abril 10, 2016

.................................................................. De SÚBITO, LORD BYRON!




para os “Meninos d’Avó”

Quando conquistou tudo 
o que todos querem cortejar, 
a pobre recompensa não valeu os custos: 
juventude desperdiçada, alma aviltada, 
honra perdida, são os teus frutos, 
ó paixão triunfante!
BYRON 
Fragmento 11 do canto XVII

Sou calmo – mas não sou calmo demais;
Modesto – mas com autoconfiança;
Paciente, sim – porém sem muita paz;
Mutável – sem que se note mudança;
Tímido – mas às vezes muito audaz;
Alegre, mas sem rir, porque isso cansa;
Como se a minha minha pele, numa tez,
Tivesse, onde não tem, duas ou três.

Tradução de Augusto de Campos

Fotografias:
JOSÉ RICARDO CORTE-REAL
(para o livro Se Um Viajante numa Espanha de Lorca
de Antonio Nahud, 2005)


Na primavera deste ano, George Gordon, conhecido pelo título aristocrático de LORD BYRON (1788 - 1824. Dover / Reino Unido), regressou a Sintra. Há vento e algum calor. Nem sombra da auréola de neblina ambientando a vila de mistério. Noite azul profundo, perfumada por ervas aromáticas; silêncio absoluto, harmonia e sensações. Como se um segredo extraordinário fosse revelado. Nesta paisagem sensorial, um pouco acima do Museu do Brinquedo, na Casa da Avó, poetas e admiradores do lírico, chamados “Meninos d’Avó”, iniciam mais um dos habituais encontros poéticos. De súbito, numa deslocação instantânea além-morte, o lendário LORD BYRON surge com grosso volume de papéis entre os dedos, atravessa o salão e se senta, discretamente, pedindo uma taça de vinho tinto a Paula, dona do local, e desenhista nos momentos de ócio.

O belo porte do poeta romântico cintila e seus olhos não escondem um destino plúmbeo, melancolia acentuada e caráter excepcional. Pronto para conceder poemas inéditos, guardados durante quase dois séculos, desvendando a Serra da Lua e sua concentração de energia visionária. A passagem do poeta inglês por Sintra, em julho de 1809, deu origem a versos: “Ó minha Sintra, és cá um Paraíso glorioso / mas o capacete de neblina que trazes sempre na tromba / Faz-me sentir saudoso / da minha solarenga Albiona / Bem, sempre é melhor fugir para Missalonga com um marujo português / E quem fala assim não é coxo / Como eu”. Retratou a cidade como bela e enigmática, não tendo em grande conta o caráter dos portugueses, poemando críticas duras que ainda hoje silvam como um látego em Childe Harold’s Pilgrimage”.

lord byron
Ele se lembra de tudo, os olhos piscando como asas de colibri – um adormecimento ou um princípio de desmaio, fadado a se tornar forma espectral. Está como no centro de um palco, ao alcance do meu olhar semicerrado a acompanhar os seus movimentos. O que faz BYRON na Casa da Avó? O que é a Casa da Avó? Oxente, caro leitor. Explico direitinho. Local fundado durante a I Guerra Mundial por uma velha camponesa viúva, avó Madalena, estirpe de muitos filhos e netos, dois deles ainda vivos. Uma casa de pasto (restaurante popular com receitas caseiras) mantendo a velha tradição, conduzida com boa vontade por Paula e Luis Ribeiro. Quinzenalmente, os “Meninos d’Avó” se reúnem para ler ou ouvir poesia no pequeno restaurante, entre taças de vinho e, por vezes, um suculento Bacalhau à Brás. Noites temáticas (a mais recente, “Revolução, poemas de Pablo Neruda e José Gomes Ferreira) homenageiam poetas, mas quase sempre o tema é livre. Por aqui passaram figuras supimpas: Paulo Brito e Abreu, Fátima Freitas, Risoleta Pinto Pedro e outros.

