setembro 23, 2018

.......................................... FRAGMENTOS de NEUZAMARIA KERNER


  
“A poesia é um ato de paz. A paz entra dentro da composição de um poeta tal como a farinha entra na composição do pão.”
PABLO NERUDA
(Parral, Chile. 1904 - 1973)

Ilustrações:
SUZANNE VALADON
(Bessines-sur-Gartempe, França. 1865 - 1938)


ANTONIO NAHUD entrevista NEUZAMARIA KERNER para o jornal literário “ABXZ - Caminho das Letras”. Itabuna, Bahia, 2007.


“A POESIA é a FOTOGRAFIA da MINHA EXISTÊNCIA”

Os anos vividos em Ilhéus marcaram a baiana NEUZAMARIA KERNER. Nas terras do sem fim, deixou-se ser seduzida pelo perfume da Mata Atlântica, conheceu escritores e lançou dois livros de poemas, “Fragmentos de Cristal” (1993) e “Eu Bebi a Lua” (1995), tornando-se imortal na Academia de Letras de Ilhéus. Fulgurante, senhora de enormes olhos verdes e simpatia contagiante, ela ensinou em vários colégios, participou de recitais, fez teatro com o lendário Pedro Mattos e teve participações importantes no PROLER e Alfabetização Solidária / UESC.

Seus versos delicados cantam a natureza, os sentimentos próprios da alma humana, as belezas e as agruras da nação grapiúna. Foram celebrados por Affonso Romano de Sant’Anna. Morando em Vitória (ES) e com livro pronto para ser lançado, “Eva: Dentro e Fora do Jardim”, a poeta passou alguns dias no Sul da Bahia. Aproveitei para entrevistá-la. Um papo inesquecível. Confira.

Como foi que abraçou a literatura?

Nasci com a arte pulsando como o meu coração. A descoberta não acontece de um momento para o outro, assim, num estalo. Desde que tive consciência de mim, como ser vivente neste mundo, tinha a sensação de que meus olhos haviam sido preparados para ver alguma coisa diferente que nem todos viam, pelo menos os da minha idade. Engraçado é lembrar que os adultos com os quais convivi na infância e adolescência me achavam estranha e eu nem sabia o que era ser estranha. Hoje eu acho que eles é que eram estranhos. Era algo incomodativo olhar pro outro e não senti-lo pensando, observando o que brotava à nossa volta. Eu lia muito, por isso pensava... e pensar diferente da sua tribo gera uma certa angústia, uma sensação de não pertencimento àquele lugar... interessante é que eu era amada e bem acolhida.


Alguém escrevia na sua família? Havia incentivo literário em casa?

Somente algumas cartas raras a parentes distantes. No entanto meu pai era um autodidata, lia pra caramba. Mas não era aquele leitor sisudo, antipático... ele gostava de literatura de cordel e o cordel, mesmo sendo engraçado, fala de coisas muito sérias. Eu continuo apaixonada pela peleja do Cego Aderaldo e o Zé Pretinho! Ele me levava sempre pra ver os repentistas e violeiros na Praça Cairu, no Terreiro de Jesus e na Praça da Sé, em Salvador. Havia também as poesias de Castro Alves que ele me ensinava a declamar. Nossa! Que lembrança boa foi conhecer os versos de Omar Khayyam, aquele da Pérsia, quando eu só tinha 11 anos de idade. Bom, talvez isso tenha sido o meu incentivo, fora as histórias de Sherazade, as histórias de assombração, a inventividade do povo. Entrei naquele universo e não saí mais.

Como despertou para o imaginário poético?

Pois é, amado, acho que um dia dormi e quando despertei estava dentro desse universo que descrevi na pergunta anterior. É bom permanecer dentro dele... a gente fica meio que protegido. Acho que é por isso que sempre arrisquei registrar o que pensava, do jeito que fosse.


E o primeiro livro? Como aconteceu o processo criativo? Tardou muitos anos para finalizá-lo?

O primeiro livro, putz! É como a história do primeiro sutiã, o susto da primeira menstruação... Foi um ato de coragem! Escrevi muito, rasguei muito, toquei fogo em tudo – eu sempre fui fogosa... não gostava do que escrevia, tocava fogo. Por causa dessa mania demorei muito a publicar, também tinha o medo do julgamento, a questão da falta de grana. Encontrei muita gente bacana que me ajudou, principalmente em Ilhéus e em Itabuna. Lembro do conto “Natal na Barca”, de Lygia Fagundes Telles. Quando li o conto, chorei tanto e saí dele me sentindo medíocre. Outra fogueira, mas a última!

Houve algum poeta que a tocou profundamente na época dos primeiros poemas? Alguma influência?

Todos os poetas me tocaram profundamente, mas nenhum deles foi meu ginecologista... desculpe a irreverência. Bom, houve a forma dos repentistas; a angústia, a perplexidade, o questionamento existencial de Khayyam; os versos de Cecília. Eu creio que quem escreve recebe influência de tudo o que lê, de tudo o que ouve e de tudo o que sente.


Nasceu em Salvador. Nos tempos soteropolitanos tinha convivência artística?

Sim. Só o fato de estar vivendo já é ser artista. Você conhece bem a efervescência da cultura baiana: teatro de rua, batuques, violas... não sei se eu tinha a vivência que se fala hoje, mas estava ligada, atenta. No entanto, quero dizer que viver em Ilhéus foi um marco importante na minha vida como poeta, porque aqui eu ganhei a coragem de mostrar meu texto, me expor.

E a experiência como educadora? Foi uma escolha lúcida?

