outubro 25, 2015

............................................. 44 ESCRITORES SUICIDAS

yukio mishima
Morrer é uma arte, como tudo o mais. Que eu pratico surpreendentemente bem
(Sylvia Plath)

O romancista cubano Alejo Carpentier acreditava que escritores são os seres mais indefesos do mundo. Talvez por isso, na trajetória da literatura universal, o histórico suicida se apresente recorrente. Famosos (ou não) escritores decidiram pelo rompimento da própria vida, ou por desespero, ou por dívidas, frustração literária, doença, homossexualidade, mal de amor ou pela decidida desistência de viver.  Muitas razões podem ser estudadas para tentar entender o ato trágico-suicida no universo literário. Sabe-se que o fantasma da depressão, apresentando facetas diferentes, está presente em muitos casos.

Se o suicídio tem sido sempre um ato rodeado por convicção, vergonha e ocultação, imagine como Joseph Conrad deve ter se sentido após sobreviver a uma bala no peito, ou Edgar Allan Poe ao tentar sem sucesso se matar com láudano, após a morte da sua mulher, como aconteceu com Dante Gabriel Rossetti. O poeta francês Jacques Prévert pulou da janela de um prédio, mas morreu trinta anos depois de causas naturais. Talvez nada possa ser mais triste do que o acontecido com a escritora norte-americana Carson McCullers: sobreviveu a uma tentativa de se matar, mas seu marido, obcecado com um suposto pacto de suicídio, morreu pouco depois.

ALFONSINA STORNI
(Argentina. 1892-1938)

Poetisa. Descobre ser portadora de câncer de mama em 1935. O suicídio de um amigo, o também escritor Horacio Quiroga, em 1937, abala-a profundamente. Em 1938, três dias antes de se suicidar, envia de um hotel de Mar del Plata para um jornal o soneto Voy a Dormir. Consta que se suicidou andando para o mar — poeticamente registrado na canção Alfonsina y el Mar, gravada por Mercedes Sosa. Tinha 46 anos.

ANA CRISTINA CÉSAR
(Brasil. 1952-1983)

Considerada um dos principais nomes da geração mimeógrafo da década de 1970, tem o seu nome vinculado ao movimento de Poesia Marginal. Mantém uma fina linha entre o ficcional e o autobiográfico. Cometeu suicídio aos 31 anos, atirando-se pela janela do apartamento dos pais, no oitavo andar de um edifício da rua Tonelero, em Copacabana.

ÁNGEL GANIVET
(Espanha. 1865-1898)

Ensaísta. Sua obra mais importante, Idearium Español (1899), interpreta historicamente a Espanha. Com cargo diplomático em Riga, na Letôniaafogou-se nas águas do rio Dvina, vítima de um dos acessos de loucura que sofria desde 1896.

ANNE SEXTON
(EUA. 1928-1974)

Conhecida por sua poesia confessional, venceu o prêmio Pulitzer em 1967. Os temas de seus poemas incluem a longa batalha contra a depressão, tendências suicidas e vários detalhes íntimos de sua vida privada, incluindo o relacionamento com familiares. Enquanto seu trabalho se tornava conhecido, também se afundava em problemas com barbitúricos e álcool. Tentou várias vezes contra sua própria vida, até que em 04 de outubro de 1974 se trancou na garagem, acelerando o carro, e morreu por intoxicação com monóxido de carbono.

CAMILO CASTELO BRANCO
(Portugal. 1825-1890)

Um dos mais prolíferos escritores da literatura portuguesa. Entrou em desespero com a crescente cegueira provocada pela sífilis. Com a confirmação da gravidade de sua situação, desferiu um tiro de pistola em sua têmpora.

CESARE PAVESE
(Itália. 1908-1950)

Balançando entre verso e prosa, entre romance e poema, o escritor conseguiu dar voz ao seu dilacerante sentimento de inadequação, à angústia de uma condição dolorosamente imperfeita, desembocando no tédio de viver de forma sempre parcial. Aos 42 anos incompletos, em 1950, suicidou-se em um quarto de hotel, em Turim, deixando apenas a frase A todos perdoo e a todos peço perdão, inscrita na primeira página de seu romance Diálogos com Leucó (1947), pousado na mesa-de-cabeceira.

DAVID FOSTER WALLACE
(EUA. 1962-2008)

Romancista e contista. Em 1996, publica Infinite Jest, seu livro de maior aclamação. Ministrou cursos na Universidade de Pomona, concentrando-se mais em escrever. Sua escrita caracteriza-se principalmente pela ironia. Adepto da prosa pós-modernista, repleta de metalinguagens e autoparódias. Em 12 de setembro de 2008, o escritor foi encontrado enforcado. Segundo seu pai, ele sofria de depressão há mais de 20 anos, mas esta vinha se tornando mais severa nos meses que precederam seu suicídio.

