A música
é o tipo de arte mais perfeita;
nunca revela o seu último segredo.
OSCAR WILDE
(1854 - 1900. Westland Row, Dublin / Irlanda)
a Nuno Casimiro, um jovem amigo português
que ao amanhecer, exausto da mediocridade humana,
se enforcou em uma frondosa árvore
Ilustrações:
AMADEO de SOUZA-CARDOSO
(1887 – 1930. Amarante / Portugal)
nunca revela o seu último segredo.
OSCAR WILDE
(1854 - 1900. Westland Row, Dublin / Irlanda)
a Nuno Casimiro, um jovem amigo português
que ao amanhecer, exausto da mediocridade humana,
se enforcou em uma frondosa árvore
Ilustrações:
AMADEO de SOUZA-CARDOSO
(1887 – 1930. Amarante / Portugal)
Não se trata apenas de listar destinos, mas de relembrar encontros improváveis, detalhes curiosos e aventuras que dão alma às paisagens. Gosto de viajar com o coração atento, com curiosidade e com aquele entusiasmo de quem sabe que sempre há algo inesperado à espera. Porque o mundo está cheio de roteiros comuns — mas os extraordinários são só para quem decide enxergar além. Essa aventura aqui narrada aconteceu em um verão escaldante, em noites de lua cheia, na provinciana Zambujeira do Mar, no Alentejo português. Nas ruas, o tempo corria calmo e preguiçoso. As esplanadas dos bares estavam cheias. A praia era um ponto de passagem obrigatório para fugir ao calor escaldante. Eu era muito jovem, atraente e capaz de pecados. Lembro da terra vermelha, do pó de argila alinhado no horizonte, das casas caiadas sublinhadas a amarelo ou azul, do sossego alentejano. Era um silêncio rasgado por ruídos de enormes carros descarregando pesados equipamentos de sons, de ramos de eucaliptos surrando o vento. Um silêncio que agonizava, à beira do fim.
No dia seguinte, os pinhais do Festival do Sudoeste abrigavam trinta mil malucos dos quatro cantos do continente. Disse adeus às horas nuas e despreocupadas ao caminhar pela “cidade de lona” - um mundo paralelo, bizarro. Panelas em processo de lavagem, assava-se sardinhas, ignição em isqueiros para mais uma baforada, folhas secas pisadas por centenas de pés e a inevitável batucada do djambé: tam tam tam. As tribos chegavam em direção à natureza. Em cada verão, o mesmo ritual. Vilar de Mouros, Paredes de Coura e Sudoeste. Em vez de Jean-Paul Gaultier, a malta perfumava-se com Patcholi. Neste cenário inquietante e sem ordenamento, transformavam as férias escolares numa época de promessas, onde a jornada fazia parte dos horizontes da garotada entediada. Quase todos regressavam com ricas experiências e são poucos aqueles que não tiveram encontros imediatos de terceiro, segundo ou primeiro grau. No final, enquanto se fazia a mochila, levavam histórias excêntricas e uma última mortalha para partilhar com os companheiros de viagem.
No
recinto com geografia e bairros próprios, havia portões feitos de ramos, sendo
que o maior de todos ostentava uma frase grafitada: “Encontramos Deus no fundo
de um copo de vodca”. Na entrada do camping, sob um bosque, ouvia-se death
metal na “Rainha dos Cachorros”. Pertinho, a todo volume, tocava-se trance, um
dos mais inaudíveis gêneros sonoros da história musical. Vendedores de
cachorro-quente, de bifes fedorentos e sorvetes coloridos. Uma trupe de
malabaristas com bolas de fogo, saltos ágeis e pernas de pau. Com um cigarro na
ponta dos lábios e a cara mal barbeada, se arriscavam a pegar uma insolação.
Ainda por cima, era certo que tudo o que é orifício no corpo ficaria entulhado
de poeira, inclusive os ouvidos. É destes gestos temerários que se faziam
heróis e todos os anos havia alguns milhares de candidatos ao martírio. A
música será sempre um oásis e só isso explicava que a rapaziada ia em procissão
até ao deserto. Consolados com as ondas sonoras de Morcheeba, Placebo, Flaming Lips, Sepultura, Divine Comedy e companhia. Era delirante.
