julho 31, 2020

........................................................... ANTES de TUDO



Há um prazer nas florestas desconhecidas;
Um entusiasmo na imensidão solitária;
Uma sociedade onde ninguém penetra;
Pelo mar profundo e música em seu rugir;
Amo não menos o homem, mas mais a natureza...
LORD BYRON
(Londres, Reino Unido. 1788 – 1824)


No princípio era o assombro provocado pela mata. Vasta beleza povoada por uma solidão espessa. Mas não era só a poderosa boniteza. As árvores respiravam, enxergavam, sabiam tudo. Todas olhos, todas enigma, tanto faz. Nada escapava a sua visão vigilante, no verde onde foram viver e morrer homens e seus sonhos de glória. Vindos de longe, fugindo da pobreza, ainda nostálgicos do chão dos agrestes ou da brisa fresca do mar, dividiam território com animais e plantas que não eram servos.

Enfrentando chuvas que não cessavam de cair, feras e desconforto, montanhas e desfiladeiros perigosos, pântanos e enchentes, eles fincaram abrigos para plantar sementes de famílias. Cultura e civilização, num caldeamento permanente de costumes e tradições. Cercados por um profundo silêncio. Na escuridão, na dança dos vaga-lumes, no perfume das flores sem nome. Na mata profunda da qual jamais escapariam. Selva perigosa da onça faminta e da serpente que rasteja.

Deus cuidava de tudo, dos infortúnios, dos rios, dos bichos, do desassossego. A terra selvagem era a igreja dos homens. Ali cresceram e multiplicaram-se. Fundaram vilas e façanhas, lendas e vergonhas. Colheram, produziram, gastaram. Dominaram o ferro e o couro. A madeira e a pedra. O espinho e a flor. A ignorância e o insano. Quando a civilização se fez por inteiro, e o olhar avistava a vastidão das serras, dos grotões e dos vales, os rudes senhores mandavam e os sanguinários jagunços matavam.

Casas plantadas à beira do céu. O pé direito elevado para afugentar o calor, ao sopro da viração dos dias e das noites, sob o lirismo das estrelas e o mormaço do telhado. Pequenas fortalezas, rústicas e altaneiras, protegendo vidas e erotismo, honra e suor. Numa delas, nas terras do sem fim do sul da Bahia, arrancados do fim do mundo, floresceram meus ancestrais de várias raças. E aqui estou, mais de um século depois, com um passado épico e brutal correndo nas veias.


junho 29, 2020

......................... O ELOGIO CONSERVADOR: 21 ESCRITORES

gilberto freyre


“Quem não lê, não pensa, e quem não pensa será para sempre um servo.”
PAULO FRANCIS


Após décadas de doutrinamento de esquerda, ser de direita já não provoca constrangimento. Não significa ser socialmente insensível e reacionário. Nem sequer indica conservadorismo dos costumes. Já não é um sinal de inferioridade intelectual, nem de indiferença à injustiça ou ideologia das classes altas. E tudo isto é novo. Afinal, a esquerda tem sido invasora nos media, na cultura. Para nem falar da política, onde os partidos mais à direita se dizem centristas. Durante muito tempo, ser de direita era quase um crime. Para muitos, algo inconfessável. Felizmente as redes sociais democratizaram o debate. A blogosfera e os canais no Youtube tornaram possível aos cronistas de direita ocuparem lugares que eram monopolizados pelos de esquerda. Agora não há filtros, qualquer um pode exprimir-se e conquistar audiências. 

Mas afinal o que é realmente o conservadorismo? É um pensamento político que defende a manutenção das instituições sociais tradicionais – como a família, a comunidade local e a religião -, além dos usos, costumes e tradições. Enfatiza a continuidade e a estabilidade das instituições, opondo-se a movimentos revolucionários e ao politicamente correto. O conservador pensa na política como um meio de preservar a ordem, a justiça e a liberdade. 

