosos me examinavam, seus olhos
eram dois bichos magoados aprisionados na rede resistente da sua beleza. Ignoro
que um outro houvesse amado Morvan como eu o amei, ou antes mesmo que ele me
tivesse amado. Amar de olhos abertos é aceitar perdidamente. Eu o amei como um alucinado sem limites. Ele veio para mim de dentro de virtudes suicidas. Sorria para
a fauna e a flora, seus únicos colegas. Meu amigo de ternura aqueceu a
minha alma. Quando amamos alguém, quem amamos? Essa pessoa, ou
a nossa ideia dessa pessoa?
Quando a tocamos, não é o toque que experimentamos, mas a nossa consciência do toque. Atingimos o delírio amoroso através de uma série de aventuras sobre a sintonia e a intimidade erótica. É claro que uma união feliz é resultado de muitas situações e apenas algumas delas estão sob nosso controle. Mas o que controlamos não pode ser negligenciado. Deitado sobre o outrora como sobre uma terra fecunda, conto nossa história, celebrando o artista inspirado, de caráter refinado, que sempre foi. Sim, ele partiu para o país das fontes, dos tesouros, dos germes. O que devo contar? A memória é imprevisível. Não sei o que vem a seguir, ou o que virá depois. Uma narrativa honesta articula diferentes formas de lidar com o luto, mergulhando num percurso acidental de sofrimento para a seguir imortalizar o ente desaparecido através da escrita e dividir o fardo da perda com os leitores indiscretos. Faço, em primeiro lugar, um esboço da pessoa a quem o testemunho é endereçado. Sem alguém interessado e respirando do outro lado da tela ou da página, as biografias são inúteis.
Todos esses anos pensei gentilmente em Morvan. Estive com ele em sonhos, vultos e assombrações. Eu envelheci. E envelhecerei mais. Recordo a noite em que passeamos de mãos dadas à margem de um grande lago sob o luar. E de repente, ele estava ali, com as mãos estendidas diante das águas e da escuridão, dizendo: “Tenho um peso na alma. Durante minha vida, não fiz ninguém feliz, nem meus amantes, nem minha família, sequer eu mesmo. Talvez nesse momento eu o faça feliz, por isso talvez esteja feliz e me identifique profundamente com nossa afeição.” Como estava formoso ao contar seu segredo. Era o homem mais belo do mundo. Onde estará ele e porque me abandonou? Seu falecimento assinala um precipício, um abismo tão fundo cavado entre nós que ao escrever, pergunto-me se é auspicioso fazer essas memórias chegar ao desconhecido. Ele era tão espirituoso e tão sábio. Ele dizia que eu era um leopardo, um carvalho, o topo de uma montanha verdejante. Sentia o mundo, com toda a sua variedade, e a vida, com toda a sua complexidade.
Livre das
ilusões, um jovem desnudado, imerso em pensamentos profundos. Certa vez desistiu de ir na última hora a festa de um
conhecido nosso. “Não quero mais saber da humanidade. E não há
mais o que dizer. Repito: não há mais o que me dizer”, argumentou. Não tentei
fazê-lo mudar de opinião, foi um sinal de alerta, um mau
presságio. Eram simples seus sentidos, mas ao mesmo tempo fortes e inesperados.
De repente, Morvan tinha uma crise de depressão, talvez por coisa nenhuma; e
jogava-se na cama, contemplando o teto e possivelmente pensando na morte. Com
fragmentos faço o possível para descrever a sua existência e personalidade. Se
fechar os olhos, o verei deitado em meio às árvores, como se a própria natureza
fosse sua origem, sua gênese. Sua conexão com a natureza era profunda e a floresta era o seu lugar de
refúgio. A mata era sentida com admiração e delicadeza típicas de um esteta. Ele entendia que o homem e a natureza são forças ligadas, dependendo uma da outra.
