março 09, 2026

..................................... Com GEORGES BERNANOS no BRASIL

 

 

 

A estada no Brasil não foi apenas um mero episódio
de minha singela vidinha, mas estava inscrita
desde sempre na trama de meu destino.
Amei o Brasil por uma série de razões,
mas em primeiro lugar, e antes de tudo,
porque eu nascera para amá-lo.
GEORGES BERNANOS
(carta a Raul Fernandes, 1946)
 
Fotografias:
RENÉ-JACQUES
(1908 – 2003. Phnom Penh / Camboja)

 
 
Foi em 1994, morando em Madri, que li pela primeira vez um de seus livros, “Sob o Sol de Satã, e a impressão que me ficou foi profunda e inesquecível. Escritor e jornalista francês, notório monarquista, cristão fervoroso e crítico da burguesia, ele é o autor das obras-primas “Diário de um Pároco de Aldeia” e “Sob o Céu de Satã”. O primeiro, que em 1951 seria filmado genialmente por Robert Bresson, acompanha em tom intimista a penosa trajetória de um jovem vigário, na condução de sua primeira paróquia em uma pequena cidade. Enquanto registra o seu martírio em cadernos escolares, luta contra a grave doença física que o acomete, bem como contra a enfermidade espiritual que contamina toda a população local: “Minha paróquia é devorada pelo tédio”, ele diz. Apelidado de “Dostoiévski francês”, por conta de sua habilidade em penetrar nos mais profundos recônditos da alma humana, GEORGES BERNANOS (1888 - 1948 / Paris, França) era uma metralhadora giratória contra as imposturas do mundo e um arauto do cristianismo devoto, intenso e espiritualmente exigente.

Desde jovem interessou-se por literatura, política e religião, demonstrando um temperamento firme e uma sensibilidade espiritual pouco comum. Estudou Direito e Letras, mas sua maior escola foi a própria vida — especialmente a experiência como soldado de trincheira na Primeira Guerra Mundial, de onde voltou inválido, usando muletas. A brutalidade do front e o sofrimento humano deixaram marcas profundas e se transformariam em matéria literária. GEORGES BERNANOS enxergava o mal como realidade concreta que só a graça de Deus pode vencer. Durante os anos 1930, envolveu-se com o jornalismo durante o início da Guerra Civil Espanhola, e escreveu artigos políticos nos quais denunciava tanto o niilismo moderno quanto os totalitarismos emergentes. Crítico severo do nazismo, do fascismo e também do republicanismo vazio de fé, a crença católica era o ponto de partida de sua visão de mundo. Para ele, a vida cristã envolve uma luta constante contra o mal — não só no plano social, mas no interior de cada pessoa. Essa convicção moldava seus personagens e suas tramas.

georges bernanos
Nos seus romances, a fé não aparece como pretexto ou pano de fundo, ela estrutura a narrativa e define os conflitos centrais.  Ao retratar padres doentes, fiéis humilhados e almas em crise, não romantiza a fé — ele a mostra em luta constante. Seus livros não oferecem escapismo, mas confronto: entre o pecado e a redenção, entre o desespero e a esperança, entre Deus e o Diabo. Não escrevia para oferecer consolo ou lições de moral, seu interesse fundamental era revelar o conflito espiritual que se trava dentro da alma, especialmente quando Deus parece ausente. Com sua prosa densa e cheia de tensão espiritual, GEORGES BERNANOS criou figuras que vivem à beira do abismo, sustentados por algo que não se vê, mas que transforma tudo. O cristianismo que atravessa sua obra não propõe alívio imediato, mas um embate real com o mal, o desespero e o silêncio de Deus. A partir de uma fé inquieta, denunciava a aliança entre catolicismo e mundanismo, questionava a superficialidade espiritual e se recusava a adaptar a fé a padrões confortáveis.
Para o escritor, a fé cristã só é verdadeira quando enfrenta a noite escura e permanece.