O assunto, depois de anos de silêncio, vem circulando em inúmeros livros. Além dos livros editados, ou reeditados, uma série de analistas de direita está ocupando espaço na internet. Tudo começou com os blogues, depois uma série de cronistas que se instalaram nos media tradicionais, publicam livros, fazem conferências, comentam em seus canais. Olavo de Carvalho, Bernardo Küster, Flávio Morgenstern ou Luiz Felipe Pondé são nomes que nos últimos anos ascenderam a um estatuto de estrelato até então reservado aos intelectuais de esquerda.

Figuras das gerações anteriores, como Paulo Francis ou Roberto Campos, ganharam mais exposição mediática. Jornalistas e cronistas de direita criaram blogues, alguns populares, e surgiu um jornal, online, com tendência assumidamente de direita, o “Brasil Sem Medo”. A cultura de direita está finalmente ocupando o seu espaço. Os novos gurus expõem as suas teorias e comentam a realidade como só era costume brotar da escrita de esquerda. E têm muitos seguidores.

O Brasil sempre contou com grandes intelectuais conservadores. Entre eles, o polêmico Paulo Francis, famoso pela língua afiada, que anunciou sua mudança para a direita após o final do regime militar. Outro nome importante, o professor Wilson Martins brilhou em seu papel de crítico literário. O consagrado Machado de Assis também era conservador, embora sua obra literária não seja engajada, tratando dos sentimentos humanos. Um dos maiores estudiosos da cultura brasileira, o potiguar Câmara Cascudo, autor de trabalhos como O Dicionário do Folclore Brasileiro”, foi coordenador do movimento integralista no Nordeste, mantendo-se próximo do Tradição, Família e Propriedade e de militares pós 1964.

Certamente o conservador mais amado - e citado - do Brasil, Nelson Rodrigues, nunca se envergonhou desse status. Ao contrário, fez de sua ideologia sua marca registrada, com frases e tiradas espirituosas que ainda hoje são repetidas. Era, acima de tudo, um provocador: “Sou reacionário. Minha reação é contra tudo que não presta”. Não perdia uma chance de atacar o feminismo: “As feministas querem reduzir a mulher a um macho mal-acabado”. Profundo observador da alma humana, investia contra o comunismo incansavelmente: “Eu amo a juventude como tal. O que eu abomino é o jovem idiota, o jovem inepto, que escreve nas paredes ‘É proibido proibir’ e carrega cartazes de Lenin, Mao, Guevara e Fidel, autores de proibições mais brutais”.

Com tantos escritores conservadores resgatados, pode ser difícil saber quem ler. Esta lista abaixo oferece uma mistura de escritores brasileiros com diferentes estilos de escrita. Cada um deles escreveu sobre questões importantes, incluindo economia e mercado livre, política externa e nacional, ficção, ensaios literários e poesia. Sinta-se livre para viajar na obra deles.

21 ESCRITORES brasileiros CONSERVADORES

01
ADONIAS FILHO
(Itajuípe, Bahia. 1915 – 1990)


Três obras:
Servos da Morte (1946)
Corpo Vivo (1962)
As Velhas (1975)

02
ALCEU AMOROSO LIMA
(Petrópolis, Rio de Janeiro. 1893 – 1983)


Três obras:
Meditações sobre o Mundo Interior (1953)
Os direitos do Homem e o Homem sem Direitos (1975)
Tudo é Mistério (1983)

03
AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT
(Rio de Janeiro, RJ. 1906 - 1965)


Três obras:
Canto do Brasileiro (1928)
Pássaro Cego (1930)
Estrela Solitária (1940)

04
BRUNO TOLENTINO
(Rio de Janeiro, EJ. 1940 - 2007)


Três obras:
Os Deuses de Hoje (1995)
A Balada do Cárcere (1996)
O Mundo como Ideia (2002)

05
CORNÉLIO PENNA
(Petrópolis, Rio de Janeiro. 1896 - 1958)


Três obras:
Fronteira (1935)
Repouso (1948)
A Menina Morta (1954)

06
GERARDO MELLO MOURAO
(Ipueiras, Ceará. 1917 - 2007)


Três obras:
O País dos Mourões (1963)
Os Peãs (1982)
O Sagrado e o Profano (2002)