EDUARD VON KAYSERLING
(Alemanha. 1855-1918)

Escritor e novelista. Reúnia-se em cafés com o Grupo dos Schwabing Bohème, tendo admiradores devotos como o poeta Rainer Maria Rilke. Discreto e tímido, vivia sempre calado sobre sua vida pregressa, contraindo sífilis que com o tempo o levaria à cegueira e paralisia. O dinheiro lhe faltou, a saúde piorou e a situação política com as hostilidades entre Alemanha e Rússia o fez perder propriedades familiares. Desesperado, com a idade de 62 anos, a 28 de setembro de 1918, suicidou-se com um tiro no peito.

EMILIO SALGARI
(Itália. 1862-1911)

Notabilizou-se escrevendo cerca de 200 novelas de aventuras e viagens por terras exóticas. Toda esta vasta produção literária não lhe trouxe desafogo econômico. Viveu os últimos anos da sua vida com problemas financeiros. Depois da morte de sua esposa, suicida-se em Turim, no dia 25 de abril de 1911. É pacífico, porém, que jamais sulcou outros mares que os da sua febril imaginação e nunca conheceu outros piratas senão os sucessivos editores que o exploraram ao longo de uma vida de indizíveis privações e que o levariam a um suicídio digno da aura de exotismo que toda a vida cultivou: cometeu um arremedo de hara-kiri.

ERNEST HEMINGWAY
(EUA. 1899-1961)

Um dos principais escritores da literatura mundial, com um legado rico e livros obrigatórios como O Sol Também Se Levanta (1926), enfrentou sérios problemas com o álcool e a depressão. Dois dias depois de ser liberado de uma clínica de tratamento, com uma espingarda calibre 12 de dois canos na boca estourou a própria cabeça.

ERNST WEISS
(República Checa. 1882-1940)

Escritor judeu do Império Austríaco. Franz Kafka, seu amigo, ajudou-o a publicar a sua primeira obra Die Galeere, rejeitada por diversos editores. Num hotel, ao contemplar a entrada das tropas nazistas em Paris, cortou as veias.

FLORBELA ESPANCA
(Portugal. 1894-1930)

A sua vida, de apenas 36 anos, foi plena, embora tumultuosa, inquieta e cheia de sofrimentos íntimos que a autora soube transformar em poesia da mais alta qualidade, carregada de erotização, feminilidade e panteísmo. Tentou o suicídio várias vezes. Após o diagnóstico de um edema pulmonar, a poeta perdeu definitivamente a vontade de viver. Não resistiu à nova tentativa do suicídio. A causa da morte foi overdose de barbitúricos.

GÉRARD DE NERVAL
(França. 1808-1855)

Um dos autores mais importantes da literatura francesa. Sofrendo de crises de psicose, foi internado algumas vezes. Em 1855 foi encontrado enforcado numa rua escura e gelada de Paris, com os últimos capítulos do seu romance Aurélia (1855) no bolso.

GILLES DELEUZE
(França. 1925-1995)

Uma das grandes contribuições deste filósofo foi ter se utilizado do cinema para expor sua forma de pensamento, através dos conceitos de imagem-movimento e imagem-tempo. Teorizou as instâncias do atual e do virtual, construindo um olhar sobre o mundo a partir das possibilidades. Desde 1992, seus pulmões, afetados por um câncer, funcionavam com um terço da capacidade. Em 1995, só respirava com a ajuda de aparelhos. Sem poder trabalhar, atirou-se pela janela do seu apartamento em Paris.

HEINRICH VON KLEIST
(Alemanha. 1777 – 1811)

Poeta, romancista, dramaturgo e contista, conhecido pela novela A Marquesa de O... (1810). No final de 1811, pouco depois de completar 34 anos, o escritor enfrentava sérias dificuldades financeiras. Profundamente triste e amargurado, planeja cometer suicídio e encontra companhia em sua amiga Henriette Vogel, então martirizada por um câncer. O escritor leva a cabo a intenção de ambos no dia 21 de novembro de 1811, nas margens do pequeno rio Wansee, atirando primeiro em sua companheira e depois em si próprio.