Em 1917 casou-se com Jeanne Talbert d’Arc, descendente em linha direta de um irmão de Joana d’Arc. Tiveram seis filhos entre 1918 e 1933: Chantal, Yves, Claude, Michel, Dominique, Jean-Loup. Sempre viveu na pobreza, porque o que ganhava era gasto em casa. Sua relação com o Brasil é curiosa e fértil. Em julho de 1938, sentindo vergonha diante da fraqueza dos políticos franceses contra a Alemanha de Hitler, decidiu por um exílio na América do Sul, embarcando no navio Flórida, em Marselha, a fim de cruzar o Atlântico em direção à América Latina. Inicialmente tencionava estabelecer-se no Paraguai ou na Argentina, mas acabou ficando no Brasil, onde chegou aos cinquenta anos de idade, acompanhado da mulher, dos seis filhos e de um sobrinho. Foi para Itaipava, no Rio de Janeiro. Acolhido com carinho e entusiasmo por um grupo de intelectuais que o admiravam e o auxiliaram, ele iniciou uma busca incerta que o levou dos hotéis cariocas a Vassouras, numa choupana próxima à fazendola onde moraram, onde GEORGE BERNANOS escreveu avidamente, num caderninho escolar, enviando seus textos a seguir para publicação na França.

O Brasil de 1938 vivia o Estado Novo. Implantado autoritariamente, o golpe getulista fora visto de certa forma como inevitável, e o Congresso dissolvido submetera-se com pouca resistência. Após um breve período de afinidade ideológica com a Alemanha de Hitler, o regime de Getúlio Vargas se distância do nazifascismo logo após a eclosão da Segunda Guerra, aproximando-se da Aliança e dos Estados Unidos. É neste contexto político que as terras brasileiras acolhem GEORGES BERNANOS, na esteira de homens notáveis como Paul Claudel e Blaise Cendrars, que tiveram também sua experiência brasileira. Ele morou em Pirapora, nas profundezas de Minas Gerais, passando por Juiz de Fora, antes de se estabelecer, em agosto de 1940, em Barbacena, na icônica fazenda Cruz das Almas, onde atualmente funciona o museu reunindo acervo fotográfico e mobiliário de seu ilustre morador.  Em Barbacena, o escritor se viu livre para pensar, escrever e, sobretudo, falar horas a fio sem constrangimentos sobre política, liberdade e literatura. Essa fase foi muito bem retratada por Sébastien Lapaque no excelente 
“Sob o Sol do Exílio: Georges Bernanos no Brasil (1938 - 1945)”.

a fazenda cruz das almas
Disse ele, em carta ao editor Joaquim de Salles:
“Comprei duzentas vacas, e ganhei de imediato o direito de não me chamar mais de ‘homem de letras’, mas vaqueiro, o que me parece preferível. Como homem de letras e homem do mundo, eu estava preso em um monte de necessidades supérfluas; como vaqueiro, poderei escrever o que penso”. Nesta residência, escreveu obras importantes, essencialmente escritos de luta, mas também diários e correspondência — como “Les Enfants Humiliés”, “Lettre aux Anglais”, “Le Chemin de la Croix-des-Ames” e “A França Contra os Robôs”, e terminou o romance “Senhor Ouine”. No local, recebeu, entre outros, o escritor austríaco Stefan Zweig. Três ou quatro dias depois dessa visita soube do seu suicídio e chorou. Profundamente impressionado, ele que tentou reconfortá-lo, sentiu-se derrotado.  Sob os trópicos, GEORGES BERNANOS teve momentos de esperança e instantes de abandono, gargalhadas e gritos de raiva, desencontros e partidas precipitadas. Mas ele nunca reclamou dessa confusão de sentimentos explosivos e humores inesperados.