Carlos Pinto e José Ricardo – nosso amigo-irmão Zezinho -, respectivamente engenheiro de som e fotógrafo, presentes, atentos, embora jamais abram a boca para a récita. Atores mostram sua verve, de Rui Mário, do Tapafuros, a Nuno Vicente, do Utopia. Rui Lopo, Jorge Telles de Menezes e Rui Bráz dirigem sutilmente o espetáculo, dando preferência ao espontâneo. Menezes, autor do alucinante “Selenographia in Cynthia”, interpreta poemas pausadamente, sentido, voz grave, carregada de vivências. Nesta noite em que recebemos a visita de BYRON, lê poetas germânicos do pós-guerra, traduzidos por ele. É um grande escritor, poeta, ensaísta e tradutor à procura de um editor sensível. Superando a timidez e a tendência para mergulhar na emoção intensa e contida, pouco a pouco, tomo o gosto da “performance interiorizada”. Considero-me, com deleite, um dos “Meninos d’Avó”. Este é o panorama, a geleia geral: poetas abrem a boca e lançam poemas.


Entre nós, entusiasmados espíritos delirantes, LORD BYRON, voz aveludada, clara e firme, sem esconder rasgos de sensibilidade, fala sobre poesia. Durante o sarau continua com uma série de leituras carismáticas, pontuando reflexões literárias cheias de desenvoltura. Sua beleza luminosa, estampa de cinema, provoca encabulamentos. Êxtase. Pareço arder e, ao mesmo tempo, sou tomado por gélido e discreto embaraço. O poeta nos diz seu nome: António Cortez. Ah, Byron, pseudônimo, alter-ego, heterônimo, personagem, verso vivo, possessão espetacular! Cortez, António Cortez, admirável. Depois da meia noite, cumprida a missão, ele parte, despedindo-se amável e prometendo voltar. Imagino um indômito alazão negro à sua espera. Enfeitiçado, levanto os olhos e vejo o fundo dos seus olhos. Lá está a sua história, a história de um aventureiro, um leque de vivências. Um sujeito elegante, várias relações amorosas de ambos os sexos, deixando como legado uma obra de profundo interesse. Ele escandalizou a sociedade tanto com seus poemas quanto pela sua vida mundana. É tratado como um gênio da poesia e o maior romântico inglês.


Criação marcada pelo pessimismo, cinismo, ironia e revolta contra o mundo. Critica a sociedade de maneira exaltada, impetuosa e até violenta. Seu caráter poético ligado à tristeza da alma humana. Um grande painel autobiográfico. Rotulado como louco, devido ao desprezo pelas regras de comportamento social, socialmente rejeitado e, também, invejado pela originalidade literária e gênio criador. Inquieto e aventureiro, ânsia libertária, tal qual escreveu no poema “O Corsário”. Deixou pensamentos célebres, como este: “O passado é sem dúvida o melhor profeta do futuro”. Na tentativa de transformar sua vida em seus escritos – ou seria o contrário? – ele se encheu de dívidas - por estar sempre dando orgias e festas extravagantes.
        
Nasceu em Londres no congelante 22 de Janeiro de 1788, família à beira da ruína econômica, malformação congênita num dos pés, provocando um visível coxear. Ainda assim o nosso protagonista se destacaria em esportes como boxe e natação. A mãe, Catherine, focalizava no filho único as desgraças que aconteciam na sua vida. Aos nove anos, faleceu seu tio avô – quinto LORD BYRON - deixando o sobrinho neto como depositário do título familiar. Jovem de beleza invulgar, no Trinity College de Cambridge foi apelidado de “bom garoto” pelo carisma e excelente disposição. Em 1806, aos 18 anos, publica o primeiro poemário, “Horas Ociosas”, mal recebido pela crítica. Nessa altura, a Inglaterra prosperava em plena evolução industrial. O poeta, dando rédeas à sua ânsia de aventura, iniciou em 1809 uma viagem por vários países mediterrâneos: Portugal, Espanha, Grécia, Turquia. Passou alguns dias em Sintra, começando a escrever “As Peregrinações de Childe Harold” – seu alter-ego literário -, protagonista de mil avatares poéticos.
        

