Mostrando postagens com marcador Lewis Carroll. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Lewis Carroll. Mostrar todas as postagens

fevereiro 19, 2025

................................................ Na TEIA do DESTINO AZUL – Livro 02



Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.
FERNANDO PESSOA
(1888 – 1935. Lisboa / Portugal)

 
um poeta-freak, cristão-alquimista,
druída-mensageiro, amante-solitário,
pacífico-conservador, sioux-cigano,
aventureiro-metafísico, marinheiro-guerreiro,
cibernético-gótico, filósofo-jardineiro sou
 
Ilustrações:

ALEXANDER KANOLDT
(1881 – 1939. Karlsruhe / Alemanha)
 
 
prefácio
 
A certa altura da leitura de “Na Teia do Destino Azul”, livro de poemas de Antonio Nahud, o leitor terá que fazer uma inflexão interior para reencontrar seu lugar próprio no mosaico de colagens, paráfrases e imagens que o incorporam, e do qual resulta uma escrita labiríntica como um novo dédalo. Uma espécie de panteísmo reatualizado acena a cada parágrafo, a cada título, mesmo, que Nahud semeia aleatoriamente, quase por descuido, diríamos, nas linhas e entrelinhas de seus poemas, como a divertir-se em propor enigmas ou a incorrer no risco das aporias sob o dossel da escrita poética.
 
Poesia do eu, mas também de um indiscernível
“nós”, genérico e indefinido que tanto pode ser a voz de Epicuro, como um Espinosa ou um Agamben, entre outros nomes disseminados e incorporados à persona do poeta, a escritura de “Nas Teias do Destino Azul” se espalha como água revolta impelida por ventos desordenados, sem nunca achar seu leito próprio, o que a força a repousar sobre leitos provisórios, até que um novo impulso a lance em busca de seu legítimo, mas incerto, leito.
 
Há toda uma poética implícita na poesia de
“Nas Teias do Destino Azul”, como quando Nahud diz, empregando os termos mais triviais, de seu próprio ofício: “O poeta é um habitante do verso”. E aí está longe da concisão metafórica do vocábulo “habitante”. Antes, se identifica com a confraria dos poetas do Aberto (reportando-se ao conceito popularizado por Agamben), a que chegaram outros poetas, como o americano Robert Frost, o português Ruy Bello, o francês Francis Ponge e o brasileiro Manoel de Barros. E, por que não, Vinicius de Moraes, o poeta da flor (“Para uma Menina com uma Flor”)?
 
Não é menos verdade afirmar, portanto, que Nahud cultiva as invenções líricas com a determinação de um obstinado:
“Olhares são marés vivas que devoram / o mundo”; ou “Quero estar no campo desprotegido / como árvore”. Enfim, a leitura de “Nas Teias do Destino Azul”, que não por acaso é encimada por uma epígrafe de outra confissão mais antiga, tecida por motivações distintas, é, em grande medida, uma reflexão sobre a transitoriedade da vida e a advertência horaciana do Carpe Diem.
 
Chega em boa hora, portanto, essa poesia gerada pelas metamorfoses do eu lírico de Nahud, a nos lembrar que o tempo, o nosso tempo, que é também o tempo agostiniano, diferentemente do tempo do Absoluto, conta-se em anos
“que vão e vêm, para que todos venham”.
 
NELSON PATRIOTA
(1949 – 2021. Natal / Rio Grande do Norte)
poeta, crítico literário e tradutor
 

01

São de palavras, o chão de minha casa,
construída numa floresta de símbolos.
Quero ser habitante da essência azul,
arquiteto da emoção e da beleza.
 
02
A palavra aproxima-se do poema
procurando o movimento da escrita,
como folhas ao vento. Ofuscada
pelo ouro do sol interior, traça
linhas possíveis nas sombras do texto,
iluminando verdades secretas.
 
03
O sonho está contido nas palavras,
no corpo desnudo e liberto, ou
na luz magna azulada do espírito,
aqui, comigo, nos versos.
O desenterramento do ser
dando existência ao poema.
 

