novembro 30, 2022

.......................... DEZ VEZES RAYMOND CHANDLER e um POEMA

 


 
Há pessoas que matam por ódio, por medo, por ganância. Existem criminosos astuciosos que planeiam os seus crimes julgando livrar-se das consequências. E há criminosos dominados por tal fúria que não fazem planos. Há os que estão apaixonados pela morte, para quem o assassínio é uma espécie de suicídio.
O LONGO ADEUS
 
Ilustrações:
ROCKWELL KENT
(1882 – 1971. Tarrytown, Nova York / EUA)
 
 
Ele reinventou a literatura policial, contribuindo para que deixasse de ser olhada como um gênero menor. Teve uma infância conturbada com a separação dos pais, mudando-se aos sete anos de idade para a Irlanda e depois Londres, com a mãe, onde foi free-lancer no “The Westminster Gazette” e no “The Spectator”. Regressou ao seu país natal aos 24 anos, estabelecendo-se na Califórnia. Depois de ser militar, contabilista, revisor, jornalista, detetive particular e funcionário público, RAYMOND CHANDLER (1988 – 1959. Chicago, Illinois / EUA) tornou-se executivo de uma poderosa companhia petrolífera, a Dabney Oil. Após uma carreira brilhante de 13 anos, promovido a vice-presidente, terminou demitido em plena Grande Depressão por conta do alcoolismo. Cada um dos seus livros carrega a tensão que cercou sua vida. Admirado por W.H. Auden, Evelyn Waugh e Ian Fleming, entre outros, é prestigiado pela crítica. Confira abaixo dez curiosidades sobre o escritor.


01
“Não há nada como ficarmos sem dinheiro para vermos quem são os nossos amigos”, desabafou, ao ficar desempregado. Como não tinha nenhum, o seu plano foi tornar-se escritor. Aos 45 anos começou a vender seus contos policiais para a célebre revista pulp “Black Mask Magazine”, iniciando com “Os Chantagistas não Matam / Blackmailers Don’t Shoot” (1933), “Smart-Aleck Kill” (1934) e “Finger Man” (1934). As revistas pulp, impressas em papel barato, eram muito populares na época. Despedido, agora sóbrio e com tempo livre, RAYMOND CHANDLER começou a ler uma delas e decidiu que era uma boa forma de receber algum. Passou cinco meses escrevendo uma novela que vendeu por 180 dólares. “O Sono Eterno / The Big Sleep”, seu primeiro e extraordinário romance, surgiria em 1939.
 
02
O detetive particular Philip Marlowe é o herói dos seus romances. Quarentão, alto, magro, irônico e de poucas palavras, ele deu as caras em “O Sono Eterno”. Com estilo único, aguenta porrada, toda a sorte de enrascadas, mas, no fundo, é um sentimental enfrentando a dura realidade das metrópoles. Continua a ser a maior criação do universo policial literário, suplantando companheiros de profissão como Holmes, Maigret ou Poirot. Com Marlowe, o escritor deu-nos um novo herói norte-americano: cerebral, honesto, sarcástico, rebelde e com um inabalável sentido de honra. Ele é o grande detetive da literatura.

 

03
Para o cinema, ele escreveu o roteiro do clássico “Pacto de Sangue / Double Indemnity” (1944), de Billy Wilder, adaptado do romance de James M. Cain. Também roteirizou “A Dália Azul / The Blue Dahlia” (1946). Ambos foram indicados ao Oscar de Melhor Roteiro. Foi co-autor de “Pacto Sinistro / Strangers on a Train” (1951), realizado por Alfred Hitchcock e baseado em obra de Patricia Highsmith, e de mais dois filmes.
 
04
Philip Marlowe é um solitário. Um herói honesto, por vezes, sentimental. Símbolo do detetive durão, foi vivido no cinema por Dick Powell, Humphrey Bogart, Robert Montgomery, James Garner, Elliot Gould e Robert Mitchum. Com excepção de “Para Sempre ou Nunca Mais / Playback” (1958), todos os romances do escritor tiveram adaptação cinematográfica, alguns deles mais de uma vez.
 