Cantadas por vozes relevantes da literatura portuguesa – Luís Vaz de Camões, Gil Vicente, Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Ramalho Urtigão, Teixeira de Pascoaes, Ferreira de Castro, Vergílio Ferreira e José Saramago, entre tantos – e do romantismo inglês – William Beckford, Robert Southey - as paisagens idílicas de Sintra encantam viajantes e turistas de ocasião. É um grandioso cenário de uma natureza pagã e sagrada. Deslumbrou LORD BYRON, que soube apreciar a solidão dos lugares misteriosos, escrevendo: “a vilazinha de Sintra é talvez a mais bela de todo o mundo”. Admirador de Beckford, escritor milionário que influenciou sua obra e se instalou poucos anos na admirável Quinta e Palácio de Monserrate, escreveu sobre a vivenda lusa do autor de “Vathek” (1786): “Aqui moraste, e aqui sonhaste ser feliz, vendo ao longe a montanha: a beleza imutável. Agora, este local parece amaldiçoado: teu palácio está só como tu próprio és só”. Na sua carta a Francis Hodgson, escrita a 16 de Julho de 1809, disse estar apaixonado pela paisagem da mística e mítica vila, deixando-se fascinar pela exuberância natural em versos como “The Glorious Eden”. O mesmo ardor e magnificência do local reconhecidos mais de meio século depois pelo escritor português Eça de Queirós. O autor de “Os Maias” (1888) interpretou Sintra com a expressão “Sintra Queirosiana”, e se pode afirmar que ela está presente em quase toda sua fértil obra. Antes do idílio de BYRON, outro poeta britânico, Robert Southey, estendeu os olhos pela cenografia sintrense: “o mais abençoado torrão de todo o globo habitável”.


Hospedado na Estalagem dos Cavaleiros, as aventuras e desventuras de BYRON em terra portuguesa são narradas num livro de Alberto Teles, publicado em 1879. A fama do furacão romântico cresceu e o regresso em 1811 de sua peripécia européia foi aclamado nos melhores salões londrinos. Todos queriam tê-lo como convidado e lhe atribuíram centenas de romances com mulheres e homens. Mas foi Annabella Mibanke quem o levou ao altar em Janeiro de 1815. Onze meses mais tarde nasceu Augusta Ada, enquanto a polêmica e o escândalo salpicavam a vida do poeta. Acusado publicamente de sodomia e incesto, foi abandonado pela esposa. Diante de terríveis rumores e provável julgamento, ele decidiu deixar o seu país sem intenção de regressar. Esteve em Bruxelas e na Suíça, fazendo amizade com Mary e Percy Shelley, John Polidori e Claire Clairmont. Com os novos amigos e, por que não dizer, amantes, navegou por lagos e organizou veladas literárias propondo a criação de novelas macabras. Polidori inspirou-se em BYRON para escrever “O Vampiro”, semente de um gênero, enquanto Mary Shelley concebeu “Frankenstein”, aproximando-se do mito do novo Prometeu. Se estabelecendo na Itália, o irreverente poeta incrementou sua já por si fértil criatividade, apoiando causas libertadoras e publicando textos como “Manfred”.


Em 1822, com apenas 34 anos, mergulhado numa tristeza cada vez mais abrumadora, resolveu combatê-la viajando pela Grécia, disposto a lutar pela liberdade dos gregos frente ao poder otomano. Recebido como herói, em pouco tempo, ferido, contraiu uma febre que o levou à morte a 19 de Abril de 1824. Faleceu na praia, dizendo para um amigo que o acompanhava: “É chegada a ocasião de descansar!”. Poeta de amores perdidos, recorreu à simbologia dos elementos naturais para cantar seu dilema existencial. Com ironia e uma certa ruptura com o romantismo, denunciou um leque de preocupações muito adiante do seu tempo. Donjuanesco, temperamento forte, sensualidade vibrante e grande poder de comunicação, produziu poemas de fúria inaudita, emblemáticos na violência que o escritor exercia sobre si próprio. Egocêntrico, morreu sem encontrar as atenções nem ouvir os aplausos que julgava merecidos.
        