HORACIO QUIROGA
(Uruguai. 1878-1937)

Famoso por seus contos, que geralmente tratam de eventos fantásticos e macabros na linha de Edgar Allan Poe e de temas relacionados à selva, sobretudo da região de Misiones, na Argentina, onde o escritor passou parte da vida. Aos dois meses de idade, o pai se matou acidentalmente com um tiro de escopeta. A seguir, Ascenso Bargo, o padrasto, suicidou-se com um tiro (suicídio este que ele presenciou) em 1981. Seu primeiro livro foi Los Arrecifes de Coral (1901). No ano seguinte, acidentalmente Quiroga mata seu melhor amigo, Federico Fernando, também com um tiro, enquanto examinava uma escopeta. Foi preso, mas depois comprovou-se que foi mesmo um acidente. Em 1915, María Cires, sua primeira mulher, suicidou-se ingerindo água sanitária.

Depois de anos de depressão crônica, foi abandonado pela segunda e jovem mulher, surgiu-lhe um câncer de próstata e, a 18 de fevereiro de 1937, adquiriu cianureto e se suicidou numa casa de caridade em Buenos Aires. Logo após a tragédia, sua filha Egle se suicidou e, algum tempo depois seu filho Dario também faria o mesmo. Três de seus filhos cometeram suicídio após o pai.

HUNTER S. THOMPSON
(EUA. 1937-2005)

Sua principal obra é Medo e Delírio em Las Vegas: Uma Jornada Selvagem ao Coração do Sonho Americanos (1971). O autor defendia a legalização da maconha e outras drogas, e cogita-se que problemas médicos influenciaram em seu suicídio com um tiro na cabeça, enquanto a família se reunia em outra sala da casa. Seu corpo foi cremado e as cinzas foram lançadas por um pequeno foguete, em uma cerimonia bancada pelo ator Johnny Depp, seu amigo, que interpretou seus personagens na versão para o cinema de Medo e Delírio em Las Vegas, em 1998, e O Diário de Um Jornalista Bêbado, lançado em 2011.

JACQUES RIGAUT
(França. 1898-1929)

Abriu a primeira exposição dadaísta, na qual foram destacadas várias demonstrações artísticas, fazendo uma performance e publicando seu texto Fábula no catálogo da exibição. Alcoólatra, realizou infrutíferas tentativas de desintoxicação. Numa das clínicas, em Châteny-Malabry, suicidou-se com um tiro no coração. Sua morte inspirou a Pierre Drieu La Rochelle em seu livro Fogo Fátuo – Trinta Anos Esta Noite(1931).

JERZY KOSINSKY
(Polonia. 1933-1991)

Trocou seu nome para esconder a identidade de judeu, fugindo da captura dos nazistas. Sua literatura, com temas fortes, muitas vezes foi criticada. Com exaustão mental, o que os alemães não fizeram, ele mesmo fez, matando-se numa banheira quase cheia de água, com um saco sufocante na cabeça.

JOHN BERRYMAN
(EUA. 1914-1972)

Poeta. A instabilidade emocional – e a devoção ao álcool - o levou pelo mesmo caminho traçado por seu pai anos antes, que também cometera suicídio. Em 1972, ele se matou pulando de uma ponte.

JOHN KENNEDY TOOLE
(EUA. 1937-1969)

Conhecido pelo romance publicado postumamente, Uma Confraria de Tolos (1980), vencedor do prêmio Pulitzer. Sofrendo de paranoia e depressão, em parte devido a rejeição dos editores, cometeu suicídio aos 31 anos de idade. Dentro do carro, morreu intoxicado com monóxido de carbono vindo de uma mangueira colocada no tubo de escape.

JOHN O’BRIEN
(EUA. 1960-1994)

Autor de um único livro, Despedida em Las Vegas (1990), interpretado no cinema por Nicolas Cage e Elisabeth Shue. Alcoólatra compulsivo, separado da mulher, deixa de beber para poder dirigir. Contudo, em estado de absoluta depressão, em 1994, duas semanas depois de ter vendido para o cinema os direitos de seu livro autobiográfico, matou-se aos 34 anos com um tiro na cabeça.

JOSÉ AGUSTÍN GOYTISOLO
(Espanha. 1928-1999)

Poeta consagrado, abatido por uma depressão se jogou do terceiro andar de um prédio, no inverno de 1999, em Barcelona.

JULES LEQUIER
(França. 1814-1862)

Filósofo. Exaltando sua fé na liberdade, foi considerado posteriormente o Soren Kierkegaard francês, sendo autor de La Recherche d'une Première Verité e La Feuille de Charmille - obras fragmentadas, inacabadas e publicadas postumamente. Decepcionado com a existência que o amargava tanto, afogou-se na baía de Saint-Brieuc.

