março 29, 2020

............................. ENTRE o AMOR e o TEMPO: LUPE & MORVAN




 
O futuro só nasce de um invento:
nós dois, amor, nós somos este tempo.

Olhando dentro de mim,
de dentro da natureza,
eu a refaço - e invento a beleza.


VERSOS de LUPE COTRIM
(1933 - 1970. São Paulo / SP)
 
FOTOGRAFIAS de MORVAN FRANÇA
(1987 – 2016. Belo Horizonte / Minas Gerais)


01

A saudade é o limite da presença,
estar em nós daquilo que é distante,
desejo de tocar que apenas pensa,
contorno doloroso do que era antes.

Saudade é um ser sozinho descontente
um amor contraído, não rendido,
um passado insistindo em ser presente
e a mágoa de perder no pertencido.

02

Os pés retidos, imóveis,
pelos choques de atração
com a alma paralisada
contendo tanta largueza
e aspectos de vastidão.

Por que ter tantos sentidos,
o sentimento tão apto
e o coração vulnerável?

03

— Eu sou de pedra, me dizias,
a defender tua distância.

E esquecias o musgo,
essa tua epiderme de ternura,
e o teu corpo de carinhos,
num horizonte de água e terra,
a te envolver na vida.

04

E esquecias
que és pouso de borboletas,
alicerce de flores,
abraço de raízes,
vulnerável em tudo
do que em ti pertence
e minha mão possui, acaricia.

05

Pela terra em que não me desfiguro,
hei de surgir um dia em cristal puro.

06

Meu corpo — para ti somente —
deve emergir a cada gesto límpido
e profundo deve ser meu futuro
para reter-te e recriar-te permanente.

07

E por isso temo. No meu sentimento
sofro por ti. Receio
ser larga a hesitação de meu caminho,
ser um mito a conquista da montanha,
ser pobre e fugaz o meu espaço
na extensão que reduz teu infinito.

08

No corpo prosseguimos
onde o amor parava.
E inventamos. Sem palavras
tornamos nossa a carne da manhã,
a exaurir o tempo, sem fidelidade
alguma, no dia imprevisível,
além do nosso invento.

09

É o tempo meu receio, não o amor,
que este perdura. Por novos desígnios
refaz em outro aquilo que não for
mais seu momento: trama outro domínio.

10

Esta brisa entre nós, este sossego
agudo de desejo, esta presença
alerta, esta carne toda apego
certo se apagam: tempo algum sustenta
ou seduz uma solta intensidade.

11

Se entre nós cada folha de silêncio
for linguagem dos gestos desprendidos
e em clareiras tombar cada momento
o que outrora foi verde e preenchido,
segurarei na queda tua imagem.  
 
12

porque entre raiz e folha
o animal salta,
elástico, e desconheço
liberdade tão alta;

13

a solidão é o rosto da humanidade
a terra é voo, o céu se reaproxima,
e em tudo estou presente, simultâneo,
o horizonte a meus pés,
como um riacho doce.

14

corpo de estrela, impulso de planície,
a morte é apenas uma flor
vermelha, que passa no vento,
o amor se desvenda nas colheitas,
rostos anônimos surgem
dos troncos de cimento

15

Dentro da paisagem
cortada de pássaros
um voo se cala

16

Num grito gutural,
agudo como soluço do mundo,
o súbito apelo da solidão,
no corpo prolongado
de plumas e surpresas.

17

No ar suspensa
teia tecendo
seu íntimo movimento.

18

um gesto distraído e delicado,
no instante em que criava o verme
e sonhava a estrela.

19

Coreografia aérea,
sedoso equilíbrio
subindo da terra.

20

Fios prateados
que o olhar desenha
sem poder caminhar.
 
21

para criar um novo chão
entre a altura
e a solidão.

22

Viverá como vivo.
O tempo e seu assalto
não nos caberá
fora desse pacto
sonoro e terrível;
a morte é o que não falo.

23

Seduzidos pela brisa
mergulhamos na poeira dourada
e nos azuis incontáveis:
mas rompe-se entre os olhos
uma miséria sem trégua
- essa é a nossa treva.

24

A beleza se aconchega
madura e esplêndida
no umbral dos solares,
é ela quem nos vê
altiva e derradeira.
 