Tumultuoso, sutil - o encontro com LORD BYRON nesta noite voluptuosa de primavera, atmosfera enigmática e perfumada. O percebido relato nesta crônica. Sem nenhuma invenção. George Gordon, o Byron, poeta romântico e desiludido, ou Cortez, parte numa visão sobrenatural. Toma um caminho tão solitário como o das estrelas. Eu deixo a Casa da Avó. Impossível sufocar a convulsão que me arranca dos laços terráqueos. A caminho da estação ferroviária, as pontas dos ramos das árvores se incendeiam em faíscas de luz violeta, e os troncos passam gradualmente do púrpura ao negro. Horizonte de pálida iluminação, teia de néon, destacando o serpentário da Serra, num belo efeito plástico. Noite sombria, inquietante, duma suavidade de efeitos mágicos. Das trevas e do mais oculto nascem fábulas azuladas, a luz do bem querer e de irresistíveis esperanças.


POEMA de BYRON

Não recues! De mim não foi-se o espírito...
Em mim verás - pobre caveira fria -
Único crânio que, ao invés dos vivos,
Só derrama alegria.

Vivi! Amei! Bebi qual tu: Na morte
Arrancaram da terra os ossos meus.
Não me insultes! Empina-me!... que a larva
Tem beijos mais sombrios do que os teus.

Mais vale guardar o sumo da parreira
Do que ao verme do chão ser pasto vil;
- Taça - levar dos Deuses a bebida,
Que o pasto do réptil.

Que este vaso, onde o espírito brilhava,
Vá nos outros o espírito acender.
Ai! Quando um crânio já não tem mais cérebro
...Podeis de vinho o encher!

Bebe, enquanto inda é tempo! Uma outra raça,
Quando tu e os teus fordes nos fossos,
Pode do abraço te livrar da terra,
E ébria folgando profanar teus ossos.

E por que não? Se no correr da vida
Tanto mal, tanta dor ai repousa?
É bom fugindo à podridão do lado
Servir na morte enfim p'ra alguma coisa!...

Tradução de Castro Alves


FRASES de BYRON

“A recordação da felicidade já não é felicidade; a recordação da dor ainda é dor.”

“Todo aquele que conseguir a alegria deve partilhá-la.”

“Todas as tragédias terminam em morte e todas as comédias em casamento.”

“No amor alternam a alegria e a dor.”

“A amizade é o amor sem asas.”

“O amor nasce de pequenas coisas, vive delas e por elas às vezes morre.”

“A adversidade é o primeiro caminho para a Verdade.”

“E, afinal de contas, o que é uma mentira? É apenas a verdade mascarada.”

“As novidades agradam menos do que impressionam.”

“O ódio é de longe o mais longo dos prazeres: amamos depressa, mas detestamos com vagar.”

“Na sua primeira paixão, a mulher ama o seu amante; em todas as outras, do que ela gosta é do amor.”

“É mais fácil morrer por uma mulher do que viver com ela.”

“O casamento vem do amor, assim como o vinagre do vinho.”

“Enxugar uma só lágrima merece mais honesta fama do que verter mares de sangue.”

“Quem ama mente.”

“O entusiasmo é uma embriaguez moral.”

“Quando tiramos a vida aos homens, não sabemos nem o que lhes tiramos, nem o que lhes damos.”

“Uma amante pode ser tão incômoda quanto uma esposa, quando se tem apenas uma.”

“Terrível é que não é possível viver com as mulheres, nem sem elas.”

“A vida é como o vinho: se a quisermos apreciar bem, não devemos bebê-la até à última gota.”

“É quando pensamos conduzir que geralmente somos conduzidos.”

