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outubro 01, 2015

......................... TORQUATO NETO, NOSFERATU TROPICALISTA



para Morvan

Na madrugada de 10 de novembro de 1972, o letrista e poeta piauiense TORQUATO NETO foi ao encontro da morte em um pequeno apartamento no bairro carioca da Tijuca, onde vivia com a ilheense Ana Maria e o filho Thiago, de três anos. Deixou uma confusa mensagem com letras desiguais e frases entrecortadas, rabiscado em três folhas de caderno espiral: “Tenho saudade como os cariocas do tempo em que eu me sentia e achava que era um guia de cegos. Depois começaram a ver e enquanto me contorcia de dores o cacho de bananas caía. De modo q FICO sossegado por aqui mesmo enquanto dure. Pra mim chega! Vocês aí, peço o favor de não sacudirem demais o Thiago. Ele pode acordar”. O suicídio aconteceu um dia depois do seu aniversário, após uma longa série de tentativas malogradas. Drogado e embriagado, o poeta vinha de uma ronda pelas boates da zona sul – numa delas assistiu a um filme cinemascópico de Rogério Sganzerla -, e assim que a esposa adormeceu, trancou-se no banheiro, vedou as entradas de ar e ligou o gás do aquecedor. Tinha 28 anos de idade. deixando uma obra original que se resume em alguns poemas e trinta letras para canções de Edu Lobo, Jards Macalé, Geraldo Vandré etc. Atuou também em filmes experimentais, foi crítico de cinema, roteirista, produtor cultural, repórter de uma agência de notícias carioca e músico.

De sensibilidade latente e rebeldia romântica, complicado, culto, meigo, provocativo, exaltado e auto-destrutivo, combinava inteligência precisa e poética aguda, resultando numa criação singular. As crises de melancolia e insatisfação o fizeram eliminar boa parte de sua produção literária. Em 1973, o poeta baiano Waly Salomão e a viúva de Torquato, Ana Maria Silva, reuniram no livro “Os Últimos Dias de Paupéria” a produção de TORQUATO NETO: artigos publicados ou inéditos, fragmentos do diário sobre a passagem do autor pelo hospício, poemas. Acompanha um compacto com quatro músicas e comentários de Décio Pignatari, Hélio Oiticica, Haroldo e Augusto de Campos. Tornou-se uma espécie de bíblia da chamada poesia marginal dos 1970. Nele, a desenvoltura, a inquietação, a luminosidade do poeta. Nascido em 9 de novembro de 1944, em Teresina, Piauí, numa família abastada, leu toda a obra de Shakespeare aos doze anos e dela tirava conceitos, discutindo-os com amigos. Magro, pálido, pés e mãos grandes, possuía uma sensualidade que nem os excessos alcoólicos ocultavam. Escrevendo compulsivamente, preenchia cadernos com poemas e reflexões. 
 
torquato e vinicius de moraes
Estudou o científico em Salvador. Na época, a capital baiana vivia grande agitação cultural, de Glauber Rocha a Lina Bo Bardi, de Othon Bastos a Jurema Penna, impulsionando um excepcional ambiente artístico. Irreverente, TORQUATO NETO foi expulso da escola de padres, mudando-se para o Rio de Janeiro em 1963, acatando o desbunde existencial em plena efervescência dos festivais de música. Admirando Carlos Drummond de Andrade e Nelson Rodrigues, costumava segui-los nas ruas, sem se deixar perceber, num prazeroso ritual secreto. Na mesa de um bar, o botequim “Mau Cheiro”, no Arpoador, conheceu sua futura mulher, Ana, uma garota inteligente e de personalidade forte com quem viveria cinco anos, mas sem desprezar outras experiências sexuais. Ao lado de amigos como Jards Macalé, viveu uma “vagabundagem inspirada”. A festa acabou com o regime militar de 1964. A partir dali, a felicidade passou a estar, sempre, ligada à angústia. “Sou um homem triste”, ele escreveu em carta a um amigo, “sinto que sou um homem destinado à latrina”. Trabalhou em jornais, gravadoras, agências de publicidade e até no Aeroporto Santos Dumont. Fez parte do corpo de redatores da revista “Cláudia”, “Jornal do Brasil” e “Estado de São Paulo”. 