KLAUS MANN
(Alemanha. 1906-1949)

Escritor, filho do também escritor (e prêmio Nobel de 1935) Thomas Mann e sobrinho do romancista Heinrich Mann. Viciado em drogas - especialmente morfina -, teve uma vida atribulada por constantes crises depressivas e instintos suicidas. Sempre lutou contra o totalitarismo e fez apologia do homossexualismo, o que motivou sua expulsão da Alemanha nazista. Aos 43 anos se matou, ingerindo uma overdose de soníferos, em Cannes. Em seu funeral não se viu presença de nenhum familiar, e o pai, em suas memórias, chamou-o de irresponsável.

MALCOLM LOWRY
(Inglaterra. 1909-1957)

Poeta e romancista, cuja obra primaSob o Vulcão (1947) foi filmada em 1984 por John Huston. Durante sua estadia na universidade, o seu companheiro de quarto, Paul Frite, propôs um relacionamento homossexual. A recusa levou o amigo ao desespero, cometendo suicídio. Este fato abalou o escritor pelo resto da vida. Alcoólatra compulsivo, suicidou-se com fortes doses de álcool e barbitúricos.

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO
(Portugal. 1890-1916)

Poeta e novelista. Após infância e adolescência marcadas pela solidão e sofrimentos, em 1912 partiu para Paris para estudar Direito na Sorbonne, curso que jamais concluiria. Às dificuldades materiais, somaram-se as emocionais. Fernando Pessoa foi seu amigo e o único a ajudá-lo, havendo farta correspondência deste período entre ambos. Autor do sensacional A Confissão de Lúcio (1914). Aos 26 anos incompletos, sofreu uma crise moral e financeira, abandonou os estudos, brigou com o pai e passou a levar uma vida boêmia. Desesperado e deprimido, trancou-se em em seu quarto, no Hotel Nice, em Montmartre (Paris), vestiu um smoking, deitou-se e se envenenou com cinco frascos de estricnina. Conta-se que, obeso por natureza, seu corpo ficou monstruosamente inchado, não cabendo no caixão que para ele se encomendou. Antes de se matar, enviou poesias inéditas a Pessoa que apareceram em 1937, com o título de Indícios de Oiro.

CARTA DE DESPEDIDA DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO A FERNANDO PESSOA

Meu querido Amigo.

A menos de um milagre na próxima segunda-feira, 3 (ou mesmo na véspera), o seu Mário de Sá-Carneiro tomará uma forte dose de estricnina e desaparecerá deste mundo. É assim tal e qual – mas custa-me tanto a escrever esta carta pelo ridículo que sempre encontrei nas «cartas de despedida»... Não vale a pena lastimar-me, meu querido Fernando: afinal tenho o que quero: o que tanto sempre quis – e eu, em verdade, já não fazia nada por aqui... Já dera o que tinha a dar. Eu não me mato por coisa nenhuma: eu mato-me porque me coloquei pelas circunstâncias – ou melhor: fui colocado por elas, numa áurea temeridade – numa situação para a qual, a meus olhos, não há outra saída. Antes assim. É a única maneira de fazer o que devo fazer. Vivo há quinze dias uma vida como sempre sonhei: tive tudo durante eles: realizada a parte sexual, enfim, da minha obra – vivido o histerismo do seu ópio, as luas zebradas, os mosqueiros roxos da sua Ilusão. Podia ser feliz mais tempo, tudo me corre, psicologicamente, às mil maravilhas, mas não tenho dinheiro. [...]

31 de Março de 1916.

PAUL CELAN
(Romênia - agora Chernovtsy. 1920-1970)

Poeta e pensador romeno judeu, naturalizado francês. Quando a Romênia caiu sob jugo nazista, foi enviado a um campo de trabalhos forçados onde teve os pais assassinados. Seu poema mais famoso é Fuga da Morte. Sem que se soubessem os motivos, no dia primeiro de maio de 1970 se atirou nas águas do rio Sena, em Paris.

PEDRO NAVA
(Brasil. 1903-1984)

Memorialista, suicidou-se com um tiro na cabeça com uma Taurus calibre 32. Uma morte misteriosa envolvendo, segundo alguns, sua sexualidade. Aos 80 anos.

RAINER WERNER FASSBINDER
(Alemanha. 1946-1982)

Diretor de teatro, escritor, ator e cineasta. Prolífico e influenciado por realizadores como Douglas Sirk e Fritz Lang, dirigiu 41 filmes e muitas peças de teatro. Seus filmes crítica os valores e maneiras da classe média. Embora o sucesso tenha sido principalmente de crítica, e não de público, sua morte aos 36 anos causou amplo interesse pelo seu trabalho. Sem motivo aparentemente conhecido, matou-se com uma overdose de drogas.

