julho 21, 2022

............................................................................. O ELOGIO da VIAGEM

paris, frança



Solte suas amarras. Afaste-se do porto seguro. 
Agarre o vento em suas velas. 
Explore. Sonhe. Descubra.
MARK TWAIN
(1835 – 1910. Flórida, Missouri / EUA)
 
Se você acha que a aventura é perigosa, 
experimente a rotina, é mortal.
PAULO COELHO
(1947. Rio de Janeiro, RJ / Brasil)

Fotos:
ANTONIO NAHUD
 
 
Uma das melhores sensações da vida é a de chegar em uma cidade desconhecida e traduzir os seus contornos. A língua local, os costumes, os rostos típicos, a paisagem. Uma estrada desenhada por adivinhações, um vestígio dos sentimentos de descoberta que os meninos vivenciam e os adultos ignoram. Na idade madura, só o amor provoca essa novidade, esse desatino de ir sem saber para onde. Aventureiro, agarro-me insaciável ao desejo de viajar, descartando lugares onde meu coração não pulsa. A viagem é uma porta gótica escancarada, uma lâmpada que arde na escuridão sem se apagar, um milagre como uma chuva de estrelas cadentes. É um par de asas que substitui os pés. Nos dias de tédio, de revolta contra a sabotagem da esquerda aloprada, de angústia provocada pela barbárie da solidão ou da limitação insuportável de dinheiro, conforto-me com recordações transcendentes de viagens. Geralmente esqueço os acontecimentos desagradáveis. Por exemplo, não há nada mais enfadonho do que lembrar problemas em alfândegas, a sujeira das ruas de Roma ou a péssima comida de Londres.
 
Viajar significa guardar no coração o sublime do visto e vivido, aprender com o incógnito ou somente fugir da rotina cotidiana? Lembro com embevecimento do canto do Alcorão numa madrugada marroquina, o inverno nos Pirineus espanhóis, a casa esbelta de George Orwell, os antros delirantes do Bairro Alto lisboeta, a névoa do Lago Ness, noites lúdicas em Sintra, um encontro místico no parque El Retiro em Madri, certas identificações com museus parisienses, um barco em alto mar iluminado por lua cheia em Boipeba, o deslumbramento da Floresta Negra na Alemanha, os bosques austríacos montanhosos, daiquiris em Cuba, fontes italianas, livrarias argentinas, igrejas barrocas mineiras etc.

fez, marrocos
Deixar de viajar é um suicídio lento. Viajar rejuvenesce a alma, aclara o pensamento. Nos autoriza a enxergarmos diferente, sem as contrariedades e os naufrágios do dia a dia. Nos deixa livre para sermos poéticos e até para procurar o que possivelmente não existe. É um santo remédio contra o provincianismo, a monotonia ou a maledicência de quem não tem mais o que fazer. Com o pé na estrada, escritores e poetas construíram sua obra: Rilke, Michaux, Rimbaud, Ginsberg, Whitman, Gide, Bowles etc. Sempre soube que no dia em que eu não pudesse mais viajar, nem a viagem interior, a do leitor de livros, o mundo teria para mim a opressão de uma jaula.
 
Cada viajante tem a sua sorte. Como disse Paul Bowles e Bruce Chatwin, virtuosos escritores-viajantes, “o importante é ser viajante, nunca turista”. O turismo vive de vaidades, destruindo simultaneamente as cidades litorâneas do Nordeste brasileiro, assim como as selvas da Costa Rica. Compare, por exemplo, Pipa ou Porto Seguro, o que foram um dia e o que são hoje. Uma tragédia! Tive a sorte de ter elegido uma profissão que me permitiu viajar. Aprecio explorar cidades além do convencional. Nunca deixo de ir ao cinema ou ao teatro local, mesmo que não entenda o idioma.
 
As igrejas e os templos fora da rota turística são indispensáveis, assim como os mercados populares, zonas sórdidas, cemitérios, bares frequentados por fracassados, mosteiros, castelos, bosques e rios. Não se descobre segredos em um mundo explorado. Visitar a Torre Eiffell ou o Corcovado é redundância. Também é inútil acumular monumentos em poucas horas, gastar fotografias, ouvir lengalenga de guias. Bom é passear sem destino, parar, observar. É preciso viajar para deixar a cabeça girar e exercitar o cérebro. Primeiro elegendo um destino como se elege um amante. Haverá que pesquisar, observar, intuir, arriscar.
 