25

Se morre por outros rumos
aquém e além do dizer
e do poeta é a sina
não viver só de palavra
mas do chão, da cerca, da água
onde germina em silêncio
o que desabrocha a fala.

26

Se vive com fome e sede
com amor estilhaçado
analfabeto, amarrado,
com chumbo dentro do ventre
sem sexo, luz, alvorada,
um homem vive de pouco
resiste às vezes de nada.

27

Hei de inventar amor num desafio
às mais concretas frases, aos dias úteis,
amor de ser a outro que é demais
ter um mundo por dentro desprovido.

28
 
Todo poeta é uma flor que permanece
espada aérea e franca
contra a morte

Todo poeta é uma cor que permanece
no olhar sobrevivente
e na luz das manhãs que voltam sempre

29

Também de dor se morre pois é morte
o sentimento ausente. O ser feliz
é ser presente, sem que mais importe
esse profundo sulco e a cicatriz
que no corpo nos marca o sofrimento.

30

Se nenhum amor me resguardar
em seu abraço
a dar-me sensação
de que possuo e pertenço
quero pegar a vida
palmo a palmo,
traço a traço,
num dia esfuziante de azul
com o mar na boca e nos braços.

31

Quando eu morrer,
se morrer,
eu que renasço a cada momento,
criando íntimos laços
por toda natureza,
eu que perduro no eterno
da intensidade,
quero morrer assim:
os olhos na distância
do entendimento
e o corpo penetrando na beleza,
passo a passo.
Meu fim transformado em luz
dentro de mim.

32

Ser transparente
é quase um suicídio,
um transbordar de si
perdido, ir a outro de nós
que nos retém, apagado
o sentido.

33

Um poeta suicida
anunciou vento adentro
- o romantismo acabou.
O que estava por detrás
lá nos fundos da poesia
é que mata. E o matou.
 
TODA a OBRA de LUPE COTRIM

 
RAIZ COMUM (1955)

MONÓLOGOS do AFETO (1956)

ENTRE a FLOR e o TEMPO (1961)

CÂNTICO da TERRA (1963)

O POETA e o MUNDO (1964)

INVENTOS (1968)

POEMAS ao OUTRO (1970)

ENCONTRO (1984, antologia)


LEIA sobre MORVAN

A ALQUIMIA FOTOGRÁFICA de MORVAN


INTERLÚDIO - 29 vezes MORVAN

ANATOMIA da AUSÊNCIA

MORVAN em fotos minhas


Eu e Morvan em 2014


março 09, 2020

....................................... CRÔNICAS da FLORESTA NEGRA 04




 
É pelas nossas ambições que a vida nos domina e castiga. 
Só os abandonados e os que renunciaram a tudo 
podem considerar-se livres e serenos.
ALBERTO MORAVIA
(1907 - 1990. Roma / Itália)
 A Romana (1947)

Ilustrações:
MOEBIUS
(1938 - 2012. Nogent-sur-Marne / França)


Durante três meses, em 2005, viajei de trem e carona, sem pouso certo. Semanas na Alemanha, Itália e Áustria, principalmente na Floresta Negra germânica e na Toscana.

Escrevi o que vi, senti e imaginei, resultando no livro inédito CRÔNICAS da FLORESTA NEGRA. Terminei por perdê-lo. Recentemente encontrei uma cópia em uma velha pasta. Uma belíssima surpresa.

São seis crônicas, uma dezena de poemas e um único ensaio: “Investigação de um Poeta Acima de Qualquer Suspeita: Rilke no Castelo de Duíno”. Pretendo publicá-los neste blog.

Confira a quarta narrativa.

04
La GIORNATA D´UNO INESISTENTE

Viajando pelas verdes montanhas do fim do mundo, por vezes não me encontro. Se ao menos eu tivesse a certeza de que há esperança em qualquer lugar. Mas não desisto, vou em frente. Alemanha, Áustria, Itália. Irmão beat, aqui estou! De carona, comboios de terceira classe, ônibus, sutilezas. Dormindo na relva de bosques e jardins, campings, pensões baratas e castelos invisíveis. De súbito, amanhece mais um dia no verão europeu. Abro os olhos sonolentos ao lado de um monumento em homenagem aos mortos da Segunda Guerra, lendo um por um os sobrenomes em relevo. Um despertar cara a cara com o heroísmo, o patriotismo e a estupidez das guerras. Para viver, jovens partem para a batalha agasalhados no medo. Buscam a eternidade e acabam como cadáveres. Que tolos! Mais sensato seria ri dos interesses sem escrúpulos dos governantes. 
 
