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julho 06, 2025

.................................................... A LÍNGUA APUNHALADA – crônicas





Sou eu o homem, eu sofri, estive lá.
WALT WHITMAN
(1819 – 1892. West Hills, Nova York / EUA)
 
Ilustrações:
PAULO von POSER
(1960. São Paulo / SP)

 
 
No ano de 2003, hospedado em um hotel potiguar à beira mar, colhia informações para iniciar a biografia do escritor Diogenes da Cunha Lima. Com tempo livre, aproveitei para organizar a antologia “A Língua Apunhalada”, com 31 crônicas divididas em “Crônicas Grapiúnas” (1993 - 1994) e “Crônicas dos Dias Errantes” (2000). Prefácio do potiguar Vicente Serejo e revisão do pernambucano Antônio Lopes, ambos cronistas notáveis. Todo o material literário havia circulado em suplementos de jornais, sites e blogs no Brasil, Espanha, Argentina e Portugal, muitas vezes causando polêmicas. Nele, escrevo sobre viagens, comportamento, sexo, política, religião, literatura e artes. Algumas das crônicas são imaturas, inclusive agressivas. Foram escritas em Ilhéus, em países europeus e no Marrocos. Textos sinceros com estocadas duras. Na época, no auge da juventude, era cúmplice da polêmica, do cuspir fogo, da erudição. Tinha como ídolos Paulo Francis, H. L. Mencken, Sérgio Augusto e Otto Lara Rezende. As palavras escritas sem freios cuspiam questionamentos, confiando nos raciocínios vulcânicos delas, afinal a verdade surpreende. Décadas passadas, releio esse livro que - por motivos misteriosos - nunca foi publicado. Divido com você o prefácio e três crônicas.

arte de lygia pape
O PUNHAL e a CRÔNICA
 
Prefácio de Vicente Serejo (*)
 
O cronista, sem precisar deixar de ser um repórter à procura das notícias da vida, tem sido também um repórter das notícias da alma. Vivendo no arame. Entre o real e o tangível, por mais que o inescrutável pareça ser matéria de nunca ouvido canto. Talvez por isso, quando comecei a leitura das crônicas de Antonio Nahud, reunidas neste conjunto que chamou de “A Língua Apunhalada”, senti que esse punhal era um resguardo de precaução. Culto, e dono de um texto impecável que se ombreia sem medo aos melhores textos da crítica e do jornalismo literário brasileiro, Antonio Nahud teme apunhalar a língua que domina numa bela arquitetura feita de ritmos e metáforas, como se a escrita, uma vez posta ao rez-de-chaussez, ficasse numa perigosa linha de tiro, no estande da crítica literária e seus exigentes exercícios.
 
Como todo grande escritor, tem seu modo singular de dizer, seu viés de contar, sua ilha de impressões com figuras que decalca no seu voo grande-angular sobre a banalidade do cotidiano. Uma banalidade que não é banal, porque também não é aquela com a qual quiseram ferir a grande poesia de Manuel Bandeira, como se fosse feita só da vulgaridade dos temas da vida besta. Quando é do cotidiano que se reflete por inteiro a própria vida. Na cor e na ausência da cor. No claro-escuro da alma. No baixo e no alto relevo. Em tudo. O olhar de Antonio Nahud é o registro, no mesmo nível de importância, da suspeita e da certeza. Do falso e do verdadeiro. Do pecado e da virtude. Do bem e do mal. Mas não tem, em nada, um maniqueísmo capaz de depenar o seu olhar e de fazê-lo pobre. Sua crônica não é apenas aquele sorriso da sociedade a que se referiu Afrânio Peixoto. É também a cara feia da ira, a gargalhada desabrida da ironia, a fisionomia triste da comoção.
 
Vivendo em Natal, ele nômade e fugidio, a cidade não soube ser o favo bom de sua doce e marcante presença. Ele, um homem em travessia, mas espetando com sua inteligência a mesmice dos dias e o mistério das noites. Seus ensaios nos jornais locais fazem dele um novo Michel de Montaigne – recluso e genial – a espreitar do alto das ameias de sua torre, diante do mar de Ponta Negra, os estranhos mistérios da vida e da arte. Mexe e remexe nas gavetas da alma humana, incomoda na sua sinceridade, e causa inveja quando enfia o olho na fresta e revela o que é proibido. E, no entanto, todos veem. A leitura deste “A Língua Apunhalada” é um exercício de visões e de descobertas. Aqui, nenhuma verdade é eterna. O bem e o mal se fundem, com cheiro de alfazema numa paisagem melancólica, quando ele mostra que o mundo, às vezes, é um mercado de farsantes. Antonio Nahud vai a toda parte, e, ao mesmo tempo, é real e mágico com sua escrita, que chamou de movediça e que lhe dá tino, força e sorte. Sua palavra é, ao mesmo tempo, apolínea e dionisíaca, próxima e distante. Capaz de fecundar palavras e emprenhar de novos sentidos a palavra gasta. Entre a dor e a delícia desse seu caetanear baiano, às vezes indolente, vagando pelas ruas e becos de sua Salvador, subindo e descendo as ladeiras, no sopro da vida cheirando a dendê.
 
