janeiro 18, 2015

......................................... DORIS LESSING: o PRAZER da ESCRITA



 
 
Ilustrações: 
GIACOMO BALLA
(1871 - 1958. Turim / Itália)

I Parte
CRÔNICA de um ENCONTRO SINGULAR

Londres, 1998. A companheira de moradia compartilhada, Rute M., bela jovem do sul do Brasil, fazia faxinas em antigas casas britânicas para pagar seu curso de inglês. Trabalho duro, que incluía passar aspirador em toda a casa, catar folhas secas nas varandas, esfregar azulejos e os vidros das grandes janelas, deixar banheiros impecáveis, além de lavar copos e pratos em pias geralmente cheias. O árduo ofício feito por imigrantes ilegais tinha vantagens: bem remunerado, gastava-se um máximo de três horas semanais em cada residência e os proprietários raramente estavam presentes, deixando educadamente sanduíches e o pagamento do dia num envelope. Ao gripar-se num inverno impiedoso (ou teria ido passar uns dias em Gales com o namorado escocês? Já não lembro), Rute M. pediu aos amigos para substituí-la na humilde e necessária faina durante esse período de ausência. Repartindo a clientela, fiquei com uma típica casa vitoriana, de tijolinhos aparentes, em Hampstead. Sabia apenas que vivia ali uma idosa e solitária senhora, possivelmente escritora. Rute M. trocava poucas palavras com ela e me advertiu sobre o maior problema do serviço: livros e papéis espalhados por todos os lados, como insetos vivos, e não era permitido tocá-los nem para tirar o pó.

Imaginei uma dessas autoras românticas fracassadas, afetadas e neuróticas. Nem ousei pensar em Iris Murdoch ou Muriel Spark, seria como estar na intimidade com Lygia Fagundes Telles ou Hilda Hilst. Às nove da manhã toquei a campainha, coberto por uma névoa fina e gélida que atravessava o gorro e o casaco de pelica forrado de lã de carneiro. Reconheci imediatamente o par de olhos verdes na porta semiaberta. “Bom dia, senhora. Sou amigo de Rute M. Ela está enferma e eu farei o seu serviço”. “Pobrezinha. O que tem? Algo sério? Precisa de ajuda?”. “Apenas uma virose, logo estará recuperada, Miss Lessing”, respondi, fingindo uma naturalidade impossível, desejoso de beijar as mãos da mulher de olhos profundos e rosto costurado de rugas. “Como sabe que me chamo Miss...Lessing?”, desconfiou. “A correspondência...”, menti, recolhendo cartas e jornais no chão. Ela sorriu, cortês, abrindo a porta de vez.


Usava os cabelos grisalhos quase azulados, em coque; colete azul elegante; macacão branco, masculino. Aos 79 anos, essa mulher imaginativa, que mais parecia avozinha de contos de fadas, um pouco gorda, era uma das escritoras mais célebres da Europa e seu nome referencial para o Prêmio Nobel de Literatura. A sua novela mais famosa, a quase autobiográfica “O Carnê Dourado” (1962), é um êxito mundial, inclusive no Brasil. Lembro quando a Stela Simpson de Tônia Carrero, na telenovela global “Água Viva”, brilhava numa cena lendo-o. DORIS LESSING nasceu na Pérsia, criada na antiga Rodésia, hoje Zimbábue. Conhecida como escritora realista, embora seja autora de cinco novelas de ficção-científica (o ciclo “Canopus in Argus: Archives”). Escreve com segurança e talento sobre o desmoronamento familiar, a permanente crise dos sentimentos humanos e a competição entre casais, retratando a mulher dos nossos dias com lucidez e ferocidade.

Perguntou se eu queria tomar algo. Esqueci-me de responder, hipnotizado com a escada que levava ao primeiro andar, cheia de caixas de livros, e ao passar na cozinha e no salão principal, arregalei os olhos com o número sem fim de livros desordenados. “Gosta de doce de gengibre?”, ofereceu afetuosa. Disse que gostava, mas preferia começar o trabalho, ela não precisava se preocupar, Rute M. havia me explicado o que deveria ser feito. DORIS LESSING sorriu, sorria sempre, e desapareceu escada acima. Limpei o andar térreo por quase uma hora e, ao alvejar os vidros, avistei o jardim selvagem, tomado por plantas belas e descuidadas. O silêncio era suave, não se ouvia música nem passos nem televisão. Ao subir as escadas de madeira escura, deparei-me com uma sala com poucos móveis: uma grande mesa sobrecarregada de livros e papéis, almofadas orientais no chão, pufes e um sofá baixíssimo, sem pés – como um recanto de espírito hippie. Um gato gordo e velho saltou de cima de um grosso volume de “Satyricon”, de Petrônio, revelando somente três patas.