Conheço gente que leva na bagagem seus vícios burgueses. Investe em compras fantásticas, discotecas enlouquecidas, hotéis de luxo. Os cruzados da Idade Média viajavam para salvar a alma e viver aventuras. Os turistas obcecados pelo consumo apenas disfarçam o vazio de suas existências. Viajar é pedir pouco, apostar no inesperado, compreender que o movimento cura a melancolia. Como dizia Robert Louis Stevenson, “quando viajo peço somente o céu sob meu corpo e um caminho para os meus pés”.

antonio nahud em tânger, marrocos
Viajei inúmeras vezes com o dinheiro contado. Chegava na cidade estrangeira e fazia serviços simplórios em troca de alimentação, hospedagem ou alguns trocados. Cuidei de jardins, carreguei malas em pensões e albergues, fui ajudante de cozinha, colhi laranjas e uvas, trabalhei em tavernas, ajudei a carregar mesas e cadeiras para shows etc. Valia a pena. Nunca ficava mais de uma semana e nas horas vagas conhecia o lugar. O meu trabalho mais estranho aconteceu no Reino Unido, num inverno rigoroso, numa granja onde eu passava o dia depenando dezenas de perus. Era uma Torre de Babel. Ao meu lado, croatas, chineses, marroquinos e italianos. Ninguém entendia ninguém. Com o bom dinheiro que recebi, passei quinze dias viajando pela Irlanda, País de Gales e Escócia.
 
Pela primeira vez em Londres, hospedei-me no apartamento de um amigo de infância, um escultor, na agradável Wimbledon. Ele preparava jantares impecáveis, dava dicas das melhores galerias e me apresentou aos debates na BBC da inteligente Germaine Greer. Foi válido, mas não era bem o que eu queria. Mudei-me para um prédio vitoriano invadido por jovens, sem energia elétrica, aquecimento ou água canalizada, num turbulento bairro de negros e imigrantes: Elephant and Castle. Do meu quarto no último andar, iluminado por velas em candelabros, escrevi poemas e organizei reuniões festivas. Uma experiência enriquecedora, e eu somente o abandonei quando neo-nazistas ameaçaram atear fogo no local. Dias antes haviam queimado uma família de hindus. Perigos existem, mas o êxito de uma viagem depende do aprendizado e da entrega apaixonada, e nada disso se encontra em grupos turísticos, hotéis requintados ou numa loja de souvenires. Sempre deixei de lado mordomias e apostei no misterioso. Viajava sem problemas. Com a experiência de anos como viajante, a vida floresceu, completando a peça que faltava no quebra-cabeças interior. Entre outras coisas, porque a memória - intelectual, espiritual, erótica - tornou-me um cidadão do mundo.
 
Atualmente não tenho reservas financeiras para viajar nem juventude para me arriscar. Vivo no limite. Isso me desgasta, me envelhece. Viajar é fundamental para a felicidade. A última viagem que fiz foi em 2017. Estive na Espanha e Suíça. Foi uma experiência milagrosa, embora na época eu estivesse possuído por uma sonífera depressão pós-morte de Morvan. Lembro especialmente de Sevilha. Uma bela cidade que se caracteriza por seus bairros antigos preservados, suas cores, suas laranjeiras carregadas de frutas, suas ruas pitorescas, pelo céu azul e pela luz peculiar. Some-se a isso sua história e personagens literários.

catedral de notre dame, paris
Quando a conheci pela primeira vez em 2004, Sevilha já possuía fortes conotações culturais para mim. Desde sempre, era o local que eu associava a Carmen, a Velázquez - que nasceu na cidade –, à figura de Figaro e à estória de Don Juan, que inspirou Molière e Mozart. Ao passar ao longo do muro da antiga Real Fábrica de Tabacos, atualmente sede da Universidade, pensava que é lá onde trabalha a fictícia sedutora Carmen e cantarolava alguma ária da ópera de Bizet.
 
Cervantes menciona Sevilha frequentemente em sua obra. Caminhando pela cidade, vi duas placas, ambas de azulejos, comemorando o escritor. Em 1999, em entrevista publicada pela revista “Sibila”, o poeta João Cabral de Melo Neto, que morou em Sevilha mais de uma vez e dedicou a ela os poemas recolhidos no livro “Sevilha Andando”, perguntado sobre que imagem lhe vinha à cabeça quando pensava na cidade, respondeu: “Acho que é a calle Sierpes, a rua principal. Chama-se Sierpes por isso, porque ela não é reta”. Haverá forma mais bonita de celebrar uma cidade do que o famoso poema dele “Sevilhizar o Mundo”?
 
Como é impossível, por enquanto,
civilizar toda a terra,
o que não veremos, verão,
de certo, nossas tetranetas,
 
infundir na terra esse alerta,
fazê-la uma enorme Sevilha,
que é a contra-pelo, onde uma viva
guerrilha do ser, pode a guerra.
 