Sabe, outro dia fiz uma brincadeira comigo mesma: escrevi várias profissões num papel; aí fui me colocando nelas... não sei se não as acolhi ou elas não me acolheram. Porém houve uma que gritava desesperadamente para mim: olhe, eu estou aqui! Adivinhe qual a profissão? Nem precisa dizer, né? Foi, sim, uma escolha lúcida porque nós nos escolhemos. Nunca pude imaginar o mundo com pessoas sem saber ler. Ler no sentido pleno da palavra. É muito bom trabalhar como professora porque, para mim, é a única profissão que possibilita aprender enquanto ensina. É uma troca maravilhosa. Na verdade eu sou parceira dos meus alunos.


O que pensa do vácuo entre um livro e outro? Qual o sentimento neste espaço de tempo?

No vácuo há o caos e eu no meio dele tentando me ordenar – nunca consigo! É quando percebo que a angústia vomitada não acabou, vem gerando outra. Sempre parindo angústias... uma sensação de estranhamento do eu comigo, uma luta infernal. Veja o poema “Ouvindo”, inédito – para o próximo livro que já deveria estar caminhando por aí. Eu estou sempre na beira de mim. Deve ser coisa de doido! No fundo não consigo me desmelancolizar. É assim!

Conte um pouco sobre a temporada grapiúna. Envolveu-se com os escritores locais?

Minha temporada grapiúna foi muito rica. Fazia teatro - saudade de Pedro Matos-, cantava em coral, sempre envolvida com o povo da Casa dos Artistas, trocava idéias com os escritores da região e do mundo... foi um período de expansão. Conviver com você, Antonio Nahud, com Hélio Pólvora, com Cyro de Matos, Sá Barreto, Jorge Amado, Jorge Medauar, Janete Badaró, Baísa Nora, George Pellegrini, Valdelice Pinheiro, Maria Luiza Heine, Ramayana Vargens, Dorival de Freitas, Francolino, Ruy Póvoas... Vou parar de falar nomes. Foi tanta gente boa que nem cabe no maior pergaminho do mundo. Aprendi muito!


Como traduz a literatura do sul da Bahia?

Como a voz de um povo que marca a sua presença na história da literatura universal. Se eu fosse falar sobre esse assunto agora, viraria uma tese.

Os seus livros tiveram a repercussão merecida?

O que é mesmo repercussão? Se o que eu escrevi e meus amigos leram, e me cobram sempre novos livros, então digo que a repercussão foi astronômica.


O que anda escrevendo?

Um monte de coisas... estou sempre escrevendo. Fora os projetos de trabalho, as aulas na Estácio de Sá em Vitória pra sobreviver, estou arrumando os poemas para o meu novo livro, “Evas: Dentro e Fora do Jardim”. Acho que o título vai ser esse mesmo.

Como está sendo a vivência na Academia de Letras de Ilhéus?

O tempo de aprender com os mestres. Pertencer a uma Academia é como pertencer a uma tribo e muita gente pensa que é o lugar dos vaidosos, mas não é bem assim – não vamos rotular nem exagerar. Olhe, amado, estar na ALI é uma experiência indizível. Você sabe aquela coisa da honra? Numa Academia de Letras se vive o ritual da iniciação todos os dias.

O que seria de Neuzamaria Kerner sem poesia?

Uma pessoa na prisão, um passarinho sem asas, um estômago trovoando por um prato de comida, um mundo sem cachoeiras... A poesia é o elo entre mim e a vida. É a fotografia da minha existência. Sem ela sou o desgarramento cósmico absoluto. Vixe, dessa vez fui longe demais!


DOIS POEMAS de NEUZAMARIA

OUVINDO...

Ouço a chegada
de quem nunca chega.
Ouço a voz de quem
comigo não fala.
Ouço o passado se afastando
e me deixando só
cada vez mais.

Eu na beira dos olhos - águo
Eu na beira da boca - engasgo
Eu na beira da terra  - broto
Eu na beira do Eu...
silencio.


O LADO BOM DO PASSADO (1)

As cachoeiras tombavam
riam do nosso riso
zombavam dos nossos tombos
e tudo era festa.

Não se sabia o que éramos...
talvez crianças na adultidade

(n ã o i m p o r t a  a g o r a).

Efervescíamos!...

Como adolescentes traquinos
éramos o que críamos
e tudo era real:
pilotos-passageiros dos instantes
onde felizes nos permanecemos
presentes na vida.

 
 


agosto 26, 2018

............................... NA PONTA da LÍNGUA: LINHAS TORTAS


  
Quem não lê não pensa, e quem não pensa será para sempre um servo. 
PAULO FRANCIS
(Rio de Janeiro, RJ. 1930 – 1997)

Ilustrações:
LOUIS JANMOT
(Lyon, França. 1814 - 1892)


PARTE 1

Há muito se alerta sobre o empobrecimento da linguagem nos meios de comunicação. Seminários e encontros, no exterior e no Brasil, debatem sobre a responsabilidade dos jornalistas como modelo do uso da língua. Assim como certamente muitos outros, orgulho-me de ter aprendido a ler com o convívio diário de jornais e revistas apresentados por meu pai, um ávido e versátil leitor. A ler ensinaram-me na escola, óbvio; ao que me refiro é a compreender e deleitar-me com a leitura. Hoje sei que o constante passar de olhos na “Ilustrada” e no “Folhetim”, da “Folha de S. Paulo”, tornou-me jornalista, muito antes de militar na área. Recortava, guardava numa pasta, lia e relia Sérgio Augusto, Pepe Escobar, Matinas Suzuki Jr., Otto Lara Rezende, Luís Antônio Giron, Mário Sérgio Conti e – naturalmente – o mestre Paulo Francis. Textos elegantes, aprofundados; análises inquietantes que me ajudavam, efetivamente, a tomar decisões. Terminei por acreditar que o jornalista tem uma complexa responsabilidade. Sem pretendê-lo, converte-se em referência linguística para gente da sociedade informada. Afinal, quem resiste a uma matéria inteligente e bem escrita?