Escreveu o roteiro de três shows de sucesso: “Pois É”, “Maria Bethânia” e “Ensaio Geral”. Participou de performances, produziu espetáculos multimídia, roteirizou com o poeta-compositor José Carlos Capinam o programa de tevê “Vida, Paixão e Banana do Tropicalismo”. Escreveu a coluna “Pulg”, sobre cinema, no “Correio da Manhã”; outra de música popular no suplemento “O Sol”, do “Jornal dos Sports”, e no auge do tropicalismo, em 1967, publicou “Tropicalismo para Principiantes”, convidando a “viver a tropicalidade e o novo universo que ela encerra”.  A TROPICÁLIA renovou a música popular brasileira, num reinado com conceitos hippies, encontros nas “Dunas do Barato” em Ipanema, Arembepe, garotas de minissaia, rapazes cabeludos, erva e ácido. O designer Rogério Duarte nomeou o espírito dessa época como “Apocalipopótese”. Nessa doideira, TORQUATO NETO passava as noites em claro, andando com um caderno cheio de poemas que um dia seria um livro e vestido de maneira tradicional, transformando-se numa figura pitoresca.

Uma de suas manias, copiar frases de para-choque de caminhão. “Não me siga que não sou novela”, por exemplo. Contraditório, freguês de cachaça e tira-gosto gorduroso nos botecos suburbanos e de LSD e champanhe em sofisticadas festanças, travestiu-se jocosamente para o filme “Helô e Dirce”, de Luiz Otávio Pimentel, filmando na Cinelândia e no local de pegação Cine-Hora, mas no dia seguinte mergulhou na fossa, dilacerado pela culpa, como sempre acontecia ao libertar a bissexualidade. De 1968, no álbum “Tropicália ou Panis et Circensis” se encontra a famosa canção “Geleia Geral”, com letra-manifesto de TORQUATO NETO. O título teve origem numa expressão pregada por Décio Pignatari, um trocadilho com “Geleia Real”.

A polêmica coluna de TORQUATO NETO, com o mesmo título da canção, era um espaço crítico-criativo-poético publicado no jornal “Última Hora”, de agosto de 1971 e março de 1972. De linguagem agressiva e descrente de qualquer função didática, chegou a se dirigir aos leitores com um “Alô, alô idiotas”. Nela, defendia as manifestações artísticas de vanguarda, divulgava o universo pop internacional e a cena underground brasileira. Militante ferrenho da implantação da contracultura no Brasil, o poeta aproveitou o espaço para abrir fogo contra o Cinema Novo, questionando o comprometimento político dele ao acusá-lo de lacaio de cargos e verbas oficiais, e atacando incansavelmente o debochado “Pasquim”. Certa vez, ao encontrar Jaguar, um dos humoristas do periódico, arrancou-lhe os óculos, pisou-os e disse: “Um cego não precisa de óculos”. Como editor, ele fundou o alternativo “Presença” e pouco antes de morrer, junto com Waly Salomão, projetou NAVILOUCA. O destemido Waly radiografou o colega como “Astro doido a sonhar. O nosso moço das ânsias. Pobre? Fauve! Fauve? Fraco herói underground. Fraco? Forte herói underground. Leão alado sem juba”.

A erudição, lirismo e originalidade poética de TORQUATO NETO deram uma poderosa contribuição ao Tropicalismo. Tímido, desajeitado, revoltado com o mundo, ferino, emocionalmente abalado e criador em crise, exigiu demais de todos, desejando “muito além do que já houvera feito”. Terminou por se internar no hospital psiquiátrico de Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, e em clínicas especializadas para superar o alcoolismo, num total de nove internações por livre e espontânea vontade. “Para se desintoxicar e dar um tempo”, dizia. Sua dor era visível. “Torquato apareceu um dia depois de uma internação em um sanatório com o cabelo completamente tosado, um skin head avant-la-lettre, e eu sofri uma premonição terrível e insuportável de uma ovelha negra tosada se oferecendo ao cutelo do matadouro”, lembra Waly.