04
Em Rimbaud bebi a profunda desordem da criação.
Com Carroll vi que o fundo da literatura é a imaginação.
De Dostoievski sofri o humanismo da sua condição .
Através de Clarice senti o seu caráter intimista.
E com Hesse descobri a chave para o espírito.
 
05
O poeta é um habitante do verso.
Desce dos céus futuros, rompendo horizontes.
Na sua presença, estremecem os corações
na horizontal secura do erotismo banal.
Aventureiro, lê o destino azul do ser.
É o abrigo de todo o amor.
O leito de toda a confiança.
Um dia, partirá p’raterra incógnita,
com um golpe de vento,
deixando palavras adubadoras
na erma planície mortal.
 
06
Escrevamos as linhas nossas
nos trilhos do coração, esperando
por uma revelação radical,
que não necessite de palavras,
e contudo, nos una como irmãos.
 

07
Quero estar no campo desprotegido
como árvore. Sentir nas
raízes a vasta atmosfera do todo.
Deixar correr nas veias a comoção
da liberdade de ser único,
na planície do mundo.
Volver os ramos para o céu
que me interroga, e acolher os
bem-aventurados pássaros
na copa da existência.
 
08
Sou o fogo que desperta o amanhecer
em países inventados no coração.
Sou o incorruptível de uma cabeça iluminada
a força da justiça que há-de vir.
E do mistério venho, para ele vou,
do sangue azul para a terra, dela sou.
 
09
Sou livremente obrigado a ser justo,
equilibrado. A fazer da cruz o sinal
com meu corpo feito ave da luz,
que brilha, oculta, da massa vazia,
tal diamante sagrado, lanterna
em noite tenebrosa, a guiar, misteriosa,
meu barco, para o porto de ser
obrigatoriamente resiliente,
na consciência de um mundo azul.
 

10
Viajei de carro e de comboio, de navio,
de avião, e com meus benditos pés.
Continentes, florestas, desertos.
Dormindo sobre fendas e abismos
com as feras a rondar a poesia
à vastidão da dor e da esperança.
Vida de aventura, amor, rebeldia,
nas águas profundas do desmundo.
Ao deus azul da juventude,
Ergo a bandeira da liberdade
que ainda hoje respeito.
 
11
Desembarquei minh’ alma nesta terra,
com a liberdade esmagada sob as pedras
da hipócrita moral inquisidora. Luto,
desde então, para encontrar
um lugar no coração:
enquanto incendeiam a última flor.
Mas esta terra não é livre, há muito
se queimou nos fogos que ateou.
 
12
Estamos, assim, atirados
no mundo, imponderáveis,
como o vôo de um pássaro azul
espreitado pela mira de um
destino, que ora resplandece
no susto da revelação,
ora se oculta na enigmática
existência. Máscaras do
mesmo, por vezes,
eternamente regressando
em direção ao vazio.
 

13

Olhares são marés vivas
que devoram o mundo.
Alguns há, que assustam.
Outros, tão frágeis, suaves,
duram a vida da borboleta,
deixam marcas profundas
na surpreendente arena da vida.
São esses raros, delicados, que eu amo.
 
14
Tudo flui…as relações entre as pessoas
cada vez mais imponderáveis,
inquietantemente inexplicáveis.
Qualquer palavra é ambígua,
obscura, total, inapreensível,
secretamente contraditória,
explicitamente fulgurante.
Um momento: uma verdade.
Somos ilhas ocultas.
 
15
Ficarão as manhãs de jasmim intenso,
que se repetirão sem mim,
as manhãs em que a maresia
embriagava infâncias azuis. Passeios
em jardins à beira-mar, nas longas tardes
de verão. Velas, ondas, pássaros, ventos,
beijos verdes, risos, tênues lembranças.
Assim me eternizo.
 

16
Você é a flor azulada que amo,
encontrada no acaso dos dias, e
tem a absoluta naturalidade de estar
no meu coração, perfumando, como parte
do meu desatino, sendo sempre flor, para mim,
no meu destino, numa floresta sem ninguém,
companheiro imortal, sem fim.
 
