novembro 18, 2018

........................................................................... O JARDIM de CLARICE



Fotos: ERIC SANDER


“Naquele jardim do leste havia flores estranhas, dotadas de rara vitalidade: cravos agressivos, com um perfume de “algum modo mortal”; eram de cor vermelha que berravam uma “violenta beleza”, ou brancos que recordavam “o pequeno caixão de criança defunta”. Havia também violetas “introvertidas e profundas”, que se escondiam “para poder captar o próprio segredo” e à diferença dos cravos, não gritavam nunca seu perfume: “Violeta diz levezas que não se podem dizer.” Naquele jardim podia-se ver também margaridas alegres, “de graça infantil”, orquídeas “antipáticas”, jasmins “de mãos dadas” e crisântemos de “profunda alegria” que falavam através de sua cor e de seu despenteado” porque o crisântemo “é flor que descabeladamente controla a própria selvageria”. E havia também rosas cujo perfume é “mistério doido”, que “quando profundamente aspirado toca no fundo íntimo do coração e deixa o interior do corpo inteiro perfumado”

CLARICE LISPECTOR“Água Viva” (1973)


outubro 14, 2018

.................. MARCELINO FREIRE: “O NOSSO TEMPO é DOENTE”




Ilustrações: DAVID TANNER
(Richmond, Virginia, EUA)

ANTONIO NAHUD entrevista MARCELINO FREIRE para os jornais A Tarde e Tribuna do Norte2006.


Nascido em 1967, no alto sertão de Pernambuco, Marcelino Freire vive em São Paulo desde 1991. Faz parte da nova geração de escritores brasileiros, designada “Geração 90”. Publicou “Angu de Sangue” (contos, 2000), “eraOdito” (aforismos, 1998/2002), “BaléRalé” (contos, 2003) e “Contos Negreiros” (contos, 2005), vencedor do Prêmio Jabuti. Editou a “Coleção 5 Minutinhos” e organizou “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século”. Atualmente prepara, em parceria com o escritor Santiago Nazarian, a antologia “Contos para Ler Fora do Armário”, e escreve seu primeiro romance. Ele realizou o “Balada Literária”, projeto de 2006 que reuniu quase uma centena de escritores pelas ruas de São Paulo. Agora se apresenta no I Encontro Natalense de Escritores (ENE). Confira a entrevista.

Quais são suas primeiras lembranças em relação à literatura? Como essa arte conquistou você?

Lembro sempre do Manuel Bandeira. É ele minha memória mais antiga. Lá pelos meus nove anos, li um poema do Bandeira chamado “O Bicho”. A partir dali quis ser um poeta. Um tuberculoso. Um doente. Bandeira me doutrinou a ser doente. Quando descobri que Bandeira era pernambucano igual a mim, senti uma chance. Eu poderia fazer o que ele fazia. Bandeira foi a minha porta de incêndio para a literatura. Por causa dele conheci Drummond, João Cabral, Cecília. Ah! No mesmo período, comecei a fazer teatro. Comecei escrevendo para teatro. Em resumo: a poesia e o teatro me salvaram. Ou melhor: arruinaram-me de vez. Estou doente até hoje. Tomado, entende?

Bancou do próprio bolso o seu primeiro livro, você. Como foi isso?

Banquei os meus primeiros livros. Comecei pelo “AcRústico”, em 1995. Um livro de contos muito ruim. Mas que foi importante para que eu exorcizasse aqueles textos da gaveta. Não tem coisa pior: do que conto olhando para você. Querendo sair à rua. Eu já estava morando em São Paulo quando fiz o meu primeiro livro. Não aguentava só ficar trabalhando em São Paulo. E eu queria ser escritor. Então resolvi, em vez de reclamar, ir à labuta. Paguei a impressão em suaves e humilhantes prestações. Depois veio meu livro “eraOdito”, de 98.

Recebeu palavras de incentivo de colegas?

