janeiro 15, 2021

........................................ JORGE AMADO: um CORAÇÃO SIMPLES




Houve uma época em que fui severo em relação ao contador de histórias JORGE AMADO (1912 – 2001. Itabuna, Bahia), trocando-o principalmente por escritores que faziam da linguagem uma prática experimental. Não passou de tolices da busca pessoal de um escritor. Eu ignorava a escrita simples e sem pretensão traduzida em quase todas as línguas e ocupando lugar significativo no universo literário contemporâneo. Hoje em dia costumo ter longas e genuínas conversas sobre a beleza da sua literatura. Recentemente, assistindo a um documentário de 1995 de João Moreira Salles, sobre a vida do autor de “Dona Flor e seus Dois Maridos” (1966), comoveu-me o seu jeito despojado, reafirmando o país cordial e mestiço: fita do Senhor do Bonfim no pulso, camisa semiaberta, crítica às leis arcaicas, políticos e a falta de memória dos brasileiros.

 

No poético documentário, JORGE AMADO defende o caráter popular da revolução de 30 de Getúlio Vargas, fala das “excrescências” comunistas na primeira fase da sua obra, define ideologia como “uma merda” e reafirma sua luta por uma sociedade sem racismo e injustiça social. Talvez ele seja o nosso romancista mais popular, aqui e no exterior. Sua narrativa elabora uma visão da nacionalidade que tem lastro e que se popularizou enormemente através das adaptações para a televisão. Eu o entrevistei duas vezes: a primeira na sua encantadora casa do Rio Vermelho, em Salvador; e anos depois no Cassino do Estoril, em Portugal. Diante de mim, um homem simples e gentil, sem a vaidade besta da maioria dos escritores.


Nas entrevistas, revelou-se um escritor na linha de Gilberto Freyre, orgulhando-se do Brasil sincrético e resgatando com carinho a simbiose entre o coronel e o jagunço. Saudou a heterodoxia da mistura de raças, religiões e culturas. Defendeu a colonização portuguesa, supostamente menos violenta que a espanhola. Eu o descobri aos onze ou doze anos. Papai tinha na biblioteca a sua obra completa. No entanto, era leitura proibida para menores. Enfrentei a censura, exigindo argumentos sólidos que me impedissem de ler a tal coleção de capa vermelha. Ele argumentou tratar-se de literatura de putas e vagabundos, na minha idade deveria me conformar com José de Alencar.

 

Na calada da noite, às escondidas, entreguei-me ao deleite de conhecer o tal universo profano do nosso Honoré de Balzac, impressionando-me com “Mar Morto” (1936), “Terras do Sem Fim” (1943), “Gabriela, Cravo e Canela” (1958) e “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água” (1959). Constatei o romantismo e a sensualidade de sua criação, permeada pelo realismo, a proeminência das personagens de extratos sociais miseráveis, o bom humor e o patriotismo. O que essa literatura perde em rigor ganha em vitalidade e fantasia. Massacrado pela crítica, a história literária do escritor baiano foi marcada por poucas e boas. “Capitães da Areia” (1937) foi queimado em praça pública, retornando às livrarias apenas no final da ditadura Vargas, em 1944. Considerados subversivos, também foram queimados em Salvador 1694 exemplares de “O País do Carnaval” (1931), “Cacau” (1933), “Suor” (1934), “Jubiabá” (1935), “Mar Morto” e “Capitães da Areia”.

 

O famoso “Gabriela, Cravo e Canela” (1958), cujo cenário é a região cacaueira do Sul da Bahia, provocou a ira dos ilheenses que passaram a tratar o seu autor como persona non grata. A situação nefasta só mudaria com o sucesso explosivo da telenovela “Gabriela”, em 1975, e a vantagem turística vindo dela. Além disso, foram freqüentes as afirmações de que não era um bom escritor, que explorava o exotismo da Bahia para alavancar a venda dos seus livros e que a sua trajetória apresentava contradições. Ainda assim, não conseguiram sufocar o enorme talento do mestre grapiúna, que revelou ao mundo a Mata Atlântica, o perfume do cacau, as ruas do Pelourinho, os terreiros de candomblé, jagunços, coronéis, Vadinho, marinheiros, boêmios, poetas cachaceiros, Pedro Archanjo, mães-de-santo e uma irresistível galeria de ardentes demônios femininos: Gabriela, Malvina, Glória, Maria Machadão, Teresa Batista, D. Flor, Tieta e tantas outras.

Nascido em 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, em Ferradas, distrito de Itabuna, Bahia, desde sua infância JORGE AMADO conhecia a disputa sangrenta pelas terras dos frutos de ouro, ou seja, o cacau. Mudou-se para Salvador, conhecendo os estivadores do porto, prostitutas e menores abandonados, entre outros marginalizados. Escritor da Geração de 30, ao lado dos também nordestinos Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos e José Lins do Rego, enveredou como esses por uma narrativa de cunho social, retratando as injustiças sociais. A obra amadiana alia o lirismo à crítica social, caracterizando-se pela simplicidade da linguagem e pelo tom coloquial e popular, de fácil comunicação com o público. Em sua obra, encontramos a perseguição aos terreiros de candomblés, meninos de rua lutando pela sobrevivência, mulheres vítimas da sociedade machista, o negro discriminado e a desonestidade das classes dominantes.

