maio 07, 2026

..................................... RAQUEL ROCHA – SOBRE a ARTE da VIDA

 


 

A arte da vida consiste
em fazer da vida uma obra de arte.
MAHATMA GANDHI
(1869 – 1948. Porbandar / Índia)
  
Fotografias: 
PAUL HEIJMINK
(Houten / Holanda)
 
 
Há um ponto de encontro entre a energia que move o mundo e a energia que move o conhecimento. Uma interação luminosa, quase imperceptível, mas que entrelaça os sentidos desses dois elementos centrais e estruturantes de nosso mundo. RAQUEL ROCHA ilumina mentes que buscam respostas às suas angústias pessoais e aos dilemas coletivos da vida contemporânea. Uma união luminosa entre arte, literatura, vida e psicologia. Ela é uma pessoa de muitas e variadas afinidades. Cineasta, escritora, apresentadora de TV. Eu soube dela pela primeira vez através do valoroso documentário “Itabuna 100 anos - a História Contada” (2010), dirigido por ela. Tempos depois, em 2016, de passagem pelo Sul da Bahia, fui convidado para um bate-papo no seu “Bem Viver”, na TV I, a mesma emissora onde anos antes tive dois programas, entre eles o “Fina Estampa”. Na época eu vivia um melancólico quadro de depressão, pós suicídio inesperado de um companheiro de muitos anos, mas ela conduziu a entrevista com leveza, inteligência e humor. Tempos se passaram, eu me recuperei e nunca deixei de acompanhar sua jornada intelectual através das redes sociais. Bela, culta, psicanalista, fez teatro e escreve artigos para jornais e revistas. Presidente da Academia de Letras de Itabuna (ALITA), ocupa a cadeira número 25, cuja patrona é Elvira Foeppel. Virtualmente, a prolífica acadêmica fez uma avaliação da literatura grapiúna e traduziu honestamente sua trajetória de forma retrospectiva. Uma longa e generosa entrevista que tardou um certo tempo, mas desde já, histórica. Transcrevo aqui esse depoimento inédito.
 
01
Começando do começo: onde nasceu? Como foi sua infância?
 
Sou uma baiana nascida em São Paulo. Costumo dizer isso porque, embora tenha vindo ao mundo em terras paulistas, cheguei à Bahia ainda bebê e aqui vivi toda a minha história. Foi uma escolha dos meus pais, que buscavam uma vida com mais qualidade e também o reencontro com as raízes familiares, já que meus avós moravam em Maracás. Minha infância foi vivida em um vilarejo, próximo à cidade dos meus avós. Foi um tempo de liberdade, de brincar nas ruas, cercada por referências familiares fortes, em um ambiente marcado pela convivência. Guardo lembranças de uma infância simples, mas rica em experiências afetivas e humanas.

02
Começou a gostar de arte ainda menina? O que lia nessa época?

A literatura me salvou do isolamento e da solidão. Vivi naquele vilarejo até os dez anos, quando meu pai decidiu mudar-se com a família para Jaguaquara, pois lá havia uma escola de grande renome e tradição, o Colégio Taylor-Egídio. Apesar da excelência do ensino, a mudança foi muito difícil para mim, especialmente no aspecto social. Chegar a uma escola onde todos já se conhecem é sempre difícil. Eu me sentia como um bichinho do mato, acuado. Não consegui fazer amigos; passava os recreios sozinha e, pouco a pouco, comecei a me refugiar na biblioteca da escola, enorme, com obras centenárias e, para mim, com o melhor cheiro do mundo: cheiro de livro velho. Ali cabia o mundo inteiro. E ali eu também cabia. Foi naquela biblioteca que compreendi que, com os livros, eu nunca estaria sozinha. Foi lá que conheci o mundo, os clássicos da literatura, e onde me apaixonei ao conhecer histórias. Ali nasceu a certeza de que a literatura sempre faria parte da minha vida.


03
O que ficou da família e da juventude lembrando agora em retrospecto?

Da menina que brincava solta nas ruas do vilarejo ficou o amor pelo ar livre, pelos animais e pela natureza. Do meu colégio ficaram o senso de disciplina, o respeito ao professor, à pátria e ao hino nacional, além dos ensinamentos religiosos que me moldaram. O Taylor-Egídio é um colégio batista, e eu sou católica, mas guardo em meu coração todos os cultos na escola, os momentos de oração, os aprendizados das aulas de religião e os trechos da Bíblia nas paredes. Sou muito grata por ter estudado em uma escola que me ensinava não apenas português, matemática e história, mas também sobre Deus. Da minha família, trago o coração corajoso do meu pai e a vocação para o trabalho da minha mãe. Deles herdei valores que me acompanham até hoje: a honestidade, a responsabilidade e o compromisso com aquilo que faço.