“Só a mágoa deveria ser a instrutora dos sábios. Tristeza é saber.”


lord byron

abril 02, 2016

.................... RUY CASTRO - CONTADOR de VIDAS ESQUECIDAS



  
Ilustrações:
PAUL CÉZANNE 
(1839 - 1906. Provença / França)


Os textos de RUY CASTRO (1948. Caratinga / MG) se destacam pelo bom humor, memória afiada, apuro na pesquisa e escrita sedutora. Um dos nossos grandes biógrafos, de tanto viver no Rio de Janeiro assimilou o espírito carioca. Sua mais recente criação biográfica, “Carmem – Uma Biografia” (2005), sobre a cantora Carmen Miranda, ganhou o prêmio Jabuti na categoria não-ficção. Autor de “Chega de Saudade – A História e as Histórias da Bossa Nova” (1990); “Anjo Pornográfico – A Vida de Nelson Rodrigues” (1992) e “Estrela Solitária – Um Brasileiro Chamado Garrincha” (1995). Lançou também livros de ficção, humor, antologias e traduções. Jornalista desde 1967, publicou há algumas semanas “Um Filme é Para Sempre” (2006), reunindo 60 artigos de cinema escritos nos últimos 30 anos. Seleção e organização da escritora Heloísa Seixas, sua esposa. A entrevista surgiu a partir da nossa encontro no “I Encontro Natalense de Escritores (ENE), em 2006, Natal (RN). Ela tem como objetivo ampliar o interesse na obra do escritor. Confira abaixo a íntegra do exclusivo bate-papo publicado no site Cronópios e nos jornais A Tarde (BA) e Jornal de Hoje (RN).

Harold Bloom garante que o escritor norte-americano está obcecado com a miragem “grande obra” que represente todo seu esforço intelctual. Você já realizou tal obra?

Interessante. Nunca pensei numa obra como uma coisa total- talvez porque não tivesse planejado ser escritor. Era jornalista desde 1967, estava muito feliz como jornalista e, de repente, por volta de 1988, comecei a ter umas ideias que não cabiam nos jornais ou revistas, só em livros. Exemplos, a história da Bossa Nova ou a vida de Nelson Rodrigues. Apresentei essas ideias à Companhia das Letras, eles toparam e já saí de cada telefonema trabalhando. Cada livro levou a outro livro e, quando me dei conta, já estava completamente imerso no produto literário. Outra coisa: a cada livro sempre senti que houve uma evolução. Ou, pelo menos, o livro seguinte sempre deu mais trabalho. Mas tem razão: “Carmen” foi e é a totalização desse esforço.

O seu mundo continuou o mesmo depois do êxito de “Carmen - Uma Biografia”?

Não, tudo mudou radicalmente. O livro levou cinco anos para ser feito, dos quais três em regime exclusivo, sendo o último ano em circunstâncias muito particulares. Não creio que eu possa fazer melhor - pelo menos, no que se refere a biografias ou livros de reconstituição histórica. De certa maneira, isso me dá uma sensação de dever cumprido - como se, a partir de agora, eu continuasse a escrever pelo simples prazer de escrever. Espero ter ficado mais tranquilo e menos ansioso. Não creio que eu precise provar mais nada para mim.

A Carmen que descobriu em pesquisas é a mesma que habitava seu imaginário?

Não, tornou-se muito maior e melhor. Eu não imaginava que a vida dela no Rio dos anos 20 e 30 tivesse sido tão rica e radical, e nem as dimensões de seu enorme sucesso na América. E só fazia uma vaga ideia do drama interior dela nos seus últimos anos.

Carmen Miranda, tratada como artista exótica, tinha qualidades evidentes. A biografia veio na hora certa?

Espero que sim. Assim como a obra de Nelson Rodrigues ficou muito mais iluminada a partir do conhecimento de sua vida, espero que aconteça o mesmo com Carmen. Aliás, basta ouvir suas gravações (principalmente as da fase Odeon, hoje EMI, entre 1935 e 1940) para se ter uma ideia da grande cantora que ela foi.


Carmen é uma das vítimas da capenga memória nacional?

