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agosto 07, 2026

................................................. As MÁSCARAS em JANETE BADARÓ

 

 


 
Eu escrevia silêncios, noites,
anotava o inexprimível.
Fixava vertigens.
ARTHUR RIMBAUD
(1854 – 1891. Charleville / França)
 
Diria que, pela espontaneidade e a vida,
o poema de Janete Badaró é tão legítimo
quanto a árvore que nasce da terra.
E em dia com a poesia do seu tempo.
ADONIAS FILHO
(1915 – 1990. Itajuípe / Bahia)
 
para meu padrinho Gervásio,
um bom amigo de Janete
 
 Fotografias: 
MARTIN BOGREN
(1967. Skurup / Suécia)

Cresci com o hábito inconveniente de dizer a verdade, em um país selvagem em que a mentira não é apenas comum, como obrigatória, nessas condições imorais de podridão socialista. Fazer o mal tornou-se uma estratégia generalizada de sobrevivência. Dizer a verdade, um ato de heroísmo. Contra tudo e contra muitos, continuo acreditando que o real valor está no caráter e na capacidade de adaptação. Sendo assim, aprendi a preparar-me para a tempestade. Aprendi também que o brasileiro voltado ao amor, à família, ao trabalho, à religião e às preocupações habituais da vida transformou-se em “inimigo do poder”. Rebelando-me contra o sistema cruel, decidi o que queria ser, caminhando diariamente para isso. Como meta, procurei amadurecer sem me tornar covarde, desleal, cínico, neurótico ou amargo. Percebi cedo que a MÁSCARA SOCIAL faz parte da civilização. Ninguém é o que parece ser. Há sempre uma MÁSCARA, que vem do latim persona e remete às MÁSCARAS usadas no teatro greco-romano. Elas ajudam a disfarçar as artimanhas dos personagens sociais.
 
Em outras palavras, todos têm uma para chamar de sua. São mediadoras entre o mundo externo e o interno. A questão é que alguns ficam prisioneiros dela, como a máscara de ferro do famoso folhetim “O Visconde de Bragelonne” (1850), de Alexandre Dumas. Os filósofos Jean-Jacques Rousseau e Denis Diderot discutiram densamente o tema, buscando a transparência moral. A construção da metáfora da MÁSCARA SOCIAL está presente no pensamento de outros filósofos e escritores, com maior ou menor intensidade. Eles denunciam o uso da máscara como acessório em diferentes momentos da nossa vida. Não é efetivamente um objeto para colocar no rosto e, sim, uma conversa, uma ação demagoga ou uma atitude. Para se destacar, assume-se outra personalidade que não é a da própria essência. Ela pode servir de defesa ou ataque e se torna a identidade visível. O mascarado se apresenta na construção de um estilo, revelando o que se pretende ser socialmente. O problema fundamental surge quando a MÁSCARA se transforma em terrível instrumento de manipulação.
 
Há psicopatas que parecem confiáveis. Muitos nazistas históricos foram descritos como afetuosos pais de família. O evidente é que não podemos controlar o mundo ao nosso redor, apenas a nós mesmos. Talvez o ideal seja agir virtuosamente mesmo quando tudo parece corrompido. É fato que na era digital intensificou-se ainda mais as MÁSCARAS SOCIAIS. Milhões de internautas constroem versões idealizadas de sua pessoa. O resultado é o esgotamento emocional, a solidão, a frustração. Eles não são transparentes nem para os outros, nem para si mesmo.  Escondem desejos, medos, impulsos, fragilidades. Dependem das MÁSCARAS para existir. E quando a aparência substitui a autenticidade, impõe-se o vazio. Sabemos que viver não é nada fácil. Inclusive, é bastante perigoso. Uma opinião incompreendida pode custar o emprego, uma discordância política pode acabar com amizades de décadas. A autocensura virou um reflexo automático — não sabemos mais onde está a fronteira entre liberdade de expressão e “discurso de ódio”.