17
Ao dizer-me adeus ao meu mundo azul,
tornou-se meu invisível anjo da guarda.
 
18
Um poeta louco numa noite. Um louco
aventureiro num castelo inventado.
O aparente vazio de seu espírito, iluminado,
contudo, pela presença de uma mística  lua,
nos fragmentos de sua arte. Cego de
excesso de magia lunar para as trevas do mundo,
e de olhar aberto para a eternidade.
 

19
Rumor sem fim do mundo:
silêncio do coração. 
 
20
Por trás deste aparente equilíbrio,
espreita a morte vencedora.
Árvore de mim-mesmo,
cresci porque busquei, sem cessar,
a luz, fonte da vida. Nesta ascensão,
desde que aprendi a fitar o sol,
sinto apodrecer minha raiz,
vivendo e morrendo a cada dia.
 
21
Encerra-se a vida,
diz o poeta em seu castelo
de loucura e solidão.
No seu zênite, o azul,
antes das chuvas,  
antes do obscuro.
 

22
Já metade do rio deixei p’ra trás,
olham-me de longe no cais da memória,
as manhãs de neblina e os perfumes dos jardins
que vivi na fantástica fábrica do mundo. Sigo
a jornada anil, todavia, e como barco regressado
ao estaleiro matricial, numa noite de luar,
sei que um dia desaguarei no oceano final.
 
23
Conheço o mundo,
posso partir. A vida azul
espera por mim.
 
24
Agora, posso desaparecer,
para mais além surgir. Adeus mundo,
adeus infância, fantasmas reais,
amor, adeus. Voltaremos a encontrar-
-nos no espaço mais sensível que
possuímos, nessa casa invisível,
sem paredes, sem palavras, intangível
pelos sentidos, pela razão, e que
se chama coração.
  
25
Adeus terra sagrada, natal,
Devieste, violada, repelente
lixo do homem. Adeus, homem,
tu que és a espécie mais inimiga da vida.
Embarco de regresso ao meu silêncio azulado,
porque o meu ser já nem respira na grandeza
das matas sem-fim, como outrora nos vales medievais,
circundados de luz espiritual.
 

poemas
01, 02, 03, 05, 06, 07,  08, 10, 11, 13, 20, 21 e  23
publicados no livro
“Confissões”, de 2014
 
LEIA TAMBÉM
Na TEIA do DESTINO AZUL – Livro 01

 

setembro 22, 2024

............................................ POVO do RAINBOW: a VOZ da LUA

 

 

“Onde místicas memórias se entrelaçam
como coroas de flores raras, que um peregrino
colhesse em longínqua Terra Prometida!”
LEWIS CARROLL
(1832 - 1898. Daresbury / Reino Unido)
Alice no País das Maravilhas
 
“How can you ever give your more to receive your less?
(Como dar o que tem a mais para receber o que tem a menos?)”
BOB MARLEY
(1945 - 1981. Nine Mile / Jamaica)
da canção Misty Morning (1978)
 
Fotografias:
BENOIT PAILLÉ
(1984. Montreal / Canadá) e
ANTONIO NAHUD
(1969. Itabuna / Bahia)

 
 
 CRÔNICAS da FLORESTA NEGRA 05
 
Sob a majestosa Floresta de Abetone, na Toscana, entre caminhos e estradas de terra, cercado por árvores centenárias e prados. Na riquíssima flora local, arbustos perfumados de alecrim, tomilho e lavanda. À luz de uma Lua avassaladora que clareia o meu corpo, as palavras e a benéfica solidão. Nesse paraíso, conto no “Diário” um coração tão longe e tão perto, insistindo no milagre das palavras. Viajar é um resumo feliz da vida. Ainda menino, ao ler “Alice no País das Maravilhas / Alice in Wonderland” (1865), mergulhei em êxtase, desejando aquela viagem surrealista de Lewis Carroll. Viajar, ler, escrever, são satisfações. Em autodescoberta, participo de uma odisseia italiana, numa experiência intensa, pondo em causa a sociedade convencional e dando significado à existência incerta. Nos últimos dias, conheci hippies e nômades, anarquistas radicais, profetas, reencarnações de figuras religiosas famosas e artistas mambembes - todos em comunhão.
 