Cheguei com mosquiteiro, sandálias de couro e garrafas de vinho. Na benigna paisagem, então obcecado por discos voadores, deitei na relva contemplando as estrelas e o eventual aparecimento de um ou outro ET. Como isso não acontecia, outros motivos surgiriam para gozar o idílio. Não era todos os dias que um cenário campestre de cartão postal acolhia um festival abarrotado em decibéis. A euforia coletiva se iniciou na sexta-feira com a esmagadora presença de P J Harvey, look bruxa moderna, fincada no palco de vestido negro justo e botas longas de salto alto. Atuou uns setenta minutos. A cantora e compositora britânica abriu a performance com um espantoso “Rid of Me” interpretado a solo e estabeleceu uma solução de compromisso perfeita entre velhos temas como “Man Size” e “Is this love?”. Memorável e espantosa, um misto de teatralidade felina e passional. Inesquecível o momento inicial, por coincidência, o nevoeiro invadiu o recinto do festival criando um efeito especial cinematográfico. E como em tudo nesta vida há um aprendizado. E muito aprendi.
Consciente de mim mesmo, o que me vem à memória com mais nitidez desse festival foi a primeira vez que avistei um rosto que jamais esqueceria. Logo após o concerto dos Divine Comedy, deitado na grama, um moço diferenciado, cigarro na mão, balançando a cabeça como um headbanger metaleiro. Eu me encontrava em transe com o humor e o talento de Neil Hannon, o divertido vocalista dos Divine Comedy. O grupo demonstrou ter vasta multidão de fiéis, que gritavam e assobiavam pedindo mais uma canção. Ao enxergar o atraente estranho parecido a um Sam Shepard garotão, caminhei em sua direção para observá-lo mais de perto. Tinha um desses rostos imaculados, de beleza renascentista, imune à mediocridade dos tempos consumistas. A lua cheia imponente e, sob ela, o belo. Alto, muito alto, e magro. Cabelos escorridos no meio das costas. Eu não tirei os olhos dele. Na época acreditava no amor súbito. Talvez por romantismo ou por necessidade. E isso não era redenção ou esperança no sentido clássico. Era apenas uma concessão para a beleza de todas as coisas.
Cheguei com mosquiteiro, sandálias de couro e garrafas de vinho. Na benigna paisagem, então obcecado por discos voadores, deitei na relva contemplando as estrelas e o eventual aparecimento de um ou outro ET. Como isso não acontecia, outros motivos surgiriam para gozar o idílio. Não era todos os dias que um cenário campestre de cartão postal acolhia um festival abarrotado em decibéis. A euforia coletiva se iniciou na sexta-feira com a esmagadora presença de P J Harvey, look bruxa moderna, fincada no palco de vestido negro justo e botas longas de salto alto. Atuou uns setenta minutos. A cantora e compositora britânica abriu a performance com um espantoso “Rid of Me” interpretado a solo e estabeleceu uma solução de compromisso perfeita entre velhos temas como “Man Size” e “Is this love?”. Memorável e espantosa, um misto de teatralidade felina e passional. Inesquecível o momento inicial, por coincidência, o nevoeiro invadiu o recinto do festival criando um efeito especial cinematográfico. E como em tudo nesta vida há um aprendizado. E muito aprendi.
Consciente de mim mesmo, o que me vem à memória com mais nitidez desse festival foi a primeira vez que avistei um rosto que jamais esqueceria. Logo após o concerto dos Divine Comedy, deitado na grama, um moço diferenciado, cigarro na mão, balançando a cabeça como um headbanger metaleiro. Eu me encontrava em transe com o humor e o talento de Neil Hannon, o divertido vocalista dos Divine Comedy. O grupo demonstrou ter vasta multidão de fiéis, que gritavam e assobiavam pedindo mais uma canção. Ao enxergar o atraente estranho parecido a um Sam Shepard garotão, caminhei em sua direção para observá-lo mais de perto. Tinha um desses rostos imaculados, de beleza renascentista, imune à mediocridade dos tempos consumistas. A lua cheia imponente e, sob ela, o belo. Alto, muito alto, e magro. Cabelos escorridos no meio das costas. Eu não tirei os olhos dele. Na época acreditava no amor súbito. Talvez por romantismo ou por necessidade. E isso não era redenção ou esperança no sentido clássico. Era apenas uma concessão para a beleza de todas as coisas.
Tropeçando,
ele sentou-se ao meu lado, falando alguma coisa em um idioma incompreensível.
Fixei com precisão os cabelos pesados e pretos contornando o rosto e os olhos
semifechados que, vistos daquele ângulo, representavam algum desencanto.
Fumamos haxixe, rindo, bebendo um bocado de vinho. Caminhamos abraçados,
bailamos na tenda de dança. Duas horas depois do encontro casual, poupando o
embaraço, ele me arrastou pela mão e me levou a sua barraca. Antes de tirar a
roupa e ficar completamente desnudo, mostrou um documento, revelando seu nome, Miklós,
e a nacionalidade húngara. Fiz o mesmo. O idioma oficial da Hungria é uma
língua urálica, não indo-europeia, o que a torna única na Europa e
frequentemente considerada difícil. Mudei-me para sua barraca. Passamos os
quatro dias juntos. Shows, sexo e vinho. Lembro-me dos bons momentos arrancados ao álbum de estreia dos Elbow “Asleep
in the Back”, e a seguir o mergulho no horizonte de um sol
em bola de fogo que
pintou o céu de magníficos tons de vermelho.
