dezembro 28, 2025

..................................... MELHORES LIVROS LIDOS em 2025

milton hatoum e eu
 

 

Às vezes uma pessoa cai
por excesso de amor e
não se ergue do tombo.
MILTON HATOUM
Dança de Enganos
 
Escrevo no impulso da inspiração,
palavra que saiu de moda,
mas é insubstituível.
LYGIA FAGUNDES TELLES
Conspiração de Nuvens

 
 
Entre a escrita de biografias de encomenda, centenas de filmes assistidos, o trabalho diário no escritório de DCL e na revista “Premiere BR”, a comunicação nas redes sociais, posts densos em dois blogues, a vida doméstica, um jardim e um cachorro para cuidar, algumas viagens, nunca deixo de ler todas as noites um ou dois capítulos de um livro. Fiz da leitura um hábito, um ritual, um prazer. Se eu não assistir a um filme e ler umas dez páginas, o sono não vem. Leio principalmente biografias cinematográficas em espanhol e inglês, ou História. Os motivos são óbvios. No total, li quarenta e sete livros em 2025. Destaco os doze que mais me cativaram, todos traduzidos para o português e listados abaixo por ordem alfabética. Dito isto, vamos à lista: 
 
01
Os AMANTES sem DINHEIRO
(1950)
 

Eugénio de Andrade
(1923 – 2005. Fundão / Portugal)

 
Nome celebrado da poesia lusófona, vencedor do prêmio Camões, deixou sua marca com uma poesia feita de luminosidade e transparência. Nos seus poemas, cuja produção vai da década de 1940 a 2001, o desejo ocupa espaço central. É como se o erotismo fosse sua maneira de compreender e de se relacionar com o mundo: o sorriso é o convite, a entrega que torna todas as coisas possíveis. Ao abordar a fragilidade, o desejo e o arrebatamento provocado pela paixão, o poeta trata também da solidão e do significado de estar vivo: “Da beleza, da bárbara / orgulhosa beleza, quem sabe defender-se / sem medo do coração lhe rebentar?”.
 
02
CONSPIRAÇÃO de NUVENS
(2007)
 

Lygia Fagundes Telles
(1918 – 1922. São Paulo / São Paulo)

 
Este foi o último dos livros da autora e um dos mais autobiográficos, com histórias de família e reflexões próprias sobre literatura, política e a vida, numa seleta de crônicas, contos e memórias composta sob o impacto da morte de seu único filho, Goffredo. Reuniu o mais poético e caro em sua vida — apesar do luto. Escritora essencial, eu a conheci em 1989, em Campinas, na Casa do Sol de Hilda Hilst. Fui visitá-la várias vezes em seu apartamento nos Jardins. Fomos ao cinema, exposições e restaurantes. Nosso último encontro aconteceu em Paris, na Feira do Livro. Uma senhora elegante e encantadora. Li toda sua valiosa e sensível obra.
 
03
DANÇA de ENGANOS
(2025)


Milton Hatoum
(1952. Manaus / Amazonas)

 
Conheci Hatoum no Festival Literário de Natal (RN), em 2014. Eu o entrevistei e durante meses trocamos e-mails sobre impressões literárias. Neste último capítulo da trilogia “O Lugar Mais Sombrio” faz com que a saga ganhe sentidos imprevistos. Neste drama familiar, com pano de fundo histórico e político, o tempo do amor, das perdas e dos enganos é o tempo da ficção, que surge através da voz trágica de uma personagem resiliente - e inesquecível. Ela revisita sua vida e a das pessoas ao seu redor, compondo uma galeria notável de almas desgarradas, que entram e saem das páginas como se fossem sombras num longo e nebuloso sonho.
 
04
HISTÓRIAS HUMANAS
(Sketches by Oz, 1836-1867)
 
 
Charles Dickens
(1812 – 1870. Landport, Portsmouth / Reino Unido)

 
Vivendo em Londres, visitei muitas vezes a taberna que Dickens frequentava, sentando no mesmo banco que ele um dia sentou. Aqui, quinze das melhores histórias do mais famoso escritor inglês do século XIX. Autor de obras fundamentais da literatura universal, com aguçada sensibilidade para perceber onde pulsava a vida da população humilde, ele narra relações amorosas, familiares, de poder, ilusões, desilusões, tradições, status social, injustiças (e senso de justiça), amoralidade (e senso moral profundo), desigualdades e muita fantasia fazem o cardápio dessas histórias breves, escolhidas a dedo pelo tradutor José Paulo Paes.
 
05
LICOR de DENTE de LEÃO
(Dandelion Wine, 1957)
 

Ray Bradbury
(1920 - 2012. Waukegan, Illinois / EUA)

 
Em uma pequena cidade de Illinois, um garoto guarda os aromas e lembranças de cada dia de férias em garrafas com dentes-de-leão. Assim, acredita que poderá lembrar de cada um deles quando sentir saudade, à medida que espera a chegada do próximo verão. A invenção de uma máquina da felicidade, as brincadeiras com os amigos, as conversas com os idosos... tudo ganha novas proporções aos olhos de uma criança em busca de respostas para suas curiosidades. Bradbury resgata o sabor, os terrores e as alegrias da infância repleta de momentos mágicos, nos fazendo lembrar como cada instante da vida pode ser inesquecível.
 