REINALDO ARENAS
(Cuba. 1943-1990)

Escritor, poeta e dramaturgo, passou grande parte da vida combatendo o regime político de Fidel Castro. Durante a década de 1970, tentou, por vários meios, abandonar a ilha de Cuba, mas não obteve sucesso. Mais tarde, devido a uma autorização de saída de todos os homossexuais e de outras personas non gratas, e depois de ter mudado de nome, pôde deixar o país e passou a viver em Nova Iorque, onde anos depois diagnosticaram o vírus da Aids. Nessa época, escreveu Antes que Anoiteça (publicada em 1992). Terminada a obra, suicidou-se com uma dose excessiva de álcool e droga. Dez anos mais tarde, em 2000, estreou a versão cinematográfica, tendo Javier Bardem no papel do escritor.

ROMAIN GARY
(França. 1914-1980)

Romancista e diretor de cinema. Usou os pseudônimos Émile Ajar, Fosco Sinibaldi, Shatan Bogat, René Deville e Lucien Brûlard, e foi o único escritor a receber duas vezes o Prêmio Goncourt, em 1956 e 1975. Suicidou-se em Paris com arma de fogo.

RYUNOSUKE AKUTAGAWA
(Tóquio. 1892-1927)

Considerado o “pai do conto japonês”, é famoso por seu estilo e suas histórias ricas em detalhes que exploram o lado negro da natureza humana. Paranoico, cometeu suicídio aos 35 anos, de overdose de veronal. “Rashōmon” (1950), de Akira Kurosawa, baseou-se em suas histórias. A maior parte do filme é uma adaptação do conto Dentro de um Bosque.

SERGEI IESSIENIN
(Rússia. 1895-1925)

Considerado um dos maiores poetas russos, foi casado com a bailarina Isadora Duncan. Tinha problemas mentais e alcoólicos. Suicidou-se num quarto de hotel, enforcando-se depois de escrever um último verso com sangue. Sua morte causou grande impacto na opinião pública, e Maiakovski escreveu um poema crítico em resposta ao suicídio e ao poema final de Iessenin, de cuja poesia era grande admirador.

SÓCRATES
(Grécia.469 a. C. – 399 a. A.)

Filósofo ateniense do período clássico da Grécia Antiga, creditado como um dos fundadores da filosofia ocidental, é até hoje uma figura enigmática, conhecida principalmente através dos relatos de escritores que viveram mais tarde, especialmente dois de seus alunos, Platão e Xenofonte, bem como pelas peças teatrais de seu contemporâneo Aristófanes. Condenado a morte por suas opiniões políticas, ficou a ferros por 30 dias, recebendo a visita de amigos e se recusando a fugir. Chegado o momento da execução, bebeu cicuta (Conium Maculatum) e, diante dos amigos, aos 70 anos, morreu por envenenamento.

STEFAN ZWEIG
(Áustria. 1881-1942)

Escritor, romancista, poeta, dramaturgo, jornalista e biógrafo de origem judaica. A partir da década de 1920 e até sua morte foi um dos escritores mais famosos e vendidos do mundo. Suicidou-se, juntamente com a esposa Elisabeth, durante seu exílio no Brasil, deprimido com a expansão da barbárie nazista pela Europa na Segunda Guerra Mundial. Tomaram veronal ou formicida.

SYLVIA PLATH
(EUA. 1932-1963)

Aos vinte anos publicou seu primeiro poema numa revista de Nova York. Meses depois, tentou o suicídio. Foi para a Inglaterra a estudos, onde se casou com o poeta inglês Ted Hughes, contudo, o relacionamento foi tempestuoso e ela acabou tentando o suicídio outra vez. Descobrindo o envolvimento do marido com outra mulher, separou-se, vivendo em Londres na solidão, anonimato e miséria. Em fevereiro de 1963, deixou bilhete a seu terapeuta e se suicidou, pondo a cabeça dentro do forno, com gás ligado. Antes, teve o cuidado de vedar a porta do quarto dos filhos. Alguns biógrafos apontam seu marido como responsável pelo desespero que culminou com sua decisão final. Em 2009, quarenta e seis anos depois da morte da poeta, seu filho Nicholas Hughes também cometeu suicídio.

TADEUSZ BOROWSKI
(Polonia. 1922-1951)

Escritor e poeta judeu. Na Varsóvia ocupada pela Alemanha nazista, publicou em 1942 uma coletânea de poemas intitulada Onde Esteja a Terra. Levado para os campos de concentração de Auschwitz e Dachau, só foi libertado pelos norte-americanos nos fins do conflito. Depois da guerra, na Polônia dominada pelo comunismo, começou a publicar sua prosa. Aos 29 anos, cometeu suicídio com um tiro de revólver na cabeça. Morte controversa, pois há relatos de que tenha se asfixiado com gás em seu apartamento em Varsóvia.