Observo façanhas, ditos cheios de espiritualidade, habilidades inesperadas. No meio desses bem-aventurados, loucos de amor um pelo outro, passo por uma metamorfose, como um mutante em uma comunidade sobrenatural. O chão foge debaixo dos pés. No que deu andar sem destino pelo mundo! Olho sem julgamentos. Neste segundo encontro com o POVO do RAINBOW, ouço nitidamente a VOZ da LUA. Sonâmbulo e lírico, desnudo e descalço, há semanas convivo com viajantes que realizam encontros temporários em diversos países, com a finalidade de experimentar uma sociedade em comunhão. Duram um mês e seguem o ciclo lunar, de lua nova a lua nova, culminando com uma celebração de lua cheia no meio. A primeira experiência, arrebatadora, aconteceu na Floresta Negra, na Alemanha. Agora, abrigado em uma pequena barraca, ao lado de um pessegueiro coberto de flores, ouço o silêncio e recordo imagens telúricas.
 

Na noite que revela não apenas o mais vistoso, canta uma voz de rouxinol. Cada canção nesse local é um hino de louvor. A batida do coração é a música e os círculos de canto. Canções de arco-íris que abrem o coração, canções de cura, bhajans e mantras cantados em dança, em reverência – ao redor de fogueiras ou em tipis. Enquanto escrevo, uma estrela cadente corta o céu. Tudo nesse éden se movimenta lúdico e religiosamente. O RAINBOW propõe o parentesco voluntário entre os seres, a partir de sensações. Nenhum rancor aparente, nenhum ódio, nenhuma desconfiança do futuro. Não há tristeza que entre nessas almas. De súbito, compreendo que fui presenteado por luz e sombras: longas e proveitosas horas namorando a Lua; a eternidade nos aspectos mais honestos, como numa pintura de Sandro Botticelli ou uma ópera de Giuseppe Verdi. Por muito que envelheça, que fique fatigado, por vezes sem esperança, dificilmente desprezarei o encanto de viajar.
 
Num esquecimento coletivo das misérias e dos desenganos, milhares de almas unidas, de 48 países diferentes. O coração é a fogueira, como talvez seja uma fogueira o coração do corpo humano. A arte pinta seu entorno, principalmente música (com instrumentos acústicos) como uma forma de oração, de conversa com a natureza. É uma comunidade imprevisível, sem líderes, qualquer autoridade ou hierarquia que se insinue é imediatamente dissolvida. No senso do sagrado, vivencia-se atitudes de culto e de cuidado. A religião faz parte da natureza. As relações entre pessoas, plantas, consciências, espíritos, se comunicam de modo igualmente significativo. O xamanismo é respeitado, num entrosamento entre o humano e o não-humano, num pensamento fixado na floresta e em atividades comuns. Por toda parte, pessoas cozinhando, cuidando das crianças, fazendo trilhas, tocando música, dançando, lavando pratos, realizando atividades físicas, educacionais e/ou recreativas.

 

Andarilhos, nudistas, hippies, itinerantes, místicos, vagabundos, artesãos, artistas de rua. Jovens, idosos e crianças. Se juntam para viver dias de utopia, ao ar livre, celebrando ideais de paz, amor, harmonia e liberdade. São acampamentos afastados das grandes cidades, onde há água boa para banho e para consumo, lenha para fazer fogo e condições para acampar. Organiza-se de forma não-comercial, através da colaboração voluntária. As atividades básicas consistem no preparo de duas refeições coletivas por dia, coleta de lenha e de água, escavação de buracos para os vasos sanitários. Oficinas de filosofia, percussão, artesanato, mantra, meditação, entre outras. Nas rodas de conversas, os “Guardiões” zelam pela paz e resolvem conflitos. Há consensos prévios, como a proibição do álcool, do consumo de carne e do uso de equipamentos eletrônicos. Reúne influências do movimento hippie, do ciganismo, neopaganismo, de tradições indígenas, orientais e outras.
 
