Gosto de
dizer. Direi melhor: gosto de palavrar.
As palavras são para mim corpos tocáveis,
sereias visíveis, sensualidades incorporadas.
FERNANDO PESSOA
(1888 – 1935. Lisboa / Portugal)
“Livro do Desassossego” (1982)
Homem inclinado aos afetos,
um tolerante que não perde o senso de justiça,
cultiva-o em preservação quase obsessiva.
Ser amigo é para ele não ter sossego.
Chega junto sempre. Apoia, combate.
MARCOS VILAÇA
(1939 – 2025. Nazaré da Mata / Pernambuco)
do prefácio de “Adeus Penderama”
As palavras são para mim corpos tocáveis,
sereias visíveis, sensualidades incorporadas.
FERNANDO PESSOA
(1888 – 1935. Lisboa / Portugal)
“Livro do Desassossego” (1982)
Homem inclinado aos afetos,
um tolerante que não perde o senso de justiça,
cultiva-o em preservação quase obsessiva.
Ser amigo é para ele não ter sossego.
Chega junto sempre. Apoia, combate.
MARCOS VILAÇA
(1939 – 2025. Nazaré da Mata / Pernambuco)
do prefácio de “Adeus Penderama”
Ilustrações:
ROBERT DELAUNAY
(1885 – 1941. Paris / França)
Ouvi falar pela primeira vez do escritor pernambucano JOSÉ PAULO CAVALCANTI FILHO (1948. Recife / Pernambuco) através de um amigo nosso, o mestre potiguar Diogenes da Cunha Lima, que me sugeriu a leitura de “Fernando Pessoa, Uma Quase Autobiografia”. Leitor do poeta português, conheço boa parte da sua obra, visitei a casa onde viveu e os locais que frequentava em Lisboa. O livro indicado busca a realidade, é uma biografia imperdível e definitiva. Conduz o leitor à terra firme do conhecimento. Ganhou o Prêmio Jabuti, entre tantas outras distinções. Munido de fartíssima documentação, ele traduz densamente as vozes do consagrado poeta português, passa a limpo uma história. Fatos podem ser confirmados, desmentidos, falsificados, deturpados. Mas não há como argumentar contra a narrativa de uma biografia honesta. Ela independe do passado, ela apenas é. Nesse trabalho inspirado, o leitor é transportado para o lugar. Ao final da leitura épica, eu estava com a mente preenchida por acontecimentos que pareciam perdidos e se tornaram mais nítidos.
O autor passou dez anos escrevendo as 800 páginas e foi a Lisboa trinta vezes para fazer pesquisas. Um verdadeiro trabalho investigativo. Contratou pesquisadores, jornalistas, historiadores. Como resultado, a obra foi festejada em Portugal. Depois da leitura, passei a ler semanalmente suas crônicas inteligentes com recortes históricos. Ocupante da Cadeira nº 39 da Academia Brasileira de Letras e advogado no Recife, JOSÉ PAULO CAVALCANTI FILHO foi nomeado para a Comissão Nacional da Memória e da Verdade, cuja finalidade era apurar violação aos direitos humanos no Regime Militar. Aos colegas disse ter a impressão de que investigaria a “guerra suja” dos dois lados. Acredita também que no regime democrático cada um tem o direito constitucional de expressar o que pensa, embora reconheça que perdeu amigos por não ter votado no PT nas últimas eleições. A decepção com o partido surgiu ao constatar ter se transformado num antro de corrupção. Nesta entrevista, deixo a política de lado, destacando a essência literária. Vamos a essa conversa reveladora.
01
José Paulo, poderia contar a história da sua origem?
A vida não é uma estrada reta, mestre Nahud, em que já sabemos onde vamos chegar. Ela é mais como um cordão sem ponta. No início, queremos conhecer lugares novos, amigos novos, sons, sabores, livros. Até que, a partir de um pedaço impressentido na caminhada, já começamos a retornar ao início. Como os elefantes, dizem, que voltam para morrer onde nasceram. Não sei, por não conhecer bem tais mamíferos. Nesse caminho, então, passamos a querer só voltar aos lugares que gostamos, ouvir os mesmos discos, saborear as mesmas comidas, reler os mesmos livros e encontrar, nos mesmos lugares, os mesmos amigos, para ter as mesmas conversas. Só que o caminho não se encerra quando vem a indesejada das gentes, segue adiante com nossos filhos e netos. Nem as raízes que nos prendem ao passado iniciam quando nascemos, que vêm de bem antes. Por isso respondo, a sua pergunta, dizendo ser, como tantos, só um elo a mais na corrente da vida.
02
E como chegou a essa conclusão?
Em dois momentos. O primeiro porque faço viagens gastronômicas, com dona Lectícia, pelos interiores de França, Portugal, lugares muitos. Apenas para provar sabores especiais. E, de repente, passo a gostar de carne seca, charque, tanajura, que não têm a ver com minha infância no Recife. Mas com a de meu pai e meu avô, em Ipojuca, nos interiores de um Brasil popular e profundo. E dos que vieram antes deles. O segundo porque ouço, hoje, apenas música clássica e jazz. Mas, sem saber como, passo a também gostar de cantorias, que não ouvi quando jovem. Até escrevi 244 páginas de versos para um disco, pela Polidisk, em 2011 um dos 10 mais vendidos em Pernambuco: “Ivanildo Vilanova e Oliveira de Panelas Cantam Cantorias de Pé de Parede”, com versos de José Paulo Cavalcanti Filho. Nele estão palavras que escrevi para dona Lectícia no gênero. São as coisas que eu gosto de fazer. Segue como prova uma, entre outras que lhe dediquei:
Na manhã
radiosa desse dia
Pelo qual sem saber sempre esperei
Pressenti que te tendo eu não terei
A tristeza que o peito pressentia
E que eras tu mesmo eu já sabia
Sem que fosse preciso nem dizer
Porque sempre sonhei que iria ver
Teu sorriso sorrindo para mim
E eu sorrindo a teu lado até o fim
São as coisas que em gosto de fazer.