A simpática vila nas montanhas chama-se Pievepalago. Será um reduto de gente que combate a indolência e o torpor com o calor humano? Nem tanto. Depois de beber lentamente um capuccino, dou uma volta pelas redondezas e coloco outra vez o pé na estrada, sem deixar de anotar aventuras no “Diário”: uma inusitada carona ao entardecer, numa furgoneta vermelha conduzida por um alemão e com um rastafari espanhol como co-piloto, além de meia-dúzia de cães. Uma dupla irrequieta, ouvintes de minimalistas melodias de flautas oníricas. Estão a caminho da Turquia. Mas como dizia um ditador italiano, muito a propósito em certos casos: “Entre o dito e o feito, há uma distância do tamanho do mar”.

No interior do carro fedorento, restos de comida, mochilas, tocos de cigarros, conchas, caixas de cd’s e anúncios de festivais de música. Recordaram uma brasileira chamada Joana, parceira de viagem durante alguns dias. “Os brasileiros são interessantes. Misturam dinamismo, sensualidade e espiritualidade na seu ser, nos deixando hipnotizados”, definiu o garoto germânico. Ao me ver folheando “Se uma Noite de Inverno um Viajante / Se una Notte d’Inverno un Viaggiatore” (1979), de Italo Calvino, revelou-me a profissão e as “qualidades” do seu pai: “Ele é um famoso e talentoso escritor”. Qual o seu nome? Não respondeu, rindo, misterioso. Será que viajei com o filho de Peter Handke ou do Gunther Grass? Após 12km, saltei na primeira cidadezinha com algum mérito, embora qualquer vilarejo com quatro ou cinco casas já me pareça fascinante.
 
Em Modena, visitando um amigo ator, surpreendeu-me a beleza, a cultura e a tranquilidade pouco turística do lugar, passando horas na Piazza Grande, fascinado com o Duomo e a Torre Ghirlandina. Uma cidade protegida pela sacra La Boníssima, um ícone medieval, que leva uma das mãos no coração. Já Milão é diferente, opressora e sofisticada. Faz parte da Europa atraente e aflitiva. Percebi uma fortaleza de altivez, de orgulho e frieza. Seus habitantes demonstram rara ternura, movidos por um ideal, um entendimento. Perderam a alma no dinheiro e na desconfiança. Procuro não me deixar levar aos extremos: nem niilismo nem fenômenos.

Recordo uma passeata neo-nazista, este ano, em pleno centro histórico de Lisboa, divulgada com benevolência pela imprensa. Muitos não suportam os imigrantes, o mundo diferente que se descortina. Ainda assim trocam palavras de cortesia, proferidas com brevidade, de modo conciso, para não dizer hipócrita. Nada fazem para se aproximar do estrangeiro, pouco se esforçando para compreendê-lo. As recordações prendem-se em experiências simples, de pouca importância, fincadas na suavidade. Nada de rancor ou comentários autoritários! Procuro a palavra moderada, de toada pertinente. Não ofendendo será mais fácil não ser ofendido. 
 
Viajo em rostos nada familiares, figuras que poderiam ter sido inventadas por Gianluigi Toccafondo, um discípulo de Bacon. Às vezes vejo-os como minúsculos espelhos num globo giratório. Não viajo para bancar o importante. Não enxergo as paisagens, as pessoas, os costumes e a gastronomia dos países de acordo com os padrões da minha própria pátria. Seria irracional, mal-educado. Viajo na beleza do ato de viajar, crendo no entusiasmo que é capaz de despertar e aprendendo com motivações privadas. São os meus singelos segredos da arte de viajar.