04
Quais foram suas influências artísticas?

Sempre gostei de arte. Recordo-me de, na infância, esperar meus pais dormirem para, então, levantar-me escondida e assistir a filmes na televisão até a hora em que a programação se encerrava. Nessas madrugadas furtivas, assisti praticamente toda a filmografia de Charlie Chaplin, que foi uma das minhas primeiras grandes referências no cinema. O contato mais profundo com a literatura veio aos dez anos, naquela biblioteca que se tornou meu refúgio. Curiosamente, não comecei pelos livros infantis, não sei exatamente por quê. Minhas primeiras leituras foram
“A Mão e a Luva”, “Helena”, “A Viuvinha” e “Senhora”. Depois de iniciar com esses autores como Machado de Assis e José de Alencar, não há mais retorno possível. Na vida adulta, realizei o sonho de conhecer, de perto, algumas das grandes obras da história da arte que sonhava em conhecer: a “Mona Lisa”, de Leonardo da Vinci; “A Noite Estrelada”, de Vincent van Gogh; “A Criação de Adão”, de Michelangelo; “Medusa”, de Caravaggio; “O Nascimento de Vênus”, de Sandro Botticelli; “A Persistência da Memória”, de Salvador Dalí; “Abaporu”, de Tarsila do Amaral; e “Os Amantes”, de René Magritte.


05
Como definiria a cidade que nasceu no passado e no presente?

Conheço a cidade onde nasci apenas como visitante. Depois de ter passado a infância naquele vilarejo cheio de encantos chamado Lagedo do Tabocal, e a adolescência em Jaguaquara, mudei-me para Itabuna, em que vivi a maior parte da minha vida: aqui fiz faculdades, casei, tive filhos, plantei árvores e escrevi livros. Aqui quero morrer. Quando me pergunto qual é a minha cidade, a resposta é sempre a mesma: Itabuna.

06
Quem é Raquel Rocha?

Sou aquela mesma menina que, na biblioteca, se encantou pelas histórias. Continuo apaixonada por histórias: as dos livros que leio, as dos documentários que dirigi e as que escuto todos os dias como psicanalista. Carrego em mim a arte, a escuta e o estudo como formas de compreender o mundo e a vida. Interesso-me pelo humano em sua profundidade, com suas fragilidades e potências. Sou alguém que acredita ser possível transformar dor em linguagem, experiência em sentido e existência em narrativa.

07
Acredita que está pondo muito de si mesma na tela quando filma?

Meus filmes sempre foram feitos com muito esforço. Dediquei tempo, suor e sangue. Em alguns deles, literalmente. Mas, se a pergunta se refere à minha
“marca”. Durante o processo de criação, diria que não. Naquele momento, eu buscava me anular completamente, para que a obra pudesse falar por si. Hoje, ao assistir a todos eles, percebo que, de alguma forma, todos carregam a mesma alma.


raquel rocha e cyro de mattos
08
Como sabe que a criação de um filme é vital? Ele surge assim certo já da primeira vez, ou vai refazendo o projeto à medida que o produz?

Atualmente, filmo pouco. A psicanálise e a psicologia foram, aos poucos, me afastando do cinema de forma sutil. A demanda de atendimentos tornou-se tão intensa que acabei me aposentando profissionalmente da produção audiovisual. Hoje, minha relação com o cinema se dá de outra forma: como presidente da Academia de Letras de Itabuna, tenho me dedicado à direção de documentários biográficos sobre os membros da instituição, mantendo, assim, o vínculo com a linguagem audiovisual. Sobre o processo criativo, acredito que um filme vai se revelando ao longo do caminho, sendo pensado, revisto e reconstruído à medida que é produzido. É um processo vivo, que exige escuta, sensibilidade e disponibilidade para transformar a ideia inicial em algo que realmente é a essência do filme. Em certo sentido, é como se o próprio filme fosse se encontrando, ganhando forma e sentido ao longo do processo.

09
O que é que a distingue, na sua opinião, de outros cineastas?

Só os espectadores podem responder essa pergunta...