Viajor dos rios existenciais que banham a alma humana entre o tédio e a dor de ser e de não ser, Antonio Nahud é um grande escritor. E, por isso, um grande cronista do seu tempo. Existencial e irônico, bem humorado e terno. Um lírico que procura as dúvidas nos dias errantes. Como quem desconfia, no seu ceticismo, que a dúvida é a grande presença de Deus. Porque ele sabe, e como sabe afirma: Vê-se que o esplendor da fé está ali, ali nos olhos de mar da gente comovida. Mas, desconfiado, pergunta: Consegue ver? Leiam o livro. E vejam.
 
(*) Cronista e ensaísta, autor de “Cena Urbana” e outros livros. Jornalista e professor universitário.
 
01
O JARDIM
 
A vida é um caminho cheio de espinhos e flores.
MACHADO de ASSIS
(1839 – 1908. Rio de Janeiro / RJ)

 
 
Na infância, fui duas ou três vezes de mãos dadas com mamãe visitar a bisavó Silvina. Íamos a pé, caminhando da casa de vovó Nininha, ela conversando com conhecidos ou parentes no caminho, em um ritual educado. Observava sua fala com gente que eu desconhecia, encantado com a criatura mais bela do mundo. Um ou outro passava a mão na minha cabeça de cachos negros, diziam coisas cordiais que eu ignorava, só vendo importância em estar de mãos dadas com aquela deusa. A bisavó morava em um casarão soturno, decorado com imagens de santos, molduras ovais e móveis antigos. Um mundo de sombras e fantasmas. Prostrada numa cama, ela parecia ter mil anos, o rosto enrugado, os cabelos cinzentos e o corpo magro, muito magro. Transmitia bons sentimentos no esforço para sorrir e deixar evidente sua felicidade com a presença da formosa e cordial neta. Vivia seus últimos momentos de vida, e parecia saber disso. Mamãe me deixava à vontade nessas visitas, protegido que eu estava numa casa sem perigos, ela apertando as mãos da idosa sem forças. Rezavam, conversavam sussurrando, tomavam chá mastigando biscoitinhos de nata.
 
Senhor absoluto do reino, ocupava o jardim ao lado da entrada principal. Era o jardim do paraíso, inesquecível. Lembro das gérberas amarelas, das margaridas graúdas, cravos vermelhos, lírios, ramos de ásteres, palmas de Santa Rita, narcisos e hortênsias. Sentava-me por instantes debaixo da mangueira contemplando o horto de belezas, de toda qualidade de perfumes. Havia também rosas musgosas, jacintos, campânulas, açafrões e mirra. O inocente coração, arrebatado pela paisagem inspiradora, guardava para si a condição existencialista. Perdia-me no visual florido, a mente hipnotizada por fragrâncias e formosuras. O coração em suspense. Controlando a comoção, acompanhava o voo de abelhas, borboletas e colibris; intrigado com formigas, gafanhotos, louva-a-deus e lagartas de fogo. Anos passados, certo trecho do romance “Sonhos d'Ouro” (1872), de José de Alencar, me faz recordar o jardim do transe infantil: “As flores, como mimos da natureza, pertencem à literatura; são do domínio da poesia”. A leitura do escritor cearense deu origem a esta crônica sentimental e nostálgica, resgatando o jardim que guardo no coração.
 
Para suportar os males do destino obscuro, tenho como estratégia zombar dos fajutos princípios esquerdistas. Eu desrespeito a mídia frouxa e artistas que vomitam estrume parecendo que estão fazendo o bem. Uma falácia, ou melhor, vaidade, nada mais do que vaidade. Aprendi que existe uma enorme diferença entre escrever bem e escrever mal. Mas há uma diferença ainda maior entre escrever bem e escrever uma obra-prima. Sou um escritor abstrato e intimista, caro leitor. O que tenho escrito? Busco a palavra viva. O homem Antonio não é importante, mas a palavra levita sob fábulas. Isso seria possível? Basta de filosofia. Tempo de angústia, o nosso. Que eu me perpetue carne e palavra. Não vejo a paisagem no entardecer, apenas me identifico com cantos de passarinhos. Posso estar acordando ou adormecido, sonhando que estou acordado. Não sinto falta de medalhas, palanques, oferendas. Eu sonho, então sou carne trêmula. Eu sonho que escrevo uma crônica para alguém que espera. Espera o quê? Não sei a resposta, mas continuo escrevendo. Por fim, converso com o Anjo da Guarda. Livrai-me do fascismo esquerdista, dos guetos homossexuais, da dor, da inveja alheia, da xenofobia, da verdade absoluta. Ignoro a pretensão imortal e imoral dos mortais. Experimento o mel do melhor, recordando uma infância no quintal florido da bisavó Silvina.
 
As lembranças se perdem na memória, sufocadas por uma realidade de injustiças, brutalidades e mesquinharias. Do jardim, só o vestígio de uma flor ou outra, e geralmente sem perfume, crias de laboratório. Vivo as dificuldades de todos nós e trabalho para pagar contas de inutilidades. A classe política, de olho nas urnas, organiza conspirações para a manutenção do poder. Velhos dinossauros vendem virtudes e sagacidade, falando de democracia sem me convencer. Realmente a política é uma guerra, matando principalmente gente humilde. Sem um jardim para ser feliz, desconfio que não há mais flores verdadeiras. Estamos em uma época do sintético, do artifício, do estético fake que ostenta. Veja, caro leitor, o caso da conexão Brasil-Itália de tráfico de crianças. Alucinante! Casais italianos adotando meninos nordestinos miseráveis por cinco mil dólares. Triplicam esse valor com a venda de seus órgãos no exterior, enquanto juízes e advogados brasileiros enchem o bolso sem remorsos. São tempos insensíveis. Ainda assim, pretendo viver muitas décadas driblando a maldade e a amargura, agarrando-me à lucidez e à ternura. Mas o que fazer com a falta que me faz o jardim mágico da distante infância? Bisavó Silvina, socorra-me!
 