 

A escritora Zélia Gattai, de visível delicadeza no corpo miúdo e nos olhos cintilantes, foi sua segunda esposa e companheira por quase 50 anos. Era um relacionamento cúmplice, bonito. Amigo de Pierre Verger, Antonio Carlos Magalhães, Carybé e João Ubaldo Ribeiro, entre outros, o escritor parecia não se dar conta da sua fama e importância. Generoso, respondia cartas de leitores. Em 1993, recebi uma singela carta sua saudando o meu livro de estreia, “O Aprendiz do Amor”. Por tudo isso - vida e obra tão especiais -, jamais deve ser esquecido. Eu soube da sua morte em Barcelona, através do jornal “El País”, e imediatamente me veio à mente uma frase do português José Saramago: “Uma torre dessas não cai assim”. Com JORGE AMADO se foi uma época gloriosa da nossa literatura, restando raros escritores robustos e escassos leitores densos.

 

Está mais do que evidente que a literatura brasileira vai mal das pernas. Vivemos numa época de mentalidades xucras. Portanto, reler o escritor baiano faz bem. Não é por mero acaso que ele vendeu mais de 20 milhões de exemplares dos seus livros num país onde pouco se lê. Ele é indiscutivelmente um dos nomes mais importantes da nossa literatura. Salve, Jorge!


TODA a OBRA de JORGE AMADO

LENITA (em parceria com Dias da Costa e Edison Carneiro) (1929);

O PAÍS do CARNAVAL (1931);

CACAU (1933);

DESCOBERTA do MUNDO (em parceria com MATILDE GARCIA ROSA) (1933);

SUOR (1934);

JUBIABÁ (1935);

MAR MORTO (1936);

CAPITÃES de AREIA (1937);

A ESTRADA do MAR (1938);

ABC de CASTRO ALVES (1941);

A VIDA de LUÍS CARLOS PRESTES (O CAVALEIRO da ESPERANÇA) (1942);

TERRAS do SEM FIM (1943);

SÃO JORGE dos ILHÉUS (1944);

BAHIA de TODOS OS SANTOS: GUIA de RUAS e de MISTÉRIOS (1945);

SEARA VERMELHA (1946);

HOMENS e COISAS do PARTIDO COMUNISTA (1946);

O AMOR do SOLDADO (1947);

O GATO MALHADO e a ANDORINHA SINHÁ: uma HISTÓRIA de AMOR (1948);

O MUNDO da PAZ (1950);

Os SUBTERRÂNEOS da LIBERDADE (V. 1: Os ÁSPEROS TEMPOS; V. 2: AGONIA da NOITE; V. 3: A LUZ no TÚNEL) (1954);

GABRIELA, CRAVO e CANELA: CRÔNICA de uma CIDADE do INTERIOR (1958);

A MORTE e a MORTE de QUINCAS BERRO D’ÁGUA (1959);

Os VELHOS MARINHEIROS ou a COMPLETA VERDADE SOBRE as DISCUTIDAS AVENTURAS do COMANDANTE VASCO MOSCOSO DE ARAGÃO, CAPITÃO de LONGO CURSO (1961);

Os PASTORES da NOITE (1964);

DONA FLOR e seus DOIS MARIDOS: ESOTÉRICA e COMOVENTE HISTÓRIA VIVIDA por DONA FLOR, EMÉRITA PROFESSORA de ARTE CULINÁRIA, e seus DOIS MARIDOS - o PRIMEIRO, VADINHO de APELIDO; de NOME TEODORO MADUREIRA e FARMACÊUTICO o SEGUNDO ou a ESPANTOSA BATALHA ENTRE o ESPÍRITO e a MATÉRIA (1966);

TENDA dos MILAGRES (1969);

TEREZA BATISTA CANSADA de GUERRA (1972);

TIETA do AGRESTE: PASTORA de CABRAS ou a VOLTA da FILHA PRÓDIGA, MELODRAMÁTICO FOLHETIM em CINCO SENSACIONAIS EPISÓDIOS e COMOVENTE EPÍLOGO: EMOÇÃO e SUSPENSE! (1977);

FARDA FARDÃO CAMISOLA de DORMIR: FÁBULA para ACENDER uma ESPERANÇA (1979);

O MENINO GRAPIÚNA (1981);

TOCAIA GRANDE – A FACE OBSCURA (1984);

A BOLA e o GOLEIRO (1984);

O CAPETA CARYBÉ (1986);

O SUMIÇO da SANTA: uma HISTÓRIA de FEITIÇARIA (1988);

NAVEGAÇÃO de CABOTAGEM: APONTAMENTOS para um LIVRO de MEMÓRIAS que JAMAIS ESCREVEREI (1992);

A DESCOBERTA da AMÉRICA pelos TURCOS ou de como o ÁRABE JAMIL BICHARA, DESBRAVADOR de FLORESTAS, de VISITA à CIDADE de ITABUNA, para dar ABASTO ao CORPO, ali lhe OFERECERAM FORTUNA e CASAMENTO ou AINDA os ESPONSAIS de ADMA (1994);

Os COMPADRES de OGUM (1995);

O MILAGRE dos PÁSSAROS, FÁBULA (1997)

HORA da GUERRA, CRÔNICAS (2008)

carybé

dezembro 21, 2020

.............................................. MOÇA com BRINCO de PÉROLA



APRESENTAÇÃO de ANTONIO NAHUD
Para o livro de DIOGENES da CUNHA LIMA


Escrever não é uma tarefa simples. Cada palavra, quando bem usada, tem um forte impacto no leitor, ou, caso não seja necessária no contexto, pode passar despercebida ou até causar uma má compreensão. Escrever um livro ou conto é ainda mais complexo. Agora, imagine escrever algo minimamente robusto em apenas poucas linhas. Tal feito parece possível? É o que propõe este delicioso livro do escritor Diogenes da Cunha Lima.

