setembro 05, 2015

.............................. ANTONIO CÍCERO: POESIA à FLOR da PELE



entrevista
ANTONIO NAHUD
jornal de Hoje (RN)
2006

imagens:
MARK ROTHKO


Sua obra poética acende mentes e tem público cativo. Além de poeta, é compositor e filósofo. Vem colhendo êxitos por sua linguagem lúdica, profunda e sóbria, seja na música, poesia ou na filosofia. ANTÔNIO CÍCERO tem charme esquivo e discreto. Carioca, na ativa nas últimas quatro décadas, se mantêm distante dos refletores da fama e se rodeia de um certo anonimato, mesmo depois da notoriedade obtida em marcantes incursões na MPB. Começou a compor em 1976, dividindo canções com sua irmã Marina Lima, Waly Salomão, Lulu Santos, João Bosco, Frejat e Adriana Calcanhoto. Em 1996, lançou o CD de poesias “Antônio Cícero por Antônio Cícero”; em 1997, o livro de poemas “Guardar, que teve ótima acolhida de público e crítica, vencendo o prêmio Nestlé de Literatura. Publicou “O Relativismo enquanto Visão do Mundo” (1994), coletânea de ensaios em parceria com Waly Salomão, e “O Mundo desde o Fim” (1995), que discute os paradoxos do nosso país. Em 2000, nova reunião de poemas, “A Cidade e os Livros (2000). Sua mais recente publicação, “Finalidade sem Fim” (2005), relaciona vanguardas e modernidade. Numa palestra no I Encontro Natalense de Escritores (ENE), desenvolveu o tema “Poesia e Música. Nesta entrevista, fala sobre o ofício poético.

antônio cícero 
A poesia tem definição própria?

Tem muitas. Eu mesmo já a defini de várias maneiras diferentes a propriedade de ser um poema, isto é, aquilo que faz de um poema um poema. Pois bem, uma vez defini o poema como o texto dotado do mais alto grau de escritura. Outra vez, como a forma que porta em si a marca d’água do movimento, etc.

João Cabral de Melo Neto afirmou que poesia é trabalho...

As teses de João Cabral são interessantes para provocar o pensamento dos poetas. Mas é preciso entender que elas são as regras que ele impôs a si mesmo para poder construir-se/encontrar-se enquanto poeta. A rigor, elas só valem para ele mesmo. Não penso, por exemplo, que a poesia seja só trabalho. A poesia é também inspiração. João Cabral tinha horror a essa noção, que achava coisa de poeta romântico ou efeminado. Não é nada disso. Inspiração é o nome das intuições que o poeta não sabe de onde vêm (os antigos achavam que vinham das Musas, filhas de Zeus e da Memória), mas que são fundamentais para a produção dos poemas. A verdade é que, independentemente do que ele mesmo pensava, João Cabral foi um poeta inspirado. O que ocorre é que a inspiração não vem antes e o trabalho depois. Grande parte da inspiração vem durante o trabalho, por ocasião da solução dos problemas que se apresentam ao poeta.


Seu semblante passa melancolia. Acredita numa visão trágica da vida, como Nietzsche?

Apesar dessa aparência, não me sinto melancólico, senão vez por outra e por pouco tempo. Mas talvez as fotos saibam mais sobre mim mesmo do que eu sei. Talvez fosse até bom ser melancólico. Aristóteles dizia que os homens extraordinários em filosofia, política, poesia e arte tendem a ser melancólicos, e considerava Empédocles, Platão e Sócrates como melancólicos. Mas ele não associava a melancolia a nenhuma concepção trágica da vida. Na verdade, essa concepção não é grega, mas de Nietzsche mesmo. Não compartilho do entusiasmo generalizado por Nietzsche nem por essa visão. Gosto de música pop, mas não de filosofia pop.

Como avalia o impacto da literatura na internet? Já existe um movimento literário nela? Umberto Eco disse que a internet veio para salvar a palavra escrita.

Acho que a importância já é grande e vai ser cada vez maior. Com certeza existem movimentos literários na Internet. Existem inúmeras revistas, blogs, páginas de autores... é um mundo ilimitado. Eu mesmo frequento muitos desses sites e, embora não faça parte de nenhum site coletivo, tenho uma home page. 


Como foi que o poeta inédito se tornou compositor?