Praticamente imóvel, DORIS LESSING escrevia a mão, sentada numa das almofadas. Virou-se para mim, dizendo: “Este é O Magnífico. Tem 18 anos e teve uma pata amputada. Tinha câncer. Está muito idoso, pobrezinho”. O gato olhou-me indiferente, aconchegando-se em cima de outro livro. Poderia ser o gato existencialista da atriz decadente de “Horas Nuas”, de Lygia Fagundes Telles. Tudo era novidade, não sabia se me surpreendia principalmente com a vastidão de livros em vários idiomas, o gato de três patas ou a ágil e serena senhora sentada numa almofada como se fosse adolescente. Por fim, levantou-se, sussurrando: “Isto é a velhice. Entende? A velhice é a dificuldade de se levantar”. Continuei o trabalho, enquanto ela mexia em papéis, perguntando outra vez se eu não queria tomar algo. Quando a cada minuto voltava-me discretamente para olhá-la, os seus olhos subitamente encontravam os meus.

Sorriu lindamente, perguntando: “Como se chama?”. “Antonio”, respondi tirando o pó dos objetos. “Antonio, você gosta de livros, não?”. “Muitíssimo”. Ela sorriu mais uma vez e depois de uma pausa demorada, continuou a conversa sutil e inesperada: “Você chora normalmente?”. “Somente ao ver filmes que me sensibilizam”. “Eu também nunca choro. É horrível jamais chorar”. “Como joga fora os seus medos?”, ousei perguntar. “Através da literatura. Uma vez passei um ano inteiro sem escrever e vivia de mal humor. A escrita é uma espécie de equilíbrio”. Nos pequenos e intensos olhos verdes, enxerguei a infância dura numa antiga colônia britânica sul-africana, num sítio espaçoso nas montanhas, a fuga aos 14 anos, o casamento aos 18, o abandono do marido e dos dois filhos, desprezando o regime racista e machista da colônia. Uma heroína de aventura. Uma mulher lúcida, de prosa personalíssima, caráter forte, cultiva a literatura como espaço de domínio e liberdade pessoal.

Ao terminar o trabalho, aceitei o chá e o doce de gengibre. Boa anfitriã, ela sentou-se ao meu lado na cozinha, colocando a chaleira, as xícaras floridas e o doce entre os livros na mesa rústica. Ela sorria sempre – lembrar-me-ei dela eternamente sorrindo. “Escrevo também. Sou um aprendiz”, confessei. “Imaginei”. “Não consegui nenhum êxito”, afirmei. “Cada livro tem sua própria vida. Todos os livros têm que lutar a princípio contra a negatividade e a indiferença. A maioria de meus livros recebe violentas reações negativas. Na verdade não é importante que a pessoas gostem deles, o importante é o prazer de escrevê-los e a consciência de que a realidade é sempre pior do que o que se escreve”. 
 
Durante essa conversação inesquecível, de evidentes e mútuas aspirações de nos entendermos, MISS LESSING me presenteou com o livro “A Proper Marriage” (1954) - no Brasil, “Um Casamento Convencional” -, insistindo que eu levasse um pouco do doce de gengibre para Rute M. “É preciso sobreviver às piores circunstâncias, meu caro”, aconselhou, enquanto me entregava o envelope com o pagamento da faxina. Não o aceitei, ela insistiu com vigor, não o quis de forma nenhuma. Enfrentando a rua insultada pelo inverno rigoroso, em direção à estação de trem, lágrimas corriam pela face. Na cabeça, o prazer da escrita, a felicidade clandestina e a excitação do encontro revelador com uma criatura resistente, magnânima e indômita. 


