versos meus
Pouco sei sobre meus ancestrais de outros países, mas o passado brasileiro da família está no sul da Bahia, em Itabuna e Itapé. Alguns membros do clã, por parte da avó paterna, têm sangue índio. Como descendente dessa árvore genealógica transatlântica e grapiúna, resultado de uma história moldada por diversas raças, conto em fotografias meu amadurecimento nessa vida aventureira, legendadas por pequenos poemas em flor.
03 MESES
01 ANO
minha palavra não
louva
minha palavra não
tem rosto
minha palavra não
faz história
minha palavra não
redime mágoas
minha palavra
suspira
02 ANOS
sou mil
vaga-lumes na mente
sou livros
sublinhados a lápis
sou sensual e
espiritual
escrevo um diário
abstrato
embebedo-me ao
mar
04 ANOS
05 ANOS
06 ANOS
07 ANOS
08 ANOS
09 ANOS
10 ANOS
11 ANOS
12 ANOS
13 ANOS
14 ANOS
15 ANOS
troco
amor por amor
com
quem me ajuda a semear jasmins
joão
cabral e sabiás
troco
o impulso de me jogar pela janela
por
versos de leminski com vistas para o mar
16 ANOS
nunca esqueça
duas três vezes até mais
dos lábios doidos
dos beijos de veneno
do calor de mãos entrelaçadas
dos anjos nos sonhos
soprando alecrins
17 ANOS
tua lembrança
posso tocá-la de tão próxima
nesta noite de sutilezas e argúcias
em que não consigo dormir
caminhando na lassidão
da aragem fresca da campina
18 ANOS
19 ANOS
dei-te frutos saborosos
pólen para o delírio
corpo incendiado
vertiginoso transe
festejando a tua beleza
20 ANOS
tão alegre estou
invade-me o coração murmúrio de rios
floresta em flor
lua pálida
eis o destino
de profeta das letras
saudando a alma aos gritos
21 ANOS
22 ANOS
a monótona coleção de sombras
provoca-me indolência
afundando olhos decaídos
na miragem envolta em vapor
na claridade súbita
23 ANOS
24 ANOS
assim invado
livros
deixando pedaços
do maluco coração
em páginas
honestas
em cada sílaba
cada metáfora
a carne se
desfaz
25 ANOS
26 ANOS
digam-me de onde vem o amor penado?
do mistério das constelações acumuladas?
de árvores cálidas e frondosas?
de um deus clandestino?
do uivo dos infernos?
de onde vem o amor assombrado?
27 ANOS
fiz do teu mundo recatado
um castelo de aromas
bosque encantado
atiçando abelhas
desenhando vaga-lumes
num caminho de noites insensatas
e tardes de brisa frenética
28 ANOS
29 ANOS
o espírito o rio e suas coisas
pedras peixes
o universo e os sóis os céus
e os sons em seus buracos negros
que nem os ouvem ninguém
30 ANOS
31 ANOS
32 ANOS
33 ANOS
34 ANOS
35 ANOS
era uma dança de
despedida
era uma dança de morte
era uma dança de pele
e gozo
rodopiava o cravo
vermelho
preso no véu dourado
36 ANOS
se não houvesse nada de nome
eu criaria o teu
em sobressalto
assim soletrado ao sabor do vento
e de pausas
37 ANOS
38 ANOS
39 ANOS
40 ANOS
41 ANOS
42 ANOS
a aranha
do
coração
tece o tenebroso
pecado
esticando
fios sedosos
que envolvem o
amor
a aranha – uma
parte de mim
tece a loucura
romântica
que salta pelos
olhos
43 ANOS
o ibope mente
a imprensa engana
circulam em olhos
ávidos
flechas
oportunistas
maus agouros
truques
tramoias
44 ANOS
45 ANOS
46 ANOS
fato imediato:
poeta-errante.
aventureiro.
aventureiro
até o fim.
o coração pulsa
por terras e
versos inquietos,
contraditórios.
47 ANOS
rosto,
voz.
frígidas
sensações
em noite
vaporosa.
o tédio,
os vermes da
aventura se multiplicam
em beijos
condenados ao esquecimento.
48 ANOS
49 ANOS
50 ANOS
esse poema que escrevo,
vindo de tão longe,
nasce do vazio
nasce de um lamento