Bem, eu não era totalmente inédito, pois já havia publicado poemas em periódicos. Escrevo poesia desde que me entendo. Quando chegou a hora de pensar em publicar um livro, porém, hesitei muito, pois tinha grande admiração intelectual pelas teorias concretistas, mas a poesia que eu escrevia e a poesia que eu gostava de ler era discursiva, escrita em versos; ora, os concretistas consideravam terminado o ciclo do verso. Eu fazia poemas, mas não tinha ainda elaborado um pensamento sobre a poesia, com o qual pudesse confrontar as teorias concretistas. Deu-se, portanto, uma contradição entre a sensibilidade e o intelecto. Isso se resolveu quando minha irmã, Marina, pôs música em um dos meus poemas engavetados. Gostei do resultado.

A poesia brasileira, sem rumo, absorve tendências díspares. Como concilia esses contrários em sua poesia?

Simplesmente faço o que acho bom.


Se considera um poeta inventivo? Que elementos de vanguarda podem ser encontrados em sua poética?

Penso que a vanguarda já cumpriu o seu papel e que o cumpriu muito bem. Objetivamente, seu feito principal foi o de abrir portas, o de mostrar que a poesia podia ser feita de inúmeros modos, que não podem ser prescritos a priori. Por outro lado, independentemente dos equívocos ilusões de alguns vanguardistas sobre o sentido do seu trabalho (alguns pensavam que estavam destruindo o verso, a rima, a poesia puramente verbal etc.), ela não fechou porta alguma: todos os modos tradicionais de se escrever poesia ainda se encontram disponíveis aos poetas contemporâneos. Quanto à invenção, penso que qualquer poema bom é inventivo, ainda que seja um soneto ou uma sextina. O importante não é fazer o novo, mas fazer aquilo que não envelhece.

Fale sobre seus dois livros de poesia. Qual a particularidade de cada um?

Como “Guardar” foi o meu primeiro livro, contém poemas de diferentes épocas da minha vida. Já “A Cidade e os Livros” foi feito em três ou quatro anos, seus poemas têm uma unidade maior e são mais maduros.


O título “A Cidade e os Livros” é uma bela sacada poética. Por que esse título?

É o título de um poema do livro que fala da minha descoberta da cidade e dos livros. Essas descobertas, fundamentais na minha vida, representaram uma desprovincializinação pessoal, a minha abertura para o mundo e a abertura do mundo para mim. Depois do livro pronto, resolvi batizá-lo com o nome desse poema.

O caminho do poeta é solitário, árduo e extremamente difícil?

A poesia parece, à primeira vista, a arte mais fácil. Principalmente depois da experiência da vanguarda, basta escrever qualquer coisa e dizer que é um poema, e pronto: quem vai provar que o que você fez não é um poema? Quem vai provar que você não é um poeta? A maior parte das pessoas escreve uma espécie de diário sentimental ou emocional em frases soltas e acha que está fazendo um poema. Não estou aqui para reprimir ninguém: façam o que quiserem. Porém, a poesia de que gosto não é expressão pessoal, mas obra de arte.

O que diz da sua participação na estreia de um evento literário potiguar?

Uma honra e uma alegria. Natal é maravilhosa e foi uma alegria revê-lo, Antonio, depois de tantos anos.






agosto 10, 2015

............................. “A GRANDE ESCRITA é SEMPRE REESCRITA”





Entrevista de 2001. 
Concedida no Café de Santa Cruz, 
em Coimbra, Portugal. 
Publicada no Caderno Cultural
do jornal A Tarde (BA)

Imagens: 
ANALU PRESTES
(1952. Santos / São Paulo)


Um dos intelectuais norte-americanos mais ativos, suas críticas não são elaboradas com o intuito de agradar uns e outros. As teses de HAROLD BLOOM (1930. Nova Iorque / EUA) são essencialmente polêmicas, principalmente quando ele discorre sobre a questão da influência literária, uma preocupação contínua em sua obra. Ele aborda este conceito desde seu livro “A Angústia da Influência”, publicado em 1973. Nele o teórico defende que sempre se irá encontrar, em cada obra, por mais clássica e única que ela pareça, traços de outros criadores, os quais, por sua vez, beberam também em fontes alheias para compor suas produções literárias. “A grande escrita é sempre reescrita”, garante. Reconhecido ensaísta e crítico literário, lota auditórios em todo o mundo, praticando uma missão especial: ensinar a ler. “Quem for capaz de ler verdadeiramente, será abençoado pelo conhecimento, pela memória”, afirma. Luta contra a informação passiva fornecida pela televisão, incentivando a “mente ativa”. Ele considera o ato de ler uma iniciativa pessoal, e que seu papel como crítico é conceder ao leitor um arsenal prático do ofício literário, estimulando-o a ler cada vez mais.