II Parte
A ENTREVISTA
publicada no caderno “Cultural” do jornal “A Tarde”
e no livro “ArtePalavra - Conversas no Velho Mundo” (2002)


A escritora britânica DORIS LESSING (nascida Doris May Tayler, em Kermanshash, Pérsia, 1919), autora de “O Carnê Dourado” (1962), é lembrada para o Nobel de Literatura, ano após ano, nas últimas três décadas. No mês passado, levou o premio Príncipe Astúrias de Letras, o mais importante galardão literário espanhol, em reconhecimento a “uma das mais indiscutíveis figuras da literatura universal”. Amável, elegante, cabelos brancos atados, profundas rugas que guardam histórias e um olhar hospitaleiro, ela passou tempos difíceis, mas a sua fama como romancista só faz crescer.

Com uma meia centena de livros publicados, o seu percurso privado é tão fascinante como a obra. Viveu a juventude na Rodésia e na África do Sul. Após duas separações matrimoniais, do abandono de dois filhos e de perseguição política ao denunciar o regime racista, mudou-se para Londres em 1949, com pouco dinheiro e um manuscrito, “A Erva Canta / The Grass is Singing”. Aos 31 anos, viu publicada essa história que fala de um assassinato misterioso e um casamento estranho, abrindo caminhos à causa da emancipação feminina no pós-guerra, embora a escritora recuse com determinação o rótulo feminista.

Ao aparecer na sala reservada para a coletiva, no Instituto Britânico de Barcelona, palmas e flashes pipocaram como se estivéssemos diante de uma estrela pop. Ao ser chamada de intelectual por uma jornalista, DORIS LESSING se defendeu: “Sou autodidata. Intelectual não é precisamente a imagem que tenho de minha pessoa.”

A senhora é uma escritora politizada?

Deixei de ser comunista no início dos anos 1950. Faz muito tempo. Os meus livros são resultados de experiências, mas costumam associá-los a fatos políticos. Eu discordo, nunca tive tempo para me ocupar com política. Escrevi muito, cuidei de um filho, lutei para sobreviver, mas nunca houve essa atuação política que me atribuem.

A sua literatura ajudou a causa feminista...

Nunca fui militante feminista. Não me envolvi com nenhuma associação feminista. Sou uma mulher que escreve, mas nunca escrevi pensando “estou escrevendo como mulher”. Escrevo a partir da experiência feminina, nada mais.

Concorda em ser enclausurada na chamada “literatura feminina”?

Penso que a boa literatura não é boa por ser escrita por homens ou mulheres, é boa porque tem qualidades. O sexo do autor pouco importa. Eu não suporto a dita literatura feminina.
 
Tampouco suporta a literatura comprometida ideologicamente?

Nunca acreditei na literatura engajada. Desagrada-me. Sempre penso que se produz muita literatura de má qualidade. A escrita tem que ter vida própria em sua essência, nascida de uma mistura de experiências reais. A escrita política, panfletária, não tem nenhuma vida, é oca.

Quem lê os seus livros como comprometidos e feministas não a compreende?

Escrevo com sinceridade. Escrevo, repito, sobre minhas experiências, minha visão de mundo, mesmo quando se trata de narrativas não realistas, como as de ficção científica. Escrevo claramente, mas sei que se uma pessoa não tiver experimentado o mesmo que eu, ela não entenderá completamente o que quero dizer.

Onde estão as suas experiências de vida na série “Canopus em Argos: Arquivos”?

Não existe uma diferença substancial entre realismo e fantasia. É só uma convenção. Pode-se dizer a verdade através da fantasia ou do realismo. Não importa a forma para se transmitir algo. O mais importante é a sinceridade do material escrito.

O seu espírito livre é muito admirado.

Ninguém é livre. A ideia de que se pode ser livre e fazer o que bem entender é ilusão. Uma coisa típica da juventude. Todos nos encontramos, mais cedo ou mais tarde, obrigados a fazer coisas por determinadas situações.

Quase sempre é associada a “O Carnê Dourado”. No Brasil, esse romance chegou a ser utilizado como leitura favorita de um personagem libertário de telenovela.

Fico feliz que tenha sido útil para tanta gente. Mas estou cansada de falar sobre ele. Já disse tudo o que tinha a dizer, afinal escrevi muitos outros livros.

Publicou um único volume de poesias, “Fourteen Poems”. Não se considera boa poeta?