07
GILBERTO FREYRE
(Recife, Pernambuco. 1900 - 1987)


Três obras:
Casa-Grande & Senzala (1933)
Sobrados e Mucambos (1936)
Interpretação do Brasil (1947)

08
GUSTAVO CORÇÃO
(Rio de Janeiro, RJ. 1896 - 1978)

Três obras:
Claro Escuro (1958)
Patriotismo e Nacionalismo (1960)
O Século do Nada (1973)

09
JORGE de LIMA
(União dos Palmares, Alagoas. 1893 – 1953)


Três obras:
Tempo e Eternidade (1935)
Poemas Negros (1947)
Invenção de Orfeu (1952)

10
JOSÉ GUILHERME MERQUIOR
(Rio de Janeiro, RJ. 1941 - 1991)


Três obras:
Razão do Poema (1965)
De Anchieta a Euclides (1977)
O Marxismo Ocidental (1987)

11
JOSUÉ MONTELLO
(São Luís, Maranhão. 1917 - 2006)


Três obras:
Os Tambores de São Luís (1965)
Duas Vezes Perdida (1966)
Perto da Meia-noite (1985)

12
LUÍS da CÂMARA CASCUDO
(Natal, Rio Grande do Norte. 1898 - 1986)


Três obras:
Vaqueiros e Cantadores (1939)
Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
Flor dos Romances Trágicos (1966)

13
MACHADO DE ASSIS
(Rio de Janeiro, RJ. 1839 - 1908)


Três obras:
Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)
Quincas Borba (1891)
Dom Casmurro (1899)

14
MANUEL BANDEIRA
(Recife, Pernambuco. 1886 - 1968)


Três obras:
A Cinza das Horas (1917)
Libertinagem (1930)
Estrela da Vida Inteira (1968)

15
NELSON RODRIGUES
(Recife, Pernambuco. 1912 - 1980)


Três obras:
Asfalto Selvagem: Engraçadinha, Seus Pecados e Seus Amores (1959)
O Óbvio Ululante: Primeiras Confissões (1968)
O Reacionário: Memórias e Confissões (1977)

16
OCTÁVIO de FARIA
(Rio de Janeiro, RJ. 1908 - 1980)


Três obras:
Desordem no Mundo Moderno (1930)
Maquiavel e o Brasil (1931)
Três Novelas da Masmorra (1968)

17
OLAVO DE CARVALHO
(Campinas, São Paulo. 1947)


Três obras:
O Jardim das Aflições: de Epicuro à Ressurreição de César - Ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil (1995)
O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras (1996)
O Mínimo que Você Precisa Saber para não Ser um Idiota (2013)

18
OTTO MARIA CARPEAUX
(Viena, Áustria. 1900 - 1978)


Três obras:
Pequena Bibliografia Crítica da Literatura Brasileira (1951)
História da Literatura Ocidental (1959-1966)
O Brasil no Espelho do Mundo (1965)

19
PAULO FRANCIS
(Rio de Janeiro, RJ, 1930 - 1997)


Três obras:
Cabeça de Papel (1977)
O Afeto que se Encerra (1980)
Trinta Anos Esta Noite – 1964: O Que Vi e Vivi (1994)

20
ROBERTO CAMPOS
(Cuiabá, Mato Grosso. 1917 - 2001)


Três obras:
Ensaios Contra a Maré (1969)
Ensaios Imprudentes (1987)
Guia para os Perplexos (1988)

21
WILSON MARTINS
(São Paulo, SP. 1921 - 2010)


Três obras:
A Crítica Literária no Brasil (1952)
A Ideia Modernista (1965)
História da Inteligência Brasileira (1976-79)



maio 16, 2020

................... “O CORAÇÃO DELATOR”, de EDGAR ALLAN POE



Ilustrações:
VIRGIL FINLAY
(Rochester, Nova Iorque, EUA. 1914 – 1971)


Não há autoridade no mundo do horror que não esteja protegido da influência de EDGAR ALLAN POE (Boston, Massachusetts, EUA. 1809 - 1848). Ele é considerado um dos grandes mestres da literatura universal e o pai das histórias de terror. Seus contos têm sido a fonte dos pesadelos mais grotescos e, por gerações, inspiraram incontáveis obras literárias, artes plásticas, música, teatro e cinema.