02
A HORA do MALIGNO

Uma viagem intelectual incômoda. Incansável, não me satisfaço. Meus músculos tremem com a leitura de livros esgotados encontrados em sebos. Em Salvador, na rua Chile, comprei um grosso volume, baratíssimo, de discursos de ditadores. Iniciando a leitura, rabisquei impressões perversas em suas páginas, sentindo o sopro de um vento gélido no coração. Sou um witty, como os norte-americanos definem alguém com a rara capacidade de ser, enfim, maravilhosamente malvado com as palavras. O grande alvo do livro é o canalha Fidel Castro, que tem mais de 40 anos de poder ditatorial na ilha de Cuba. Lembrei de uma visita sua à Bahia, recebido por Antônio Carlos Magalhães, dos seus elogios à nossa culinária, “a melhor do mundo”. Com o uniforme verde-oliva, parecia sair de um combate na Baía dos Porcos, simbolizando o malévolo revolucionário. É um mito cultivado pelo marxismo-leninismo, intelectuais mal-intencionados e uma infinidade de idiotas.
 
Passei um mês em Cuba, em 1999, fazendo uma longa matéria para uma revista portuguesa de turismo. Desfilando de táxi no passeio marítimo de Havana, o Malecón, me assustei com os velhos e imponentes casarões coloniais em ruínas. A bela cidade celebrada em filmes e comerciais publicitários parecia que acabara de sair de uma guerra implacável. Era visível a miséria gritante de um povo alegre e de sensibilidade artística. Diversas famílias dividiam a mesma moradia decadente, desemprego e insatisfação generalizada. Um bonito jovem cubano, Vladimir, de olhos verdes em pele morena, formado em medicina e trabalhando como carregador de malas no hotel cinco estrelas que eu estava hospedado, implorou para que o levasse a qualquer parte do mundo. “Faço o que você quiser, serei seu escravo”, disse-me. Em Cuba, a política educacional e de saúde é boa, funciona perfeitamente, mas a falta de liberdade de expressão é nefasta. Em Varadero, trancado em um luxuoso hotel canadense, enquanto o furacão Irene nos ameaçava, assistia tevê, entediado e bebendo mojitos, analisando o longo discurso demagogo do ditador Fidel na telinha. Cuba não é a melhor das vidas.
 
Muitas vezes o poder sobrevive graças a uma espécie de ritual horrendo. A imortalidade parece ser a pretensão daqueles que se julgam possuidores de força superior, de Napoleão a Adolf Hitler, passando pelos coronéis nordestinos. São portadores de cóleras que o tempo faz irrisórias. Suas ações ocupam o centro de nossas preocupações, sem que eles se importem com a reprovação de julgamentos morais. É difícil conviver com essa escória. Não respeitam ninguém. O encanto de Fidel Castro é fruto de um carisma usado para fins de manipulação, algo parecido com o que fazem certos líderes religiosos: manipulam, roubam, prometem o Reino dos Céus. São insaciáveis. No entanto, as máscaras terminam por cair, como aconteceu com Getúlio Vargas, Juan Domingo Perón, Idi Amin Dada e Ferdinando Marcos. O tempo não perdoa. Em meio ao terror, corrupção e escândalos, há sempre a redescoberta do sentido das palavras solidariedade, liberdade e igualdade.
 
O retrógrado camarada Fidel talvez não seja o único diabo mor vivo. Supostos democratas, como George W. Bush, nos EUA; José Maria Aznar, Espanha; ou Silvio Berlusconi, Itália; entre outros, são também vermes ocidentais. Eles invadem países fragilizados, exploram e oprimem em nome da democracia. No Brasil, as manifestações pelo impeachment do ex-presidente Collor de Mello, em 1992, trouxeram o sonho de igualdade social, e o natural seria não votar nunca mais em partidos repulsivos como o PT, não acreditar em telejornais manipulados ou na publicidade política cujo sentido é melhor ignorar. São absurdos o cinismo, as más intenções e a mediocridade de muitos políticos. Acredito no ideal de um país melhor, consciente do nosso papel como cidadãos e sabendo que podemos fazer história. Precisamos de uma Perestroika que ponha a nu o fisiologismo da máquina estatal, os carcomidos privilégios do funcionalismo público ineficiente, a articulação política resultando em corrupção, contravenção, criminalidade, tráfico de drogas e miséria num cotidiano de erros. Assim, veríamos a face real da República das Bananas: milhões de mortos e subnutridos por arrocho salarial, ignorância e desemprego. Milhões de esperanças e desejos sem-teto. Assim, tu; assim, todos nós.
 