05
Sucesso de crítica e de vendas, escreveu oito romances e uma infinidade de contos. Entre suas obras estão “O Sono Eterno”, “Adeus, Minha Querida / Farewell, My Lovely” (1940), “A Dama do Lago / The Lady in the Lake” (1943) e “O Longo Adeus / The Long Goodbye” (1954). Deixou inacabada a novela “Amor e Morte em Poodle Springs / Poodle Springs” (1959), que foi concluída por Robert Parker e publicada em 1989. Seus contos foram reunidos nos volumes “A Simples Arte de Matar” e “Assassino na Chuva”.
06
O magnífico “O Sono Eterno”, sua obra prima, retrata um mundo sórdido, povoado de pornógrafos, um assassino bissexual, uma ninfomaníaca psicótica e toxicodependente, diversos bêbados, bares fumarentos, loiras oxigenadas, múltiplos adultérios e cadáveres descritos detalhadamente. Além de assassinatos, claro, chantagens, policiais corruptos e mulheres fatais sem escrúpulos.
 
07
Virgem até aos 32 anos, ele conhecia muito da vida, menos as mulheres. A violência do casamento dos pais o atirou para a castidade. Engenheiro civil, o pai, talvez por ser bêbado, espancava a mãe, cobrindo-a de nódoas e dores. Sem ninguém, RAYMOND CHANDLER tinha um salário de três mil dólares por mês e sofria de alcoolismo que lhe provocava desmaios e amnésia.
 
08
Aos 31 anos, apaixonou-se pela melhor amiga da mãe. Ela tinha 49 e um marido. Casaram assim que a mãe do escritor, que era contra o relacionamento, morreu. Cissy Pascal era uma antiga modelo e pianista clássica. Costumava limpar a casa toda nua. Foi a sua musa, já que ele não escreveu nada antes de a conhecer e pouco escreveu depois de ela ter falecido.
 
09
Após perder a esposa, em 1954, entrou em profunda depressão, recaiu no alcoolismo e tentou o suicídio. Viria a morrer, quatro anos depois, em 1959, aos 70 anos, em San Diego, nos Estados Unidos, deixando expresso o desejo de ser cremado e colocado junto às cinzas da sua amada.
 
10
Em 1994, a Praça Raymond Chandler, em Los Angeles, foi designada monumento histórico-cultural. Situa-se na esquina das avenidas Hollywood e Cahuenga, o local exato do escritório de Philip Marlowe. A Los Angeles que RAYMOND CHANDLER descreveu é uma paisagem moralmente bárbara, mas bela – palmeiras a contraluz, a beleza das manhãs e o ambiente enigmático das noites. Terra de atores de segunda categoria, produtores fracassados, gângsteres, prostitutas, tiras corruptos, atrizes decadentes e figurões em busca de oportunidade para ganhar um bom dinheiro, seja limpo ou não.
 

POEMA PARA CISSY
 
RAYMOND CHANDLER
 
Há um momento após a morte
em que o rosto se torna belo
e os suaves olhos fatigados se fecham;
em que a dor acabou
e a antiga, antiga inocência do amor
gentilmente retorna e fica por perto
apenas por mais um instante.
 
Há um momento após a morte (que sequer é um momento)
em que as coloridas roupas penduradas no armário perfumado
e o sonho perdido fenecem lentamente;
em que os vidros e o copo de prata e o espelho vazio
e os três compridos fios de cabelo na escova
e o lenço dobrado e a cama refeita
com seus gordos travesseiros (onde nenhuma cabeça
se pousará) é tudo que restou de um grande sonho selvagem.
 
Mas existem sempre as cartas.
Eu as seguro nas mãos, amarradas numa fita verde,
com firme pureza entre os suaves e fortes dedos do amor.
As cartas não morrerão, esperando pelo estranho que virá lê-las.
Virá lentamente, emergindo da névoa do tempo e da mudança.
Virá lentamente, desafiador, pelo correr dos anos
cortará a fita e as espalhará a sua volta
e cuidadosamente as lerá página por página.
 
E a antiga inocência do amor voltará
Virá lentamente, emergindo da névoa do tempo e da mudança,
suave como uma borboleta por uma janela aberta no verão
só por mais um momento, em silêncio, para estar perto,
mas o estranho nunca saberá. O sonho acabou.
O estranho sou eu.
 