Ainda em Sevilha, encontrei uma placa de azulejos colocada em homenagem ao poeta Antonio Machado, nascido na propriedade em 1875, pois seu pai era advogado ou administrador dos Duques de Alba, que alugavam casas no recinto de seu palácio. Ver essa homenagem foi comovente porque, na adolescência, em Itabuna, minha professora de literatura era admiradora de sua poesia e muitas de suas aulas eram passadas dissecando obras suas. Anos depois, morando em Barcelona, visitei seu túmulo em Collioure, na França.

antonio nahud na notre dame, paris
O grande Antonio Machado, nascido no Palacio de las Dueñas e que depois de se mudar para Madri, em 1883, aos oito anos de idade, nunca mais moraria em Sevilha, lembraria-se para sempre, como mostra sua poesia, dos “naranjos encendidos”, do “limonero lánguido”, da “tarde alegre y clara”. Seus versos fazem referência a Sevilha, fonte para ele de paz, beleza, harmonia. Mesmo estrangeiro e de passagem, senti o mesmo que o poeta.
 
Conheço bem o Brasil. Gostaria de revisitar certos países e algumas cidades brasileiras. Sem grupos turísticos, sem parceiros, eu e a vontade de contemplar o belo. Talvez não seja possível. Talvez as oportunidades tenham passado. Mas não há queixas. Com poucos recursos, vi e aprendi mais do que muitos afortunados. E a vida segue. A morte, quem sabe, pode ser uma grata surpresa. Talvez com lugares formosos para conhecer e guardar eternamente no espírito, sem a necessidade de dinheiro no bolso ou a preocupação capenga de pagar contas ou não morrer de fome. Ah, aqui encerro esse êxtase, garantindo que viajar me tornou modesto. Vi o lugar minúsculo que ocupo no mundo. Portanto, fica a recomendação: viva, viaje, aventure-se, abençoe e não se arrependa!

ÁLBUM de FOTOGRAFIAS

Barcelona (Espanha), Sintra e Lisboa (Portugal), Granada (Espanha). Gruyères e Genebra (Suíça), Aix-en-Provence e Paris (França), Tânger (Marrocos), Veneza (Itália) e Salvador (Bahia).



junho 24, 2022

......................................................................... A LUZ dos VAGA-LUMES

 

 
Voava a luzinha verde, vindo mesmo da mata, o primeiro vaga-lume. Sim, o vaga-lume, sim, era lindo! Tão pequenino, no ar, um instante só, alto, distante, indo-se. Era, outra vez em quando, a alegria.
GUIMARÃES ROSA
(1908 - 1967. Cordisburgo / Minas Gerais)
Primeiras Estórias (1962)  
 
O instante-já é um pirilampo que acende e apaga, acende e apaga. O presente é o instante em que a roda do automóvel em alta velocidade toca minimamente no chão. E a parte da roda que ainda não tocou, tocará num imediato que absorve o instante presente e torna-o passado. Eu, viva e tremeluzente como os instantes, acendo-me e me apago, acendo e apago, acendo e apago.
CLARICE LISPECTOR
(1920 - 1977. Chechelnyk / Ucrânia)

Água Viva (1973)
 
 
O passado é apenas alguma coisa que acabou, mas também renasce das cinzas da memória quando menos esperamos. Ao encontrar uma série de fotografias feitas por Morvan França (1987 – 2016. Belo Horizonte / Minas Gerais), na última vez que visitamos Galinhos, no Rio Grande do Norte, em 2014, pensei imediatamente em vaga-lumes. Essas imagens poéticas merecem compartilhamento. Galinhos é uma península encantada que nos recebeu várias vezes. Fomos felizes naquele pedaço de chão. A gente fazia sexo em tudo que é lugar. Na Ilha das Cobras, nos barcos dos pescadores, nas salinas, no farol, no mar sem fim, na rede, nas dunas, nas ruas desertas, nas piscinas naturais. Por fim, seria o túmulo de Morvan.

Na primeira vez que lá estivemos, em 2012, Morvan ficou tomado por uma felicidade comovedora, quase infantil, inédita em sua personalidade desiludida. Na calada da noite, deslumbrado com a alegria de viver, arrastou-me sem destino pela vila e praias. Não havia ninguém. Nenhuma viva alma. Tudo à meia-luz. De repente, ele correu como um louco. Mais adiante parou, tirou toda a roupa e desnudo abraçou o tronco de uma árvore frondosa. Eu me aproximei sem entender o que acontecia. Ele estava coberto de pequenas luzes. Todo o local tomado por vaga-lumes. Em êxtase, era a primeira vez que ele via pirilampos em sua vida. Ria com essas centelhas por todo o seu corpo, deslumbrado de se achar assim enfeitado de joias.
 