03
A ILUSÃO VIAJA de TREM

Para onde vão os trens, meu pai? Para Mahal,Tami,
para Camiri, espaços no mapa, e depois o pai ria:
também para lugar nenhum, meu filho, tu podes ir
e ainda que se mova o trem não te moves de ti.
HILDA HILST
(1930 – 2004. Jaú / São Paulo)

“Qadós” (1973)
 
 
Tomei o trem em direção a Fez, pretendendo visitar Rachid Bendai, um escritor proprietário de uma loja de alumínios. Conheci o simpático beri-béri anos antes, ao perder-me no bairro judeu em busca da fonte Najjarine, e nunca mais deixamos de trocar cartas fraternas, quase surrealistas na sua mistura de espanhol, francês e português. Fez, uma das cidades mais lúdicas que conheci nos muitos anos de viajante, não tem nada do glamour afetado da telenovela “O Clone”. É espiritual, simplória, perdida no tempo. No comboio, instalei-me em uma cabine espaçosa, decadente, resquício da luxúria abusada dos colonizadores franceses. Do corredor, surgiram cabeças, olhos, animais, policiais sebosos, traficantes de haxixe, uma balbúrdia. Como a viagem seria longa, decidi rabiscar considerações poéticas encomendadas por um suplemento literário argentino. Sendo eu mesmo poeta, percebi que não podia escrever tal artigo didático, afinal há inúmeras formas de trabalhar versos, e cada qual usa aquela que se harmoniza com a sua sensibilidade, escrevendo da maneira que julgar mais densa. Pensava numa saída, quando um homenzinho asqueroso se sentou na poltrona em frente.
 
O sujeito apresentou-se, em espanhol, e, depois de um olhar ambíguo, contou sua história. Se revelou um marroquino que vivia na Andaluzia. Estava de visita para o casamento de um primo carnal, supostamente seu melhor amigo. Três dias de festa, os homens numa casa e as mulheres noutra. Três dias de comilança, dança, canto, haxixe. Você é meu convidado, afirmou. Não respondi, percebendo os sinais do mau-olhado. Fechando os olhos, fingi um sono improvável, concentrando-me no barulho das rodas nos velhos trilhos. Na primeira vez que tomei um trem, dos cafundós da Galícia a Lisboa, senti um prazer vivíssimo, uma energia ardente subindo por todo o corpo. Os vagões lotados de barulhentos pracinhas cantando e falando alto, como em um antigo musical de Hollywood. Não era um trem levando milhares de judeus para os fornos crematórios na infame Segunda Guerra Mundial, tampouco o que esmagou a beleza insatisfeita da heroína Anna Karenina. Seria mais fácil encontrar a cantora Sugar Kane de Marilyn Monroe atravessando os corredores e provocando assobios com o seu rebolado adorável.
 
Sempre gostei de filmes passados em trens, como os de Buñuel, Lumet, Chéreau, Hitchcock com o pacto dúbio entre os protagonistas. Abri os olhos e Hadj Mohamed – sim, esse era o nome do infeliz – tinha o meu livro de Tahar Ben Jelloun nas mãos. Pedi o livro de volta, revelando de supetão o idioma português. Devolveu o livro, jurando amor eterno pelo futebol brasileiro. Não gosto de futebol, escapa-me algum tédio, é uma paixão que não compreendo. Não me animo nem com as Copas e suas bandeiras penduradas em janelas de prédios e agitadas por meninos que nem sabem ler ou escrever. Costumo resmungar entediado contra esse patriotismo fajuto. Sei que é tempo de bandeiras, de solidariedade. Tenho às vezes curiosidade de saber onde vão parar as bandeiras e as camisetas verde-amarelas. São usadas nas praias, shopping-centers e condenadas a pano de chão? Não me interesso por futebol, deixei claro para o estranho. O malandro Mohamed continuou falando sem parar, exaltando a beleza da sua terra e contando sobre artistas europeus que passam longas temporada nela.
 
Uma fala incansável, lenta, talvez hipnótica, sempre repetindo “Você vai gostar da festa do meu primo”. Tenho conhecidos à minha espera em Fez, rebatia, nunca falando seu nome. Nomeá-lo seria respeitá-lo. A tal celebração matrimonial aconteceria numa cidadezinha, Asilah, no início do trajeto pretendido até Fez. Ele desenhava verbalmente a magia do lugar, as praias exuberantes, o oásis de palmeiras e laranjeiras. Havia lido alguma coisa sobre a branca Asilah, mas repetia assediado por uma leve lassidão: “Muito grato, irei a Fez”. O sol torrava inclemente o deserto visto através da janela. Surgiam ilhas verdes com soberanas palmeiras. Representantes da lei examinaram meu passaporte, perguntando o que fazia no Marrocos. Sou jornalista, vim visitar amigos em Fez e depois entrevistar o escritor espanhol Juan Goytysolo em Marrakech. Eles me deixaram em paz, mas os olhos da bizarra criatura brilharam. Não pense que tenho dinheiro, não sou um jornalista famoso. Sou um duro, o meu país é tão pobre como o seu. Por isso viajo neste trem decadente, exagerei. Mohamed calou-se por minutos, estudando a situação e planejando o reforço da vigarice.
 