A gente encontra gente muito generosa pela frente. A gente nunca está sozinho. Digo assim, na redoma. Conheci o João Alexandre Barbosa (crítico literário pernambucano que morreu recentemente) em São Paulo. Ele ouviu uma leitura de um conto meu, feita por mim, e me indicou à Ateliê Editorial. Grande incentivo ele me deu. Ele me apadrinhou. Além da indicação para publicação, escreveu o prefácio para o meu livro “Angu de Sangue” (em 2000) e o publicou na revista Cult. E por aí tudo foi caminhando. Mas foi preciso eu ter feito o “AcRústico”, o “eraOdito”, ter penado muito, enfim, assado. Ninguém aparece, assim, vapt, de uma varinha-de-condão. Longe disso. Tudo faz parte de uma trajetória, de uma história, de um ziguezague qualquer, sei lá. A estrada é longa, longa...

Como reage diante da crítica que resmunga sobre a violência na sua literatura?

Costumo dizer que eu não escrevo “sobre” violência. Escrevo “sob” violência. Dizem sempre que meus contos são violentos, meus personagens são todos doentes. Doentes estamos todos, ou não? O nosso tempo é doente, violentamente. Eu sou um escritor deste meu tempo, do aqui e do agora. Quem quiser “felicidade”, “conforto”, não vá ler os meus livros. Vá atrás de autores de auto-ajuda. E mais: dizem idem que eu só escrevo sobre gente mal-sucedida. Eu respondo: eu não estou preocupado com gente bem-sucedida. Meus livros não são empresariais. Eu faço é literatura, entende?

Literatura marginal, maldita... São clichês? A sua literatura pode ser enquadrada?

Podem chamar a minha literatura de “marginal”, de “maldita”, de “homossexual”, de “panssexual”, sei lá. Só nunca irão chamar de literatura “comportadada”, “tradicional”, literatura “que-não-fede-nem-cheira”. Podem me acusar, rotular de tudo, menos que eu tenho uma literatura “frígida”. Essa nunca! O que eu escrevo pode até não prestar, mas é coisa assim, urgente, viva. É assim, em resumo: eu escrevo para me vingar.

Como anda o romance “Gonza-H”? De que se trata?

Está em banho-maria. Andei lendo e detestando. Estou escrevendo um outro, chamado “Urubu Come Carniça e Voa”. Essa é uma frase, trecho de um poema do poeta pernambucano Miró. Conhece? Grande figura! Li recentemente esse poema e achei que dava para ser o título de uma coisa que eu estou escrevendo, além do “Gonza-H”. Não sei se vou conseguir terminar um desses romances. Ave! Meu fôlego é curto. E romance é um inferno. Eu termino um primeiro capítulo e vou dormir com o segundo capítulo. Putz! E eu quero é dormir. Eu prefiro dormir a escrever. Meu sono, esse sim, é sagrado!

A temática homossexual de alguns de seus cantos causou polêmica. Vê nisso alguma importância? Crê na literatura gay como gênero literário?

Não sei se causaram polêmica. Meus contos são o que são. E estão aí para serem os mais verdadeiros. Digo assim: “pau a pau” com o que eu quero escrever. Dizer, gritar. Alguma coisa me agonia, eu quero me livrar, entende? Urrar isso, passar adiante. Passo o vexame adiante escrevendo. É isso. Sempre tenho um conto de temática gay, desde o “AcRústico”. Mas é só a temática. O conto não é gay, digo assim, como gênero. É apenas um conto como outro qualquer. E até nem chamo os meus contos de “contos”. Chamo de “cantos”. O que eu escrevo é música. E música não tem sexo, não é? É o que você quiser ouvir.

Recentemente li um artigo sobre “Monstro que Chora (Dramas Homossexuais)” (1957), do carioca Jorge Jaime.  Diz que é um lendário romance ousado e pessimamente escrito. Conhece? Existe uma literatura homossexual brasileira? Quem é nosso Christopher Isherwood? Caio Fernando Abreu, João Silvério Trevisan, Cassandra Rios?

Eta danado! Não conheço esse “Monstro”. Fiquei curioso, enfim. O bofe é bonito? Olha: eu não saberia dizer se há uma literatura homossexual brasileira. Tenho preguiça até de pensar. Sei que gosto deveras dos textos do Caio Fernando, do João Silvério. Do estilo da Cassandra. Admiro mesmo. Aproveito até para dizer que eu e o escritor Santiago Nazarian estamos organizando uma antologia chamada “Contos para Ler Fora do Armário”. Sai no ano que vem. Mas não é uma antologia de autores homossexuais. Reúne alguns contos com essa temática e só. Tem lá o Caio, o João Silvério, o Mário de Andrade, o Rubem Fonseca, o Marçal Aquino, o Paulo Henriques Brito... Inclusive, não teremos apenas contos no livro. Vão entrar ensaio, reportagem... E até fotos. Aguardem!
                         