Original, ousado, controverso, influente, aos 71 anos é autor de uma vasta obra que reúne 24 livros e centenas de ensaios e introduções, privilegiando poetas de língua inglesa. HAROLD BLOOM criou o conceito de Cânone, ou seja, uma relação das produções literárias essenciais. Esta ideia é desenvolvida em seu livro “O Cânone Ocidental”, lançado em 1994. Entre seus escritores geniais, ele destaca Shakespeare, Dante, Cervantes e Milton. No idioma português ele acrescenta o nome de Machado de Assis como o maior da literatura brasileira, e o do poeta Fernando Pessoa, ao lado de Camões. Era venerado pelo combativo jornalista Paulo Francis. “Um ensaísta de primeira água e um grande crítico”, disse dele o Nobel José Saramago, um dos raros autores de língua portuguesa elogiados por Bloom. Em Coimbra, Portugal, convidado do IV Encontro Internacional de Poetas, HAROLD BLOOM lançou a tradução para o português do seu livro “Como e Por Que Ler”, deu conferência e recebeu doutoramento Honoris Causa da Universidade de Coimbra, a mais antiga universidade do país luso. Foi uma extraordinária e eloquente cerimônia”, disse o homenageado. Na sua fala, ele aplicou suas teorias no diálogo “O Atlântico Sublime: Whitman, Pessoa, Stevens, Crane, Lorca, Cernuda”. Após o evento, conversou com a imprensa.


Os autores norte-americanos contemporâneos, de Norman Mailer a Gore Vidal, são obcecados pela ideia do “grande romance americano”. Quem chegou lá?

Muitos deixam devorar sua capacidade de ficcionista por essa obsessão, mas creio que tal obra já foi escrita: “Meridiano de Sangue”, de Corman McCarthy. Um livro terrível, que mete medo. Deve ser o romance norte-americano mais importante desde “Moby Dick”, de Melville. Já o li muitas vezes.

Os seus livros demonstram fascínio pela bíblia. Além disso, costuma aconselhar a ler alto e a decorar poesia, como se faz com as orações. Vê a literatura como uma religião?

Claro que não. Seria uma idiotice essa teoria. Basta a indústria das experiências paranormais ou a indústria de anjos. Mas me fascinam as passagens mais antigas da Bíblia judia. Escrevi um livro acerca disso, “O Livro de J”. Quanto a decorar poesia, devo dizer que os meus alunos ficam embaraçados. Pensam que estão se comportando como crianças. Entretanto, há diferença quando se possui a literatura através da memória.


Os portugueses estão encantados com sua opinião positiva à respeito de Fernando Pessoa e José Saramago.

Fernando Pessoa é um grande poeta moderno. Tão bom como Lorca, Valéry ou Wallace Stevens. O problema dele foi a tentativa de se tornar um super-Camões ou um Walt Whitman. Além do mais, escreveu muito, e ninguém parece que o leu na totalidade. Já Saramago é o romancista vivo mais talentoso que conheço. Sua versatilidade é espantosa. Ele escreve comédias deliciosas, e coisas tenebrosas, melancólicas.

Pessoa tem a popularidade merecida além de Portugal?

Ele é reconhecido por muitas outras línguas e culturas. Não é ainda mais popular devido aos heterônimos. Demora um pouco a nos acostumarmos à complicação de compreender quatro poetas em uma só pessoa, e à forma como ele desenvolve o problema. Pessoa é um poeta europeu que seduz muita gente.


A sua interpretação de que todo poeta sofre da angústia da influência continua sendo questionada.

Quando publiquei “A Angústia da Influência: Uma Teoria da Poesia” não pensei que seria tão mal compreendido. Continuo pensando que a angústia da influência é um fato universal. Shakespeare, por exemplo, lutou muito para se livrar da influência de Christopher Marlowe. Pessoa, como disse, tinha uma clara obsessão por Whitman. E assim por adiante. Não há como negar que a grande escrita é sempre reescrita.