A co-dependência com o bucólico, com o mais natural e campestre, o distanciava da vulgaridade. Havia arrebatamento em seus movimentos. Havia também uma necessidade secreta que pudesse amarrar sua mente à deriva. O gosto pelos livros era frequente. Citava extraordinários pensadores como Ortega y Gasset, Hayek, Popper, Raymond Aron e Isaiah Berlin. Em Morvan estava estranhamente presente muitos estados de espírito – desânimo, indolência, indiferença, paixão, delírio, amor pela solidão. Eu o sentia quase como uma figura mística, com sentimentos fluídos e indecifráveis. Até os sonhos mais simples e recorrentes, com ele caminhando pelo bosque ou com um colibri pousado na mão, são dotados desse feitiço. Eu sou apenas um sujeito do intelecto, da linguagem e do pensamento. Da nossa atração e convivência nasceu um romance bonito, com admiração mútua, cada um à sua maneira. É importante ressaltar que, na noite em que nos conhecemos, ele contou-me a sua versão da tragédia shakespeareana de Hamlet e Ofélia. Era uma vidência.
Noutros tempos, ouvimos a sentença inusitada de uma rezadeira, Angelina, no Açude Gargalheiras, no Seridó, que nos vaticinou: “Dois garotos abençoados com destino funesto. É uma arapuca de tempos antigos, envolve maldade e mandinga. Aproveitem os dias e as noites de cabeça erguida e prazer incondicional, noutro século virá a redenção.” A paz que experimentei depois do processo de luto foi uma paz incomum. Eu sei disso porque fui finalmente recuperado pelas orações de diversas pessoas benévolas, e porque fui curado por Deus. Essa mesma força que Deus me deu, ele também dá ao espírito de Morvan... Obviamente, eu teria preferido que ele permanecesse comigo, que amadurecesse ao meu lado, livres de máculas, maledicências e invejas. Mas se tivesse continuado da mesma maneira, eu estaria tão próximo de Deus? Bem - não; provavelmente não. O luto revelou que a literatura cura. Os mais complexos dos questionamentos até os mais profundos dos sofrimentos são curados pela literatura. Escrevi sobre ele, muitas vezes e sinceramente. Escrevi e escrevo para ele.
Talvez
ele leia essas palavras pungentes num canto obscuro qualquer do infinito
hermético. Além desses episódios do enigma e das opiniões de solidários, há
também diversas imagens – fotografias. Fotografias não são, obviamente,
argumentos dirigidos à razão; elas são simplesmente dirigidas aos olhos.
Vejamos, pois, quando olhamos para as mesmas fotografias em momentos
diferentes, nem sempre sentimos as mesmas reações. Aqui, à minha frente, há
algumas fotografias. Retratam um estranho amalgama de sonho e realidade em
muitos anos juntos. Uma emoção, uma fortíssima emoção, é o perfume delas. Dez
anos se passaram. Do jardim, vejo o céu de Natal coberto de tons de pérola, e
estremeço sob a saudade e os seus sete véus. A bruma do entardecer desenha o
contorno dos objetos, e mistura as formas e as cores de todas as coisas. Esse
texto é por Morvan. Sei da profunda mágoa que guardei por não ter tido a
oportunidade de estar presente nos seus dias finais, isso me dilacerou durante
muito tempo. Eu me via como um guerreiro, um templário, um Ivanhoé, um Aquiles, um Jesuíno Brilhante, e
falhei. Então
escrevo por um adeus que não dei. Uma
escrita sobre a graça e a tristeza de ainda estar vivo recordando um pedaço de
mim que se foi: algo que não é fácil de se fazer, mas nas
mãos da sensibilidade leva à uma reflexão de esperança necessária neste mundo
artificial no qual vivemos.
Mais do que a minha
Lembra-te, meu ódio-amor,
Das cores que vivíamos
Quando o tempo do amor nos envolvia.
Do ouro. Do vermelho das carícias.
Das tintas de um ciúme antigo
Derramado
Sobre o meu corpo suspeito de conquistas.
Do castanho de luz do teu olhar
Sobre o dorso das aves. Daquelas árvores:
Estrias de um verde-cinza que tocávamos.
E folhas da cor das tempestades
contornando o espaço
De dor e afastamento.
Tempo turquesa e prata
Meu ódio-amor, senhor da minha vida.
Lembra-te de nós. Em azul. Na luz da caridade.