Nem boa nem má, não sou poeta. Não me vejo escrevendo poesia. Continuo interessada em escrever prosa.

Qual a função da sua literatura?

A mesma de qualquer outra literatura honesta: comentar sobre a vida para as pessoas que estão interessadas em analisar a sua própria vida através da literatura. Não tento mudar o mundo com a literatura. Não é possível. Creio também que escrever me faz mais humana.
 
O que pensa do universo feminino?
 
O mesmo que penso sobre os homens. Acho piegas o conceito de mulheres como seres mais delicados e generosos. Basta estudar a história para encontramos mulheres terríveis, cruéis. Não enxergo de forma maniqueísta. Todos podem ser bons ou maus.

Nessa época tensa, os escritores que dão o seu testemunho público sobre o conflito Ocidente versus Oriente estão ultrapassando limites?

Não se pode obrigar o escritor a opinar quando não o deseja, mas ele tem todo o direito de dar sua opinião sobre o que tiver vontade. Eu acho o Bush detestável, um homem horrível. Nos Estados Unidos, as bibliotecas e os colégios não recebem a verba de manutenção que necessitam, mas há sempre dinheiro para bombardeios, tanques de guerra etc. Nunca há dinheiro para as coisas verdadeiramente importantes.

Disse-me em 1998, em sua casa londrina de Hampstead, que “a realidade é sempre pior do que o que se escreve”. Continua com a mesma opinião?

Mantenho esta opinião. Basta abrir os olhos para enxergar injustiças, violência, crueldade. Está tudo aí, diante de nossos olhos, mais duro que qualquer história romanceada. A vida é dura para a maioria das pessoas.

A velhice não parece preocupá-la.

Não é nada do outro mundo. Envelhecemos e morremos. E é tudo. Não se pode fazer nada.

 
Em ensaios sobre a Educação criou a expressão “Novos Bárbaros”. Pode explicá-la?

Falo de pessoas que não sentem curiosidade pela história ou pela literatura, por exemplo. São pessoas com muitos anos de estudo e, ainda assim, não se preocupam profundamente com a leitura. É um fenômeno novo que vem abalando a reputação educacional.

Qual o caminho que um jovem escritor deve seguir?

Não existe caminho concreto. Depende da experiência e das escolhas de cada um. Fundamental é independência interior, ter fé em seu próprio julgamento e não dar atenção aos modismos literários. Um crítico que nos despreza pode no futuro dar tapinhas nas nossas costas. Tudo pode mudar da noite para o dia.

Tem remorsos por ter abandonado seus filhos?

Não abandonei meus filhos. Abandonei um estilo infame de vida. Uma existência racista, enfadonha, horrível e insignificante. Não conseguia continuar vivendo esse tipo de vida inferior. Foi uma questão de sobrevivência.

Lançou recentemente “The Sweetest Dream”. Fale um pouco sobre ele.

Narra um tempo em que se tinha ideologia. Eu mesma tive algumas crenças utópicas. Outros tiveram utopias boas ou más. As utopias transformam os homens em selvagens capazes de matar. O meu livro trata disso.

Barcelona, Espanha, 2001



janeiro 08, 2015

............................... MIGUEL RIO BRANCO: no ESPÍRITO da COR


 
 
 
Claude Lévi-Strauss diz que o odor e a audição são os sentidos mais próximos da alma. As fotos de MIGUEL RIO BRANCO concedem à visão a mesma proximidade e imediatismo que deveriam ser privilégios dos sons e das fragrâncias. Suas imagens exalam, secretam, inebriam, exsudam, tresandam – de maneira instantânea e fulminante. São palpáveis e degustáveis. Sua sensualidade é visceral, ardente, desconcertante. Daí a pertinência de sua citação do antropólogo: “Antes de mais nada, penso no Brasil como um perfume queimado.” A fotografia brasileira tem dois grandes coloristas: Miguel Rio Branco e Walter Firmo. Firmo é lírico, Miguel Rio Branco é trágico. Firmo é impressionista, Miguel Rio Branco é expressionista. Firmo tem a jovialidade do chorinho. MIGUEL RIO BRANCO, o dilaceramento e a pungência estridente do tango – mas com urucum e tintura de pau-brasil na veia. Eis o que diz Sebastião Salgado sobre ele: “Capta a umidade das cores tropicais do Brasil, a fera luz que transfigura rosas, verdes e azuis. Ele entra no espírito da cor, penetrando seu âmago como nenhum outro fotógrafo de hoje que trabalha com a cor. Talvez se beneficie do fato de ser também artista plástico e cineasta: usa a cor como um pintor e a luz como quem faz cinema.”