Pelo qual sem saber sempre esperei
Pressenti que te tendo eu não terei
A tristeza que o peito pressentia
E que eras tu mesmo eu já sabia
Sem que fosse preciso nem dizer
Porque sempre sonhei que iria ver
Teu sorriso sorrindo para mim
E eu sorrindo a teu lado até o fim
São as coisas que em gosto de fazer.
Tudo mostrando, mais uma vez digo, que o início de nossas vidas vem de bem antes.
Por que a
escolha por esse caminho chamado literatura? Você estudou direito. Como decidiu
ser escritor, se é que se decide? Qual a relação entre a escrita e a vida real?
Sempre soube que seria advogado. Como tantos que, na carreira, imitam seus pais. Até cheguei a cursar Filosofia Pura. Fui aprendendo grego antigo, sem professor, com um dicionário e uma gramática grega. Depois, já na faculdade de Direito, o Governo Militar me proibiu de estudar no Brasil. E acabei em Harvard, numa bolsa de estudos. Depois ainda me proibiriam de ensinar, mas essa é outra história. Acabei formado numa profissão que obriga o uso das palavras. Por isso creio ter tudo nascido por conta do Destino. A profissão e o ato de escrever.
04
De que forma a literatura pode trazer esperança ou convidar a um mundo melhor?
O primeiro fundamento, para a Democracia, é a liberdade de consciência. Só tendo consciências livres podem os homens se considerar verdadeiramente cidadãos. O que tem duas consequências. Uma retrospectiva, que é não poder haver censura. Outra prospectiva, que é poder dizer o que se pensa. No curso desse processo está a literatura, em que se depositam experiências de tantos que, como nós, se aventuraram no sonho.
05
Como é o processo de escrita para você? Como encontra as palavras certas para traduzir o pensamento?
Tento escrever como se fala. E com a obsessão de seguir o som. Sem repetições. Nem letras dobradas. Textos limpos. Não se dá só consigo. Por exemplo Flaubert lia cada página em voz alta, e vezes sem conta, para ter certeza de que a sonoridade e o ritmo das frases eram os que imaginou ao escrever. Em algumas ocasiões convidava crianças, para dar opinião, por considerar serem mais sinceras. Mesmo integrado no Realismo, para ele o faire vrai contava menos que o viser beau. Sigo nessa trilha.
06
Qual a hora preferida para escrever?
Sem dúvida, à noite, melhor ainda, na madrugada. E sempre ouvindo música, clássica ou jazz.
07
E como nasce o livro?
Ninguém é obrigado a escrever melhor que todos os outros, mas não há desculpas para não fazer o melhor que você for capaz. Oscar Wilde perdeu almoço, em que seria homenageado, ao passar uma manhã inteira na dúvida se deveria ou não cortar uma vírgula, em poema que escrevia. Depois disse, no seu diário, “hoje cedo tirei uma vírgula e à tarde coloquei-a de volta”. Ao fim, e só para lembrar, o livro não nasce, você se livra dele.
08
Sempre soube que seria advogado. Como tantos que, na carreira, imitam seus pais. Até cheguei a cursar Filosofia Pura. Fui aprendendo grego antigo, sem professor, com um dicionário e uma gramática grega. Depois, já na faculdade de Direito, o Governo Militar me proibiu de estudar no Brasil. E acabei em Harvard, numa bolsa de estudos. Depois ainda me proibiriam de ensinar, mas essa é outra história. Acabei formado numa profissão que obriga o uso das palavras. Por isso creio ter tudo nascido por conta do Destino. A profissão e o ato de escrever.
04
De que forma a literatura pode trazer esperança ou convidar a um mundo melhor?
O primeiro fundamento, para a Democracia, é a liberdade de consciência. Só tendo consciências livres podem os homens se considerar verdadeiramente cidadãos. O que tem duas consequências. Uma retrospectiva, que é não poder haver censura. Outra prospectiva, que é poder dizer o que se pensa. No curso desse processo está a literatura, em que se depositam experiências de tantos que, como nós, se aventuraram no sonho.
05
Como é o processo de escrita para você? Como encontra as palavras certas para traduzir o pensamento?
Tento escrever como se fala. E com a obsessão de seguir o som. Sem repetições. Nem letras dobradas. Textos limpos. Não se dá só consigo. Por exemplo Flaubert lia cada página em voz alta, e vezes sem conta, para ter certeza de que a sonoridade e o ritmo das frases eram os que imaginou ao escrever. Em algumas ocasiões convidava crianças, para dar opinião, por considerar serem mais sinceras. Mesmo integrado no Realismo, para ele o faire vrai contava menos que o viser beau. Sigo nessa trilha.
06
Qual a hora preferida para escrever?
Sem dúvida, à noite, melhor ainda, na madrugada. E sempre ouvindo música, clássica ou jazz.
07
E como nasce o livro?
Ninguém é obrigado a escrever melhor que todos os outros, mas não há desculpas para não fazer o melhor que você for capaz. Oscar Wilde perdeu almoço, em que seria homenageado, ao passar uma manhã inteira na dúvida se deveria ou não cortar uma vírgula, em poema que escrevia. Depois disse, no seu diário, “hoje cedo tirei uma vírgula e à tarde coloquei-a de volta”. Ao fim, e só para lembrar, o livro não nasce, você se livra dele.