HILDA HILST
(1930 – 2004. Jaú / São Paulo)
Fotografias:
MORVAN FRANÇA
(1987 - 2016. Belo Horizonte / Minas Gerais)
e ANTONIO NAHUD
(1969. Itabuna / Bahia)
Acabo de
reencontrar no silêncio das trevas um fidalgo que se chama Morvan. Pálido como
a neve, olhos melancólicos que se desviam para proteger-me da Morte, além da
miragem noturna. Os longos cabelos castanhos caem sobre o rosto como as folhas
das florestas. Faz 39 anos de idade e dez de encantamento. Feliz aniversário,
querido! Quiçá não me ouça, é dessa espécie de visagem reservada que habita o
crepúsculo da nostalgia. Criatura magnética, demasiado etérea para a experiência
humana. Está na alcova onde aparece quando menos se espera. O espaço à
qual ondula. Aqui, por incrível que pareça, habita por segundos sua aparição
imaterial. Neste momento, esta rede, esta cama, as cadeiras amarelas, este vaso
de cristal com cravos vermelhos passam por uma transformação extraordinária. O
aposento assume o assombrado de um lugar onde se espera o intangível. A Morte
na vertigem do seu conceito cativante. Não receio espectros. Os vivos são
temíveis apenas porque possuem um corpo de carne e ossos, simples assim. Portanto, me dou
conta de que nada devo temer. Sei também que nada posso oferecer além da desgastada fidelidade.
O coração bate emocionado ao enxergar uma vez mais esse consorte sedutor tantas vezes beijado. Beijos voluptuosos para não se esquecer. Ele reaparece com uma tempestade de lembranças e de eternidade, numa zona imaginária na qual não tenho permissão de entrar. Eu o sinto tão próximo. Entre a Morte e nós, não existe senão a dimensão lírica conceitual. Desnudo-me como se quisesse me sacrificar ao Nada, doar um pouco de mim, um pouco de nós. Então, ele flutua, em silêncio, pássaro do seu próprio abismo. Imóvel em pleno vazio, abre os braços lentamente em minha direção e se dilui pouco a pouco. Seu destino, o inominável que abriga o castelo da eternidade. A Morte o conduz de volta ao túnel indecifrável. Dez anos passados da sua partida, e a seguir – num piscar de olhos - virão rapidamente outros dez. Ah! Não há como deter o Tempo. Lembro-me da sua inaptidão para o convívio em sociedade, sua falta de jeito, seus projetos inacabados, suas longas caminhadas e seu amor pelo campo. Desfiava os nomes de seus heróis favoritos, todos escritores ou poetas – Shakespeare, Dostoievski, Pessoa, Guimarães Rosa, Hesse, Orwell, Suassuna, Lispector, Verlaine, Rimbaud!
O coração bate emocionado ao enxergar uma vez mais esse consorte sedutor tantas vezes beijado. Beijos voluptuosos para não se esquecer. Ele reaparece com uma tempestade de lembranças e de eternidade, numa zona imaginária na qual não tenho permissão de entrar. Eu o sinto tão próximo. Entre a Morte e nós, não existe senão a dimensão lírica conceitual. Desnudo-me como se quisesse me sacrificar ao Nada, doar um pouco de mim, um pouco de nós. Então, ele flutua, em silêncio, pássaro do seu próprio abismo. Imóvel em pleno vazio, abre os braços lentamente em minha direção e se dilui pouco a pouco. Seu destino, o inominável que abriga o castelo da eternidade. A Morte o conduz de volta ao túnel indecifrável. Dez anos passados da sua partida, e a seguir – num piscar de olhos - virão rapidamente outros dez. Ah! Não há como deter o Tempo. Lembro-me da sua inaptidão para o convívio em sociedade, sua falta de jeito, seus projetos inacabados, suas longas caminhadas e seu amor pelo campo. Desfiava os nomes de seus heróis favoritos, todos escritores ou poetas – Shakespeare, Dostoievski, Pessoa, Guimarães Rosa, Hesse, Orwell, Suassuna, Lispector, Verlaine, Rimbaud!