Quais são as suas regras de sobrevivência dentro dessa competitividade acirrada no meio literário?

Escrever, escrever, escrever. Só temos essa arma: escrever, escrever, escrever.

Qual o papel da mídia hoje dentro do mercado literário nacional?

Não podemos nos descuidar dela. Aliás, creio que foi sempre assim: desde o Machado de Assis. Escrever e aparecer e publicar nos jornais e ser resenhado, creio. O fato é que hoje a disputa é maior. Não sejamos inocentes. Uma vez a Rosa Montero, escritora espanhola, falou que antes ela escrevia porque não sabia falar. Hoje ela disse que precisa falar para continuar escrevendo. O escritor virou uma estrela popular, de alguma forma. Além de escrever, ele precisa falar, viajar, divulgar o seu rebento. Não vejo mal nisso. Desde que o peixe não seja podre, o negócio é gritar. Sempre foi assim. No gogó. É preciso dizer, ressaltar: escritor não é santo. Nunca foi. Luto contra isso: essa imagem solene do escritor. É preciso descer do pedestal. Enfim. E ir à briga. Movimente-se!

O que espera do I Encontro Natalense de Escritores?

Tomar muita cerveja. E rever o meu irmão, que mora por aí. E estender a discussão. E ser feliz. Apesar de tudo, e da literatura: ser feliz. É isso. Valeu e abração.

marcelino freire


setembro 23, 2018

.......................................... FRAGMENTOS de NEUZAMARIA KERNER


  
“A poesia é um ato de paz. A paz entra dentro da composição de um poeta tal como a farinha entra na composição do pão.”
PABLO NERUDA
(Parral, Chile. 1904 - 1973)

Ilustrações:
SUZANNE VALADON
(Bessines-sur-Gartempe, França. 1865 - 1938)


ANTONIO NAHUD entrevista NEUZAMARIA KERNER para o jornal literário “ABXZ - Caminho das Letras”. Itabuna, Bahia, 2007.


“A POESIA é a FOTOGRAFIA da MINHA EXISTÊNCIA”

Os anos vividos em Ilhéus marcaram a baiana NEUZAMARIA KERNER. Nas terras do sem fim, deixou-se ser seduzida pelo perfume da Mata Atlântica, conheceu escritores e lançou dois livros de poemas, “Fragmentos de Cristal” (1993) e “Eu Bebi a Lua” (1995), tornando-se imortal na Academia de Letras de Ilhéus. Fulgurante, senhora de enormes olhos verdes e simpatia contagiante, ela ensinou em vários colégios, participou de recitais, fez teatro com o lendário Pedro Mattos e teve participações importantes no PROLER e Alfabetização Solidária / UESC.

Seus versos delicados cantam a natureza, os sentimentos próprios da alma humana, as belezas e as agruras da nação grapiúna. Foram celebrados por Affonso Romano de Sant’Anna. Morando em Vitória (ES) e com livro pronto para ser lançado, “Eva: Dentro e Fora do Jardim”, a poeta passou alguns dias no Sul da Bahia. Aproveitei para entrevistá-la. Um papo inesquecível. Confira.

Como foi que abraçou a literatura?

Nasci com a arte pulsando como o meu coração. A descoberta não acontece de um momento para o outro, assim, num estalo. Desde que tive consciência de mim, como ser vivente neste mundo, tinha a sensação de que meus olhos haviam sido preparados para ver alguma coisa diferente que nem todos viam, pelo menos os da minha idade. Engraçado é lembrar que os adultos com os quais convivi na infância e adolescência me achavam estranha e eu nem sabia o que era ser estranha. Hoje eu acho que eles é que eram estranhos. Era algo incomodativo olhar pro outro e não senti-lo pensando, observando o que brotava à nossa volta. Eu lia muito, por isso pensava... e pensar diferente da sua tribo gera uma certa angústia, uma sensação de não pertencimento àquele lugar... interessante é que eu era amada e bem acolhida.


Alguém escrevia na sua família? Havia incentivo literário em casa?