08
![]() |
| nélida piñon e zé paulo |
O sonho
faz parte do seu processo criativo?
Cada um tem seu estilo. Fernando Pessoa, por exemplo, era um escritor sem imaginação. No sentido de que apenas narrava o que estava à sua volta. Descobri isso em um momento mágico. Daí, reli as quase 30 mil páginas que escreveu e tudo fazia sentido. Sabia quando o texto nasceu, para quem, qual a razão, tudo. Mas as pessoas normais, ao escrever, misturam realidades e fantasias. Ilusões perdidas, fantasmas, sonhos, o espanto. É natural.
09
Como vê a escrita quanto a ritmo, musicalidade, sonoridade?
Até os 13 anos estudei só para ser maestro. Toco todos os instrumentos. Dei concertos de piano. Isso ajuda muito. Porque, depois de escrever, leio tudo em voz alta. Como se fosse uma partitura. E as frases devem ser belas, ao ouvir. A vida seguiu, depois. Pensei em ser diplomata, e aprendi as línguas. Afora, pelo caminho, Tupi-Guarani e outras paixões. Até acabar advogado de província. Mas a música continua sendo sempre útil, especialmente no escrever.
10
O seu livro “Fernando Pessoa, uma Quase Autobiografia” é admirado por muitos. Como é a experiência de perceber a repercussão que a sua escrita tem sobre o outro?
Sinto como se fosse o destino. A editora Record pediu para escrever um livro sobre ele e o fiz para mim, por favor acredite. Apesar de ter 800 páginas, e custar caro (por isso), chegou a 8 edições no Brasil (de 7 mil exemplares, cada), em Portugal outras tantas e merecendo todos os prêmios. Só para me gabar, lembro que ganhou o Jabuti (primeiro lugar, São Paulo), Bienal do Livro (primeiro lugar, Brasília), Revista Algo Mais (Recife), José Ermínio de Moraes – livro do ano, pela Academia Brasileira de Letras (com saudação de José Pastore, Rio), Il Molinello (Itália), Dário de Castro Alves (Portugal, com saudação do presidente Mário Soares). Publicado, além do Brasil, em Alemanha, Espanha, Estados Unidos, França, Inglaterra, Israel, Itália, Portugal, Romênia e Rússia. Em resumo, como no lema da Coca-Cola, “isso faz um bem...”
11
Por que Fernando Pessoa como tema?
Em três momentos da vida senti o peso do gênio. Primeiro, quando tocava Bach ao piano. Está bem acima de todos os outros. Até tenho uma teoria; a de que Deus, enfastiado pelo tédio celestial, decidiu descer à terra e viver como um homem comum. Assim se deu, sendo batizado como Johann Sebastian Bach. O segundo momento, bem jovem, quando li “100 Anos de Solidão”, ao descobrir o realismo fantástico de Garcia Márquez. Fernando Pessoa conheci, em 1966, pela voz de João Villaret recitando a “Tabacaria”. Foi o começo de uma paixão que até hoje me encanta e oprime. Tenho inclusive a sensação de que gostava dele ainda mais naquele tempo. Talvez porque todo começo de paixão seja assim mesmo, depois arrefece. Ou então, como o rio de sua aldeia, ele apenas pertencesse a menos gente. E fomos nos aproximando. Leio frases suas, hoje, como se tivesse estado a seu lado quando as escreveu. E chego a pressentir as reações que teria, perante algum fato do quotidiano. Não se deu apenas comigo, mestre Nahud. Jorge Luis Borges, 50 anos depois de sua morte, pediu: Deixa-me ser teu amigo. E Luiz Ruffato lembra que era outono e azul quando apresentei-me a Fernando Pessoa. No íntimo, é como se continuasse vivo. Ao passar dos anos, fui compreendendo melhor esse homem inquieto, o corpo frágil, a angústia da alma, a dimensão grandiosa da obra. Em Lisboa, pude conversar com pessoas que o conheceram. Tocar, com os dedos, papéis escritos por ele. Visitar as casas onde morou. Em frente à escrivaninha do seu quarto, imaginar que o via escrever “O Guardador de Rebanhos”. No fundo, a cada passo dessa viagem ao passado, era como se sua figura fosse ganhando matéria. Como se em cada canto, impressentidamente, começasse a escapar das sombras. E assim nasceu o livro, para dizer quem era.
12Como foi seu famoso encontro com Fernando Pessoa em Lisboa? Realmente acreditou que seguia Pessoa ou é ficção? Comigo passou certa vez algo parecido, em Granada, eu vi García Lorca e o segui, o abordei e chorei emocionado. De repente, estava sozinho em uma rua deserta. Meus familiares e amigos não acreditam nessa história, mesmo sabendo que não sou de mentiras. Sempre perguntam se eu tinha bebido. Daí a curiosidade quando soube do seu caso.