10
Como seus filmes foram recebidos?

Acredito que o filme encontra seu público com o tempo. Gosto de ler os comentários no Youtube, de pessoas do outro lado do mundo que se encantaram com algo que filmei há 15 anos. Há algo de muito bonito nessa travessia que a obra faz até alcançar quem precisa encontrá-la.

11
Acha difícil o ato de filmar?

Muito difícil e muito trabalhoso. Sempre trabalhei de forma bastante intuitiva, quase artesanal. Gosto de deixar a câmera ligada e conversar até que o entrevistado esqueça que está sendo filmado. Já cheguei a gravar cinco horas para um produto final de trinta minutos.

12
Qual foi o primeiro filme que viu e qual o mais inesquecível?

O primeiro filme que assisti, sinceramente, não me lembro. Mas alguns são inesquecíveis:
It's a Wonderful Life”, de Frank Capra; “Ladrões de Bicicletas”, de Vittorio De Sica; “A Lista de Schindler”, de Steven Spielberg; “Gran Torino”, de Clint Eastwood; “Morangos Silvestres”, de Ingmar Bergman; “Braveheart”, de Mel Gibson. Essa é uma lista puramente afetiva, são alguns dos filmes que vi e que me marcaram profundamente.


13
Você escreve artigos para jornais e revistas, qual o tema deles?

Escrevo sobre diversos temas. Costumam dizer que eu deveria escolher um nicho específico, mas escrevo a partir do que surge e transborda. E isso não se escolhe.

14
Pensa em publicar livros?

Tenho seis livros escritos, mas desejo que amadureçam um pouco mais antes de irem ao mundo.

15
Como foi sua experiência teatral? Pretende dar continuidade?

Foi uma experiência maravilhosa. Atuei como Maria na
“Paixão de Cristo” durante muitos anos. Era uma personagem que me tocava profundamente, como mãe. Acho que chorei em todos os ensaios. Também tive a oportunidade de produzir e dirigir algumas peças. Foram experiências muito marcantes, mas, hoje, não teria como encontrar tempo para me dedicar a uma empreitada como essa.

16
O que pensa da literatura brasileira? Já foi melhor? Tem futuro?

Sou suspeita para responder. Tenho uma inclinação natural pelas coisas antigas. Sempre me disseram que nasci velha. Mas temos grandes autores vivos e muitas pessoas boas surgindo.


17
Quais os autores brasileiros e quais obras considera mais relevantes para a iniciação de um jovem escritor?

Recomendaria três autores que marcaram o início da minha paixão pela literatura: José de Alencar, José Lins do Rego e Machado de Assis. Acrescentaria ainda nomes que fui conhecendo ao longo da vida como: Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Bernardo Guimarães, Maria José Dupré, Cyro de Mattos e Adélia Prado. Acho que são autores que ajudam a formar não apenas o escritor, mas também o olhar sensível para a vida.

18
Moro em Natal, no Rio Grande do Norte. Toda semana dois ou três livros são lançados, alguns de boa qualidade, mas não atravessam as fronteiras do Estado. Acredito que o maior problema que o escritor brasileiro enfrenta é a distribuição do livro. O que acha?

Acho que o maior problema é a falta de hábito de leitura.

19
O que diz da literatura grapiúna?

A literatura grapiúna é rica por representar a realidade social e cultural da região cacaueira, retratando personagens, conflitos e relações de poder. Entre os grandes nomes do sul da Bahia, destacam-se Jorge Amado e Adonias Filho, Cyro de Mattos, Hélio Pólvora, Euclides Neto, Jorge Medauar, Clodomir Xavier, Ruy Póvoas, Sônia Coutinho e Jorge Araújo. Com as transformações históricas da região, especialmente após a crise do cacau, a literatura grapiúna ampliou seus horizontes temáticos, tornando-se cada vez mais plural, dinâmica e representativa das complexidades do homem contemporâneo.

os imortais da ALITA

20
Não sou nostálgico, mas lembro com prazer do PACCE, do Cacau/Letras, das antologias poéticas de Tica Simões, dos cinemas de arte em Itabuna, das mostras etc. O que sabe sobre essa época culturalmente inquieta?

Esse período foi, de fato, um dos momentos mais culturalmente férteis e inquietos do sul da Bahia, porque não se tratava apenas de uma produção isolada, mas de um verdadeiro movimento de efervescência artística.