Somente algumas cartas raras a parentes distantes. No entanto meu pai era um autodidata, lia pra caramba. Mas não era aquele leitor sisudo, antipático... ele gostava de literatura de cordel e o cordel, mesmo sendo engraçado, fala de coisas muito sérias. Eu continuo apaixonada pela peleja do Cego Aderaldo e o Zé Pretinho! Ele me levava sempre pra ver os repentistas e violeiros na Praça Cairu, no Terreiro de Jesus e na Praça da Sé, em Salvador. Havia também as poesias de Castro Alves que ele me ensinava a declamar. Nossa! Que lembrança boa foi conhecer os versos de Omar Khayyam, aquele da Pérsia, quando eu só tinha 11 anos de idade. Bom, talvez isso tenha sido o meu incentivo, fora as histórias de Sherazade, as histórias de assombração, a inventividade do povo. Entrei naquele universo e não saí mais.

Como despertou para o imaginário poético?

Pois é, amado, acho que um dia dormi e quando despertei estava dentro desse universo que descrevi na pergunta anterior. É bom permanecer dentro dele... a gente fica meio que protegido. Acho que é por isso que sempre arrisquei registrar o que pensava, do jeito que fosse.


E o primeiro livro? Como aconteceu o processo criativo? Tardou muitos anos para finalizá-lo?

O primeiro livro, putz! É como a história do primeiro sutiã, o susto da primeira menstruação... Foi um ato de coragem! Escrevi muito, rasguei muito, toquei fogo em tudo – eu sempre fui fogosa... não gostava do que escrevia, tocava fogo. Por causa dessa mania demorei muito a publicar, também tinha o medo do julgamento, a questão da falta de grana. Encontrei muita gente bacana que me ajudou, principalmente em Ilhéus e em Itabuna. Lembro do conto “Natal na Barca”, de Lygia Fagundes Telles. Quando li o conto, chorei tanto e saí dele me sentindo medíocre. Outra fogueira, mas a última!

Houve algum poeta que a tocou profundamente na época dos primeiros poemas? Alguma influência?

Todos os poetas me tocaram profundamente, mas nenhum deles foi meu ginecologista... desculpe a irreverência. Bom, houve a forma dos repentistas; a angústia, a perplexidade, o questionamento existencial de Khayyam; os versos de Cecília. Eu creio que quem escreve recebe influência de tudo o que lê, de tudo o que ouve e de tudo o que sente.


Nasceu em Salvador. Nos tempos soteropolitanos tinha convivência artística?

Sim. Só o fato de estar vivendo já é ser artista. Você conhece bem a efervescência da cultura baiana: teatro de rua, batuques, violas... não sei se eu tinha a vivência que se fala hoje, mas estava ligada, atenta. No entanto, quero dizer que viver em Ilhéus foi um marco importante na minha vida como poeta, porque aqui eu ganhei a coragem de mostrar meu texto, me expor.

E a experiência como educadora? Foi uma escolha lúcida?

Sabe, outro dia fiz uma brincadeira comigo mesma: escrevi várias profissões num papel; aí fui me colocando nelas... não sei se não as acolhi ou elas não me acolheram. Porém houve uma que gritava desesperadamente para mim: olhe, eu estou aqui! Adivinhe qual a profissão? Nem precisa dizer, né? Foi, sim, uma escolha lúcida porque nós nos escolhemos. Nunca pude imaginar o mundo com pessoas sem saber ler. Ler no sentido pleno da palavra. É muito bom trabalhar como professora porque, para mim, é a única profissão que possibilita aprender enquanto ensina. É uma troca maravilhosa. Na verdade eu sou parceira dos meus alunos.


O que pensa do vácuo entre um livro e outro? Qual o sentimento neste espaço de tempo?

No vácuo há o caos e eu no meio dele tentando me ordenar – nunca consigo! É quando percebo que a angústia vomitada não acabou, vem gerando outra. Sempre parindo angústias... uma sensação de estranhamento do eu comigo, uma luta infernal. Veja o poema “Ouvindo”, inédito – para o próximo livro que já deveria estar caminhando por aí. Eu estou sempre na beira de mim. Deve ser coisa de doido! No fundo não consigo me desmelancolizar. É assim!

Conte um pouco sobre a temporada grapiúna. Envolveu-se com os escritores locais?

