junho 24, 2022

......................................................................... A LUZ dos VAGA-LUMES

 

 
Voava a luzinha verde, vindo mesmo da mata, o primeiro vaga-lume. Sim, o vaga-lume, sim, era lindo! Tão pequenino, no ar, um instante só, alto, distante, indo-se. Era, outra vez em quando, a alegria.
GUIMARÃES ROSA
(1908 - 1967. Cordisburgo / Minas Gerais)
Primeiras Estórias (1962)  
 
O instante-já é um pirilampo que acende e apaga, acende e apaga. O presente é o instante em que a roda do automóvel em alta velocidade toca minimamente no chão. E a parte da roda que ainda não tocou, tocará num imediato que absorve o instante presente e torna-o passado. Eu, viva e tremeluzente como os instantes, acendo-me e me apago, acendo e apago, acendo e apago.
CLARICE LISPECTOR
(1920 - 1977. Chechelnyk / Ucrânia)

Água Viva (1973)
 
 
O passado é apenas alguma coisa que acabou, mas também renasce das cinzas da memória quando menos esperamos. Ao encontrar uma série de fotografias feitas por Morvan França (1987 – 2016. Belo Horizonte / Minas Gerais), na última vez que visitamos Galinhos, no Rio Grande do Norte, em 2014, pensei imediatamente em vaga-lumes. Essas imagens poéticas merecem compartilhamento. Galinhos é uma península encantada que nos recebeu várias vezes. Fomos felizes naquele pedaço de chão. A gente fazia sexo em tudo que é lugar. Na Ilha das Cobras, nos barcos dos pescadores, nas salinas, no farol, no mar sem fim, na rede, nas dunas, nas ruas desertas, nas piscinas naturais. Por fim, seria o túmulo de Morvan.

Na primeira vez que lá estivemos, em 2012, Morvan ficou tomado por uma felicidade comovedora, quase infantil, inédita em sua personalidade desiludida. Na calada da noite, deslumbrado com a alegria de viver, arrastou-me sem destino pela vila e praias. Não havia ninguém. Nenhuma viva alma. Tudo à meia-luz. De repente, ele correu como um louco. Mais adiante parou, tirou toda a roupa e desnudo abraçou o tronco de uma árvore frondosa. Eu me aproximei sem entender o que acontecia. Ele estava coberto de pequenas luzes. Todo o local tomado por vaga-lumes. Em êxtase, era a primeira vez que ele via pirilampos em sua vida. Ria com essas centelhas por todo o seu corpo, deslumbrado de se achar assim enfeitado de joias.
 
Os mágicos insetos bailavam no negrume e Morvan falava palavras emocionadas. Das noites que se foram, do seu tempo de menino e dos vaga-lumes que não conhecia e tanto dizem ao coração. Ele me beijava, ele delirava. “Você percebe? Os vaga-lumes iluminam a alma”, afirmou. Tendo passado a maior parte da existência sob as luzes cruas da cidade, o sutil piscar dos bichinhos nunca fez parte do seu cotidiano. “A poluição luminosa das cidades tornou inviável a vida desses insetos, ofuscou seu brilho. Os que restaram se escondem nos mesmos lugares que as abelhas e as borboletas: bem longe de nós.”, disse.
 


Entre os vaga-lumes, nos abraçamos e deitamos na areia. Morvan falou de Pasolini. De uma crônica em que o poeta italiano compara a luz ofuscante dos projetores da propaganda fascista com as pequenas luzes de resistência, de arte e beleza, de momentos cheios de humanidade, tão frágeis quanto autênticos, que ele chamava de vaga-lumes. Discretos, fugazes, mas insistentes, incansáveis. Esses momentos de inspiração, de brilho cotidiano, lembram que somos resilientes e amorosos. Durante um bom tempo, sua voz pausada continuou falando dos vaga-lumes. Era um moço muito inteligente. Estudava biologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte e sabia mais do que os próprios professores.
 
Aquela noite imortal, ensinou-me que os povos astecas acreditavam que a luz dos vaga-lumes sinalizava instantes de perspicácia e de conhecimento, uma ação combativa onde antes havia a escuridão. Da obra de Pasolini, os vaga-lumes aparecem como personagens erráticos, intocáveis e resistentes em momentos de alegria e furor, resistindo ao mundo opressor. A fala de Morvan foi um dos bonitos momentos da minha vida. No escuro, ao som do mar, avistando a lua, a árvore frondosa, centenas de vaga-lumes e ele desfilando sensibilidade. Seus olhos eram luzes tão frágeis quanto os próprios vaga-lumes. Ou como as estrelas, que embora sejam astros gigantescos, daqui de onde estamos são apenas luzinhas minúsculas.
 
As luzes tem algo de místico que nos faz perguntar como pode ser tão fantástica a natureza. Por isso, a alegria da visão de uma estrela ou de vaga-lumes. Aquele momento foi de inspiração. Tomado pela sortilégio, percebi o abismo futuro, mas nada revelei, mastigando o silêncio emocionado. Na mente vidente, soube que os fantasmas do fascismo assombrariam nossas vidas. Soube dos ímpetos irados, da banalização, da intolerância e da maldade, de todas as incertezas e da solidão de todos nós. Os insetos de luz me disseram tudo isso, mas só me importava a felicidade inédita de Morvan. Depois de um longo tempo, entre voos e pousos nos nossos corpos, eles partiram, deixando-nos tomados pela benção de Deus.
 

Essa noite me marcou. Aprendi a procurar o brilho de vaga-lumes, de capturá-los em essência, de refletir sua luz. Sei que eles não desapareceram, apenas migraram para outras consciências, fugindo dos holofotes que os confundem. Alguns estão bem perto de nós, nos roçam na escuridão; outros partiram além do horizonte, tentando refazer em outro lugar sua comunidade, sua minoria, seu desejo partilhado. Cabe a nós encontrá-los. Persistente, defendo o amor. Os vaga-lumes do coração representam as diversas formas de resistência da cultura, do pensamento e do corpo diante das luzes ofuscantes da sobrevivência, da política e da mídia. Acredito que a experiência luminosa do amor ainda é possível.
 
Sendo assim, apresento Galinhos para amantes capazes de enxergar vaga-lumes. Galinhos não é magia, não é miragem. É um milagre natural. A receita duna, vento e tranquilidade segue inabalável na formosa e pequena vila de pescadores. Bucólica e semideserta, é desses oásis resguardado do turismo de massa graças à localização estratégica. Uma península com águas turquesa, salinas e manguezais, habitat de peixes e frutos do mar. A tranquilidade reina no ritmo dos ventos e das marés. Nesse pequeno vilarejo a 170 km de Natal, capital do Rio Grande do Norte, paira a sensação de que o tempo se arrasta infinitamente.
 
O mar calmo quase sem ondas, barcos de pescas, pássaros de variadas espécies, o vento movendo lentamente as dunas, o trapiche, nativos cordiais sentados nas calçadas, bancos de areia que se formam em meio ao oceano, o Farol, salinas naturais formando pirâmides, imponentes parques eólicos lembrando moinhos de D. Quixote e a rusticidade local criam uma atmosfera poética memorável. Com mais de dois mil habitantes, é favorável à pesca e concentra cardumes de peixe-galo, daí a origem do nome do município.
 