Caminho por um destino inevitável pintado por um renascentista. Inexistente, confirmo o impalpável ao notar que tenho lido muito pouco nesses dias, quase nada, vez ou outra o jornal “Corriere della Sera”. No entanto, a história da literatura italiana se aprofunda em mim há muitos anos, da poesia a prosa, desde as primeiras finuras verbais aos mais recentes autores contemporâneos: Dante, Petrarca, Boccaccio, Luigi Pirandello, Ungaretti, Vasco Pratolini, Giorgio Bassani. O conto “O Amante Abandonado”, de Alberto Moravia, que ensaia um diálogo interior do qual o leitor raramente emerge absolvido, é um tesouro literário. Pier Paolo Pasolini, arauto do bem e do mal, autor de “Uma Vida Violenta / Una Vita Violenta” (1956) é um dos meus mestres. 
 
Camillo Boito toca fundo com a pequena novela “Sedução da Carne / Senso” (1883), assim como Alessandro Baricco me emocionou com “Seda / Seta” (1996). A escrita de Italo Calvino desliza sensações, luminâncias. Primo Levi, Dino Buzzati, Leonardo Sciasca e Antonio Tabucchi são válidos. Umberto Eco? Um intelectual chato, mas há quem considere “O Nome da Rosa / Il Nome della Rosa” (1980) uma obra ilustre. Para focar a sensibilidade da literatura italiana necessitaríamos de uma perspectiva do qual se visualize a realidade. E qualquer realidade é diversa. Esta é a grandeza e o limite: aspirar a realidade implica encontrar privilégios, iluminá-los em uma certa luz e não em outra.

A caminho de Triste e Veneza, recordo cidades toscanas (Florença, Siena, Lucca, Vinci, Pisa), seus arredores dedicados ao cultivo de videiras e oliveiras, convertidos em lugares indicados para aqueles que buscam a tranquilidade mais absoluta sem renunciar ao prazer de se enamorar por uma beleza isenta de dores e frustrações. Desfruto desse paraíso. Amante da história, estive em vilas onde as marcas dos etruscos perduram. Em Talamone, próxima ao Parque Nacional de Uccellina, restos arqueológicos desta civilização e vestígios medievais.

Uma aventura que desperta entusiasmo na minha curiosidade por terras desconhecidas, cuja essência nunca me é indiferente. Sempre fugindo de turistas, hotéis internacionais, elementos folclóricos e da falta de bom senso, viajo ao acaso, maravilhado. Afinal um dia, assim espero, envelhecerei. Depois morrerei. Sendo feliz, mesmo por instantes, a trajetória cigana vale a pena. E sou feliz agora.

Milão, Itália
agosto de 2005

CONFIRA as CRÔNICAS ANTERIORES

01
RELÂMPAGOS RASGANDO a NOITE
http://cinzasdiamantes.blogspot.com/2018/06/como-um-relampago-rasgando-noite.html

02
A ENCRUZILHADA dos DESTINOS
http://cinzasdiamantes.blogspot.com/2019/01/cronicas-da-floresta-negra-02.html

03
O CHAPÉU MÁGICO
http://cinzasdiamantes.blogspot.com/2019/12/cronicas-da-floresta-negra-03_9.html

 
 
 
 
 
  
 
 
 
 
 
 
 

fevereiro 21, 2020

....................................................................................................... Os PÁSSAROS




Ilustração: ERIC PAUTZ
(1974. Porto Alegre / Rio Grande do Sul)


Em céu dourado de entardecer, pássaros seguem rumo ao horizonte voando em formação semelhante a um arco. Apelo irresistível atrai esses migrantes, que partem em busca da sobrevivência tão logo se manifestam os sinais de escassez de alimento e de mudanças no clima. Ainda que correndo riscos extraordinários e despendendo alto custo energético, se põem a caminho quando é chegado o momento. Não incomodam, não desacatam, não resistem, não agridem. Harmoniosos e obedientes ao instinto batem em retirada sem nos darmos conta de sua partida. Desde a antiguidade, o aparecimento e o desaparecimento de pássaros deixam os naturalistas inquietos. Informações na anilha – um anel metálico colocado em espécies, auxiliando no rastreamento – revelaram, por exemplo, que uma batuíra abatida por um caçador em São Paulo saíra de Washington, D.C.. Falcões peregrinos voaram da Groenlândia à capital paulista, enquanto um filhote de albatroz, anilhado em ilha na Nova Zelândia, morreria a 6 km ao sul de Tramandaí, no Rio Grande do Sul.
 