Aproveitei seu silêncio repentino para recordar uma viagem de trem pelos Alpes Suíços, no Bernina Express, percorrendo 145 km. Uma das viagens de trem mais impressionantes do meu histórico aventureiro. Em seu trajeto, passei por 102 pontes, túneis, precipícios, belos vales, névoas, densas florestas, lagos e no ponto mais alto da estrada de ferro, o imponente mundo das montanhas, com seus picos cobertos de neves. Partimos de Chur, uma das mais antigas cidades da Suíça, com cerca de cinco mil anos. Como fui feliz! Imitando Hercule Poirot em “Assassinato no Expresso do Oriente”, examinei minuciosamente cada passageiro. Um sonho realizado, pois nunca compreendi o extermínio dos trens no Brasil, um país com distâncias tão longínquas. Quando criança, atravessando os trilhos abandonados da cidade natal, perguntava a babá onde o trem se escondia, e ela respondia: “Partiu para o infinito de Deus e não conseguiu encontrar o caminho de volta”. Eu acreditava piamente. Na região de Graubunden, conhecida pelos vinhos de excelente qualidade, o Bernina Express parou por 15 minutos. Ao seu lado, o Glacier Express, vindo de Zermatt em direção a St. Moritz. Tirei uma fotografia do jovem cobrador e, sorridente, ele me convidou para tomar chocolate. Segui o louro de olhos azuis até um dos escritórios da estação, observando as paredes decoradas por cartazes turísticos dos Alpes Suíços. Ele serviu o chocolate, sentou-se numa cadeira rústica do outro lado da sala, abriu as pernas e a braguilha, e masturbou-se, sem dizer uma palavra. Tomei o chocolate quente, assistindo ao espetáculo inusitado. O sinal de partida foi anunciado, agradeci a oferta e voltei ao Bernina. Horas depois, ao encontrá-lo, ele fez de conta que nunca tinha me visto. Achei hilário, outra história para o meu diário.
 
Mohamed me despertou das lúbricas recordações, puxando-me pelo braço, avisando que havíamos chegado, enquanto retirava a minha mochila do bagageiro. Tomei-a de volta e, sonolento, segui para uma das saídas, ao lado da cabine. As descer, avistei uma estação semi abandonada, um dromedário coberto de moscas, arriado no chão, e um táxi negro dos anos 50. O trem partiu me deixando na solidão do deserto. O vigarista atrás de mim. Onde estou? Asilah, respondeu com um sorriso cínico. Não estamos em Asilah. Não sou tolo. E o mar? Logo ali, vamos tomar um táxi – disse, apontando as areias escaldantes, sem nenhum sinal de edificações ou do mar. Vou para Fez, afirmei decidido, entrando no prédio. O próximo trem passaria às 5 da manhã. Em pânico, vivi uma noite assustadora. Muitas horas sem perder a mochila de vista, recusando ofertas de hospedagem, repetindo que não tinha dinheiro. A pequena cidade era pobre e suja, com apenas uma minúscula Medina. Não encontrei turistas, consulados ou hotéis. Depois de horas tendo Hadj Mohamed como sombra, consegui escapar assim que ele entrou em um banho público para falar com um parente.
 
Corri como um doido pelas ruas labirínticas, escondendo-me no Jardim das Bruxas, à saída da cidade. Não preguei os olhos, atento aos ruídos noturnos. A memória reavivava casos de desaparecidos de uma hora para outra no Marrocos e nunca mais encontrados. Faltando pouco para o amanhecer caminhei até a estação, pegando carona no caminho com um carroceiro muito idoso. Ainda filosofei sobre a velhice, tratando-a como um mal-entendido entre o corpo e o espírito, mas o coração pulsava forte, temendo a volta do diabólico grilo falante. Quando o trem surgiu, teve o efeito de um milagre. Chorando, ajoelhei-me na areia áspera e agradeci a Maomé, teria mais tempo para viver entre pessoas cheias de importância, bem instaladas na sua mediocridade. Voltaria ao Brasil. Antes, eu e a ilusão continuaríamos de trem para Fez, e a seguir, Marrakech.
 


abril 10, 2019

.................................................................. ACONTECEU em VÊNUS



 
Deter-me aqui. Vislumbre um pouco a natura.
O rútilo blau do mar matutino,
a abóboda sem nódoa, a orla ocre. A tudo
embeleza a luz efusa.

Deter-me aqui. Me iluda um tal panorama
(verdade: estático, o vi fugaz);
um tal, e não, também aqui, as fantasmagorias,
as rememorações, a luxúria das miragens.

KONSTANTINOS KÁVAFIS
(1863 - 1933. Alexandria / Egito)
Mar Matutino

Fotografias: HERBERT LIST
(1903 - 1975. Hamburgo / Alemanha)


PELLA, MACEDONIA

Este é um tempo estranho. Optamos por uma máxima que diz que tudo já foi feito e qualquer tentativa de novidade é, portanto, inútil. A Terra segue explorada até seus confins, o oceano profundo está fora do nosso alcance e o infinito Universo é um desconhecido. O capitalismo é ambíguo, mas é o que se ajusta melhor aos nossos caprichos. Pobres haverá sempre, como disse Jesus Cristo, embora não falasse com resignação. Sair às ruas não é recomendável nesta época de terrorismo e violência. Por exemplo, a troca constante de tiros entre policiais e traficantes, nos morros do Rio de Janeiro, apavora. Para evitar esse tipo de infortúnio, existe a internet. Aquele que anseia alguma forma de experiência limite, que se inscreva em um reality show. E os artistas, que sejam fotografados e comentados entre as migalhas dos grandes do passado. Nenhum escultor superará Michelangelo. Nenhuma atriz de cinema terá a luminosidade da alemã Marlene Dietrich. Nenhum brasileiro escreverá um romance superior a  “Grande Sertão: Veredas”. 
 