Uma densa atmosfera de paz, de almas purificadas. Revivendo antigos valores da contracultura, tais como o pacifismo de Gandhi, a preservação ecológica e contra o consumismo, os encontros do POVO do RAINBOW investem em um estilo alternativo, valorizando a simplicidade, a autossuficiência e o desapego aos bens materiais. Se reduz o uso do dinheiro, incentivam trocas, trabalho voluntário e a gestão dos recursos ambientais de maneira consciente. A alimentação é vegetariana. Em um Centro de Medicina Alternativa curandeiros prestam socorros nos casos de acidentes. O primeiro encontro foi realizado em 1972, nos Estados Unidos, no Parque Nacional Rocky Mountain, Colorado, durante quatro dias. A partir daí tem se repetido todos os anos, nas florestas em todo o mundo. Alcançou a Europa no início dos anos 1980 e o Brasil em 2003.Durante um mês somos irmãos e irmãs da mesma tribo. Há uma energia muito positiva, de liberdade e comunidade.
 

O céu, sem nuvens, nos cobre como um teto de cetim. Avanço andando à toa pela floresta. A natureza vegetal desponta da terra. Há outeiros com minúsculas flores azuladas em aleluia. Montes cobertos de urze, roxos. O cheiro de ramos de alfazema ao vento embebeda os sentidos. Como em transe, mergulho os pés no riacho gélido que serpenteia junto à floresta. Um casal sentado, de pernas cruzadas, olhos fechados e mãos pousadas sobre os joelhos, em pose de meditação. O riacho parece veias fecundas de um corpo. A mulher, de longos cabelos loiros e pele enrubescida pelo sol, levanta-se e mergulha na água. Tal como eu e muitos outros participantes do encontro, está nua. Ainda no curso aquático, avisto famílias inteiras com crianças nas águas, ou brincando nas encostas. Todos se cumprimentam com um sorriso genuíno. Por vezes, há abraços que duram uma eternidade. No alto de uma árvore, num imenso cartaz, “Welcome home! Bienvenidos a casa!”.
 
Poucos metros à frente, numa tenda tipi decorada com corações e símbolos da paz, partilho uma taça de chai (chá preto com gengibre, canela e cardamomo). “Aqui nos sentimos em casa, reencontrando-se com a nossa verdadeira tribo”, explica Haya. “Esse é um lugar de cura. Para mim é muito espiritual”, confessa uma garota de meigos olhos azuis. Ela nasceu nos Estados Unidos, mas não assume sua nacionalidade. “Sou da Terra”, declara. Acenando com a cabeça de cabelos num tom loiro platinado, presos na nuca, sua amiga Isabelle acrescenta: “Sempre que venho a um encontro Rainbow, algo muda em mim”.  Mickey, de chapéu à cowboy, faz uma análise mais política. Comenta a evolução das reuniões desde a década de 1970, defende que esse modo de vida supera as vicissitudes do mundo. Federico, que há 10 anos abandonou a discoteca que tinha em Ibiza, foi para Paris tornar-se pintor, e terminou viajante, diz: “o viajante é o mensageiro da alma”.
 

Com olhos profundos, fincados entre as rugas da sua pele queimada, “Aquele que Sabe”, que já ascendeu à 4.ª dimensão, “em que o cosmos dá a solução para todos os problemas”, está esculpindo um pedaço de madeira e de olho no círculo central, onde uma gigantesca fogueira é acesa nas noites. A forma circular, explica numa voz grossa e sonora, é a mais perfeita: “a arquitetura moderna quadrada é caótica, porque não permite o fluxo da energia. E, se vivemos num local caótico, teremos uma vida caótica”. O xamã, como se designa, propõe-se iluminar a obscuridade. “Religião, política - está tudo contaminado”, critica, completando: “procuro ser a luz na noite de ódio e ganância que escurece o planeta”. A conversa é interrompida pelo som de um violão. Uma dançarina sobe em uma rocha, movendo os pés e as mãos ao ritmo da música, de olhos fechados, o rosto virado em direção ao sol, como uma moderna Isadora Duncan. Seus formosos seios saltam vigorosos.
 