Migrantes rumo ao desconhecido, nossa peregrinação não é majestosa como a dos pássaros. Distraímos-nos pela caminhada, perdidos em conflitos. Em compulsão, aceleramos o carro para ver o pedestre que atravessa a rua se assustar e correr. Desprezamos os velhos, aniquilamos o habitat e abatemos parceiros de migração. Em nome do egoísmo e de toscas ambições, nos deixamos levar por uma espécie de instinto bárbaro e individualista. Se por um lado, a ausência que dói é a que nos deixa incompletos, por outro insistimos em preencher o vazio com a estupidez das ambições.

Inflados pela expansão avassaladora do ego, somos levados a crer que a vida só vale a pena se chegarmos à fama e riqueza, vencedores de uma corrida onde ganham os que furam filas, os que praticam a rapinagem com o dinheiro público, os que manipulam covardemente a boa fé de seus iguais. Por isso tão poucos gastam o tempo a perder com a bondade. Solidariedade, só negociada. Pobres de nós, solitários migrantes para quem o nomadismo é o outro nome da liberdade. Ruidosos e desengonçados, seguimos agitando asas feitas de ilusão, fincando nossa bandeira como donos da História.

Já os pássaros deixam a impressão de que a natureza os privilegiou com sabedoria e simplicidade. Um terço das espécies catalogadas bate em retirada a cada ano e, destas, metade morre no caminho ou permanece no exílio, enquanto a outra metade retorna ao local de origem. Missão cumprida, a vida se renova. Quanto aos sonhos, também eles os tem, encantadoramente singelos. Segundo a revista “Science”, pesquisadores de Chicago concluíram que os pássaros sonham com seus cantos.

Talvez mais do que em qualquer outra época, estamos deixando marcas que ferem a Terra. Ainda assim, continuamos inchados de orgulho, como um dos personagens de Saint-Exupéry. De tanto olharmos para o céu, contabilizamos centenas de planetas fora do Sistema Solar, supondo a existência de outros mundos habitáveis. Acaso voltássemos no caminho percorrido descobriríamos, envergonhados, que apenas deixamos um rastro de infâmias. Se houvesse solidariedade pelo que nos foi dado, poderíamos, quiçá, voar suavemente como os pássaros, legando ao futuro a mensagem de um mundo melhor.


janeiro 26, 2020

.................................................................................................ASSOMBRAÇÕES





Fotografias: 
MORVAN FRANÇA
(1987 – 2016. Belo Horizonte / Minas Gerais)


Dotado de uma “independência criativa muito acima do comum”, na análise de Assis Brasil. IVAN ÂNGELO (1936. Barbacena / MG) começou a escrever em 1954 e logo foi premiado num concurso da Prefeitura de Belo Horizonte com o conto “Culpado sem Crime”. Em 1966, reuniu contos, e, numa parceria com Silviano Santiago, lançou “Duas Faces” e faturou o prêmio Cidade de Belo Horizonte. O livro reflete a questão da injustiça social, uma constante em toda sua obra. “A Festa” (1975) e “Amor?” (1995) receberam o Prêmio Jabuti, concedido pela Câmara Brasileira do Livro. Foi colunista dos jornais “Correio de Minas”, “Diário de Minas” e “O Tempo”, de Belo Horizonte. Duas vezes premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, pelo livro de contos “A Face Horrível” (1986) e pelo romance juvenil “Pode me Beijar se Quiser” (1997). Teve livros publicados em inglês, francês, alemão e espanhol. Cronista da revista “Veja” de 1999 a 2018. Dono de um texto exemplar, sua narrativa atrai o leitor, prende-no desde a primeira frase e só o liberta na última linha. Casos bem-humorados e outros nem tanto, retratos de tipos humanos, relações amorosas, cenas urbanas, crítica social e de costumes, alguma poesia. Um assunto puxa o outro, e o que emerge desse conjunto é um panorama muito pessoal da vida brasileira. Seu lançamento mais recente é um livro de crônicas: “Certos Homens” (2012).