Até 1963 pertencia a São Bento do Norte, e, no período colonial, foi propriedade do padre jesuíta João de Melo. Reúne manguezal, sertão e caatinga. Quem pisa em suas areias, geralmente, é turista que aprecia locais agrestes, sem badalação. Essa tranquilidade seduz europeus, em particular portugueses e franceses. Os bons ventos que sopram na região atraem os praticantes do kitesurf e windsurf. No passeio de barco, escoltado por águas limpas, avistamos o imenso céu azul, o branco opaco das salinas que abastecem os mercados internacionais, arbustos verdes do mangue e areias amareladas das dunas.
 
Do alto das montanhas de areia, avista-se o pacato vilarejo e o mar aberto que emolduram a paisagem paradisíaca. Não há agências de turismo, mas os próprios moradores se oferecem como guias. Para circular, aluga-se uma charrete, conhecida como “jegue-táxi”, o único meio de transporte disponível. Nesse panorama ao sol, moram artistas e poetas, entre eles o escultor açoriano João Monteiro e o poeta de Touros (RN), Ivo Rodrigues Ribeiro. Monteiro produz esculturas de figuras humanas e animais, em imburana, mantendo seu atelier aberto para visitação, embora não comercialize suas obras. Ivo louva a terra de adoção em versos:
 
Galinhos de brancas velas
De dunas e praias bonitas
A sua beleza imita
O puríssimo céu azul.
 
De areias quentes, sol escaldante e águas mornas, a verdadeira magia de Galinhos está na simplicidade. Uma das suas atrações é a Praia do Farol. Extensa, ela não tem falésias, tem sossego, cenários das mil-e-uma-noites e piscinas naturais na Ponta do Farol, local perfeito para curtir o pôr-do-sol. Por volta das 17h30, o astro-rei se transforma numa imensa bola de fogo e inicia seu mergulho no horizonte. Como nem tudo é perfeito, a cidade sofre com problemas de saneamento básico, coleta de lixo e abastecimento de água.
 

Galinhos convida à contemplação, preguiça e desapego ao corre-corre das grandes cidades. Lugar de paisagem preservada, sem poluição, carros, violência, muvuca. Um paraíso para quem procura serenidade. Não há muito o que fazer, a não ser curtir o sossego e o sol, numa região onde quase nunca chove. Panorama para aproveitar, sem culpa, uma temporada de ócio ou de amor. Se der sorte, quem sabe, até mesmo encontrar na noite uma revoada de vaga-lumes que pousem em corações apaixonados.
 
Supondo que os mortos revisitem os lugares onde foram felizes, Morvan seria capaz de voltar para ver como andam os vaga-lumes de Galinhos. Seria isso satisfatório? Valeria a pena? Não há motivo para questionar isso agora. Tudo não passa de miragem de outra época. Algum estímulo, nada mais, para a meia-idade e a solidão. É tudo, absolutamente tudo, simbólico. Do fundo do coração, agradeço a essas memórias por sua beleza. Elas tornam o presente maravilhoso, e a própria vida impactante. Para mexer comigo, recordo cidades, aventuras e amores. Mas o romantismo não se deixa desconcertar. Quer mais. Está predisposto à embriaguez do devaneio.
 
Sempre me lembrarei da luz dos vaga-lumes de Galinhos. Ela ainda brilha, como centelhas de fósforos, mas eu não a vejo muito bem. Nesse momento, no passado, Morvan com gritos de entusiasmo corre para o mar. Inteiramente nu, mergulhando dentro da água, como um destemido guerreiro nativo. Decidido a cumprir seus ritos de purificação. Era uma incrível visão: um homem limpo, livre, despojado. Envolvido na semi-escuridão, eu o observava, feliz por ele, por mim, pelos vaga-lumes já distantes com seu clarão. Mas essa longa noite terminou; cedeu lugar ao presente. E, exatamente como as águas do oceano invadindo a noite, a consciência que não é de ninguém, em particular, mas que contém a todos e a tudo, passado, presente e futuro, se estende, ininterrupta, para além dos mais sensíveis contos de amor e dor.


LEIA sobre MORVAN
 
FOTOGRAFIAS de MORVAN FRANÇA


Eu e GASTÃO
Fotos de MORVAN FRANÇA

maio 20, 2022

................... MARIA GABRIELA LLANSOL: o OUTRO LADO da LUA


 

O poema é solitário. É solitário e vai a caminho. 
Quem o escreve torna-se parte integrante dele.
 
Tantos poetas, tão pouca poesia. 
A poesia não é para nós, é para o fim de nós.
 
Fotografias: 
DUARTE BELO
(1968. Lisboa / Portugal)
 
 
Acredito em um encantamento místico que sublima a realidade. Enigmático, por vezes experimentado quando atravessamos os limites do jardim do bem e do mal. Esse jardim, real ou metafórico, sonhado ou vivido, protege um cotidiano razoável, onde as névoas dos costumes sociais e do desassossego se destacam. Nele, praticamos uma moral amparada em dogmas, temores e tabus. Com o tempo, nos tranquiliza a possibilidade da felicidade que surgirá de repente, até compreendermos que a felicidade é fugaz e somente deixa saudades.
 
Fugir desse jardim seria sensato. Fugir para aventurar-se. Além dele, há O OUTRO LADO da LUA. Sem superar mediocridades, crenças estúpidas e convicções fajutas ou sem nos confrontarmos com os desenganos, seremos robotizados. O bonito da vida é abandonar-se nos braços – nos braços imensos – do misterioso, em busca de uma existência desnuda. Ir além do jardim, entre tropeços e acertos, sacrifícios e resiliências. Morando em Sintra, Portugal, soube de uma vizinha escritora além desse jardim. Autora de escrita onírica, filosófica, metafísica. Uma inclassificável literatura libertária, ponte entre o sonho e a vigília.
 
Bati na sua porta. MARIA GABRIELA LLANSOL, (1931 – 2008. Lisboa / Portugal), a autora da trilogia “Geografia de Rebeldes”, sorriu gentilmente. A penumbra enluarada preenchia a paisagem com tons dourados. Falei sem receio da consideração por sua escrita. Escutou com paciência quase maternal. Por fim, convidou-me para tomarmos um café no dia seguinte. Na hora, o coração tomou-se por um assombro lúdico. O mesmo havia acontecido ao conhecer Paul Bowles em Tânger, Hilda Hilst na Chácara do Sol, Al Berto numa tasca de Lisboa ou Doris Lessing num subúrbio londrino. Sonâmbulo, vaguei noite adentro pelos melindres de Sintra.
 
Vaguei nessa vila em que tudo pode conhecer, desde árvores que falam a luas que se duplicam. Perder-se naquelas ruas estreitas e mágicas era constatar que o tempo não existe. Fazia perguntas ao vento. Quanto tempo terei para escrever sensações? Quantas primaveras estão à disposição? Questionamentos desimportantes, que fazem parte do jardim. O significativo são os sortilégios do OUTRO LADO da LUA. No horário marcado do encontro, apareci com um buquê de narcisos, e lá estava ela: baixa estatura, meiga, cabelos grisalhos presos num coque, vestida como uma camponesa com um bonito xale negro. Uma aparição de contos de fadas!

Ofereceu café e queijadas. Enveredamos pelos caminhos do pensamento, falando da literatura que vem da alma, de ausências sentidas, de poetas e da nossa história. Ela transmitia paz. Nos presenteamos com livros, silêncios, cumplicidades. Iluminando o esplendor do Monte da Lua, visto através da janela, a lua domava a escuridão. Depois de cerca de duas horas, despedi-me. Sentia-me abençoado, como uma criança saciada. Subi o caminho que leva à Quinta da Regaleira, asfixiado pelo perfume de amores-perfeitos, parecendo que tudo girava. Segui em frente, como se lá em cima acabasse o mundo. A vertigem tomando conta do meu ser.