Os mágicos insetos bailavam no negrume e Morvan falava palavras emocionadas. Das noites que se foram, do seu tempo de menino e dos vaga-lumes que não conhecia e tanto dizem ao coração. Ele me beijava, ele delirava. “Você percebe? Os vaga-lumes iluminam a alma”, afirmou. Tendo passado a maior parte da existência sob as luzes cruas da cidade, o sutil piscar dos bichinhos nunca fez parte do seu cotidiano. “A poluição luminosa das cidades tornou inviável a vida desses insetos, ofuscou seu brilho. Os que restaram se escondem nos mesmos lugares que as abelhas e as borboletas: bem longe de nós.”, disse.
 


Entre os vaga-lumes, nos abraçamos e deitamos na areia. Morvan falou de Pasolini. De uma crônica em que o poeta italiano compara a luz ofuscante dos projetores da propaganda fascista com as pequenas luzes de resistência, de arte e beleza, de momentos cheios de humanidade, tão frágeis quanto autênticos, que ele chamava de vaga-lumes. Discretos, fugazes, mas insistentes, incansáveis. Esses momentos de inspiração, de brilho cotidiano, lembram que somos resilientes e amorosos. Durante um bom tempo, sua voz pausada continuou falando dos vaga-lumes. Era um moço muito inteligente. Estudava biologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte e sabia mais do que os próprios professores.
 
Aquela noite imortal, ensinou-me que os povos astecas acreditavam que a luz dos vaga-lumes sinalizava instantes de perspicácia e de conhecimento, uma ação combativa onde antes havia a escuridão. Da obra de Pasolini, os vaga-lumes aparecem como personagens erráticos, intocáveis e resistentes em momentos de alegria e furor, resistindo ao mundo opressor. A fala de Morvan foi um dos bonitos momentos da minha vida. No escuro, ao som do mar, avistando a lua, a árvore frondosa, centenas de vaga-lumes e ele desfilando sensibilidade. Seus olhos eram luzes tão frágeis quanto os próprios vaga-lumes. Ou como as estrelas, que embora sejam astros gigantescos, daqui de onde estamos são apenas luzinhas minúsculas.
 
As luzes tem algo de místico que nos faz perguntar como pode ser tão fantástica a natureza. Por isso, a alegria da visão de uma estrela ou de vaga-lumes. Aquele momento foi de inspiração. Tomado pela sortilégio, percebi o abismo futuro, mas nada revelei, mastigando o silêncio emocionado. Na mente vidente, soube que os fantasmas do fascismo assombrariam nossas vidas. Soube dos ímpetos irados, da banalização, da intolerância e da maldade, de todas as incertezas e da solidão de todos nós. Os insetos de luz me disseram tudo isso, mas só me importava a felicidade inédita de Morvan. Depois de um longo tempo, entre voos e pousos nos nossos corpos, eles partiram, deixando-nos tomados pela benção de Deus.
 

Essa noite me marcou. Aprendi a procurar o brilho de vaga-lumes, de capturá-los em essência, de refletir sua luz. Sei que eles não desapareceram, apenas migraram para outras consciências, fugindo dos holofotes que os confundem. Alguns estão bem perto de nós, nos roçam na escuridão; outros partiram além do horizonte, tentando refazer em outro lugar sua comunidade, sua minoria, seu desejo partilhado. Cabe a nós encontrá-los. Persistente, defendo o amor. Os vaga-lumes do coração representam as diversas formas de resistência da cultura, do pensamento e do corpo diante das luzes ofuscantes da sobrevivência, da política e da mídia. Acredito que a experiência luminosa do amor ainda é possível.
 
Sendo assim, apresento Galinhos para amantes capazes de enxergar vaga-lumes. Galinhos não é magia, não é miragem. É um milagre natural. A receita duna, vento e tranquilidade segue inabalável na formosa e pequena vila de pescadores. Bucólica e semideserta, é desses oásis resguardado do turismo de massa graças à localização estratégica. Uma península com águas turquesa, salinas e manguezais, habitat de peixes e frutos do mar. A tranquilidade reina no ritmo dos ventos e das marés. Nesse pequeno vilarejo a 170 km de Natal, capital do Rio Grande do Norte, paira a sensação de que o tempo se arrasta infinitamente.
 
O mar calmo quase sem ondas, barcos de pescas, pássaros de variadas espécies, o vento movendo lentamente as dunas, o trapiche, nativos cordiais sentados nas calçadas, bancos de areia que se formam em meio ao oceano, o Farol, salinas naturais formando pirâmides, imponentes parques eólicos lembrando moinhos de D. Quixote e a rusticidade local criam uma atmosfera poética memorável. Com mais de dois mil habitantes, é favorável à pesca e concentra cardumes de peixe-galo, daí a origem do nome do município.
 