Mas o que poderia causar um efeito iluminado em textos tão curtos? Talvez o mecanismo da fórmula voltada para o efeito, na qual todas as circunstâncias servem para provocar impacto literário. A meu ver, apesar da brevidade, os microcontos em questão conseguem criar um efeito deleitoso. Comovem, divertem, encantam. Lembram-me um microconto admirável do tcheco Franz Kafka: “Uma gaiola saiu à procura de um pássaro.”

O microconto ganhou um grande número de adeptos nos últimos anos. A partir dos anos 1990, antologias começaram a abordá-lo de forma enfática, resultando em publicações em todo o mundo. No entanto, não é uma manifestação literária recente. Grandes nomes da literatura como Anton Tchekhov, Leon Tolstói, Jorge Luis Borges e Julio Cortázar já incursionaram pelo tema. O escritor guatemalteco Augusto Monterroso é tido como um dos fundadores do “gênero” com o conto “O Dinossauro”, escrito com apenas trinta e sete letras: “Quando acordou o dinossauro ainda estava lá.”. Ele é citado por Ítalo Calvino em seu genial “Seis Propostas para o Próximo Milênio”, no capítulo em que fala sobre a importância da rapidez na literatura. No Brasil, o pioneiro em microconto foi Dalton Trevisan, com o livro “Ah, é?”, de 1994. Dele, recordo: “A velha insônia tossiu três da manhã.”. Minha amiga Lygia Fagundes Telles também arriscou-se escrevendo em tão poucas palavras: “Fui me confessar ao mar. O que ele disse? Nada.”

Enfim, microconto é criação bastante precisa, que procura o poder de síntese, concisão, e mesmo “ação”, no sentido dramático. Ele recorta um fragmento da imaginação do autor e faz com que este fragmento ofereça uma espécie de explosão que transcenda, rompa os limites do texto. Acredito, falando aqui dos microcontos de Diogenes da Cunha Lima, que eles cumprem muito bem a proposta contida na historieta do dinossauro de Monterroso e se mostram como soluções felizes, de impacto.

Termino ressaltando a importância de livros que apresentem um gênero híbrido, que contribuam para borrar as fronteiras do tradicional, como é o caso deste. Por vezes, ao lê-lo, perguntei-me: “Esses microcontos aqui apresentados são contos ou poemas?” Claro que não cabe responder. Prefiro deixar ecoando o pensamento de Cortázar, para quem o conto é um gênero de dificílima definição, gênero enfim “tão secreto e dobrado sobre si mesmo, caracol da linguagem, irmão misterioso da poesia em outra dimensão do tempo literário.”.


dezembro 06, 2020

....................... EL BRUJO e a TRIPLE A CONTRA o COMUNISMO

o enterro de um comunista

Datas das operações: 1973 - 1976
Área de atividade: Argentina
Ideologia: direita


A primeira vez que ouvi falar na TRIPLE A foi em um filme policial francês protagonizado por Alain Delon. Curioso, pesquisei, li livros e artigos, vi documentários, sempre descartando o esquerdismo tendencioso de jornalistas e historiadores. Aqui conto um pouco sobre a história desta organização paramilitar de direita. Conhecida como TRIPLE A ou AAA, a ALIANÇA ANTICOMUNISTA ARGENTINA esteve em atividade entre 1973 e 1976 e tinha como objetivo caçar comunistas, a fim de combater a ameaça da ideologia marxista no continente latino-americano. Agia inicialmente na clandestinidade, realizando explosão de bombas, sequestros, ameaças e execuções à queima-roupa. Embora na época sua liderança fosse negada, sabe-se que o ocultista José López Rega (1916 - 1989. Buenos Aires / Argentina) foi o seu criador e coordenador. Ele a subsidiou com recursos públicos e a formou com policiais, agentes militares dispensados das Forças Armadas e mercenários.

Denominado “El Brujo” pela mídia argentina, López Rega teve uma curiosa trajetória: ingressou como agente da Polícia Federal em 1943 e se retirou como sargento em 1962. Em 1965, em um congresso de esoterismo, conheceu María Estela Martínez de Perón (1931. La Rioja / Argentina), terceira esposa do ex-presidente Juan Domingo Perón (1895 – 1974. Lobos / Argentina). Encantada com as habilidades do mago, a ex-dançarina de cabaré decidiu levá-lo para conhecer seu marido que estava exilado em Madri. E assim, ele tornou-se seu secretário particular. Com o apoio de Isabelita, sobre a qual exerceu uma influência extraordinária baseada em uma devoção espiritualista compartilhada, terminou por interferir na política peronista. Em 1974, foi designado comissário por decreto presidencial e, mais adiante, ministro da Previdência Social. Unindo o Movimento Nova Argentina (MNA), a Juventude Federal do peronista Manuel de Anchorena, o CNU, quadros técnicos da Guarda de Ferro e grupos sindicais ortodoxos, a TRIPLE A começou suas ações em 21 de novembro de 1973, em retaliação ao assassinato cometido pelo movimento comunista guerrilheiro Montoneros. Num armazém, no porão do Ministério comandado por López Rega, escondia-se as armas, reforçadas após Manuel de Anchorena (1933 – 2005. Buenos Aires / Argentina) ser nomeado embaixador no Reino Unido. Daquele país, ele enviou centenas de submetralhadoras Sten MKII e Sterling.