O verbo é o rei, analógico ou virtual, pois dele nasce o pensamento. É de domínio público que o excesso de informação superficial é a maneira moderna de estar desinformado. Somente driblando os mutáveis truques dos meios de comunicação para não ser ludibriado pelas miragens marqueteiras. Nesse contexto, o jornalista deve refletir sobre sua responsabilidade no uso da informação e do idioma. A clareza da linguagem garante a clareza da informação. O profissional que cuida das palavras – evitando acumular redundâncias e pleonasmos ou flerte com palavras de outras línguas - geralmente é cuidadoso com a informação. É difícil encantar o leitor se não conhecemos e louvamos as palavras que utilizamos. Um jornalista que não tem um bom conhecimento do seu idioma e não faz um uso exemplar dele, deve mudar de profissão, evitando assim a exposição pública da mediocridade. Não há como se enganar: a credibilidade e o prestígio de um jornal são inseparáveis da qualidade e respeito pela língua.

PARTE 2

Existem tendências atuais que, de certa maneira, descuidam e prejudicam o uso do idioma: o virtual, a globalização e a vulgarização da linguagem em programas de rádio e televisão. O predomínio do audiovisual gerou leitores com insuficiente capacidade intelectual. A palavra tosca se espalha como um vírus devastador, com ofertas e descontos, crescendo a cada dia o desprestígio da linguagem nos meios de comunicação. Para combater essa banalização democrática se necessita de elegância, rigor, relevância. Como recomendou Gay Talese, um dos fundadores do New Journalism, “o jornalista precisa descrever a realidade com o cuidado e o talento de quem escreve um romance”. A notícia se fortalece quando escrita como ficção; pronta para ser lida com prazer. Lembremos, sempre, que a tarefa do jornalismo classudo é narrar para o cidadão, da melhor maneira, o que ele não saberia de outro jeito. Simples assim.

Sabe-se que é cada vez mais frequente a fusão entre informação, opinião e propaganda. Vem dos interesses econômicos e políticos dos grupos de comunicação. Isso atrapalha o leitor, que muitas vezes não sabe se está lendo um informe verídico ou publicitário. Desta forma, a notícia se converteu em uma mercadoria vendável, muitas vezes sem rumo ou prumo, descartável, ou ainda pior, nociva e corrupta. E como perguntar não ofende, por que se permite que assessores de políticos ou empresas colaborem diretamente com a mídia? A imprensa hoje, mais do que em qualquer época, esta sendo pautada pelas informações vindas dos gabinetes do poder, sem qualquer verificação da veracidade. Cada declaração oportunista de políticos notórios é reproduzida por jornais, canais de televisões, emissoras de rádio, sites e blogs, sem, contudo, representar algo de novo ou substancial. O leitor está se cansando do denuncismo mediático. Sobram acusações, mas faltam análises das denúncias, deixando de respeitar os reflexos dos fatos, o compromisso com a verdade, a independência, a integridade.

PARTE 3

Os jornais impressos perdem leitores em todo o mundo. Prisioneiros das regras ditadas pelo marketing estão parecidos, previsíveis e, consequentemente, enfadonhos. Não desnudam o que o ganancioso comercial esconde. O leitor quer algo mais, enfastiou-se do insosso. Menos história oficial e mais consistência. Pede realismo, ética, qualidade e um bom uso da linguagem. No fundo, ele sabe que nada, nada mesmo, supera a qualidade do conteúdo. Somente um produto consistente tem a marca da permanência. Somente um jornalismo inteligente e digno seduz verdadeiramente. Qualidade editorial e credibilidade são, em todo lugar, a única fórmula para atrair novos leitores e anunciantes. Noutra estratégia, o jornalismo deixa de ser relevante. Ainda assim, mesmo com pedras no caminho, acredito que o jornalismo de qualidade continuará existindo, embora esse somente possa ser produzido por profissionais tarimbados, independentes e dedicados que escrevam tão bem quanto romancistas.

2010
Publicado na revista Profashional (SP).

SETE VEZES LOUIS JANMOT

junho 25, 2018

........................................... CRÔNICAS da FLORESTA NEGRA




Durante três meses, em 2005, viajei de trem e carona, sem pouso certo. Semanas na Alemanha, Itália e Áustria, principalmente na Floresta Negra germânica e na Toscana.

Escrevi o que vi, senti e imaginei, resultando no livro inédito CRÔNICAS da FLORESTA NEGRA. Terminei por perdê-lo. Esta semana encontrei uma cópia em uma velha pasta. Uma belíssima surpresa.

São seis crônicas, uma dezena de poemas e um único ensaio: “Investigação de um Poeta Acima de Qualquer Suspeita: Rilke no Castelo de Duíno”. Pretendo publicá-los neste blog .

Confira a primeira.

01 
RELÂMPAGOS RASGANDO a NOITE


Cada um de nós é vencido apenas pelo destino que não soube dominar. Não há derrota que não tenha um significado e não represente também uma culpa.
STEFAN ZWEIG
(Viena, Áustria. 1881 - 1942)

Ilustrações:
KARL SCHMIDT-ROTTLUFF
(Chemnitz, Alemanha. 1884 - 1976)


Nunca se deve lamentar o que passou, repito, convicto, ao atravessar a clareira no alto da montanha, sob um céu de chumbo iluminado subitamente por trovões, relâmpagos e raios. A pertinência de viver intensamente, sem nostalgia sofrida, exige técnica e persistência. Lúcido, desfruto os últimos dias na Floresta Negra. Diante dos olhos confusos, a inexistência, o desatino. Os repetidos rasgos de luz na noite esmagam a razão, abrindo insustentáveis precipícios n’alma. Diminuo os passos, acalmado pela chuva gélida, atento ao enigma. Trilho uma estrada úmida, salpicada por ramos espinhosos de framboesas maduras, em direção à selva de faias.

