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março 13, 2024

............................................................. A JUVENTUDE da SANTA MÃE

 

Mãe! São três letras apenas,
As desse nome bendito:
Três letrinhas, nada mais...
E nelas cabe o Infinito
MÁRIO QUINTANA
(1906 – 1994. Alegrete, Rio Grande do Sul / Brasil)
 
Ilustrações: 
TERENCE CLARKE
(1953. Reino Unido)
 

em memória ao incentivo à leitura
dado por meu Pai, com jornais,
livros e revistas em quadrinhos.
 
em memória ao Pai
que pressentia a injustiça social
que se oculta no fundo daquilo
que para outros é a justiça.
 
 
Os sentimentos fazem parte de histórias e lembranças. Enigmáticos são os caminhos do coração. Aqui está minha cândida Mãe. Ungida pela fé, esse mistério que põe no espírito a bondade humana. Não creio que ela seja dada à meditação. Todavia, algumas vezes deve ter refletido sobre sua notável trajetória. Foi boa filha, boa esposa, é boa mãe e boa avó. Foi boa dona de casa, boa cozinheira, boa conselheira. Sabe ser amiga, compreender as fraquezas humanas e estender a mão a quem precisa. O traço singular de sua personalidade, talvez o mais marcante, é a generosidade, sem nunca precisar humilhar ninguém. Reina em casa e, em todo caso, faz bem as coisas. Acredita no Bom Deus e sabe que tudo se passará de acordo com as regras sagradas e não devemos nos atormentar com o destino. Tive a bênção de ser filho dessa senhora virtuosa.
 
Ela foi o alicerce na construção e consolidação do homem que me tornei. Eu hoje sou melhor por ter essa honra de um querer bem maternal a toda prova. Encarando a verdade face a face, meu presente esforço para retomar os fatos e contar sua caminhada me enche, a seu respeito, de uma simpatia cúmplice. A passagem do tempo ilumina a memória e nosso relacionamento. Alimento com substância alquímica para tentar fazê-la viver ou reviver. Eu a amei primeiramente com um amor egoísta e distraído, como a maior parte das crianças. Depois, com uma afeição feita sobretudo ao hábito, perturbada por uma juventude inquieta. Por fim, experimentei um sentimento de ternura, misturado ao alívio de acreditar estar protegido por essa guerreira da perigosa aventura de viver, amparado em sua lição cotidiana de valores morais.
 
O tempo passou sem que eu soubesse como. Conhecer bem as pessoas é quase sempre descobrir relevos e riquezas inesperados. Os seis filhos (Neto, Urbano, Paulo, Marcelo, Anna Áurea e eu) de Lurdinha sempre foram sua prioridade, e ela até se anula para dedicar total atenção a todos. Compartilhamos anos cúmplices. De grande beleza, Mamãe é um exemplo. Iluminada, resiliente, incapaz do mal. Nas ruas em que moramos, era uma discreta mãezona da vizinhança. Sobrava delicadeza para distribuir com parentes e vizinhos. Tocando o lar o dia inteiro, também cantarolava, ouvia rádio, via telenovelas e lia as revistas femininas típicas. A sua risada é linda, além do olhar suave de apurados olhos negros. Uma senhora deslumbrante! Todos são encantados por ela. É o nosso orgulho, nosso maior amor.
 
O ciumento Papai a amava apaixonadamente, mas infelizmente morreu jovem e ela continuou na cara e na coragem protegendo seus filhos, sem cogitar outro relacionamento. Eu mudei de cidade e de país, mas meus sentimentos por ela permaneceram blindados. Com a alma em choro, disfarçava o semblante de uma Mãe de filho ausente. Quem se deu bem foram meus irmãos, que ganharam a minha cota no carinho diário. Afinal, amar é como uma chuva fertilizante dentro da alma; é benevolência que se mantém firme, independente do tempo e da distância. Estou longe do alcance dos seus braços, mas diariamente nos falamos. Ela costuma encerrar seus telefonemas com um “Filho, eu te amo, sinto saudades”. Emocionante. Que Deus a continue abençoando.
 