21
Sou leitor da poesia de Telmo Padilha. Talvez seja o poeta grapiúna mais admirável. Tem interesse por seu trabalho?

Também sou leitora de Telmo. Tem um trecho sobre ele em meu documentário
“Ferradas um Berço Amado”.

22
Pergunto sobre Adonias Filho e Hélio Pólvora. O que gosta deles? Por não têm uma maior projeção nacional?

Gosto, em Adonias Filho, da profundidade e da intensidade de sua escrita. Sua obra mergulha nos conflitos humanos com grande densidade psicológica, lembra-me Dostoiévski. Já em Hélio Pólvora, admiro a versatilidade e a riqueza de sua produção. Quanto à menor projeção nacional, isso não se deve à falta de qualidade, mas a fatores culturais, além da centralização do mercado editorial no eixo Rio–São Paulo. Quem sabe essa falha não será corrigida no futuro? O maravilhoso da literatura é que a obra permanece.

23
Em relação à poesia grapiúna, você se emociona com ela?

Muito. Temos excelentes poetas vivos, com intensa produção. Aprecio a poesia de Cyro de Mattos, Heloisa Prazeres, Ceres Marylise, Ruy Póvoas, Cláudio Zumaeta, Maria Luiza Nora de Andrade e Piligra.

24
E a prosa de Jorge Amado? Qual a obra dele que mais gosta? Concorda que sua literatura anda esquecida?

Gosto muito de
“Capitães da Areia”. É uma obra que me tocou pela forma como ela constrói personagens tão vivos e tão reais.  Acho que a obra de Jorge Amado continua viva, sendo lida, estudada, adaptada. Há autores que se tornam permanentes e Jorge Amado é um desses.

25
Você lê muito? O que está lendo? De que se trata?

Estou relendo
“A Paixão Segundo G.H”. Tenho livros à espera, alinhados na estante aguardando para serem lidos. Mas, às vezes, não é o novo que me chama. É o passado, uma espécie de saudade do que ainda não terminou de ser compreendido. Então volto. Reler é um reencontro e um desvio no tempo. Regresso a um lugar onde já estive, mas nunca da mesma forma.

marcos luedy, raquel rocha e eu (antonio nahud)
26
Lê muitos escritores contemporâneos brasileiros?

Leio os autores grapiúnas já citados aqui. Sou leitora e admiradora da obra de Cyro de Mattos. Ele sempre me envia seus lançamentos, e eu os leio com muito carinho.

27
Como traduziria a literatura do Sul da Bahia no presente?

Vejo a nossa literatura como uma continuidade viva de uma tradição muito forte, mas que também se reinventa.

28
Como gostaria que fosse lembrada sua atuação na Academia de Letras de Itabuna?

Uma gestão de muito trabalho.

29
Como é o cotidiano da Alita?

Somos uma academia sem recursos, o que significa que precisamos, literalmente, dobrar as mangas e fazer acontecer. Não há estrutura pronta, há compromisso de construir. Cada ação exige envolvimento direto e esforço coletivo. Ao longo dos últimos anos, temos atuado em diversas frentes: organização institucional, regularização documental, produção literária, eventos culturais, participação em debates públicos e defesa do patrimônio histórico de Itabuna. Estamos presentes em festivais, audiências públicas, ações culturais e, também, dentro da própria Academia, com reuniões, editais e publicações. Em 2025, por exemplo, trabalhamos intensamente na conquista do reconhecimento da utilidade pública. Também realizamos eventos como o lançamento da
“Guriatã”, a outorga da Medalha Jorge Amado e o sarau “ALITA Entre Versos”. Ser presidente da ALITA é trabalhar constantemente. É cuidar da memória, da literatura e do legado dos membros. Mesmo quando os recursos são escassos, a vontade de fazer é imensa.

30
Vocês se relacionam com Academias de Letras de outras cidades ou estados?

Sim, estamos em contato com diversas academias. Buscamos manter esse diálogo ativo, participando de encontros, colóquios e trocas institucionais, pois entendemos que a literatura também se constrói em rede. Esse intercâmbio fortalece a atuação das academias, amplia horizontes e valoriza a produção literária.