el brujo e isabelita

Entre os elementos a serem executados pela TRIPLE A, os membros de organizações armadas até grupos de simpatizantes socialistas: Partido Comunista, Montoneros, Partido Peronista Autêntico, Exército Revolucionário do Povo, Partido Operário Revolucionário, Partido Socialista dos Trabalhadores, Juventude Radical Revolucionária e Partido Comunista Revolucionário. De acordo com um relatório do CONADEP de 1983, a AAA foi responsável por 900 desaparecimentos e executou entre 1,5 a 2 mil opositores, incluindo políticos, juízes, jornalistas, sindicalistas, intelectuais, artistas e ativistas de esquerda. 

López Rega e o comissário-geral da Polícia Federal, Alberto Villar (morreu em 1974), fundaram a TRIPLE A durante o governo interino de Raúl Lastiri (1915 – 1978. Buenos Aires / Argentina), em 1973. Nos nove meses de governo do general Perón, o presidente assinou um Documento Reservado que falava do “estado de guerra no país” e da necessidade de atacar ao inimigo marxista em todas as frentes, reforçando assim a organização. Após a morte de Perón, em 1º de julho de 1974, ela passou a agir abertamente e a publicar listas de comunistas que pretendia dar fim, resultando na debandada de muitos. Entre eles, o cientista Manuel Sadosky, o ator Héctor Alterio e a cantora Mercedes Sosa.

A TRIPLE A organizava-se como um sistema de células. Sendo assim, um determinado grupo não sabia o que o outro ia fazer. Era dirigida por um órgão nacional, que contava com um corpo de executores e as seções de inteligência, justiça e operações. Este organograma foi repetido regionalmente. No início, havia apenas células de pessoas vinculadas ao Ministério da Previdência Social, sob o comando dos tenentes Rodolfo Eduardo Almirón (1936 – 2009. Buenos Aires / Argentina) e Alberto Villar. Posteriormente, multiplicaram-se, sendo comandadas por militares, policiais e agentes da inteligência.

juan domingo perón

Ao mesmo tempo, novas organizações foram criadas em localidades distantes de Buenos Aires, sempre sob o comando de “El Brujo”. Por exemplo, em Córdoba foi criado o Comando Libertadores América. Também fez parceria com diversos grupos, garantindo-lhes proteção e logística em troca de lealdade. A forma de atuação da TRIPLE A variava de acordo com o objetivo do ataque e da célula encarregada do planejamento e execução. Em muitos casos, eram militantes de esquerda presos por um grupo com credencial policial e a seguir baleados. 

Em algumas situações, detentos encapuzados e algemados foram levados ao Ministério da Previdência Social, onde eram interrogados. Houve também eliminação de famílias inteiras como uma forma de lição. Explodir comunistas também era comum. Canais de televisão ocupados divulgavam as futuras execuções ou esclareciam certas mortes. O primeiro atentado da organização aconteceu em 21 de novembro de 1973, quando o senador radical Hipólito Solari Yrigoyen ficou ferido através de um carro-bomba. No mesmo mês, o governador Juan Manuel Irrazabal, seu vice, sua esposa e um motorista foram mortos numa rodovia.

el brujo e amigos

Em maio de 1974, o popular padre Carlos Mugica foi emboscado ao sair da igreja de San Francisco Solano, em Villa Luro, onde acabava de celebrar a missa. Rodolfo Almirón disparou com uma submetralhadora no abdômen e no peito do religioso comunista, o que causou sua morte. Rodolfo Ortega Peña e sua esposa foram executados a tiros em 31 de julho. Atiraram neles quando estavam saindo de um táxi. O deputado tinha 38 anos. Em agosto, quatro peronistas foram sequestrados e baleados em La Plata: o suboficial Ireneo Chavéz e seu filho Rolando Chavéz; Luis Mancor, estudante de jornalismo, e o chefe do Sindicato dos Petroleiros, Carlos Pierini.

Em 7 de setembro, foi invadida a casa do reitor da Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires, Raúl Laguzzi, sob custódia da Polícia Federal devido às ameaças de morte sofridas pelo reitor. Pablo G. Laguzzi, filho de Raúl, de cinco meses, morreu no conflito. A TRIPLE A culpou o pai pelo falecimento do bebê. O casal Laguzzi exilou-se no México após o atentado. Ainda em setembro, o advogado Alfredo Alberto Curutchet, apelidado de El Cuqui, foi sequestrado. Seu corpo sem vida foi encontrado em uma rua do município de Béccar. Ao lado dele, trinta e uma cápsulas calibre 9mm espalhadas. O subchefe de polícia Julio Troxler foi morto ao meio-dia de 20 de setembro de 1974, fulminado por uma rajada de metralhadora. O advogado Silvio Frondizi, irmão do ex-presidente Arturo Frondizi, foi levado de sua casa em 27 de setembro. Seu genro, Luis Ángel Mendiburu, tentou resgatá-lo, mas foi crivado de balas. Apenas três horas depois, o corpo sem vida de Frondizi foi encontrado, e a TRIPLE A reivindicou sua morte, justificando-a como uma execução de um traidor bolchevique.