A melodia numa voz harmoniosa diz: “I am a rainbow, i am a rainbow (Eu sou um arco-íris, eu sou um arco-íris)”. Debaixo de um toldo azulado, esticado em troncos de altos carvalhos, mulheres cortam melões, em cima de uma mesa improvisada. No chão, um outro grupo descasca legumes e separam feijões. Outros desfazem os condimentos e especiarias numa pedra no chão. As crianças correm por entre as pernas dos adultos, com os pés cobertos de terra e os rostos pintados com desenhos coloridos. No fogão a lenha, os tachos de tamanho industrial são pousados. Ágnes mexe a aveia com uma comprida colher de pau e suspira de fadiga, passando a mão pelos cabelos curtos, raspados nos lados. Nascida na Hungria, viveu a maior parte da vida em Israel. Veio sozinha para a Toscana, mas rapidamente reencontrou caras familiares, de antigos encontros. “Venho pelo amor, pela liberdade”, explica despejando os cereais cozinhados em um recipiente de cobre.
 

Quatro ou cinco pessoas realizam a coreografia de yoga de saudação ao sol. Um pouco mais perto, vários rapazes dormem debaixo do espanta-espíritos suspenso entre duas faias. Aos poucos, vindas de diversos caminhos, as pessoas se juntam e dão as mãos, formando um cortejo circular. Um mar humano invade o acampamento. O compasso de espera é preenchido com uma popular música RAINBOW: “I´m so glad... Every little cell in my body is happy and well (Estou tão contente... Cada pequena célula do meu corpo está feliz e bem)”. Repetimos vezes sem conta, correndo para a frente e para trás, ondulando o círculo. Batemos palmas e alguém levanta a voz: “Por favor, façam silêncio para o Om”. Pedido satisfeito em poucos segundos. O Om, o som do universo, aumenta progressivamente, numa fusão de vozes que cria a vibração própria do mais importante mantra do hinduísmo. Recuperado o silêncio, nos sentamos no chão para dar início à refeição.
 
Dança, malabarismo, discos e bambolês. Violão, didjeridu e flautas. Depois da sopa de abóbora, penetro na floresta, onde um perfume de ervas queimadas se mistura com o odor do chá e do café. O francês Julian prefere ser tratado como Sananda, um nome místico. Desnudo, com um sorriso sossegado, afirma: “Depois de um Rainbow, as pessoas mudam”. Sananda veio ao encontro pelo “ritmo de liberdade, de solidariedade, de abertura ao mundo”. Um pouco mais dentro da floresta, encontro o belga Gérard. Ele me convida para subirmos num frondoso carvalho. No alto, nos abraçamos. “Aqui posso ser livre, ser como sou, sem que a sociedade me julgue”, explica. “Para cada um a experiência é diferente. Eu estou aqui para doar amor. Estou habituado a viajar sem dinheiro, vivo do que me dão. Venho aqui para dar aquilo que eu tenho”, diz. Um homem do mundo, com a tatuagem de uma pomba nas costas e uma rosa azul num ramo de espinhos nas nádegas.
 

Mata adentro, possuído pelo mistério, aproximo-me do tipi do grupo do australiano Mel. Ao seu lado, entre giestas floridas, uma mãe embala o seu bebê de dois meses. Pouco depois, uma outra mãe pousa a sua criança adormecida no chão, serena como um anjo. Nesse encontro inicial, Mel parece que me conhece há anos e fala sobre os RAINBOW: “É uma união pela paz. Comemos comida orgânica, vivemos em tendas, cozinhamos com lenha, não há eletricidade, não há álcool, não há drogas... Vivemos naturalmente. Há tolerância e cada um é responsável por todos. Há todo o tipo de religiões, idades e nacionalidades. Há punks, há doutores, há praticantes de reiki... Muitos vêm pela medicina alternativa. Há também tendas dedicadas a saunas ou banhos de vapor cerimoniais. E há muitos músicos”, informa. Aliás, é difícil encontrar um lugar no acampamento onde não se ouça violão, djembê, flauta ou didjeridu. O próprio Ben é músico.
 