TORQUATO NETO
      (Brasil. 1945-1972)       

Jornalista, letrista, agitador cultural e poeta brasileiro, escreveu letras para musicas como Aqui é o Fim do Mundo, Dia D, Geleia Geral, entre outras. Ainda que estivesse integrando à música e à poesia tropicalistas, atuou na imprensa. No início da década de 70, dedicou-se ao jornalismo diário, colaborando com a crônica intitulada Geleia Geral na Última Hora, jornal de Samuel Wainer, e de onde surgiria seu único livro póstumo: Os Últimos dias de Paupéria. Alcoólatra, de temperamento difícil, teve varias crises emocionais, consideradas pelos seus terapeutas como surtos psicóticos. Devido a essa patologia foi internado oito vezes em hospitais psiquiátricos do Piauí e do Rio de Janeiro, incluindo o hospital de Engenho de Dentro, de Nise da Silveira.

Tentou-se suicidar por quatro vezes e ao final, nem família e nem amigos conseguiram conviver com seus humores. Afastado dos colegas tropicalistas compôs seus últimos trabalhos com músicos iniciantes, como João Bosco, Luiz Melodia e Geraldo Azevedo, contudo, apesar de ter uma produção pequena, queimou quase todos os originais. Aos 28 anos, no dia do seu aniversário, após longa conversa com sua ex-esposa, deprimido, trancou-se no banheiro, vedou a porta e a janela com lençóis, abriu o gás do chuveiro e se matou asfixiado. Na ocasião, escreveu um último poema, chamado Fico.

VLADÍMIR MAIAKÓVSKI
(Rússia. 1893-1930)

Poeta, dramaturgo e revolucionário, começou a escrever quando preso numa solitária, em 1909. Autor de uma poesia assertiva e desafiante, tanto na forma quanto no conteúdo. Vigoroso porta-voz do Partido Comunista, expressou-se de várias formas. Escreveu torrentes de poesias panfletárias e criou textos didáticos para crianças enquanto palestrava e recitava por toda a Rússia. Desapontado no amor, cada vez mais alienado da realidade partido-partidária, e tendo um visto negado para viajar ao exterior, passou a sofrer de terríveis crises de depressão. Seu legado poético influenciou vários poetas russos e estrangeiros, deixando forte marca, principalmente na década de 1930, depois que Stalin o citou como o melhor e mais talentoso poeta de nossa época soviética". Após concluir o poema Plenos Pulmões" e advertir a atual companheira, Nora, dos perigos de sua extrema depressão, suicidou-se na casa da praça Lubianka, em Moscou, dando um tiro no peito.

BILHETE DE DESPEDIDA

A todos. De minha morte não acusem ninguém, por favor, não façam fofocas. O defunto odiava isso. Mãe, irmãs e companheiros, me desculpem, este não é o melhor método (não recomendo a ninguém), mas não tenho saída. Lília, ame-me. Ao governo: minha família são Lília Brik, minha mãe, minhas irmãs e Verônica Vitoldovna Polonskaia. Caso torne a vida delas suportável, obrigado. Os poemas inacabados entreguem aos Brik, eles saberão o que fazer.

Como dizem:
caso encerrado,
o barco do amor
espatifou-se na rotina.
Acertei as contas com a vida
inútil a lista
de dores,
desgraças
e mágoas mútuas.

Felicidade para quem fica.

VIOLETA PARRA
            (Chile. 1917-1967)           

Considerada a mais importante compositora do Chile e fundadora da música popular chilena. Mãe da canção comprometida com a luta dos oprimidos e explorados, foi autora de letras inapagáveis, como a canção Volver a los 17, que mereceu uma antológica gravação de Milton Nascimento e Mercedes Sosa. Suas canções não são apenas marcadas por versos demolidores contra toda a injustiça social, há lirismo também, como nos versos de Gracias a la Vida (gravada por Elis Regina), embalando o ânimo de gerações de revolucionários latino-americanos. Decepcionada com o jovem namorado Gilbert Favre e se sentindo esquecida pelo público, matou-se com um tiro.

VIRGÍNIA WOOLF
(Inglaterra. 1882-1941)

Escritora, ensaísta e editora, conhecida como uma das mais proeminentes figuras do modernismo. Membro do Grupo de Bloomsbury, desempenhava um papel de significância dentro da sociedade literária londrina durante o período entreguerras. Seus trabalhos mais famosos incluem os romances Mrs. Dalloway (1925), Passeio ao Farol” (1927) e Orlando (1928), bem como o livro-ensaio Um Teto todo Seu (1929), onde se encontra a famosa citação Uma mulher deve ter dinheiro e um teto todo seu se ela quiser escrever ficção. A escritora conviveu por muito tempo com crises de depressão. Em nota final ao marido Leonard confidenciou que sua doença não tinha cura, mas que foi feliz em seu casamento. Porém não o suficiente para impedi-la de entrar no rio Ouse com um casaco cheio de pedras. Seu corpo ficou desaparecido por semanas.