Viveu no Brasil entre 1938 e 1945, encontrando não só amizade entre os intelectuais da época, mas também entre os humildes. Ele influenciou uma série de escritores brasileiros e descreveu o país com afeto. Um Brasil
“vivo, imaginativo e emocionalmente sadio”, distante da industrialização europeia que criticava A propriedade em Barbacena representou para o escritor estabilidade e um certo equilíbrio. Enquanto sua filha Claude administrava a fazenda, ele pelejava na mídia internacional e nos jornais brasileiros, opinando regularmente, a partir de junho de 1940, em “O Jornal”, um dos órgãos dos “Diários Associados” pertencentes à Assis Chateaubriand. De maio de 1940 a maio de 1945, redige mais de trezentos artigos ou mensagens radiofônicas. Figura complicadíssima, dominada pelo travo profundo da amargura, ele desandava a falar alto, apaixonadamente, como escrevia, os olhos azuis chamejantes, num monólogo poucas vezes interrompido. Inconformado, só a sua escrita lhe dava oportunidade para fugir deste mundo e abrigar-se dentro de si mesmo.

Crítico mordaz, decepcionado e desconfiado, não era afeito às concessões. Conhecido por seu temperamento forte e engajamento político antitotalitário, naqueles tempos conturbados GEORGES BERNANOS se destacava com seu verbo potente e libertário, tanto junto a intelectuais opostos à ditadura de Getúlio Vargas, quase sempre francófilos e hostis às forças do Eixo, quanto junto à parcela da colônia francesa que não se resignando ao regime de Vichy às vezes ainda permanecia, por causa do estatuto, presa a uma certa reserva. Ele teceu sólidas amizades no Brasil, encontrando verdadeira comunhão de espírito. Entre os mais próximos, teve apoio de escritores e intelectuais que não mediram esforços para lhe resultar em um espaço confortável de vida e de expressão: Virgílio de Mello Franco, Raul Fernandes, Geraldo França de Lima, Maria Magdalena Ribeiro de Oliveira, Osvaldo Aranha e tantas outras personalidades. Tinha por Osvaldo Aranha um grande respeito, uma admiração sem restrições, apontava-o como das maiores inteligências que conhecera em toda a sua vida.

O querido exilado francês teve também como amigos Pedro Octávio Carneiro da Cunha, Edgar de Godoy de Mata Machado, tradutor de
“Diário de um Pároco de Aldeia”; a crítica Lucia Miguel Pereira, que por algum tempo traduziu seus artigos; e seu editor no Rio de Janeiro, Charles Ofaire (Atlântica editora); Augusto Frederico Schmidt, Jorge de Lima (cuja tradução espanhola de “Poemas” é prefaciada por GEORGES BERNANOS), Alceu Amoroso Lima, Austregésilo de Athayde, Álvaro Lins, Hélio Pellegrino e Murilo Mendes. Nessa terra de esperança que parecia ser o Brasil, o sofrimento é a palavra que mais jorrou no manancial do romancista. O escritor, que era monarquista e travou amizade, em Petrópolis, com o remanescente da família imperial brasileira, conheceu um país de cultura profunda e pujante. Leitor de inúmeros livros brasileiros, confessou um fraco por dois dentre eles: “Memórias de um Sargento de Milícias” (1854), de Manuel Antônio de Almeida; e “Minha Vida de Menina” (1942), de Helena Morley, que tem como cenário Minas Gerais do fim do século XIX. Também prezava os livros de Lima Barreto.

De qualquer forma, por razões políticas e morais, ele buscava no Brasil uma passagem para um mundo novo, para o inesperado, quiçá a terra prometida. Não há medidas para avaliar a influência da simplicidade de vaqueiro, do cheiro do campo, da solidão mineira na sua obra. Porém é inegável que, aos pés da cruz de madeira no alto da colina em Barbacena, o escritor depositou um pouco de sua alma. No fim da Segunda Guerra Mundial, recebeu telegrama do ex-primeiro ministro general Charles de Gaulle. O recado era curto:
“Seu lugar está aqui, na França”. Concordou e se foi somente porque De Gaulle pediu, mas amava sinceramente o Brasil e não desejava sair daqui. De lá manteve correspondência com os escritores brasileiros até morrer, quando uma delegação brasileira foi enviada para o funeral. Na França, recusou títulos e o convite para ser ministro da Educação. Não combinava com sua personalidade. Numa triste coincidência, morreu como o protagonista de “Diário de um Pároco de Aldeia”, vitimado por um câncer, em 1948, três anos após seu retorno.