Os Anjos quebram as regras e fazem milagres para os honestos e generosos. Mamãe nunca esteve ciente das suas qualidades. Ela pensa mais nos outros do que em si. Toda sua vida se resume a uma série de sacrifícios para sua família, seus amigos e até mesmo para pessoas que nem são tão próximas. O Céu sabe disto. Neste momento, ela está atravessando um período doloroso. É uma senhora idosa, beirando os 90 anos, fisicamente frágil, entretanto lúcida. Precisando de cuidados apurados, fechou sua casa e foi morar com um dos filhos, Urbano, sua esposa Rafaela e dois netos meninos. Tem cobertura médica, fisioterapia, boa alimentação e afeição familiar. Os filhos sempre por perto. Católica incondicional, assiste missa na TV, faz palavras-cruzadas, recebe visitas, passa os sábados na sua fazenda Bela Vista, em Itapé. E após altos e baixos ao longo da existência, é de se surpreender sua crença no próximo. Os turbilhões dramáticos, as dificuldades privadas, a preocupação por aqueles que queria ajudar. Levou em suas costas um fardo muito pesado, mas sem merecer! Bem pelo contrário, suas lutas, sua coragem para vencer os obstáculos, causam admiração. Raramente as emoções negativas tomam conta da sua mente, nem sua alma se cansou. Jamais assumiu uma carga tóxica, tampouco construiu uma muralha entre ela e os bons sentimentos. Na juventude de Lurdinha, as mulheres criavam muitos filhos com a diferença de idade de um ano, um ano e meio, de um para outro. Uma diferença muito pequena, uma escadinha. Tudo era mais difícil, mais lento, demorava mais. Mas havia cuidado, zelo.
 
Não tinha máquina de lavar, fralda descartável, produtos sofisticados de limpeza. Os pisos eram de tacos, precisavam ser encerados para mantê-los limpos e brilhantes. O vestuário durava, reaproveitado pelos irmãos mais novos. Não havia utensílios ultramodernos, mas as roupas sempre limpas e passadas, a casa organizada, a comida na mesa, os filhos educados e respeitosos. A mulher daquele tempo não tinha as facilidades da mulher de hoje. Os filhos lavavam a louça, limpavam o chão, molhavam plantas, alimentavam os animais, ajudavam no serviço doméstico. Sobrecarregada, a Mãe reforçava princípios, o certo e do errado, cuidava da agenda dos filhos. Cumpria o papel de proteger o núcleo familiar. Lurdinha é dessa época em que as donas de casa faziam milagres.
 
Ela nasceu em 27 de abril de 1936. Ganhou o nome Maria de Lourdes, e o apelido de Lurdinha. Nasceu na minúscula Brejinho, sul da Bahia, entre Buerarema, Ferradas e Itapé. Filha da durona Nininha e do dócil Pedro. A partir dali o itinerário da enorme mulher que seria. Desejada, nasceu no decorrer de um dia ensolarado. Nasceu na sequência de um ritmo rural. Nasceu beirando o então formoso Rio Cachoeira. De um lado a outro do cenário, a beleza natural, o caminho caminhando, o deslumbre quando o tempo se suspende, e se permite parar a contemplar o espaço sem tempo. Ali admirava a vista que estendia-se até a mata de cacau, batendo nas paredes do céu. Havia uma ladeira e uma casa branca plantada no alto, sem energia elétrica, com três degraus para acessá-la.
 
Lar antigo de rede no alpendre, assoalho, sala de jantar e cozinha de chão pintado, fogão a lenha. Um lírico jardim com jasmineiros, rosas cor de vinho, palmeirinhas, laranjeiras e cafeeiros. Lírios-verdes na relva, um tufo azul de ásteres entre a harmonia dos tons cinza e prateado. Nos dias de chuva, a conversação ao lado do fogo eram o melhor refúgio. Sua boa memória guardou as primeiras lembranças da fazenda modesta de idílicos campos de pastagem. Um pasto na frente da residência rústica, galinhas, porcos e patos. Barcaças de cacau. Cacimba. Num curral, duas vacas e cavalos. Casa de farinha. Mais adiante, uma lagoa e um ribeirão, onde se lavava roupa e pescava pitú e acari, de jereré. O núcleo familiar Mendonça tinha um jovem e respeitoso ajudante, Saturnino, que também colhia o cacau naquele reino encantado.
 
O cheiro de café gordo e de pão fresco vindo da cozinha. Um copo de leite no curral. No café da manhã, comiam ovos, cuscuz, mugunzá, coalhada e arroz doce. No almoço, carne fresca, lombo, ensopado, feijão e arroz.
Se distraia com o voo de pássaros migradores lá no alto, sol a pino. À noite, luz de fifó e diante deles a deslumbrante lua dourada e estrelas cintilantes. Ninguém deixava de rezar antes de deitar-se. Isolada do mundo, perto do lugar havia somente outra fazenda, a de Pedro Cordeiro. A parente mais próxima, a avó Silvina, morava em Ferradas. Lurdinha viveu nesse paraíso até os sete anos de idade, onde aprendeu a ler com a Mãe Nininha. Na superfície de sacos de pão, rascunhou com lápis, a mando da sua primeira professora, a letra L do seu nome várias vezes naquele papel cinzento.
 
