Há tempos, Salvador foi considerada exemplo de integração entre homem, cidade e natureza. Ela encanta pelo rico patrimônio arquitetônico, beleza panorâmica, explosão de energia afro-baiana e opções de lazer, gastronomia, cultura. Atualmente, agoniza, vivendo uma falsa democracia. A sujeira toma conta de avenidas, ruas e praças. A violência opressiva gera paranoia. A cena artística, tristemente, perde vigor, com o broxante “axé music” monopolizando mentes e corações e enchendo o saco. Maravilhas como as praias de Itapoan ou a Lagoa de Abaeté, cantadas em prosa e verso por nomes de excelência como Dorival Caymmi e Gilberto Gil, foram corrompidas pelo progresso troglodita. Movimentar-se nesta metrópole molestada exige paciência, muita paciência. Não há metrô (iniciadas em 1997, as obras ainda não foram finalizadas, enchendo o bolso de políticos) ou transporte ferroviário, corridas de táxi são um tiro (alguns taxistas abusam, circulando por caminhos mais distantes), ônibus passam quando bem entendem, sem horários concretos (pontos de parada sem bancos e geralmente sob calor escaldante, beiram o sadismo). Locomover-se de automóvel pode ser traduzido em aceitação de estacionamentos lotados, engarrafamentos e, quiçá, assalto num sinal fechado.
janeiro 09, 2013
...................... A MALTRATADA CAPITAL BAIANA é COISA NOSSA
Há tempos, Salvador foi considerada exemplo de integração entre homem, cidade e natureza. Ela encanta pelo rico patrimônio arquitetônico, beleza panorâmica, explosão de energia afro-baiana e opções de lazer, gastronomia, cultura. Atualmente, agoniza, vivendo uma falsa democracia. A sujeira toma conta de avenidas, ruas e praças. A violência opressiva gera paranoia. A cena artística, tristemente, perde vigor, com o broxante “axé music” monopolizando mentes e corações e enchendo o saco. Maravilhas como as praias de Itapoan ou a Lagoa de Abaeté, cantadas em prosa e verso por nomes de excelência como Dorival Caymmi e Gilberto Gil, foram corrompidas pelo progresso troglodita. Movimentar-se nesta metrópole molestada exige paciência, muita paciência. Não há metrô (iniciadas em 1997, as obras ainda não foram finalizadas, enchendo o bolso de políticos) ou transporte ferroviário, corridas de táxi são um tiro (alguns taxistas abusam, circulando por caminhos mais distantes), ônibus passam quando bem entendem, sem horários concretos (pontos de parada sem bancos e geralmente sob calor escaldante, beiram o sadismo). Locomover-se de automóvel pode ser traduzido em aceitação de estacionamentos lotados, engarrafamentos e, quiçá, assalto num sinal fechado.
dezembro 05, 2012
...................................................................................... PARA SEMPRE RILKE
Escreveu, entre outros, “As Elegias de Duíno” e “O Livro das Horas”. Nas “Elegias...”, sua obra maior, medita sobre a existência humana: “Se eu gritar, quem poderá ouvir-me, nas hierarquias / dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse / para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua / natureza mais potente. Pois o belo apenas é / o começo do terrível, que só a custo podemos suportar, / e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha / destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.”
Seja paciente com as coisas não resolvidas
em seu coração...
Tente amar as próprias questões...
Não procure agora as respostas
que não podem ser dadas
pois você não seria capaz
de vivê-las.
E o mais importante
é viver tudo.
Viva as questões agora.
Talvez você possa, então,
pouco a pouco,
sem mesmo perceber,
Conviver, algum dia distante,
com as respostas.
O HOMEM que CONTEMPLA
Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.
E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.
Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anônimos.
Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.
Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha ereto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.
AMO as HORAS NOTURNAS
Amo as horas noturnas do meu ser
em que se me aprofundam os sentidos;
nelas fui eu achar, como em caras velhíssimas,
já vivida a vida dos meus dias
e como lenda longínqua e superada.
Delas eu aprendi que tenho espaço
para uma segunda vida, vasta e sem tempo.
E po vezes me sinto como a árvore
que, madura e rumorosa, sobre uma campa
realiza o sonho que o menino foi
(em volta do qual apertam suas raízes quentes)
e perdeu em tristezas e canções.
A CANÇÃO do SUICIDA
Só mais um momento.
Que voltem sempre a cortar-me
a corda.
Há pouco estava tão preparado
e havia já um pouco de eternidade
nas minhas entranhas.
Estendem-me a colher,
esta colher de vida.
Não, quero e já não quero,
deixem-me vomitar sobre mim.
Sei que a vida é boa
e que o mundo é uma taça cheia,
mas a mim não me chega ao sangue,
a mim só me sobe à cabeça.
Aos outros alimenta-os, a mim põe-me doente;
compreendei que há quem a despreze.
Durante pelo menos mil anos
preciso agora fazer dieta.
A CANÇÃO do IDIOTA
Não me incomodam. Deixam-me ir.
Dizem que não pode acontecer nada.
Ainda bem.
Não pode acontecer nada. Tudo chega e gira
sempre em torno do Espírito Santo,
em torno de determinado espírito (tu sabes) —
que bem.
Não, realmente não deve pensar-se que haja
qualquer perigo nisso.
Sim, há o sangue.
O sangue é o mais pesado. O sangue é pesado.
Por vezes penso que não posso mais —
(Ainda bem.)
Ah, que linda bola;
vermelha e redonda como um Em-toda-a-parte.
Ainda bem que a criastes.