Em 1968 viajou pela Europa com o artista plástico Hélio Oiticica, morando algum tempo em Londres. Vivia-se a época da caça às bruxas ao inconformismo político. o regime militar não alisou e os tropicalistas foram considerados como elementos nocivos e subversivos, perigosos para a segurança nacional. Calado, deprimido, recolhido e magoado com a desastrosa viagem a Londres e o rompimento com os baianos no duro exílio, abateu-se ainda mais com as mortes súbitas de Jimi Hendrix (que ele teria conhecido) e Janis Joplin. Ainda assim, incentivou a originalidade do emergente Cinema Marginal e de seus ícones Júlio Bressane, Ivan Cardoso e Rogério Sganzerla. Num super-8 de Ivan Cardoso, “Nosferatu no Brasil”, fez o papel-título, numa brincadeira com seu apelido, atuando com Scarlet Moon de Chavelier. “Ele tinha identificação com os vampiros, não gostava de claridade e era elegante como um conde da nobreza”, justificou, mais tarde, o cineasta. De volta a Terezina, em 1971, filmou sob a direção de Carlos Galvão, “Adão e Eva no Paraíso de Consumo”. No mesma época, compôs aberturas e trilhas sonoras de telenovelas como “Minha Doce Namorada” e “O Homem que deve Morrer”. Terminou brigando com a Globo e com o Conselho Nacional de Direitos Autorais. Seu amigo Ivan Cardoso dirigiu o documentário “Torquato Neto, o Anjo Torto da Tropicália”.

Haroldo de Campos traduziu TORQUATO NETO: “Verlaine escreveu sobre os poetas malditos – que eram aqueles simbolistas rejeitados pela sociedade. E o Torquato tem muito desse aspecto”. Outro poeta, Chacal, num verão de 1972 na Bahia, encontrou “Torquato de olhos e boca vermelhos, cabelos em chamas pela Avenida Sete. Essa foi a imagem que me ficou na cabeça, Torquato pela Sete, vertiginoso, volátil, dando pérolas aos porcos, em sua geleia geral lisérgica”. Em 1988, a banda Titãs resgatou para o pop contemporâneo o poema “Go Back”, musicado por Sérgio Britto. Autor de algumas das mais bonitas letras da nossa música popular, bardo alucinado, vértice tropicalista e um dos nomes mais influentes do panorama cultural de sua época, o nordestino que desatinava e desafinava o coro dos contentes, não segurando a barra dos anos de chumbo, escreveu: “É preciso não beber mais. Não é preciso não sentir vontade de beber e não beber: é preciso não sentir vontade de beber. É preciso não dar de comer aos urubus. É preciso enquanto é tempo não morrer na via pública”. Não conseguiu parar de beber a agonia do mundo.

TORQUATO NETO pôs em curso a poética da resistência cultural. Sua linguagem blasfema e antropofágica faz repensar o Brasil. O terrível é que morreu com asco de sua razão de ser: a literatura. Havia encerrado a possibilidade poética, perdera a fé nas palavras. Pouco antes do suicídio, distribuiu sua vasta coleção de literatura de cordel, queimou a maioria de seus escritos e quebrou a máquina de escrever, dizendo que nunca mais voltaria a usá-la. E assim aconteceu, vencido pelo desejo de desaparecer da face da Terra.

TORQUATO NETO

LET’S PLAY THAT

quando eu nasci
um anjo louco
muito louco
veio ler a
minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo
me disse
apertando a
minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let’s play that
Até o fim
 
MARGINÁLIA II

eu brasileiro confesso
minha culpa meu pecado
meu sonho desesperado
meu bem guardado segredo
minha aflição
eu brasileiro confesso
minha culpa meu degredo
pão seco de cada dia
tropical melancolia
negra solidão

aqui é o fim do mundo
aqui é o fim do mundo
aqui é o fim do mundo
aqui o terceiro mundo

pede a benção e vai dormir
entre cascatas palmeiras
araçás e bananeiras
ao canto da juriti
aqui meu pano de glória
aqui meu laço e cadeia
conheço na lua cheia
e termina antes do fim

aqui é o fim do mundo
aqui é o fim do mundo
aqui é o fim do mundo

minha terra tem palmeiras
onde sopra o vento forte
da fome com medo muito
principalmente da morte
a bomba explode lá fora
agora o que vou temer
oh yes nos temos banana
até pra dar e vender
o lê lê lá lá

aqui é o fim do mundo
aqui é o fim do mundo


SOBRE TORQUATO

“Os Últimos Dias de Paupéria” (1973)
de Torquato Neto

“Geração em Transe: Memórias do Tempo do Tropicalismo” (1996)
de Luiz Carlos Maciel