A noite caiu e com ela veio Alison Goldfrapp, a musa inglesa senhora de uma música que tanto brilha no azul infinito do céu como arde nos abismos profundos do inferno. A gente conversava muito, ele em húngaro e eu em português, caindo quase sempre na gargalhada com a incompreensão mútua. Falei sobre o Brasil. Afirmei que não há nada de admirável em se orgulhar de um país onde pessoas vivem nas calçadas, onde crianças ainda lutam por acesso básico à educação, onde doentes enfrentam filas homéricas em hospitais e onde literatura, em muitos casos, virou artigo de luxo. Não há virtude alguma em se sentir um privilegiado em um cenário onde o essencial falta. Numa nação onde corrupção é regra, bandido é herói e político esquerdista é tratado com impunidade, essa conta encontra o mesmo destino: o bolso de quem trabalha, paga impostos e sustenta tudo isso sem esperança. Eu e Miklós estávamos sempre juntos. Eu já sabia que o desejo amoroso não elimina a dureza da vida, mas a torna suportável, dá sentido ao caos e ilumina até os dias mais escuros.
Talvez seja um desperdício grande gastar energia com o que é pequeno. Brigar por banalidades, se perder em discussões estéreis, alimentar divisões que pouco acrescentam — tudo isso apenas nos afasta daquilo que realmente importa. A vida é breve demais para ser desperdiçada com o que não constrói. Estou ao lado dos sentimentos mais líricos. Escrevo o que precisa ser dito. Demonstro. Porque, no fim das contas, tudo o que existe no mundo é menor do que aquilo que sentimos por quem amamos. Miklós não era ingênuo. Sabia que nada era para sempre, assim creio. O desejo erótico pode ir longe — mas não vai até o fim de tudo. Há mistérios que o destino não esgota. E há verdades que só se deixam conhecer pela fé. E aqui está o pulo do gato: para mim, razão e fé não brigam, se completam. No último dia, com todos desmontando suas barracas, nos perdemos propositalmente no “Franklin Freak Show”. “Agora me diz que não restará nada de mim em sua memória, nem mesmo uma imagem?”. Foram as derradeiras palavras em tradução apaixonada que inventei.
A noite caiu e com ela veio Alison Goldfrapp, a musa inglesa senhora de uma música que tanto brilha no azul infinito do céu como arde nos abismos profundos do inferno. A gente conversava muito, ele em húngaro e eu em português, caindo quase sempre na gargalhada com a incompreensão mútua. Falei sobre o Brasil. Afirmei que não há nada de admirável em se orgulhar de um país onde pessoas vivem nas calçadas, onde crianças ainda lutam por acesso básico à educação, onde doentes enfrentam filas homéricas em hospitais e onde literatura, em muitos casos, virou artigo de luxo. Não há virtude alguma em se sentir um privilegiado em um cenário onde o essencial falta. Numa nação onde corrupção é regra, bandido é herói e político esquerdista é tratado com impunidade, essa conta encontra o mesmo destino: o bolso de quem trabalha, paga impostos e sustenta tudo isso sem esperança. Eu e Miklós estávamos sempre juntos. Eu já sabia que o desejo amoroso não elimina a dureza da vida, mas a torna suportável, dá sentido ao caos e ilumina até os dias mais escuros.
Talvez seja um desperdício grande gastar energia com o que é pequeno. Brigar por banalidades, se perder em discussões estéreis, alimentar divisões que pouco acrescentam — tudo isso apenas nos afasta daquilo que realmente importa. A vida é breve demais para ser desperdiçada com o que não constrói. Estou ao lado dos sentimentos mais líricos. Escrevo o que precisa ser dito. Demonstro. Porque, no fim das contas, tudo o que existe no mundo é menor do que aquilo que sentimos por quem amamos. Miklós não era ingênuo. Sabia que nada era para sempre, assim creio. O desejo erótico pode ir longe — mas não vai até o fim de tudo. Há mistérios que o destino não esgota. E há verdades que só se deixam conhecer pela fé. E aqui está o pulo do gato: para mim, razão e fé não brigam, se completam. No último dia, com todos desmontando suas barracas, nos perdemos propositalmente no “Franklin Freak Show”. “Agora me diz que não restará nada de mim em sua memória, nem mesmo uma imagem?”. Foram as derradeiras palavras em tradução apaixonada que inventei.