A CRÔNICA: “ASSOMBRAÇÕES”
 
Existe amores que já morreram há muito tempo mas de vez em quando aparecem, como uma assombração. Não, não falo de assombrações que voltam para seduzir, como a moça-fantasma de Belo Horizonte poetizada por Carlos Drummond de Andrade; ou voltam para apimentar uma vida que ficou insossa, como o Vadinho de Jorge Amado faz com dona Flô. Não. Estas, diz o ditado, sabem para quem devem aparecer, ou seja: só aparecem com a ajuda daqueles para quem aparecem. Falo de outras, que fazem uma visita breve, uma aparição, e somem, de improviso, sem arrepiar ninguém. 

Às vezes esses amores nem se mostram inteiros. Surge uma boca, um seio, uma pele, um andar, uma risada. Quando se presta atenção, a figura desaparece: era assombração. O fantasma antigo pode aparecer de repente no meio de uma leitura, ao escovarmos os dentes e até na hora do amor. A gente pode estar conversando, discutindo um negócio, um filme, uma jogada, e se intromete aquele olhar. Pode estar dirigindo um carro e a mão que repousa hoje em nossa perna tem o mesmo peso de alguma do passado e aí vem o fantasma sem-que-fazer e puxa conversa. 

Não é saudade, não é nada: é intromissão. A figura surge concreta, sensível, do mesmo como nos vem um gosto de doce de abacaxi ou uma chinelada da mãe. Quem governa fantasma? Quem chama? Ninguém, é ele mesmo quem se convida. Não tem nada a ver com aquela coisa de telenovela, aqueles dramas de folhetim em que se comenta: ele ainda gosta dela, não tira essa mulher da cabeça, até hoje é apaixonado por ela etc. Nada disso. É pura assombração, que irrompe de repente na hora própria ou imprópria, independentemente de vontade ou convite. Ora uma, ora outra, faz sua visita-relâmpago, muda ou falante, e some. 

Que dizem? Cada visitado recebe seu recado conforme gravou. Uma confessa trêmula, temerosa de desamor:
“Não sou mais virgem” - quando isso tinha importância. Outra, espantada com as descobertas: “Eu não acho que ia gostar tanto disso”. Outra, cobrando: “Você não assume”. Outra, no escuro: “Quem é você?” Amores de outro mundo não se sentem obrigados a diálogo, dão seu recado e vão. Ou nem dão, só se mostram.
 
Alguns perdem a visagem e nos assaltam só com uma sensação, um nome, umas covinhas, tranças negras. Não têm mais aparência corpórea. Será que morreram na vida real? Desvaneceram-se no tempo, frágeis como velhas cartas que se esfarelam, como madeira sem lei. Nem por isso menos reais em sua fantasmice, menos carentes de sentido que não a própria visita inesperada. 

De maneira nenhuma perturbam o amor em curso, nem é essa sua intenção, se é que aparições têm algum propósito. O amor em curso é feito de beijo e resposta - e segue intocado por essas intromissões. Também não se pode dizer: são desejos, frustrações. Não. Tiveram, no seu tempo, beijo e resposta. Nada ficou por explorar, quando seus corpos eram matéria propícia. Foram generosas no dar, alegres no receber: tiveram fartura. Não vagam por aí à procura, estão satisfeitas no seu canto.
 
Nem se pode dizer: são visitas malfazejas. Pelo contrário, são cordiais! São borboletas: passam, enfeitam o instante com algumas cores, voejam e partem. Se deixam alguma coisa, é um sorriso na alma do visitado.





A OBRA de IVAN ÂNGELO

HOMEM SOFRENDO no QUARTO (1959)
DUAS FACES (1966)
A FESTA (1975)
A CASA de VIDRO (1979)
A FACE HORRÍVEL (1986)
O LADRÃO de SONHOS e OUTRAS HISTÓRIAS (1994)
AMOR? (1995)
PODE me BEIJAR se QUISER (1997)
O VESTIDO LUMINOSO da PRINCESA (1998)
O COMPRADOR de AVENTURAS e OUTRAS CRÔNICAS (2000)
AS MELHORES CRÔNICAS de IVAN ÂNGELO (2007)
CERTOS HOMENS (2012)