| morvan frança |
Depois do banquete, assistimos “Na Natureza Selvagem” outra vez. Talvez foi o filme da sua vida. Suas mãos se perdiam no meu corpo como num vale palpitando a primavera. Por fim, deitamo-nos na rede, conversando. Falávamos com cumplicidade, mantendo, sem dificuldade ou artifícios, uma prosa sobre as ideologias e a política, a violência e a paz, o barbarismo e a civilização – questões todas, na verdade, que faziam parte das nossas preocupações morais e intelectuais. Sempre procurei ter algum conhecimento de política, é obviamente necessário para entender as disputas que corroem o mundo. A pessoa desinformada, com uma mente pouco treinada, provavelmente não poderia tratar dessas indagações de maneira satisfatória. A política está, pois, além da compreensão da mente pouco instruída. Então, discutíamos política com realismo. Ele não acreditava no Planalto, no Congresso, não tinha convicção. Confessou-me encabulado fingir aprovar a esquerda para evitar a marginalização universitária. Pediu que eu contasse minha trajetória política, ouviria com atenção.
De volta ao passado, falei da origem e educação em uma família grapiúna unida e conservadora, de como um culto pai advogado respeitava o Regime Militar e desprezava os comunistas. Segundo ele, era uma época de progresso, ordem e segurança. Por fim, recordei Antônio Carlos Magalhães, o governador e senador baiano que eu via com bons olhos por transformar a Bahia num polo turístico internacional, restaurar a arquitetura histórica, acreditar em artistas, frear a violência e dar asilo aos moradores de rua. Expliquei que votava nos tucanos por não haver em quem acreditar. Foi um diálogo expressivo, imparcial. No seu último aniversário juntos, cinco anos depois, em Maxaranguape, na Árvore do Amor, pensativo e distante, ele disse avistando o mar: “O horizonte olha dentro de tua imensidão, Antonio”. Uma frase arrebatadora, inesquecível, e tristonha por me parecer um adeus. Meses depois ele se foi inesperadamente. Ao vê-lo morto, apodrecido na morgue, reconheci aqueles cabelos cobertos por um enxame de estrelas e aqueles olhos abençoados como os únicos pedaços que lhe haviam restado do humano. Estava branco como um lírio. Não era agradável de se olhar.
![]() |
| galinhos 01 |
Para aqueles que sofrem, o tempo não existe. Cada hora de um martírio é um relâmpago de séculos. De joelhos, engolia a dor, incapaz de acrescentar alguma salvação ao peso sádico da angústia. Caía inesperadamente ao chão com os braços abertos, derrubado pelo peso dos próprios sentimentos. Além da dor e da frustração da finitude, torturei-me com a ausência dele no dia a dia. Era um sentimento complexo, existia a raiva, a indignação, a saudade e a tristeza. Com o luto, me fechei completamente. Em sensações transcendentais, tive uma amplitude capaz de alcançar diferentes estados emocionais. Se no cotidiano era um homem intenso, alegre, gentil e carismático, depois da morte de Morvan perdi de uma só vez tudo isso. A devastação íntima estampada no rosto. O luto, uma jornada desesperada. O coração fechado para o mundo. Nunca pensei em me matar. Esquecem-se muito depressa os mortos. Nu, deitado sobre o assoalho, esforçando-me por imitar o cadáver deformado, eu me deixava corroer pelos vermes das lembranças.
Após mais de um ano de dor, renasci imune ao
sombrio. Havia
perdido tudo, restava-me Deus. Foi a salvação. Tudo o que nos acontece é
Deus. A Morte é Deus, a vida é Deus, o amor é Deus, a saudade é Deus. Quando me libertei dos demônios, tornei-me soldado
de Deus. Fui remodelado pelas mãos do Senhor. O tempo retomou seu curso ao som
do relógio de Deus. Memória, perda, amor, identidade e a natureza do
real ganharam um novo contorno diante da presença magnífica e avassaladora de
Deus, com sua atmosfera santa. Não me dou muito bem com a tristeza. Falta-me
o hábito de ser desolado. Felizmente já não tenho nada a temer. Mantive uma
visão romântica, transformando a realidade através do aprendizado espiritual e
filosófico. Resiliente, evito mergulhar nas sombras. Dez anos se
passaram. Concluí que não se tratou de um suicídio. Tratou-se da fuga inconformada
e impulsiva de uma sociedade que não compreendia. Ele era
belo, mas a beleza não passava de um atributo imperdoável a quem faltava o fundamental êxtase sagrado.