Existe a possibilidade de situações mágicas, em que o mundo e as pessoas se tornam sensatos, criativos e até solidários. O verão europeu, ou melhor, qualquer espécie de férias em qualquer lugar, é propícia para a felicidade. É revigorante ver rostos belos de diversas raças em um mesmo espaço. Como se Dionísio deixasse o exílio e fizesse a festa acompanhado por um cortejo de Sátiros, Silenos e Bacantes. Os estrangeiros nunca adivinham que venho do Brasil, acham que sou árabe ou cubano, como se fossem a mesma coisa. Em algumas situações, sinto-me exótico como Sophia Loren em Hollywood, mesmo não tendo olhos verdes. Visto batas brancas, verdes e violetas; pinto os olhos de henna como os gregos ou os mouros, uso brincos ciganos de prata e converso em outros idiomas sem evitar o sotaque baiano.


Em Pella, ao norte da Grécia, escrevo na cabine de uma furgoneta azul-turquesa chamada Vênus. Sam, o bonitão amigo ruivo neozelandês que conheci em uma estação de trem, prepara tortilla na churrasqueira ao lado do jardim de oliveiras. Ele nasceu numa fazenda de gado e agora corre mundo. Logo irá a Ibiza, eu a Chechaouén, no Marrocos. É um desses encontros cúmplices e fugazes tão comuns nos verões da juventude. Durante o dia, o sol brilhou com força e as rodovias estavam vazias. À noite, as Persêidas ou “As lágrimas de San Lorenzo”, uma chuva de meteoritos que acontece nesse momento do ano, acende o céu em milhares de pontos de luz. Situação exata para contatos do Terceiro Grau. Se eles sabem que eu sei que sou observado por que não se aproximam? Creio que tenho visto demais a filmes de ficção científica.


Um cão magro brinca com um pedaço de pau, enquanto leio sobre a morte de Bernard Levin, brilhante comentarista do jornalismo britânico. Extravagante e contraditório, insolente e ao mesmo tempo inseguro, Levin era mais odiado que admirado. Na tevê, usava a técnica da agressividade intelectual para amedrontar seus entrevistados, desvendando verdades. Não era superficial e vaidoso como Jô Soares. Foi cuspido em público no intervalo de uma representação teatral e um entrevistado partiu a sua cara ao vivo por uma crítica especialmente cruel contra sua mulher. É da turma da escrita culta e afiada como uma lâmina, que inclui, entre outros, Ring Larder Jr., Budd Schulberg, H. L. Mencken, Dorothy Parker, Gore Vidal, Tom Wolfe ou os brasileiros Paulo Francis e Sérgio Augusto. Seus desafortunados imitadores chovem aos montes.


De um só gole viro a taça de vinho dos deuses, homenageando Levin. Pella é a terra natal de Alexandre Magno, o Grande. Convivi intimamente com ele lendo uma série de livros sobre a sua vida, inclusive o fabuloso “O Garoto Persa / The Persian Boy” (1972), de Mary Renault. Plutarco conta que o nascimento de Alexandre foi precedido por visões e prodígios. Teve lugar no mês de Hecatombeón, que os antigos macedônios chamavam Loo e nós agosto, e coincidiu com aquele incêndio que destruiu o famoso templo da deusa Artemís, em Éfeso, uma das sete maravilhas do mundo antigo. Num pequeno museu local admirei a cabeça de Alexandre representado como um jovem efebo. Falta o nariz e é idêntica a outras que vi em museus e publicações. Alexandre foi um dos primeiros a se preocupar com a imagem pública, o marketing que hoje acaba em grandes saques nos cofres públicos. Teve seus próprios escultores e pintores, que reproduziam o mesmo retrato. Não mostram um homem, mas um deus. Nunca conheceremos sua aparência real, nem no lugar em que nasceu.


O ator Colin Farrell interpreta o herói no filme do polêmico Oliver Stone. Quando perguntado se os amores homossexuais do bravo conquistador seriam abordados na história, ele respondeu: “Como pano de fundo, discretamente. A sexualidade de Alexandre não é fundamental para o nosso filme”. Como assim? Desde quando a sexualidade de um protagonista não é importante para o cinema norte-americano? Caso fosse mais uma das versões da vida de Cleópatra, ela faria sexo com Júlio César e morreria de amor por Marco Antônio. O recinto arqueológico de Pella, situado numa região sagrada e onde se coroavam e enterravam reis, está contaminado por abomináveis turistas, desses que fazem selfies o tempo inteiro e visitam monumentos sem nem mesmo saber quem foi Bucéfalo. Além disso, as ruínas não são nada extraordinárias, e do que um dia foi uma grande cidade, restam umas poucas colunas em pé. 
 

Estar na furgoneta Vênus admirando estrelas cadentes na penumbra, ao lado de um belíssimo ruivo desnudo, comendo tortilla de batatas e pensando no jovem que se lançou a conquista do mundo e a uma vida apaixonada em apenas 32 anos de existência, é admirável e revigorante. O próprio ar vibra com o poder da imaginação. Vivo o sonho de uma noite de verão. No céu, as velozes Persêidas são flechas de fogo desenhando uma luminosa trajetória de poucos segundos. Entre 20 de julho e 20 de agosto, quando a Terra cruza a órbita do cometa Swift-Tuttle e suas partículas entram na atmosfera terrestre, essas populares estrelas cadentes da constelação de Perseu podem aparecer em toda parte. O melhor lugar para observá-las é qualquer lugar, quando mais escuro melhor. É um assombroso espetáculo de luz e cor! Portanto, caro leitor, não seria melhor desligar o computador e ir para o campo, as montanhas, uma praia deserta ou a Chapada Diamantina e enxergar a beleza da tempestade de estrelas cadentes?
  
do livro SE um VIAJANTE numa ESPANHA de LORCA (2005)
Antonio Nahud
Coimbra, Portugal.