 
Mas não há como negar que o brasileiro é limitado por nosso horizonte cultural e histórico. Somos um país cuja população é mantida, há muito tempo, num estado de letargia e ignorância profundas. Nossas universidades, sobretudo nas ciências humanas, são celeiros de alienação. O cidadão é vítima de sua própria ignorância, de sua dificuldade em se rebelar contra as autoridades corruptas. Viver com desconfiança virou normalidade, e a sensação de insegurança corrói nossa qualidade de vida. A maldade existe e ignorá-la seria uma ingenuidade, mas viver aprisionado pela desilusão e pelo pavor também não é viver. Tomo precauções sensatas sem me tornar refém da paranoia. Sou vigilante, não aterrorizado. A cada dia me recolho mais em uma pequena fortaleza imaginária. Não é isolamento, é a MÁSCARA da autopreservação. Em tempos em que o medíocre virou especialista, o vulgar virou referência e o oportunista virou exemplo de sucesso, optei por observar o espetáculo bizarro do alto de uma torre. A (in)civilização parece ter descoberto com unanimidade sua vergonhosa fórmula definitiva: aplaudir quem pensa menos e entregar a palavra a quem tem menos a dizer.
 
O que vejo? Os idiotas fazendo fortuna, os vazios ditando tendências e a inteligência pedindo desculpas por existir. Então me recolho no castelo inventado, escrevendo, lendo, vendo filmes, cuidando do jardim, de hábitos domésticos e brincando com o dócil cão Puck, indiferente às MÁSCARAS das vaidades. Enquanto o preço da carne se aproxima da cotação do ouro, com o cérebro mastigado pelo entretenimento rasteiro, o brasileiro acredita que “a inflação está controlada”. A nossa Justiça exibe 129 milhões de motivos para um serviço calhorda. Corruptos soltos, traficantes soltos, assassinos soltos. Escrever com batom uma frase em uma estátua desperta a fúria dos malditos. No topo desta pirâmide, um sujeito vingativo que já foi preso, condenado, “descondenado” e agora tornou-se soberano absoluto, um imperador sinistro e ignorante, acompanhado de uma quadrilha cujos crimes são “coincidências”. O filho ladrão não tem nada a ver com as acusações, o irmão ladrão de aposentados é um santo, os aliados ladrões são todos altruístas e qualquer investigação é heresia.
 
janete badaró
O Partido das Trevas (PT) entrega o caos da violência e a inflação, criando um círculo vicioso representando corrupção, incompetência e leniência com a bandidagem. “Livrai-nos do mal” é o último pedido da oração mais importante do cristianismo. Repito em silêncio essas palavras diante dos acontecimentos que nos atormentam. Quando passo os olhos pelas notícias, percebo que o mal está solto, tendo chegado ao Palácio do Planalto. O caminho para nos libertarmos dele é um ato de coragem: defender a verdade, não importa quanto ela pareça difícil. Infelizmente o brasileiro, esse analfabeto funcional doutrinado em universidades de quinta categoria, se importa mesmo é com mediocridade, carnaval, cervejinhas e música de péssima qualidade. O esporte favorito do nosso povo é fiscalizar a vida sexual alheia. É curioso observar o zelo com que analisa, julga e debate a intimidade de criaturas medíocres, num exercício que mascara o vazio profundo de sua existência barata, enquanto ignora, sistematicamente, as mãos públicas das ratazanas da extrema esquerda que nos roubam diariamente a carteira.

 
É Pindorama em sua forma mais pura. São cidadãos estetas, se importam com as aparências mais do que a realidade. E isso se reflete profundamente em nossos professores, em nossos formadores de opinião e em nossos parlamentares, o que é um prato cheio para oportunistas de toda sorte. Como um país assim pode dar certo? A crônica política revela o avanço da sujeira do sistema. Governar no Brasil é fazer do público algo privado, em uma quantidade infinita de benefícios e o enriquecimento às custas dos pobres. A educação segue nos piores índices, mais de 392 mil pessoas vivem em situação de rua, cerca de 19,34 milhões de famílias recebem o Programa Bolso Família, 82% das famílias do Brasil estão endividadas e cada parlamentar custa 528 vezes a renda média do brasileiro. Todos parecem estar vivendo o momento, sem um país para construir, apenas uma sucessão de amizades canceladas e ódios conduzidos. As reações de militantes, da imprensa, de artistas, de sub-celebridades e de todo tipo de formador de opinião alinhados aos diabólicos comunistas são de embrulhar o estômago.
 
