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agosto 24, 2026

.................................... A ARTE SONHADA de CHRISTINA OITICICA

 


 

Entrevista publicada na revista Premiere BR
 número 58, julho de 2026
 
Por Antonio Nahud 
 
Fotografias:
Alex Teuscher e Chris Heeney
 A artista carioca CHRISTINA OITICICA, radicada em Genebra, na Suíça, e que tem sangue potiguar por parte de mãe, Paula Francinete Medeiros Bastos Oiticica, prepara uma nova exposição para setembro. Intitulada “Quando o Céu Invade a Terra”, no Grand Hotel Majestic, às margens do Lago Maggior e, no norte da Itália,de 12 de setembro a 30 de outubro. Na curadoria, a premiada Adelina von Fürstenberg, e na cenografia, o arquiteto grapiúna Marcelo Mendonça. A mostra reúne obras inspiradas na profunda relação da artista com a natureza, a espiritualidade, o sonho e os processos de transformação por meio de elementos naturais.
 
Ao longo da carreira, ela desenvolveu uma linguagem artística singular, em que a natureza se tornou coautora. A experiência de expor suas obras ao tempo, à chuva, ao sol e ao vento imprime marcas únicas sobre as telas, dando origem a trabalhos inovadores. A artista já realizou intervenções ao redor do mundo, incluindo a Amazônia, os Pirineus franceses, o Japão e as Ilhas Eólias. Em cada projeto, a ação da natureza torna-se parte essencial do resultado final. A nova exposição tem como destaque a grande tela “Mamã Muxima”, que está submersa nas águas do Lago Maggiore, em frente ao hotel que receberá o evento, até o dia da inauguração da mostra. Ela nasceu a partir de um sonho onírico.
 
Eu a visitei no seu charmoso apartamento em Genebra e, certa vez, a entrevistei para jornal e TV, em Santiago de Compostela. Ficaram boas recordações. Nesta segunda entrevista, anos depois, a cordial Christina explica o curioso método de criação das suas obras, fala sobre a sua visão espiritualizada da arte, sua origem familiar potiguar e trabalhos sociais produzidos através da fundação que mantém na Suíça com o prestigiado escritor Paulo Coelho, seu companheiro há mais de quatro décadas.
 
Quando descobriu seu talento na arte?

 
Eu nasci com ele e desde pequena sabia que estava dentro de mim. Teria que desenvolvê-lo de alguma maneira. O meu sonho era estudar na Escola Nacional de Belas Artes, que ficava no museu que a minha mãe me levava para visitar. Desde o primário fazia arte para vender nas barracas de São João e era encarregada das capas dos trabalhos escolares. Eu sabia que seria artista.
 
Certa vez me disse que sua família veio do Rio Grande do Norte. Conte um pouco sobre isso, já que nossa revista é potiguar.
 
Minha mãe nasceu em Natal. Meus pais se conheceram na Segunda Guerra Mundial. Christiano Monteiro Oiticica, meu pai, nasceu em Alagoas, veio trabalhar na base militar norte-americana de Parnamirim como tradutor de inglês. Nessa época, ele viu minha mãe no bonde e se encantou. Por acaso, foi morar do lado da casa dela. A família do lado materno é Leite, Medeiros e Bastos. Augusto Leite (1863 - 1921), meu parente, além de técnico tipográfico de reconhecida competência, é apontado como o primeiro líder operário do Rio Grande do Norte, tendo dirigido a Liga Artística Operária Norte-Rio-Grandense, fundada em 1904 por ele próprio, combatendo ideias anarquistas. Foi a primeira associação do século XX. Ele era encarregado do jornal “A República”. Em sua homenagem, a Praça Augusto Leite, no bairro do Tirol. Meu avô era Aureliano Clementino de Medeiros, Coronel Aureliano como era chamado. Para sua residência, mandou construir em 1907 um palacete neoclássico, o Solar Bela Vista, tombado pelo Iphan e funcionando atualmente como centro cultural da capital potiguar. Foi intendente de Macaíba e comerciante de loja de tecidos chamada “Paris”, em Natal. Sobre a família do avô Bastos, nada sei.
 
O que é arte? Seria a transformação do ordinário no extraordinário?
 