Como enxerga o leitor?

Obviamente o leitor de hoje não é sensível. Veja o caso da vasta maioria dos universitários, que são uma mistura de atrasados mentais e preconceituosos. A falta de reflexão sempre foi mais sedutora. É difícil aprender a ler com propriedade a grande literatura da imaginação. Os grandes escritores exigem muito em termos de energia intelectual e imaginativa. Desafiam a totalidade da pessoa em nós. A verdadeira leitura supõe tempo e implica esforço e perseverança. A prática da leitura é um caminho difícil com ocasionais recompensas.


Crê que a crítica literária sobreviverá em um mundo de excesso de imagens e leituras banais?

Penso que haverá sempre bons críticos literários, desde que estes sigam a crítica como um ramo da literatura. O importante é que não usem a crítica com propósitos de ressentimentos, ou seja, por motivos puramente pessoais. O bom crítico necessita de valores humanista e literário.

Convidado para ser homenageado na celebração do terceiro centenário da Universidade de Yale, preferiu o evento de Coimbra. Foi uma boa escolha?

O rei Bush era um dos homenageados em Yale. Preferi não estar presente. Não me arrependo. A cerimônia de Coimbra foi extraordinária e eloquente. Um incentivo para continuar aprendendo profundamente sobre a tradição literária portuguesa. Escrevi alguma coisa sobre Camões e Eça. Considero “Os Maias” de uma beleza sublime. É um dos melhores romances europeus do século XIX.


Falando em Bush, como vê a atual política norte-americana?

George Bush II representa a imbecilidade mais completa que se vive nos Estados Unidos e que ultrapassa a minha compreensão. Estamos na época de Mark Twain, chamada “The Gilded Age” (A Idade Dourada), a era dos barões bandidos. Toda essa administração, o presidente, o vice-presidente, o secretário de defesa, o secretário do tesouro, são grandes senhores do petróleo que estão tendo lucros fabulosos.




agosto 01, 2015

.............................................................. INFIEL e ANÔNIMO em TANGER

eu no marrocos, 2005

 
Ilustrações:
PAUL KLEE

 
Remando contra a corrente, o desgosto tomou conta do meu ser. Como viajar é um santo remédio contra tal estado calamitoso, voltei mais uma vez ao Marrocos, sendo imediatamente tomado pela alegria de viver. Para iniciar no encantamento, basta-me aprofundar no amor, arte, natureza, mistérios de uma cidade formosa. Em Tanger, odores, inquietantes melodias que mais parecem queixumes, revoadas de andorinhas à cata de insetos, labirinto de ruelas estreitas, luz, sombras. Rostos corados, sons, mar da praia de Malabata, a imponente porta de Bar er Raha, banhos públicos, o Kasbah. O muçulmano divide o mundo em crentes e infiéis, mas eu quero acreditar que o ser humano é maior do que se rotula. Quero acreditar na vida, por mais frívola que seja, contendo um tesouro em algum recanto escondido.

Na primeira metade do século 20, Tânger era conhecida como um centro de contrabandistas, espiões, exilados, homossexuais em férias. É a terra que o escritor norte-americano Paul Bowles escolheu para viver. Lembro-me do seu corpo frágil, de pássaro, apoiando-se em mim enquanto caminhávamos no Petit Socco, uma pequena praça ladeada por cafés e hotéis. No Marrocos, mora o afinado escritor espanhol Juan Goytisolo, encontra-se o túmulo de Jean Genet na beira-mar e circulam histórias picantes do casal Bowles. Sozinho, encerrado na própria liberdade, sensações me passam pela cabeça. Estar sozinho numa cidade estrangeira não é nada simples. Precisa-se de energia especial para circular entre milhares de rostos estranhos, nas mesmas ruas pelas quais passam multidões em direção a um futuro incerto. Posso ver claramente, nenhuma certeza é oferecida a ninguém. Nem mesmo para visitantes ilustres como Truman Capote, William S. Burroughs, Allen Ginsberg, Tennessee Williams ou Christopher Isherwood.