06
MACBETH
(Idem, 1623)
William Shakespeare
(1564 – 1616. Stratford-upon-Avon / Reino Unido)

 
Releio sempre Shakespeare. O sombrio “Macbeth” é um clássico que ocupa uma posição central na dramaturgia do bardo inglês, atraindo leitores pelas inúmeras camadas interpretativas das facetas obscuras da humanidade. Um trio de bruxas encontra dois generais, e em uma profecia, afirmam que o primeiro se tornará rei, ao contrário do outro. Esta visão de futuro desencadeia uma série de acontecimentos imprevistos, em uma violenta disputa pelo poder. Este é o início de uma obra-prima, que segue impactante séculos depois, em parte porque traz uma das personagens mais complexas da literatura mundial: Lady Macbeth.
 
07
A MONTANHA MÁGICA
(Der Zauberberg, 1924)
 
Thomas Mann
(1875 – 1955. Lübeck / Alemanha)

 
Considerada a obra-prima de Thomas Mann, narra, a partir da permanência de um jovem engenheiro em um sanatório nos alpes suíços, os dilemas intelectuais e filosóficos que agitavam a Europa às vésperas da Primeira Guerra. Neste vasto livro, acompanhamos os sete anos em que o engenheiro passa num sanatório para tuberculosos. Doença, sociedade, religião, ciência, humanismo: estes são alguns temas de debates acalorados entre pontos de vista divergentes, que se desenrolam enquanto o protagonista busca construir sua visão de mundo. Publicado nos anos 1920, cimentou o “romance de ideias”, e suas discussões seguem atuais.
 
08
A OBRA PRIMA IGNORADA
(Le Chef-d'œuvre Inconnu, 1831)


Honoré de Balzac
(1799 – 1850. Tours / França)

 
A história que inspirou Pablo Picasso a pintar “Guernica”. Em 1612, um jovem pintor caminha pelas ruas de Paris decidido a conhecer o ateliê de um de seus ídolos. Na ocasião, encontra um mestre obstinado pela criação de sua obra-prima que, em busca da perfeição, trabalha por dez anos de modo solitário e incansável. Enquanto ele procura convencê-lo a lhe revelar a sua obra-prima, o mestre se depara com o impasse de mostrar sua criação, até então secreta. Uma narrativa que, tal qual a pintura, vai revelando camadas e nuances de sentido a cada olhar. Faz parte de “A Comédia Humana”, pincelando referências da história da arte.
 
09
POESIA
(Le Testament, 1461)
 

François Villon
(1431 – 1463. Paris / França)

 
A poesia de Villon não cessa de intrigar desde que começou a circular na Paris do século XV. Seus versos refinadíssimos são dotados de imenso vigor vernacular, sem medo da gíria e do baixo calão. Em cada uma de suas baladas — forma poética em que deixou marca indelével —, o ritmo ressalta a urgência das questões: que sentido pode ter uma vida que o tempo há de tragar, qual o valor deste mundo que há de se desfazer como as neves do ano passado, e quem afinal somos, que conhecemos tanta coisa, mas desconhecemos a nós mesmos? Essa síntese de contradições valeu ao poeta uma fama crescente. Sua obra faz jus à fama.
 
10
O RETRATO da MORTE
(1961)
 

Octavio de Faria
(1908 – 1980. Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

 
O oitavo volume do “Ciclo Tragédia Burguesa”. Sob a superfície do decoro, uma sociedade de mentiras à sombra de promessas vazias, enquanto a piedade se reduz à convenção, o amor se confunde com desejo, e o sagrado se encena sem fé. Tudo parece estar no lugar, mas o que resta é abandono. Alguns, sentem o peso da farsa e tentam resistir. A maioria, porém, sorri, brinda, segue adiante como se a festa fosse real, como se a ruína já não estivesse instalada. Tudo está consumado, mas ninguém ousa nomeá-lo. E é justamente nesse silêncio cúmplice, que se vislumbra, com nitidez cruel, a aceitação tranquila da falsidade como existência.
 
11
O SENHOR dos ANÉIS: a SOCIEDADE do ANEL
(The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring, 1954)

J. R. R. Tolkien
(1892 – 1973. Bloemfontein / África do Sul)
 
Primeira parte de uma obra de ficção fantástica. Alternadamente singela e diabólica, a narrativa desenvolve-se em meio a inúmeras mudanças de cenários e de personagens, num mundo imaginário convincente. Notável na sua vividez e na sua habilidade narrativa profunda e complexa. A despeito dos elementos mágicos e fantasiosos, a prosa do Tolkien é simples e precisa, sutil e refinada. Ele criou neste épico uma nova mitologia num mundo inventado que demonstrou um poder de atração atemporal. Enfim, trata-se, de fato, de um livro incrível, para ler e reler. Ainda não li as sequências do volume: “As Duas Torres” e “O Retorno do Rei”.
 
12
TRÊS MESTRES
(Drei Meister: Balzac, Dickens, Dostojewski, 1920)
 

Stefan Zweig
(1881 – 1942. Viena / Áustria)

  
Ensaios, escritos num intervalo de dez anos, sobre Balzac, Dickens e Dostoiévski, apresentando segundo o autor os três maiores romancistas do século XIX. Cada um deles cria uma lei própria para a vida, conferindo uma nova forma ao mundo com a sua visão única. Ao tomarmos conhecimento da unidade mais íntima desses mundos e da formação da personalidade deles, temos a oportunidade de nos aprofundarmos nas suas obras e também de assisti-las sendo retratadas por um mestre da escrita: Stefan Zweig. A profundidade de sua análise — e a beleza de sua prosa — transforma esses seus estudos em uma referência crítica fundamental. 
  
thomas mann

eu e lygia fagundes telles

charles louis baugniet