 
 

julho 30, 2017

............................................. O REALISMO SUJO de JOHN FANTE




ESCRITA, BEBIDA e SOBREVIVÊNCIA

Siempre es así. Cuando crees que la tierra está exclusivamente
poblada por Mierdas, encuentras una perla
WILLIAM S. BURROUGHS
(1914 - 1997. San Luis, Missouri / EUA)
Marica (1985)

Fotografias:
EMMANUELLE MARCHADOUR


Bebia como um condenado, e sempre retratou sua própria vida nas histórias que escrevia. Sua trajetória mistura a jornada entre os gordos cheques dos estúdios de cinema e o foco na carreira literária. Esse é JOHN FANTE (1909 - 1983), figura lendária da literatura norte-americana. Seu pessimismo gritante e humor cáustico, tanto em sua vida como em sua obra, refletem uma rebelião contra a sociedade convencional. “Guru” de talentos reconhecidos como Raymond Carver e Charles Bukowski, sua criação é uma das mais inovadoras da literatura contemporânea. De olho no cotidiano, ele lançou o chamado “realismo sujo”.

Segundo disse, tentou “ser o melhor escritor do mundo”. Deixou como legado pelo menos duas obras extraordinárias, “Pergunte ao Pó” (1939) e “Sonhos de Bunker Hill” (1982), que estavam entre os livros preferidos do gaúcho Caio Fernando Abreu. Hollywood desperdiçou o talento de JOHN FANTE, reduzindo-o a um mero roteirista de encomenda sem qualquer obra cinematográfica de substância. Após ver um filme roteirizado por ele, “Pelos Bairros do Vício / Walk on the Wild Side” (1962), saboreando café com conhaque, no primeiro ano da década de noventa, conversei com Caio Fernando Abreu sobre a narrativa e a caracterização dos personagens do pai de Bandini. Sua violenta energia e visão de mundo são admiráveis. 

john fante
Defensor fervoroso de Fante, o papa do underground literário Charles Bukowski se ocupou durante toda a vida, e com afinco, de evidenciar o importante que para ele era a obra de JOHN FANTE, um escritor considerado até então medíocre, carente de recursos, um desconhecido. O romance “Pergunte ao Pó” vendeu apenas 3 mil exemplares quando lançado, porque o editor não tinha dinheiro para divulgá-lo. Em 1980, veio a reedição com prefácio de Bukowski e a descoberta mundial. Um estranho na terra prometida, feito um santo ou um criminoso com ordem de busca e captura, o escritor nada tinha a perder, e numa rotina encharcada de álcool, escreveu a vivência dos derrotados. Acabou seus dias em uma confortável casa em Malibu, na Califórnia, cego, com as pernas amputadas devido a diabetes que padecia, mergulhado num coração ferido, apostas e ditando romances para a mulher, a poetisa com interesse em magia branca, Joyce Smart.

Nascido em Denver, Colorado, o jovem candidato a escritor enviou um conto ao famoso H. L. Mencken, editor da revista literária “The American Mercury”, que foi publicado. Para ganhar a vida e sustentar a numerosa família de quatro filhos, que nunca levou a sério, trabalhou em Hollywood roteirizando filmes, vendendo a alma ao diabo e publicando apenas quatro livros em quase quarenta anos. O segundo deles, “Espere a Primavera, Bandini”, de 1938, conta com o irresistível protagonista alter ego do autor, Arturo Bandini. Lembro-me adolescente, trabalhando num escritório de arquitetura para pagar os estudos, identificado com as peripécias de Bandini, sonhando em viajar, vivenciar aventuras e escrevê-las.

Em 1952, JOHN FANTE obteve sucesso comercial com o romance “Um Casal em Apuros”, e a adaptação para o cinema o levou a nomeação ao Oscar de Melhor Roteiro. Em 1957, passando temporada em Roma, convidado pelo poderoso produtor Dino De Laurentiis, morava em um apartamento renascentista, com chofer e criada. A meta era desenvolver um roteiro - nunca rodado - sobre São Genaro. Na época, foi contratado por um decadente Orson Welles como colaborador de um programa radiofônico patrocinado por uma firma de cosméticos. Para o diretor Michael Curtiz (“Casablanca / Idem”, 1942) cobrou 350 dólares por uma hora de trabalho em uma cena de “São Francisco de Assis / Francis of Assisi” (1961). Federico Fellini também tentou tê-lo como parceiro, mas não houve acordo financeiro.

Pouco antes de morrer, aos 74 anos, justamente quando seus livros voltavam a ser publicados, escreveu “1933 Foi um Ano Ruim” (1985), “Rumo a Los Angeles” (1985) e “A Oeste de Roma” (1986). “Dago Red”, de 1940, foi reeditado em 1985 como “O Vinho da Juventude”. Passou a infância basicamente no triângulo escola-família-igreja. A juventude foi dura. Criou-se num lar entre intermináveis discussões, falta de dinheiro, insultos xenófobos e manifestações anti-católicas, defendendo-se do hostil mundo exterior com frequentes brigas e a prática do boxe. Herdeiro do espírito aventureiro paterno, trocou a igreja pela biblioteca pública, começando a escrever aos 20 anos. Cansando-se da universidade em seis meses de frequência, mudou-se para onde se tornaria um dos seus cronistas, Los Angeles.