Até 1963 pertencia a São Bento do Norte, e, no período colonial, foi propriedade do padre jesuíta João de Melo. Reúne manguezal, sertão e caatinga. Quem pisa em suas areias, geralmente, é turista que aprecia locais agrestes, sem badalação. Essa tranquilidade seduz europeus, em particular portugueses e franceses. Os bons ventos que sopram na região atraem os praticantes do kitesurf e windsurf. No passeio de barco, escoltado por águas limpas, avistamos o imenso céu azul, o branco opaco das salinas que abastecem os mercados internacionais, arbustos verdes do mangue e areias amareladas das dunas.
 
Do alto das montanhas de areia, avista-se o pacato vilarejo e o mar aberto que emolduram a paisagem paradisíaca. Não há agências de turismo, mas os próprios moradores se oferecem como guias. Para circular, aluga-se uma charrete, conhecida como “jegue-táxi”, o único meio de transporte disponível. Nesse panorama ao sol, moram artistas e poetas, entre eles o escultor açoriano João Monteiro e o poeta de Touros (RN), Ivo Rodrigues Ribeiro. Monteiro produz esculturas de figuras humanas e animais, em imburana, mantendo seu atelier aberto para visitação, embora não comercialize suas obras. Ivo louva a terra de adoção em versos:
 
Galinhos de brancas velas
De dunas e praias bonitas
A sua beleza imita
O puríssimo céu azul.
 
De areias quentes, sol escaldante e águas mornas, a verdadeira magia de Galinhos está na simplicidade. Uma das suas atrações é a Praia do Farol. Extensa, ela não tem falésias, tem sossego, cenários das mil-e-uma-noites e piscinas naturais na Ponta do Farol, local perfeito para curtir o pôr-do-sol. Por volta das 17h30, o astro-rei se transforma numa imensa bola de fogo e inicia seu mergulho no horizonte. Como nem tudo é perfeito, a cidade sofre com problemas de saneamento básico, coleta de lixo e abastecimento de água.
 

Galinhos convida à contemplação, preguiça e desapego ao corre-corre das grandes cidades. Lugar de paisagem preservada, sem poluição, carros, violência, muvuca. Um paraíso para quem procura serenidade. Não há muito o que fazer, a não ser curtir o sossego e o sol, numa região onde quase nunca chove. Panorama para aproveitar, sem culpa, uma temporada de ócio ou de amor. Se der sorte, quem sabe, até mesmo encontrar na noite uma revoada de vaga-lumes que pousem em corações apaixonados.
 
Supondo que os mortos revisitem os lugares onde foram felizes, Morvan seria capaz de voltar para ver como andam os vaga-lumes de Galinhos. Seria isso satisfatório? Valeria a pena? Não há motivo para questionar isso agora. Tudo não passa de miragem de outra época. Algum estímulo, nada mais, para a meia-idade e a solidão. É tudo, absolutamente tudo, simbólico. Do fundo do coração, agradeço a essas memórias por sua beleza. Elas tornam o presente maravilhoso, e a própria vida impactante. Para mexer comigo, recordo cidades, aventuras e amores. Mas o romantismo não se deixa desconcertar. Quer mais. Está predisposto à embriaguez do devaneio.
 
Sempre me lembrarei da luz dos vaga-lumes de Galinhos. Ela ainda brilha, como centelhas de fósforos, mas eu não a vejo muito bem. Nesse momento, no passado, Morvan com gritos de entusiasmo corre para o mar. Inteiramente nu, mergulhando dentro da água, como um destemido guerreiro nativo. Decidido a cumprir seus ritos de purificação. Era uma incrível visão: um homem limpo, livre, despojado. Envolvido na semi-escuridão, eu o observava, feliz por ele, por mim, pelos vaga-lumes já distantes com seu clarão. Mas essa longa noite terminou; cedeu lugar ao presente. E, exatamente como as águas do oceano invadindo a noite, a consciência que não é de ninguém, em particular, mas que contém a todos e a tudo, passado, presente e futuro, se estende, ininterrupta, para além dos mais sensíveis contos de amor e dor.


LEIA sobre MORVAN
 
FOTOGRAFIAS de MORVAN FRANÇA


Eu e GASTÃO
Fotos de MORVAN FRANÇA

maio 20, 2022

................... MARIA GABRIELA LLANSOL: o OUTRO LADO da LUA


 

O poema é solitário. É solitário e vai a caminho. 
Quem o escreve torna-se parte integrante dele.
 
Tantos poetas, tão pouca poesia. 
A poesia não é para nós, é para o fim de nós.
 