YASUNARI KAWABATA
(Japão. 1899-1972)

O primeiro escritor japonês a ganhar o prêmio Nobel de Literatura, em 1968. A solidão, a angústia e a atração pela psicologia feminina foram seus temas constantes. Ao receber o Nobel, em seu discurso condenou o suicídio, lembrando vários amigos escritores que haviam morrido dessa forma. Em 1972, porém, em meio a um surto depressivo se suicidou, em casa, com gás. Não deixou mensagem de despedida.

YUKIO MISHIMA
(Japão. 1925-1970)

Grande admirador das tradições milenares da cultura japonesa, especialmente da conduta virtuosística dos samurais, viveu a literatura como se fosse parte indissociável de sua existência. Além de romances, escreveu também poemas, ensaios e peças teatrais. Crítico contumaz da degradação do Japão moderno, permaneceu sempre em luta pela retomada dos valores clássicos do seu país, até cometer o suicídio, em 1970. Sua morte é emblemática de como, para ele, arte e vida não se separavam: depois de rasgar o próprio ventre com um sabre, foi decapitado por um de seus discípulos, de acordo com a tradição samurai.

POEMA DE VLADIMIR MAIAKÓVSKI

FRAGMENTOS

1

Me quer ? Não me quer ? As mãos torcidas
os dedos
               despedaçados um a um extraio
assim tira a sorte enquanto
                                       no ar de maio
caem as pétalas das margaridas
Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e
que a prata dos anos tinja seu perdão
                                                      penso
e espero que eu jamais alcance
a impudente idade do bom senso

2

Passa da uma
                     você deve estar na cama
Você talvez
                 sinta o mesmo no seu quarto
Não tenho pressa
                          Para que acordar-te
com o
         relâmpago
                        de mais um telegrama

3

O mar se vai
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano

4

Passa de uma você deve estar na cama
À noite a Via Láctea é um Oka de prata
Não tenho pressa para que acordar-te
com relâmpago de mais um telegrama
como se diz o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites inútil o apanhado
da mútua do mútua quota de dano
Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos a história do universo

5

Sei o puldo das palavras a sirene das palavras
Não as que se aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro
Às vezes as relegam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios alma carcaça.

(tradução: Augusto de Campos)

o velório do poeta russo sergei iessienin 

17 comentários:

Aurélio Schommer disse...

Penso que intelectuais tendem tanto a amar mais a vida quanto a amar mais a morte. É um dar-se à Existência ou se decepcionar pela insignificância da existência individual diante da infinitude, pretérita ou futura, da Existência universal. Flertar com os abismos, talvez.

Luizabet Inácio Pereira Paulino disse...

Ñ acredito q haja alma. Esta é o fôlego de vida.

Silas Correa Leite disse...

POEMA:

Modelo de Carta de Suicida

Recebi um modelo de Carta de Suicida
De um inusitado inimigo secreto, oculto.
Tinha espaços para serem preenchidos
Linhas pontilhadas, códigos de transmutações vencidos
E dicas para um perfeito uso de gás butano, rifle ou cianureto.

Espaços em brancos sugeriam alternativas vencidas, improváveis
Sem Plano B, Rotas de Fugas ou regras de fácil compreensão
Apenas era simplesmente utilizar alguns parágrafos chaves
Colocar o nome ao final (ou heterônimo e código-senha de filiado pirata clandestino)
E deixar depois sobre o rastilho de pólvora da solidão-albatroz.

Era uma carta-partilha rara e com técnica perfeitamente funcional
Meio Shakespere, meio Cantinflas, meio Fernando Pessoa
Ou mesmo Rilke, Silvia Plath, Lorca ou Kafka
E lembrava os quadros Campos de Trigos com Corvos e Guernica
E me senti ali identificado nos arames gélidos das confeituras.

(Minha mãe disse que era coisa de Mefistófeles de Fausto
Meu pai bufando foi tomar providências na agência de Correios
Minha irmã mãe-solteira mais sábia pediu-me uma cópia autenticada
Meu irmão caçula manquitola e picego virou lobisomem
E todas as minhas ex-Musas-Vítimas se vangloriaram da oferta e procura
No fértil curral das aparências que enganam hienas saradinhas)

Refeito temporariamente do bisonho susto paquidérmico
(Nada como um choque terminal para nos tirar de dentro do pote de vísceras da havência)
Tomei um porre homérico, desesperado escrevi esse poema vazão
No íntimo pedi a bença pra mãe na distante Itararé Encantário
E fui caçar freguesia no Porta-Lapsos da Casa dos Espíritos.