“Tropicália – A História de uma Revolução Musical” (1997)
de Carlos Calado

“Pra Mim Chega!” (2005)
de Toninho Vaz


 

DESENHO de TORQUATO


setembro 27, 2015

............................................. SOB o OLHAR de u JOVEM POETA




Ilustrações:
IBERÊ CAMARGO
(1914 - 1994. Restinga Sêca / Rio Grande do Sul)


Nasceu no Rio Grande do Norte, em Natal , em 1985. Poeta, AUGUSTO B. MEDEIROS participou da coletânea “Libertárias Saudações”. Foi um dos nomes selecionados para publicação vinculada ao prêmio Luís Carlos Guimarães, da Fundação José Augusto. Uma coletânea que conta com dezoito poetas, três primeiros lugares e outros quinze contemplados com menção honrosa. Desenhista, sua arte, marcada por traços minimalistas - em grafite, preto e branco -, reflete sobre a condição humana. São desenhos que também abordam temas históricos, talvez influenciados pela formação acadêmica do autor em História, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O artista realizou duas exposições individuais em 2015, ambas intituladas “Rabisco Noir”, homenageando o emblemático cinema noir da década de 1940. Confira o pensamento do poeta-desenhista.


Augusto, qual foi o primeiro livro de poesias que leu? Lembra-se do impacto que teve?

Não lembro o primeiro, mas o contato com poesias iniciou cedo. Meu avô materno escrevia poesias, no entanto seus textos eram mais voltados para temáticas do espiritismo. Acostumei-me a vê-lo escrever em sua Smith-Corona anos 1950 que conservo até hoje. Ele possuía uma biblioteca bem interessante, foi através dele que descobri a poesia romântica de Augusto dos Anjos, por exemplo. Curiosamente, o gênero poesia não era o que eu mais apreciava. Gostava de ler, mas comecei a me desinteressar pelas fórmulas mais tradicionais, as rimas, as métricas. Passei a preferir a prosa, me identificava mais, parecia algo mais livre. A poesia que eu conhecia era algo mais preso a regras. Essa visão só veio a mudar anos depois, quando descobri as vertentes mais transgressoras e fluidas da poesia, como os concretos, o poema-processo e até mesmo a poesia da contracultura, que acabaram me aproximando do gênero.

Quando, exatamente, sentiu vocação para a literatura?

Eu não sei ao certo se tenho uma “vocação”, sou apenas um aprendiz, um iniciante. Mas a questão é que sempre gostei de escrever, sempre busquei meios de expressar minhas inquietações diante desta suposta realidade que nos cerca. Foi assim com o desenho, e vem sendo assim também com a poesia. Eu já escrevi muitas coisas, mas rasguei e apaguei dos computadores. Os poemas foram os escritos que decidi guardar, que olhei e me enxerguei neles, entende? Foram também os primeiros que eu decidi mostrar. Mudando de assunto, mas ainda falando sobre poesia, este ano aconteceu algo muito interessante comigo, tive uma grata surpresa ao descobrir poemas do meu pai. Durante uma mudança, minha mãe encontrou um pequeno calhamaço de textos de autoria dele e com a letra dele. Foi uma surpresa, pois quando meu pai morreu eu tinha apenas 13 anos, nunca imaginei que ele escrevesse poemas. O primeiro que eu li me identifiquei muito, era um poema bem pessoal, existencialista. A poesia me conectou ao meu pai em um tempo e em um espaço diferente.
  

Sua poesia é um retrato da sua própria persona ou é fruto exclusivo da imaginação?

Eu posso utilizar a imaginação, sempre utilizamos, mas minha poesia é muito da minha personalidade. Elas são muito pessoais. Meus versos são impulsionados pelos efeitos causados pelo meu cotidiano e pelas sensações que experimento, seja por coisas simples, que poderiam ser banais, mas nunca são, seja pelos sentimentos mais importantes que julgo ter pelas pessoas ou pela vida. A imaginação surge quando me coloco no lugar de outra pessoa para escrever, quando me imagino em outro ser, mas sou ainda meu olhar, minha carga.

Seu cenário é Natal, onde sempre viveu. Acredita que a ambientação é importante para o escritor? Se mudasse de cidade sua poesia seria diferente?

