setembro 07, 2020

.......................................................... ANTONIO NAHUD: VIDA e POESIA



Versos de ANTONIO NAHUD

Pouco sei sobre meus ancestrais de outros países, mas o passado brasileiro da família está documentado no sul da Bahia, em Itabuna e Itapé. Alguns membros do clã, por parte da avó paterna, têm sangue índio. Como descendente dessa árvore genealógica transatlântica e grapiúna, resultado de uma história moldada por diversas raças, conto em fotografias meu amadurecimento nessa iluminada vida cigana, legendadas por uma série de pequenos poemas em flor.

03 MESES

eu assim
no centro de uma hora lassa
feito a mornura do dia
acolhida no pistilo de uma flor

01 ANO

02 ANOS

03 ANOS


04 ANOS

lembranças doces
esta música de insetos
que resiste horas a fio

05 ANOS

vou para mandrágoras
campos de girassóis
chuva de gardênias
vulcão do que há de ser

06 ANOS

ao amanhecer pássaros ao longe
dourados girassóis na luz do dia
nostalgia se banhando de relâmpagos

07 ANOS

deito-me na memória de uma infância sensitiva
poeta pastor de formigas e abelhas

08 ANOS

festim num céu de estrelas
música marítima
perfume de flor lilás
memória de outras vidas

09 ANOS

10 ANOS

11 ANOS

12 ANOS


13 ANOS

meu coração é selvagem
do meu chão brotam lírios
minha boca plumagem de colibris

14 ANOS

coleciono juventudes desperdiçadas
cacos de sensações

15 ANOS

troco amor por amor
com quem me ajuda a semear jasmins
joão cabral e sabiás
troco o impulso de me jogar pela janela
por versos de leminski com vistas para o mar

16 ANOS

nunca esqueça
duas três vezes até mais
dos lábios doidos
dos beijos de veneno
do calor de mãos entrelaçadas
dos anjos nos sonhos
soprando alecrins

17 ANOS

tua lembrança
posso tocá-la de tão próxima
nesta noite de sutilezas e argúcias
em que não consigo dormir
caminhando na lassidão
da aragem fresca da campina

18 ANOS

estou ausente
porém no castelo dessa ausência
espero o eterno retorno

19 ANOS

dei-te frutos saborosos
pólen para o delírio
corpo incendiado
vertiginoso transe
festejando a tua beleza

20 ANOS

tão alegre estou
invade-me o coração murmúrio de rios
floresta em flor
lua pálida
eis o destino
de profeta das letras
saudando a alma aos gritos

21 ANOS

algas cavalos-marinhos estrelas-do-mar
bichos imaginários comendo a alma

22 ANOS

a monótona coleção de sombras
provoca-me indolência
afundando olhos decaídos
na miragem envolta em vapor
na claridade súbita

23 ANOS

estou nas palavras
ando sem destino
mensageiro de manuscritos perdidos
e salmos piedosos

24 ANOS

assim invado livros
deixando pedaços do maluco coração
em páginas honestas
em cada sílaba cada metáfora
a carne se desfaz

25 ANOS

poderia gritar mas a palavra não tem voz
é preciso aguardar
esperar o meu eu em  total silêncio

26 ANOS

digam-me de onde vem o amor penado?
do mistério das constelações acumuladas?
de árvores cálidas e frondosas?
de um deus clandestino?
do uivo dos infernos?
de onde vem o amor assombrado?

27 ANOS

fiz do teu mundo recatado
um castelo de aromas
bosque encantado
atiçando abelhas
desenhando vaga-lumes
num caminho de noites insensatas
e tardes de brisa frenética

28 ANOS

tudo aroma
canela
cavalo
cigano
destino
impossível distância

29 ANOS

o espírito o rio e suas coisas
pedras peixes
o universo e os sóis os céus
e os sons em seus buracos negros
que nem os ouvem ninguém

30 ANOS


31 ANOS


32 ANOS

nada é quântico
tudo atlântico
cardume de peixe amarelo
lume de madrepérola

33 ANOS

na flor da pele
mais luminosas que pérolas
crescem bromélias da imaginação

34 ANOS

paisagem pintada
de carmim
marrom
lilás
verde-musgo

35 ANOS

era uma dança de despedida
era uma dança de morte
era uma dança de pele e gozo
rodopiava o cravo vermelho
preso no véu dourado

36 ANOS

se não houvesse nada de nome
eu criaria o teu
em sobressalto
assim soletrado ao sabor do vento
e de pausas

37 ANOS

nada é lógico tudo é um relógio
com ponteiros de brancos suicídios
e horas de acordar borboletas

38 ANOS

por tua causa vi a noite azul
tudo turquesa no meu coração
tudo cor de topázio
tudo luz e sombra

39 ANOS

onde a noite corre e se põe
entrega-te ao mistério
bebe da alquimia
rodeia o sortilégio

40 ANOS

chuvas de outono
laranjas douradas
jaca mole
a relva úmida
a paz perene
como crer no maligno?