Corro mundo sem deixar de ser o que sou. Sou da raça que sempre parte, a nômade. Às 8 da manhã, no Hotel Ville de France, o mesmo que hospedava Gertrude Stein e sua amante Alice B. Toklas, peço o primeiro chá de hortelã do dia. Diante de mim, o livre-arbítrio. Mas a liberdade somente se tranquiliza perante o amor. Questionando a existência e apinhado de associações literárias, caminho sem destino na cidade moura. Não quero ter razão, muito pelo contrário, quero aprender com os erros. Quem sempre quer ter razão está contra todos. Oscar Wilde, que viveu sob a rigorosa filosofia da arte como beleza e da vida como refinamento, após o cárcere e a traição, decepcionado, deixou de escrever. Miserável, vagando pelas ruas de Paris, encontrou André Gide e, diante do incômodo desse, disse: “Não é preciso se interessar por alguém que foi fulminado”.

Dias de contemplação na terra do profeta Maomé, explorada pela França durante 44 anos. Contemplação não fornece exatamente distração. Assim, acato o desatino dançando sinuosamente no clube noturno Le Palais, no Hotel Tanjah Flandna. Morenos sorridentes me oferecem haxixe puro, tomam-me nos braços num bailado selvagem. Numa festa nos jardins do Palácio Mendoub, cujo dono é o milionário Malcolm Forbes, trabalhei carregando caixas de som e refletores de uma banda musical, conhecendo o romancista Rodrigo Reis Rosa e me deixando levar pela sedução de um excêntrico casal de artistas. Em Tânger, esqueço a identidade, costumes, idade, passado, metamorfoseando-me em animal sem pátria. O Marrocos me possui. Amo-o.

O homem é um bicho tolo. Tolo, sentimental. Sensibilizado, escuto a língua árabe marroquina, mergulhando em lojas de artesanato de barro e kilims. Numa delas, fumo kish, esquecendo parte de mim, esmagando a dor e alguma verdade pessoal. A meta é viajar em direção ao mar, à fontes inesgotáveis de sonhos. Leve, guardo na memória o mercado Grand Socco, a mesquita Sidi Bouabid de ricos azulejos, praias banhadas simultaneamente pelo Atlântico e Mediterrâneo, o dócil amigo Rachid. Sinto o Marrocos como demência espiritual, beleza perene. Sem beleza, fé ou a insensatez do amor, seria ainda mais difícil viver.

 
do livro “Se um VIAJANTE NUMA ESPANHA de LORCA”, 2005


FORTUNA CRÍTICA

À VIAGEM

VICENTE FRANZ CECIM

Cigano incorrigível por vocação luminosa ou oculto Fado, Antonio Nahud realiza a vida nômade com que todos sonhamos, imersos em nossas vigílias sedentárias. É por nós, generosamente, que ele cruza oceanos, contempla as paisagens, sem hesitar penetra em labirintos, desvela horizontes, revela territórios reais e poéticos, se expõe face a face com geografias desconhecidas e interroga o humano em Diálogos reveladores, sempre, por onde passa. Capturadas em vivências que transforma em palavras, preservando, nessa alquimia, a mais pura autenticidade, suas Peregrinações nos enriquecem de sabores novos. À maneira de Xavier de Maistre em sua “Viagem em Torno do meu Quarto”. Sim? Mas um Xavier de Maistre invertido, porque o quarto de Antonio Nahud é o mundo. Como ele, outro lendário cigano: Marco Polo, é à Viagem que eles convidam. E não apenas à exterior, mas também a nós mesmos. Aceitemos o convite.


Se um VIAJANTE NUMA ESPANHA de LORCA

SILAS CORRÊA LEITE

De certa forma fugidio de si mesmo, Antonio Nahud, no seu último livro “Se um Viajante Numa Espanha de Lorca”, feito um intrépido cigano viajoso – também nos relatos de inúmeras pensagens – compilou crônicas, fábulas, relatos, narrativas, delírios, costumes e inquietudes, tudo acontecências dessa bela espécie de gracioso e oportuno “caderno de viagens”.