Para mim tudo é arte: cozinhar, bordar, curar, desenhar, pintar etc. São dons que Deus nos deu. Que temos que fazer com amor e total entrega. Seria a transformação das coisas do nosso dia a dia em coisas especiais.
 
Como sua carreira se iniciou? Qual foi o verdadeiro impulso?
 
Fiz a Escola Nacional de Belas Artes, de 1969 a 1975, no Rio de Janeiro, como queria tanto. Comecei aos 17 anos. Depois fiz arquitetura, trabalhei uns anos como arquiteta, mas sempre as artes plásticas me chamavam. Pintei e desenhei toda a minha vida. Tive uma editora e um centro cultural no Rio, embora a vontade fosse só de me dedicar às artes. Vi que Paulo, meu marido, desde cedo queria ser escritor, era a sua legenda pessoal. Depois do Caminho de Santiago, se dedicou somente a escrever livros. Antes criou letras de músicas de sucesso, trabalhou como jornalista, mas o seu sonho era ser escritor. Eu em 90 fiz o Caminho de Santiago e mudei a minha vida. A partir daí comecei a expor no Brasil e em outros países, dedicando-me às artes plásticas. O verdadeiro impulso foi o trabalho cotidiano, um após o outro.
 
Como definiria o panorama da produção prolífica que tem mantido?
 
Dedicação e ajuda de Deus.
 
Se sente mais confortável em pintura, desenho, escultura, gravura ou instalação?
  
Com pintura e desenho. Me dedico mais a essas duas técnicas. Mas amo a instalação e a escultura.
 
Pensando na sua fase inicial, quais foram as mudanças de linguagem que experimentou até chegar ao mais recente trabalho?

 
Ontem conversando com um curador, pude fazer uma viagem no tempo. Às vezes é muito difícil ter essa visão global do nosso trabalho. Acho que cada fase é importante. Vejo trabalhos que fiz anos atrás como praticamente novos. A grande mudança foi quando deixei os trabalhos na Natureza para serem interferidos por Ela.
 
Acredita na busca de uma nova ideia visual ou na variação infinita das ideias que já existem? Pode falar sobre isso?
 
Nada é novo debaixo do sol, mesmo com todas as mudanças tecnológicas, sociais etc. A essência humana permanece. Tudo está ligado por uma teia invisível: a alma do mundo. O que eu penso, tem várias pessoas no mundo pensando a mesma coisa.
 
Qual é o papel da natureza no seu trabalho?
 
A Natureza representa 50% no meu trabalho.Compreendi que o meu trabalho precisava sair das paredes do ateliê. Tornei-me uma parceira da Natureza, e o meu trabalho recebeu a sua impressão digital.
 
Como surgiu a técnica de enterrar telas?
 
Morava nos Pirineus franceses num hotel pequeno, precisava preparar uma exposição em Paris e não tinha como fazê-lo. Para o Paulo é simples, basta um laptop. Eu preciso de espaço. Acabava sujando o quarto do hotel com a tinta, além do incômodo cheiro forte. Resolvi levar as telas grandes para o campo e florestas que circundam a cidade. Deixava pela noite para a tinta secar, e no outro dia ia buscar. Sempre me deparava com folhas que tinham caído na tela, insetos etc... e ficava alarmada! Estragou o meu trabalho! Então me dei conta que seria muito bom fazer uma parceria com a Natureza. A partir daí, comecei a enterrar, deixar nas árvores, nos leitos dos rios, e recentemente em lagos e em salinas.
 
Elas não se estragam ou desaparecem?
 
Não digo que estragam, elas se transformam. Fico emocionada e encantada ao descobrir o que as mãos da Natureza fizeram das minhas obras originais. E poucas desaparecem.
 
Por que recorre a materiais inusitados para criar?
 
É uma questão de experiência, me faz bem. Lugares diferentes, materiais além da tela tradicional, como o cobre. Sempre experimentando.
 
Acha que a arte deve refletir a atual crise mundial?
 
Ela queira ou não reflete o mundo em que vivemos.
 
christina oiticica e paulo coelho
Tem um artista favorito? Quais são as suas referências, inspirações?