Fotografias: 
DUARTE BELO
(1968. Lisboa / Portugal)
 
 
Acredito em um encantamento místico que sublima a realidade. Enigmático, por vezes experimentado quando atravessamos os limites do jardim do bem e do mal. Esse jardim, real ou metafórico, sonhado ou vivido, protege um cotidiano razoável, onde as névoas dos costumes sociais e do desassossego se destacam. Nele, praticamos uma moral amparada em dogmas, temores e tabus. Com o tempo, nos tranquiliza a possibilidade da felicidade que surgirá de repente, até compreendermos que a felicidade é fugaz e somente deixa saudades.
 
Fugir desse jardim seria sensato. Fugir para aventurar-se. Além dele, há O OUTRO LADO da LUA. Sem superar mediocridades, crenças estúpidas e convicções fajutas ou sem nos confrontarmos com os desenganos, seremos robotizados. O bonito da vida é abandonar-se nos braços – nos braços imensos – do misterioso, em busca de uma existência desnuda. Ir além do jardim, entre tropeços e acertos, sacrifícios e resiliências. Morando em Sintra, Portugal, soube de uma vizinha escritora além desse jardim. Autora de escrita onírica, filosófica, metafísica. Uma inclassificável literatura libertária, ponte entre o sonho e a vigília.
 
Bati na sua porta. MARIA GABRIELA LLANSOL, (1931 – 2008. Lisboa / Portugal), a autora da trilogia “Geografia de Rebeldes”, sorriu gentilmente. A penumbra enluarada preenchia a paisagem com tons dourados. Falei sem receio da consideração por sua escrita. Escutou com paciência quase maternal. Por fim, convidou-me para tomarmos um café no dia seguinte. Na hora, o coração tomou-se por um assombro lúdico. O mesmo havia acontecido ao conhecer Paul Bowles em Tânger, Hilda Hilst na Chácara do Sol, Al Berto numa tasca de Lisboa ou Doris Lessing num subúrbio londrino. Sonâmbulo, vaguei noite adentro pelos melindres de Sintra.
 
Vaguei nessa vila em que tudo pode conhecer, desde árvores que falam a luas que se duplicam. Perder-se naquelas ruas estreitas e mágicas era constatar que o tempo não existe. Fazia perguntas ao vento. Quanto tempo terei para escrever sensações? Quantas primaveras estão à disposição? Questionamentos desimportantes, que fazem parte do jardim. O significativo são os sortilégios do OUTRO LADO da LUA. No horário marcado do encontro, apareci com um buquê de narcisos, e lá estava ela: baixa estatura, meiga, cabelos grisalhos presos num coque, vestida como uma camponesa com um bonito xale negro. Uma aparição de contos de fadas!

Ofereceu café e queijadas. Enveredamos pelos caminhos do pensamento, falando da literatura que vem da alma, de ausências sentidas, de poetas e da nossa história. Ela transmitia paz. Nos presenteamos com livros, silêncios, cumplicidades. Iluminando o esplendor do Monte da Lua, visto através da janela, a lua domava a escuridão. Depois de cerca de duas horas, despedi-me. Sentia-me abençoado, como uma criança saciada. Subi o caminho que leva à Quinta da Regaleira, asfixiado pelo perfume de amores-perfeitos, parecendo que tudo girava. Segui em frente, como se lá em cima acabasse o mundo. A vertigem tomando conta do meu ser.


Durante o tempo em que morei em Sintra, no final dos anos 1990 e início dos 2000, voltamos a nos encontrar outras vezes. A senhora de olhos profundos, por vezes mergulhando no silêncio contemplativo, morava numa casa antiga, amarela, com uma buganvília à porta. Sua moradia era um acumulo de heranças que vinham dos avós, dos pais, de tias, mais o que ela própria trouxe da temporada na Bélgica. Dividia o lugar com inúmeros gatos. Ganhei dela um deles, negro, vira-lata e sapeca, que dei o nome de Romeu, e meses depois desapareceu durante uma das excursões ao bosque do Palácio da Pena. Entre um gole de chá de camomila e deleitosas queijadas de cenoura, conversávamos sobre plantas, culinária, pintura, literatura brasileira.

Assistimos juntos antigos filmes de Renoir, Mizoguchi e Antonioni. Havia nela uma atmosfera de cordialidade e afeto. Era quase sempre vibrante a intensidade que vinha das suas palavras. Revelava também uma sageza feita de uma inteligência sutil e de algum humor, e sobretudo de uma enorme capacidade de ir ao encontro do ponto de vista do outro, respeitando e acrescentando sempre algo inquietante. Certa vez me tocou o coração ao falar sobre o “preço da solidão”. Eu me identifiquei plenamente. Em 2003, convidou-me para um encontro literário em torno de sua obra, na Serra da Arrábida, em Setúbal. Tive vontade de ir, mas não apareci devido a compromissos profissionais. Por fim, depois que parti de Sintra, trocamos cartas.
 