Na entrada da mata, em uma tenda, dois nórdicos grandalhões, saudáveis como lendários vikings, preparam o Tchai (chá de gengibre, cardamomo, canela, cravo-da-índia, anis e algumas ervas secretas), invocando sensações alegóricas e emanando um forte odor de madeira aromática. Aceito uma xícara de chá. Insone no diálogo interior voluptuoso, mergulho em uma inexplicável e secreta metamorfose. Cada vez mais fundo. Procuro manter-me firme, não me desviando o mínimo que seja do destino estabelecido, pois sei que neste instante sou capaz de rastejar feito um perigoso réptil ou voar como um ágil falcão.

Caminho entre árvores gigantescas, pisando em folhas mortas, ao encontro da barraca violeta camuflada no reino vegetal. A tempestade repentina vai-se. Catando galhos para a fogueira, recordo o menino que fui pernoitando em uma fazenda de cacau. As chamas emolduram a memória poética. Alma livre, nada me pertence. A vida além da imaginação. Não piso em terra firme. As palavras fogem para longe, mal são ditas se desconstroem. Chovem desejos infindáveis, desconhecidos, assustadores. Chove o amor imortal.

Distante da Bahia de Todos os Santos, na Floresta Negra, na terra dos Nibelungos, sul da Alemanha, florescendo no espírito de vales e montanhas de contos de fadas. Personifico um homem-lobo, um selvagem, o Knulp de Hermann Hesse. Nu, sem energia elétrica, água potável, televisão, celular, computador, automóvel e outros méritos fonte da indolência. Que alívio! Que triunfo de viver! À vista, somo pessoas de quase cinquenta países, percebendo uma Torre de Babel às avessas, pois parecem entender-se perfeitamente. Mais de duas mil figuras participam desta vivência comunitária com toque da Sherwood de Robin Hood.


Freaks, hippies, alternativos, malucos, artistas, religiosos, ativistas sociais e ambientais. Fugitivos do urbano injusto, do mercenário, fraternalmente em comunhão com a natureza. Repartimos o pão com desconhecidos, comendo juntos com singeleza. Em outros tempos, agrupamentos com conceitos parecidos foram acusados de heresia, perseguidos e massacrados. Entre eles, os Cátaros, da Irmandade do Livre Espírito, na Idade Média. Ouço essa história da boca do italiano Gabriele. Ele e sua esposa veneziana, Ada, estão numa barraca próxima. Costumamos compartilhar a fogueira, alimentos, leituras e conversas. Pouco antes de dormir, ele toca flauta, quase sempre Mozart.

Na noite passada, Gabriele me contou que esteve recentemente na Polinésia, no vale luxuriante da Ilha de Maui, entre dois vulcões. Inicialmente não sabia a que ponto essa viagem seria importante para ele. Lá conheceu Kahuna Alamea, xamã de poderes extraordinários, uma mulher pequenina, vestida de branco, que irradiva sabedoria, calor e uma bondade milagrosa. “Pode acreditar em mim, nunca mais conseguirei esquecê-la!”, disse-me, continuando: “Kahuna significa Guardiã dos Segredos”. Na sua partida percebeu o chamamento mágico ao receber dela um presente valioso: o Talismã da Chama Sagrada. “Você vê, meu prezado Gabriele, a Chama Sagrada é o Sétimo Raio dos Arcanjos. Ele repara os destinos em perigo”, ouviu de Kahuna.

Segurou o talismã com cuidado. No momento em que nele tocou, o rosto de Deus apareceu claramente. Um sorriso radiante de felicidade iluminou o seu rosto. Símbolos de sorte e de proteção circularam lentamente à sua volta. O Talismã da Chama Sagrada está ligado à Memória Astral, à Biblioteca do Céu, onde cada alma e cada acontecimento estão registrados. Não somente o passado e o presente de cada pessoa estão nela escritos, como cada pessoa pode nela encontrar as suas possibilidades futuras e os destinos possíveis.

Ele tem o poder de curar feridas secretas e de programar o destino. Corta as conexões nefastas, transformando as energias negativas em positivas, o Azar em Sorte, o Mal em Bem. Gabriele continuou falando no silêncio da noite. Ele acreditava no que dizia. Estava convencido. Sem curiosidade diferenciada, embora o caso fosse mágico e belamente narrado, decidi ir dormir. “Chegou o momento de uma virada no destino e passar à ofensiva!”, foi a última frase dele que ouvi. Ao acordar no amanhecer chuvoso a barraca do casal tinha desaparecido. Provavelmente nunca mais voltarei a ver os belos Gabriele e Ada, mas foi um encanto os dias e noites passados com eles. E a flauta faz falta.

O sistema organizacional da comunidade itinerante, nestes meses de gélido verão germânico, funciona através de colaboração voluntária, gente disposta revezando-se na tenda da cozinha, servindo refeições, lavando tachos, preparando fogueiras e ensinando o que sabe fazer melhor. Não se come carne, não se bebe álcool. O haxixe é tolerado. Fumo tabaco Golden Virginia e tomo café para combater o frio. Dezenas de circenses amadores animam a festa pagã: acrobatas, palhaços, saltimbancos, malabaristas, dançarinos, cuspidores de fogo, pernas-de-pau e contorcionistas. Na nervura dos troncos, na terra, no voo, borboletas, abelhas, caracóis, formigas, besouros, grilos, aranhas, joaninhas, lacraias e incontáveis insetos não identificados.