Conto como foi. Numa tarde quente, passeava pela “nobre Lisboa que no mundo facilmente das outras és princesa”, como a sonhou Camões. Enquanto, para Pessoa, era só uma “eterna verdade vazia e perfeita”. E na Praça Camões, bem no burburinho do Chiado, afinal o encontrei. O traje não permitia qualquer dúvida. Sapatos pretos de verniz, como os que comprava na Sapataria Contente da Av. Liberdade – hoje, sem mais restos de sua presença na cidade. Camisa branca, em goma, da Camisaria Pitta, na Rua do Ouro – agora, também convertida em lembrança do passado. Terno de corte anglo-saxônico, feito pelos mestres da Casa Lourenço e Santos – ali pertinho, ainda hoje, nos Restauradores. A mais cara de Lisboa. Mesmo sem ter recursos para pagar esse luxo. Tendo todos os meses que aturar na porta os cobradores da Procural, todos em vermelho, dos sapatos à cartola. Óculos de tartaruga, pesados, substituindo os de metal da juventude. Gravata borboleta cinza, para combinar com o chapéu também cinza, estilo Diplomata, que usava tombado para o lado direito. Era ele. Sem dúvida possível, só podia ser ele. Ainda surpreso, preferi apenas acompanhá-lo. De longe. Com reverência. Curioso para saber onde iria. E sem tomar intimidades, claro. Dirigiu-se então à Igreja dos Italianos. Depois, trocou de calçada indo pras bandas da Brasileira. E passou em frente a estátua com figura igual à dele, junto a uma cadeira vazia sempre ocupada com turistas para previsíveis fotos. Até estranhou, percebi, ao notar tanta semelhança no rosto e nos trajes, entre ele e o bronze. Continuei seguindo seus passos. E ele olhando para trás, como se temesse pelo encontro. Trocou novamente de calçada, indo agora na direção dos elevadores da Santa Justa. Eu atrás, evidentemente. Então deu uma última olhada, dobrou a esquina da Livraria Bertrand e saiu correndo, como se estivesse com (muita) pressa. Lectícia sustenta que o pobre homem estava era apavorado, com receio de ser assaltado. Não faltava mais nada. Que tivesse medo de um amigo. E disse apenas que ela não entendia nada de fantasmas.
13
E como foi a história do soneto em parceria que escreveu com Pessoa?
Sempre quis ser parceiro de Fernando Pessoa. Não faltava mais nada!, se dirá. E essa oportunidade surgiu quando em casa, sobre a mesa em que estavam papéis dele, dei-me com um dos textos que deixou na arca em que guardava tudo o que escrevia. E ali estavam seis versos do que seria o início de um soneto, dizendo assim:
Cada um tem seu estilo. Fernando Pessoa, por exemplo, era um escritor sem imaginação. No sentido de que apenas narrava o que estava à sua volta. Descobri isso em um momento mágico. Daí, reli as quase 30 mil páginas que escreveu e tudo fazia sentido. Sabia quando o texto nasceu, para quem, qual a razão, tudo. Mas as pessoas normais, ao escrever, misturam realidades e fantasias. Ilusões perdidas, fantasmas, sonhos, o espanto. É natural.
09
Como vê a escrita quanto a ritmo, musicalidade, sonoridade?
Até os 13 anos estudei só para ser maestro. Toco todos os instrumentos. Dei concertos de piano. Isso ajuda muito. Porque, depois de escrever, leio tudo em voz alta. Como se fosse uma partitura. E as frases devem ser belas, ao ouvir. A vida seguiu, depois. Pensei em ser diplomata, e aprendi as línguas. Afora, pelo caminho, Tupi-Guarani e outras paixões. Até acabar advogado de província. Mas a música continua sendo sempre útil, especialmente no escrever.
10
O seu livro “Fernando Pessoa, uma Quase Autobiografia” é admirado por muitos. Como é a experiência de perceber a repercussão que a sua escrita tem sobre o outro?
Sinto como se fosse o destino. A editora Record pediu para escrever um livro sobre ele e o fiz para mim, por favor acredite. Apesar de ter 800 páginas, e custar caro (por isso), chegou a 8 edições no Brasil (de 7 mil exemplares, cada), em Portugal outras tantas e merecendo todos os prêmios. Só para me gabar, lembro que ganhou o Jabuti (primeiro lugar, São Paulo), Bienal do Livro (primeiro lugar, Brasília), Revista Algo Mais (Recife), José Ermínio de Moraes – livro do ano, pela Academia Brasileira de Letras (com saudação de José Pastore, Rio), Il Molinello (Itália), Dário de Castro Alves (Portugal, com saudação do presidente Mário Soares). Publicado, além do Brasil, em Alemanha, Espanha, Estados Unidos, França, Inglaterra, Israel, Itália, Portugal, Romênia e Rússia. Em resumo, como no lema da Coca-Cola, “isso faz um bem...”
11
Por que Fernando Pessoa como tema?
Em três momentos da vida senti o peso do gênio. Primeiro, quando tocava Bach ao piano. Está bem acima de todos os outros. Até tenho uma teoria; a de que Deus, enfastiado pelo tédio celestial, decidiu descer à terra e viver como um homem comum. Assim se deu, sendo batizado como Johann Sebastian Bach. O segundo momento, bem jovem, quando li “100 Anos de Solidão”, ao descobrir o realismo fantástico de Garcia Márquez. Fernando Pessoa conheci, em 1966, pela voz de João Villaret recitando a “Tabacaria”. Foi o começo de uma paixão que até hoje me encanta e oprime. Tenho inclusive a sensação de que gostava dele ainda mais naquele tempo. Talvez porque todo começo de paixão seja assim mesmo, depois arrefece. Ou então, como o rio de sua aldeia, ele apenas pertencesse a menos gente. E fomos nos aproximando. Leio frases suas, hoje, como se tivesse estado a seu lado quando as escreveu. E chego a pressentir as reações que teria, perante algum fato do quotidiano. Não se deu apenas comigo, mestre Nahud. Jorge Luis Borges, 50 anos depois de sua morte, pediu: Deixa-me ser teu amigo. E Luiz Ruffato lembra que era outono e azul quando apresentei-me a Fernando Pessoa. No íntimo, é como se continuasse vivo. Ao passar dos anos, fui compreendendo melhor esse homem inquieto, o corpo frágil, a angústia da alma, a dimensão grandiosa da obra. Em Lisboa, pude conversar com pessoas que o conheceram. Tocar, com os dedos, papéis escritos por ele. Visitar as casas onde morou. Em frente à escrivaninha do seu quarto, imaginar que o via escrever “O Guardador de Rebanhos”. No fundo, a cada passo dessa viagem ao passado, era como se sua figura fosse ganhando matéria. Como se em cada canto, impressentidamente, começasse a escapar das sombras. E assim nasceu o livro, para dizer quem era.