O festival de antissemitismo que tomou conta das redes sociais é um dos sinais mais evidentes de nossa absoluta desgraça civilizacional. O presidente da República, persona non grata em Israel, nos transformou numa nação repudiada pelo mundo desenvolvido e associada as ditaduras mais brutais. Somos um país em que esse alcoólatra, casado com uma senhora vulgar e deslumbrada, transforma a vítima em algoz por pura ignorância ideológica. Pois é, quando os ímpios governam, o povo perece. O fato é que o Brasil é hoje um país autoritário. A imensa maioria dos brasileiros não sabe e não quer viver numa democracia, onde há diversidade e divergências. Uma gente vingativa, amando se dar bem e prejudicar os outros. Dizem que toda divergência é anátema, toda discordância é traição e toda ideia contrária deve ser eliminada. A intolerância é a regra. Somos atrasados, violentos, ignorantes, estúpidos. Matamos mais do que países em guerra, punimos inocentes e idolatramos criminosos. Os piores governam no Brasil. Criaturas baixas, oportunistas e rancorosas.
 
Com honestidade mordaz, procuro praticar uma literatura espirituosa sobre a necessidade de encontrar o meu caminho, sem jamais perder de vista as próprias origens e os fugazes momentos de beleza e ternura. Como costume, leio o que tenho vontade de ler. No momento, ando relendo “A Mente Esquerdista”, do psiquiatra norte-americano Lyle H. Rossiter. Descreve a psicologia da maligna massa de manobra, os histéricos que encontram no ressentimento coletivo uma forma de ordenar o caos interior. Antes li a peça “O Misantropo”, de Molière. O personagem-título é um homem que cultiva a virtude da sinceridade, e exatamente por isso rejeita as hipocrisias e as pequenas mentiras tão comuns na vida social. Ao finalizar a leitura, disse em voz alta: “Sou um misantropo!”. E convenhamos, é difícil não ser misantropo em um mundo que rejeita a verdade e a compaixão — um mundo em que o amor ao próximo, o perdão e a busca pela virtude se tornaram objeto de chacota. Quando a mentira e o crime estão no poder, cultivar a misantropia pode ser um ato de desobediência civil.

Escrevo horas a fio, sem me preocupar com publicação, leitores ou elogios. Recordo dezenas de amores que suavizaram meu coração. Escrevo biografias de encomenda para pagar contas mensais, pois a inflação petista é ávida pelos nossos suados recursos. Celebro em blogs a região em que nasci, o maltratado Sul da Bahia. Nos últimos dias, estudo MÁSCARAS SOCIAIS sem nenhum motivo aparente. Investigando o tema em biblioteca privada, encontrei o livro MÁSCARAS em PROCISSÃO (1984), da poeta e jornalista JANETE MENDONÇA BADARÓ (1935 – 2015. Ilhéus / Bahia). Ela partiu deste mundo há onze anos, deixando apenas dois livros, o que tenho em mãos, e um primeiro, “Momentos” (1979), que não li. Sua voz representa uma identidade própria profundamente humana. Talvez seja justamente isso que torna a poeta fascinante. Se inscrevendo na tradição poética grapiúna, percorre, à sua maneira, um caminho trilhado por nomes como Valdelice Pinheiro, Elvira Foeppel, Ana Virgínia Santiago, Conceição Nunes Brook, Neuzamaria Kerner, Baísa Nora, entre outras.