41 ANOS

ar perfumado
águas de riachos
província delicada
o colibri rodopia
em volta da flor

42 ANOS

a aranha
do
coração
tece o tenebroso pecado

esticando
fios sedosos
que envolvem o amor

a aranha – uma
parte de mim
tece a loucura romântica
que salta pelos olhos

43 ANOS

o ibope mente
a imprensa engana
circulam em olhos ávidos
flechas oportunistas
maus agouros
truques
tramoias

44 ANOS

suspenso num fragmento
de realidade,
sou um poeta num reino 
de alucinações e boatos

45 ANOS

pelas ruas:
olhares de lince,
belezas pictóricas,
metamorfoses.

46 ANOS

fato imediato:
poeta-errante.

aventureiro. aventureiro
até o fim.

o coração pulsa
por terras e versos inquietos,
contraditórios.

47 ANOS

rosto,
voz.

frígidas sensações
em noite vaporosa.

o tédio,
os vermes da aventura se multiplicam
em beijos condenados ao esquecimento.

48 ANOS


49 ANOS


50 ANOS

agosto 28, 2020

....... A SURPREENDENTE LITERATURA de ANTÓNIO LOBO ANTUNES



“É a mão que escreve. A nossa mão é mais inteligente do que nós. Não é o autor que tem de ser inteligente, é a obra. O autor não escreve tão bem quanto os livros.”

Ilustrações:
PAULA REGO
(Lisboa, Portugal. 1935)


A literatura de ANTÓNIO LOBO ANTUNES (Lisboa, 1942) foge da narrativa tradicional, inventa enredos paralelos, traça um quadro duro de Portugal. Uma palavra que corrói e denuncia os abusos do poder, das instituições e os absurdos do mundo moderno. Autor de “Os Cus de Judas” (1979) e “Manual dos Inquisidores” (1996), entre muitos outros, consagrou-se na França, Espanha, Alemanha e, mais recentemente, no seu próprio país. A cada criação confirma sua capacidade criativa e uma obra surpreendente, dissecando ruínas emocionais, que engrandece a língua lusófona.

Reservado e de pouca conversa, o escritor tem aversão a entrevistas, distanciando-se do entrevistador e respondendo com poucas palavras. Confira o bate bapo dele com ANTONIO NAHUD, em Lisboa, 2001.

APRECIO MUITO suas CRÔNICAS. No ENTANTO, SEI QUE NÃO se INTERESSA por ELOGIOS.

Há muitos anos me daria prazer saber que escrevo bem ou que sou um grande escritor, mas já não me interessa. Afinal o que é ser um bom escritor? Talvez aquele que eu tenho a impressão que escreve só para mim.

AINDA CRÊ que ESCREVER é um PRAZER?

É a minha vida. Há anos que escrevo e me sinto culpado se não o faço. O aborrecido é a correção. Além disso, muito do que pensamos que é bom, não é. Sendo assim, costumo destruir a maior parte do que escrevo.

O QUE PENSA dos seus ROMANCES?

Poderiam ser melhores.

GOSTA de POESIA?

Leio muito poesia. Creio que a linguagem poética dá chaves para muita coisa. Como você é brasileiro, confesso que admiro a voz poética de João Cabral de Melo Neto, um poeta de qualidade extraordinária, assim como admiro Murilo Mendes, Ferreira Gullar e Cecília Meireles, entre outros poetas brasileiros.

POR QUE NÃO ESCREVE POESIA?

Por não ter nenhum talento poético.

QUAL o SEU MÉTODO de CRIAÇÃO, se ACASO EXISTE UM?

A partir de uma ideia elaboro os personagens e escrevo o resumo de cada capítulo. Começo o primeiro capítulo e vou até o final.

O FIO NARRATIVO é IMPORTANTE na sua LITERATURA?