Durante o tempo em que morei em Sintra, no final dos anos 1990 e início dos 2000, voltamos a nos encontrar outras vezes. A senhora de olhos profundos, por vezes mergulhando no silêncio contemplativo, morava numa casa antiga, amarela, com uma buganvília à porta. Sua moradia era um acumulo de heranças que vinham dos avós, dos pais, de tias, mais o que ela própria trouxe da temporada na Bélgica. Dividia o lugar com inúmeros gatos. Ganhei dela um deles, negro, vira-lata e sapeca, que dei o nome de Romeu, e meses depois desapareceu durante uma das excursões ao bosque do Palácio da Pena. Entre um gole de chá de camomila e deleitosas queijadas de cenoura, conversávamos sobre plantas, culinária, pintura, literatura brasileira.

Assistimos juntos antigos filmes de Renoir, Mizoguchi e Antonioni. Havia nela uma atmosfera de cordialidade e afeto. Era quase sempre vibrante a intensidade que vinha das suas palavras. Revelava também uma sageza feita de uma inteligência sutil e de algum humor, e sobretudo de uma enorme capacidade de ir ao encontro do ponto de vista do outro, respeitando e acrescentando sempre algo inquietante. Certa vez me tocou o coração ao falar sobre o “preço da solidão”. Eu me identifiquei plenamente. Em 2003, convidou-me para um encontro literário em torno de sua obra, na Serra da Arrábida, em Setúbal. Tive vontade de ir, mas não apareci devido a compromissos profissionais. Por fim, depois que parti de Sintra, trocamos cartas.
 
Considerada uma autora hermética e de difícil compreensão. Apontada como um dos nomes mais inovadores e importantes da ficção portuguesa contemporânea, MARIA GABRIELA LLANSOL leva às últimas consequências a criação de um universo pessoal. Estilhaça as fronteiras entre o que designamos por ficção, poesia, ensaio ou memórias. Ela iniciou sua carreira em 1962, ao publicar “Os Pregos na Erva”. Toda sua escrita é a de um questionamento, sobretudo, das formas literárias. Sua linguagem debate-se com a própria linguagem, processo autofágico que problematiza a essência do ser e, ao mesmo tempo a essência da palavra.
 
Audaciosa, a poeta traduziu ao português nomes como Emily Dickinson, Paul Verlaine, Rainer Maria Rilke, Arthur Rimbaud, Guillaume Apollinaire, Paul Éluard e Charles Baudelaire. Nos anos 60, sob o regime de Salazar, a pobreza e a opressão tinham empurrado milhares de portugueses para o exílio. Pessoas que se tornavam zeladores em Paris ou padeiros no Rio de Janeiro. A cultura de Portugal tinha se reduzido a futebol, fado e Fátima. O marido de MARIA GABRIELA LLANSOL, Augusto Joaquim, recusara-se a participar das guerras coloniais na África e desertara. Foram para a Bélgica, em 1965, numa cidadezinha chamada Jodoigne. Regressaram vinte anos depois.
 
Para o crítico e professor Eduardo Lourenço, a poeta está no âmbito de Camões e Fernando Pessoa: “Nunca será uma autora fácil e consensual. É uma espécie de fenômeno misterioso. Alguém vindo de uma outra espécie de planeta. Quem a encontra é difícil não ficar fascinado por essa escrita”. Segundo Maria João Cantinho, ela “mergulha no abismo – já não da literatura – mas da própria escrita, no que ela contém de perigosa implosão. E é nesse limiar, entre o exprimível e o inexprimível, que se sustenta o texto llansoliano”. Nesta escrita enigmática e repleta de fulgor, há uma estranheza e uma complexidade que envolvem toda sua obra. A arte de MARIA GABRIELA LLANSOL, mais do que narrativas, são conjuntos de pequenas meditações.
 
Um dos traços da sua produção consiste na negação da escrita tradicional, com inserção no texto de diferentes caracteres tipográficos, espaços em branco, traços que dividem o texto. Muitos dos seus livros foram publicados, mas seu arquivo em Sintra está abarrotado de escritos inéditos. Existem 78 cadernos, 53 agendas, 12 blocos de notas, e milhares de páginas datilografadas e organizadas pela escritora, diários, obras de juventude, um arquivo fotográfico, correspondência, uma biblioteca cujos livros estão cheios de anotações.
 
Em seu primeiro diário, a escritora afirma que os seus textos compõem um livro único. Sou llansoliano, um admirador daquela que considero uma das grandes escritoras em português, do nível de Florberla Espanca, Clarice Lispector, Sophia de Mello Breyner Andresen, Cecília Meireles ou Hilda Hilst.  Aprendi que não é em busca de enredo ou do texto mastigado tradicional que lemos MARIA GABRIELA LLANSOL, é pela fonte de energia que seus livros contêm, uma energia substancial muito além do jardim de todos nós.


POEMAS de MARIA GABRIELA LLANSOL
 
01.
Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti -------------------
----------------------------- até que a dor alegre recomece.
 
02.
Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti
até que a dor alegre recomece.
 

03.
Não resisto a contar à rapariga:
Ontem passei por um encontro entre dois rapazes que se amavam,
Curtiam, como dizes, sentados no colo um do outro. Era um amor
Humano nas raias do explícito. Aquele laço de se receberem
Mutuamente no regaço estava todavia perto de desatar-se Triste
Que assim fosse.
Havia sobre a cena uma pequena caixa, e aquele que decidira
Desunir-se escrevia o seu nome animal dentro dela. Por sua vez,
O outro para nomear o próximo, desenhou com lentidão um
Pequeno candeeiro de muitas luzes. Vi perfeitamente a progressão
Do desenho, e como ele se detinha na contemplação de cada
Anjo.
 
04.
Há-de-nós – que refulges no texto – santificado
seja o teu labor, sereno e incansável,
o azul de cada dia nos dai hoje
e assim se prolongue a noite
e o seu fruto – uma manhã de seda
tão cheia de impensado como esta;
pelas manchas das palavras que dizemos _______ nos dai
uma língua, uma trepidação de incognoscível,
não universal mas
exacta, que te atravesse, ó Há,
e rasgue na terra um jardim edénico,
desocultado,
florescendo de é, de sempre e de aqui.
 

05.
O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos.
Mas breve é o começo de um livro – mantém o começo perseguindo.
Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia.
Basta esperar que a decisão de intimidade se pronuncie.
Vou chamar-lhe fio ___ linha, confiança, crédito, tecido.
 
06.
Como a chuva não cessasse de cair em caudais,
Tiras de tinta começaram a aparecer na fotografia
O tecto da chuva rompera o abrigo da sua alma
E o verde circulava a deriva rompendo as plantas.
Elvira deixara cair seus olhos de objectiva nas
Folhas verdes. Verificava que era sobre elas e como
Elas que sempre olhara a natureza. Ver o real
Em folhas era amá-lo ininterruptamente. Essa
Contiguidade acabara por compor uma rede
Que tinha tanto de próximo como de diferente,
E a chuva não era chuva, transparecia. Eis, pensou.
Por que chove na fotografia, por que chove
Em correntes sobre as folhas?
 

07.
_______ escrevo,
para que o romance não morra.
Escrevo, para que continue,
mesmo se, para tal, tenha de mudar de forma,
mesmo que se chegue a duvidar se ainda é ele,
mesmo que o faça atravessar territórios desconhecidos,
mesmo que o leve a contemplar paisagens que lhe são tão
difíceis de nomear.
 