Suas fotos evocam Goya e Francis Bacon. Personagens em carne viva, pesadelos grotescos, penumbras espanholas. Uma geografia física e humana que se endente de Sevilha, Paris, Bilbao a Salvador, Rio, Marabá, passando por Havana e a Nova Iorque dos chicanos e dos mendigos do Bowery. Ele trabalha muito com marginais. Suas naturezas mortas são também marginais: tatuagens, cicatrizes, mutilações, inscrições pungentes, ladrilhos rachados, paredes violetas, remendos, couros furados. MIGUEL RIO BRANCO é a luz de seu país sofrido, com iemanjás nas prateleiras. Suas fotos tendem às vezes à abstração e lembram a aniagem de Burri, as garrafas de Morandi, os violetas exaltados de Yves Klein, as prisões sombrias de Piranesi e a arte bruta de Dubuffet. Sua passagem por um matadouro nos remete a Rembrandt e a Soutine.


“Entre os Olhos o Deserto” (1997), uma de suas instalações, foi feita com três projeções nas quais mais de 400 imagens se sucedem. A variedade de tempos e a combinação de imagens criam um ritmo hipnótico, acentuado por fusões e sobreposições. Realizada em 1996, no “In-Site”, uma exposição bienal que ocorria na fronteira entre México e Estados Unidos, a obra trata da aproximação de dois gêneros clássicos da fotografia: o retrato e a paisagem. De um lado, retratos de olhos, de outro, registros do deserto e da fronteira, cenas urbanas e de ruínas, todos locais carregados de nostalgia. A trilha sonora combina canções populares norte-americanas com a música “Gymnopédie n.1”, de Erik Satie (1866 - 1925). Em instalações criadas na década de 1990, exibe projeções fotográficas juntamente com recortes de jornais, cacos de espelhos ou retalhos de tecido. O espectador percorre assim um mundo em fragmentos, composto por imagens dramáticas. Utilizando recursos como transparências, justaposições, cortes e colagens, MIGUEL RIO BRANCO cria situações de continuidade e descontinuidade. Para alguns críticos, sua produção situa-se no limite entre arte, fotografia e cinema.


O escritor João Antônio, que trabalhou com ele na série dedicada à Academia de Boxe Santa Rosa, na Lapa, disse: “Suas fotos não são populistas. São cruéis, mas equilibradas por uma autêntica candura.” E no ensaio de David Levi Strauss, que abre um de seus livros, a propósito da sua poesia trágica: “Ela se concentra em dois pontos essenciais – a coragem e a inelutabilidade da derrota. Isso é representado pelas imagens, mais do que ilustrado por elas.” Essas imagens são originais, inéditas, nunca dão a sensação de déjà vu. A obra de MIGUEL RIO BRANCO provoca sensações fortes de erotismo, dor, desolação, isolamento, perda, nostalgia, saudade, ardência, mas sem usar adjetivos visuais. Ele é um poeta das coisas cabralinas, das texturas – da pele morena e mameluca – da mancha de sangue como um toque rubro de Goeldi no mundo sombrio.

miguel rio branco
BRASILEIRO do MUNDO

Filho de diplomata, 68 anos, nasceu na Espanha, onde morou até os três anos. O detalhe geográfico, entretanto, não o impede de se considerar um brasileiro acima de tudo. Brasileiro do mundo: morou na Suíça, EUA, Portugal e Argentina. Um dos mais destacados fotógrafos brasileiros do cenário contemporâneo, sua carreira profissional começou em 1964 com uma exposição de pintura em Berna, Suíça. Em 1966, estudou no New York Institute of Photography e em 1968 na Escola Superior de Desenho Industrial do Rio de Janeiro. No início dos anos 1970, trabalhou como fotógrafo e dirigiu filmes experimentais. Em 1972, começou a expor seus trabalhos de fotografia e continuou a dirigir curtas e longa metragens durante os nove anos seguintes. Dentre seus curtas-metragens, “A Jaula” (1969) e “Apaga-te Sésamo” (1985). Dentre seus longas-metragens podemos citar “Revólver de Brinquedo” (1971) e “Dayse das Almas deste Mundo” (1991).