12Como foi seu famoso encontro com Fernando Pessoa em Lisboa? Realmente acreditou que seguia Pessoa ou é ficção? Comigo passou certa vez algo parecido, em Granada, eu vi García Lorca e o segui, o abordei e chorei emocionado. De repente, estava sozinho em uma rua deserta. Meus familiares e amigos não acreditam nessa história, mesmo sabendo que não sou de mentiras. Sempre perguntam se eu tinha bebido. Daí a curiosidade quando soube do seu caso.
Conto como foi. Numa tarde quente, passeava pela “nobre Lisboa que no mundo facilmente das outras és princesa”, como a sonhou Camões. Enquanto, para Pessoa, era só uma “eterna verdade vazia e perfeita”. E na Praça Camões, bem no burburinho do Chiado, afinal o encontrei. O traje não permitia qualquer dúvida. Sapatos pretos de verniz, como os que comprava na Sapataria Contente da Av. Liberdade – hoje, sem mais restos de sua presença na cidade. Camisa branca, em goma, da Camisaria Pitta, na Rua do Ouro – agora, também convertida em lembrança do passado. Terno de corte anglo-saxônico, feito pelos mestres da Casa Lourenço e Santos – ali pertinho, ainda hoje, nos Restauradores. A mais cara de Lisboa. Mesmo sem ter recursos para pagar esse luxo. Tendo todos os meses que aturar na porta os cobradores da Procural, todos em vermelho, dos sapatos à cartola. Óculos de tartaruga, pesados, substituindo os de metal da juventude. Gravata borboleta cinza, para combinar com o chapéu também cinza, estilo Diplomata, que usava tombado para o lado direito. Era ele. Sem dúvida possível, só podia ser ele. Ainda surpreso, preferi apenas acompanhá-lo. De longe. Com reverência. Curioso para saber onde iria. E sem tomar intimidades, claro. Dirigiu-se então à Igreja dos Italianos. Depois, trocou de calçada indo pras bandas da Brasileira. E passou em frente a estátua com figura igual à dele, junto a uma cadeira vazia sempre ocupada com turistas para previsíveis fotos. Até estranhou, percebi, ao notar tanta semelhança no rosto e nos trajes, entre ele e o bronze. Continuei seguindo seus passos. E ele olhando para trás, como se temesse pelo encontro. Trocou novamente de calçada, indo agora na direção dos elevadores da Santa Justa. Eu atrás, evidentemente. Então deu uma última olhada, dobrou a esquina da Livraria Bertrand e saiu correndo, como se estivesse com (muita) pressa. Lectícia sustenta que o pobre homem estava era apavorado, com receio de ser assaltado. Não faltava mais nada. Que tivesse medo de um amigo. E disse apenas que ela não entendia nada de fantasmas.
13
E como foi a história do soneto em parceria que escreveu com Pessoa?
Sempre quis ser parceiro de Fernando Pessoa. Não faltava mais nada!, se dirá. E essa oportunidade surgiu quando em casa, sobre a mesa em que estavam papéis dele, dei-me com um dos textos que deixou na arca em que guardava tudo o que escrevia. E ali estavam seis versos do que seria o início de um soneto, dizendo assim:
Ah! Se
soubesses com que mágoa eu uso
Este terror de amar-te, sem poder
Nem dizer-te que te amo, de confuso,
De tão senti-lo, nem o amor perder.
Se soubesses com que ódio a não saber
Falar-te do que quero, me excuso ...
Este terror de amar-te, sem poder
Nem dizer-te que te amo, de confuso,
De tão senti-lo, nem o amor perder.
Se soubesses com que ódio a não saber
Falar-te do que quero, me excuso ...
Mais nada. Jamais se saberá para quem se destinavam. Ou as razões que o levaram a parar de escrever onde parou. Nem porque estava aquele papel solto, sobre a mesa, como que pedindo que o soneto fosse completado. Aproveitei e fiz, então, sua vontade. Dei-lhe um título e escrevi os oito versos restantes. Convertendo-me enfim, com orgulho e padecimento (pelas comparações), em seu parceiro. Após o que, perdão companheiros meus e modéstia à parte, ando todo prosa. Por causa desse poema feito em parceria:
SONETO da
MÁGOA
Ah, se soubesses com que mágoa eu uso
Este terror de amar-te, sem poder
Nem dizer-te que te amo, de confuso.
De tão senti-lo, nem o amor perder.
Se soubesses com que ódio a não saber
Falar-te do que quero, me escuso
Entenderias que nesse escrever
Revivo a alma de um poeta luso.
Porque te amo como quem te odeia
Como se o Cristo ao fim daquela ceia
Beijasse o rosto do seu traidor.
E te desprezo como quem tonteia
Como se o sal que corre em tua veia
Fosse a semente desse nosso amor.
Fernando Pessoa e JPCF.
Ah, se soubesses com que mágoa eu uso
Este terror de amar-te, sem poder
Nem dizer-te que te amo, de confuso.
De tão senti-lo, nem o amor perder.