08.
Abro-vos a Casa numa interrogação.
A Casa é esta _____________ lugar e corpo dividido, onde meu
corpo se interroga,
reunindo os fragmentos das coisas_____________coisa é
uma janela,
a noite,
a descida rápida da temperatura húmida,
um carro que parte em frente do portão,
os lugares à volta e as suas tardes de festa em dias de verão,
o momento seguinte do silêncio,
o que nasce de nós
perto, em redor e tão longe.
 
09.
Eu sou uma sala de espera para os meus companheiros, se vierem
na piedade
na ternura
na humildade
Esta é a minha aliança
porque agora as obras que escrevo e tenho para escrever são
múltiplas, como o silêncio.


TODA a OBRA de MARIA GABRIELA LLANSOL
 
Os PREGOS na ERVA (1962)
DEPOIS de os PREGOS na ERVA (1973)
O LIVRO das COMUNIDADES (1977)
A RESTANTE VIDA (1983)
Na CASA de JULHO e AGOSTO (1984)
CAUSA AMANTE (1984)
Um FALCÃO em PUNHO (1985)
CONTOS do MAL ERRANTE (1986)
FINITA (1987)
Da SEBE ao SER (1988)
AMAR um CÃO (1990)
O RAIO SOBRE o LÁPIS (1990)
Um BEIJO DADO MAIS TARDE (1990)
LISBOALEIPZIG 1: o ENCONTRO INESPERADO do DIVERSO (1994)
LISBOALEIPZIG 2: o ENSAIO de MÚSICA (1995)
A TERRA FORA do SÍTIO (1998)
CARTA ao LEGENTE (1998)
ARDENTE TEXTO JOSHUA (1999)
ONDE VAIS, DRAMA-POESIA? (2000).
CANTILENO (2000)MARIA GABRIELA LLANSOL: o OUTRO LADO da LUA
 
DIÁRIOS
Um FALCÃO no PUNHO. DIÁRIO I (1985)
FINITA. DIÁRIO II (1987)
INQUÉRITO às QUATRO CONFIDÊNCIAS. DIÁRIO III (1996)
 
PUBLICAÇÕES PÓSTUMAS
LIVRO de HORAS I: UMA DATA em CADA MÃO (2009)
LIVRO de HORAS II: UM ARCO SINGULAR (2010)
LIVRO de HORAS III: NUMEROSAS LINHAS (2013)
LIVRO de HORAS IV: A PALAVRA IMEDIATA (2014)
LIVRO de HORAS V: O AZUL IMPERFEITO (2015)
 
TRADUÇÕES
Emily Dickinson, BILHETINHOS com POEMAS (1995)
Paul Verlaine, SAGEZA (1995)
Rainer Maria Rilke, FRUTOS e APONTAMENTOS (1996)
Rimbaud, O RAPAZ RARO (1998)
Teresa de Lisieux, O ALTO VOO da COTOVIA (1999)
Apollinaire, MAIS NOVEMBRO do QUE SETEMBRO (2001)
Paul Éluard, ÚLTIMOS POEMAS de AMOR (2002)
Charles Baudelaire, As FLORES do MAL (2003)

A CASA de MARIA GABRIELA


ALGUMAS CARTAS de MARIA GABRIELA




abril 27, 2022

..................................... ITABUNA: o PASSADO por TODA PARTE

 

ao contista Hélio Pólvora (in memoriam),

ao cronista Antônio Lopes,
e ao poeta Sérgio Ricardo Prazeres Brandão

 
Via na sua frente não mais a mata iluminada pelos raios, cheia de estranhas vozes, enredada de cipós, fechada nas árvores centenárias, habitada de animais ferozes e assombrações. Via o campo cultivado de cacaueiros, as árvores dos frutos de ouro, os cocos maduros, amarelos. Via as roças de cacau se estendendo na terra onde antes fora a mata. Era belo. Nada mais belo no mundo que as roças de cacau.
JORGE AMADO
(1912 – 2001. Ferradas, Itabuna / Bahia) 
Terras do Sem Fim
 
Eu vim
de noites úmidas,
quando as sementes
fecundavam
o corpo virgem
da mata.
Eu vim
da branca paisagem
de pequenas flores
germinando ouro
no ventre
dos cacauais.
E acordei na manhã
dos deuses,
no mundo
do chocolate.

VALDELICE PINHEIRO
(1929 – 1993. Itabuna / Bahia) 
 
 
Uma cidade não se entrega fácil a quem não a conhece. É preciso conquistá-la, num exercício de querer bem e contemplação. Itabuna não foge à regra. Entre o rio e as montanhas, situada no sul da Bahia, é a terra natal de Jorge Amado, que a traduz perfeitamente nos romances “Terras do Sem Fim” (1943), “Gabriela, Cravo e Canela” (1958), “O Menino Grapiúna” (1982), “Tocaia Grande” (1984) e “A Descoberta da América pelos Turcos” (1994). O escritor é o nosso totem, o nosso mito, o nosso símbolo, inclusive pela lealdade de compreender e amar a nossa região, pátria de índios, brancos, negros e sírio-libaneses.

Segundo Schopenhauer, “a felicidade está sempre no passado ou no futuro”. Interpreto o que passou em Itabuna. Tudo é sagrado. Mas essa cidade vai além das evocações sentimentais. Lembro-me do rio Cachoeira, um rio moroso, terno. Lembro-me do silêncio, da majestade e da diversidade da Mata Atlântica. Na minha meninice, Itabuna deu-me tranquilidade de espírito, paz no coração, amor pelas coisas humildes. Neste universo diferenciado, aprendi a amar os livros. Ao longo de sucessivos anos, viajei na biblioteca paterna. Lia na rede, nas árvores lânguidas, nas rochas da fazenda, de onde observava, enquanto passava a página, a imensidão do panorama verde e azul.

meu pai antônio, um advogado
Inicialmente enveredei por estórias líricas e heroicas, de piratas e barcos, de sereias e sortilégios, de combates e amores imortais. Em pouco tempo descobri Victor Hugo. O escritor francês foi um bom amigo. Ficava até alta horas da noite lendo seus romances. Mais adiante, visitei emocionado sua casa-museu em Paris. Meu romance predileto de Hugo? “Os Trabalhadores do Mar” (1866). Outros escritores me acompanham. Virgínia Woolf, de “Passeio ao Farol” (1927), está a meu lado. Marguerite Youcenar, uma leitura frequente. Shakespeare eu nunca o abandonei.

Tive momentos de arrebato com Fiódor Dostoiévski, Tolstói, George Bernanos, Albert Camus, Franz Kafka e George Orwell. Chorei com “Madame Bovary” (1856), de Gustave Flaubert, e “O Morro dos Ventos Uivantes” (1847), de Emily Brontë. Sozinho, em voz alta, lia poemas de Rilke, Lorca e Káfavis. Dos patrícios, fui seduzido por Autran Dourado, Lúcio Cardoso, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Adonias Filho. Todos companheiros desde Itabuna. Povoaram minha vida de aprendizado.


Não se pode esquecer o que se viveu, o que se viu nem o que se sonhou em um mar de visões. Há uma profunda memória no pensamento, e uma profunda memória no coração. Eu era uma criatura de imaginação, de fantasia. Temia as bestas apocalípticas, os diabos delirantes dos contos de Hoffmann, os seres subterrâneos, os vampiros da bruma. Saudava poetas, guerreiros, profetas, anjos, santos, e um poder maior descendo das estrelas, esperando rastros das anunciações e das ascensões. Nas brincadeiras privadas, imaginava fazer um poço bem fundo, que atravessasse toda a terra, caia dentro dele, de cabeça para baixo, e saia de cabeça para cima, lá na outra ponta, no Oriente!