Desde 1980 é correspondente da Magnum Photos. Entre os seus prêmios de fotografia, o Grande Prêmio da Primeira Trienal de Fotografia do MAM de São Paulo (1980) e o Prix Kodak de la Critique Photographique, Paris (1982). Participou de mostras renomadas e exposições individuais ao redor de todo o mundo. Sua obra figura entre as principais coleções de arte, dentre as quais a do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM); Museu de Arte Moderna de São Paulo (MASP); Centro George Pompidou, Paris; San Francisco Museum of Modern Art; Stedelijk Museum, Amsterdam; Museum of Photographic Arts of San Diego; Metropolitan Museum of New York etc. As fotografias de MIGUEL RIO BRANCO foram publicadas em inúmeras revistas de prestígio: Stern, National Geographic, Geo, Aperture, Photo Magazine, Europeo, Paseante etc.


Seu trabalho sempre teve um acentuado aspecto experimentalista. Entrelaçando fotografia artística e documental, construiu sua identidade na busca pessoal por criar recortes da realidade ricos em poesia. Logo que começou a mostrar suas fotos, destacou-se pela predileção por cores saturadas e pelo alto contraste de suas imagens preto e branco. Conhecido principalmente por seu trabalho com a cor, explora em suas fotos os contrastes cromáticos, a diluição dos contornos, os jogos de espelhamentos e as diversas texturas, criando atmosferas por meio do uso da cor e da luz. A passagem do tempo, a violência, a sensualidade e a morte são temas constantes. Na série “Pelourinho” (1979), MIGUEL RIO BRANCO fotografa o Maciel, parte mais antiga do bairro do Pelourinho, em Salvador, Bahia, local bastante degradado, ligado à prostituição. Retrata pessoas com rostos na penumbra, marcados por cicatrizes e também se interessa por casas arruinadas. Capta o que resta de dignidade nas situações cotidianas do local, em ambientes cercados pela violência e pela solidão.

Ele também é conhecido por suas fortes opiniões. Num recente Paraty em Foco, mostrou uma visão desmistificada acerca da função social do fotojornalismo: “A fotografia humanitária que vai mudar o mundo é um blefe. Ela funciona por um tempo, e não vai atingir muitas pessoas. Além disso, a questão da imagem está absolutamente deturpada. Vivemos em um mundo em que tudo é marketing”, analisou. Além disso, afirmou que a fotografia se liga a realidades que nem sempre se quer ter contato e discorreu sobre os momentos em que sentiu frustração: “Depois de um certo tempo, você não usa a fotografia para mostrar o mundo. Usa a fotografia para mostrar você”. Quanto à fotografia brasileira, MIGUEL RIO BRANCO diz: “Temos muita gente interessante, como Sebastião Salgado e Mário Cravo. O que precisamos é de pessoas mais abertas a uma linguagem pessoal, menos dependentes do mercado.” É autor dos livros “Dulce Sudor Amargo” (1985), “Nakta” (1996), “Miguel Rio Branco”, “Silent Book” (1997) e “Entre os Olhos, o Deserto” (2001).


janeiro 02, 2015

....................... APRENDENDO com o PAI da MULHER ARANHA




Ilustrações:
LEONOR FINI
(1907 - 1996. Buenos Aires / Argentina)