Pássaros inesperados. Flores-do-campo de diversas cores e tamanhos. Girassóis, roseiras silvestres, cardos. Paisagem de beleza exata, um deleite para os olhos. A harmonia local deita por terra ambições materiais, despertando ações solidárias. Justamente o que mais faz falta neste milênio tribal de fanatismo tatuado, valores ultrapassados, epidemias de depressão, corrupção e violência. Gozando o bem-estar, no doce sopro da noite, submeto-me a presságios. Acima de tudo, ao ser tocado pela cumplicidade dos invisíveis, a esperança renasce. Um ligeiro arrepio percorre-me. O que está para além da escuridão, da noite azulada absoluta?. Evitando reflexões obscuras, presto homenagem a joia do pensamento dócil escrevendo versos.

01
Estou sentado na mata com o caderno de apontamentos.
Anoitece sobre as vigilantes árvores
e brilha o mistério enquanto contemplo e escrevo  
À volta derrama-se a escuridão de sombras e nostalgia.
Percebo a partida e o regresso, a morte e a vida.
Dentro de mim borbulha o mais puro sortilégio!

02
Quando alguém vai, como eu, na aventura de viver
tudo é possível, paisagens tornam-se vigorosas
algo soterrado brota em estranha compulsão
algo libertado e mitológico viaja no oculto

03
Creio no homem solitário,
ao mesmo tempo homem e anti-homem.
É complexo acostumar-nos a nós mesmos.
É complexo desacostumar-nos de nós mesmos.

As chamas da fogueira acentuam o paraíso. Pedras, relva, folhas e troncos iluminados cintilam. De uma fresta na copa das árvores, surgem estrelas. A existência inquestionável, imutável. Guardarei na memória a dança das árvores ao vento. Movo-me em sossego, na maior discrição. Tudo conhecido, tudo inteiramente novo. Como um relâmpago rasgando a noite, comungo o sentimento de navegar ainda mais longe nas águas do simbólico. Em mim, distante da imaturidade, descubro plenitude modelada. Relaxo, deitando a carne desnuda no chão de terra batida, ao lado da fogueira, confiando no destino. O mais leve movimento faz-me perder a razão e sonhar. Uma lição para não esquecer.

Alemanha, 2005


 
 
 



abril 14, 2018

************** MUNDOS POSSÍVEIS: ESCURO e CLARIDADE



Tudo é quietude:
Escuro e claridade,
Livro e flor.
RAINER MARIA RILKE
(Praga, República Checa. 1875 - 1926)

E lá vou eu de novo,
sem freio nem paraquedas
MILLÔR FERNANDES
(Rio de Janeiro, RJ. 1923 - 2012)

Fotos: ANTONIO NAHUD por MORVAN FRANÇA
(Belo Horizonte, Minas Gerais. 1987 - 2016)
Ilustrações: EDVARD MUNCH
(Løten, Noruega. 1863 - 1944)


AUTO-RETRATO

Os homens são ensinados a não serem emotivos e não creio que seja certo. Não acho difícil chorar. A última vez que fiz foi há alguns dias, pensando em como os estranhos podem ser gentis. À medida que envelheço, meu temperamento se torna mais suave. A melancolia ranzinza não demora mais. É um sopro que desaparece no ar. Não é ruim sentir as emoções em vez de enterrá-las. Em busca de sensações, viajo desde os treze anos de idade. Hoje já não muito, ando praticando a viagem como um estado constante, afinal a vida é viagem, dizia Sêneca. Nasci para viajar, tornando-me um escritor viajante. Curiosamente, viajando descobri significâncias no próximo e no mais secreto de mim mesmo; viajando ocorreram encontros marcantes, fora do quadro civilizacional das raízes, que me ensinaram o valor do despojamento, da gentileza, hospitalidade e compreensão.

Uma vez atirado ao mundo, para além do porto natal, nunca mais soube regressar inteiramente. Perdi o sentido de fronteiras, marchando por um destino contraditório, e nada detém a aventura cigana, nada me fez parar por dezenas de anos. A finalidade talvez seja a auto-educação, aceitando-me como um cidadão do mundo. Tive de lapidar um diamante baiano bruto. A voz poética formou-se em desmoronamentos, na contraluz, em conversas partilhadas com desconhecidos, na voragem de não ser importante ou desimportante.

As viagens moldaram-me em uma espécie de homem da estrada, como o Shane de Alan Ladd, em busca do espírito de um lugar para nele encontrar as coordenadas universais. Como poeta de rupturas, cada cidade me transmuta a um novo sentimento, e incoerente, torno-me cada vez mais alienígena e mais sensibilizado com o fracasso humano. Viajo para aprender e sobreviver. Se estamos vivos somente pelo pitoresco, pela ambição fajuta, pela fotografia nas redes sociais ou compras de bugigangas inúteis, somos estúpidos, terrivelmente estúpidos.

Giro em torno do eixo;
sobre um ponto no espaço
desço, vertical: casa poética.
À minha volta,
o mundo de cristal.
Ninguém me acompanha
nesta superfície estranha
e luminosa.
CONFISSÕES (2014)

Apesar dos avanços tecnológicos que temos agora, ainda acho que as coisas estavam melhores há décadas. Estamos trabalhando muito para sobreviver dignamente, faltando tempo para considerar o que realmente significa ser humano. Não aproveitamos a tecnologia para facilitar nossas vidas e estamos sujeitos à considerável manipulação e ajustamento. Nasci grapiúna, geminiano, sob a benção de Santo Antônio e Oxóssi em um tempo familiar, tradicional e benéfico. Vim ao mundo pouco depois da meia-noite, em Itabuna, sul da Bahia, terra dos frutos de ouro. Nas veias sangue libanês, indígena, sergipano, português. Meu pai, arrebatado, ofertou no mesmo dia da natividade uma celebração aberta para qualquer um, com músicos, churrasco e cachaça em praça pública.