Considerada uma autora hermética e de difícil compreensão. Apontada como um dos nomes mais inovadores e importantes da ficção portuguesa contemporânea, MARIA GABRIELA LLANSOL leva às últimas consequências a criação de um universo pessoal. Estilhaça as fronteiras entre o que designamos por ficção, poesia, ensaio ou memórias. Ela iniciou sua carreira em 1962, ao publicar “Os Pregos na Erva”. Toda sua escrita é a de um questionamento, sobretudo, das formas literárias. Sua linguagem debate-se com a própria linguagem, processo autofágico que problematiza a essência do ser e, ao mesmo tempo a essência da palavra.
 
Audaciosa, a poeta traduziu ao português nomes como Emily Dickinson, Paul Verlaine, Rainer Maria Rilke, Arthur Rimbaud, Guillaume Apollinaire, Paul Éluard e Charles Baudelaire. Nos anos 60, sob o regime de Salazar, a pobreza e a opressão tinham empurrado milhares de portugueses para o exílio. Pessoas que se tornavam zeladores em Paris ou padeiros no Rio de Janeiro. A cultura de Portugal tinha se reduzido a futebol, fado e Fátima. O marido de MARIA GABRIELA LLANSOL, Augusto Joaquim, recusara-se a participar das guerras coloniais na África e desertara. Foram para a Bélgica, em 1965, numa cidadezinha chamada Jodoigne. Regressaram vinte anos depois.
 
Para o crítico e professor Eduardo Lourenço, a poeta está no âmbito de Camões e Fernando Pessoa: “Nunca será uma autora fácil e consensual. É uma espécie de fenômeno misterioso. Alguém vindo de uma outra espécie de planeta. Quem a encontra é difícil não ficar fascinado por essa escrita”. Segundo Maria João Cantinho, ela “mergulha no abismo – já não da literatura – mas da própria escrita, no que ela contém de perigosa implosão. E é nesse limiar, entre o exprimível e o inexprimível, que se sustenta o texto llansoliano”. Nesta escrita enigmática e repleta de fulgor, há uma estranheza e uma complexidade que envolvem toda sua obra. A arte de MARIA GABRIELA LLANSOL, mais do que narrativas, são conjuntos de pequenas meditações.
 
Um dos traços da sua produção consiste na negação da escrita tradicional, com inserção no texto de diferentes caracteres tipográficos, espaços em branco, traços que dividem o texto. Muitos dos seus livros foram publicados, mas seu arquivo em Sintra está abarrotado de escritos inéditos. Existem 78 cadernos, 53 agendas, 12 blocos de notas, e milhares de páginas datilografadas e organizadas pela escritora, diários, obras de juventude, um arquivo fotográfico, correspondência, uma biblioteca cujos livros estão cheios de anotações.
 
Em seu primeiro diário, a escritora afirma que os seus textos compõem um livro único. Sou llansoliano, um admirador daquela que considero uma das grandes escritoras em português, do nível de Florberla Espanca, Clarice Lispector, Sophia de Mello Breyner Andresen, Cecília Meireles ou Hilda Hilst.  Aprendi que não é em busca de enredo ou do texto mastigado tradicional que lemos MARIA GABRIELA LLANSOL, é pela fonte de energia que seus livros contêm, uma energia substancial muito além do jardim de todos nós.


POEMAS de MARIA GABRIELA LLANSOL
 
01.
Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti -------------------
----------------------------- até que a dor alegre recomece.
 
02.
Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti
até que a dor alegre recomece.
 

03.
Não resisto a contar à rapariga:
Ontem passei por um encontro entre dois rapazes que se amavam,
Curtiam, como dizes, sentados no colo um do outro. Era um amor
Humano nas raias do explícito. Aquele laço de se receberem
Mutuamente no regaço estava todavia perto de desatar-se Triste
Que assim fosse.
Havia sobre a cena uma pequena caixa, e aquele que decidira
Desunir-se escrevia o seu nome animal dentro dela. Por sua vez,
O outro para nomear o próximo, desenhou com lentidão um
Pequeno candeeiro de muitas luzes. Vi perfeitamente a progressão
Do desenho, e como ele se detinha na contemplação de cada
Anjo.
 
04.
Há-de-nós – que refulges no texto – santificado
seja o teu labor, sereno e incansável,
o azul de cada dia nos dai hoje
e assim se prolongue a noite
e o seu fruto – uma manhã de seda
tão cheia de impensado como esta;
pelas manchas das palavras que dizemos _______ nos dai
uma língua, uma trepidação de incognoscível,
não universal mas
exacta, que te atravesse, ó Há,
e rasgue na terra um jardim edénico,
desocultado,
florescendo de é, de sempre e de aqui.
 