Tradução de Newton Goldman
 

FRAGMENTOS
 
“Sou detetive particular há já bastante tempo. Sou solitário, solteiro, quarentão e pobre. Já estive preso mais do que uma vez. Gosto de beber, de mulheres, de xadrez e de mais umas coisas. Os tiras não gostam de mim, mas conheço alguns com quem me dou bastante bem. Se algum dia derem cabo de mim num beco escuro, como pode acontecer a qualquer um com a minha profissão, ninguém ficará chorando de pena”.
 
“O que importa onde descansamos depois de morrermos? Que diferença pode haver entre um reservatório imundo e uma torre de mármore, no topo de uma alta colina? Estamos mortos, dormimos o grande sono e essas preocupações não nos incomodam. Petróleo e água são o mesmo que vento e ar, para nós. Dormimos o sono eterno, sem nos importarmos com a perversidade que nos matou nem onde caímos.”





outubro 27, 2022

................................................. CLARICE e GULLAR - ENTREVISTA


 

A arte existe porque a vida não basta.
FERREIRA GULLAR
 
Ilustrações:
HENRI MATISSE
(1869 – 1954. Le Cateau-Cambrésis / França)
 
 
De volta para o Brasil, o poeta encontra os cariocas mais agitados, mais apressados, como se não soubessem o que vai acontecer no minuto seguinte. Sou fervente admiradora de FERREIRA GULLAR (1930 - 2016. São Luís / Maranhão), desde os tempos de “A Luta Corporal” (1954) até esse escandalosamente belíssimo “Poema Sujo” (1976). Nossos mútuos contatos se fizeram no tempo da primeira revista “Senhor”, para a qual nós dois escrevíamos. Mas eu tinha um pouco de medo dele, parecia-me que, com seu extraordinário poder verbal, eu seria aniquilada. Éramos um pouco distantes um do outro, e eu desconfiava que ele rejeitava a minha “literatura”. Mas o que fazer? Nada, senão continuar a gostar do que ele escrevia e escreve. Nesta entrevista, ele me assegurou que a desconfiança antiga era errada. Aleluia! Ele esteve em minha casa. Verifiquei que, praticamente, não mudou, tem o rosto como que talhado em madeira. Madeira sensível, madeira-de-lei. É pessoa extremamente simpática e com ar de bondade.
 


CLARICE LISPECTOR: “Fatos & Fotos”, 1977
 
Há quanto tempo você não vinha ao Brasil?
 
Há cinco anos e oito meses. Voltei no dia 10 de março deste ano.
 
Que diferenças você notou entre o Rio de antes e o de agora?
 
O de hoje me parece mais frenético do que o de antes. É uma impressão um tanto subjetiva, de uma pessoa que apenas acaba de chegar. Sinto isso no comportamento das pessoas e no próprio aspecto da cidade, que parece mais um canteiro de obras. As pessoas estão mais agitadas, mais apressadas – como se não soubessem o que vai acontecer no minuto seguinte. Não há um ponto da cidade onde eu chegue e não veja buracos, terra e pedras, tudo amontoado e, às vezes, como se ali estivesse para sempre. Outra coisa que noto também é o distanciamento maior entre as classes sociais. Eu, que não tenho carro e que ando de ônibus, percebo que os usuários desses veículos são quase muito modestas. As outras devem estar no seu próprio carro. É uma sensação parecida com a que eu sentia em Lima, no Peru, onde o contraste social é enorme.
 
O mesmo eu senti na Colômbia, Gullar, onde havia multimilionários e o resto era completamente abandonado por todos, inclusive pelo governo. Lá a miséria é maior do que no Brasil, porque, com o frio, tudo piora.
 
É claro, o clima do Brasil é uma das sortes nossas, Clarice.


Você tem reencontrado aqui os seus grandes amigos?
 
Claro, e esta é uma das alegrias da volta. Mas alguns desapareceram, como o Vianinha e Paulo Pontes.
 
Você já foi ao Maranhão, depois que voltou?
 
Não, no momento não tenho condições para ver minha terra natal. Aqui me aguardavam problemas muito graves de família que exigem solução urgente e minha total dedicação. Mas, assim que eu puder, irei a São Luís para rever minha mãe, meus irmãos e minha cidade.
 
No “Poema Sujo” você me fez sentir uma criança diante da selva ou de um altíssimo monumento. E quando falou em “noites envenenadas de jasmim” – pois bem, senti-me de volta a Recife, que é a minha terra.
 