O meu conto favorito do escritor é O CORAÇÃO DELATOR ou “The Tell-Tale Heart”. Foi publicado pela primeira vez em 1843. Ele é contado por um narrador sem nome que se esforça para convencer o leitor de sua sanidade mental, ao descrever um assassinato que cometeu. A morte é cuidadosamente calculada e o assassino esconde o corpo sob o assoalho. A sua culpa começa a se manifestar na forma do som alucinatório do coração da vítima ainda batendo.

A história saiu na edição inaugural da “Pioneer”, uma revista de curta duração. EDGAR ALLAN POE provavelmente recebeu apenas US $ 10 pelo trabalho. A publicação original incluía uma epígrafe do poema “Salmo da Vida”, de Henry Wadsworth Longfellow. Sua primeira adaptação para o cinema foi em um filme mudo de 1928, dirigido por Leon Shamroy e estrelado por Otto Matieson como “o insano”.

Considerado um verdadeiro gênio, criador de uma literatura inquietante, EDGAR ALLAN POE foi contista, poeta e crítico literário. Fez parte do movimento romântico norte-americano e manejou, como nenhum outro, a arte de aguçar a curiosidade pelo imprevisto e pelo terror. Considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebeu crédito por contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Sempre numa atmosfera de suspense, junta em suas narrativas elementos perturbadores como o sobrenatural, o fantástico, o insólito e o macabro. Os contos, repletos de mistério, trazem detalhes minuciosos de sentimentos, lugares e personagens. E envolvem tão profundamente o leitor, que este já não consegue escapar do seu extraordinário universo.

Órfão aos dois anos de idade, o escritor foi criado por um rico comerciante do estado da Virginia. Iniciou sua esmerada educação na Inglaterra e na Escócia, frequentou a Universidade da Virginia onde passou a dedicar-se mais aos jogos e à bebida, não aos estudos. Isso fez com que rompesse suas relações com seu tutor. Em 1827, lançou o primeiro livro de poesias. Expulso da Academia Militar de West Point, entregou-se à literatura, publicando contos em revistas. “O Corvo”, de 1845, é talvez o mais famoso poema da literatura dos Estados Unidos.

Alcoólatra, encontrou no casamento com sua prima Virgínia, de apenas 13 anos, forças para lutar contra o vício e aumentar sua produção literária. Com a morte de Virgínia, vitimada pela tuberculose, voltou ao alcoolismo, passando a viver em constante embriaguez. Em 1849, passa mal em uma taberna de Baltimore e, mesmo socorrido, vem a falecer. “Cinzas e Diamantes” convida você a mergulhar no trabalho lúgubre desse autor atormentado. Confira.


O CORAÇÃO DELATOR

EDGAR ALLAN PÖE
Tradução de S. de M.

Sim! Sou muito nervoso, terrivelmente nervoso, mesmo ― e sempre o fui; mas por que me supõem louco? A doença tornou mais aguçados os meus sentidos ― não os destruiu, não os embotou. Mais do que os outros, tenho uma audição aguçadíssima. Ouço admiravelmente bem todos os sons produzidos no céu e na terra. Tenho ouvido até muitas coisas do inferno. Como posso, pois, ser um louco? Atenção! Reparem bem com que perfeita lucidez, com que tranquilidade de espírito eu vou contar-lhes toda a história.