É próprio da arte perscrutar o ser humano, transcender os limites do racional, seja qual for o suporte da criação. É próprio da literatura relatar, fantasiar, entreter, emocionar, assim como questionar, derrubar certezas e até perturbar o leitor. Algumas obras nos levam do prazer à indignação e podem também passar pelo tédio, ou nos levar à reflexão. Jamais se poderá, entretanto, acusar a literatura honesta de gerar indiferença. Assim, alguns livros como “O Beijo da Mulher Aranha / El Beso de la Mujer Araña”, do argentino MANUEL PUIG (1932 - 1990. General Villegas / Argentina), tocam em pontos pontos nevrálgicos em que dores pessoais se mesclam à realidade política e a sexualidade. Publicado em 1976, foi traduzido para o português em 1980. Em dois anos atingiu a soma de onze edições e virou um best-seller nacional.
No seu estilo impermeável a classificações, investindo em inovações formais, o autor narra a história de dois prisioneiros que compartilham a cela de uma prisão em algum país da América Latina. Um deles, Valentín Arregui, um militante político; o outro, Luís Molina, um homossexual condenado por corrupção de menores. Valentín e Molina travam uma relação complexa, que se desenvolve dentro de uma atmosfera onírica, alimentada pelo cinema hollywoodiano clássico. O livro não só colocava na ordem do dia o passado político recente da América Latina, como sinalizava para o preconceito da esquerda latino-americana da época quando o tema em questão era o universo homossexual. Quatro anos depois,  “O Beijo da Mulher Aranha” (1985) estreou no cinema dirigido por Hector Babenco e concorreu ao Oscar de Melhor Filme. Sônia Braga faz a Mulher Aranha, Raul Julia interpreta Valentín, e William Hurt, Molina.

Traduzido em mais de vinte idiomas, com peças encenadas na Europa e nos Estados Unidos, MANUEL PUIG mudou-se para o Rio de Janeiro em 1981, morando no Leblon. No Brasil, escreveu em português os romances “Sangue de Amor Correspondido” (1982) e “Cai a Noite Tropical” (1988), além da comédia musical “Gardel, Uma Lembrança” (1987). Em 1988, eu passava temporada na Cidade Maravilhosa. Magricela e curioso, gastava tardes na Cinemateca do Museu de Arte Moderna. Certa vez, depois da sessão de um melodrama mexicano protagonizado por Maria Félix, abordou-me um simpático senhor estrangeiro. Ele falava fluentemente português e aparentava sermais jovem do que a idade que tinha (completaria 56 anos em dezembro). Em pouco tempo se fez tão familiar que parecia que o conhecia há muitos anos. Entre um gole e outro de café, soube muito sobre a era de ouro do cinema hollywoodiano, marcando novo encontro para o dia seguinte.

Cheguei ao encontro com um exemplar de “Púbis Angelical” (1979), pedindo o autógrafo do escritor. MANUEL PUIG, em um misto de português e espanhol, escreveu no meu exemplar: “Para el guapo Antonio, com mui gracias por seu interesse em minha obra, Manuel Puig”. Era o primeiro livro que adquirira dele, só conhecia a sua literatura de resenhas e entrevistas em cadernos de cultura. Sabia da linguagem coloquial, da técnica cinematográfica e da utilização de elementos da cultura popular, como letras de tangos e boleros. Sabia também que sua literatura procurava desvendar os dramas mais latentes do ser humano, seus preconceitos e desejos reprimidos. No mesmo dia, li a história desafiante, uma fusão de thriller e ficção científica. Tudo se passa na cabeça da protagonista, uma mulher educada para ser objeto sexual, mas que resolve decidir o seu próprio destino. Nos meses seguintes, conheceria bem a obra do escritor, identificando-me com personagens que tentam escapar da opressão, seja por uma via mítica, seja pelo erotismo.

Durante meses assistimos filmes no MAM, lanchamos na Confeitaria Colombo e caminhamos no calçadão de Copacabana. Ele se queixava da poluição das praias, da deterioração do Rio e da crítica literária brasileira pouco estimulante. Lembrou do tempo em que trabalhou como assistente de Vittorio De Sica e René Clement. Citava André Gide e William Faulkner como seus escritores favoritos e dizia não se identificar com os escritores brasileiros. Nunca aceitei seus insistentes convites sexuais. Não por pudor, mas por certa repulsa física. Ele tinha uma afetação contida e nervosa desanimadora. No entanto, nessas conversas eram preciosas, muito aprendi com ele. Lembro do susto quando me disse estar convencido de que “o homossexualismo não existe, e o heterossexualismo tampouco. São projeções da mente reacionária. A sexualidade é uma atividade tão importante quanto dormir e comer, portanto sem transcendência moral. A sexualidade é jogo, prazer que se esgota nele mesmo. Rótulos foram criados pelo domínio burgues-religioso”. Autor de contos e versos, pedi que desse uma olhada num livro meu, “Sangue Ruim”, inacabado. Dias depois, recebi dele: “La poesia de Antonio Nahud es todo um desafio a la imaginación, un regalo para los sentidos. Brillante y extravagante. Es dúctil, cromática, igual de sabrosa en la evocación lírica que en el testimonio social”. 