O PENSAMENTO de IVAN ÂNGELO

“Essa é nossa maldição como escritores: exorcistas dos demônios de nosso grupo social... Por haver entendido, afinal, que a escritura me faz escrever...Os brasileiros escrevem para compreender seu país e nisso estão atrasados em relação aos americanos de língua espanhola, que já passaram dessa fase. Escrevem para explicar, para contar. Compreender o Brasil não é fácil, mas é menos difícil do que explicá-lo”

“Tem que pensar numa história, numa intriga, tem que inventar. Podem ser flashes, alguma coisa que pinta, um olhar que você tem com alguma pessoa. Todo mundo põe recordações nas histórias, não conheço um autor que não coloque. Digamos que, dependendo do que você escreve, 50% são emoções que você viveu. Pego um personagem central, num conflito que se desenvolve ao longo de todo o livro, e faço a história pronta e acabada. Você tem um fio condutor e o resto tem que inventar, criar (os personagens). Surgem talvez de pessoas que conheço, de comportamentos que quero denunciar, ir contra ou a favor. São idealizações dentro do aspecto geral da sociedade. Como faço uma literatura um pouco crítica da sociedade, procuro detectar esses comportamentos em pessoas, anoto, e a partir daí vou desenvolvendo. Cada personagem é um envolvimento total, mesmo que seja de ódio. Já cheguei a pensar: ‘o que seria bom para tornar tal personagem mais condenável, mais antipático?’. Para isso tenho que pensar como aquilo me ofenderia, é também uma forma espelhada de procurar os personagens. (...) Muitas vezes (a narrativa) dá nó. Às vezes paro no meio do processo, não engata, não vai. De repente você vai, vai e muda o processo. O principal são os personagens centrais, isso faz parte do conflito. Os outros vão surgindo e o que for necessário aparece. A cabeça do escritor dá muitas voltas. São armadilhas que o texto mesmo prepara pra gente e aí, tem que parar”.

“Posso enumerar dessa época um mestre da vida inteira, Carlos Drummond de Andrade, e mais Jorge de Lima, Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Vinicius de Moraes, Fernando Pessoa, alguns românticos como Gonçalves Dias, Castro Alves, Casimiro de Abreu, alguns parnasianos como [Olavo] Bilac, Machado [de Assis], Raimundo Correia [um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras]. Lia ficção, também, mas a poesia é que me enchia as medidas. De prosa, não há como escapar de Machado de Assis, ele nos persegue. Escritora moderna que me maravilhou pelo estilo, porque das histórias nem me lembro direito, foi Clarice Lispector. Escrevi um conto imitando-a, “Menina”, está por aí em antologias. Devo ter sofrido alguma influência de poetas e ficcionistas de língua inglesa, modernos, que lia bastante, aí já na fase de aprimoramento da escrita, digamos. Mas foram tantas as leituras prazerosas que fica impossível destacar alguém. Como diz Drummond, no poema “Resíduo”, “de tudo fica um pouco”.

“Eu acho que seríamos injustos com os críticos se fossemos apontar os defeitos no trabalho deles, considerando as condições que eles têm atualmente. O trabalho é mal pago, eu trabalho na imprensa e sei quanto os jornais e revistas estão pagando. Eles têm de fazer muitas coisas para conseguir dinheiro, e um livro dá trabalho para ler e analisar. As resenhas a gente não pode criticar dizendo que são ligeiras, porque essa ligeireza na imprensa tornou-se qualidade, e não defeito, não é verdade? Bom, então o que temos, na realidade, é um comentário conteudístico e, no último parágrafo, vem é bom, é ruim, é mais ou menos, na base do gosto pessoal. Nessa base eu estou muito bem, só tive uma crítica mal-intencionada do ponto de vista ideológico, só uma. Não vou dizer qual, mas os preconceitos e os dogmas entranhados no raciocínio do crítico estão muito visíveis, ele pedindo um herói em choque com a sociedade, pedindo um encadeamento de ações que conduza a consciência do leitor, coisas assim. Agora, análises mesmo, tive poucas. Creio que faltaram análises que abordassem meu trabalho com as palavras, que examinassem o uso crítico que eu faço de certas linguagens, as minhas soluções para um dos problemas que excitavam e, às vezes, até inquietavam os poetas e ficcionistas do modernismo brasileiro, que é o problema da simultaneidade.”