Ser-me-ia completamente impossível dizer-lhes como primitivamente a ideia entrou no meu cérebro; mas, uma vez concebida, nunca mais me abandonou, noite e dia. Fim, não tinha algum. A paixão foi estranha ao caso, por completo. Eu estimava deveras o pobre velho, que nunca me fizera o menor mal, que nunca me insultara. Nem mesmo invejava o seu dinheiro. Creio que foi o seu olho! Sim foi isso, decerto! Um dos olhos dele parecia os dum abutre ― um olho azul claro, recoberto por uma película nevoenta. Cada vez que esse olho me fitava, sentia gelar-me o sangue; e assim, lentamente ― por graus ― muito gradualmente ―, introduziu-se na minha mente a ideia de arrancar a vida do velho, para, dessa forma, me livrar para sempre daquele olho.
Agora, este é o ponto. Os senhores supõem-me louco. Os loucos não sabem de nada. Se me vissem! Se vissem com que inteligência eu procedia! Com que precaução, com que prudência, com quanta dissimulação eu meti as mãos à obra! Eu nunca fora mais solícito para o velho do que durante a semana inteira que precedeu o crime. E todas as noites, pela meia-noite, levantava o trinco da porta do quarto dele, e abria-a ― oh, tão devagarinho! E então, depois de suficientemente a entreabrir, introduzia no quarto uma lanterna de furta-fogo, fechada, hermeticamente fechada, que não deixava passar um mínimo raio de luz; em seguida metia a cabeça pela abertura! Oh, se vissem teriam rido da destreza com que eu metia a cabeça! Movia-se lentamente ― muito, muito lentamente ―, de maneira a não perturbar o sono do velho. Levei seguramente mais de uma hora para meter a cabeça pela abertura, muito antes de poder vê-lo deitado no leito! Ah! Um louco seria, porventura, tão prudente? Depois, quando tinha a cabeça dentro do quarto, abria a lanterna com precaução ― oh, com que precaução! ― porque o gonzo rangia. Abria então a lanterna de tal modo que o raio de luz fosse justamente incidir no olho de abutre. E fiz isto durante sete longas noites ― cada noite, à meia-noite ―, mas encontrei sempre o olho fechado, de molde a não poder, portanto, concluir o meu trabalho; foi por isso que disse não odiar eu o velho; o que eu odiava era o seu Olho Maldito! E todas as manhãs, logo que o dia nascia, entrava ousadamente em seu quarto, falava-lhe corajosamente, tratando-o pelo seu nome num tom cordialíssimo, e informando-me de como passara a noite. Bem veem que ele seria possuidor de uma dissimulação rara se desconfiasse que, a cada noite, à meia-noite em ponto, eu o examinava enquanto dormia.

Na oitava noite fui ainda mais prudente: abri a porta com mais precaução. A minha mão não fazia mover a porta com mais rapidez do que se move um ponteiro dum relógio. Nunca, como nessa noite, senti tão perfeitamente o poder das minhas faculdades, da minha sagacidade. A custo continha as sensações que o triunfo produzia em mim. Pensar que eu estava ali, abrindo a porta pouco a pouco, sem que ele pudesse sonhar as minhas ações ou meus pensamentos secretos! Ao ter esta ideia não pude deixar de rir um pouco, abafadamente; ele ouviu-me, talvez porque se voltou pesadamente no leito, como se tivesse acordando. Pensam por acaso que eu me retirei por isso? Não! O quarto, de tão profundas que eram as trevas, estava negro como pez, porque as janelas tinham sido fechadas cuidadosamente, por medo dos ladrões; e, sabendo que ele não podia ver a porta entreaberta, continuei a empurrá-la cada vez mais. Eu já passara a cabeça pela abertura, e estava prestes a abrir a lanterna, quando o meu polegar resvalou pelo fecho de ferro, e o velho sentou-se no leito, gritando:

― Quem está aí?

Eu fiquei completamente imóvel e não disse nada. Durante uma hora inteira não movi um só músculo, mas, também, durante esse tempo, não ouvi o velho deitar-se. Continuava, decerto, sentado na cama, de ouvido à escuta, justamente como eu fizera durante sete noites inteiras, escutando o barulho que fazia o pêndulo do relógio de parede.