Sua sobrevivência cotidiana com a mente direcionada para converter-se em uma “celebridade das letras” está impressa em seus vigorosos relatos. À imagem de Knut Hamsun, um dos seus escritores favoritos, passou fome, vagabundeou sem descanso, habitou sórdidos motéis, envolveu-se com garotas nada sérias, trabalhou em uma fábrica de conservas, e se embriagou todos os dias, montando escândalos públicos e proclamando-se um gênio incompreendido. Em busca do reconhecimento do talento, uma máscara para esconder uma espantosa desintegração social, coseu com humor macabro as experiências dramáticas de Arturo Bandini, um escritor-filósofo malandro e vaidoso protagonista de uma sublime tetralogia.

A crescente reputação como criador de histórias, de emotividade à italiana, abriu para ele as portas dos estúdios. Livre da fome e de roupas remendadas, pagou o preço do conforto atando-se a melodramas cinematográficos baratos, muitas vezes parodiando sua própria origem, em títulos como “A Vida Tem Dois Aspectos / East of the River” (1940), sobre o bairro nova-iorquino Little Italy. Como roteirista ganhava mil dólares por semana, mas foram filmados apenas oito de seus trinta roteiros, aos quais desprezava. Francis Ford Coppola projetou adaptar “The Brotherhood of the Grape” (1977), que o escritor considerava o seu melhor trabalho e aquele que o havia feito chorar mais. Retrata uma rude figura paterna em uma família italiana em crise. Mesmo com contos em revistas importantes, como “Harper´s” e “Esquire”, seus romances foram durante muito tempo recusados pelas editoras.

Bebedor incontrolável, péssimo pai e marido, JOHN FANTE podia acabar a noite falando porcarias com um companheiro ébrio da talha do premiado com o Nobel William Faulkner ou destruindo seu Plymouth contra um poste telefônico de Hermosa Beach. Em entrevista, um dos seus filhos, Dan, afirmou: “Não era um cara legal.”. As memórias tumultuadas da relação pai e filho foram parar em livro. “Meu pai teve muito azar, mas ele também construiu sua própria má sorte. Era um homem muito difícil, insultava pessoas. Não era nada político”, garante Dan Fante. Caprichoso, o escritor teve um jaguar, um pit-bull branco de nome Rocco e uma Baretta calibre 22. Entre um romance e outro, o tempo não jogou limpo com sua ambição de reconhecimento literário.

O diagnóstico de diabetes em 1955 fez com que sua carreira tomasse um baque. As complicações da doença ocasionaram cegueira. Mas não foi desculpa para que ele parasse de escrever. Passou então a ditar as histórias para sua mulher, Joyce. O editor de poesia do jornal “Los Angeles Times”, Ben Pleasants, e Charles Bukowski resgataram JOHN FANTE do anonimato. Fascinado pela leitura de “Pergunte ao Pó”, Bukowski rodou o bairro de Bunker Hill, onde se situa o esfomeado Arturo Bandini, para se sentir como o personagem por um dia. Seu alter ego, Henry Chinaski, manifesta em “Mulheres” (também em “Pedaços de Um Caderno Manchado de Vinho”), que seu autor preferido era John Fante. “F-A-N-T-E”, enfatiza. Por fim, Bukowski convenceu a Black Sparrow Press a republicá-lo, após anos de esquecimento. Ele visitou o ídolo no hospital e lhe dedicou “Love is a Dog from Hell”: “Para Fante, que me ensinou como. Hank”.


A biografia de JOHN FANTE foi publicada por Stephen Cooper em 2000. Ele faz parte da nata literária dos anos 1930-40 de escritores que viveram do ofício de roteirista de Hollywood. Gente do naipe de Raymond Chandler, Nathanael West, Budd Schulberg, Faulkner, F. Scott Fitzgerald, James M. Cain e Dorothy Parker. Não seria nada mal tomar uma taça de vinho tinto seco em sua memória. Que viva o mestre!

Barcelona, Espanha
09 de julho de 2005


CINCO FRAGMENTOS de “PERGUNTE AO PÓ”

O mundo era pó e ao pó voltaria.

Tudo o que era bom em mim me emocionou naquele momento, tudo o que eu esperava do profundo e obscuro significado da minha existência. Aqui estava a placidez interminável e muda da natureza, indiferente à grande cidade; aqui estava o deserto abaixo dessas ruas, ao redor dessas ruas, esperando que a cidade morresse para cobri-la com a areia eterna uma vez mais.

Tornava-me um estranho dentro de mim, era como todas aquelas noites calmas e os altos eucaliptos, as estrelas do deserto, aquela terra e aquele céu, aquele nevoeiro lá fora, e eu viera para cá com nenhum propósito exceto o de ser um mero escritor, ganhar dinheiro, ser reconhecido e toda aquela baboseira. Ela era melhor do que eu, tão mais honesta que fiquei enojado de mim e não podia enfrentar seus olhos cálidos.

Não fiz perguntas. Tudo o que eu queria saber estava escrito em frases torturadas na desolação do seu rosto.

Saí para uma caminhada pelas ruas. Meus Deus, aqui estava eu de novo, perambulando pela cidade. Olhei os rostos ao meu redor e sabia que o meu era como o deles. Rostos drenados de sangue, rostos tensos, preocupados, perdidos. Rostos como flores arrancadas de suas raízes e enfiadas num vaso bonito, as cores se esvaindo rapidamente. Eu tinha que sair daquela cidade.