Em 15 de novembro, Marta Adelina Zamaro e Nilsa Urquía foram sequestradas pela Comissão Anticomunista da Costa (CAL), uma parceira da TRIPLE A. Seus corpos foram achados no dia seguinte com sinais de espancamento e afogamento. Durante o mesmo mês, bombas foram detonadas na sede da Juventude Peronista, contra o inspetor da Universidade Nacional e na Frente Antiimperialista pelo Socialismo (FAS) de San Fernando.

Em 21 de março de 1975, mais de uma dúzia de veículos bloquearam o tráfego, na área onde viviam ativistas comunistas, que foram sequestrados, baleados e depois dinamitados. O fato é conhecido como a Matança de Pasco. Em setembro, dois membros da AAA entraram na Universidade de Mar del Plata e atiraram nos alunos, matando Silvia Filler, que levou um tiro na testa. Em outubro, Carlos Manco, líder socialista, foi sequestrado e interrogado por dois dias e, em seguida, o seu cadáver foi largado em Ramos Mejía, um dia após uma bomba explodir na casa do advogado comunista Viaggio. Em dezembro, dez membros da Juventude Peronista foram estuprados, castrados e executados.

Em resumo, a Argentina vivia momentos políticos difíceis, dividida por lutas facciosas, envolta numa crise de autoridade, convivendo cotidianamente com a morte e com ações terroristas das organizações guerrilheiras socialistas. Em 19 de julho de 1975, descobriu-se, durante o desmantelamento do Ministério da Previdência Social, um arsenal de armas, incluindo metralhadoras, granadas e rifles de precisão. O escândalo implicou a “El Brujo”, assim como a presidente Isabelita, em acusações de corrupção por desvio de fundos do governo.

Quando o ministro da Economia Celestino Rodrigo, nomeado por López Rega, adotou em 1975 um plano de medidas neoliberais, a inflação disparou. A violenta reação popular levou à demissão de “El Brujo”. Depois de manifestações do povo, ele fugiu para a Espanha. Em março de 1986, entregou-se em Miami. Extraditado, passou por um longo processo de julgamento. Condenado à prisão perpétua, morreu no cárcere aos 73 anos em 1989.

O país estava mergulhado em um caos incontrolável. Em meio ao terror, com facções esquerdistas em luta com a direita, a polícia e as Forças Armadas, os militares tomaram o poder, alegando restaurar a ordem. Assim, em 24 de março de 1976 a junta de comandantes integrada pelo general Jorge Rafael Videla, o almirante Emílio Eduardo Massera e o brigadeiro Orlando Ramón Agosti, assumiu a Argentina, depondo a presidente Isabelita Perón e prendendo-a. Nos sete anos seguintes, pelo menos 30 mil pessoas morreram em um regime de repressão política, violência e censura. Sabe-se que ninguém é inocente nesta história. Nem líderes políticos, econômicos e religiosos, nem líderes da guerrilha que enviaram a morte a milhares de jovens que acreditavam no paraíso socialista. As atividades da TRIPLE A foram desmontadas após o golpe de Estado. Alguns dos integrantes passaram a trabalhar para os militares, outros mudaram para a Espanha ou tornaram-se treinadores de esquadrões na América Central e na Colômbia.

FONTES:
“Breve Historia del Peronismo Clássico” (2012), de Loris Zanatta;
“Os Intelectuais e a Invenção do Peronismo. Estudos de Antropologia Social e Cultural” (1996), de Federico Neiburg (1996);
“López Rega: El Peronismo y la Triple A”, de Marcelo Larraquy;
“Perón: Una Biografía” (2014), de Joseph A. Page.




novembro 14, 2020

................................... GUNNAR EKELÖF: SOLIDÃO e SONHOS



ILUSTRAÇÕES:
ALVIN LANGDON COBURN
(1882 – 1966. Boston, Massachusetts / EUA)

 

Considerado um dos maiores poetas suecos, GUNNAR EKELÖF (1907 – 1968. Estocolmo / Suécia) estudou línguas orientais em Londres e Upsala, e música em Paris. Participou nas revistas literárias “Spektrum” e “Karavan”.  Crítico literário em diversos jornais e revistas. Tradutor de Mallarmé, T. S. Eliot, Baudelaire, Rimbaud, Malraux. Ingressou na Academia sueca em 1958.

Lembrado como o primeiro poeta surrealista da Suécia, sua estreia literária se deu em 1932 com a antologia “Tarde na Terra”, escrita durante sua prolongada estadia em Paris nos dois anos anteriores. Autor de vasta obra, é amplamente lido entre os poetas modernistas escandinavos e é um clássico da poesia sueca.

Depois de uma fase inspirada pelo surrealismo francês, enveredou por uma via modernista, sofrendo mais tarde a influência da filosofia oriental. Na sua obra, destacam-se “Non Serviam” (1945) e a trilogia “Divã”, escrita na década de 1960 e reconhecida como seu legado poético máximo. Nela manifesta sua paixão pelo Oriente e se concentram seus temos favoritos: solidão, amor, morte e sonhos.