 
Primeiro soube de sua beleza e arte através do tio e padrinho Gervásio Santos (1932 - 2015. Itapé / Bahia), um intelectual e advogado como ela. Ele a celebrava, falando da amizade entre eles e da sua poesia. Deu-me de presente – o que era habitual – o MÁSCARAS em PROCISSÃO, explicando: “de uma jornalista, poeta, advogada e artista plástica que admiro e estimo”. Na época, um amigo de bela voz e cronista mordaz acima de qualquer suspeita, Euzner Teles, disse-me: “Essa diva já proporcionou participações de peso em meus shows. Cantamos Vinicius! “Samba em Prelúdio”!”. Anos depois, sua mãe, Lurdinha Teles, professora e admirável cantora, traduziu a conterrânea: “Intelectual reconhecida, uma pessoa simples, de voz suave, e essa sua maneira de ser cativava. Tinha muito carinho para com os filhos e com as pessoas de seu ciclo de amizade. De grande importância para Ilhéus, pelos seus vários dons. Comumente, expressava o desejo de fazer a sua passagem aos 80 anos, o que realmente aconteceu. É um nome inesquecível por todos os seus feitos.”
 
Certa vez, decidi visitá-la em Ilhéus. Estive na sua antiga residência na tradicional Avenida Soares Lopes. Tomamos café, conversamos sobre literatura, contei sobre finais de semana passados na Chácara do Sol de Hilda Hilst, em Campinas, São Paulo. Culta, questionadora, de sorriso sedutor, confessou estar lendo clássicos e filosofia. Perguntou-me sobre autores favoritos. Para ela, escrever não era um ato solitário nem um exercício puramente mecânico. Era, antes de tudo, um ritual de invocação. Na conversa, abriu as portas de seu universo criativo para revelar como a literatura se tornou seu norte, sua cura e seu lugar de pertencimento. O encontro resultou em empatia imediata. Depois cada um seguiu seu rumo, mas a amizade permaneceu. Tão longe, tão perto. Mudei-me para a Europa, e nos anos seguintes estivemos em contato através das redes sociais. Ela comentava minhas irreverências, deixando-me honrado. Dia desses encontrei uma manifestação sua em post no Facebook: “Nahud, mergulho no cálice transbordando vida da sua literatura com sabor de eternidade!”.
 
janete e o marido
Idealista e sensível, primeira mulher a ingressar na Academia de Letras de Ilhéus (cadeira número 6), formada em Letras e Direito, chefe de gabinete na Prefeitura Municipal de Ilhéus, JANETE MENDONÇA BADARÓ aposentou-se como professora da Secretaria de Educação do Estado da Bahia. Diretora e redatora-chefe do “Ilhéus Jornal” (fundado em 1976 por ela e seu esposo Carlos Alberto Ramagem Badaró), da “Ilhéus Revista” e da “Revista IR”. Nessas publicações, escrevia sobre arte, cultura, turismo, política, literatura, economia, esporte e meio ambiente, além de agregar jovens profissionais de imprensa. Publicou crônicas e contos em jornais e revistas regionais. Mãe de cinco filhos: Arilton Carlos, Jane Kátia, Jane Suely, Carlos Alberto Filho e Jane Hilda. Uma mulher de vanguarda, uma mente privilegiada. Partiu deixando uma forma criativa de existência e um testemunho de coragem. Um retrato que não depende apenas de livros ou fama, mas daquela sensação de que, quando um poema seu é lido, a idosa garota versátil ainda está entre nós.

 
Seu segundo e último livro, MÁSCARAS em PROCISSÃO, é inusitado. A narrativa acompanha a trajetória das MÁSCARAS SOCIAIS, numa experiência lírica, tornando-se o tema central numa poética de sonhos e visões. A partir daí, desenvolve-se um panorama de observação, memória e transformação pessoal. Investiga a delicada fronteira entre a razão e o oculto, nascida da própria experiência humana. Cenas oníricas se misturam à vida cotidiana, em uma atmosfera marcada pela natureza, pela música e pelas antigas tradições, onde o maravilhoso e o real se entrelaçam. Com seus versos diretos e sensíveis, JANETE BADARÓ constrói uma obra simples e complexa ao mesmo tempo. Poética psicológica, narrativa intimista e conto moral coexistem em equilíbrio, fazendo desta obra uma leitura que atravessa épocas e fronteiras. Ao transformar a fragilidade humana em matéria de encantamento, reafirma o poder da literatura de iluminar o que há de mais misterioso na experiência de viver. Com liberdade, revisita uma vida sublinhada pelo compromisso com a justiça e a literatura.
 