A paisagem do mundo pode ser resumida nas cidades. Cada uma delas é uma joia do mundo e da louca aventura do homem. Elas têm alma, caráter, personalidade. Itabuna é imprevisível e arrebatada, marcada por progressos e declínios. Ergue-se no passado como a história real de um delírio. Na minha juventude, era formosa, gostosa, pacata, pequena, e não fazia medo a ninguém. A droga era coisa de se ouvir falar, o núcleo familiar tinha consistência, respeitava-se pai e mãe. Vivia-se a questão homossexual debaixo dos panos. De cultura pujante e singular, era vibrante em figuras extravagantes e carismáticas.

Deus era – e ainda é - um compromisso ininterrupto da nossa família. Católicos, morávamos no Pontalzinho, bairro de classe média, onde todos se conheciam. Inicialmente na rua Ramiro Nunes, uma subida alongada, arrastada, em um sobrado verde-sumo, com sótão, fantasmas e morcegos. Família grande: mãe, pai, cinco irmãos (Neto, Urbano, Paulo, Marcelo e Anna Áurea). Tínhamos cachorros, pássaros, um gato e um cágado. Mudamos para a Né Abade. Todas as sextas-feiras a caminho da fazenda Bela Vista, depois de Itapé, e só de volta no domingo. Uma aventura de jeep, rural, vemaguet ou maverick lotados. Os irmãos e eu no banco de trás, com animais domésticos no colo. 
 
eu e telmo padilha
O vento dançava abraçado às flores. Os raios de sol invadiam a terra, lambendo-a de luz dourada. Os montes recurvos, a rodovia ondulada espreguiçando-se numa doçura casta. No caminho, várias paradas, com pai conversando com uns e outros. Visita instantânea à casa de Vovó Nininha e tia Rita, na ida e na volta, com merenda e fuzarca. Doce de banana, beiju na palha, arroz doce, biscoitinho de nata e ovo na manteiga. Perto das nossas terras, surgia Chico da Porca, que morava numa ilha e corria atrás do carro, gritando na sua pronúncia truncada o nome do seu ídolo: “Tóton, Tóton!!!!”. Chamava mamãe de Ludina, tocava cavaquinho pra ela. Os doidos veneravam nosso pai. De longe, avistava-se o rude casarão, pastagens, barcaças de secagem do cacau.

Meu encantamento por rios e matas vem dessa infância paradisíaca. Não se pode esquecer que, entre o verde da mata, estavam jequitibás, sapucaias, mangueiras, jambeiros, jenipapeiros e jaqueiras. No cercado, perfumosos cajueiros, goiabeiras, bananeiras, pés de tangerina, lima, carambola, pinha, graviola, pitanga, umbu, abacate, mamão. No gramado, rosas, jasmins, tuberosas, violetas, manacás, hortênsias, cravos. Canários e pintassilgos. Galinhas, perus, patos, gansos e guinés. Carneiros, cavalos e vacas leiteiras. Café da manhã com cuscuz, inhame, aipim, ovos, cavaco, banana da terra frita ou cozida. No almoço, caças como a paca e a preá, peixe e mariscos de água doce.

Na noite rural, iluminação de candeeiro de querosene. Os gestos rítmicos das árvores, os pássaros e insetos noturnos, a lua tão luminosa na escuridão. Na cama, acordado, ouvia a sinfonia dos bichos ocultos, de gemidos de onças ao canto das corujas. Desde então, o silêncio da noite provoca em mim uma forte sensação de segurança e felicidade. Ao amanhecer, o maravilhamento da natureza. As coisas materiais pareciam ungidas de óleos sagrados. O dia depositava sombras azuladas. O sol cintilava no miradouro do céu. Não havia mais do que azul, uma orgia de azul. O azul não estava no céu, estava nas montanhas, escorria nas águas do rio, ondulava nas árvores.

Elegias de azul, subindo da terra ao céu e vice-versa. A princípio de um azul diluído, de repente embebia a sua turquesa líquida de misterioso esplendor. Os irmãos corriam, rindo. Havia contentamento. Satisfeitos, nós íamos inflamados de pureza, íamos sonhando delícias, íamos com os olhos no céu. Na Bela Vista, em cada canto morava um pensamento, uma ilusão, uma paixão. Tudo podia ser real e irreal. O céu imenso, vasto, parecia de mel azulado. Todas as cores gritavam na mata, e, entre verdes e amarelos e azuis, o tonificante cheiro de eternidade. Época de pescarias, cavalgadas, banhos de rio e avôs apaixonantes. 
 
bromélias
















Boníssimos, cada um no seu personagem, um avô sergipano de Itabaiana e o outro baiano de Rainha dos Anjos. Vô Pedro usava rapé e fumo de rolo, sentava na porta de casa em uma cadeira de madeira, como em um trono. Vô Bispo, meio cego, batia perna o dia inteiro, sociável e fanático por rabos de saia. Simpáticos e populares, eles amavam a vida, os filhos, os netos. Entre cânticos afinados, igrejas e sinos, avós generosas. Vó Áurea, religiosa e orgulhosa. Sofria muda. Deus era o permanente desejo dela. Vó Nininha, uma danada, fazia mil coisas, adorável, um dos meus maiores amores. Tenho uma doce conexão com ela. Sempre sonho conosco em lugares lúdicos. Seria bom reencontrá-la no além.

Como me sentia longe do chão, da realidade. A conversa infinita da alma com a solidão. Seria honesto dizer que ali meditei sobre o tempo, as incoerências da vida, a impermanência das pessoas e das coisas, que deve nos fazer valorizar o que se revela permanente; dizer que refleti sobre a arte e a literatura. Meus desejos, decepções e experiências vieram e se foram, mas o ofício artístico me ajudou a tornar a vida satisfatória. Naquele lugar, pensava apenas na sorte de sentir o perfume do cacau, exercitar plenamente as sensações, atento ao que me rodeava enquanto todos dormiam. Naquelas horas enviesadas, sinuosas como os caminhos pérfidos, o meu espanto se agigantava.

A miragem de Itabuna brilha diante dos meus olhos, subindo na memória e no coração. Tudo isto são pedaços de recordações, tudo isto são retalhos de Itabuna. Lembro-me que nas noites tranquilas se podia andar sem destino pelas ruas. Nosso bairro era exclusivamente residencial, sem edifícios. Na rua alta, em uma das pontas desembocava em um matagal onde fazíamos expedições. Certa vez encontramos um crânio, resultando em resenhas por semanas. No final da tarde, assistíamos desenhos animados e seriados. “Daniel Boone”, “Túnel do Tempo”, “Terra de Gigantes”, “Perdidos no Espaço”, “Tarzan”, “Flash Gordon” ou “A Feiticeira” eram os favoritos. 
 
cacau, o fruto de ouro 
Depois de jantar, uma telenovela da Tupi. Nenhum canal sabia mais retirar lágrimas e risos dos rostos dos brasileiros, oferecendo um excelente elenco de artistas. Brilhavam Adriano Reys, Cleyde Yáconis, Carlos Alberto, Irene Ravache, Yoná Magalhães, Juca de Oliveira, Nicette Bruno, Joana Fomm, Eva Wilma, Nathalia Thimberg, Walmor Chagas; “Simplesmente Maria”, “As Bruxas”, “A Fábrica”, “Bel-Ami”, “Na Idade do Lobo” e “Mulheres de Areia”. Pulávamos de folhetins românticos para o programa de auditório de J. Silvestre e séries adulta, como “Combate”, que nosso pai venerava, ou “Havaí 5.0”. Éramos leitores de gibis e do jornal “O Globo”, e crentes em um mundo justo.