Minha saudosa avó, Nininha, nasceu na divisa com Sergipe, em Cachoeira da Abadia. Eu era apaixonado por ela. Fazia um bife picante de dar água na boca e me defendia da fúria verbal de Papai diante dos meus chiliques atrevidos. Meu avô, o sertanejo Pedro, nasceu em Itabaiana, Sergipe. Quando seu irmão, o sergipano Brás, mudou para Ferradas, ele decidiu comprar uma pequena fazenda por perto. Era um senhor tranquilo, vivia sem aborrecimento. Testemunhei e dou fé: lembro-me dele sentado numa cadeira que parecia um trono, na calçada da sua casa, proseando. Eu sentava no seu colo, enquanto ele cheirava rapé. Branco, baixo, de bigode, fumante de tabaco de rolo, não discutia nem tratava mal ninguém.
 
O que acrescentar ao que se sabe dele? Aos 48 anos de idade, desposou Nininha, de 23 anos, uma garota mandona, de coração parcimonioso e modestas carícias. Foram morar na fazenda onde Maria de Lourdes nasceu. Terra de secas e de cheias. De céu e de bichos. De luzes e sombras. Das águas correntes do rio e das águas paradas do açude. Quatro anos depois foi a vez de Maria do Socorro, que Lurdinha cuidava, colocando no colo infantil. Começava assim a surgir a mãe santíssima que ela tanto saberia ser. A irmãzinha morreu aos seis meses de idade, vitimada por uma febre ardente, chamada “mal de sete dias”. É possível que se tratasse de uma febre tifoide. Por fim, nesse retiro bucólico, nos verdes dos chãos, nasceu a caçula, a indomável Maria Rita. O progresso um dia destruiria essa paisagem. Ela viveu ali, em todo caso, durante sete anos, nas mais puras alegrias da infância.
 
Uma tal vida agreste parece, em nossos dias, ultrapassada ou deprimente, ou ambas. Mas Lurdinha não conserva más lembranças desse tempo. Oito décadas mais tarde, evoca esse passado com entonações enternecidas e sorrisos discretos. Como sempre, cada vez que ela se voltava para o mundo de vastos campos de solidão, a vida estava presente. Com seu imprevisto, sua natural defesa, sua doçura vez ou outra e sua quase plenitude. Foi de seu pai, que, segundo parece, herdou essas maneiras delicadas que são o sinal exterior de uma amenidade e de uma elevação de espírito verdadeiras. É uma daquelas mulheres que estão determinadas a fazer o melhor possível dentro da sociedade tal como ela é. Ela se divertia indo com a família à feira, aos sábados, em Ferradas. Faziam compras em Itabuna, no final do ano.
 
Entre hábitos, costumes e tradições, era amada pelos pais – “meu pai era um dengo comigo” – e colecionava bonecas de pano costuradas pela Mãe. Em dezembro, hospedavam-se na casa da avó Silvina, justamente para a festa de Nossa Senhora da Conceição, no dia 8. Havia missa e procissão, e Lurdinha se divertia com Ana, uma negra criada pela avó. Brincavam de fazer caretas e com as sombras ao longo da parede. Mas o velho mundo desmoronava. Quando chegou a época de ir a escola, a avó e os pais mudaram-se para Itapé, comprando casas no centro da cidade. Comportada, um pouco encabulada, Lurdinha cresceu com todos gostando dela. Carinhosa e tímida, nunca foi danada nem namoradeira, muito pelo contrário. 
 
mãe e pa
Sem pompas e adereços, ela e a prima Terezinha eram as mais belas garotas do pequeno lugar. Orminda, Belinha e Marieta, suas melhores amigas. No final de semana, cheirando a alfazema ia ao cinema. Amava o aventureiro sedutor Errol Flynn e guardou no coração o drama romântico “Suplício de uma Saudade”. Fez aula de corte e costura com Dona Isabel. Aprendeu a cozinhar. Ia às festas no São João e Natal. Numa delas, na metade da década de 1950, dançou com um rapaz de terno branco e gravata, e rendeu-se aos encantos dele. Filho do fazendeiro Zé Bispo, Antônio estudava em Aracaju e depois em Belo Horizonte. Proprietário de armazém de compra de cacau em Itapé, meu avô e filhos estavam sempre por lá. Quase cego, tinha como traço dominante, o fazer amizades. Alegre e conversador, gostava de bater perna. O namoro durou quatro anos com cartas de amor, noivado e casamento na Catedral de São José, em Itabuna, com Luzia Alves e Gervásio Santos – outra saudade - como padrinhos.
 