Recordo
Morvan, sempre, talvez para sempre, suavemente, sem desespero, sem mágoas dos nossos algozes, nem mesmo choro
mais.
![]() |
| galinhos 02 |
Quando a tocamos, não é o toque que experimentamos, mas a nossa consciência do toque. Atingimos o delírio amoroso através de uma série de aventuras sobre a sintonia e a intimidade erótica. É claro que uma união feliz é resultado de muitas situações e apenas algumas delas estão sob nosso controle. Mas o que controlamos não pode ser negligenciado. Deitado sobre o outrora como sobre uma terra fecunda, conto nossa história, celebrando o artista inspirado, de caráter refinado, que sempre foi. Sim, ele partiu para o país das fontes, dos tesouros, dos germes. O que devo contar? A memória é imprevisível. Não sei o que vem a seguir, ou o que virá depois. Uma narrativa honesta articula diferentes formas de lidar com o luto, mergulhando num percurso acidental de sofrimento para a seguir imortalizar o ente desaparecido através da escrita e dividir o fardo da perda com os leitores indiscretos. Faço, em primeiro lugar, um esboço da pessoa a quem o testemunho é endereçado. Sem alguém interessado e respirando do outro lado da tela ou da página, as biografias são inúteis.
Todos esses anos pensei gentilmente em Morvan. Estive com ele em sonhos, vultos e assombrações. Eu envelheci. E envelhecerei mais. Recordo a noite em que passeamos de mãos dadas à margem de um grande lago sob o luar. E de repente, ele estava ali, com as mãos estendidas diante das águas e da escuridão, dizendo: “Tenho um peso na alma. Durante minha vida, não fiz ninguém feliz, nem meus amantes, nem minha família, sequer eu mesmo. Talvez nesse momento eu o faça feliz, por isso talvez esteja feliz e me identifique profundamente com nossa afeição.” Como estava formoso ao contar seu segredo. Era o homem mais belo do mundo. Onde estará ele e porque me abandonou? Seu falecimento assinala um precipício, um abismo tão fundo cavado entre nós que ao escrever, pergunto-me se é auspicioso fazer essas memórias chegar ao desconhecido. Ele era tão espirituoso e tão sábio. Ele dizia que eu era um leopardo, um carvalho, o topo de uma montanha verdejante. Sentia o mundo, com toda a sua variedade, e a vida, com toda a sua complexidade.
![]() |
| galinhos 03 |
A co-dependência com o bucólico, com o mais natural e campestre, o distanciava da vulgaridade. Havia arrebatamento em seus movimentos. Havia também uma necessidade secreta que pudesse amarrar sua mente à deriva. O gosto pelos livros era frequente. Citava extraordinários pensadores como Ortega y Gasset, Hayek, Popper, Raymond Aron e Isaiah Berlin. Em Morvan estava estranhamente presente muitos estados de espírito – desânimo, indolência, indiferença, paixão, delírio, amor pela solidão. Eu o sentia quase como uma figura mística, com sentimentos fluídos e indecifráveis. Até os sonhos mais simples e recorrentes, com ele caminhando pelo bosque ou com um colibri pousado na mão, são dotados desse feitiço. Eu sou apenas um sujeito do intelecto, da linguagem e do pensamento. Da nossa atração e convivência nasceu um romance bonito, com admiração mútua, cada um à sua maneira. É importante ressaltar que, na noite em que nos conhecemos, ele contou-me a sua versão da tragédia shakespeareana de Hamlet e Ofélia. Era uma vidência.
Noutros tempos, ouvimos a sentença inusitada de uma rezadeira, Angelina, no Açude Gargalheiras, no Seridó, que nos vaticinou: “Dois garotos abençoados com destino funesto. É uma arapuca de tempos antigos, envolve maldade e mandinga. Aproveitem os dias e as noites de cabeça erguida e prazer incondicional, noutro século virá a redenção.” A paz que experimentei depois do processo de luto foi uma paz incomum. Eu sei disso porque fui finalmente recuperado pelas orações de diversas pessoas benévolas, e porque fui curado por Deus. Essa mesma força que Deus me deu, ele também dá ao espírito de Morvan... Obviamente, eu teria preferido que ele permanecesse comigo, que amadurecesse ao meu lado, livres de máculas, maledicências e invejas. Mas se tivesse continuado da mesma maneira, eu estaria tão próximo de Deus? Bem - não; provavelmente não. O luto revelou que a literatura cura. Os mais complexos dos questionamentos até os mais profundos dos sofrimentos são curados pela literatura. Escrevi sobre ele, muitas vezes e sinceramente. Escrevi e escrevo para ele.