Segundo Marianne Sandels, o poeta GUNNAR EKELÖF “foi mestre na arte de descrever os sabores do Verão, a neblina que se ergue sobre os pequenos lagos à noite, os prazeres simples da vida rural, que lhe permitiam comungar com a Natureza. (...) Este amor pela paisagem sueca, embora simples e discreto, podia na verdade compensar a sua falta de entusiasmo pela «nova» sociedade sueca que então surgia”.


01
APOTEOSE 

dá-me veneno que me mate ou sonho de que viva
a asvese em breve parará nas portas da lua que o sol
abençoou
e já desligados do real os sonhos do morto
deixarão de queixar-se do destino.
 
pai a teu céu devolve os olhos como
uma gota azul no mar
o mundo negro já não se curva às palmas
e aos cânticos de salmos
mas ventos milenários penteiam o cabelo aberto das árvores
fontes aplacam a sede do viajante invisível
os quatro quadrantes do céu estão vazios em redor da essa
e a musselina dos anjos se transforma
por um toque de mágica
em nada.

02
CADA HOMEM é um MUNDO 

Cada homem é um mundo, habitado
por seres cegos em obscura rebelião
contra o rei eu que nos governa.
Em cada alma há mil almas prisioneiras,
em cada mundo há mil mundos soterrados
e esses mundos cegos, subterrâneos
são vivos e verdadeiros, ainda que imperfeitos,
tão certos como eu sou real. E nós, reis
e príncipes dos mil possíveis que há em nós,
somos ao mesmo tempo servos, prisioneiros
de algum ser maior, cujo ser e essência
compreendemos tão pouco como o nosso superior
ao seu superior. Da sua morte e do seu amor
se tingiram os nossos próprios sentimentos.
 
Como quando um enorme navio passa
ao longe, sob o horizonte, onde o mar é
o espelho de entardecer.  – E não sabemos dele
até que chega o seu ondular à praia,
uma onda primeiro, depois outras e muitas mais
que rebentam num murmúrio até que tudo fica
como antes. – No entanto, tudo é diferente.
 
Assim somos nós, sombras, presas de uma estranha inquietação
quando algo nos diz que viajamos,
que algum dos possíveis foi libertado.

03
CONSIDERAMOS, PENSAMOS, SUSPIRAMOS, FALAMOS

Não posso contemplar os países meridionais
sem ver também o burro, o boi e a ovelha
as galinhas presas pelas patas em molhe, abandonadas
em ambos os lados da grelha da motocicleta
com as cabeças para baixo, paralisadas, cacarejando debilmente
o cordeiro com a carcaça aberta e depois cosido
com o espeto metido pelo cu e a dolente cabeça esfolada
sobre o carvão
e com os intestinos, kokorétsi, numa grelha próxima
o branco e manso boi sob o jugo, emparelhado com uma vaca
praticamente infinitos na Toscânia
ao asno gritando como uma porta de celeiro por olear
mas também trotando sob o peso de uma família inteira
ou sob um feixe de ramos grande como o universo
pássaros aos molhos que poderiam ter cheio o espaço com
a nossa nostalgia
esses seres que nos alimentam, nos vestem, nos transportam
resignados sob nós, talvez perdoando-nos
esses são os verdadeiros cristãos!

04
CREIO no HOMEM SOLITÁRIO

Creio no homem solitário,
naquele que solitário vai caminhando
que não corre, como um cão, para o seu faro,
que não foge, como um lobo, ao faro do homem:
Ao mesmo tempo homem e anti-homem
 
E como conseguir que assim se harmonize?
Foge dos caminhos mais altos e dos mais aparentes!
Aquilo que é rebanho nos outros é-o também em ti.
Vai pelos caminhos mais baixos e íntimos:
Aquilo que é fundo em ti é-o também nos outros.
 
É difícil habituar-se a si próprio.
Difícil é desabituar-se de si próprio.
Aquele que o consegue, contudo, nunca sera abandonado.
Aquele que o consegue, contudo, sempre ficará solidário.
O não prático é a única coisa prática
com duração.

05
De “O LIVRO do SUICÍDIO”

Calma. Basta de palavras duras. Já não resta muito de mim
Não chores por mim. Aqui já não há fogo que apagar
Não me olhes. Sou uma ruína, em qualquer instante derrubar-me-ei
Não quero que me vejas a derrubar-me
Já não resta sensação alguma do meu eu, do meu peso
Perco o pé, flutuo no ar. Aqui a força da gravidade da terra e
a do céu anulam-se mutuamente
Já não me resta sensação alguma do que sou e do que não sou
Olho em volta: sou eu este? ou aquele?
Não chores por mim, aqui já não há fogo que apagar
Estou-me a repetir, mas isto que escrevo agora é tudo
tudo o que tenho
Acaso é culpa minha? Apenas sou uma pedra que alguém atirou,
um pedaço de madeira que alguém talhou
Desculpo-me. A culpa não é de ninguém, é minha e não de alguém
Escrevo isto lentamente, refletindo: é tudo o que tenho mas
não resolve nada
Mas a mim que me importa, eu amo-te
Tu és o meu formoso espelhismo
Lembro o tempo em que tu eras o meu formoso espelhismo
Tu és bela
Quis voar contigo, tal como voam todos, sim, como se foge voando
Mas os dois estávamos doentes e logo acabará tudo
Então, de que serve tudo isto?
Quero-te, logo me derrubarei
Acaso posso evita-lo? Estou a ficar invisível
Faço-te sinais com a mão, tu só vês a minha mão
A porta abre-se. é de noite, tarde
A luz se apaga, dei tudo o que tinha
Não guardei nada com que viver, por isso me estou a tornar
cada vez mais invisível
Mas não morrerei
Algo fica: uma porta. Que outra coisa posso fazer senão sair de um
quarto de mim mesmo
Não morro, simplesmente desapareço
Talvez, minha angústia, acorde um dia cheio de sabedoria e dúvida
então voltarei e buscar-te-ei.