 
Tenho muitos artistas que amo, como Salvador Dali, Sorolla, Botticelli etc. A minha inspiração pode vir de muitos artistas, mas a maior fonte é o trabalho, no momento que me sento para trabalhar.
 
A idade é uma questão da mente ou limita a criação artística?
 
A arte não tem idade. Depende de cada circunstância.
 
Há uma proposta de transcendência no seu trabalho? De representar o consciente e o inconsciente? O humano e o divino? A sombra e a luz?
 
Acho que trabalho muito com a dualidade. A luz e a sobra, o profano e o sagrado, o consciente e o inconsciente. Agora mesmo deixei um trabalho num lago na Itália. O lago para mim é o inconsciente e o trabalho é o consciente. O divino interferindo na matéria.
 
Seu trabalho de fundir arte e natureza é respeitado por ter mantido a mesma atitude de sempre com seriedade?
 
Você tem razão, acho que ele é respeitado pela continuidade, e pela constância do trabalho.
 
Sua arte funciona na base da intuição ou há toda uma pesquisa?
 
Aí depende, é mais na intuição. Mas costumo fazer pesquisa.
 
Como funciona o seu cotidiano criativo? Trabalha todos os dias ou somente quando tem vontade e disposição?
 
Por exemplo, agora estou entre os trabalhos realizados e uma exposição em setembro. Então a parte criativa fica guardada, mas todos os dias ela sai para me dar um alô. Tenho tido muitas ideias para um novo trabalho, mas elas ficam amadurecendo dentro de mim. Nesse momento eu trabalho com a exposição em si. Os convidados, a divulgação etc. Apesar de ter uma curadora superexperiente e consagrada, que ganhou o Leão de Ouro de Veneza, Adelina von Fürstenberg. E uma divulgadora ótima, Herica Marno, e um arquiteto maravilhoso para a montagem, Marcelo Mendonça. Tudo faz parte de um só trabalho. Depois eu me concentro numa próxima etapa, e para isso tenho que estar muito envolvida.
 
Quem são os colecionadores de suas obras?
 
Uma fundação em Genebra voltada para a sustentabilidade, Ethos Fondation Suisse. A Fundação Basileia em Basel, que trabalha com artistas brasileiros, e vários colecionadores particulares.
 
Como vê sua recepção pela crítica e pelo próprio meio artístico?  Se sente realizada?
 
Até o momento sim, mas tenho ainda muito que fazer. A realização é relativa, acho que só é satisfeita quando dizemos basta ou quando a vida diz por ela.
 
Usa a criação e visibilidade para projetos sociais?

 
Temos uma fundação na Suíça: Fundação Filantrópica Paulo Coelho e Christina Oiticica. Além do objetivo de preservar o trabalho de Paulo e o meu, manter o legado, nossa fundação se encarrega de trabalhos sociais no mundo inteiro, mas principalmente no Brasil. Como no Hospital de Santa Irmã Dulce, Crianças com Câncer, na Bahia; no Rio, Meninos de Luz, nas favelas Pavão e Pavãozinho; em Minas Gerais, no Orfanato Nhá Chica Esses são os mais conhecidos no Brasil. Trabalhamos com Ongs que cuidam da medicina e da nutrição na África e Oriente Médio, famílias de presos, e renovamos cada ano essas doações, embora algumas sejam fixas. A minha arte também tem teor social.
 
Paulo Coelho faz sugestões ou influencia seu trabalho e vice-versa?
 
Muitas vezes ele opina, me ajuda no meu trabalho. Eu faço a mesma coisa com ele. Isso desde o início.
 
Como vê a arte do Brasil?
 
Maravilhosa! Muitos artistas bons e muita criatividade. O Brasil também está na moda nesse momento.
 
Acompanha e respeita as novas gerações artísticas?
 
Respeito e acompanho. Estou a algum tempo longe do Brasil, mas amo as minhas raízes. Fiz uma exposição linda com um indígena Pataxó do Sul da Bahia, no ano passado. Representava as nossas raízes.
 
A Europa, por muito tempo, foi um dos mais inspiradores centros da arte no mundo. Como é agora? Como é fazer parte do meio artístico europeu?
 