Nasci filho mais velho do galã Antônio José, advogado de humilhados e ofendidos. Ele partiu para o outro lado da lua moço, levando a imagem de um homem desiludido e honrado, camisas de seda, anéis de rubi e admirável apego a fauna e a flora da Mata Atlântica. Devo a dona Lurdinha, dama amável e generosa, o que existe de melhor em meu coração, se acaso existe. A bondade é, no fim das contas, o sentimento mais precioso. E ela tem de sobra. De família tradicional falida, cresci atormentado por dificuldades financeiras. No entanto, havia proteção, fraternidade, irmãos de bom coração (hoje, os advogados Neto e Paulo Manchinha, o médico Urbano, o arquiteto Marc e a doce ginecologista Anna Áurea) e a espetacular vivência na Fazenda “Bela Vista” perfumada pelo cacau. Mamma mantém a residência urbana onde tudo começou, na Né Abade, bairro Pontalzinho. Guardo lá tesouros: diários, livros, filmes, álbuns de fotografias, sossego, amor.

O poeta em mim exigia uma profissão diretamente relacionada com a escrita. O jornalismo surgiu como uma prática da qual poderia tirar benefícios para a criação literária. Na época, pareceu-me que ser jornalista era uma profissão heroica, particularmente apropriada para escritores. Para um autor, o jornalismo pode constituir um desafio para a própria obra, um estímulo para abertura de novas perspectivas. Acho estimulante esse modo de pensamento da comunicação que parece avançar em círculos, repetitivamente, voltando ao mesmo ponto. Foi altamente contagiante durante muitos anos. Mas ando cada vez mais distante. Interiorizei conceitos que não combinam com sua prática – um caminho que me leva ao claro-escuro do ser – e que são estruturantes para a minha atual visão do mundo.

estas árvores invisíveis
campos sem sombra
carcará cortando o ar
são sortilégios
para desnortear desilusões.
LIVRO de IMAGENS (2009)

Atitudes perante a vida ensinaram-me a viver o despojamento do ego para dar espaço ao divino, na vivência de uma religação cósmica, de indivíduo que cultiva virtudes. Procuro depuração e decantação. Por isto, no momento, vejo o jornalismo como uma profissão de risco. Não nego que sou bicho estranho, que voa e pousa, dispara e contempla. Desde menino tenho compaixão pelos miseráveis; desde menino me sinto atraído pelo misterioso, o oculto, em uma mediunidade espontânea que me torna compassivo ao meio ambiente. Percebo vultos, ouço vozes inexistentes, creio em criaturas que não vejo.

Durante anos, estudei no tradicional Colégio Divina Providência, amando a literatura graças à dedicação de um professor, Ruy do Carmo Póvoas, e ao convívio fraterno com o excelente contista Hélio Pólvora. Aos 17 anos, após meses poupando cada centavo, torrei a pequena fortuna em viagem mundana de um ano ao Rio de Janeiro, entregando-me de corpo e alma à farra carioca: frequentei cinematecas, exposições de arte, festinhas excêntricas e namorei a todo vapor - tudo devidamente anotado em “Diários”. Desta época, restou a lembrança do poeta e compositor Antonio Cícero e do escritor argentino Manuel Puig, que brilhava os olhos quando eu recordava cenas criminais de clássicos do cinema.


Quando se é jovem, as emoções são apaixonantes e transitórias. Continuando os estudos, voltei à Bahia. No final da década de 80, editei o mensal “Narciso”, o caderno de cultura do jornal “Agora” e escrevi para diversos outros periódicos, inclusive críticas e artigos sobre arte e comportamento. Polêmico e ousado, embora tímido, arrisquei-me durante dois anos como repórter na TV Cabrália (Rede Manchete). O impulso seguinte: a grande São Paulo. Em cerca de dois anos – por sinal, conturbados -, estudei cinema com Carlão Reichenbach e resisti como assessor de comunicação do arrogante José Aristodemo Pinotti e leitor de inéditos da Editora Siciliano. Na selva de pedra, que quase me arruinou, tive o privilégio de conviver com Hilda Hilst, Caio Fernando Abreu, Lygia Fagundes Telles e Pedro Paulo de Senna Madureira.

tua lembrança
posso tocá-la de tão próxima
nesta noite de sutilezas e argúcias
SUAVE é o CORAÇÃO ENAMORADO (2006)

A literatura corre com o rio do tempo e do ser, mais do que ao autor ela pertence à sociedade. Nenhum virtuoso acredita no culto do escritor enquanto entidade independente, porque sabe que a literatura é na sua essência uma proposta de partilha. O autor é um pesquisador de harmonias pré-existentes no cosmo, seja ele o microcosmo humano individual ou o infinito universo do qual faz parte. Devemos tudo aos antecessores, então, no processo criativo, saldamos essa dívida de gratidão por tudo o que nos foi dado para continuar a construção da voz literária. Se é inútil? Talvez, mas também é significativo para os nossos sonhos.


O secreto, enquanto símbolo, exprime a imensa força catalisadora das transformações. A sensibilidade, o pensamento lúcido e a imaginação poética são poderosas ferramentas na evolução das sociedades. Aspiram a harmonia da relação homem-vida. A linguagem literária que me interessa é de natureza panteísta, apela ao regresso dos tempos e à fusão do homem com a natureza, ao sossego da alma equilibrada com o meio envolvente. Mais do que nunca precisamos da natureza, caminhando com ela, e não contra ela. Defendo o estado contemplativo e criativo como imperativo para a sobrevivência na caótica e enfadonha modernidade. Apelo à literatura contra o grosseiro materialismo dominante. Nesta tradição me inscrevo e escrevo.