É, suponho que o jasmim é algo muito forte. Assim o senti em Valparaíso, quando tomei um susto em relação ao intenso perfume dessa flor. Também então eu fui transportado de novo à minha cidade e infância. Em Lima, perto da casa onde morava, havia um muro, de onde se debruçava um jasmineiro.
 

Em que cidades você morou, durante seu tempo de exílio?
 
A maior parte na América Latina, mas estive em Paris e Roma. Depois em Santiago, Lima e Buenos Aires.
 
Como é que você se sustentava nesses lugares?
 
Como a maior parte do tempo eu vivi sem a família, não necessitava de muito dinheiro. Escrevi para revistas brasileiras e dei aulas de português. Eventualmente, fazia palestras sobre arte e literatura brasileiras.
 
Você encontrou aqui, na sua volta, facilidade de arranjar um bom emprego?
 
Durante todo o tempo de minha ausência, me mantive profissionalmente vinculado ao jornal “O Estado de S. Paulo”, onde eu fora redator desde 1962. Ao voltar, o diretor da sucursal do “Estado”, Villas Boas, que me recebeu no aeroporto, foi logo dizendo: “Como é? Amanhã você já estará na redação.” Bem, no dia seguinte não, mas na semana seguinte recomecei a trabalhar.
 

Qual a sua função no “Estadão”?
 
Sou copidesque, isto é, reescrevo o que os outros escrevem.
 
Marques Rebelo me disse uma vez que reescrever era mais simples que escrever. Quanto a mim, Gullar, eu discordo, pois minhas frases já vêm prontas. Em você, como se processa o ato criador? Você reescreve?
 
Não, só me sento para escrever quando sinto que a coisa está praticamente pronta dentro de mim. Depois que escrevo, faço, como você, eventualmente, algumas emendas, mas é só.
 
Gullar, vou lhe fazer uma pergunta muito difícil que eu mesma não saberia como responder. É o seguinte: como nasce, em você, o poema, a palavra escrita?
 
Em mim o poema quase sempre é provocado por um choque emocional qualquer. Por exemplo, quando escrevi o poema sobre o Vietnã, a coisa se deu do seguinte modo: eu acordei, comecei a ler o jornal com suas tremendas notícias sobre a guerra. À porta de minha casa havia uma feira. Quando vi aquelas pessoas se dirigindo para as suas casas, com as cestas carregadas de verduras e frutas, deu-se o choque. Eu pensei: se fosse no Vietnã aquela senhora poderia encontrar a sua casa em chamas. Eu próprio havia marcado para sair de férias, um mês depois. Pensei: num país em guerra deve ser impossível planejar a vida, ir ao cinema, tudo pode ser desfeito de um momento para o outro. É a insegurança total. O choque emocional já por si provoca as palavras, eu em geral não me preocupo em escolhê-las, elas jorram.
 

Glauber Rocha disse que o “Poema Sujo” é o ponto culminante do concretismo. Qual é a sua opinião?
 
O “Poema Sujo” não tem nada a ver com o concretismo. Eu mesmo nunca fiz concretismo, já que meus poemas, naquela época, destoavam da concepção ortodoxa dos paulistas que lançaram o movimento. As coisas que escrevia, então, davam continuidade à minha própria experiência, onde já havia a utilização dos elementos visuais. O “Poema Sujo” incorpora toda a minha experiência formal e, no aspecto gráfico, se liga ao neoconcretismo. Conversando posteriormente com Glauber, soube que ele nessa frase, usando a expressão concretismo, incluía a poesia neoconcreta.
 
Sua poesia passou por sucessivas etapas, verdadeiras rupturas com as fases anteriores, e há quem diga que seu último poema rompe com tudo o que você fez antes. Como explica isso?
 
As rupturas são aparentes, ou melhor, de superfície. Sempre fiz literatura como um modo de entender a vida e a mim mesmo. A vida muda, eu mudo, as formas de expressão refletem essas mudanças. O “Poema Sujo” rompe com certa rigidez, a que a própria prática de escrever vai submetendo o escritor, este poema é mais livre, é sobretudo um reencontro comigo mesmo.
 
O “Poema Sujo” é um poema de exílio?
 