Se soubesses com que ódio a não saber
Falar-te do que quero, me escuso
Entenderias que nesse escrever
Revivo a alma de um poeta luso.
Porque te amo como quem te odeia
Como se o Cristo ao fim daquela ceia
Beijasse o rosto do seu traidor.
E te desprezo como quem tonteia
Como se o sal que corre em tua veia
Fosse a semente desse nosso amor.
Fernando Pessoa e JPCF.
14Qual foi o primeiro dos seus livros e qual será o próximo?
O primeiro escrevi com 5/6 anos. Fui contando a minha mãe e ela datilografava. A história de um grão de areia que grudou no sapato de um homem e, depois, correu mundo. Com o grão de areia vendo lugares e anotando experiências. Para minha grande sorte, ele desapareceu. Ninguém sabe mais, hoje, onde está. Graças. E o próximo livro, editado pela Academia Brasileira de Letras, será “Bartolomeu Fragoso, Primeiro Poeta do Brasil”. Aposentando a lenda de que teria sido Bento Teixeira, com sua “Prosopopeia”. Creio que vai ser um livro importante, no tanto em que conta fielmente esse início de uma literatura brasileira.
15
Você procura ser um “grande escritor”. Ou já renunciou a essa vaidade e escreve como quem bebe ou como quem come?
Não tenho mais idade para ter vaidades como essa, amigo Nahud. E nem posso concordar com o resto da pergunta porque nunca bebi álcool. A ironia é que faço vinho, em Portugal, na Bairrada. Com uvas Baga. O Dona Lectícia. Fora do comércio, apenas para os amigos. Dizem ser bom, não sei que nunca provei.
16
A literatura brasileira atual tem dado raras alegrias ao nosso país. Por que tem que ser assim?
Acredito ser muito boa. Alguns amigos já quase ganharam o Nobel, como Jorge Amado e Ferreira Gullar; que, na sua casa, nos contou como, em 2010, ficou à espera de um telefonema da Suécia. Até que jornalistas ligaram e perguntaram o que achava de Mário Vargas Llosa, ganhador do Nobel naquele ano. Quase ganhou, e nem sabia que estava disputando esse prêmio. Na Latinoamérica tivemos já Gabriela Mistral (Chile, 1945), Miguel Ángel Asturias (Guatemala, 1967), Pablo Neruda (Chile, 1971), Gabriel Garcia Marquez (Colômbia, 1982), Octavio Paz (México, 1990), o já referido Vargas Llosa (Peru, 2010). Falta um brasileiro, nessa relação.
17
Cite os três maiores escritores brasileiros de todos os tempos.
Um romancista, Machado de Assis. Um poeta, João Cabral de Melo Neto. E um antropólogo, Câmara Cascudo. Incluo, ainda, Manuel Bandeira, Gilberto Freyre, Carlos Pena Filho, Jorge Amado, Diogenes da Cunha Lima.
18
Poderia falar um pouco sobre sua leitura habitual?
Depois que entrei na Academia Brasileira de Letras surgiram dois problemas. Um é que passaram a me pedir, em média, quatro prefácios por semana. Esse já resolvi. Não escrevo mais. Embora, vez por outra, peçam não a mim, mas a minha mulher, que responde “Ele aceita”. Poucos, graças. O outro é que recebo, em média três livros por dia de autores do Brasil todo, com longas dedicatórias, como que pedindo opinião. Leio todos. E comento. Mas sobra cada vez menos tempo disponível para ler livros que duram nas estantes, sem ser abertos (e lidos) mais tempo do que deveriam. Um problema que tenho de resolver.
19
![]() |
| maria lectícia e zé paulo |
Sua
esposa, Maria Lectícia Monteiro Cavalcanti, também é escritora. E sua colega na
Academia Pernambucana de Letras. Como funciona um casamento entre escritores?
Há influência? Troca de opiniões? Discordâncias literárias?
Simples, como tudo em casa. Manda quem pode, ela; e obedece quem tem juízo, eu. Ou pensa que tem, o que dá no mesmo. Minha sorte é que ela escreve bem, e cada vez melhor. Em 2024, por exemplo, a edição portuguesa de seu livro “A Mesa de Deus” ganhou o maior prêmio para livros de gastronomia, na Europa. Concedido pela Academie Internationale de la Gastronomie. Viva!!!
20
Como é fazer parte da Academia Brasileira de Letras e da Academia Portuguesa, morando em Pernambuco? Como funciona? Você tem um círculo de membros mais próximos na ABL, amigos de verdade?
Ao Rio, não vou tanto quanto gostaria. Pena. As amizades, por lá, são um privilégio. Só para lembrar, um pernambucano apenas foi antes eleito quando morava no Recife. E continuou, depois, o amigo Mauro Mota, que já nos deixou em 1984. Na portuguesa vou muito, se chama Academia das Ciências de Lisboa, sessão Letras. Quando em Lisboa, todas as quintas, compareço. Que estar, entre amigos, é mesmo uma coisa boa.
21
O que espera da vida? E, o que podemos (re)aprender com o olhar do escritor para enfrentar tempos difíceis?
Poderia lembrar o amigo querido Eduardo Galeano (que, nos e-mails trocados, se assinava Hugale – uma brincadeira com seu nome, eduardo HUGhes GALEano), ao lembrar Fernando Birri que indica, em citação conhecida, um belo sentido para a vida:
“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos e se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais o alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”
Mas prefiro apenas esperar que meu resto de vida custe muuuuitooo a passar. Um pouco mais de 50 anos, pelo menos, já seria bom. O que nem é pedir demais, que me sinto com apenas 20 anos. E devemos todos confiar no mundo e nos homens, com esperanças renovadas e vivendo sonhos radiosos. Para todo o sempre. Amém.