Acho muito estimulante trabalhar na Europa, pois a repercussão é ótima, o trabalho artístico é valorizado. E a multiplicidade de culturas é grande. No Brasil também, por ser um país muito grande e diferente em cada região. A arte que faz no Sul é diferente da que faz no Norte. O que se faz no Centro Oeste é diferente do que se faz no Nordeste. Então é muito rico. Acho que o mundo vive um momento rico criativamente.
 
Não pensa em fazer uma série pictórica com releituras de obras literárias do seu marido?
 
Nunca se sabe, mas no momento não penso. Nesta nova exposição, apresento uma série de ilustrações criadas para uma edição especial do livro “Histórias para Pais, Filhos e Netos”, de Paulo.
 
verena andreatta, christina oiticica e marcelo mendonça
Poderia nos indicar uma obra de arte que todo mundo deveria conhecer e que você gosta muito.

 
“Guernica”, de Picasso.
 
Morando fora do Brasil e cumprindo uma série de viagens a trabalho, sobra algum tempo para voltar ao país natal?
 
Nesse momento, fico mas em casa, em Genebra. Meu ateliê se tornou um pouco as minhas quatro paredes. Penso em ir ao Brasil este ano. Estou com saudades. A vida se modifica com os momentos que vivemos.

O público precisa ser instigado a conhecer arte como uma experiência mais criativa e profunda?
 
A arte está em todos os lugares, depende dos olhos de quem vê. Nas ruas está a arte viva! Na internet temos acesso a todas as artes.  E os museus andam cada vez mais cheios. Para ir a uma exposição em Paris, temos que comprar ingresso muitos meses antes. A moda são os shows musicais, verdadeiros shows de arte.
 
Por que sua próxima exposição tem como título “Quando o Céu Invade a Terra”?
 
Nasceu da ideia de que mudanças profundas acontecem quando o divino toca a realidade humana. As obras desta exposição foram transformadas pela água, pela terra, pelo sal e pelo ar. Da mesma forma, os textos que inspiraram algumas delas são transformadores. Quando o céu invade a terra, mudanças profundas acontecem nos corações dos seres humanos. E o inconsciente interfere no físico.
 
O destaque da exposição é a obra 
“Mamã Muxima”. Soube que foi criada a partir de uma experiência onírica.
 
Exato. Sonhei que subia uma montanha para visitar uma igreja dedicada à Nossa Senhora da Conceição. Quando entramos, estava tudo escuro e eu não conseguia ver a imagem. Só via uma figura vermelha. Quando as luzes se acenderam, vi que era vermelho por ser uma Nossa Senhora coberta de corações. No dia seguinte, um amigo me enviou um vídeo de uma igreja no alto de uma montanha em Florianópolis, dedicada justamente à Nossa Senhora da Conceição. Resolvi pintá-la com os corações. Descobri depois, por acaso, a Nossa Senhora da Conceição da Muxima, em Angola, conhecida como a Nossa Senhora dos Corações e padroeira do país.
 
Quais são os seus projetos, além da nova exposição, e quais as questões que mais têm lhe interessado?
 
Tem questões que me interessam, como a fome da humanidade, as guerras, a espiritualidade, a imigração e as fronteiras desse imenso mundo, que tem lugar para todos. Muitas ideias habitam o meu cotidiano. Os projetos voam nesse momento. Quando chegar a hora, pesco um.
 
Obrigado. 
 
antonio nahud e christina oiticica









janeiro 16, 2016

................................................................... E ASSIM se PASSOU 2015

valerie hammond


MEUS MELHORES MOMENTOS

“Sob a tua aparência glacial,
quem sabe lá que arrepio te perturba?”


01
SEM FUMAÇA
arte de chris wilson
Fumei durante nove anos. Primeiro nas noitadas espanholas de farra. Depois acompanhando o café e a escrita noturna. Marlboro, Camel, Lucky Strike. Nos últimos anos, fumava uma carteira de Free a cada dois dias. Sem remorso, pois, como diz o ditado popular, o futuro a Deus pertence. Enjoado da aborrecida ladainha social contra o tabaco (por que não perseguem também os viciados em refrigerantes, enlatados e fast-food?) e de a cada três meses gastar em dentista, resolvi parar de fumar. E parei. Desde o dia 13 de novembro. Sem sofrimento. Nem lembro. De triste somente três quilos extras. Mas voltarei à natação.

