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| dorian gray caldas e antonio nahud |
Existe um
quadro de Vermeer, datado de 1657-59 e que se encontra na Pinakothek de
Dresden, intitulado “Moça Lendo uma Carta”. O quadro retrata um momento de
profunda intimidade, no qual uma jovem, no interior de um quarto, lê uma carta.
A partir de um conjunto de toques microscópicos, quase granulares, o pintor
desvela a alma da moça. Ele não coloca sua protagonista em primeiro plano, nem
se aproxima em demasia do seu rosto. Lançado a luz entre a cortina e a parede, Vermeer
nos oferece a privacidade do quarto, para com delicadeza,
revelar o que há de mais profundo e intenso no espírito daquela jovem.
Quando eu
li o livro “Um Sentido para a Vida – Uma Biografia de Diogenes da Cunha Lima”
(Editora Lidador, 2004), de autoria do escritor baiano Antonio Nahud,
imediatamente me lembrei desse quadro de Vermeer. Uma biografia nunca é fácil.
O autor sempre se encontra diante de dilemas terríveis quando chama para si a
tarefa de retratar em palavras a abrangência de uma vida. Um dos principais
riscos de uma biografia se situa no fato de que, às vezes, a força da
personalidade do biografado consegue sugar o autor do texto, dominá-lo,
lançá-lo de modo despudorado nos labirintos de sua própria complexidade.
A
grande virtude do texto de Antonio Nahud está em escapar dessa armadilha. O Poeta
Diogenes da Cunha Lima é um personagem forte, polêmico, intenso. Sua vida
retrata essa intensidade, típica daqueles que pautam os seus dias pelo calor
das paixões e pela beleza da poesia. Seria muito difícil retratar essa
intensidade tentando explicar a pessoa do poeta, tentando decifrá-lo, construir
um discurso que buscasse desnudar os seus mistérios interiores e traçar a
geometria das suas paixões. Antonio Nahud conseguiu, como Vermeer, trabalhar
com grande domínio técnico a luz que deixaria à mostra a vida de Diogenes. Sem
se amarrar ao mundo interior, ao profundo do
poeta, direcionou a luz do seu texto para os arredores, para as circunstâncias
da vida desse filho de Nova Cruz, no RN, que, desde
cedo, apresentava a mais ambígua aflição que enraíza o homem a sua terra e que, ao mesmo tempo o lança,
como uma antena, na aventura de captar a grandiosidade do mundo.

O livro
de Antonio Nahud nos guia pelo mundo de Diogenes, pelos seus arredores e suas
paisagens, físicas e afetivas, naturais e humanas. Ele aponta, com sua luz
poderosa e delicada, para o universo do poeta e, apresentando esse universo,
nos oferece, de modo inusitado e surpreendente o que há de mais profundo na
intimidade desse homem apaixonado por Neruda e Saint-Exupéry. Fascinante
perceber a lição de Vermeer transporta para o campo da literatura (sim, porque
uma biografia não pode ser uma tese, uma biografia deve, sempre, ser uma peça
de labuta poética, uma construção, uma criação literária). Deve oferecer a sutileza de um olhar que, direcionando-se as
circunstancias que constituem o humano, deixa vazar o que há de mais privado,
mais pessoal, mais velado e misterioso na alma de um homem.
Existem vidas tão
complexas que não se deixam ver de perto. É preciso dar dois passos atrás para
perceber a marca que deixam no cenário de sua narrativa. Elas se expandem,
redimensionam os seus próprios arredores e ajudam a modelar o mundo em que se
encontram. A vida do Poeta Diogenes deixa essa lição e o texto do poeta Nahud
nos oferece o aprendizado de que fazer uma biografia é como olhar o mar: captar o mais profundo na mais ampla superfície
e no mais inusitado lugar.
PABLO CAPISTRANO
publicado
na “Tribuna do Norte”
16 de março de 2004
Em 2004,
no dia 4 de março, foi lançado na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras (ANRL) “Um
Sentido para a Vida – Uma Biografia de Diogenes da Cunha Lima”, de minha autoria.
Com 220 páginas, o livro tem prefácio de Sanderson Negreiros e retrata a
infância, carreira profissional, cargos públicos, obras literárias, viagens,
casamentos e filhos, casos curiosos e polêmicos do Poeta do Baobá.
Confira
as fotos do evento e matérias de jornais.