22
Esta entrevista é um privilégio para o “Cinzas & Diamantes” e nossos leitores! Muito obrigado.
Simples, como tudo em casa. Manda quem pode, ela; e obedece quem tem juízo, eu. Ou pensa que tem, o que dá no mesmo. Minha sorte é que ela escreve bem, e cada vez melhor. Em 2024, por exemplo, a edição portuguesa de seu livro “A Mesa de Deus” ganhou o maior prêmio para livros de gastronomia, na Europa. Concedido pela Academie Internationale de la Gastronomie. Viva!!!
20
Como é fazer parte da Academia Brasileira de Letras e da Academia Portuguesa, morando em Pernambuco? Como funciona? Você tem um círculo de membros mais próximos na ABL, amigos de verdade?
Ao Rio, não vou tanto quanto gostaria. Pena. As amizades, por lá, são um privilégio. Só para lembrar, um pernambucano apenas foi antes eleito quando morava no Recife. E continuou, depois, o amigo Mauro Mota, que já nos deixou em 1984. Na portuguesa vou muito, se chama Academia das Ciências de Lisboa, sessão Letras. Quando em Lisboa, todas as quintas, compareço. Que estar, entre amigos, é mesmo uma coisa boa.
21
O que espera da vida? E, o que podemos (re)aprender com o olhar do escritor para enfrentar tempos difíceis?
Poderia lembrar o amigo querido Eduardo Galeano (que, nos e-mails trocados, se assinava Hugale – uma brincadeira com seu nome, eduardo HUGhes GALEano), ao lembrar Fernando Birri que indica, em citação conhecida, um belo sentido para a vida:
“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos e se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais o alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”
Mas prefiro apenas esperar que meu resto de vida custe muuuuitooo a passar. Um pouco mais de 50 anos, pelo menos, já seria bom. O que nem é pedir demais, que me sinto com apenas 20 anos. E devemos todos confiar no mundo e nos homens, com esperanças renovadas e vivendo sonhos radiosos. Para todo o sempre. Amém.
22
Esta entrevista é um privilégio para o “Cinzas & Diamantes” e nossos leitores! Muito obrigado.
ALGUNS LIVROS
de JOSÉ PAULO CAVALCANTI FILHO
“Aspectos Institucionais
da Comunidade Econômica Europeia” (1973)
“Informação e Poder” (1994)
“O Mel e o Fel” (1998)
“Aos Amigos Tudo” (2003)
“Tempos de Aprendizagem, Identidade Cidadã
e Organização da Educação Es” (2003)
“O Quase Fim de Serapião Filogônio” (2007)
“Adeus Penderama e Outras Escritos” (2008)
“Fernando Pessoa: uma Quase Autobiografia” (2012)
“Fernando Pessoa, o Livro das Citações” (2013)
“Somente a Verdade” (2016)
“Aspectos Institucionais
da Comunidade Econômica Europeia” (1973)
“Informação e Poder” (1994)
“O Mel e o Fel” (1998)
“Aos Amigos Tudo” (2003)
“Tempos de Aprendizagem, Identidade Cidadã
e Organização da Educação Es” (2003)
“O Quase Fim de Serapião Filogônio” (2007)
“Adeus Penderama e Outras Escritos” (2008)
“Fernando Pessoa: uma Quase Autobiografia” (2012)
“Fernando Pessoa, o Livro das Citações” (2013)
“Somente a Verdade” (2016)
Lisboa. Início dos anos (19)70, na mais dura fase da Ditadura Militar (de 1964), comprei um pequeno veleiro e fui registrar na Capitania dos Portos (era, e continua sendo, obrigatório). O nome que escolhi foi “Ann’s Tear”. Traduzindo, a “Lágrima de Ana”. Só que lia-se Anistia. Para que da praia se pudesse vê-lo, todo branco, nas águas de um mar com mais fraternidade. Na véspera do registro, por precaução, fui conferir no dicionário. E só então percebi que “tear”, além de “lágrima”, também pode ser traduzido por “buraco”. Assim, dependendo de quem lesse, poderia ser “Lágrima de Ana” ou “Buraco de Ana”. Para evitar esse risco registrei só como “Ann’s Tia”. Mistura sem muita inspiração de inglês e português, a “Tia de Ana”. Mas, na praia, todos entendiam a mensagem. E apreciavam o navegar doce daquele Anistia.
Voltemos ao presente. Segundo o senador Eduardo Girão (Novo - CE), desde 1822, nossa História registra mais de oitenta anistias no Brasil. Entre elas de sequestradores, assaltantes e assassinos. Lembro de uma. O caso se deu de 2 a 4/12/1959, passando a ser conhecido como a Revolta de Aragarças. Uma tentativa de golpe feita por oficiais da Aeronáutica e do Exército para derrubar o governo JK. Foi quando tivemos o primeiro sequestro de avião no Brasil, um Constellation de Panair, que decolou do Santos Dumont (Rio) na direção de Manaus e sobrevoava Barreiros (na Bahia). Levava 46 pessoas (38 passageiros). A revolta deu em nada. Que nem a ONU, nem o Exército, nem a opinião pública, ninguém apoiou, levando os revoltosos a fugir para países vizinhos. Sufocado o movimento, mais tarde, JK tratou de providenciar anistia para os revoltosos. Nosso padrinho de casamento, encontrávamos com ele sempre em seu apartamento no Rio. E, um dia, conversei sobre esse episódio. Então relatou fato curioso. Disse que, quando foi assinar o documento da anistia, os cabelos de seu braço levantaram. Como o pelo dos gatos, quando têm medo. Como se fosse um prenúncio. Não assinou e devolveu a caneta à mesa. Os cabelos voltaram ao normal. Pegou de novo a caneta e, novamente, os cabelos levantaram. Era como uma antevisão do futuro.