Cada poema seu é atravessado pela tentativa de alcançar o outro, de vê-lo e de se deixar ver. Não se trata, porém, de uma literatura da confidência. O que interessa aqui não é a revelação de uma intimidade, mas os modos pelos quais as relações se transformam em verso. Tudo se converte em matéria literária, sem perder a sua condição de experiência em movimento, numa espécie de dança, criando novos sentidos. Ela convida o leitor a mergulhar nas galáxias da imaginação e da liberdade criativa, reunindo reflexões e perspectivas que acendem a palavra como uma atitude radical diante das MÁSCARAS. O resultado é uma leitura indispensável para quem aprecia a literatura grapiúna. Longe de oferecer fórmulas ou receitas, o livro convida a trilhar um caminho sinalizado por dúvidas e descobertas. O resultado é generoso, no qual lembranças se entrelaçam a reflexões sobre o poder da imaginação. Em um franco diálogo, a autora celebra a literatura como espaço de esperança. Afinal, todo poema começa quando alguém acredita que uma palavra pode salvar o mundo.
 

PREFÁCIO de ADONIAS FILHO
para “Máscaras em Procissão”
 
Essa poeta, Janete Badaró, tem a autenticidade no poder de, mantendo uma fixação visual, jamais sacrificar a vocação lírica. A imagem, sempre a refletir situações e figuras, e por isso mesmo nascida de uma percepção direta, permanece física nas linhas e nas estruturas. Dir-se-á que nos coloca frente a um palco que, com cenários concretos, revaloriza os símbolos e o fluxo lírico através do poema. O exemplo, se for pedido, está no poema que é “Máscaras em Procissão”. E, por exigir a leitura em tom alto – que, por sua vez, reclama o anfiteatro -, o poema é a voz. Não há o que se discutir, aliás, porque a voz é um dos maiores recursos poéticos precisamente porque dispõe de acentos para as paixões. Assim dizia Bougot, um velho estudioso da cena.
 
A motivação para o poema, na variação das máscaras, aparentemente vem do lado de fora. A praia, a cidade, a árvore, a ilha. No extremo, porém, ao tempo que revela a linguagem enxuta e o artesanato realizado – que responde pela dimensão plástica do verso -, Janete Badaró extrai da condição da criatura a problemática de sala poesia. E, porque interioriza e intelectualiza, não será exagero afirmar-se que essa poesia se faz no caminho mesmo dos herdeiros do simbolismo. Não é por mais nada que, reagindo à interferência emocional, reivindica a sugestão como um sangue poético e assim converge a realidade em símbolo. E por isso mesmo é que a descarga emocional, quando subsiste, não ultrapassa a inteligência criadora. Um exemplo:
 
Corpo desnudo
treme sob o homem
manchado de sangue
e grita o espanto.

 
Os valores simbólicos da poesia, efetivamente mais verlaineanos que baudelaireanos, se por um lado não anulam o ritmo e a modulação nos versos, pelo outro não impede a participação intelectiva. Aplica-se, no caso de Janete Badaró, a observação de Paul Valéry. O poeta, sendo um mágico, não deixa de ser o intelectual, no sentido do comportamento lógico e do entendimento crítico. E não é por outro motivo que, em “Máscaras em Procissão”, não vingam os valores abstratos da poesia. Atenta à realidade, que asfixia a abstração para se reprojetar além dos sentidos, Janete Badaró se associa de fato ao canto introspectivo que não aliena a imagística. O mesmo andamento que se expande, sobretudo em Cecília Meireles e Cassiano Ricardo, no ciclo final e clássico do modernismo. Uma ilustração:
 
sorriso macabro
de fantasmas inquietos.
 

Mostra-se de tal maneira nua a preocupação com a angústia e a inquietação que, reafirmando a expressão simbólica, não evita a colocação existencial:
 
o homem se fez bárbaro
incapaz de tirar o lodo da primeira queda.