Creio que a ambientação é importante, mas não é fundamental. Acredito que seu eu vivesse em outra cidade teria outras vivências, claro, porém julgo os elementos que estão em meus textos como pessoais, e por isso, universais. Escrevo sobre minha ansiedade, meus sentimentos, sobre a incerteza em relação ao futuro, sobre um presente hostil, sobre o avesso das aparências, e esses aspectos encontramos em todo ser e em qualquer cidade. Natal está nos meus textos por estar em mim, mas meus textos não devem obediência a Natal.
  

Tem quem diz que a literatura deve traduzir o espaço natal do escritor. O que pensa?

É muito difícil falar hoje em aspectos regionais. Hoje somos de todo lugar. A própria noção de espaço é bem abrangente, não se restringe mais a fronteiras fisicamente estabelecidas. Compreendemos que os espaços são construções humanas e não elementos naturais delimitados por clima ou qualquer outra coisa. É o homem que elabora a noção de recorte espacial e dá a ele um rosto. É o homem que conecta e mistura espaços. Meus textos falam mais sobre o homem do que sobre o espaço, do que sobre um único espaço natal ou região.

A poesia parece ser o seu gênero favorito. Por que? Não se sente à vontade escrevendo prosa?

A poesia me agrada pela carga de sentimento que é lançada, muitas vezes, com poucas palavras, pelo corte dos versos, que não se cortam efetivamente. Gosto muito da prosa, quem sabe um dia eu não escreva algo do tipo. Hoje não me vejo escrevendo prosa. Muito menos uma narrativa que exija continuação de dias na concentração de certo núcleo de personagens. A poesia e suas possibilidades me deixam satisfeito.
  

Quanto tempo leva escrevendo um poema? Qual o seu processo de escrita? Como constrói um poema?

Tudo varia bastante. Alguns nascem em um segundo, os textos praticamente se apresentam como uma visão. Vejo e digo...é isto! É o que quero dizer! E não importa o local, tenho que escrever logo. Outras vezes a criação se estende para alguns dias, não muitos, semanas. São poemas que surgem em partes, verso a verso, assim vou montando-os como quebra-cabeças, claro que neles não existem peças que se encaixam perfeitamente, mas fecho quando a composição fica ao meu agrado, pelo menos naquele dia.

Como os seus versos nascem? Através de uma palavra, uma sensação, uma imagem ou de uma situação?

Gosto da ideia de imagem! Sim, uma imagem ecoada por uma situação, ou mesmo uma palavra, mas gosto da ideia de imagem! São como cenas de filmes ou peças teatrais. Nelas eu represento, encontro pessoas, os lugares, os objetos, o meu próprio corpo e os sentimentos que envolvem tudo.


Escreve com qual objetivo?

Busco apenas expressar os meus incômodos em relação à existência. Sinto-me bem escrevendo e acreditando que alguém vai ler, é como em um confessionário, me alivio ao contar.

Algum poeta o influenciou?

Palavras me influenciam, sejam elas em prosa, em verso, cantadas ou não. O existencialismo da prosa de Clarice Lispector é sempre uma inspiração. Os textos de Jack Kerouac, sejam em prosa ou haikai, posso dizer que me encantam muitíssimo, principalmente em relação ao olhar que lança para a nossa sociedade ocidental tão marcada pela técnica, pelo capitalismo e que condena modos alternativos de viver e de comportamento. Além do olhar sobre o que está às margens, a escrita de Kerouac tem ritmo, é algo visceral e frenético. Fascina-me a associação que fez entre a estrada e a vida.  Também me inspiram a música de Bob Dylan, a música de Nina Simone, sua voz intensa e pesada, as composições de Blues com suas vozes melancólicas e letras que contam sobre dores, desventuras, fazem, de certa forma, um elogio ao perdedor. Posso incluir também poetas como Leminski, Chacal e Moacy Cirne. Diferentes tempos e formatos, poesias que me inspiram.
  

Como traçaria um perfil da literatura potiguar? Troca impressões literárias com escritores locais?

Não sou capacitado para elaborar um perfil, mas em Natal, assim como em outros locais, existem grupos mais ligados a uma poesia conservadora em termos de formato, e outros grupos mais experimentais. A existência desses grupos é refletida também nos meios que utilizam para fazer circular sua arte. Em Natal além das editoras e da publicação em livros, existem editoras que produzem volumes como zines. Também é possível fazer circular a poesia de forma independente ou através de iniciativas de coletivos. Acerca da troca com escritores locais, faço muito, seja por meio dos diferentes saraus que ocorrem na cidade como também nos caminhos subterrâneos das redes sociais. Sim, por trás da superfície de banalidades e culto a imagem, tão comumente associados a esses veículos, existe uma teia de trocas poéticas nessas redes. Natal possui uma cena jovem muito rica em termos de poesia, aí eu me incluo. É possível se deleitar nas leituras e se inspirar.