Todos os dezembros, no Natal, nos reuníamos na casa dos avós paternos. Entre quibes, pãezinhos, bolos, sorvete de ameixa e guaraná, os tios Gervásio, Zito, Aládio e Hugo e suas esposas, namoradas e filhos. Durante anos, com Vó Áurea, uma sorridente criada, Angelina, que a gente amava, e uma prima querida, Mariazinha. Nesta torrente cálida, na ardente sombra, surgem vultos e rostos inesperados de vivos e mortos. Todos os vivos que encontro, e vejo e ouço, não são tão vivos quanto muitos dos meus mortos.

Nas décadas de setenta e oitenta, Itabuna se caracterizava por bairros sem violência, matas enfeitadas de bromélias, ruas pitorescas, céu azul intenso. A cordialidade e a boa educação da população pareciam ensinar: “Viva o presente, e só o presente, que o futuro não tem futuro”. Assim, faziam parte da geografia e de nossos corações, o Vagão, Cacau 2000, New York-New York, Amaralina, Encontros, Esquina 3, Estrela do Sul, Pica Pau, Pub, Iate Clube da Mangabinha, Sorveteria Danúbio, Teatro ABC, acarajé da Biá etc.

orquídea da mata atlântica 
A dignidade dos velhos e magníficos casarões do tempo dos coronéis. Eu me orgulhava deles. Na paisagem urbana, casas comerciais, escritórios de firmas compradoras de cacau, residências modernas, hotéis e pensões. Esbanjava-se fervor nas festas do Grapiúna e do Itabuna, nos colégios e quermesses religiosas. Na magia do São João, fogueiras e fogos de artifício. Para os lados do Cajueiro, atual bairro de Fátima, um cortejo de fêmeas e rufiões que punham em polvorosa o baixo meretrício. É esta Itabuna que recordo, sinto, vivo. Colégios marcados por dogmas, tradição, patriotismo, boa qualidade educacional. Eu estudava no Divina Providência. Como colega, um garoto belo, Michel Maron, que namorava uma linda mocinha, Maria Fernanda, estudante do Gato de Botas. Meus primeiros poemas foram para ela, publicados na “Tribuna do Cacau”. Também estudei no Instituto Aquarius, com outro Apolo, Alemão Rosas. 
 
Lembro-me de vários cinemas e dois teatros. Todos os domingos eu ia ao cinema com os irmãos. Era um ritual de profundo prazer. Filmes com atraso de mais de uma década. O repertório idêntico: comédias de Jerry Lewis, musicais de Elvis Presley, produções da Disney, cowboys e épicos italianos de espadas. A primeira vez que vi um filme autoral, num cine de arte que sobreviveu poucos meses, fiquei em transe: “Amarcord” (1973), de Federico Fellini. A partir daí, um caso de amor que dura até hoje. De 1918, o Ideal foi o cinema pioneiro de Itabuna. Anos depois veio o Elite. A seguir, o Cine Ita. Em 1940, inaugurado com pompa e circunstância, o Cine Itabuna. Na rua Ruy Barbosa, na década de 50, o Cine Plaza. Logo o Marabá, com capacidade para mais de mil pessoas, na praça Camacan.

maria olívia rebouças
Lembro-me também do Cine Catalunha, na avenida do Cinquentenário. Ali, os radialistas Titio Brandão e Germano Silva promoviam programas de calouros. O Oásis, no Cajueiro, destacou-se por exibir longas pornográficos. Eu frequentava o Itabuna, mas às vezes ia ao Marabá ou ao Catalunha. Nesse tempo de movimentação cultural intensa, havia a Sociedade Itabunense de Cultura (SIC), o Protejo de Atividades Culturais Cacau (PACCE) e o jornal “Cacau/Letras”. Lembro-me da irreverência de Hélio Pitanga, dos projetos teatrais renovadores de Mário Gusmão e Jurema Penna, Gideon Rosa divulgando escritores emergentes, crônicas de Plinio de Almeida, antologias literárias de Tica Simões e a luxúria de Charles Henri, promovendo festas, desfiles, concursos e uma suposta sociedade sofisticada.


Em 1962, os itabunenses se deslumbraram quando uma das suas belas habitantes, Maria Olívia Rebouças Cavalcanti, conquistou o Miss Brasil em um concurso realizado no Maracanãzinho, no Rio de Janeiro. No Miss Universo, em Miami, Flórida (EUA), ela foi a quinta colocada. No entanto, os passos iniciais da nossa civilização aconteceram muitas décadas antes. Primeiro os Aimorés, Tupiniquins e Pataxós enfrentaram os invasores. Houve muito sangue, crueldade e as vidas de índios e colonos. Vivia-se sob o terror e o medo, entre devastações e morticínios. Foi o preço da conquista.

Uma violenta saga no ventre da selva virgem, com desbravadores sobrevivendo de farinha de mandioca, carne-seca e aguardente. Uma guerra contra a natureza nas funduras das florestas. Antes, de 1815 a 1817, a região recebeu o príncipe alemão Maximiliano Alexandre Felipe de Wied-Neuwied, naturalista, e sua comitiva, e os cientistas holandeses Von Spix e Von Martius, em 1817. Estes últimos publicaram estudos na obra “Reise in Brasilien”. Surpreendentemente, a epopeia de Itabuna começou em Sergipe. Fugindo da fome, sergipanos vieram parar no Sul da Bahia. Assim, em 1867, floresceu o Arraial de Tabocas.


Noites veludosas, jorrando no firmamento o esplendor das estrelas. Milhares de luzes, em enxames inquietos como insetos cintilantes. Tudo parecia áspero, selvagem, ríspido, rasgado, perigoso. Inicialmente, em meio à mata, o povoado servia como ponto de passagem de tropeiros que se dirigiam a Vitória da Conquista. Depois da selva desmatada, da expulsão do índio, da falta de estradas, do banditismo e de doenças como tifo e malária, veio a plantação de cacau. O nome Tabocas deve-se a um imenso jequitibá, o “pau da taboca”, ou seja, da roça que se abria. No povoamento feito por Félix Severino do Amor Divino e José Firmino Alves, em 1877 fundaram a escola da professora Maria Rosa de Jesus, a “Rosa Camarão”.
 
casarão tertuliano guedes de pinho
Por perto, povoações progrediram. Em Itaúna, hoje Itapé, os colonos alemães Weyll e Samaraker produziram cacau, algodão e fumo, ganhando menção honrosa na Exposição Universal de 1867, em Viena, na Áustria. Os imigrantes estrangeiros foram importantes para Itabuna, principalmente os sírios e os libaneses. Chegaram nos fins do século XIX. Mascates, em lombo de burro e por via fluvial, carregavam mercadorias para vender ou trocar. Eles prosperaram, resultando em famílias influentes: os Maron, os Midlej, os Rehem, os Hage, os Medauax, os Kalid, os Bittar, os Rihan, os Habib, os Fahel, os Adami, os Harfush, os Lavinscky etc.