02
DOIS DIAS e DUAS NOITES
No HOSTAL dos REIS CATÓLICOS

Hotéis me fascinam. Como Mário Quintana, moraria tranquilamente num deles. Ao longo da vida hospedei-me em hotéis memoráveis, do Ritz de Paris ao Glória do Rio de Janeiro. Este ano, em Santiago de Compostela (Espanha), fiquei no histórico e luxuoso Parador de Santiago, conhecido por Hostal dos Reis Católicos e construído em 1501. Uma viagem no tempo. Tocante e faustoso.

03
De VOLTA a BARCELONA

Morei muito tempo nesta bela cidade. Matando as saudades, este ano passei dias revendo a magia de Gaudí (La Pedrera, a Casa Batlò, a Sagrada Família etc.) ao lado da querida amiga, empresária de turismo, Daniela España (entrevistada para o meu então programa de TV). Esplêndido.

04
ENTREVISTANDO CELEBRIDADES

Na Europa, entrevistei há meses quatro brasileiros na crista da onda: o fotógrafo Sebastião Salgado, a atriz Fernanda Torres, o escritor Paulo Coelho e a pintora Christina Oiticica. Fiquei contente com o resultado. Publicadas no “Novo Jornal” (RN). Página inteira, chamada de capa.

05
TIRAGEM ESGOTADA

O meu décimo livro, “Confissões”, de poemas, teve a tiragem esgotada. Circulando em poucas livrarias (Bahia e RN), vendeu-se em lançamentos, encontros literários, redes sociais. Gracias.

06
Na TV: ALTO ASTRAL e CULT

Fez-me bem o quadro semanal “Ícone”, no “Programa Virtuall”, TV Natal. Convite da adorável Luciana Oliveira. Eu roteirizava, apresentava e dirigia minha participação, dividindo a produção com Lu. Homenageando “Provocações”, de Antonio Abujamra, abria os 30 minutos com um close interpretando um denso poema. A estreia aconteceu com Manoel de Barros. A seguir, uma única entrevista descontraída, reveladora e informativa. Levei gente bacana, como o excelente comediante Jarita Real. Enquanto conversávamos, bebia-se vinho e havia um clima alto astral, cult, sofisticado. Iluminação noir, lustre de cristal, clássicos cinematográficos como pano de fundo, jazz na trilha sonora, flores reais e deslumbrantes num vaso de murano. Tinha tudo para dar certo. Fomos elogiados pra caramba. Um bonito sonho interrompido.

07
DROGAS: MATÉRIA de CAPA

Na espetacular revista “Cumbuca”, do Governo do Estado de Sergipe, edição número 9, publiquei em junho “Combustível Criativo – Escritores Sob o Efeito de Drogas”. Matéria de capa. Na editoria, o talentoso Amaral Cavalcante. Visual de primeira. Desejo vida longa ao bonito projeto.

08
No SALON du LIVRE de PARIS

Fui um dos autores brasileiros que participaram da 35ª edição do Salon du Livre de Paris, um dos maiores eventos literários da Europa, que aconteceu entre os dias 20 e 23 de março. Embarquei rumo ao Velho Mundo com o amigo e presidente da Academia Norte-riograndense de Letras, Diogenes da Cunha Lima.
Autografei “Confissões”, dialoguei com inúmeros escritores e jornalistas (Fernanda Torres, Bernardo Carvalho, Paulo Lins etc.), assisti conferências e me encantei com milhares de novidades literárias. Monumental.

09
A FELICIDADE COMO TEMA

De volta ao gênero biográfico, durante cerca de um ano trabalhei na história da empresária potiguar Antônia Alves de Amorim Morais. Uma saga que valoriza o universo feminino e revela caminhos alternativos para superar adversidades com dignidade e fé. Ao som de violinistas, a emoção marcou o lançamento de “Nascida para a Felicidade”, minha terceira biografia de encomenda, na Academia Norte-rio-grandense de Letras, em maio, casa lotada e mais de 200 exemplares vendidos. Uma experiência positiva.