Protegida na sombra masculina daquele que viria a ser meu Pai, e estimulada pela paixão primeira, deixou a casa dos pais e foi construir sua vida matrimonial. Lua de mel em Ilhéus e na fazenda dos sogros bem-sucedidos. Casa grande reformada em Itapé e finais de semana em Itabuna, na rua Rui Barbosa. O casamento foi um teste para seu coração materno. Mais aí já é outra história, um dia talvez eu conte. Segundo um ditado judaico, ao criar o mundo, Deus percebeu a dificuldade que teria para estar em todos os lugares; e aí inventou as Mães. Quanto a isso, eu posso constatar a divindade na maternidade por experiência própria. Vi e pude sentir em Dona Lurdinha uma santa que ilumina com sua bondade e apascenta com sua fé cada um dos seus filhos e as pessoas sob a sua estufa de amor. A vida muito lhe deu e muito lhe tirou. Sua presença incentivando os caminhos éticos para minha entrada na maturidade foi imprescindível para os meus futuros passos.
 
Das ondas de boa vontade que emanam dela, abriu a ponte do mundo pra mim, diante da estranha zona de sombra de onde viemos e para onde voltaremos. Eu saí do seu ventre num parto que de tão normal ela considerou uma hora mágica e feliz. O eu bebê berrou no tapa da parteira Dona Aída por volta da 1h da madrugada. Sendo assim, essa crônica pretende ser a expressão da profunda gratidão a Nossa Senhora Lurdinha. Rogo ao Bom Deus, irradiar sobre essa santa Mãe, suas melhores bençãos, e de nos conceder a felicidade de lhe conservar ainda durante longos anos em boa saúde, na afeição sincera dos seus filhos, noras e netos, e muito particularmente de seu filhinho maior, um amante das palavras poéticas.
 

DEZ FRASES INSPIRADORAS
 
01
“Tudo aquilo que sou, ou pretendo ser, devo a um anjo, minha mãe.”
ABRAHAM LINCOLN
 
02
“Mãe, na sua graça, é eternidade.”
CARLOS DRUMMOND de ANDRADE
  
03
“Sinto que no céu, os anjos, sussurrando uns aos outros, 
não encontram entre os ardentes termos de amor 
nenhum que expresse mais devoção do que o de ‘mãe’.”
EDGAR ALLAN POE
  
04
“Mãe é aquela pessoa para quem você corre quando está em apuros.”
EMILY DICKINSON
  
05
“No coração das mães se encontra sempre o perdão.”
HONORÉ de BALZAC
 
 06
“Um amor tão poderoso quanto o de sua mãe por você 
deixa sua própria marca. Ter sido amado tão profundamente 
nos dará alguma proteção para sempre.”
J. K. ROWLING
 
07
“A mãe é eterna, o pai imortal.”
MIA COUTO
  
08
“Os homens são o que as mães fazem deles.”
RALPH WALDO EMERSON
 
 09
“Os filhos são para as mães as âncoras da sua vida.”
SÓFOCLES
  
10
“Os braços de uma mãe são feitos de ternura e os filhos dormem neles.”
VICTOR HUGO
 


maio 16, 2020

................... “O CORAÇÃO DELATOR”, de EDGAR ALLAN POE



 
Ilustrações:
VIRGIL FINLAY
(1914 – 1971. Rochester, Nova Iorque / EUA)


Não há autoridade no mundo do horror que não esteja protegido da influência de EDGAR ALLAN POE (1809 - 1848. Boston, Massachusetts / EUA). Ele é considerado um dos grandes mestres da literatura universal e o pai das histórias de terror. Seus contos têm sido a fonte dos pesadelos mais grotescos e, por gerações, inspiraram incontáveis obras literárias, artes plásticas, música, teatro e cinema. O meu conto favorito do escritor é O CORAÇÃO DELATOR ou “The Tell-Tale Heart”. Foi publicado pela primeira vez em 1843. Ele é contado por um narrador sem nome que se esforça para convencer o leitor de sua sanidade mental, ao descrever um assassinato que cometeu. A morte é cuidadosamente calculada e o assassino esconde o corpo sob o assoalho. A sua culpa começa a se manifestar na forma do som alucinatório do coração da vítima ainda batendo.
 