A origem do nome Itabuna vem dos tupis ita (pedra) + aba (quebrar, truncar) + una (preto,preta) - Ita + aba + una = pedras pretas partidas. Emancipada em 1910, seu primeiro intendente foi o engenheiro Olinto Leone, que assumiu em 1°. de janeiro de 1908. Nessa temporada sanguinária, os Cauassus, um bando de bandoleiros, exploravam durante anos os comerciantes, mas em 1915 foram expulsos à bala pelo Tiro de Guerra 473. Outro famoso jagunço, Gentil de Castro, comandou duzentos homens em armas contra os fazendeiros. Eles incendiavam fazendas e matavam os proprietários. Um verdadeiro faroeste. 

Divinos lugares, onde se podia ter esperança em dias melhores. Na década de 1930, o sul da Bahia atingia o seu auge. O comando era dos coronéis, e as atividades econômicas giravam em torno do cacau. Apesar da riqueza, as desigualdades sociais
eram gigantescas. Ao longo dos anos, a lavoura passou por diversas crises. A pior delas foi a da vassoura-de-bruxa, doença que atinge os cacaueiros, e provocada artificialmente por militantes do Partido dos Trabalhadores. O cacau já não é mais a estrela da economia local. O tempo de fartura faz parte do passado.

Sem dúvida, gravadas nas ruas antigas, as lembranças dos fatos marcantes. A Avenida do Cinquentenário é uma das mais expressivas em reminiscências. Fundada em 28 de julho de 1960, a festa solene contou com a presença do governador Juracy Magalhães, secretários do estado, prefeitos regionais, autoridades, além da maior concentração de público jamais vista até o momento. Um suntuoso desfile constituiu-se no ponto alto das festividades. No centro da avenida, na praça Adami, anos depois, localizavam-se os escritórios de advocacia do meu pai e do tio-padrinho Gervásio. Fui secretário de ambos.
 
serafim reis, eu e altino henrique em 1985
Viajante eterno de águas calmas, o Cachoeira testemunhou o crescimento da cidade e, mesmo agredido pela poluição, ainda conserva em seu corpo de água os traços formosos da mãe natureza. É um dos maiores símbolos da região, embora no presente signifique pouco em sua decadência. Quando majestoso, eu tomava banhos nele e certa vez quase me afoguei. Ele nasce na Serra do Itaraca, em Vitória da Conquista. Depois de banhar alguns municípios chega em Itapé até desaguar no Oceano Atlântico. Nesse percurso, são mais de 300 quilômetros. Apesar de seu nome, não possui cachoeira. Em 1914, registra-se a sua primeira enchente. Fortes chuvas desabaram durante onze dias. Muitas outras seguiram-se: em 1920, 1947, 1964, 1965 e a de 1967, superior as anteriores. Em 2021, outra maldita enchente comoveu o Brasil.

O tempo passou, a vida mudou, e Itabuna aos trancos e barrancos perdeu a identidade cultural. A geração contemporânea, sem memória, circula numa bolha colonizada. O nosso nome mais famoso - o escritor Jorge Amado - foi esquecido. Como disse, o rio Cachoeira é uma paisagem melancólica e a Mata Atlântica agora tem pouca significância. Não sou nostálgico, mas lamento o reinado do crack, os bares sem charme e um inócuo shopping center como única opção de lazer. Não é à toa que o poeta Telmo Padilha intitulou um dos seus livros como “Canto de Amor e Ódio a Itabuna”.

Abandonada, a cidade sobrevive sem personalidade. Faltou uma resistência tremenda para superar com criatividade as transformações políticas, os modismos, as dificuldades econômicas, e todas as coisas hostis. Inclusive, falta arte. Não podemos entender uma cidade sem conhecer sua arte. Só através da arte temos a representação simbólica dos traços espirituais e intelectuais que caracterizam uma sociedade, seu modo de vida, suas tradições e crenças. Como expressão pessoal e cultural, é um instrumento para o desenvolvimento. A arte supera a despersonalização, inserindo o indivíduo no lugar ao qual pertence. Infelizmente, Itabuna é órfã de prosperidade, encanto e arte.

Se foi a Itabuna de sonho, poesia, liberdade, beleza, fé... Quem pode perder tudo isso sem ficar de coração partido? Mudou Itabuna ou mudei eu? Mudamos juntos. Somos bem diferentes. A cidade está desumana. Nas ruas, a miséria se faz presente. Nas noites, a violência e o vício. Vejo-a desfigurada. Que saudade, meu Deus, da cidadezinha provinciana dos tempos passados! Mesmo assim, quanto mais estou longe de Itabuna, mas sou Itabuna. Dela saí jovem em busca de novos horizontes. Mas nela estão minhas raízes, meu sangue, minha origem, minha mãe, meus irmãos, parentes e amigos aos quais quero um amor enorme. Conto com o seu renascimento das cinzas.
VÍDEO: A JOVEM CIDADE - 57 ANOS

CENA CULTURAL: TALENTOS GRAPIÚNAS

DERAM um FUZIL ao MENINO

Adeus luares de maio.
Adeus tranças de Maria.
Nunca mais a inocência,
nunca mais a alegria,
nunca mais a grande música
no coração do menino.
Agora é o tambor da morte
rufando nos campos negros.
Agora são os pés violentos
ferindo a terra bendita.
A cantiga, onde ficou a cantiga?
No caderno de números,
o verso ficou sozinho.
Adeus ribeirinhos dourados.
Adeus estrelas tangíveis.
Adeus tudo que é de Deus.
Deram um fuzil ao menino.

FIRMINO ROCHA

(1910 – 1971. Itabuna 
 / Bahia)
 
ALCEU PÓLVORA
(1952 – 1989. artista plástico)

Pintava com sensibilidade, traduzindo um futurismo complexo, mutante, agressivo. Desenhista minucioso, pintor labiríntico, transitava entre a origem sul-baiana e a Europa, expondo em Genebra, na Suíça.

ANTÔNIO LOPES
(escritor e jornalista)
Autor de “Luz Sobre a Memória” (2001), “Estória de Facão e Chuva” (2005) e “Com o Mar Entre os Dedos” (2015). De contundente e fértil atuação jornalística.

CANDINHA DÓRIA
(1914 - 2005. atriz)

A nossa querida dama do teatro. Atriz desde os sete anos, quando subiu ao palco pela primeira vez, teve sua longa vida ligada intimamente à cultura e à arte grapiúna, onde brilhou principalmente no teatro.

CARLOS BETÃO
(1960. ator)
Depois de encantar a ribalta itabunense nos anos 1980, com seu vozeirão e presença carismática, partiu para Salvador, onde faz teatro, cinema e tevê. Participou de “Os Iks” e “O Sonho”, entre outras peças.

CHARLES HENRI
(1938 - 2016. colunista social e promotor cultural)

Organizador de concursos de beleza e anfitrião de festas majestosas, desfilou em carnavais no Rio de Janeiro. Apresentou programas de rádio e TV. Manteve colunas celebrando socialites.

CONCEIÇÃO PORTELA
(artista plástica)

Transforma sonhos em cor, em uma linguagem pictórica peculiar. Obra delicada, acolhedora, voltada para a gratificação dos sentidos. Destacou-se com a exposição “Duendes do Cacau” (2011).

CYRO DE MATTOS
(1939. escritor, jornalista e poeta)

Contista, poeta, cronista e autor de livros infantis, de extensa obra, tantas vezes premiada. Escreveu, entre outros, “Os Brabos” (1979) e “Vinte Poemas do Rio” (1985).

DIOGO CALDAS
(1932 - 2018. colunista social)
Na imprensa desde os anos 1960, conhecido como Flavius, foi um dos profissionais mais populares de Itabuna, produzindo colunas sociais e eventos festivos.