Escrevendo muito bem, o autor nômade traça paralelos de contemplações, procurando em tantos lugares, até mesmo exóticos e históricos que sejam, o seu próprio lugar de se Ser; alma nau registrando itinerários, descaminhos, vigílias, buscas e labirintos (íntimos), ainda assim revelando territórios e o demarcando de algum forma, ensejando o mapa de sua existência frutífera no mundo errante, com seus recolhes de imagens, ponderações e palavras caprichadas. O livro todo é nesse contextual. Já autor de tantas outras obras – (Livro de Imagens, Um Sentido Para a Vida, Arte-Palavra, Caprichos, Ficar Por Aqui Sem Ser Ouvido Por Ninguém, Retratos em Preto e Branco e O Aprendiz do Amor) – Antonio Nahud mostra seu diletantismo de viver intensamente doa a quem doer (e se movendo com certa ressaca de uma paixão que deixou marcas ainda vivíveis), sempre projetando arredondar estigmas e acertar parafusos soltos muito além do reino do sonho, e, para sorte de seu leitor, registra tudo sem se esconder, vai fundo sem sextante de si mesmo, expondo lamentos e algumas vezes numinosas múltiplas contemplações.

Anseios, perdas, amores que podem dizer o nome, expectativas, fronteiras, frustrações, dezelos íntimos, e, claro, a arquitetura de paisagens nas suas contações em gracezas de detalhes e óticas puristas que fisgam o leitor pelo enfoque de peregrino em caminho de si mesmo, pergaminho e cinzel, busca e buscador, estrada e caminhação. Amante de Frederico Garcia Lorca – ele mesmo certamente um pouco Lorca também – e fã de Jean Genet, Henry Miller Virginia Woolf, Lucio Cardoso e tantos outros, Antonio Nahud vai descrevendo – revelações em sépia como um excelente fotógrafo que o é – o que o seu mavioso latino olhar nostálgico capta no estreito de Gilbratar e seu entorno, desnudando-se também ao invadir memórias e registros delas, momentos e contemplações, sob a ótica de seu filtro espiritualizador, pondo a alma para respirar nessas caminhações, Ser a dentro, entradas e bandeiras.

Às vezes domina tão bem o seu transbordante cálice de vinho-verbo (denota isso de maneira tácita), que você caminha lado a lado com ele pelas paisagens invocadas, e capta as refrexões-vazantes de suas ponderações contra moinhos e ventos de erranças e iluminuras. A mão do parágrafo, a página de rosto, a edição-Ser contando prumos e fungos. Bonitezas. Ele filosofa com sentido energético, opina com acidez, vergando a alma, lavra-se (lava-se assim?) pensando estágios do devir e assim vai se dando, livro aberto ao leitor que cativa pelas narrações bem costuradas, pondo mesmo imagens na cabeça da gente a viajar com ele, fixando sua vivência andarilha assim no seio de nosotros.

Incorrigível? Sedentário também. Em cada porto uma saudade, resgata um oxinegação de seixos íntimos, perde lastros, na insustentável leveza de se ser. Registros. Querelas interiores. É quase uma viagem em torno de si mesmo, pois, pra onde fugir (...) sempre estará ali: se levará consigo. O amor tem loucuras que a própria lucidez desconhece? É por aí esse mergulho mochileiro numa estrada que vai dar no Ser. Quase um resgate.

Fala de Kant, de Marrocos, da Espanha que adora. Diz de pecados, desmistifica rumos, aponta paraísos e paradoxos, sagracial e interrogativo leva uma cisma ainda não identificada, aqui e ali diz de músicas, sombras, barbáries, abismos, e, claro, prova que a grande aventura (cósmica, inclusive) começa dentro de nós mesmos.


Busca um porto seguro ultramarino, depois de deixar sua Bahia de Todos os Santos. Ou prefere o atol das doces memórias como cantou Ray Charles? Interrogações. Ilumina o diafragma do olhar, dá um clic na alma, feito um noiteadeiro em terra estranha, procurando seu lagar de afetos escondidos, ou, talvez, o medo de amar número dois. Nesse bolero-blues salpica de estrelas o chão-lugar de seu estar. Um Lorca pós-moderno esse Antonio Nahud? Delicioso o livro. Vale a pena ler. Há um estado onírico (realidade substituta?) inventariando a vida, certamente o inverso do caminho de Santiago nele. Honra e fé revisitadas. Autenticidade visceral, Carpiem diem. É isso. Todos nós temos nossos outonos entrevados. Anjos presos em fio de alta tensão. Cárceres de tentativas?. Escrevendo, aliviando-se, o autor dá nos seu testemunho de resistência de alguma maneira, por alguma loucura-razão. Arte e libertação no enfavamento tresloucadas de ideias mirabolantes?.