Sortudo na conquista de preciosas amizades, perdi uma ou outra por imaturidade ou egoísmo. Ao redor, íntimas e cúmplices, destacam-se mulheres de valor, já que admiro o universo feminino. Em 1993, após prêmios literários sem importância e apadrinhamento do bom poeta Telmo Padilha, veio o júbilo da estreia literária em “O Aprendiz do Amor”, revelando publicamente uma literatura com tendência para a desilusão, vagando na complexidade do pensamento e desconfiada da razão. Inquieto, desanimado e confuso, parti para a Europa em 1994. Procurava respostas para questões incômodas. Encontrei algumas. Outras, talvez nunca encontre. No estrangeiro aprendi a importância da disciplina, do amor e da amizade. Sobrevivia no Velho Continente das entrevistas publicadas em jornais e revistas do Brasil (“Folha de S. Paulo”, “O Tempo”, “A Tarde”, “Continente Multicultural”, “Profashional”, “Tribuna do Norte” etc.) e de trabalhos despretensiosos: de cozinheiro na Andaluzia a modelo desnudo de escola de belas artes em Madri.

O amor é um belo delírio condenado à incerteza. O amor renasce quando menos se espera. O amor é aquilo que, ao mesmo tempo, nos cega e nos ilumina.
PEQUENAS HISTÓRIAS do DELÍRIO PECULIAR HUMANO (2012)

De fato, deixei-me contaminar por diferentes expressões artísticas. Existe um constante fluxo de influências entre o que escrevo e o cinema, teatro, música, artes plásticas. Desenvolvi este conceito de deslimitação dos modos de expressão. Esta é a essência da literatura que aprecio. “Se um Viajante Numa Espanha de Lorca”, publicado em Portugal em 2005, é um exemplo deste caminho pessoal de tendência deslimitadora de gêneros literários.

Colaborei com veículos de comunicação portugueses (“Diário de Notícias”, “Público”, “Jornal de Sintra”, “Foco”, “Veludo” etc.) e espanhóis (“La Vanguardia” etc.). Morei longas temporadas nos domínios de Fernando Pessoa (Lisboa, Sintra e Cascais), Espanha (Barcelona, Madri, Cádiz e Pontevedra), França (Paris) e Inglaterra (Londres). Em Portugal, publiquei três livros. Guardo na memória conversas fraternas, em terras lusas, com os escritores José Saramago e Maria Gabriela Llansol. Cobri festivais de cinema e encontros literários, entrevistando cerca de 200 celebridades, algumas premiadas com o Nobel ou o Oscar. Com espontaneidade, relatei viagens por trem, mar e auto-estradas. Enxergo cidades, mesmo as desaparecidas como Tróia ou Babilônia, nas vozes daqueles que as descrevem. Elas vivem por meio dos seus escritores, como eram, como foram um dia. A Paris de Proust está em seus livros. A Moscou de Leon Tolstoi, a Florença de Rilke, as terras do sem fim de Jorge Amado etc.

Em 1999, morando em Londres, entrevistei Doris Lessing, participei de sarau ao lado do maluco bardo beat Lawrence Ferlinghetti e interpretei poemas, peladão, no Naked Poetry (Poesia Nua). Ainda no país de Shakespeare, encontrei estima verdadeira na pele do jovem cientista político catalão Joan Sebastian Ribas. Vivemos juntos sete anos. A hora do adeus foi ingrata: aconteceu em um tribunal. Simples e brilhante, Joanzito fala naturalmente oito idiomas. Em 2003, de férias no Brasil, aceitei um inesperado trabalho na Petrobras, em um projeto terceirizado de comunicação; a seguir, os costumes potiguares, escrevendo a biografia do carismático poeta Diógenes da Cunha Lima. Ainda nos trópicos, investi na co-produção de shows e peças de teatro, em Salvador; e publiquei livros, entre eles, “ArtePalavra – Conversas no Velho Mundo” (2003). Colocando outra vez o pé na estrada vaguei por Andorra, Cuba, México, Escócia, Áustria e Grécia. Nesta época, troquei ideias com o escritor norte-americano Paul Bowles, no Marrocos, pouco tempo antes do seu falecimento; e passei meses lúdicos - quase hippies - na Alemanha, Itália e Açores.

Vem-me à cabeça uma imbecilidade: qual será o último livro que lerei antes do apocalipse pessoal e o que representará para os últimos instantes de vida?
SE UM VIAJANTE numa ESPANHA de LORCA (2005)

A relação entre criação e experiências mundo afora é óbvia na literatura. Infelizmente, os que partem e jamais voltam ou os que partem e regressam, os “estrangeirados” – como eu -, continuam a ser, embora mais atenuadamente, uma realidade que gera incomodo. Existe um aspecto tradicional no pensamento coletivo, uma inclinação para aceitar com reservas e suspeitas qualquer inovação. Fechamo-nos demasiado em torno de nós mesmos, em hábitos e rotinas com os quais abafamos o vazio, ou nos deixamos abalar pelo que vem de fora com suas peculiaridades. São facetas do jogo entre o novo e o tradicional, em que o antigo é mais novo do que se julga e o novo não tão novo assim quanto deixa supor. 