31
Publicam livros, fazem lançamentos, concursos, debates, encontros literários etc.?

Sim. A Academia de Letras de Itabuna desenvolve diversas atividades voltadas à promoção da literatura e da cultura. Publicamos a
“Revista Guriatã”, que já se encontra em sua sétima edição, reunindo produções literárias e acadêmicas de nossos membros. Também lançamos recentemente o Compêndio Biográfico dos Patronos da ALITA (Volume I), obra que resgata e valoriza a memória literária de nossa região. Além das publicações, realizamos lançamentos de livros, saraus (“ALITA Entre Versos”), participamos de eventos literários, promovemos encontros, entrevistas, documentários e projetos audiovisuais, como os vídeopoemas. Seguimos, assim, atuando de forma contínua na difusão da literatura e no fortalecimento da cultura grapiúna.


32
Conte um pouco sobre seu marido e seus filhos. Como se relaciona intelectualmente com eles?

São a minha base. Tudo o que consigo fazer tem o apoio deles. Caminham comigo, sustentam minhas ausências e celebram minhas conquistas. Assim como eu, são ávidos leitores, apreciam o cinema, os museus, a música. Cada um com seu estilo. Compartilhamos conversas, descobertas e, sobretudo, o que nos encanta.

33
Qual a sua opinião sobre os novos rumos da Educação brasileira?

Em muitos aspectos, houve avanços importantes, como no combate ao bullying e na ampliação do debate sobre questões emocionais no ambiente escolar. Por outro lado, também percebo retrocessos, especialmente na perda do respeito ao professor, figura fundamental no processo educativo. A tecnologia é uma ferramenta valiosa e necessária, mas não deve substituir completamente práticas essenciais. Por exemplo, a escrita à mão é superior para a memorização e a compreensão profunda, pois estimula o cérebro a processar e sintetizar informações, aumentando a conectividade cerebral. Quando lembro da minha formação, percebo que algumas práticas, hoje abolidas, como o ditado de palavras, foram extremamente importantes para o meu aprendizado. Também sou contrária à aprovação automática. Acredito que o caminho não é simplesmente passar o aluno, mas identificar as dificuldades e atuar diretamente nelas, garantindo um aprendizado real. O caminho, a meu ver, está no equilíbrio: avançar sem perder aquilo que é fundamental.

34
Como vê a literatura em tempos de Internet e Inteligência Artificial?

Vejo como um tempo de transição. A internet ampliou o acesso, democratizou a publicação. Isso é muito positivo. Ao mesmo tempo, trouxe excesso, o que exige do leitor mais discernimento. A literatura nasce de algo que ainda é profundamente humano: a experiência vivida, a dor, o tempo, a subjetividade. A Inteligência Artificial pode produzir textos, mas não literatura. Acredito que a literatura sobreviverá, como sempre sobreviveu, porque responde a uma necessidade humana: a de compreender a si mesmo e ao mundo.

35
O seu programa de TV está no ar há muitos anos. Como surgiu? Qual foi o melhor momento dele?

Estou no ar há 15 anos, na TVI News, a primeira emissora de TV por assinatura do Nordeste. É uma emissora que me dá total liberdade para abordar temas necessários, que realmente agregam algo ao público. O programa surgiu desse desejo de levar conteúdo que informe, provoque reflexão e contribua de alguma forma para quem assiste. Quanto ao melhor momento, ele ocorre sempre que recebo um retorno, uma mensagem, ou percebo que aquele conteúdo fez diferença na vida de alguém.


36
Você é religiosa? Tem fé em Deus?

Sou, sim. Sou católica. Respeito todas as religiões e tenho carinho por algumas delas, mas é na Santa Missa que me sinto na casa do meu Pai. Deus me sustenta. É Ele quem me ensina sobre o perdão, a generosidade e o amor ao próximo. A fé me orienta e me transforma. Procuro ser melhor a partir dessa relação com Deus.


Obrigado. Bela conversa.



FERAS GRAPIÚNAS NESTE BLOG

01
ALCEU PÓLVORA – a VIDA é um SOPRO
https://cinzasdiamantes.blogspot.com/2018/12/alceu-polvora-vida-e-um-sopro.html

02
ANTÔNIO LOPES: a ARTE da CRÔNICA
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03
COM a PALAVRA, CYRO de MATTOS
https://cinzasdiamantes.blogspot.com/2025/06/com-palavra-cyro-de-mattos.html

04
Os CORONÉIS: a SAGA do CACAU
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05
Dos VERSOS no SUL da BAHIA: 21 POETAS
https://cinzasdiamantes.blogspot.com/2025/09/dos-versos-no-sul-da-bahia-21-poetas.html