Leia o livro. Leia essa alma narrando as lágrimas de San Lorenzo, os seus parágrafos sendo as suas lágrimas também, respirando choro. Longe de casa, toureiro de situações, dá-nos suas livrações enlivradas assim. Puro deleite. Seja você também esse viajante com ele, na Espanha de Lorca e Nahud.

Você lê música e fotos nas palavras dele. Filmes com narcisos, mais a policromia imagética de jacintos azuis.

Não é qualquer um que escreve gardênias quando chora.


PELOS CAMINHOS da ESPANHA de ANTONIO NAHUD

JOSÉ INÁCIO VIEIRA de MELO

Quando terminei a leitura das crônicas de Se um viajante na Espanha de Lorca, de Antonio Nahud, além de ter satisfação por ler textos bem escritos, despojados, sem serem pretensiosos, senti uma vontade danada de viver, de apenas viver. Textos como “Que alegria de viver!” despertam para a vida. O jovem poeta é um desses andarilhos que, embora não esqueça das suas origens, não se condiciona às geografias e bota o pé na estrada pela necessidade de andar e descobrir coisas, enquanto vai se revelando para o leitor e para si próprio.

Consciente da individualidade do ser, Nahud, em um dos primeiras crônicas do livro, lembra que “A aventura começa dentro de nós”. E em Tarifa, Andaluzia, rememora quando, desconhecido de todos, transitava pelas ruas de Marrocos a se indagar sobre as várias faces do seu eu: “Qual o meu nome? Sou tantos.” É inevitável não lembrar do célebre romance de Gerardo Mello Mourão, O Valete de Espadas, no qual um viajante, Gonçalo Falcão de Val-de-Cães, passa de um lugar para outro sem perceber: amanhece em um hotel que não conhece, perambula pelas ruas da cidade, também sua desconhecida e, ao dormir novamente, acorda em um navio, do qual não sabe nome nem destino. É assim o Nahud em suas crônicas, o homem no mundo perplexo com tudo que o cerca, o sujeito que está sempre aberto para o desconhecido, em busca de.


Paradoxal, o nosso viajante afirma no título da crônica: “Eu só conheço esse caminho do Paraíso”, para em seguida informar que “Não conheço ninguém, ninguém me conhece. Como não conheço ninguém e ninguém me conhece, é quase como não existir”. O não existir para certas esferas, parece condição para uma ligação com o Paraíso, para trilhar pelos caminhos do Coração, assim como queria o brujo Dom Juan, em A erva do diabo, de Carlos Castaneda: “Para mim só existe percorrer os caminhos que tenham coração, qualquer caminho que tenha coração. Ali viajo, e o único desafio que vale é atravessá-lo em toda a sua extensão. E por ali viajo olhando, olhando, arquejante.” Ainda em O Valete de Espadas, num diálogo, há uma definição que se aproxima da expressão do autor de Se um viajante na Espanha de Lorca: “– Quem é este rapaz? – É um peregrino. Peregrino das próprias entranhas.” Antonio Nahud é um peregrino dos mistérios do eu. Seus sentimentos, suas dores, suas alegrias – a parte as suas peculiaridades – são as de todas as pessoas, pois somos massa do mesmo barro; o mesmo sopro lírico que energiza o poeta, movimenta a humanidade – e esse é o motivo da identificação imediata do leitor com o cronista.

Diante da unidade do conjunto de crônicas de Se uma viajante na Espanha de Lorca, as seções subsequentes “Dois personagens” e “Um relato”, que apresentam, respectivamente, dois estudos e um conto, ficam fora do clima das narrativas. A impressão que deixa é de que deveriam ter aguardado um momento mais propício para publicação, ao lado de outros trabalhos do autor, de gêneros correspondentes. Por outro lado, a inclusão desses textos dá uma mostra da diversidade criativa de Antonio, escritor profícuo que transita com desenvoltura pelos mais diversos gêneros. Percorrer os caminhos da Espanha de Antonio Nahud  é percorrer as searas do coração, e todos os seus textos abrem portas para o livre estradar. A Espanha de Antonio não é territorial, é dentro do Antonio, é dentro de mim, e dentro de você, meu caro leitor. Assim, invoco todos os santos poetas e todos os poetas malditos para celebrar este acontecimento literário, e convoco todos os peregrinos da vida para trilhar por essas veredas. “E res mès / E nada mais”.

“Se Um Viajante Numa Espanha de Lorca”
Pé de Página Editores, maio 2005, Coimbra, Portugal