06
ENTRE NENÚFARES

Escrevi uma introdução para o que teria dito
mas rasurei-a. - Quero no entanto
que antes de a noite me envolver
a última coisa que de mim se aviste
seja um punho fechado entre nenúfares
e a última coisa que se ouça de mim
seja uma palavra de bolhas de ar
a vir do fundo.

07
EUFORIA

Estou sentado no jardim, só, com o teu caderno de apontamentos, uma
sanduíche, uma garrafa e o cachimbo.
É de noite e há tal calma que a luz da vela arde sem flamejar,
derrama a sua luz sobre as toscos tábuas da mesa
e brilha na garrafa e no copo.
 
Tomas um gole, enches o cacimbo e acende-lo.
Escreves uma linha ou duas e fazes uma pausa e contemplas
a franja de clarão vespertino no seu lento caminho até ao clarão
matutino,
o mar de ramagens, espumando no seu branco verdoso sob a
incerta luz da noite estival,
nem uma borboleta em torno da luz mas sim coros de mosquitos no carvalho,
as folhas tão imóveis contra o céu… E o álamo range na
calma:
À tua volta derrama-se a natureza de amor e morte.
Como se fosse a véspera de uma longa viagem, pela noite:
Já tens o bilhete no bolso e por fim fazes as malas.
E podes sentar-te e sentir a proximidade de países longínquos,
sentir como tudo está em tudo, ao mesmo tempo o seu fim e o seu princípio,
sentir que aqui e agora são tanto a tua partida como o teu regresso,
sentir que morte e a vida são tão fortes como o vinho dentro de ti!
 
Sim, fazer-se um com a noite, um consigo mesmo, como a chama da
vela
que me olha nos olhos com calma, inescrutável e tranquila,
como o álamo que palpita e sussurra,
um como o bando de flores que assoma da escuridão e
escutam
algo que tinha na ponta da língua mas nunca consegui dizer,
algo que nunca quis trair ainda que o tivesse podido fazer.
E dentro de mim borbulha a mais pura felicidade!
 
E a chama ascende… É como se as flores se fossem aproximando, se fossem
aproximando mais e mais da luz, em luminosos ponto de arco-íris.
O álamo estremece rumoroso, o clarão vespertino
prossegue
e tudo o que era indizível e distante é indizível e próximo.
 
Eu canto o único que concilia,
o único que é prático, igual para todos.

08
As FLORES DORMEM

as flores dormem na janela e a lâmpada fita luz
e a janela fita descuidada a escuridão lá fora
os quadros mostram inanimados o conteúdo a eles confiado
e as moscas estão imóveis na parede e pensam
 
as flores encostam-se à noite e a lâmpada fia luz
no canto o gato fia lã para dormir com ela
no fogão a cafeteira ressoa agradada volta e meia
e no chão as crianças brincam sem ruído com palavras
 
a mesa coberta de branco espera por alguém
cujos passos nunca sobem pela escada
 
um comboio perfura o silêncio ao longe
e não desvenda o segredo das coisas
mas o destino conta as badaladas com decimais.
 
09
No MERCADO de ISFAÃO ...

No mercado de Isfaão,
no estrado,
mil e um corpos
mil e uma almas
estavam à venda para escravos.
E mil e um mercadores
faziam diferentes ofertas por corpos e almas.
 
As almas eram como mulheres.
Os corpos eram como homens.
E sorte teve o Mercador
que, graças à sua perspicácia,
conseguiu arrematar
Uma alma
e um corpo
que condiziam e podiam acasalar.
 
10
NON SERVIAM

Sou um estrangeiro neste país
mas este país não é um estrangeiro dentro de mim!
Não me sinto em casa neste país
mas esta país comporta-se como na sua própria casa dentro de mim!
 
De um sangue que não se pode aguar
tenho nas minhas veias um vaso cheio!
 
E o judeu, o lapão, o artista que há em mim
sempre procurará a sua consanguinidade: investigar nos registos,
dar uma volta em torno do fetiche lapão no ermo desolado
com uma veneração sem palavras por algo já esquecido,
cantar canções lapónias conta o vento: Selvagem! Negro! –
Lutar e protestar contra a pedra; Judeu! Negro! –
à margem da lei e sob a lei:
prisioneiro na sua, a dos brancos, e no entanto
– bendita seja a minha lei! – na minha.
 
Converti-me pois num estrangeiro neste país
mas este país instalou-se comodamente dentro de mim!
Não posso viver neste país
mas este país vive como um veneno dentro de mim!
 
Certa vez, a Suécia selvagem,
a dos instantes breves, suaves, pobres,
sim, foi a minha pátria! Enchia tudo!
Aqui, na estreita e confortável Suécia,
a dos compridos e bem abocanhados instantes
onde tudo está fechado para evitar correntes de ar… tenho frio.
 