Ao lado do
aglomerado de palhaços exibindo entranhas de pano, barbies com cabeças
reptilizadas, frascos conservando embriões de bichinhos de pelúcia mutantes, o
olhei de longe, ele me procurava. Havia nostalgia nos seus gestos. Deixei o
circo, guardando no coração sua voz em húngaro. O clarão do sol massacrava sem
piedade os alucinados. Banhei-me no rio para animar o corpo, preparando-me para
partir. Por onde andaria o príncipe de olhos quase fechados? “Agora me diz que
não restará nada de mim em sua memória, nem mesmo uma imagem?”. Na altura do
tempo em que ficamos juntos, a lua me pareceu melancólica. Talvez eu tivesse
falado sobre a poesia da tristeza lunar. Dei por mim que sentia saudades
através dessas recordações suaves e recorrentes. Indefeso, pensei em anotar sensações,
fotografar pedaços de corpos, gravar frases na pele, fazer um mapa da situação
irreverente. Ler e escrever não são apenas habilidades — são ferramentas de
liberdade, atos de rebeldia. Quem lê pensa bem melhor. Quem escreve se posiciona firmemente no
mundo, nesse tempo em que tanta
gente vive de repetir discursos vazios prontos.
Ah, a felicidade retumbante quando ele passou o braço em volta do meu pescoço, beijou-me docemente e seguimos inventando conversas e situações improváveis. A conversação em si não era engenhosa, principalmente porque não havia tradução lógica, nem uma troca verbal coerente. Ainda assim, Miklós ficou tatuado em mim para sempre. Mesmo com uma memória pouco privilegiada, ainda hoje eu o recordo, vinte e cinco anos passados. Pouco antes de partir, contemplei a lua explodindo em rutilância e jovens dançando de olhos semi-fechados, como se cantassem o nosso refrão: “Nem mesmo uma imagem”. Jamais me esquecerei desse festival musical de inquietudes. Aprendi que os festivais dão continuidade a este estado de espírito romântico, onde a tortura musical se insinua entre veredas e clareiras, numa espécie de missa ao ar livre apelando aos deuses da floresta. Em pleno contato com os elementos abençoados, experimentei sem limites a vida selvagem, acompanhado de um cajado para os passeios ao redor do festival e às vezes usando flores no chapéu-panamá. Um programa para moços pós-modernos e para o stress urbano-depressivo pós-laboral.
Por fim, de forma instantânea, possuído pelo fulgor do passado recente, sem ter mais certeza da veracidade das coisas, caminhei em sentido inverso ao movimento coletivo. Textura, prazer, encantamento, surpresa! Como se cada detalhe tivesse sido pensado para lembrar que viajar não é marcar pontos no mapa — são imprevistos que ficam na memória, como uma história completamente inesperada ocorrida no Alentejo. E essa, de um garoto chamado Miklós, foi daquelas que pensamos: “isso não estava no roteiro”. E não estava mesmo.
Ah, a felicidade retumbante quando ele passou o braço em volta do meu pescoço, beijou-me docemente e seguimos inventando conversas e situações improváveis. A conversação em si não era engenhosa, principalmente porque não havia tradução lógica, nem uma troca verbal coerente. Ainda assim, Miklós ficou tatuado em mim para sempre. Mesmo com uma memória pouco privilegiada, ainda hoje eu o recordo, vinte e cinco anos passados. Pouco antes de partir, contemplei a lua explodindo em rutilância e jovens dançando de olhos semi-fechados, como se cantassem o nosso refrão: “Nem mesmo uma imagem”. Jamais me esquecerei desse festival musical de inquietudes. Aprendi que os festivais dão continuidade a este estado de espírito romântico, onde a tortura musical se insinua entre veredas e clareiras, numa espécie de missa ao ar livre apelando aos deuses da floresta. Em pleno contato com os elementos abençoados, experimentei sem limites a vida selvagem, acompanhado de um cajado para os passeios ao redor do festival e às vezes usando flores no chapéu-panamá. Um programa para moços pós-modernos e para o stress urbano-depressivo pós-laboral.
Por fim, de forma instantânea, possuído pelo fulgor do passado recente, sem ter mais certeza da veracidade das coisas, caminhei em sentido inverso ao movimento coletivo. Textura, prazer, encantamento, surpresa! Como se cada detalhe tivesse sido pensado para lembrar que viajar não é marcar pontos no mapa — são imprevistos que ficam na memória, como uma história completamente inesperada ocorrida no Alentejo. E essa, de um garoto chamado Miklós, foi daquelas que pensamos: “isso não estava no roteiro”. E não estava mesmo.
do livro de contos
“Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano” (2012)









_-_Google_Art_Project.jpg)










Nenhum comentário:
Postar um comentário