Minha temporada grapiúna foi muito rica. Fazia teatro - saudade de Pedro Matos-, cantava em coral, sempre envolvida com o povo da Casa dos Artistas, trocava idéias com os escritores da região e do mundo... foi um período de expansão. Conviver com você, Antonio Nahud, com Hélio Pólvora, com Cyro de Matos, Sá Barreto, Jorge Amado, Jorge Medauar, Janete Badaró, Baísa Nora, George Pellegrini, Valdelice Pinheiro, Maria Luiza Heine, Ramayana Vargens, Dorival de Freitas, Francolino, Ruy Póvoas... Vou parar de falar nomes. Foi tanta gente boa que nem cabe no maior pergaminho do mundo. Aprendi muito!


Como traduz a literatura do sul da Bahia?

Como a voz de um povo que marca a sua presença na história da literatura universal. Se eu fosse falar sobre esse assunto agora, viraria uma tese.

Os seus livros tiveram a repercussão merecida?

O que é mesmo repercussão? Se o que eu escrevi e meus amigos leram, e me cobram sempre novos livros, então digo que a repercussão foi astronômica.


O que anda escrevendo?

Um monte de coisas... estou sempre escrevendo. Fora os projetos de trabalho, as aulas na Estácio de Sá em Vitória pra sobreviver, estou arrumando os poemas para o meu novo livro, “Evas: Dentro e Fora do Jardim”. Acho que o título vai ser esse mesmo.

Como está sendo a vivência na Academia de Letras de Ilhéus?

O tempo de aprender com os mestres. Pertencer a uma Academia é como pertencer a uma tribo e muita gente pensa que é o lugar dos vaidosos, mas não é bem assim – não vamos rotular nem exagerar. Olhe, amado, estar na ALI é uma experiência indizível. Você sabe aquela coisa da honra? Numa Academia de Letras se vive o ritual da iniciação todos os dias.

O que seria de Neuzamaria Kerner sem poesia?

Uma pessoa na prisão, um passarinho sem asas, um estômago trovoando por um prato de comida, um mundo sem cachoeiras... A poesia é o elo entre mim e a vida. É a fotografia da minha existência. Sem ela sou o desgarramento cósmico absoluto. Vixe, dessa vez fui longe demais!


DOIS POEMAS de NEUZAMARIA

OUVINDO...

Ouço a chegada
de quem nunca chega.
Ouço a voz de quem
comigo não fala.
Ouço o passado se afastando
e me deixando só
cada vez mais.

Eu na beira dos olhos - águo
Eu na beira da boca - engasgo
Eu na beira da terra  - broto
Eu na beira do Eu...
silencio.


O LADO BOM DO PASSADO (1)

As cachoeiras tombavam
riam do nosso riso
zombavam dos nossos tombos
e tudo era festa.

Não se sabia o que éramos...
talvez crianças na adultidade

(n ã o i m p o r t a  a g o r a).

Efervescíamos!...

Como adolescentes traquinos
éramos o que críamos
e tudo era real:
pilotos-passageiros dos instantes
onde felizes nos permanecemos
presentes na vida.

 
 


agosto 26, 2018

............................... NA PONTA da LÍNGUA: LINHAS TORTAS


  
Quem não lê não pensa, e quem não pensa será para sempre um servo. 
PAULO FRANCIS
(Rio de Janeiro, RJ. 1930 – 1997)

Ilustrações:
LOUIS JANMOT
(Lyon, França. 1814 - 1892)


PARTE 1

Há muito se alerta sobre o empobrecimento da linguagem nos meios de comunicação. Seminários e encontros, no exterior e no Brasil, debatem sobre a responsabilidade dos jornalistas como modelo do uso da língua. Assim como certamente muitos outros, orgulho-me de ter aprendido a ler com o convívio diário de jornais e revistas apresentados por meu pai, um ávido e versátil leitor. A ler ensinaram-me na escola, óbvio; ao que me refiro é a compreender e deleitar-me com a leitura. Hoje sei que o constante passar de olhos na “Ilustrada” e no “Folhetim”, da “Folha de S. Paulo”, tornou-me jornalista, muito antes de militar na área. Recortava, guardava numa pasta, lia e relia Sérgio Augusto, Pepe Escobar, Matinas Suzuki Jr., Otto Lara Rezende, Luís Antônio Giron, Mário Sérgio Conti e – naturalmente – o mestre Paulo Francis. Textos elegantes, aprofundados; análises inquietantes que me ajudavam, efetivamente, a tomar decisões. Terminei por acreditar que o jornalista tem uma complexa responsabilidade. Sem pretendê-lo, converte-se em referência linguística para gente da sociedade informada. Afinal, quem resiste a uma matéria inteligente e bem escrita?