Mas, de repente, ouvi um gemido fraco, que reconheci como o gemido resultante de um horror mortal. Não era o gemido de dor ou de pesar. Oh, não! Era o ruído surdo e sufocado que se desprende do fundo de uma alma apavorada. Conhecia bem aquele grito. Muitas noites, à meia-noite exata, quando todo mundo dormia, soltara-se de meu próprio peito um gemido igual àquele, excitando com o seu terrível eco os terrores que me atormentavam. Repito que conhecia aquele ruído. Calculava o que o pobre velho sentia, e eu tinha piedade dele, ainda que interiormente eu sorrisse comigo mesmo. Sabia que ele continuava acordado desde que se voltara no leito ao primeiro ruído que eu fizera. Desde então o seu pavor aumentara sempre de intensidade. Ele tentara persuadir-se de que não tinha razão para assustar-se, mas não pudera consegui-lo. Dissera a si mesmo: “Não foi nada, apenas o ruído do vento entrando pela chaminé, ou algum rato que atravessou o quarto”, ou então: “Talvez um grilo que começou a cantar”. Sim, sim, ele se esforçara por encorajar-se com estas hipóteses; mas tudo fora em vão. Tudo fora em vão porque a Morte, que se aproximava, passava diante dele com a sua grande sombra negra, envolvendo, assim, aquela vítima. Era a influência fúnebre da sombra que ele não percebera, que lhe fazia sentir ― apesar de nada ver nem ouvir ―, que lhe fazia sentir a minha cabeça no seu quarto.

Depois de esperar por muito tempo, impacientemente, que ele se deitasse de novo, resolvi entreabrir um pouco a lanterna, mas muito pouco, um quase nada. Entreabri-a com tanta cautela como dificilmente podem imaginar, até que por fim um pálido raio de luz, como um fio de teia de aranha, subiu da abertura, incidindo sobre o olho de abutre.

O Olho Maldito estava aberto, muito aberto, o que me fez enfurecer logo que o fitei. Vi-o com uma perfeita nitidez ― o azul claro coberto com o hediondo véu que me gelava o sangue nas veias; mas eu nada podia ver do rosto ou do corpo do velho, porque dirigia o raio de luz, como por instinto, sobre o ponto maldito.

Em seguida ― eu não lhes disse que o que os senhores tomavam por loucura era uma grande penetração dos meus sentidos? ―, em seguida ouvi um outro ruído surdo, sufocado, contínuo, semelhante a um ruído que pode fazer o pêndulo dum relógio envolvido em algodão. Eu reconheci esse som. Era o bater do coração do velho. Esse som aumentou o meu furor como o rufar do tambor aumenta a coragem de um soldado.

Mas contive-me ainda, e continuei ali, sem me mexer. Somente respirava, conservando a lanterna imóvel para que o raio de luz saído dela continuasse a iluminar o olho maldito. Entretanto, o infernal bater do coração era cada vez mais forte, a cada instante mais precipitado. O terror do velho devia ser extremo! O bater o coração, eu disse, era cada vez mais forte, de instante para instante! Repararam bem em tudo o que lhes disse? Então devem lembrar-se que lhes declarei ser excessivamente nervoso, e, com efeito, eu o sou. Portanto, em plena noite, no meio do silêncio terrível daquela casa, um tão estranho ruído fez com que se apossasse de mim um irremissível terror. Durante alguns minutos ainda, contive-me e continuei calmo. Mas o ruído era cada vez mais forte, sempre mais forte! Cheguei a supor, até, que o coração ia rebentar. E então apoderou-se de mim uma nova angústia: o ruído poderia ser ouvido por algum vizinho! A hora do velho chegara, pois! Saltando um grande grito, abri bruscamente a lanterna, e entrei no quarto. O velho deu apenas um grito, um só, porque eu o lancei no assoalho, virando-o e jogando-lhe sobre o corpo o pesado leito em que antes dormia tranquilamente. Sorri, então, por ver a minha obra tão adiantada. Mas, durante alguns instantes ainda, o coração batia, produzindo um som abafado, que não me incomodou, porque não podia ser ouvido através duma parede. Por fim, cessou. O velho estava morto. Levantei o leito e examinei o corpo. Sim, estava morto, morto e rígido. Coloquei-lhe a mão sobre o coração, conservando-a ali durante alguns minutos. Nem uma pulsação. Ele estava morto e rígido. O seu olho, portanto, não me atormentaria mais!