Reconhecido como um dos grandes romancistas franceses do século XX, GEORGES BERNANOS alcança leitores que buscam compreender dilemas espirituais. Albert Camus chegou a saudá-lo como um dos poucos que souberam escrever sobre o mal com seriedade.  Ele é estudado em universidades, citado em debates sobre literatura existencial e reconhecido por sua capacidade de articular sofrimento, liberdade e transcendência com profundidade. Seus livros foram traduzidos para muitas línguas e permanecem em catálogo ao redor do mundo. Com personagens que vivem sob tensão constante, não apenas com o mundo, mas com o próprio coração. De prosa lírica, mas nunca decorativa, usa longos monólogos interiores, alternando com diálogos tensos e descrições que mergulham fundo na consciência das personagens. Cada frase carrega peso. Assim como sua vida, que foi marcada por um compromisso com a fé, a justiça e a literatura. Seu trabalho, reflexo de pensamentos e emoções profundas, inspira e influencia inúmeros leitores e escritores.


Os LIVROS de GEORGES BERNANOS que LI
 
A ALEGRIA
(La Joie, 1929)
 
DIÁLOGO das CARMELITAS
(Dialogues des Carmélites, 1949)
 
DIÁRIO de um PÁROCO de ALDEIA
(Journal d’un Curé de Campagne, 1936)
 
Os GRANDES CEMITÉRIOS SOB a LUA
(Les Grands Cimetières sous la Lune, 1938)
 
A IMPOSTURA
(L’Imposture, 1927)
 
LIBERDADE, PARA QUÊ?
(La Liberté, pour quoi Faire? 1946)
 
SENHOR OUINE
(Monsieur Ouine, 1943)
 
MOUCHETTE
(Nouvelle Histoire de Mouchette, 1937)
 
SOB o SOL de SATÃ
(Sous le Soleil de Satan, 1926)
 
Um CRIME
(Un Crime, 1935)
 
Um SONHO RUIM
(Un Mauvais Rêve, 1934)
 

DEZ FRASES MARCANTES de BERNANOS
 
    “Sou responsável por aquilo que não fui.”
 
“Tudo é graça.”
 
    “A esperança é o desespero superado.”
 
    “Um santo pode parecer louco…
mas é porque ele vê o que os outros não veem.”
 
“A esperança é uma memória que deseja.”
 
“As pequenas coisas parecem insignificantes, mas dão-nos a paz.”
 
“O pessimista é um otimista bem-informado.”
 
“Os verdadeiros amigos são aqueles que nos criticam abertamente.”
 
“A graça é, de todas as forças, a mais forte,
porque não conhece obstáculos.”
 
“Quem tem medo de sofrer, sofre de medo.”

 

FONTES
“Bernanos no Brasil: Testemunhos Vividos” (1968)
de Hubert Sarrazin
 
“Georges Bernanos: a Bibliography”
(1974)
de Robert Speaight
 
“Georges Bernanos: la Colère et la Grâce”
(2021)
de François Angelier
 
“Bernanos sous le Soleil du Sertão: la Transfiguration du Pire”
(2007)
de Yves Baudelle
 
“Sob o Sol do Exílio - Georges Bernanos
no Brasil (1938 - 1945)”
(2004)
de Sébastien Lapaque
 

É verdade que a cólera dos imbecis
inunda o mundo todo. Ela não poupará ninguém,
é incapaz de perdoar. Nem os doutrinários de direita
ou de esquerda, nem suas paixões
nem sua ideologia particular.
GEORGES BERNANOS
“Os Grandes Cemitérios sob a Lua”