06
GENNY XAVIER – EQUILÍBRIO DELICADO
https://cinzasdiamantes.blogspot.com/2021/04/genny-xavier-equilibrio-delicado.htm

07
HÉLIO PÓLVORA: o TCHEKHOV GRAPIÚNA
https://cinzasdiamantes.blogspot.com/2025/02/helio-polvora-o-tchekhov-grapiuna.html

08
ITABUNA: o PASSADO por TODA PARTE
https://cinzasdiamantes.blogspot.com/2022/04/itabuna-o-passado-por-toda-parte.html

09
A SABOTAGEM: BIOTERRORISMO no CACAU
https://cinzasdiamantes.blogspot.com/2025/07/sabotagem-bioterrorismo-no-cacau.html

10
TELMO PADILHA em PROSA e VERSO
https://cinzasdiamantes.blogspot.com/2025/06/telmo-padilha-em-prosa-e-verso.html



abril 21, 2026

............................................... TODAS as COISAS são BELAS

 

 

A música é o tipo de arte mais perfeita;
nunca revela o seu último segredo.
OSCAR WILDE
(1854 - 1900. Westland Row, Dublin / Irlanda)
 
a Nuno Casimiro, um jovem amigo português
que ao amanhecer, exausto da mediocridade humana,
se enforcou em uma frondosa árvore
 
Ilustrações:
AMADEO de SOUZA-CARDOSO
(1887 – 1930. Amarante / Portugal)

 
 
Não se trata apenas de listar um destino, mas de relembrar um encontro improvável, detalhes curiosos e aventuras que dão alma às paisagens. Com o coração atento, viajo com curiosidade e aquele entusiasmo de quem sabe que sempre há algo inesperado à espera. Porque o mundo está cheio de roteiros comuns — mas os extraordinários são só para quem enxerga além. Essa aventura aqui narrada aconteceu em um verão escaldante, em noites de lua cheia, na provinciana Zambujeira do Mar, no Alentejo português. Nas ruas, o tempo corria calmo e preguiçoso. As esplanadas dos bares estavam cheias.  A praia era um ponto de passagem obrigatório para fugir do calor escaldante. Eu era muito jovem, atraente e capaz de pecados. Lembro da terra vermelha, do pó de argila alinhado no horizonte, das casas caiadas sublinhadas a amarelo ou azul, do sossego alentejano. Era um silêncio rasgado por ruídos de enormes carros descarregando pesados equipamentos de sons, de ramos de eucaliptos surrando o vento. Um silêncio que agonizava, à beira do fim.

No dia seguinte, os pinhais do Festival do Sudoeste abrigavam trinta mil malucos dos quatro cantos do continente. Disse adeus às horas nuas e despreocupadas ao caminhar pela
“cidade de lona” - um mundo paralelo, bizarro. Panelas em processo de lavagem, assava-se sardinhas, ignição em isqueiros para mais uma baforada, folhas secas pisadas por centenas de pés e a inevitável batucada do djambé: tam tam tam. As tribos afoitas em direção à natureza. Em cada verão, o mesmo ritual. Vilar de Mouros, Paredes de Coura e Sudoeste. Em vez de Jean-Paul Gaultier, a malta perfumava-se com Patcholi. Neste cenário inquietante e sem ordenamento, transformavam as férias escolares numa época de promessas, onde a jornada fazia parte dos horizontes da garotada entediada. Quase todos regressavam com ricas experiências e são poucos aqueles que não tiveram encontros imediatos de terceiro, segundo ou primeiro grau. No final, enquanto se fazia a mochila, levavam histórias excêntricas e uma última mortalha para partilhar com os companheiros de viagem.

No recinto com geografia e bairros próprios, havia portões feitos de ramos, sendo que o maior de todos ostentava uma frase grafitada: “Encontramos Deus no fundo de um copo de vodca”. Na entrada do camping, sob um bosque, ouvia-se death metal na “Rainha dos Cachorros”. Pertinho, a todo volume, tocava-se trance, um dos mais inaudíveis gêneros sonoros da história musical. Vendedores de cachorro-quente, de bifes fedorentos e sorvetes coloridos. Uma trupe de malabaristas com bolas de fogo, saltos ágeis e pernas de pau. Com um cigarro na ponta dos lábios e a cara mal barbeada, se arriscavam a pegar uma insolação. Ainda por cima, era certo que tudo o que é orifício no corpo ficaria entulhado de poeira, inclusive os ouvidos. É destes gestos temerários que se faziam heróis e todos os anos havia alguns milhares de candidatos ao martírio. A música será sempre um oásis e só isso explicava que a rapaziada ia em procissão até ao deserto. Consolados com as ondas sonoras de Morcheeba, Placebo, Flaming Lips, Sepultura, Divine Comedy e companhia. Era delirante.