11
NOTA a «DEDICATÓRIA»

Em atenção às exigências estéticas
(que também são as da funcionalidade)
os arquitetos fizeram as nuvens quadradas.
Sobre os bosques desolados estendem-se assim os subúrbios
Por cima das colinas, alinham-se as altas nuvens cúbicas
refletindo-se profundamente no confiante lago florestal,
imensas filas de janelas vazias
sublinhadas pelo belo néon do pôr do sol.
Ali brincam, em montões de cúmulos piedosamente respeitados,
saudáveis meninos
(jamais tocados por mãos humanas)
enquanto revoluteiam em volta deles com sombrinhas rotativas
amas municipais severamente remuneradas.
Cada dia se faz noite e assexuados trabalhadores vitaminados
chegam em rebanhos às suas casas, por turnos, segundo convénios coletivos
à sua vida privada, a Svea, a rainha das hormonas,
rigorosamente vigiada por guardas que inspiram segurança.
 
E faz-se noite e silêncio. Somente o helicóptero do lixo
sussurra devagar de porta em porta
conduzido por um futuro pária, um anarquista e poeta
perpetuamente condenado a retirar toda a pornografia da fantasia.
À distância parece um gigantesco insecto
zunindo perante o grupo de madressilvas rosáceas
por cima, oh, muito por cima dos saudáveis bosques dos
desportistas
onde não vagabundeará jamais vagabundo algum.
 
12
PARTITUR

Vivo em virtude desta visão:
Duas torres
Um éden
Quatro caminhos
Uma entrada
Dois mananciais onde olhar-me
Uma fonte de que beber
Dois búzios a que escutar
e a que sussurrar
uma resposta a uma pergunta
que era uma resposta
 
Como se pudéssemos perguntar
como se pudéssemos sussurrar uma resposta
como se algum de nós perguntando respondendo
quisesse ter a confirmação de algo que não fosse
a imperfeição dos sentidos
 
No entanto o teu rosto é o jardim das minhas mãos cegas
Os teus seios são torres na sua sensibilidade dessa forma
que separa e une
A ta saída é a minha entrada
Os quatro caminhos são o nosso abraço
com braços e pernas:
 
Assim seremos oito
No entanto tu és uma deusa, intocada
e eu não sou mais do que um príncipe!
 
O que vale um príncipe
entre as tuas montanhas?
Um lugar que evitam os caminhantes
 
13
POÉTICA

É o silêncio o que deves escutar
o silêncio escondido atrás de apóstrofes, alusões
o silêncio na retórica
ou na assim chamada perfeição formal
Isto é a busca de um sem sentido
e vice-versa
E tudo o que com tanta arte tento escrever
é por contraste algo sem arte
e todo o repleto está vazio
O que escrevi
está escrito entre linhas
 
14
A PROVA da ÁGUA

Então disse-me:
Os únicos poetas que me interessam
são os que levam cuidadosamente
com mãos nervosas
um vaso cheio de sangue
em que caiu uma gota de leite
ou um vaso cheio de leite
em que caiu uma gota de sangue…
Agora que já o vi, agora quero ver
a firme captura de um vaso cheio até cima
de água do manancial.
 
15
SNAKEHEAD

Muito se pode dizer acerca do Diabo:
Ele não está morto, está vivo.
Como poderia ele ter sido abolido
por um deus que sempre está ausente?
 
Ele está presente:
Vê com os teus próprios olhos, vê com os seus olhos.
Pode revelar-se em qualquer parte.
Talvez seja bom, talvez sejas tu
talvez tu sejas mau, mas tu existes:
Então o que é um ausente? Um mal presente?
Uma força sempre ativa!
 
16

Quando alguém vai, como eu, tão longe no absurdo
palavras tornam-se de novo interessantes:
Algo soterrado
que se revolve com pá de arqueólogo:
 
A pequena palavra tu
talvez miçanga
que um dia enfeitara um pescoço
 
A grande palavra eu
talvez quartzo em lasca
com que um sem-dentes qualquer desfiara sua carne
dura.
 
17

É o silêncio que deves escutar
o silêncio por detrás das alusões, das elisões
o silêncio por detrás da retórica
o silêncio do que se chama a perfeição formal
Isto é a busca do não-sentido
até no próprio sentido
e reciprocamente
Ora tudo o que com arte escrevo
justamente é sem arte
e todo o cheio é vão
Tudo o que escrevi
está escrito entre as linhas

18

Vivo em virtude desta visão:
Duas torres
Um éden
Quatro caminhos
Uma entrada
Dois mananciais onde olhar-me
Uma fonte de que beber
Dois búzios a que escutar
e a que sussurrar
uma resposta a uma pergunta
que era uma resposta
 
Como se pudéssemos perguntar
como se pudéssemos sussurrar uma resposta
como se algum de nós perguntando respondendo
quisesse ter a confirmação de algo que não fosse
a imperfeição dos sentidos
 
No entanto o teu rosto é o jardim das minhas mãos cegas
Os teus seios são torres na sua sensibilidade dessa forma
que separa e une
A tua saída é a minha entrada
Os quatro caminhos são o nosso abraço
com braços e pernas:

Assim seremos oito
No entanto tu és uma deusa, intocada
e eu não sou mais do que um príncipe! 
O que vale um príncipe
entre as tuas montanhas?
Um lugar que evitam os caminhantes