Se persistirem ainda em supor-me louco, essa suposição evaporar-se-á ao descrever-lhes as inteligentíssimas precauções que tomei para ocultar o cadáver. A noite avançava; comecei, pois, a trabalhar apressadamente, mas em silêncio. Cortei-lhe a cabeça, depois os braços, depois as pernas. Em seguida, despreguei três taboas do assoalho e meti todas as partes do cadáver pelos buracos que elas tinham deixado. Depois preguei de novo as tábuas tão habilmente, tão desveladamente, que nenhum olho humano ― nem mesmo o dele ― poderia descobrir no assoalho o mínimo sinal de que tinham sido levantadas. Não havia o que limpar ― nem uma mancha, nem um pingo de sangue. Procedera muito prudentemente para deixar qualquer vestígio. A tina em que cortara o cadáver absorvera todo o sangue, ha! ha!

Quando acabei a minha obra, pelas quatro horas da madrugada, a escuridão era tão profunda como à meia-noite. No momento exato em que o relógio dava uma hora da tarde, bateram à porta da rua. Desci para abrir alegremente, porque nada tinha a temer dali em diante. Entraram três homens que com toda delicadeza apresentaram-se como agentes de polícia. Um vizinho ouvira um grito, na noite anterior, o que levantara a suspeitar de que um crime teria sido praticado; como fizera a respectiva denúncia no comissariado de polícia, tinham ordenado àqueles senhores que revistassem a casa.

Ao saber qual o fim dos policiais, sorri ― pois o que eu tinha a temer? Declarei-lhes que sentia um verdadeiro prazer em lhes falar, e disse-lhes que o grito ouvido pelo tal vizinho fora eu que o soltara durante um sonho. O meu velho patrão, acrescentei, partira para uma viagem.

Depois desta explicação, mostrei toda a casa aos policiais, convidando-os a procurarem bem. Por último, eu os conduzi ao quarto dele, e mostrei-lhes todos os tesouros do velho, perfeitamente intactos.

No entusiasmo de minha confiança, instei os policiais para que sentassem, para que descansassem um instante; e, com a louca audácia dum triunfo completo, puxei uma cadeira e sentei-me, depois de tê-la colocado exatamente sobre as tábuas que cobriam o corpo da vítima.

Os agentes de polícia estavam satisfeitíssimos. A forma clara e precisa com que eu fizera as declarações convencera-os. Sentia-me singularmente à vontade. Sentaram-se e começaram a falar coisas triviais, às quais que eu respondia alegremente.

Pouco depois, senti que empalidecia, e só pensei em me livrar deles.

Sentia insuportáveis dores de cabeça, e grandes badaladas nos ouvidos; mas os policiais continuavam sentados, sempre falando. As badaladas não acabavam e, pelo contrário, eram cada vez mais distintas. Comecei a falar mais alto para me livrar daquela sensação; mas as badaladas persistiam, tomando um caráter tão puramente definido que, por fim, percebi não se produzir sem os meus ouvidos.

Eu estava muito pálido, sem dúvida ― mas falava sempre, levantando a voz cada vez mais.

O som aumentava sempre ― o que eu podia fazer? Era um ruído surdo, sufocado, frequente, semelhante ao ruído que pode fazer o pêndulo de um relógio envolvido em algodão. Eu respirava a custo. Os policiais nada tinham ouvido.