![]() |
| morvan |
“Tentei
tirar você da cabeça de diversas maneiras insanas, e não deu. És irreversível.
Sabe que este mundo em que sobrevivemos nunca foi do meu agrado. Insisti neste
deserto social e cultural potiguar apenas pra estar no mesmo ar que você
respira. Mas não dá mais pra suportar a mediocridade exterminando tudo de bom e
belo. Estou indo. Pena que eu não soube cuidar de nós. Um beijo daqueles
nossos, cabulosos.”
(Enviada dois meses antes de morrer. Ele estava de mudança para
Galinhos. Eu optei por não responder)
No RIACHO do SATÉLITE
O POETA
Antonio Nahud
O fim é o princípio.
O Poeta pode ser o mundo.
Uma página arbórea que renasce.
A palavra peregrina em folha áspera.
O mel do que existe, e resiste.
A História caiada de sangue. Desde sempre.
Clara Camarão na hora inimiga,
tesouros do corsário Lafitte,
olhos de sobressalto de Lampião,
Cascudo, jangadas, enigmas à meia-luz.
Atenção!
O Poeta é o alvo.
Sem destino, por um triz,
sob o céu armorial,
devora imagens, fracassos,
calmarias, ausências,
e espantos.
É todos os nomes,
todas as cores,
todos os corpos suados,
a inaudita terra sagrada,
e os vales invisíveis do cu do mundo.
Musgos e fósseis.
Algas e pérolas.
Pântanos e mangues.
Labirintos e amplidão.
Baobás,
mangueiras,
vagalumes,
satélites e alienígenas,
luas incendiadas,
casas barrocas antigas,
mortes anunciadas,
frutos de ouro,
águas sedentas.
O Poeta tem o Coração na mão.
O ponto de encontro.
De quem pensa. De quem faz pensar.
O que o oprime é essa
seca
líquida
indizível
que salta pelos olhos,
em noites de ninguém, e
suspiros inumados.
E ele canta!
pele tatuada de experiências,
floresta de jade,
árvores afáveis em simetria.
Sortilégios à espreita.
Tocaias,
abelhas minuciosas,
mandacarus em flor,
jazz melancólico,
rios e chuvas repentinas,
pitanga e graviola,
colibris que choram,
caracóis,
paisagens de vertigem,
tempestades
e mar aberto.
Os versos de bronze são seus. E de todos.
E a poeira que valsa nas bibliotecas.
O pânico que nos aprisiona
e a violência náufraga.
O Poeta fala de guerra e paz,
de raízes que gemem,
milagres e ferocidades,
cárceres e lápides,
reinos e oráculos,
colmeias e relíquias,
Deus e o Diabo.
É tradição, nódoa e vocação.
Vassalo e imperador.
Triste figura e seiva de querubins.
Misericórdia e furtiva desilusão.
Literatura úmida de dor e de esplendor.
Janela andrógina para a solidão.
Sol, sertão, maldição.
O Poeta – tão louco e tão belo! –
enfeitiçado e sem ninguém
acaricia lâminas.
Antonio Nahud
O fim é o princípio.
O Poeta pode ser o mundo.
Uma página arbórea que renasce.
A palavra peregrina em folha áspera.
O mel do que existe, e resiste.
A História caiada de sangue. Desde sempre.
Clara Camarão na hora inimiga,
tesouros do corsário Lafitte,
olhos de sobressalto de Lampião,
Cascudo, jangadas, enigmas à meia-luz.
Atenção!
O Poeta é o alvo.
Sem destino, por um triz,
sob o céu armorial,
devora imagens, fracassos,
calmarias, ausências,
e espantos.
É todos os nomes,
todas as cores,
todos os corpos suados,
a inaudita terra sagrada,
e os vales invisíveis do cu do mundo.