Outra vez no sul da Bahia, em 2008, procurei fazer a coisa certa como vice-diretor do Centro de Cultura Adonias Filho; escrevi por mais de um ano a polêmica coluna “Curto / Circuito”, no “Diário do Sul”; dirigi e apresentei o programa de colunismo social eletrônico “Fina Estampa”, na TV Itabuna; editei blogs informativos bastante visitados (“No Silêncio da Noite”, “El Gitano”, “Três Vezes Bahia” etc.); aceitei convites de bienais e festas literárias em distintas cidades brasileiras; e meu “Livro de Imagens” (2008) foi publicado pela Fundação Pedro Calmon, órgão cultural do governo baiano. Terminei por não me defender das emboscadas políticas com grandeza de alma, e ao perder a confiança nos valores vigentes parti mais uma vez.

O maravilhoso de viver é que há a possibilidade de surpresas primorosas. Depois de anos com o pé na estrada, acreditei em Natal – a Noiva do Sol, capital do Rio Grande do Norte - como o lugar imperativo para passar muitos anos. O campo propício para sonhos poéticos. Natal e seu sol ardente receberam-me de braços abertos, mudando o ciclo da minha vida em muitos sentidos. Cresci como ser humano, conheci uma nova cultura, fiz amigos, vivenciei uma belíssima e trágica história de amor, ganhei prêmios e título de cidadão natalense, publiquei livros e uma revista, além de serenar o coração impulsivo. Ando escrevendo sem pressa, ouço jazz e da casa diante do mar observo infinitos, estrelas cintilantes, a lua e a imensidão da maturidade.

Nunca me senti privilegiado ao entrevistar celebridades, muito pelo contrário, às vezes mergulho na crença de ser um estúpido paparazzi, um Marcello Mastroianni perseguindo famosos em “A Doce Vida”.
ARTEPALAVRA – CONVERSAS no VELHO MUNDO (2002)

Está em curso uma baderna do que entendemos por literatura. Os modos de dizer estão confusos. A discussão em torno da literatura tupiniquim ignora o essencial: o papel do escritor na sociedade. Gosto de pensar que somos uma espécie de reserva ética da humanidade, que deveríamos ser consultados por políticos. Enquanto guardiães de uma tradição antiquíssima, coloco-me como intérprete do imenso coração que tudo engloba.

Os escritores contemporâneos perderam o estatuto na sociedade, sobrevivendo entre o excêntrico e o toma lá dá cá. Quando há participação na coisa pública, muitas vezes detecta-se o puxa-saquismo, agravante da intolerável falta de moral. Um famigerado criminoso da guerra dos Bálcãs, com elevadas responsabilidades políticas, antes do conflito foi um reconhecido poeta. Vejo o escritor como um exorcista de demônios, nunca o demônio dele próprio. Talvez os escritores devam recuar para transcender, afinal escritores doutrinados, envolvidos na infâmia partidária, é frustrante e doloroso. É imperioso repensar o papel do escritor, embora me pareça que estamos condenados. Os escritores, creio, são uma espécie de anjos em uma humanidade anestesiada e esvaziada na sua profundeza. Acredito que fazer literatura é um bom remédio para sanar enfermidades íntimas e sociais.

todo desejo tem sua inocência
todo olhar um código
toda aventura um perigo
quem irá me surpreender?
LIVRO de IMAGENS (2009)

Escrever exige dedicação e concentração. Após o romance “Homem sem Caminho”, finalizado ano passado e inédito, mergulhei em um texto que está quase pronto, “O Idoso Desejado”, uma trama policial inspirada em um ancião inglês que vi sentado certa vez em um café de Tânger, fumando cachimbo e sorrindo compreensivamente para o que acontecia ao seu redor. Magro, seco, barba elegante, vestia-se discretamente e não tirou o chapéu. Havia fleuma e reserva nos olhos azuis que fitavam com brilho divertido, irônico até, a clientela local. Exalava calma, mistério e sabedoria pragmática anglo-saxônica. Aquele homem octogenário não tinha um grama de gordura a mais no corpo. Não se alimentava pelo prazer da degustação, mas pelo conhecimento exato e científico do mundo vegetal e animal.

Ao levantar-me, ele afastou a cadeira para eu passar, os nossos olhares se cruzaram, e foi neste momento que resolvi contar a sua possível história. Eu sempre quis ter um avô com quem conversar sobre as coisas estranhas do mundo, as coisas do peito e do pensamento. Um avô que me garantisse as portas da percepção, se abertas com cuidado e atenção, como amplos ciclos de vida, em uma visão ampliada do universo. Um avô que aprofundasse as virtudes da temperança e da harmonia, que penetrasse comigo nos segredos das paixões humanas, e não menos importante, que me ajudasse a tornar-me tolerante e compassivo comigo próprio e com os outros. Então, criei na ficção um garoto solitário que sonha com esse octagenário único, esse homem mais velho especial. Ao avistá-lo em seu trono ilusório, decidi raptá-lo, levando na memória ao templo da narrativa. É intriga que remete ao clássico “O Colecionador”, de John Fowles, ou “As Sete Mulheres de Barba-Azul”, de Anatole France. 


Tendo facilidade de adaptar-me a mudanças inesperadas, encaro desafios com encantamento. Gosto de renovações. Sem lamentações, o roteirista de cinema e TV que nunca deu para ser seria mestre em reviravoltas. Acredito em explorar territórios desconhecidos para encontrar a essência. Afinal, quem não corre riscos perde a chance de se surpreender. Escrever não é apenas sentar à mesa consigo mesmo, na solidão da noite. É escutar o espírito do mundo. Pode ser que, no fim da existência de carne e osso, deixe poucos rastros nítidos da passagem na terra, mas irei com o coração saciado, satisfeito com a fantasia aventureira; ciente que amei demais, escrevi mil e uma vezes, estudei, viajei, fortaleci a alma e li tudo o que pude, e ainda assim parti consciente de que nada sei.