Sim, como todo artista brasileiro que saia fisicamente de circulação. E nem é preciso ir aos anos 30 e 40, que foram o seu apogeu. O Brasil ouve muito menos Orlando Silva, Sylvio Caldas, Aracy de Almeida, Ciro Monteiro, Dircinha Batista, Os Anjos do Inferno, Lucio Alves, Miltinho e Doris Monteiro do que deveria. E que outros países têm cantores como esses? Aliás, Miltinho e Doris estão vivos, esperando convites. Sabe há quantos anos não sai um disco de Aurora Miranda no Brasil? Há 50 anos! Carmen nem estava tão esquecida assim pela indústria fonográfica - todo ano saía um disco dela, uma coletânea de 78s, mas quase todos usando o mesmo material e, o que é pior, quase sempre o material americano de “Mamãe Eu Quero”, “South American Way” etc. Mas estou sabendo que a EMI está preparando uma edição da sua obra lá, com quatro CDs temáticos.

Como reagiu ao ganhar o Prêmio Jabuti? 

Fiquei muito emocionado. Já o tinha ganho antes, com “Estrela Solitária”, mas nada se comparou a este. Inclusive pela própria Carmen - para mim, era ela que estava sendo premiada.


O seu ofício como jornalista pode ser recordado em um momento especial? O que escreveu na ocasião?

Não creio que tenha passado por esse momento “especial”. O mais perto seria o fato de estar morando em Lisboa quando explodiu a Revolução dos Cravos, de um dia para o outro, em abril de 1974, e ser o único jornalista brasileiro a assistir a tudo aquilo pela janela. Como as fronteiras foram fechadas, nenhum outro colega conseguiu entrar em Portugal menos de cinco dias depois.

O seu novo livro foi uma sugestão de sua esposa, Heloísa Seixas. Desde o início acreditou no projeto?

Tive receio de os artigos não estarem à altura de um livro, mas ela me convenceu do contrário. E fiquei muito feliz com o resultado final. Tanto que já a autorizei a fazer o mesmo com os artigos sobre música popular e sobre literatura. Ela já está mergulhada em montanhas de pastas, coitada. São para sair em meados do ano que vem, quando completo 40 anos de trabalho.


Como vê a nova literatura nordestina?

Imagino que acontece com ela o mesmo que esteja acontecendo com toda literatura: procurar um nível de qualidade acima do que se está produzindo com essa linguagem de blogs e de escrita automática em voga no momento. Literatura exige (ou deveria exigir) esforço, capricho, reflexão. Fico besta como um romance como “Pérolas Absolutas”, da Heloísa, lançado pela Record há três anos, e com toda a crítica maravilhosa que conquistou, não tenha todos os leitores que merece.

Como será sua participação no I Encontro Natalense de Escritores?

Eu e Heloísa vamos falar, cada um, da especialidade do outro. Ela vai contar histórias de bastidores de um biógrafo, ou seja, um autor de não-ficção; e eu vou fofocar sobre como trabalha um romancista ou contista, ou seja, um autor de ficção. Demos essa palestra certa vez na Bienal do Livro, no Rio, e foi um sucesso.


Soube que não voltará a biografar.

O problema é que, desde “Carmen”, não me ocorre nenhum nome que eu gostaria de biografar.



março 10, 2016

................ O ENGENHOSO FIDALGO D. QUIXOTE de LA MANCHA

 

 
Ilustrações: 
GUSTAVE DORÈ, OCTAVIO OCAMPO
 e SALVADOR DALÍ

publicado na revista beco das palavras
 
 
Em janeiro de 1605 apareceu a primeira edição de EL INGENIOSO HIDALGO DON QUIJOTE de la MANCHA, idealizado por um maduro e sofrido espanhol. De imediato se transformou num êxito de vendas em vários países. O autor, MIGUEL de CERVANTES SAAVEDRA (1547-1616. Alcalá de Henares / Espanha), sem educação formal, dramaturgo sem fortuna, pouco antes trabalhava como cobrador de impostos nas aldeias, montado num asno, e ao mesmo tempo escrevia poemas, novelas e peças teatrais. A falência do banco de Simón Freire de Lima, onde depositadora parte do arrecadado, conduziu-o a infortúnios que abalou sua reputação e o levou ao confinamento presidiário. Não era novato em prisões, durante cinco anos foi prisioneiro de corsários e um dos dois mil escravos do harém masculino do rei da Argélia. Sem imaginar a significância que a sua obra adquiriria na literatura universal, CERVANTES escreveu a primeira parte das andanças de Alonso Quijano, um fidalgo de uns 50 anos que perdeu o juízo de tanto ler novelas de cavalaria (muitos populares na época), numa prisão de Sevilha. Meses antes de morrer, famoso, finalizou a saga do “covarde-heroico”.