Musgos e fósseis.
Algas e pérolas.
Pântanos e mangues.
Labirintos e amplidão.
Baobás,
mangueiras,
vagalumes,
satélites e alienígenas,
luas incendiadas,
casas barrocas antigas,
mortes anunciadas,
frutos de ouro,
águas sedentas.
O Poeta tem o Coração na mão.
O ponto de encontro.
De quem pensa. De quem faz pensar.
O que o oprime é essa
seca
líquida
indizível
que salta pelos olhos,
em noites de ninguém, e
suspiros inumados.
E ele canta!
pele tatuada de experiências,
floresta de jade,
árvores afáveis em simetria.
Sortilégios à espreita.
Tocaias,
abelhas minuciosas,
mandacarus em flor,
jazz melancólico,
rios e chuvas repentinas,
pitanga e graviola,
colibris que choram,
caracóis,
paisagens de vertigem,
tempestades
e mar aberto.
Os versos de bronze são seus. E de todos.
E a poeira que valsa nas bibliotecas.
O pânico que nos aprisiona
e a violência náufraga.
O Poeta fala de guerra e paz,
de raízes que gemem,
milagres e ferocidades,
cárceres e lápides,
reinos e oráculos,
colmeias e relíquias,
Deus e o Diabo.
É tradição, nódoa e vocação.
Vassalo e imperador.
Triste figura e seiva de querubins.
Misericórdia e furtiva desilusão.
Literatura úmida de dor e de esplendor.
Janela andrógina para a solidão.
Sol, sertão, maldição.
O Poeta – tão louco e tão belo! –
enfeitiçado e sem ninguém
acaricia lâminas.
Em GALINHOS
MORVAN
NESTE BLOG
01
A ALQUIMIA FOTOGRÁFICA de MORVAN
https://cinzasdiamantes.blogspot.com/2014/11/alquimia-fotografica-de-morvan-franca.html
02
ANATOMIA da AUSÊNCIA
http://cinzasdiamantes.blogspot.com/2018/02/como-se-fosse-de-cristal-ou-anatomia-da.html
03
ENTRE o AMOR e o TEMPO: LUPE & MORVAN
https://cinzasdiamantes.blogspot.com/2020/03/entre-o-amor-e-o-tempo-lupe-morvan.html
04
INTERLÚDIO - 29 vezes MORVAN
http://cinzasdiamantes.blogspot.com/2017/03/interludio-29-vezes-morvan.html
05
A LUZ dos VAGA-LUMES
https://cinzasdiamantes.blogspot.com/2022/06/luz-dos-vagalumes_24.html
06
MORVAN: ENCONTRO MARCADO
https://cinzasdiamantes.blogspot.com/2016/07/morvan-encontro-marcado.html
07
SONHOS são MENSAGENS das PROFUNDEZAS
https://cinzasdiamantes.blogspot.com/2025/05/sonhos-sao-mensagens-das-profundezas.html
01
A ALQUIMIA FOTOGRÁFICA de MORVAN
https://cinzasdiamantes.blogspot.com/2014/11/alquimia-fotografica-de-morvan-franca.html
02
ANATOMIA da AUSÊNCIA
http://cinzasdiamantes.blogspot.com/2018/02/como-se-fosse-de-cristal-ou-anatomia-da.html
03
ENTRE o AMOR e o TEMPO: LUPE & MORVAN
https://cinzasdiamantes.blogspot.com/2020/03/entre-o-amor-e-o-tempo-lupe-morvan.html
04
INTERLÚDIO - 29 vezes MORVAN
http://cinzasdiamantes.blogspot.com/2017/03/interludio-29-vezes-morvan.html
05
A LUZ dos VAGA-LUMES
https://cinzasdiamantes.blogspot.com/2022/06/luz-dos-vagalumes_24.html
06
MORVAN: ENCONTRO MARCADO
https://cinzasdiamantes.blogspot.com/2016/07/morvan-encontro-marcado.html
07
SONHOS são MENSAGENS das PROFUNDEZAS
https://cinzasdiamantes.blogspot.com/2025/05/sonhos-sao-mensagens-das-profundezas.html






.jpg)