Hoje a carta perfumada resta-se íntimo butim num baú de ossos
Entre sachês de ódios sublimados e pertencimentos-resignações de dor
Tem selos do Arco da Promessa, carimbos-andaimes, ícones neurais
Técnicas de devãos e ainda cheira a pés de sagrados grilos cegos
Pois o extraordinário verniz da minha tentativa de abismo
Não casou com o exato cantar de galo no pré-auroral das vicissitudes.

..................................................................................................................

No entanto escrevo feito um repugnante condenado à vida
E quando baixa-me um decanto-toleima saindo pelo ladrão
Acordo-me para o modelo da Carta de Suicida e choro
Choro muito, choro perolágrimas - choro escondido a terrível depressão
Lembrando-me da íntima carta de suicida que como um registro com assinatura no DNA ainda trago comigo
Como se fosse um camuflado pano de rosto trágico e inevitável
De uma eternal gambiarra de angústia-vívere de castigo.

-0-

Silas Corrêa Leite - da Estância Boêmia de Itararé
Poema da Série Garagem de Charcos (Inédito)
Site pessoal: www.itarare.com.br/silas.htm
E-book O RINOCERONTE DE CLARICE no site www.itarare.com.br
E-mail: poesilas@terra.com.br

Cinemateca Russica disse...

dos Russos do século 20, a maioria foi "suicidado", como Maiakovski, Esenin, etc... Stalin assassinou uma geração de poetas e escritore

Verena Mattos disse...

A morte de Virgínia Woolf me comove.

Anna C. Porto disse...

Te admito DEMAIS!! Vc discorre sobre os mais variados temas! Aguça minha curiosidade e alimenta a minha fome de saber!!

Chico Lopes disse...

O assunto é mórbido, mas acho que foi abordado imensamente bem num livro que sugiro aqui, O DEUS SELVAGEM, do ensaísta inglês A. Alvarez, que parte do suicídio da poeta Sylvia Plath e aborda o tema na vida de muitos escritores. Devo confessar que o mais comovente desses suicídios pra mim foi sempre o de Virginia Woolf.

Chico Lopes disse...

Hoje em dia vejo com menos romantismo um certo culto do suicídio que reina entre escritores. Não condeno atos de ninguém, mas acho que a literatura pode também assinar pactos com a alegria, o humor e a criatividade da imaginação sem deixar de ser "nobre" (o que quer que este adjetivo desgastado signifique) por isso. O sofrimento e a depressão não são a única fonte de expressão possível.

Nanete Neves disse...


Ana Cristina César, Silvia Plath, Virginia W. e o querido Pedro Nava, quantas perdas e quanta poesia em seus mundos...

Rita Maynart disse...

Todos voltarão!

José Santana Filho disse...


tá lá no meu 'a casa das marionetes': a humanidade não merece santos nem heróis nem suicidas. e às vezes penso: infelizmente.

Henrique Bon disse...

Deve-se considerar também que o suicídio de um artista tem mais visibilidade junto à mídia, o que pode sugerir uma irreal maior incidência do fenômeno no meio.

Verena Mattos disse...

Muito bom.

Camila M disse...

A mim também, mais me comove a morte de Virginia Woolf, no livro "as ondas", ou até mesmo em seus contos, percebe-se o apreço que a escritora tem por diluir-se na água, entre os juncos, morrer entre as folhas caídas na água. É como um retorno ao útero esses suicídios na água. Tendo a me perguntar se ela possuía esquizofrenia ou algum espectro de esquizofrenia junto com a depressão bipolar ou se era apenas depressão bipolar, já que a mesma na carta de despedida para Leonard Woolf afirmou que as vozes estavam atrapalhando.

Anônimo disse...

Faltou a Poeta Ingrid Jonker. Nasceu na África do Sul. Nelson Mandela usou uma frase de um dos seus poemas em um discurso. Ela entrou no ma durante uma forte tempestade. Existe um lindo filme da vida dela Borboletas Negras.

Sidnei Rodrigues disse...

Não é apropriado classificar como suicídio o que aconteceu com o filósofo grego SÓCRATES. O filósofo foi condenado à morte acusado de perverter a juventude e talvez de outros crimes. Então, tomou cicuta por condenação e não por intenção sua.

sidnei Rodrigues disse...

Há mais casos: Raul Pompéia, brasileiro. Antero de Quental, português.