05.
O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos.
Mas breve é o começo de um livro – mantém o começo perseguindo.
Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia.
Basta esperar que a decisão de intimidade se pronuncie.
Vou chamar-lhe fio ___ linha, confiança, crédito, tecido.
 
06.
Como a chuva não cessasse de cair em caudais,
Tiras de tinta começaram a aparecer na fotografia
O tecto da chuva rompera o abrigo da sua alma
E o verde circulava a deriva rompendo as plantas.
Elvira deixara cair seus olhos de objectiva nas
Folhas verdes. Verificava que era sobre elas e como
Elas que sempre olhara a natureza. Ver o real
Em folhas era amá-lo ininterruptamente. Essa
Contiguidade acabara por compor uma rede
Que tinha tanto de próximo como de diferente,
E a chuva não era chuva, transparecia. Eis, pensou.
Por que chove na fotografia, por que chove
Em correntes sobre as folhas?
 

07.
_______ escrevo,
para que o romance não morra.
Escrevo, para que continue,
mesmo se, para tal, tenha de mudar de forma,
mesmo que se chegue a duvidar se ainda é ele,
mesmo que o faça atravessar territórios desconhecidos,
mesmo que o leve a contemplar paisagens que lhe são tão
difíceis de nomear.
 
08.
Abro-vos a Casa numa interrogação.
A Casa é esta _____________ lugar e corpo dividido, onde meu
corpo se interroga,
reunindo os fragmentos das coisas_____________coisa é
uma janela,
a noite,
a descida rápida da temperatura húmida,
um carro que parte em frente do portão,
os lugares à volta e as suas tardes de festa em dias de verão,
o momento seguinte do silêncio,
o que nasce de nós
perto, em redor e tão longe.
 
09.
Eu sou uma sala de espera para os meus companheiros, se vierem
na piedade
na ternura
na humildade
Esta é a minha aliança
porque agora as obras que escrevo e tenho para escrever são
múltiplas, como o silêncio.


TODA a OBRA de MARIA GABRIELA LLANSOL
 
Os PREGOS na ERVA (1962)
DEPOIS de os PREGOS na ERVA (1973)
O LIVRO das COMUNIDADES (1977)
A RESTANTE VIDA (1983)
Na CASA de JULHO e AGOSTO (1984)
CAUSA AMANTE (1984)
Um FALCÃO em PUNHO (1985)
CONTOS do MAL ERRANTE (1986)
FINITA (1987)
Da SEBE ao SER (1988)
AMAR um CÃO (1990)
O RAIO SOBRE o LÁPIS (1990)
Um BEIJO DADO MAIS TARDE (1990)
LISBOALEIPZIG 1: o ENCONTRO INESPERADO do DIVERSO (1994)
LISBOALEIPZIG 2: o ENSAIO de MÚSICA (1995)
A TERRA FORA do SÍTIO (1998)
CARTA ao LEGENTE (1998)
ARDENTE TEXTO JOSHUA (1999)
ONDE VAIS, DRAMA-POESIA? (2000).
CANTILENO (2000)MARIA GABRIELA LLANSOL: o OUTRO LADO da LUA
 
DIÁRIOS
Um FALCÃO no PUNHO. DIÁRIO I (1985)
FINITA. DIÁRIO II (1987)
INQUÉRITO às QUATRO CONFIDÊNCIAS. DIÁRIO III (1996)
 
PUBLICAÇÕES PÓSTUMAS
LIVRO de HORAS I: UMA DATA em CADA MÃO (2009)
LIVRO de HORAS II: UM ARCO SINGULAR (2010)
LIVRO de HORAS III: NUMEROSAS LINHAS (2013)
LIVRO de HORAS IV: A PALAVRA IMEDIATA (2014)
LIVRO de HORAS V: O AZUL IMPERFEITO (2015)
 
TRADUÇÕES
Emily Dickinson, BILHETINHOS com POEMAS (1995)
Paul Verlaine, SAGEZA (1995)
Rainer Maria Rilke, FRUTOS e APONTAMENTOS (1996)
Rimbaud, O RAPAZ RARO (1998)
Teresa de Lisieux, O ALTO VOO da COTOVIA (1999)
Apollinaire, MAIS NOVEMBRO do QUE SETEMBRO (2001)
Paul Éluard, ÚLTIMOS POEMAS de AMOR (2002)
Charles Baudelaire, As FLORES do MAL (2003)

A CASA de MARIA GABRIELA


ALGUMAS CARTAS de MARIA GABRIELA