EDUARDO ANUNCIAÇÃO
(1946 - 2013. jornalista)
Reconhecido no jornalismo político e lembrado por sua atividade artística na juventude, foi autor de colunas corajosas nos jornais da região do cacau.

ENERGIA AZUL
(banda musical)
Lançada nos anos 80 e formada por João Veloso, Joan Nascimento, Zé Henrique e Marcelo José. Tocava em rádios, TV e bares. Em 1984 produziu o compacto duplo “Raízes do Cacau”.

EVA LIMA
(atriz e produtora cultural)

Sua veia artística fez dela uma representante da ribalta grapiúna. Após vitoriosa temporada na capital, retornou à Itabuna, reinventando-se como produtora capaz e atuante.

FIRMINO ROCHA
(1910 – 1971. poeta)
Lírico, místico e com um estilo repleto de simplicidade e musicalidade, celebrava sua gente e sua terra natal. Escreveu “O Canto do Dia Novo” (1968) e “Momentos: Prosa e Canto” (s/d). Seu poema mais conhecido, “Deram um Fuzil ao Menino”, encontra-se em placa de bronze na sede da ONU.

GUGA FREDERICO
(artista plástico)

Discreto e criativo, dominando o desenho e a cor, estudou na Escola de Belas Artes da UFBA. Desenhava máscaras e fantasias exóticas para o público LGBT. Sempre com sensibilidade.

HÉLIO PÓLVORA
(1928 – 2015. escritor e jornalista)

Crítico literário no “Jornal do Brasil”, “Veja” e “Correio Brasiliense”, entre outras publicações. Co-fundador do jornal “A Região” e do literário “Cacau/Letras”, presidente da Fundação Cultural de Ilhéus. Publicou dezenas de excelentes livros, entre eles “O Grito da Perdiz” (1982) e “Xerazade” (1990).  

JACKSON COSTA
(1968. ator)
Com persistência construiu uma carreira teatral robusta. Fez sucesso como Deus na peça “Vixe Maria, Deus e o Diabo na Bahia!” e suas participações em telenovelas, filmes ou minisséries são vigorosas.

JORGE AMADO
(1912 – 2001. escritor)
Um dos mais famosos e traduzidos escritores brasileiros. Sua obra é baseada na análise realista dos cenários rurais e urbanos da Bahia. Apresenta preocupação político-social, que denuncia, em um tom seco, lírico e participante, a miséria e a opressão do trabalhador rural e das classes populares.

JOSÉ BASTOS
(1905 – 1937. poeta)
Autor de um único livro, “Horas Líricas”, publicado em 1930. Seus temas quase sempre são sobre a natureza, a mitologia ou a história. Trata dos ideais clássicos de beleza e harmonia.

KLEBER TORRES
(1947. jornalista e poeta)
Trabalhou nas redações de inúmeras publicações. Editor do “Agora”, de “A Região”, e correspondente do “Jornal do Brasil” e “A Tarde”. Como poeta, participou de antologias e publicou em 1982 “Objeto Direto”.

LUIZ WILDE
(colunista social)
 

Culto e sensível, foi o primeiro profissional a divulgar meu trabalho literário na mídia. Apreciava jazz e música erudita. Humorado, escrevia poesia e era leitor da melhor literatura. Infelizmente morreu jovem.

MANOEL LEAL de OLIVEIRA
(1930 - 1998. jornalista)
Depois de trabalhar no Rio de Janeiro, fundou em 1952 o jornal “A Terra” em Itabuna. Polêmico e combativo, lançou em 1987 o “Cacau/Letras”, jornal literário, e “A Região”. Era seu editor-chefe, escrevia a coluna “Malha Fina” e alguns artigos editoriais. Denunciava juízes, políticos influentes e policiais corruptos.

MARIA CÉLIA AMADO
(1921 – 1988. artista plástica)

Artista modernista e uma das introdutoras da abstração na Bahia. Sua atuação tanto no ensino na Escola de Belas Artes da UFBA, quanto na sua produção artística, ajudou a renovar o cenário artístico e educacional baianos. Desenhista, pintora e artista gráfica, ganhou visibilidade em 1955, com uma pintura mural para o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, a Escola Parque, em Salvador.

NEY GALVÃO
(1952 – 1991. estilista)

Na década de 1980, substituiu Clodovil no programa “TV Mulher”, da Rede Globo, onde falava de moda. Como estilista, destacou-se pelas cores fortes e modelos exuberantes, ricos em plissados e babados.

PLÍNIO de ALMEIDA
(1904 – 1975. professor, jornalista e cronista)
Autor de mais de cinco mil crônicas intituladas “Nós Pensamos Assim”. Versátil e ousado, fundou a Escola Técnica de Comércio de Itabuna e lecionou em quase todos os colégios locais. Deixou livros inéditos.

SÔNIA COUTINHO
(1939 – 2013. escritora)
Perseguida e criticada, ela abandonou Itabuna. Não podia nem ouvir falar da sua cidade natal. Premiada, publicou títulos elogiados como “Atire em Sofia” (1989) e “O Jogo do Ifá” (1980).

TELMO PADILHA
(1930 – 1997. poeta e jornalista)
Sua poesia reside numa lírica lucidez. Responsável pela implantação do Projeto de Atividades Culturais Cacau (PACCE). Autor de, entre outros, “Onde Tombam os Pássaros” (1974) e “O Rio” (1977).

VALDELICE PINHEIRO
(1929 – 1993. poeta e professora)
Diretora da Faculdade de Filosofia de Itabuna (antiga FAFI), lecionou na UESC - Universidade Estadual Santa Cruz. Como poetisa, publicou dois livros, “De Dentro de Mim” (1961) e “Pacto” (1977).

VERA RABELO
(jornalista)
 
Texto enxuto e direto. Passou por redações de jornais e revistas, assessorias de imprensa e produção de conteúdo para sites. Durante um período comandou o setor de comunicação na Prefeitura de Itabuna.
 
ITABUNA

      Minha terra natal! Que te abrasas e inunda
      De tanto sol! Assim entre agrestes vedores
      Do Cachoeira escutando os bravios rumores,
      Como a Iara gentil destas águas profundas!

      Oh! Como sou feliz e me sinto orgulhoso
      De um dia ter nascido em seu seio faustoso
      Sob o esplendor de um céu de beleza tão rara.

JOSÉ BASTOS
(1905 – 1937. Itabuna
 / Bahia)
 

LIVROS que CONTAM a HISTÓRIA de ITABUNA

ESPÍRITO de ROÇA (1935)
de José Dantas de Andrade

ZONA do CACAU (1957)
de Milton Santos

ITABUNA, MINHA TERRA (1960)
de Adelindo Khoury da Silveira

O JEQUITIBÁ da TABOCA (1960)
de Manoel Bonfim Fogueira e Oscar Ribeiro Gonçalves

SÍRIOS e LIBANESES (1960)
de Clark S. Knowlton

TERRAS de ITABUNA (1960)
de Carlos Pereira Filho

A NAÇÃO GRAPIÚNA (1965)
de Adonias Filho e Jorge Amado

FIGURAS e FATOS de ITABUNA (1967)
de Helena Mendes

DOCUMENTO HISTÓRICO ILUSTRADO de ITABUNA (1968)
de José Dantas de Andrade

SUL da BAHIA: CHÃO de CACAU (1976)
de Adonias Filho

SOCIOLOGIA da REGIÃO CACAUEIRA (1983)
de Selem Rachid Asmar

TERRAS do SUL (1990)
de Helena Borborema

ITABUNA HISTÓRIAS e ESTÓRIAS (2003)
de Adriana Dantas

GALERIA de FOTOS