A história saiu na edição inaugural da “Pioneer”, uma revista de curta duração. EDGAR ALLAN POE provavelmente recebeu apenas US $ 10 pelo trabalho. A publicação original incluía uma epígrafe do poema “Salmo da Vida”, de Henry Wadsworth Longfellow. Sua primeira adaptação para o cinema foi em um filme mudo de 1928, dirigido por Leon Shamroy e estrelado por Otto Matieson como “o insano”. Considerado um verdadeiro gênio, criador de uma literatura inquietante, EDGAR ALLAN POE foi contista, poeta e crítico literário. Fez parte do movimento romântico norte-americano e manejou, como nenhum outro, a arte de aguçar a curiosidade pelo imprevisto e pelo terror. Considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebeu crédito por contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Sempre numa atmosfera de suspense, junta em suas narrativas elementos perturbadores como o sobrenatural, o fantástico, o insólito e o macabro. Os contos, repletos de mistério, trazem detalhes minuciosos de sentimentos, lugares e personagens. E envolvem tão profundamente o leitor, que este já não consegue escapar do seu extraordinário universo.

Órfão aos dois anos de idade, o escritor foi criado por um rico comerciante do estado da Virginia. Iniciou sua esmerada educação na Inglaterra e na Escócia, frequentou a Universidade da Virginia onde passou a dedicar-se mais aos jogos e à bebida, não aos estudos. Isso fez com que rompesse suas relações com seu tutor. Em 1827, lançou o primeiro livro de poesias. Expulso da Academia Militar de West Point, entregou-se à literatura, publicando contos em revistas. “O Corvo”, de 1845, é talvez o mais famoso poema da literatura dos Estados Unidos. Alcoólatra, encontrou no casamento com sua prima Virgínia, de apenas 13 anos, forças para lutar contra o vício e aumentar sua produção literária. Com a morte de Virgínia, vitimada pela tuberculose, voltou ao alcoolismo, passando a viver em constante embriaguez. Em 1849, passa mal em uma taberna de Baltimore e vem a falecer. “Cinzas e Diamantes” convida a mergulhar na escrita lúgubre desse autor atormentado. Confira.


O CORAÇÃO DELATOR

EDGAR ALLAN PÖE
tradução de S. de M.

Sim! Sou muito nervoso, terrivelmente nervoso, mesmo ― e sempre o fui; mas por que me supõem louco? A doença tornou mais aguçados os meus sentidos ― não os destruiu, não os embotou. Mais do que os outros, tenho uma audição aguçadíssima. Ouço admiravelmente bem todos os sons produzidos no céu e na terra. Tenho ouvido até muitas coisas do inferno. Como posso, pois, ser um louco? Atenção! Reparem bem com que perfeita lucidez, com que tranquilidade de espírito eu vou contar-lhes toda a história.

Ser-me-ia completamente impossível dizer-lhes como primitivamente a ideia entrou no meu cérebro; mas, uma vez concebida, nunca mais me abandonou, noite e dia. Fim, não tinha algum. A paixão foi estranha ao caso, por completo. Eu estimava deveras o pobre velho, que nunca me fizera o menor mal, que nunca me insultara. Nem mesmo invejava o seu dinheiro. Creio que foi o seu olho! Sim foi isso, decerto! Um dos olhos dele parecia os dum abutre ― um olho azul claro, recoberto por uma película nevoenta. Cada vez que esse olho me fitava, sentia gelar-me o sangue; e assim, lentamente ― por graus ― muito gradualmente ―, introduziu-se na minha mente a ideia de arrancar a vida do velho, para, dessa forma, me livrar para sempre daquele olho.
 
Agora, este é o ponto. Os senhores supõem-me louco. Os loucos não sabem de nada. Se me vissem! Se vissem com que inteligência eu procedia! Com que precaução, com que prudência, com quanta dissimulação eu meti as mãos à obra! Eu nunca fora mais solícito para o velho do que durante a semana inteira que precedeu o crime. E todas as noites, pela meia-noite, levantava o trinco da porta do quarto dele, e abria-a ― oh, tão devagarinho! E então, depois de suficientemente a entreabrir, introduzia no quarto uma lanterna de furta-fogo, fechada, hermeticamente fechada, que não deixava passar um mínimo raio de luz; em seguida metia a cabeça pela abertura! Oh, se vissem teriam rido da destreza com que eu metia a cabeça! Movia-se lentamente ― muito, muito lentamente ―, de maneira a não perturbar o sono do velho. Levei seguramente mais de uma hora para meter a cabeça pela abertura, muito antes de poder vê-lo deitado no leito! Ah! Um louco seria, porventura, tão prudente? Depois, quando tinha a cabeça dentro do quarto, abria a lanterna com precaução ― oh, com que precaução! ― porque o gonzo rangia. Abria então a lanterna de tal modo que o raio de luz fosse justamente incidir no olho de abutre. E fiz isto durante sete longas noites ― cada noite, à meia-noite ―, mas encontrei sempre o olho fechado, de molde a não poder, portanto, concluir o meu trabalho; foi por isso que disse não odiar eu o velho; o que eu odiava era o seu Olho Maldito! E todas as manhãs, logo que o dia nascia, entrava ousadamente em seu quarto, falava-lhe corajosamente, tratando-o pelo seu nome num tom cordialíssimo, e informando-me de como passara a noite. Bem veem que ele seria possuidor de uma dissimulação rara se desconfiasse que, a cada noite, à meia-noite em ponto, eu o examinava enquanto dormia.