Cheguei com mosquiteiro, sandálias de couro, embutidos e garrafas de vinho. Na benigna paisagem, então obcecado por discos voadores, deitei na relva contemplando as estrelas e o eventual aparecimento de um ou outro ET. Como isso não acontecia, outros motivos surgiriam para gozar o idílio. Não era todos os dias que um cenário campestre de cartão postal acolhia um festival de rock abarrotado. A euforia coletiva se iniciou na sexta-feira com a esmagadora presença de P J Harvey, look bruxa moderna, fincada no palco de vestido negro justo e botas longas de salto alto. Atuou uns setenta minutos. A cantora e compositora britânica abriu a performance com um espantoso
“Rid of Me” interpretado a solo e estabeleceu uma solução de compromisso perfeita entre velhos temas como “Man Size” e “Is this love?”. Memorável e espantosa, um misto de teatralidade felina e passional. Inesquecível o momento inicial, por coincidência o nevoeiro invadiu o recinto do festival criando um efeito especial cinematográfico. E como em tudo nesta vida há um aprendizado, muito aprendi.

Consciente de mim mesmo, o que me vem à memória com mais nitidez desse festival foi a primeira vez que avistei um rosto que jamais esqueceria. Logo após o concerto dos Divine Comedy, deitado na grama, um moço diferenciado, cigarro na mão, balançando a cabeça como um headbanger metaleiro. Eu me encontrava em transe com o humor e o talento de Neil Hannon, o divertido vocalista dos Divine Comedy. O grupo demonstrou ter vasta multidão de fiéis, que gritavam e assobiavam pedindo mais uma canção. Ao enxergar o atraente estranho parecido a um Sam Shepard garotão, caminhei em sua direção para observá-lo mais de perto. Tinha um desses rostos imaculados, de beleza renascentista, imune à mediocridade dos tempos consumistas. A lua cheia imponente e, sob ela, o belo. Alto, muito alto, e magro. Cabelos escorridos no meio das costas. Eu não tirei os olhos dele. Na época acreditava no amor súbito. Talvez por romantismo ou por necessidade. E isso não era redenção ou esperança no sentido clássico. Era apenas uma concessão para a beleza de todas as coisas.

Tropeçando, ele sentou-se ao meu lado, falando alguma coisa em um idioma incompreensível. Fixei com precisão os cabelos pesados e pretos contornando o rosto e os olhos semifechados que, vistos daquele ângulo, representavam algum desencanto. Fumamos haxixe, rindo, bebendo um bocado de vinho. Caminhamos abraçados, bailamos na tenda de dança. Duas horas depois do encontro casual, poupando o embaraço, ele me arrastou pela mão e me levou a sua barraca. Antes de tirar a roupa e ficar completamente desnudo, mostrou um documento, revelando seu nome, Miklós, e a nacionalidade húngara. Fiz o mesmo. O idioma oficial da Hungria é uma língua urálica, não indo-europeia, o que a torna única na Europa e frequentemente considerada difícil. Mudei-me para sua barraca. Passamos os quatro dias juntos. Shows, sexo e vinho. Lembro-me dos bons momentos arrancados ao álbum de estreia dos Elbow “Asleep in the Back”, e a seguir o mergulho no horizonte de um sol em bola de fogo que pintou o céu de magníficos tons de vermelho.

A noite caiu e com ela veio Alison Goldfrapp, a musa inglesa senhora de uma música que tanto brilha no azul infinito do céu como arde nos abismos profundos do inferno. A gente conversava muito, ele em húngaro e eu em português, caindo quase sempre na gargalhada com a incompreensão mútua. Falei sobre o Brasil. Afirmei que não há nada de admirável em se orgulhar de um país onde pessoas vivem nas calçadas, onde crianças ainda lutam por acesso básico à educação, onde doentes enfrentam filas homéricas em hospitais e onde literatura, em muitos casos, virou artigo de luxo. Não há virtude alguma em se sentir um privilegiado em um cenário onde o essencial falta. Numa nação onde corrupção é regra, bandido é herói e político esquerdista é tratado com impunidade, essa conta encontra o mesmo destino: o bolso de quem trabalha, paga impostos e sustenta tudo isso sem esperança. Enfim, eu e Miklós sempre juntos. Na época, já sabia que o desejo amoroso não elimina a dureza da vida, mas a torna suportável, dá sentido ao caos e ilumina até os dias mais escuros.