Assinou, assim mesmo, por pressão dos amigos. Para poucos anos depois, logo ao início da Ditadura de 1964, ver seu mandato de Senador ser cassado e perder os direitos políticos (em 08/06/1964). Por mãos de alguns dos anistiados por ele, em Aragarças, que foram voz ativa nessa violência. Perguntei se estava arrependido de ter assinado a tal anistia, respondeu que não. Segundo ele, o Brasil precisava mesmo se reconciliar. Esse tema da anistia voltou a debate quando estávamos na Comissão Nacional da Verdade. Durante os trabalhos, discutimos a questão de punir os responsáveis por torturas, mortes e desaparecimentos forçados de 1964. Antes de seguir, bom lembrar que precederam no mundo, a nossa Comissão Nacional da Verdade brasileira, outras 40 comissões semelhantes. Mais notória sendo a da África do Sul, criada em 1994 por Nelson Mandela e sob direção de Desmond Tutu ‒ um arcebispo da Igreja Anglicana que foi prêmio Nobel da Paz dez anos antes.
E nenhuma dessas 40 comissões anteriores foi criada com o fim específico de fazer justiça. Ou de por, na cadeia, os responsáveis por torturas e mortes. A ideia era, basicamente, só recontar a história do que se passou; e, também, preparar as bases para uma transição menos traumática, em cada país, entre os horrores de antes e os novos tempos. Tanto que a já referida Comissão da África do Sul tinha só três subcomissões: violação a direitos, reparação e anistia. O que se buscava, sobretudo, era o conhecimento da verdade. Aquilo que aconteceu, de fato, naquele passado triste. Para quem confessasse o que fez, sendo garantida anistia automática. Valendo notar que não houve uma única prisão, no curso ou por conta (depois) de todas essas outras comissões, em nenhum país.
Com relação à anistia ampla e recíproca, concedida no Brasil aos dois lados naquele tempo (permitindo voltar ao Brasil Arraes, Brizola e outros), é comum dizer que a Lei da Anistia (nº 6.683) foi votada, em 28 de agosto de 1979, por pressão dos militares. Sobretudo para proteção deles próprios. Com certeza foi assim. Ocorre que houve outra Lei da Anistia, posterior no tempo, da qual pouco se fala. Como se nunca tivesse existido. Foi a única exigência feita pelos militares, nas negociações da transição. Para beneficiar os responsáveis pelo Rio Centro, que se deu na noite de 30 de abril de 1981. Posterior, portanto, à primeira lei (que é de 1979). Tancredo concordou. Por ser algo necessário, para o país. Morto, coube a Sarney honrar seu compromisso. O que foi feito com a Emenda Constitucional nº 26, de 27 de novembro de 1985 (art. 4º, com sete parágrafos). Votada por um Congresso livre de quaisquer pressões. O mesmo que elegeu Tancredo. Uma regra não apenas mais recente, no tempo, como também de nível superior ao das leis ordinárias, constando da própria Constituição.
Membros de nossa Comissão (menos eu) pretenderam recusar dita anistia, para que todos os responsáveis ainda vivos (bem poucos) fossem julgados, condenados e presos. Na votação das “Recomendações”, na Comissão Nacional da Verdade, votei a favor dela. Textualmente, assim ficou registrado: “Baseado nas mesmas razões que, em 29 de abril de 2010, levaram o Supremo Tribunal Federal, no julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 153, e com fundamento em cláusulas pétreas da Constituição brasileira, a recusar, por larga maioria (sete votos a dois), essa tese”. Em razão do que nenhum dos envolvidos, de parte a parte, poderá mais ser punido. A menos que o Supremo modifique seu entendimento. A reação da imprensa foi de amplo apoio a essa posição de reconhecer e validar a anistia. Com Editoriais de todos os grandes jornais do país, a favor. Essa minha posição, a favor da anistia, não é portanto nova. Vem de bem antes. O Brasil, hoje, é outro. Nossas prioridades, outras. Mas somos um país conturbado. E, sobretudo, precisamos de paz. Algo cada vez mais difícil de acontecer. Que o governo politiza a questão, como um meio de impedir que adversários sejam candidatos. E aqueles que deveriam responder por isso mais que todos, no Supremo, são os que mais promovem a radicalização e o confronto. Como se tivessem um ódio ancestral, no coração; sangue, nos olhos; e falta de qualquer piedade, roendo seus corpos. O que é muito ruim.
Por isso, amigo leitor, reitero aqui uma ideia simples. A de que num país fraturado, como o nosso, nada é mais importante, necessário e urgente, que promover a paz social entre os brasileiros. Com uma grande anistia. Política, claro, e não da roubalheira que hoje se espraia. Deixo aqui minha opinião. Cada um pense como quiser, tem direito, afinal vivemos numa Democracia. Será? Para encerrar, lembro poema recente (“Exílio”) do amigo português Manuel Alegre que diz:
Havia uma
casa.
Havia uma pátria.
Éramos vinte ou trinta nas margens do Sena
Onde o vento cantava
Uma canção estrangeira.
É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.
Havia uma pátria.
Éramos vinte ou trinta nas margens do Sena
Onde o vento cantava
Uma canção estrangeira.
É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.









.jpg)






Nenhum comentário:
Postar um comentário