Conversei com mais verbosidade ― com mais veemência ―, mas o ruído aumentava incessantemente. Levantei-me e comecei a questionar sobre ninharias, num diapasão elevadíssimo e com uma violenta gesticulação; mas o ruído aumentava, aumentava sempre. Por que eles não queriam ir embora? Eu passeava desesperadamente pelo quarto, a grandes passadas, batendo surdamente com os pés no chão, como que exasperado pelas observações de meus contraditores; mas o ruído crescia regularmente. Oh, Deus! O que podia eu fazer? Enraivecia-me, espumava, praguejava. Movia em todos os sentidos a cadeira em que de novo me sentara, fazendo-a ranger sobre o tabuado; mas o ruído aumentava sempre, crescia indefinidamente, tornava-se de instante para instante mais forte ― mais forte! ―, sempre mais forte. E os policiais, sorrindo e palestrando, sempre prazenteiramente!

Seria possível, por ventura, que eles nada ouvissem? Deus onipotente! Não, não! Eles ouviam! Eles suspeitavam! Eles sabiam! Eles divertiam-se com o meu terror! Foi isto que supus, então. É isto que ainda hoje suponho.

Nada mais intolerável para mim que aquela descarada zombaria! Não podia mais suportar aqueles sorrisos hipócritas! Senti que, para não morrer, precisava gritar! E agora ainda, não ouvem? ― Escutem! Mais alto! Sempre mais alto!

― Sempre mais alto, miseráveis! ― gritei para os policiais. ― Não dissimulem por mais tempo! Confesso o crime! Arranquem essas tábuas! É aí que ele está! É aí! E esse som que ouvem é o bater do seu execrável coração.

Publicado originalmente na “Gazeta da Tarde”, Rio de Janeiro, edição de 24 de abril de 1890.

TODA a OBRA do AUTOR

CONTOS

MANUSCRITO ENCONTRADO numa GARRAFA
(MS. Found in a Bottle, 1833)

BERENICE
(Idem, 1835)

MORELLA
(Idem, 1835)

LIGEIA
(Idem, 1838)

A QUEDA da CASA de USHER
(The Fall of the House Of Usher, 1839)

WILLIAM WILSON
(Idem, 1839)

Os ASSASSINATOS da RUA MORGUE
 (The Murders in the Rue Morgue, 1841)

A DESCIDA do MAELSTROM
(1841)

O RETRATO OVAL
(The Oval Portrait, 1842)

A MÁSCARA da MORTE RUBRA
(The Masque of the Red Death, 1842)

O MISTÉRIO de MARIE ROGÊT
(The Mystery of Marie Rogêt, 1842)

O POÇO e o PÊNDULO
(The Pit and the Pendulum, 1842)

O CORAÇÃO DELATOR
(Tell Tale Heart, 1843)

O ESCARAVELHO de OURO
(The Gold-Bug, 1843)

O GATO PRETO
(The Black Cat, 1843)

O ENTERRO PREMATURO
(The Premature Burial, 1844)

A CARTA ROUBADA
(The Purloined Letter, 1844)

O DEMÔNIO da PERVERSIDADE
(The Imp of the Perverse, 1845)

 THE SYSTEM of DOCTOR TARR and PROFESSOR FETHER
 (1845)

Os FATOS que ENVOLVERAM o CASO MR.VALDEMAR
(The Facts in The Case of M. Valdemar, 1845)

O BARRIL de AMONTILLADO
(The Cask of Amontillado, 1846)

Os OITO ORANGOTANGOS ACORRENTADOS
(Hop-Frog, 1849)

POESIA

TAMERLANE (1827)

AL AARAAF (1829)

ALONE (1830)

 The CITY in the SEA (1831)

The COLISEUM (1833)

O VERME VENCEDOR
(The Conqueror Worm, 1827)

THE HAUNTED PALACE (1839)

SILENCE (1840)

LENORE (1843)

EULALIE (1845)

O CORVO
(The Raven, 1845)

ULALUME (1847)

TO HELEN (1848)

A DREAM WITHIN a DREAM (1849)

 ELDORADO (1849)

ANNABEL LEE (1849)

THE BELLS (1849)

OUTRAS OBRAS

A NARRATIVA de ARTHUR GORDON PYM
(The Narrative of Arthur Gordon Pym of Nantucket, 1838)

The BALLOON HOAX (1844)

 FILOSOFIA da COMPOSIÇÃO (1846)

EUREKA (1848)