Ela vem quando se chama?
De que estranha maneira tudo se comporta,
apressa-se a juntar-se, separa-se nadando:
amigável, um pouco vago.
Ainda bem.
outubro 19, 2012
................................................................................ Os ALQUIMISTAS
Minha escrita é perfeita e minhas mãos são puras.
Detesto o mal e aborreço a iniquidade.
Fixo com meus escritos a Justiça Divina.
Sou o pincel que o Deus do Universo utiliza.
Sou o mestre do direito e da lealdade,
O senhor da Verdade e da Justiça,
O que destrói a mentira e afirma a Verdade ante os Deuses
O LIVRO EGÍPCIO dos MORTOS - Livro 182
Unindo noções de química, física, astrologia, arte, metalurgia, medicina, misticismo e religião, a prática ancestral mais difundida da ALQUIMIA é a busca da “Pedra Filosofal”, mítica substância que teria o poder de transformar tudo em ouro e, mais ainda, de proporcionar a quem a encontrar, a vida eterna e a cura de todos os males. Segundo os estudiosos, porém, os valores alquímicos vão muito além. Suas metas são simbólicas, o que significa que na verdade seus praticantes visam algo maior: a transmutação espiritual. Assim sendo, o famoso elixir da longa vida nada mais seria que um recurso próprio do organismo humano, capaz de conceder àqueles que realizam o longo processo de purificação espiritual uma vida dilatada ao infinito. É também digno de registro descobertas feitas por alquimistas ao tentar atingir a “Pedra Filosofal”: água-régia (mistura de ácido nítrico e clorídrico), arsênico, nitrato de prata, acetato de chumbo, bicarbonato de potássio, ácidos sulfúrico, clorídrico, canfórico, benzóico e nítrico, sulfato de sódio e de amônia, fósforo, a potassa cáustica (hidróxido de potássio, que permitia a fabricação de sabões), entre muitas outras descobertas.
Outro alquimista famoso que tentou criar o Homunculus foi Johanned Konrad Dippel, que utilizava técnicas bizarras como fecundar ovos de galinha com sêmen humano e tapar o orifício com sangue de menstruação. Podemos observar que esta ideia dos alquimistas ficou profundamente marcada na consciência da humanidade, e tem aparecido regularmente no imaginário popular, na forma de monstros, como nos mangás japoneses ou no mais famoso deles, Frankenstein, da obra literária de Mary Shelley. Atualmente, a ALQUIMIA se evidencia em best-sellers como a série de livros “Harry Potter” (1998 - 2007) ou o “O Código da Vinci” (2003). Paulo Coelho publicou o “O Alquimista” (1988). Acima de tudo, deixou uma mensagem poderosa: a busca da perfeição. Em um mundo tomado pelo culto ao dinheiro a à aparência, pouco preocupado com o mais íntimo, as vozes dos antigos alquimistas aparecem como um chamado para que o homem reencontre seu lado espiritual e superior; ou a que, na mais simples das análises, tenha um qualquer objetivo na vida.
outubro 06, 2012
............................................................... Das SOMBRAS: HILDA HILST
HILDA – (Bebendo e fumando) Tenho pouquíssimos amigos, pessoas de quem gosto realmente são raras. Há coisas que nos vem à mão, há vidas com muita sorte, a minha, por exemplo, mas também fiz velhacarias, nunca tive afeição ao dinheiro, só que se o homem a quem eu amava era rico, eu dizia que queria casa dinheiro jóias champagne. Sem problemas, sem remorsos. Quando digo velhacarias quero dizer que são consideradas assim no entender dos outros. Eu achava normalíssimo que um homem rico me desse dinheiro porque ainda era muito pouco, ainda que fosse muito o dinheiro, para o ouro que sou como gente, entende? Claro que tive a sorte de ter amantes muito ricos, e pai e mãe com algum dinheiro, e ainda heranças. Claro que fui muito auxiliada pelas fadas, mas também tive horas chatas demais, onde tinha de fazer a mais maravilhosa amante e estava louca para soltar uns bons peidos e coçar as canelas. Se fosse pobre daria um jeito de conseguir dinheiro de qualquer maneira, menos matando, porque não mato nem mosca nem barata nem nada. Mas arranjaria. Não sei por que falo sobre estas recordações mortas. Sei que me foi dada essa coisa tão difícil que é o saber escrever, o sentir agudo para curtir o de dentro, a vida muito funda. Pausas só quando acabo um livro, aí tomo porres, fico besta, brinco de mundana, como ontem quando me vesti como uma princesa, com um antigo modelo Denner, chamei um táxi e fui para um desses inferninhos de beira de estrada bossa rudes motoristas de caminhão e vagabundas decadentes. Fiquei tomando um uísque barato no balcão e toda a fauna me olhava pelos cantos dos olhos, ninguém se aproximava. Sorri para um homenzarrão tipo Rivelino, mas que não parecia pederasta como este, e perguntei: “O que pensa do tempo perdido de Proust?”. Nada respondeu, óbvio, e apertou a minha mão com força e virou boca adentro o pequeno copo de conhaque, de um só gole, depois pediu café, coca-cola e outro conhaque. Voltei para casa naquele monstruoso automóvel carregado de abacaxis. Ele apenas perguntou, “A madame é casada?”. Madame? Madame do cu. Estou ficando louca varrida. Mas na hora de escrever não tem quem me faça perder a cabeça, ninguém, nem nada, e na verdade só tenho a ver com quem escreve, com os bichos também. Sou mais bicho que gente, um bicho raro que escreve.













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