miguel de cervantes
Não é uma obra fácil de classificar. DOM QUIXOTE tem diversos traços barrocos – como a preocupação com o ponto de vista, o rebusco deliberadamente excessivo de linguagem e o tropo recorrente do engano, dos erros que ameaçam nossas tentativas de ver e, especialmente, interpretar o mundo. Para Michel Foucault, o Quixote dramatiza a própria transição entre a episteme renascentista e a clássica. O foco desta dramatização é o próprio Quixote, um personagem que vê o mundo inteiro através de uma lente de similitude – tudo se reduz e retorna à realidade dos romances de cavalaria.

Uma VIDA sem SOSSÊGO

A existência errante, numa história de privações, levou CERVANTES à batalha de Lepanto, planejada para dar um golpe mortal nos turcos e onde o escritor terminou por inutilizar a mão esquerda para sempre. Não se sabe o dia exato do seu nascimento, nem a cidade onde nasceu (sabe-se da província, Alcalá de Henares), tampouco onde foi enterrado. Nos últimos anos de vida escreveu sem parar, em verso e prosa, cada vez mais original e vitalista, com popularidade crescente: manuais de crítica literária, dramaturgia cômica, novelas. Além de excelentes prólogos. É a época de “Novelas Exemplares (1613), “El Viaje al Parnaso” (1614), “Ocho Comedias y Ocho Estremeces Nuevos” (1615), “Los Trabajos de Persiles” (1616), “Segismunda” (1616).

Nascido numa família mergulhada na penúria, MIGUEL de CERVANTES peregrinou em várias cidades em busca de melhores condições de vida, influenciando sua produção literária. Aos 21 anos, em Madri, estudou retórica e arte poética por um breve tempo, fez versos e ensinou letras para crianças. Ao participar de um duelo, ferindo o oponente, procurou evitar a prisão e o corte da mão direita, severa pena estabelecida pela justiça real, fugindo para Roma. Servindo, cerca de um ano, ao cardeal Giulio Acquaviva, visitou Milão, Florença, Palermo, Veneza, Parma, Ferrara. A Itália renascentista em vigorosa abolição artística, destacando escritores e pintores, influenciou a criação do escritor. Alistando-se como voluntário no exército, na expedição Liga Santa, novamente é ferido numa sanguinária batalha de afirmação imperial que dizem ter vitimado 30 mil soldados numa só manhã. Passou seis meses se recuperando, conhecendo a italiana Silena, em Nápoles, futura mãe do seu filho Promontório. Nada mais se sabe desse relacionamento. O silencio de CERVANTES em relação à sua vida afetiva é quase total.

PRISÕES e COBRANÇAS

Saudoso da Espanha, retorna. Na travessia marítima, seu barco é capturado pelos turcos, tornando-se prisioneiro durante cinco anos com infrutíferas tentativas de fuga. A duras penas, a família paga o resgate de 500 escudos de ouro, um alto preço, e CERVANTES volta a Madri. Nos meses seguintes, tenta trabalho em Lisboa e nas Índias, mas nada consegue. Em 1583, conhecido como homem de letras, autor de “La Galatea” e obras teatrais aplaudidas (“Los Tratos de Argel”, “La Destrucción de Numancia” etc.), engravida Ana de Villafranca, casada. Estigmatizado, abandona a corte moralista.