Na oitava noite fui ainda mais prudente: abri a porta com mais precaução. A minha mão não fazia mover a porta com mais rapidez do que se move um ponteiro dum relógio. Nunca, como nessa noite, senti tão perfeitamente o poder das minhas faculdades, da minha sagacidade. A custo continha as sensações que o triunfo produzia em mim. Pensar que eu estava ali, abrindo a porta pouco a pouco, sem que ele pudesse sonhar as minhas ações ou meus pensamentos secretos! Ao ter esta ideia não pude deixar de rir um pouco, abafadamente; ele ouviu-me, talvez porque se voltou pesadamente no leito, como se tivesse acordando. Pensam por acaso que eu me retirei por isso? Não! O quarto, de tão profundas que eram as trevas, estava negro como pez, porque as janelas tinham sido fechadas cuidadosamente, por medo dos ladrões; e, sabendo que ele não podia ver a porta entreaberta, continuei a empurrá-la cada vez mais. Eu já passara a cabeça pela abertura, e estava prestes a abrir a lanterna, quando o meu polegar resvalou pelo fecho de ferro, e o velho sentou-se no leito, gritando:
 
― Quem está aí?

Eu fiquei completamente imóvel e não disse nada. Durante uma hora inteira não movi um só músculo, mas, também, durante esse tempo, não ouvi o velho deitar-se. Continuava, decerto, sentado na cama, de ouvido à escuta, justamente como eu fizera durante sete noites inteiras, escutando o barulho que fazia o pêndulo do relógio de parede.

Mas, de repente, ouvi um gemido fraco, que reconheci como o gemido resultante de um horror mortal. Não era o gemido de dor ou de pesar. Oh, não! Era o ruído surdo e sufocado que se desprende do fundo de uma alma apavorada. Conhecia bem aquele grito. Muitas noites, à meia-noite exata, quando todo mundo dormia, soltara-se de meu próprio peito um gemido igual àquele, excitando com o seu terrível eco os terrores que me atormentavam. Repito que conhecia aquele ruído. Calculava o que o pobre velho sentia, e eu tinha piedade dele, ainda que interiormente eu sorrisse comigo mesmo. Sabia que ele continuava acordado desde que se voltara no leito ao primeiro ruído que eu fizera. Desde então o seu pavor aumentara sempre de intensidade. Ele tentara persuadir-se de que não tinha razão para assustar-se, mas não pudera consegui-lo. Dissera a si mesmo: “Não foi nada, apenas o ruído do vento entrando pela chaminé, ou algum rato que atravessou o quarto”, ou então: “Talvez um grilo que começou a cantar”. Sim, sim, ele se esforçara por encorajar-se com estas hipóteses; mas tudo fora em vão. Tudo fora em vão porque a Morte, que se aproximava, passava diante dele com a sua grande sombra negra, envolvendo, assim, aquela vítima. Era a influência fúnebre da sombra que ele não percebera, que lhe fazia sentir ― apesar de nada ver nem ouvir ―, que lhe fazia sentir a minha cabeça no seu quarto.

Depois de esperar por muito tempo, impacientemente, que ele se deitasse de novo, resolvi entreabrir um pouco a lanterna, mas muito pouco, um quase nada. Entreabri-a com cautela como dificilmente podem imaginar, até que por fim um raio de luz, como um fio de teia de aranha, subiu da abertura, incidindo sobre o olho de abutre.
 
O Olho Maldito estava aberto, muito aberto, o que me fez enfurecer logo que o fitei. Vi-o com uma perfeita nitidez ― o azul claro coberto com o hediondo véu que me gelava o sangue; mas eu nada podia ver do rosto do velho, porque dirigia o raio de luz, por instinto, sobre o ponto maldito.

Em seguida ― eu não lhes disse que o que os senhores tomavam por loucura era uma grande penetração dos meus sentidos? ―, em seguida ouvi um outro ruído surdo, sufocado, contínuo, semelhante a um ruído que pode fazer o pêndulo dum relógio envolvido em algodão. Eu reconheci esse som. Era o bater do coração do velho. Esse som aumentou o meu furor como o rufar do tambor aumenta a coragem de um soldado.

