É a mão que escreve. A nossa mão é mais
inteligente do que nós.
Não é o autor que tem de ser inteligente,
é a obra. O
autor não escreve tão bem quanto os livros.
Ilustrações:
PAULA REGO
(1935. Lisboa / Portugal)
A literatura de ANTÓNIO LOBO ANTUNES (1942. Lisboa / Portugal) foge da narrativa tradicional, inventa enredos paralelos, traça um quadro
duro de Portugal. Uma palavra que corrói e denuncia os abusos do poder, das
instituições e os absurdos do mundo moderno. Autor de “Os Cus de Judas” (1979)
e “Manual dos Inquisidores” (1996), entre outros, consagrou-se na França,
Espanha, Alemanha e, mais recentemente, no seu próprio país. A cada criação
confirma sua capacidade criativa e uma obra surpreendente, dissecando ruínas
emocionais, que engrandece a língua lusófona. Reservado, o escritor tem
aversão a entrevistas, distanciando-se do entrevistador e respondendo com
poucas palavras. Confira meu bate papo com ele, em
Lisboa, 2001.
Há muitos anos me daria prazer saber que
escrevo bem ou que sou um grande escritor, mas já não me interessa. Afinal
o que é ser um bom escritor? Talvez aquele que eu tenho a impressão
que escreve só para mim.
Ainda crê que escrever é um prazer?
É a minha vida. Há anos que escrevo e me sinto
culpado se não o faço. O aborrecido é a correção. Além
disso, muito do que pensamos que é bom, não é. Sendo assim, costumo destruir a
maior parte do que escrevo.
O que diz dos seus romances?
Poderiam ser melhores.
Gosta de poesia?
Leio muito poesia. Creio que a linguagem poética
dá chaves para muita coisa. Como você é brasileiro, confesso que admiro a voz
poética de João Cabral de Melo Neto, um poeta de qualidade extraordinária,
assim como admiro Murilo Mendes, Ferreira Gullar e Cecília Meireles, entre
outros poetas brasileiros.
Por não ter nenhum talento poético.
Qual o seu método de escrita, se acaso existe um?
A partir de uma ideia elaboro os personagens e o resumo de cada capítulo. Começo o primeiro e vou até o
final.
O fio narrativo é importante?
Nunca foi. Um romance se escreve com personagens,
emoções e situações. O fio narrativo é desnecessário. Pelo menos para a minha
escrita. O livro é um organismo que vive independente e surpreende-nos a cada
passo. Um livro não se faz com um fio narrativo, faz-se com palavras. São as
palavras que geram umas às outras. E com trabalho.
Quais as suas influências literárias?
Eu mesmo. Aprendo comigo, mergulho no meu eu. Só
assim encontro a voz autêntica.
Por que questiona tanto a morte?
Não entendo como as pessoas que não escrevem
conseguem suportar o absurdo da existência. Nossa vida é marcada pela morte,
embora isso não elimine alguns momentos de alegria.
Escrever em português é complicado, nossas edições são limitadas e é sempre difícil ser traduzido. Considero
que temos um extraordinário prosador, Eça de Queiroz. “O Crime do Padre Amaro”
é tecnicamente seu melhor romance. Mas não temos grandes romancistas como
Conrad ou Melville. A nossa forma de expressão sempre foi a poesia, muito mais
do que o romance. Atualmente temos bons poetas, como o Herberto Helder.
Como define a política cultural de Portugal?
Não temos uma autêntica política cultural. Não
ensinam os portugueses a ler. Esta é a missão de um bom escritor.
Desde que faça seu trabalho o melhor que possa, tenha ética na escrita e atitude justa perante a vida.
Por que evita entrevistas?
São arrepiantes as perguntas dos jornalistas. Incomodam-me. Além do mais, a imprensa necessita de rótulos que
nem sempre são verdadeiros. Já fui o “enfant terrible” da literatura, hoje sou
um escritor “profundo e desesperado”. Onde está a verdade? Não a encontro, e
sou julgado por estas imagens totalmente estranhas.
TODOS os LIVROS de LOBO ANTUNES
MEMÓRIA de ELEFANTE (1979)
Os CUS de JUDAS (1979)
CONHECIMENTO do INFERNO (1980)
EXPLICAÇÃO dos PÁSSAROS (1981)
FADO ALEXANDRINO (1983)
AUTO dos DANADOS (1985)
As NAUS (1988)
TRATADO das PAIXÕES da ALMA (1990)
A ORDEM NATURAL das COISAS (1992)
A MORTE de CARLOS GARDEL (1994)
A HISTÓRIA do HIDROAVIÃO (COM ILUSTRAÇÕES DE
VITORINO) (1994)
MANUAL dos INQUISIDORES (1996)
O ESPLENDOR de PORTUGAL (1997)
LIVRO de CRÔNICAS (1998)
EXORTAÇÃO aos CROCODILOS (1999)
NÃO ENTRES TÃO DEPRESSA NESSA NOITE ESCURA
(2000)
QUE FAREI QUANDO TUDO ARDE? (2001)
SEGUNDO LIVRO de CRÔNICAS (2002)
LETRINHAS das CANTIGAS (EDIÇÃO LIMITADA)
(2002)
BOA TARDE às COISAS AQUI em BAIXO (2003)
EU HEI-DE AMAR uma PEDRA (2004)
D'ESTE VIVER AQUI NESTE PAPEL DESCRITO:
CARTAS da GUERRA ("CARTAS DA GUERRA") (2005)
TERCEIRO LIVRO de CRÔNICAS (2006)
ONTEM NÃO TE VI em BABILÔNIA (2006)
O MEU NOME é LEGIÃO (2007)
O ARQUIPÉLAGO da INSÔNIA (2008)
QUE CAVALOS SÃO AQUELES que FAZEM SOMBRA no
MAR? (2009)
SÔBOLOS RIOS que VÃO (2010)
QUARTO LIVRO de CRÔNICAS (2011)
COMISSÃO das LÁGRIMAS (2011)
NÃO é MEIA NOITE QUEM QUER (2012)
QUINTO LIVRO de CRÔNICAS (2013)
CAMINHO COMO UMA CASA em CHAMAS (2014)
Da NATUREZA dos DEUSES (2015)
PARA AQUELA que ESTÁ SENTADA no ESCURO à
MINHA ESPERA (2016)
ATÉ que as PEDRAS se TORNEM MAIS LEVES que a
ÁGUA (2017)
A ÚLTIMA PORTA ANTES da NOITE (2018)