Nunca foi. Um romance se escreve com personagens, emoções e situações. O fio narrativo é desnecessário. Pelo menos para a minha escrita. O livro é um organismo que vive independente e surpreende-nos a cada passo. Um livro não se faz com um fio narrativo, faz-se com palavras. São as palavras que geram umas às outras. E com trabalho.

QUAIS as suas INFLUÊNCIAS LITERÁRIAS?

Eu mesmo. Aprendo comigo, mergulho no meu eu. Só assim encontro a voz autêntica.

POR QUE QUESTIONA TANTO a MORTE?

Não entendo como as pessoas que não escrevem conseguem suportar o absurdo da existência. Nossa vida é marcada pela morte, embora isso não elimine alguns momentos de alegria.

COMO VÊ a LITERATURA do seu PAÍS?

Escrever em português é complicado, nossas edições são limitadas e é sempre difícil ser traduzido. Considero que temos um extraordinário prosador, Eça de Queiroz. “O Crime do Padre Amaro” é tecnicamente seu melhor romance. Mas não temos grandes romancistas como Conrad ou Melville. A nossa forma de expressão sempre foi a poesia, muito mais do que o romance. Atualmente temos bons poetas, como o Herberto Helder.

O QUE PENSA da POLÍTICA CULTURAL de PORTUGAL?

Não temos uma autêntica política cultural. Não ensinam os portugueses a ler. Creio que esta é a missão de um bom escritor. Desde que ele faça o seu trabalho o melhor que possa e que tenha sentido ético da escrita e uma atitude justa perante a vida.

POR que EVITA ENTREVISTAS?

São arrepiantes as perguntas que os jornalistas fazem aos escritores. Incomodam-me. Além do mais, a imprensa necessita de rótulos que nem sempre são verdadeiros. Já fui o “enfant terrible” da literatura, hoje sou um escritor “profundo e desesperado”. Onde está a verdade? Não a encontro, e sou julgado por estas imagens totalmente estranhas.


TODOS os LIVROS de LOBO ANTUNES

MEMÓRIA de ELEFANTE (1979)

Os CUS de JUDAS (1979)

CONHECIMENTO do INFERNO (1980)

EXPLICAÇÃO dos PÁSSAROS (1981)

FADO ALEXANDRINO (1983)


AUTO dos DANADOS (1985)

As NAUS (1988)

TRATADO das PAIXÕES da ALMA (1990)

A ORDEM NATURAL das COISAS (1992)

A MORTE de CARLOS GARDEL (1994)


A HISTÓRIA do HIDROAVIÃO (COM ILUSTRAÇÕES DE VITORINO) (1994)

MANUAL dos INQUISIDORES (1996)

O ESPLENDOR de PORTUGAL (1997)

LIVRO de CRÔNICAS (1998)

EXORTAÇÃO aos CROCODILOS (1999)


NÃO ENTRES TÃO DEPRESSA NESSA NOITE ESCURA (2000)

QUE FAREI QUANDO TUDO ARDE? (2001)

SEGUNDO LIVRO de CRÔNICAS (2002)

LETRINHAS das CANTIGAS (EDIÇÃO LIMITADA) (2002)

BOA TARDE às COISAS AQUI em BAIXO (2003)


EU HEI-DE AMAR uma PEDRA (2004)

D'ESTE VIVER AQUI NESTE PAPEL DESCRITO: CARTAS da GUERRA ("CARTAS DA GUERRA") (2005)

TERCEIRO LIVRO de CRÔNICAS (2006)

ONTEM NÃO TE VI em BABILÔNIA (2006)

O MEU NOME é LEGIÃO (2007)


O ARQUIPÉLAGO da INSÔNIA (2008)

QUE CAVALOS SÃO AQUELES que FAZEM SOMBRA no MAR? (2009)

SÔBOLOS RIOS que VÃO (2010)

QUARTO LIVRO de CRÔNICAS (2011)

COMISSÃO das LÁGRIMAS (2011)


NÃO é MEIA NOITE QUEM QUER (2012)

QUINTO LIVRO de CRÔNICAS (2013)

CAMINHO COMO UMA CASA em CHAMAS (2014)

Da NATUREZA dos DEUSES (2015)

PARA AQUELA que ESTÁ SENTADA no ESCURO à MINHA ESPERA (2016)


ATÉ que as PEDRAS se TORNEM MAIS LEVES que a ÁGUA (2017)

A ÚLTIMA PORTA ANTES da NOITE (2018)