Talvez seja um desperdício grande gastar energia com o que é pequeno. Brigar por banalidades, se perder em discussões estéreis, alimentar divisões que pouco acrescentam — tudo isso apenas nos afasta daquilo que realmente importa. A vida é breve demais para ser desperdiçada com o que não constrói. Estou ao lado dos sentimentos mais líricos. Escrevo o que precisa ser dito. Demonstro. Porque, no fim das contas, tudo o que existe no mundo é menor do que aquilo que sentimos por quem amamos. Miklós não era ingênuo. Sabia que nada era para sempre, assim creio. O desejo erótico pode ir longe — mas não vai até o fim de tudo. Há mistérios que o destino não esgota. E há verdades que só se deixam conhecer pela fé. E aqui está o pulo do gato: para mim, razão e fé não brigam, se completam. No último dia, com todos desmontando suas barracas, nos perdemos propositalmente no
“Franklin Freak Show”. Agora me diz que não restará nada de mim em sua memória, nem mesmo uma imagem?”. Foram as derradeiras palavras, em tradução apaixonada que inventei.

Ao lado do aglomerado de palhaços exibindo entranhas de pano, barbies com cabeças reptilizadas, frascos conservando embriões de bichinhos de pelúcia mutantes, o olhei de longe, ele me procurava. Havia nostalgia nos seus gestos. Deixei o circo, guardando no coração sua voz em húngaro. O clarão do sol massacrava sem piedade os alucinados. Banhei-me no rio para animar o corpo, preparando-me para partir. Por onde andaria o príncipe de olhos quase fechados? “Agora me diz que não restará nada de mim em sua memória, nem mesmo uma imagem?”. Na altura do tempo em que ficamos juntos, a lua me pareceu melancólica. Talvez eu tivesse falado sobre a poesia da tristeza lunar. Dei por mim que sinto saudades através dessas recordações suaves e recorrentes. Indefeso, pensei em anotar sensações, fotografar pedaços de corpos, gravar frases na pele, fazer um mapa da situação irreverente. Ler e escrever não são apenas habilidades — são ferramentas de liberdade, atos de rebeldia. Quem lê pensa bem melhor. Quem escreve se posiciona firmemente no mundo, nesse tempo em que tanta gente vive de repetir discursos vazios prontos.

Ah, a felicidade retumbante quando ele passou o braço em volta do meu pescoço, beijou-me docemente e seguimos inventando conversas e situações improváveis. A conversação em si não era engenhosa, principalmente porque não havia tradução lógica, nem uma troca verbal coerente. Ainda assim, Miklós ficou tatuado em mim para sempre. Mesmo com uma memória pouco privilegiada, ainda hoje eu o recordo, vinte e cinco anos passados. Pouco antes de partir, contemplei a lua explodindo em rutilância e jovens dançando de olhos semi-fechados, como se cantassem o nosso refrão:
“Nem mesmo uma imagem”. Jamais me esquecerei desse festival musical de inquietudes. Aprendi que os festivais dão continuidade a este estado de espírito romântico, onde a tortura musical se insinua entre veredas e clareiras, numa espécie de missa ao ar livre apelando aos enigmas da floresta. Em pleno contato com os elementos abençoados, experimentei sem limites a vida selvagem, acompanhado de um cajado para os passeios ao redor do festival e às vezes usando flores no chapéu-panamá. Um programa para moços pós-modernos e para o stress urbano-depressivo pós-laboral.

Por fim, de forma instantânea, possuído pelo fulgor do passado recente, sem ter mais certeza da veracidade das coisas, caminhei em sentido inverso ao movimento coletivo. Textura, prazer, encantamento, surpresa! Como se cada detalhe tivesse sido pensado para lembrar que viajar não é marcar pontos no mapa — são imprevistos que ficam na memória, como uma história completamente inesperada ocorrida no Alentejo. E essa, de um garoto chamado Miklós, foi daquelas que pensamos:
“isso não estava no roteiro”. E não estava mesmo.

do livro de contos 
Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano (2012)