10
LA FIESTA

Fui ao aniversário do escritor Paulo Coelho, em março. A tradicional Festa de São José, que todo ano acontece em uma cidade diferente na Europa para comemorar o ano novo do autor brasileiro mais lido do planeta, este ano aconteceu em Santiago de Compostela, na Espanha. Assinando a produção requintada e sensível, Marc Mendonça. Por lá, conheci muita gente bacana, inteligente, sofisticada. Entre eles, jornalistas dos principais veículos de imprensa da Espanha, a apresentadora Ana Maria Braga, o fotógrafo J. R. Duran, Rosa Rodriguez, Anna Paola Protasio, Barbara Fazzari Tschanen e Acácio. A festa foi num lugar emblemático, o Parador de Santiago, conhecido como Hostal dos Reis Católicos, construção do início do século XVI e hoje um luxuoso hotel. Paulo e sua esposa, Christina Oiticica, recepcionaram os 155 amigos mais próximos, vindos de todas as partes do mundo. Na operística celebração, apresentações de grupos folclóricos galego e de flamenco; bebida para expulsar os maus espíritos; jantar imperial com culinária galega, oração em 15 idiomas e muito rock ao vivo. Dormi embriagado, apaixonado, encantado. Uma belíssima festa.

Tudo conspira no estremecimento
que habita o palacete de pedra.
Reis e loucos,
bruxos e pecadores
suspensos por um fio
no coração da vida.
Mensageiros do não-ser
vivendo o incomensurável.
Bailarinos andaluzes, rock grego,
cantores galegos, cardápio faustoso,
um fogo azul e rico,
prece de entranhas
em inúmeros idiomas.

Ardentes, celestes, estelares esferas.
Brilhando e brilhando.

Escritor é pra brilhar....

11
POETA BAIANO DECLARA seu AMOR a BARCELONA

De passagem por Barcelona (Espanha), no primeiro semestre do ano passado, fui entrevistado pela jornalista Daniela Pacheco para a revista “Brazil com Z”, dedicada ao brasileiro que vive na Europa. Fiquei muito grato. Depois da circulação da entrevista intitulada “Poeta Baiano Declara seu Amor a Barcelona”, recebi dezenas de mensagens simpáticas de brasileiros que moram no Velho Continente.

12
O ROMANCE

Concluí “Homem Sem Caminho”, cerca de 150 páginas. Iniciado em 2004, em Barcelona, abandonado durante anos, retomado vez ou outra. Parcialmente inspirado em “Carmen”, de Prosper Merimée. Vivi meses na Andaluzia pesquisando cenários para a história esboçada. Lugares de sonho: Estreito de Gibraltar; bosque La Selva; bar El Caballo; ruínas romanas de Baello Cláudia; praia da Ilha de Las Palomas etc. Também estive em Tanger, Marrocos, onde parte da trama se desenvolve. A saga de um imigrante brasileiro, músico, protegido pela Virgem de la Luz (com quem faz confidências) e apaixonado por um libertino cigano andaluz. Erotismo, como síntese do poético e do espiritual. Desta forma, tal como o mar – ou a fatalidade, como prefiro - a narrativa caminha inexorável para contidas explosões de sentimentos, para um auge entre a linguagem lúdica e o vazio existencial. Um anti-herói camusiano e o seu destino impetuoso e arrebatador, apontando para um coração deserto, vitimado pela ausência. Ao seu redor, personagens que habitam um bordel de luxo, imigrantes ilegais, drogas, crimes, raros escrúpulos e desejos brutos. Pretendo publicá-lo. Tenho fé.

13
SAGRADA FAMÍLIA
arte de elsa mora
Respeito o que pula dentro do meu coração. Dentro dessa fase/frase cabe tanto: sinto um turbilhão de coisas ao mesmo tempo. Nas férias de final de ano em família, recordações de longa data, Terras do Sem Fim, cheiro de mato, salitre, reencontros inesperados. Valores enraizados na cumplicidade, proteção, companheirismo e amor, muito amor. Gratidão e o sorriso mais íntimo as minhas amadas e unidas famílias (falo também da Maron). Elas acariciam e respeitam almas aventureiras, complexas, inquietas. Um brinde a todas as nossas histórias, a tudo o que vivemos antes de chegarmos até aqui, a tudo o que a vida ainda guarda pra gente, seja onde e como for. Parti de peito aberto, espírito sentimental, cheio de consciência, e isso é como multiplicar o amor por mil. Teremos e seremos mais uns para os outros. Foi bárbaro. E palmas para Salvador, a capital baiana ressurge das cinzas nas mãos de ACM Neto. Meu coração deu cambalhotas como um cão fiel e apaixonado, e ao mesmo tempo se transformou em animal das matas, em extinção, mergulhando no passado simbólico, em objetos esquecidos e cenas emocionantes. 
 