Não somente. Acredito que a condição de exilado penetra todo o poema e deve ter sido uma de suas motivações. Mas creio que o poema vai além disso – ele é uma tentativa de dizer tudo como se depois dele eu fosse morrer. O que ele significa exatamente, eu não sei.
 

Você está escrevendo atualmente algum poema?
 
Não. Em 1975 escrevi um curto poema sobre a arquitetura de Oscar Niemeyer. Mas é praticamente inédito pois só foi publicado uma vez numa revista especializada de arquitetura.
 
Ah, se você soubesse de cor esse poema desconhecido, nós, que gostamos tanto de você e de Oscar, ficaríamos muito contentes...
 
Sei de cor, chama-se “Lições de Arquitetura”:

No ombro do planeta (em Caracas)
Oscar depositou para sempre uma ave uma flor
ele não faz de pedra nossas casas
faz de asas.
No coração de Argel sofrida
fez aterrissar uma tarde uma nave estelar
e linda
como ainda há de ser a vida
(Com seu traço futuro Oscar nos ensina que o sonho é popular)
Nos ensina a sonhar
mesmo se lidamos com matéria dura
o ferro o cimento a fome
da humana arquitetura
Nos ensina a viver
no que ele transfigura
no açúcar da pedra
Ferreira Gullar
no açúcar da pedra
no sonho do ovo
na argila da aurora
na pluma da neve
na alvura do novo
Oscar nos ensina
que a beleza é leve.
 
É uma beleza, Gullar, digna de Oscar. E o que é que você gostaria de ter escrito e não escreveu?
 
Um poema capaz de abarcar toda a história sofrida e obscura da gente brasileira.


QUEM foi FERREIRA GULLAR
 
O poeta de “Poema Sujo” e “Muitas Vozes” foi um dos criadores do neoconcretismo. José de Ribamar Ferreira, conhecido como FERREIRA GULLAR, aos 18 anos lançou o seu primeiro livro de poesias: “Um Pouco Acima do Chão”. Rumo ao Rio de Janeiro, onde se estabeleceu em 1951, passou a atuar como revisor de textos da revista “O Cruzeiro”. Escreveu ao longo de décadas, se debruçando no gênero poético e na temática das questões sociais. Também escreveu peças de teatro e roteiros de telenovela. Durante o regime militar se exilou na França, no Chile, no Peru e na Argentina. Em março de 1977 voltou do exílio. Nesta ocasião concedeu uma entrevista à Clarice Lispector para a revista “Fatos & Fotos”.
 
Fonte
“Clarice Lispector – Entrevistas” (2007)
 
CINCO POEMAS de FERREIRA GULLAR
 
01

TRADUZIR-SE
 
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
 
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
 
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
 
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
 
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
 
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
 
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
 
02

CANTIGA PARA NÃO MORRER
 
Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.
 
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
 
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
 
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
 
03

POEMA SUJO
(trecho)
 
turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro
menos que fosso e muro:
menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma?
claro mais que claro claro:
coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho
que o universo fabrica
e vem sonhando
desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva
igual a tua bocetinha
que parecia sorrir entre
as folhas de banana
entre os cheiros de flor
e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo
(não como a tua boca de palavras)
como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão
de estrelas e oceano
entrando-nos em ti
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão
de tanta noite e tanto dia
 
04

Um INSTANTE
 
Aqui me tenho
Como não me conheço
nem me quis
sem começo
nem fim
aqui me tenho
sem mim
nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas um bicho
transparente.
 
05

NESTE LEITO de AUSÊNCIA
 
Neste leito de ausência em que me esqueço
desperta o longo rio solitário:
se ele cresce de mim, se dele cresço,
mal sabe o coração desnecessário.
 
O rio corre e vai sem ter começo
nem foz, e o curso, que é constante, é vário.
Vai nas águas levando, involuntário,
luas onde me acordo e me adormeço.
 
Sobre o leito de sal, sou luz e gesso:
duplo espelho — o precário no precário.
Flore um lado de mim? No outro, ao contrário,
de silêncio em silêncio me apodreço.
 