O verbo é o rei, analógico ou virtual, pois dele nasce o pensamento. É de domínio público que o excesso de informação superficial é a maneira moderna de estar desinformado. Somente driblando os mutáveis truques dos meios de comunicação para não ser ludibriado pelas miragens marqueteiras. Nesse contexto, o jornalista deve refletir sobre sua responsabilidade no uso da informação e do idioma. A clareza da linguagem garante a clareza da informação. O profissional que cuida das palavras – evitando acumular redundâncias e pleonasmos ou flerte com palavras de outras línguas - geralmente é cuidadoso com a informação. É difícil encantar o leitor se não conhecemos e louvamos as palavras que utilizamos. Um jornalista que não tem um bom conhecimento do seu idioma e não faz um uso exemplar dele, deve mudar de profissão, evitando assim a exposição pública da mediocridade. Não há como se enganar: a credibilidade e o prestígio de um jornal são inseparáveis da qualidade e respeito pela língua.

PARTE 2

Existem tendências atuais que, de certa maneira, descuidam e prejudicam o uso do idioma: o virtual, a globalização e a vulgarização da linguagem em programas de rádio e televisão. O predomínio do audiovisual gerou leitores com insuficiente capacidade intelectual. A palavra tosca se espalha como um vírus devastador, com ofertas e descontos, crescendo a cada dia o desprestígio da linguagem nos meios de comunicação. Para combater essa banalização democrática se necessita de elegância, rigor, relevância. Como recomendou Gay Talese, um dos fundadores do New Journalism, “o jornalista precisa descrever a realidade com o cuidado e o talento de quem escreve um romance”. A notícia se fortalece quando escrita como ficção; pronta para ser lida com prazer. Lembremos, sempre, que a tarefa do jornalismo classudo é narrar para o cidadão, da melhor maneira, o que ele não saberia de outro jeito. Simples assim.

Sabe-se que é cada vez mais frequente a fusão entre informação, opinião e propaganda. Vem dos interesses econômicos e políticos dos grupos de comunicação. Isso atrapalha o leitor, que muitas vezes não sabe se está lendo um informe verídico ou publicitário. Desta forma, a notícia se converteu em uma mercadoria vendável, muitas vezes sem rumo ou prumo, descartável, ou ainda pior, nociva e corrupta. E como perguntar não ofende, por que se permite que assessores de políticos ou empresas colaborem diretamente com a mídia? A imprensa hoje, mais do que em qualquer época, esta sendo pautada pelas informações vindas dos gabinetes do poder, sem qualquer verificação da veracidade. Cada declaração oportunista de políticos notórios é reproduzida por jornais, canais de televisões, emissoras de rádio, sites e blogs, sem, contudo, representar algo de novo ou substancial. O leitor está se cansando do denuncismo mediático. Sobram acusações, mas faltam análises das denúncias, deixando de respeitar os reflexos dos fatos, o compromisso com a verdade, a independência, a integridade.

PARTE 3

Os jornais impressos perdem leitores em todo o mundo. Prisioneiros das regras ditadas pelo marketing estão parecidos, previsíveis e, consequentemente, enfadonhos. Não desnudam o que o ganancioso comercial esconde. O leitor quer algo mais, enfastiou-se do insosso. Menos história oficial e mais consistência. Pede realismo, ética, qualidade e um bom uso da linguagem. No fundo, ele sabe que nada, nada mesmo, supera a qualidade do conteúdo. Somente um produto consistente tem a marca da permanência. Somente um jornalismo inteligente e digno seduz verdadeiramente. Qualidade editorial e credibilidade são, em todo lugar, a única fórmula para atrair novos leitores e anunciantes. Noutra estratégia, o jornalismo deixa de ser relevante. Ainda assim, mesmo com pedras no caminho, acredito que o jornalismo de qualidade continuará existindo, embora esse somente possa ser produzido por profissionais tarimbados, independentes e dedicados que escrevam tão bem quanto romancistas.

2010
Publicado na revista Profashional (SP).

SETE VEZES LOUIS JANMOT