Em Esquivias, num pequeno povoado, casa-se com uma garota de menos de 20 anos, Catalina de Salazar y Palacios, de certa nobreza de sangue. Desta união, nascem vários filhos. Atormentado psicologicamente, deixa a família para trabalhar na Andaluzia como coletor de azeite e cereal para a Armada Real. Durante muitos anos ocupa esse ofício ingrato, levando-o a conflitos constantes com a igreja e os camponeses. O seu próximo trabalho, cobrando tributos na província de Granada, não o livra de uma pobreza cada vez mais agravada. Como disse, termina na prisão e, assim, inicia a escrita da obra-prima DOM QUIXOTE, finalizada em 1615 com 126 capítulos e quase mil páginas, dezoito anos passados.

CANTO à LIBERDADE

Havia uma grande rivalidade entre CERVANTES e Lope de Vega. Foram amigos por certo tempo, antes que a vaidade e a inveja os separassem. Os eruditos consideram, inclusive, que o prólogo de DOM QUIXOTE, carregado de sonetos, goza do famoso esnobismo de Lopes. Cervantes inventou o romance moderno com aventuras que divertem e fazem pensar. Ítalo Calvino, escritor italiano, disse que o protagonista-título lutando contra moinhos de vento é tão memorável que é mencionado mesmo por quem não leu o livro.


O peruano Mario Vargas Llosa, em “Uma Novela para o Século XXI”, enxerga a ficção como tema central da obra de Cervantes, em razão das fantasias literárias. Lembra, também, que é um canto à liberdade, como confirma Quixote ao dizer “La libertad, Sancho, es uno de los más preciosos dones que a los hombres dieron los cielos; com ella no pueden igualarse los tesoros que incierra la tierra ni el mar encubre.”

DOM QUIXOTE: MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS

CERVANTES é a alma da Espanha. William Faulkner lia DOM QUIXOTE a cada ano. Especialistas em literatura aconselham que é preciso lê-lo pelo menos três vezes antes de morrer. Obra magistral, considerada a mais perfeita em língua espanhola e um dos trabalhos literários mais aclamados de todos os tempos, relata a trajetória errante de um cavaleiro e seu fiel escudeiro, Sancho Panza. O acerto ao criar um personagem cuja demência consiste em desfazer ofensas e amparar debilitados, implica numa ânsia eterna e desesperada por justiça. Sancho homenageia as pessoas simples, muitas vezes mais sábias e sensatas que os próprios patrões.

o filme de g. w. pabst
Juntos, com maior ou menor proveito, Dom Quixote, montado no cavalo Rocinante, e Sancho cruzaram os séculos, através da paisagem ibérica, em especial a região de Castilha e La Mancha, chegando a Zaragoza e Barcelona, vendo o mar pela primeira vez. Das páginas do livro clássico passaram para espetáculos teatrais, dança, circo, ilustrações, pinturas, quadrinhos, animação e cinema. Nem sempre tiveram sorte. O cinema, por exemplo, nunca fez uma versão digna do livro. Em 1933, Georg Wilhelm Pabst rodou sua adaptação protagonizada por Feodor Chaliapin Sr., do teatro russo. Outros célebres atores repetiram o feito: Peter O’Toole, Fernando Fernán-Gómez, Fernando Rey, Jean Rochefort.

A bufonesca disparidade da dupla foi melhor recompensada nas artes plásticas. Eles foram uma tentação inspiradora para desenhistas, escultores e pintores, desde a publicação até os dias de hoje. A fecundidade desta aliança foi captada por monstros sagrados como Goya, Delacroix, Corot, Gustae Doré, Pablo Picasso, Salvador Dalí, Daumier ou Pollock, entre dezenas de outros.

Em 2002, 100 conceituados escritores de 54 países escolheram DOM QUIXOTE como o melhor livro de todos os tempos. Segundo a Unesco, depois da Bíblia, é a obra mais lida mundialmente. Uma assombrosa unanimidade une milhares de leitores. Como poucos livros, ele nunca deixou de ser lido, citado, admirado, respeitado e interpretado de diversas formas, renascendo ano após ano no imenso mar que são os sentimentos, curiosidades, vontades e frustrações humanas presentes no seu enredo.
                                                                   

Publicado no jornal A Tarde Cultural