Bom demais compartilhar instantes mágicos do primeiro ano de vida do sobrinho Bernardo; os quitutes e o amor iluminado de Mamma; o humor e a fraternidade de todos os manos; a exuberância sentimental de tia Dija; o reencontro inspirador com a alegria da prima Kátia; a vivacidade artística das afilhadas Tarsila e Serena; o heroísmo emocionante do sobrinho André e de sua mãe, Vel; as virtudes angelicais de Anita e Marc, meus irmãos (tão lindos!); adoráveis tia Rita, sobrinho Raphael e prima Mariazinha. Um beijo em cada um. Sim, as férias acabaram. Amo todos vocês, família sagrada. Sinto falta. Sempre. A distância é um sacrifício. Sem arrependimentos, aprendi que ser nômade é ser insensato. Bom mesmo é estar perto da família. Cada um no seu canto, mas perto. Tenho lapidado neuroses. Quero uma maturidade trajada de velhinho bonachão, poético, de bem com as impossibilidades. E cada vez mais perto da família.

14
NOVO APARTAMENTO
Uma CASA é um TEATRO

Acredito que trocar de casa representa uma chance de mudanças na própria vida, possibilitando largar hábitos que provocam uma certa estagnação, e permitindo alguma renovação. Com essa intenção, mudei-me este ano de apartamento. Desejava um condomínio mais seguro e organizado, e o distanciamento da paisagem sem encantos. Nesta mudança, na arrumação e reorganização, desfiz-me de objetos, roupas, papéis e lembranças que já não tinham serventia alguma, mas que insistia em guardar.  Passando a vida a limpo, pouco a pouco esbocei o novo mundinho: exótico, artístico, clássico. Nada de chá de casa nova, nada de reuniões festivas varando a madrugada. Apenas outro e discreto apartamento: meu teatro, meu monólogo, meu asteroide.

15
QUADRANTES: ESCREVENDO CRÔNICAS

Num momento em que o jornalismo apresenta sinais de desgaste, em que a imprensa sensacionalista controla o mercado e em que as vendas das publicações impressas caem vertiginosamente, ler crônicas alivia. “Fronteira” entre o jornalismo e a literatura, ela não se propõe a transmitir informações novas, mas dar vida à determinada opinião. Uma crônica legítima, culta e honesta, pode ferir o orgulho de muita gente. Incomoda-me a crônica vazia, sem estilo, que nada diz ou diz em excessos. Aprecio crônicas desde sempre. Alegrou-me o convite de Carlos Peixoto, editor da “Tribuna do Norte”, para escrever aos domingos na página “Quadrantes”. Polêmicas à parte, crônicas se adaptam ao novo mundo orwelliano.

16
LIVRO VOLUNTÁRIO
Os IDOSOS

Aproveitei o trabalho voluntário num abrigo de idosos, o Instituto Juvino Barreto, em Natal (RN), dando o mel do melhor no projeto de um livro contando a história do local, documentando narrativas de vida de moradores; e seus poemas, canções e desenhos. Ilustrado por fotografias em preto e branco de página inteira, estilo Dorothea Lange, que retratou a Grande Depressão norte-americana, a obra supervisionada por Tamires Oliveira, membro do Conselho Municipal do Idoso/Natal, tem como objetivo incentivar a cidadania e o trabalho voluntário. O trabalho voluntário é transformador. Atuar em asilos, casas de apoio ou projetos voltados ao idoso, traz uma nova perspectiva de vida para os envolvidos. Dando a atenção que a família, por diversos motivos, deixou de dar, satisfazemos figuras solitárias e suavizamos o nosso emocional. Recompensador.

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