Entre o que é rosa e lodo necessário,
passa um rio sem foz e sem começo.

clarice lispector

setembro 30, 2022

..................................................................... Um SENTIDO para a VIDA

dorian gray caldas e antonio nahud


Existe um quadro de Vermeer, datado de 1657-59 e que se encontra na Pinakothek de Dresden, intitulado “Moça Lendo uma Carta”. O quadro retrata um momento de profunda intimidade, no qual uma jovem, no interior de um quarto, lê uma carta. A partir de um conjunto de toques microscópicos, quase granulares, o pintor desvela a alma da moça. Ele não coloca sua protagonista em primeiro plano, nem se aproxima em demasia do seu rosto. Lançado a luz entre a cortina e a parede, Vermeer nos oferece a privacidade do quarto, para com delicadeza, revelar o que há de mais profundo e intenso no espírito daquela jovem.
 
Quando eu li o livro “Um Sentido para a Vida – Uma Biografia de Diogenes da Cunha Lima” (Editora Lidador, 2004), de autoria do escritor baiano Antonio Nahud, imediatamente me lembrei desse quadro de Vermeer. Uma biografia nunca é fácil. O autor sempre se encontra diante de dilemas terríveis quando chama para si a tarefa de retratar em palavras a abrangência de uma vida. Um dos principais riscos de uma biografia se situa no fato de que, às vezes, a força da personalidade do biografado consegue sugar o autor do texto, dominá-lo, lançá-lo de modo despudorado nos labirintos de sua própria complexidade. 

A grande virtude do texto de Antonio Nahud está em escapar dessa armadilha. O Poeta Diogenes da Cunha Lima é um personagem forte, polêmico, intenso. Sua vida retrata essa intensidade, típica daqueles que pautam os seus dias pelo calor das paixões e pela beleza da poesia. Seria muito difícil retratar essa intensidade tentando explicar a pessoa do poeta, tentando decifrá-lo, construir um discurso que buscasse desnudar os seus mistérios interiores e traçar a geometria das suas paixões. Antonio Nahud conseguiu, como Vermeer, trabalhar com grande domínio técnico a luz que deixaria à mostra a vida de Diogenes. Sem se amarrar ao mundo interior, ao profundo do poeta, direcionou a luz do seu texto para os arredores, para as circunstâncias da vida desse filho de Nova Cruz, no RN, que, desde cedo, apresentava a mais ambígua aflição que enraíza o homem a sua terra e que, ao mesmo tempo o lança, como uma antena, na aventura de captar a grandiosidade do mundo.

 


O livro de Antonio Nahud nos guia pelo mundo de Diogenes, pelos seus arredores e suas paisagens, físicas e afetivas, naturais e humanas. Ele aponta, com sua luz poderosa e delicada, para o universo do poeta e, apresentando esse universo, nos oferece, de modo inusitado e surpreendente o que há de mais profundo na intimidade desse homem apaixonado por Neruda e Saint-Exupéry. Fascinante perceber a lição de Vermeer transporta para o campo da literatura (sim, porque uma biografia não pode ser uma tese, uma biografia deve, sempre, ser uma peça de labuta poética, uma construção, uma criação literária). Deve oferecer a sutileza de um olhar que, direcionando-se as circunstancias que constituem o humano, deixa vazar o que há de mais privado, mais pessoal, mais velado e misterioso na alma de um homem.
 
Existem vidas tão complexas que não se deixam ver de perto. É preciso dar dois passos atrás para perceber a marca que deixam no cenário de sua narrativa. Elas se expandem, redimensionam os seus próprios arredores e ajudam a modelar o mundo em que se encontram. A vida do Poeta Diogenes deixa essa lição e o texto do poeta Nahud nos oferece o aprendizado de que fazer uma biografia é como olhar o mar:  captar o mais profundo na mais ampla superfície e no mais inusitado lugar.
PABLO CAPISTRANO
publicado na “Tribuna do Norte”
16 de março de 2004
 
Em 2004, no dia 4 de março, foi lançado na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras (ANRL) “Um Sentido para a Vida – Uma Biografia de Diogenes da Cunha Lima”, de minha autoria. Com 220 páginas, o livro tem prefácio de Sanderson Negreiros e retrata a infância, carreira profissional, cargos públicos, obras literárias, viagens, casamentos e filhos, casos curiosos e polêmicos do Poeta do Baobá.
 
Confira as fotos do evento e matérias de jornais.