“Foi um Rainbow que me inspirou a viajar”, confessa o alemão Thomas, enquanto beberica uma taça de chai. As palavras saem da sua boca carnuda límpidas, quentes e esperançosas. Conta que são sete anos de viagens e muitos RAINBOW. “Gosto como as pessoas se juntam nestes encontros. São equilibradas e positivas”, explica. Pouco depois, mergulho no riacho sob o céu dourado de final de tarde. Secando o cabelo molhado, Silvana sorri sem motivo aparente. Para chegar à Toscana ela pedalou sozinha, numa bicicleta cor-de-rosa, durante duas semanas desde a sua cidade natal. Sofreu um acidente no caminho, que deixou uma marca roxa na sua face direita. No riacho também fico conhecendo Kate. Ela veio para encontrar “pessoas interessantes”. Nasceu no Reino Unido e viveu anos numa comunidade hippie no México, de onde acaba de regressar. “Depois daqui vou pra Londres. Esta é a última oportunidade de liberdade, o último momento de utopia”.
 
Ao anoitecer, faz-se um profundo silêncio. O vento assobia, passando entre os galhos das faias e pelas chamas da fogueira. A Lua, no fim do infinito, parece dizer que é tempo de aconchego. Eu choro, sim, eu choro, mas o que se pode fazer? A felicidade é tanta! Cada vez mais agradecido a Deus pela redenção. A Lua, num tapete de luz, ilumina em cheio o acampamento sonífero. Uma doce solidão cobre tudo. E assim, em paz, adormeço.
 
Floresta de Abetone
Toscana, Itália
agosto de 2005
 

SOBRE o POVO do RAINBOW
“People of the Rainbow: A Nomadic Utopia” (2011)
de Michael Niman
“Derivas y tensiones en la materialización de la utopía:
etnografía al movimiento Arcoíris en Chile” (2016)
de Leonardo Cancino Pérez
“The Rainbow Family:
an Ethnography of Spiritual Postmodernism” (2006)
de Adam Berger
 
ENCONTRO RAINBOW
 
ESPAÇOS COMUNITÁRIOS
Recepção
Cozinha
Padaria
Centro de Medicina Alternativa
Armazém
Aldeia das Crianças
Fogo Sagrado
Buracos Sanitários
Temazcal
Espaço de Concílio
Jardinagem
Estação de Germinação
Banco de Sementes
Jardins Medicinais
Jardins de Fruta
 
O QUE TRAZER
Barraca de Campismo
Lanterna
Utensílios (prato, copo, talheres etc.)
Comida
Medicamento
Instrumento Musical
Livros
 
O QUE NÃO TRAZER
Álcool
Drogas
Animais de Estimação
Armas de Fogo
Plásticos desnecessários
Equipamentos eletrônicos
 
PERGUNTE-SE
“O que posso ensinar ou partilhar?”
“Que instrumentos ou provisões posso levar?”
“Que projeto ou workshop posso criar?”
 
Se desejar, doe dinheiro para o “Chapéu Mágico” (fundo comunitário).
 

LEIA TAMBÉM
 
CRÔNICAS da FLORESTA NEGRA 01
RELÂMPAGOS RASGANDO a NOITE
http://cinzasdiamantes.blogspot.com/2018/06/como-um-relampago-rasgando-noite.html

CRÔNICAS da FLORESTA NEGRA 02
A ENCRUZILHADA dos DESTINOS

CRÔNICAS da FLORESTA NEGRA 04
LA GIORNATA D’UNO INESISTENTE
 
 GALERIA de FOTOS