Mas contive-me ainda, e continuei ali, sem me mexer. Somente respirava, conservando a lanterna imóvel para que o raio de luz saído dela continuasse a iluminar o olho maldito. Entretanto, o infernal bater do coração era cada vez mais forte, a cada instante mais precipitado. O terror do velho devia ser extremo! O bater o coração, eu disse, era cada vez mais forte, de instante para instante! Repararam bem em tudo o que lhes disse? Então devem lembrar-se que lhes declarei ser excessivamente nervoso, e, com efeito, eu o sou. Portanto, em plena noite, no meio do silêncio terrível daquela casa, um tão estranho ruído fez com que se apossasse de mim um irremissível terror. Durante alguns minutos ainda, contive-me e continuei calmo. Mas o ruído era cada vez mais forte, sempre mais forte! Cheguei a supor, até, que o coração ia rebentar. E então apoderou-se de mim uma nova angústia: o ruído poderia ser ouvido por algum vizinho! A hora do velho chegara, pois! Saltando um grande grito, abri bruscamente a lanterna, e entrei no quarto. O velho deu apenas um grito, um só, porque eu o lancei no assoalho, virando-o e jogando-lhe sobre o corpo o pesado leito em que antes dormia tranquilamente. Sorri, então, por ver a minha obra tão adiantada. Mas, durante alguns instantes ainda, o coração batia, produzindo um som abafado, que não me incomodou, porque não podia ser ouvido através duma parede. Por fim, cessou. O velho estava morto. Levantei o leito e examinei o corpo. Sim, estava morto, morto e rígido. Coloquei-lhe a mão sobre o coração, conservando-a ali durante alguns minutos. Nem uma pulsação. Ele estava morto e rígido. O seu olho, portanto, não me atormentaria mais!
 
Se persistirem ainda em supor-me louco, essa suposição evaporar-se-á ao descrever-lhes as inteligentíssimas precauções que tomei para ocultar o cadáver. A noite avançava; comecei, pois, a trabalhar apressadamente, mas em silêncio. Cortei-lhe a cabeça, depois os braços, depois as pernas. Em seguida, despreguei três taboas do assoalho e meti todas as partes do cadáver pelos buracos que elas tinham deixado. Depois preguei de novo as tábuas tão habilmente, tão desveladamente, que nenhum olho humano ― nem mesmo o dele ― poderia descobrir no assoalho o mínimo sinal de que tinham sido levantadas. Não havia o que limpar ― nem uma mancha, nem um pingo de sangue. Procedera prudentemente para não deixar vestígio. A tina em que cortara o cadáver absorvera o sangue, ha! ha!

Quando acabei a minha obra, pelas quatro horas da madrugada, a escuridão era tão profunda como à meia-noite. No momento exato em que o relógio dava uma hora da tarde, bateram à porta da rua. Desci para abrir alegremente, porque nada tinha a temer dali em diante. Entraram três homens que com toda delicadeza apresentaram-se como agentes de polícia. Um vizinho ouvira um grito, na noite anterior, o que levantara a suspeitar de que um crime teria sido praticado; como fizera a respectiva denúncia no comissariado de polícia, tinham ordenado àqueles senhores que revistassem a casa.

Ao saber qual o fim dos policiais, sorri ― pois o que eu tinha a temer? Declarei-lhes que sentia um verdadeiro prazer em lhes falar, e disse-lhes que o grito ouvido pelo tal vizinho fora eu que o soltara durante um sonho. O meu velho patrão, acrescentei, partira para uma viagem.
 
Depois desta explicação, mostrei toda a casa aos policiais, convidando-os a procurarem bem. Por último, eu os conduzi ao quarto dele, e mostrei-lhes todos os tesouros do velho, perfeitamente intactos.

No entusiasmo de minha confiança, instei os policiais para que sentassem, para que descansassem um instante; e, com a louca audácia dum triunfo completo, puxei uma cadeira e sentei-me, depois de tê-la colocado exatamente sobre as tábuas que cobriam o corpo da vítima.

Os agentes de polícia estavam satisfeitíssimos. A forma clara e precisa com que eu fizera as declarações convencera-os. Sentia-me à vontade. Sentaram-se e falaram coisas triviais, às quais eu respondia alegremente.

Pouco depois, senti que empalidecia, e só pensei em me livrar deles.

Sentia insuportáveis dores de cabeça, e grandes badaladas nos ouvidos; mas os policiais continuavam sentados, sempre falando. As badaladas não acabavam e, pelo contrário, eram cada vez mais distintas. Comecei a falar mais alto para me livrar daquela sensação; mas as badaladas persistiam, tomando um caráter tão puramente definido que, por fim, percebi não se produzir sem os meus ouvidos.