manuel puig
Nos nossos diálogos, MANUEL PUIG afirmou que buscava no cinema do passado soluções para a vida tacanha, refletindo essa obsessão na literatura. Ele tinha alguma semelhança com o ator Tyrone Power e caminhava com passos largos e atléticos. Falava da carreira e da vida privada de estrelas de cinema (Hedy Lamarr, Rita Hayworth, Greta Garbo, Bette Davis, Irene Dunne, Norma Shearer etc.), da condição do escritor latino-americano, da ditadura argentina, dos desaparecidos, da Guerra das Malvinas e, principalmente, comentava sobre seus livros e projetos literários. Das perguntas que fiz, uma resposta eu nunca esqueci: por que ele escreveu “O Beijo da Mulher Aranha” e o que o levou a inserir nessa obra as notas de rodapé? Disse que o seu objetivo foi tocar em um tema ainda tabu entre a esquerda: a homossexualidade. Por isso colocou em uma mesma cela um revolucionário homofóbico - que via os homossexuais como alienados - e um gay que superava a triste e dura realidade sonhando com estórias de filmes B norte-americanos.
Quanto às notas de rodapé, remetia à infância. Nascido nos pampas argentinos (só aos 13 anos mudou para Buenos Aires), sofreu com a falta de informação sobre a sua orientação sexual. Na sua juventude, a medicina se dividia sobre o tema. Uns, defendiam que era uma doença mental; outros, deficiência de testosterona. Assim, ao escrever o romance ele pensara em jovens, vivendo no interior da Argentina, que se descobrem homossexuais. Assim teriam as informações mais recentes defendidas tanto pela medicina quanto pela psicanálise sobre o tema. Desejava que estes jovens hipotéticos se angustiassem menos do que ele quando se descobriu gay.

Embora eu o chamasse de Manuel, ele se chamava a si mesmo Rita (Hayworth) ou Julie (Christie), e falava de outros escritores no feminino, dando-lhes nomes de atrizes: Carlos Fuentes era Ava Gardner e Mario Vargas Llosa era Elizabeth Taylor, atrizes que ele não gostava. “Sou uma mulher que sofre muito”, disse-me, continuando: “Se pudesse, trocaria toda a vida literária pela felicidade de esperar o meu homem na varanda de casa, bem penteada e maquiada, e a comida pronta. Meu sonho é um amor puro, porém estou condenada aos amores impuros”. Confiou-me seu desesperado amor por um pedreiro mulato. Chamava seus amantes descartáveis - “casados e potentes” (dizia com falsa modéstia de conquistador) – como aos maridos de Rita Hayworth, sua atriz favorita: Orson (por Welles), Alí (por Alí Khan), Dick (do cantor Dick Haymes) ou Jim (do produtor James Hill). No entanto, essa frescura era bastante reservada, discreta, como um segredo compartilhado. No nosso último encontro, ele insistiu para que eu fosse trabalhar com ele no México. Seria seu assistente pessoal, além de parceiro cinéfilo. Preferi continuar meus estudos na Bahia. No mesmo ano, ele publicou seu último romance, “Cai a Noite Tropical / Cae la Noche Tropical”. Um ano depois, deixou o Brasil para morar no México, estabelecendo-se com sua mãe, Male Puig, nas montanhas de Cuernavaca. Começou a escrever a novela “Humedad Relativa: 95%”, mas não chegou a concluí-la. Em 1990, MANUEL PUIG morreu possivelmente de complicações da AIDS. Aos 58 anos. Ficaram os seus livros, que revelam que a literatura argentina não é apenas Jorge Luís Borges e Júlio Cortazar. Preciso voltar a lê-los. 


TODA a OBRA de MANUEL PUIG

A TRAIÇÃO de RITA HAYWORTH (1968)

BOQUINHAS PINTADAS (1969)

The BUENOS AIRES AFFAIR (1973)

O BEIJO da MULHER ARANHA (1976)

PÚBIS ANGELICAL (1979)

MALDIÇÃO ETERNA a QUEM LER ESTAS PÁGINAS (1981)

SANGUE de AMOR CORRESPONDIDO (1982)

CAI a NOITE TROPICAL (1988)