Fale sobre seus desenhos.

Assim como a poesia os meus desenhos são necessidade para mim. Os desenhos vieram primeiro. É clichê falar que se faz algo desde a infância, mas honestamente é o que lembro que gostava mais de fazer. Após anos, afastado dos contornos, voltei a desenhar, comecei a guardar, acumular, por sugestão de amigos busquei meios para expor. Foi a Galeria do IFRN que primeiramente me abriu as portas. A exposição teve uma boa repercussão por parte dos visitantes e também dos amigos que já conheciam o meu trabalho. Também este ano tive a oportunidade de mostrar meus desenhos na Livraria Nobel Salgado Filho. Atualmente preparo uma nova exposição que terá como tema o circo, diferente da anterior, a Rabisco Noir, com tema e estética inspirada no meu cotidiano, como também no Cinema Noir. A nova exposição se chamará Circo Reverso e ainda não possui data. Ambas tem em comum uma preocupação com o lado mais escuro da existência humana. Meus trabalhos podem ser vistos através da minha página no facebook, Garabatos por Augusto B. Medeiros.

augusto b. medeiros
Vale a pena escrever?

Vale! Não em relação ao dinheiro, mas não é o intuito da minha arte servir como ganho financeiro. Sou professor de História e gosto muito da profissão que escolhi. Faço arte por necessidade de fazê-la, por isso tem valido a pena. Eu vendo meus quadros, publicações, gosto quando alguém se identifica e se agrada e quer levar, cobro por isso, pois para produzir eu tenho meus custos. Evidente, que os artistas também pagam suas contas, sendo necessário que sejam valorizados também financeiramente, mas minha arte não é feita visando agradar um possível comprador, não é feita para agradar as expectativas de alguém.  É como costumo dizer, não é apenas traço, é pedaço de mim, ou seja, não são apenas linhas ou palavras, é algo mais profundo.


POEMAS de AUGUSTO B. MEDEIROS

BABY

Quantos frascos de perfume, Baby?
Quanto esforço
Para disfarçar o mau cheiro de sua dor
Nestes hard times
Não reclame!
Não lamente ou se decepcione!
Se você já sabe
Sobre sua cidade Natal
Ela já te renegou
Até sua grana já acabou
Então se vista com seu corpo
E com o charme que lhe restou
Junto com as artimanhas bandidas
Que você sempre ocultou
Mas você sabe que tem
Todos tem, Baby

BAGUNÇA OXIGÊNIO

Quando arrumei a gaveta
Eu queria cada coisa em seu lugar
E fui alinhando
E me alinhando
Desejo imaturo
Ação impossível
De sustentar
Qualquer ordem
Todo dia é panela, mesa e prato
É meia e sapato
É gente
É desconforto sem fim
Sou eu apertado
Em minha bagunça oxigênio...

DOMINGO

Só hoje para ser feliz
Este domingo
Em minhas mãos
Linda estátua a ser dedilhada
E por isso saber
Ele já rompeu a cortina como saudade
Ele já nasceu com a culpa
Por eu não saber fingir a velocidade
De cada instante
Domingo por um triz

ENCOSTO

Anteontem
Estavas de costas
Te vi
Aos meus olhos
E eu quis
O seu lugar
No mundo
O seu vazio
Existencial
O seu suor imundo
E respirar
Teu bafo nasal
O que me prende
Vai bem além do teu corpo
Quero mais que pegar!
Encosto!

PAREDE

Era uma vez....
Um prego torto
Em minha parede
E não era conto ou metáfora
Era fisicamente eu, a parede, e o prego
Ecoando
Em minha cabeça a marteladas
Eu era refém da repetição das pancadas
Mas era possível ser diferente
Não muito longe dali
Diziam existir almas livres, soltas, flutuantes
Desapegadas de expectativas, pregos, paredes e martelos
Mas não! Eu não era um deles!
Eu pertencia aos cantos laterais das paredes
Da espécie dos que se fixam
Tortos