Eu estava muito pálido, sem dúvida ― mas falava sempre, levantando a voz cada vez mais. O som aumentava sempre ― o que eu podia fazer? Era um ruído surdo, sufocado, frequente, semelhante ao ruído que pode fazer o pêndulo de um relógio envolvido em algodão. Eu respirava a custo. Os policiais nada tinham ouvido.
 
Conversei com mais verbosidade ― com mais veemência ―, mas o ruído aumentava incessantemente. Levantei-me e comecei a questionar sobre ninharias, num diapasão elevadíssimo e com uma violenta gesticulação; mas o ruído aumentava, aumentava sempre. Por que eles não queriam ir embora? Eu passeava desesperadamente pelo quarto, a grandes passadas, batendo surdamente com os pés no chão, como que exasperado pelas observações de meus contraditores; mas o ruído crescia regularmente. Oh, Deus! O que podia eu fazer? Enraivecia-me, espumava, praguejava. Movia em todos os sentidos a cadeira em que de novo me sentara, fazendo-a ranger sobre o tabuado; mas o ruído aumentava sempre, crescia indefinidamente, tornava-se de instante para instante mais forte ― mais forte! ―, sempre mais forte. E os policiais, sorrindo e palestrando, sempre prazenteiramente! Seria possível, por ventura, que eles nada ouvissem? Deus onipotente! Não, não! Eles ouviam! Eles suspeitavam! Eles sabiam! Eles divertiam-se com o meu terror! Foi isto que supus, então. É isto que ainda hoje suponho. Nada mais intolerável para mim que aquela descarada zombaria! Não podia mais suportar aqueles sorrisos hipócritas! Senti que, para não morrer, precisava gritar! E agora ainda, não ouvem? ― Escutem! Mais alto! Sempre mais alto!

― Sempre mais alto, miseráveis! ― gritei. ― Não dissimulem por mais tempo! Confesso o crime! Arranquem essas tábuas! É aí que ele está! É aí! E esse som que ouvem é o bater do seu execrável coração.

“Gazeta da Tarde” 
Rio de Janeiro
edição de 24 de abril de 1890

TODA a OBRA do AUTOR

CONTOS

MANUSCRITO ENCONTRADO numa GARRAFA
(MS. Found in a Bottle, 1833)

BERENICE
(Idem, 1835)

MORELLA
(Idem, 1835)

LIGEIA
(Idem, 1838)

A QUEDA da CASA de USHER
(The Fall of the House Of Usher, 1839)

WILLIAM WILSON
(Idem, 1839)

Os ASSASSINATOS da RUA MORGUE
 (The Murders in the Rue Morgue, 1841)

A DESCIDA do MAELSTROM
(1841)

O RETRATO OVAL
(The Oval Portrait, 1842)

A MÁSCARA da MORTE RUBRA
(The Masque of the Red Death, 1842)

O MISTÉRIO de MARIE ROGÊT
(The Mystery of Marie Rogêt, 1842)

O POÇO e o PÊNDULO
(The Pit and the Pendulum, 1842)

O CORAÇÃO DELATOR
(Tell Tale Heart, 1843)

O ESCARAVELHO de OURO
(The Gold-Bug, 1843)

O GATO PRETO
(The Black Cat, 1843)

O ENTERRO PREMATURO
(The Premature Burial, 1844)

A CARTA ROUBADA
(The Purloined Letter, 1844)

O DEMÔNIO da PERVERSIDADE
(The Imp of the Perverse, 1845)

 THE SYSTEM of DOCTOR TARR and PROFESSOR FETHER
 (1845)

Os FATOS que ENVOLVERAM o CASO MR.VALDEMAR
(The Facts in The Case of M. Valdemar, 1845)

O BARRIL de AMONTILLADO
(The Cask of Amontillado, 1846)

Os OITO ORANGOTANGOS ACORRENTADOS
(Hop-Frog, 1849)

POESIA

TAMERLANE (1827)

AL AARAAF (1829)

ALONE (1830)

 The CITY in the SEA (1831)

The COLISEUM (1833)

O VERME VENCEDOR
(The Conqueror Worm, 1827)

THE HAUNTED PALACE (1839)

SILENCE (1840)

LENORE (1843)

EULALIE (1845)

O CORVO
(The Raven, 1845)

ULALUME (1847)

TO HELEN (1848)

A DREAM WITHIN a DREAM (1849)

 ELDORADO (1849)

ANNABEL LEE (1849)

THE BELLS (1849)

OUTRAS OBRAS

A NARRATIVA de ARTHUR GORDON PYM
(The Narrative of Arthur Gordon Pym of Nantucket, 1838)

The BALLOON HOAX (1844)

 FILOSOFIA da COMPOSIÇÃO (1846)

EUREKA (1848)