 
Mas, se Janete Badaró tem na matéria humana interiorizante o lado mais ostensivo de sua poesia, isso não significa um corte nas relações com as constantes da moderna poesia brasileira. É flagrante a identificação com aquelas constantes – logo sobressaindo, como exemplo, o lirismo – que, no processo inventivo, revaloriza o que é o poeta nativo no poeta existencial. E, por isso, surpreende que o poema “Máscaras em Procissão” vá de extremo a extremo, da inquirição intimista ao canto ao ar livre, captando os simples sentimentos comuns para transfigurá-los em poesia tão reflexiva quanto visual. O quadro, em uma palavra, é verticalmente descritivo:
 
rostos piedosos
velas acesas
nas mãos carentes
caras em vias
de subir ao céu

 
Aí está, sem elogio, o poeta Janete Badaró. E, fosse fazer o elogio, diria que, pela espontaneidade e a vida, o seu poema é tão legítimo quanto a árvore que nasce da terra. E em dia com a poesia do seu tempo.
 

POEMAS de “MÁSCARAS em PROCISSÃO”
 
“Há “flashes” rápidos que mostram máscaras.
Há “closes” de mestre que retratam em tintas fortes
emoções plenas derramadas nas máscaras iluminadas.”

MARIA de LOURDES NETTO SIMÕES
 
01
Ré confessa
permaneço sentada
no banco raquítico
julgada pelo crime
de ter nascido
MÁSCARA PENSANTE

 
02
A bandeira é alegre
vermelha
amarela e verde
        carregam-na
        homens
        que plantam e colhem
        cacau
A bandeira
é estandarte de um povo
que escreveu quatrocentos anos
de história
e cem anos de cidadania
A bandeira é colorida
do povo guerreiro
de São Jorge
e São Sebastião
abençoado
pela Santa Nossa Senhora das Vitórias
de manto
da cor do Atlântico
e do céu
que emoldura este chão
        Com ela desfilam
        MÁSCARAS TENAZES

 
03
Esses perfumes
essas sedas
tanto brilho
envolvendo colibris
           o salão cheio de acordes
           início da valsa sem dono
           tudo claro em minha vida – champanha –
           você bebe em taça de ouro
           permaneço fitando
           as plumas que balançam
           ao som das cascatas de vozes
O esplendor do nada
ofusca o tudo
que se encolhe
ante a imponência
das MÁSCARAS ELEGANTES
 

04
Num céu muito aberto
para receber risos de verão
a terra se cobre
de muito verde e azul
É a mata e o mar
esparramando-se
por todos os lados
e colinas alegres
porto ponte
ruas casas
gente
tudo respirando fé
que vem do Cristo Redentor
das torres das igrejas
dos corações centenários
e aos sábados e domingos
feéricos
todos vão ao banquete de sol
nas praias de areia alva
comem caranguejo
bebem cerveja
batem um papo à toa
queimam os corpos
abandonados às brincadeiras da carne
 
após o descenso
ficam dispostos
para mais uma semana de labuta
no tributo às vezes indolente
indolência própria de praiano
pago no comércio
indústria
escola
transações do cacau.
 
Soltas
no espaço mágico
exuberante
bonito
da “Princesinha do Sul”
as MÁSCARAS DESENCONTRADAS!”

 
05
Corpo maltratado
lapadas do mundo
no lombo descoberto
passa por baixo da ponte
e se verga
sob o peso
do cimento armado
o céu
esqueceu que é ela
frágil criatura
fiada na bondade de Deus
o mar
lambe seu peito
amolecendo o coração
empedrado
de tantas dores
a energia vital
move seus passos
cansado de tantos desencontros
nos caminhos sem dono
brinquedo da sorte
a MÁSCARA ATURDIDA.

 
janete badaró

“Seus escritos mostram que revolvia 
os porões dos sentimentos humanos, 
ao tempo que circulava no infinito universo
em busca de decifrar os mistérios da existência.”

JANE HILDA BADARÓ
 
jorge amado e janete
 
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JORGE AMADO: um CORAÇÃO SIMPLES
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A LÓGICA INQUIETA de IOLANDA COSTA
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Na TEIA do DESTINO AZUL – livro 01
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RAQUEL ROCHA – SOBRE a ARTE da VIDA
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10
TELMO PADILHA em PROSA e VERSO
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janete badaró