fevereiro 21, 2018

*************************** COMO se FOSSE de CRISTAL

morvan frança por antonio nahud. 2014


A luz que de ti me vem
devolvo-a
amorosamente
a tudo quanto existe
ALBERTO de LACERDA
(Moçambique. 1928 - 2007)

Fotos: MAX WANGER
(Los Angeles, EUA. 1978)
e ANTONIO NAHUD


ANATOMIA da AUSÊNCIA

1
a separação
TEMPOS que MUDAM

O pessimista deve inventar para si mesmo, a cada dia, outras razões para existir; é uma vítima do “sentido” da vida.
E.M. CIORAN
(Rășinari, Romênia. 1911 - 1995)

O fim de um amor é como um sonho. Levei tempo a refazer-me dessa história romântica. Vivia em um campo de relâmpagos. Do fundo do coração, agradeço a ternura - durante uns poucos anos - desse jovem de Minas Gerais. Creio que ele jamais soube como me esforcei para tornar esse período sagrado, e a própria existência menos tristonha. Entre o que vou revivendo e lembrando, entre eu que vivo aqui em cima e o moço cabeludo que morre lá embaixo, há poesia. “Me contradigo? Muito bem, me contradigo”, diz um verso de Walt Whitman. Deitado em rede de veludo azul, fecho o livro do poeta norte-americano, observando no alto da mangabeira um pássaro que não é real. Empoleirado no jardim da memória. Esse jardim resgatado, da nossa casa, não é senão um pedaço de terra perdido no que se foi para sempre, ensinando que se quisermos compreender alguma coisa do amor, não muito, teremos de desembaraçar-nos do ressentimento.

Certos fatos foram riscados pelo tempo, pela mente, pela medicação que apagou precisamente o que poderia ser desagradável, só deixando subsistir o lisonjeiro. De longe, parece mais óbvio. À volta do jardim, até os limites da emoção, a memória voa, conseguindo, aliás, reconstituir os movimentos dos cabelos selvagens de M, os surtos de criatividade, beijos na penumbra, olhares significativos, apertos de mãos às escondidas. Para além dos jogos telúricos, a majestosa trajetória do nosso destino juntos algumas vezes estive por um fio. O amado era exasperado, frágil como se fosse feito de cristal, ousado, com conceitos originais que se perdiam na desordem dos dias. Como eu e tantos outros, tinha mania de sublinhar frases que se identificava, como essa de Marcel Duchamp, marcada em um dos seus livros de arte: “Sempre me forcei à contradição para evitar que me conformasse com meu próprio gosto”. Ele existia no limite do mar inacessível, banhando-se em niilismo. Vivia porque estava em seu poder morrer quando lhe fosse conveniente. Hoje percebo como éramos indefesos. Renascido das cinzas, habito uma atmosfera alienígena, no recanto onde a alegria se transformou. Em um curto circuito sentimental. No esgotamento de antigas práticas típicas da sociedade. De firme, a ética da importância do estar vivo.

A luz solar nas dunas pinta o panorama com cores prateadas. Caminho pela praia urbana, pertinho de casa, apreciando o mar calmo, e em vez de falar sozinho sem propósito ou de lamentar a ausência, gravo recordações. Não sei ainda se confesso só pra mim ou pra nós dois. Para M ouvir o que gravo eu teria que saber onde está. E faz tempo que não sei. Em todo caso, está bem longe. Não sei o que significa essa ausência, mas tenho confiança na inquietação porque é sinal de vida. Depois de vivermos colados um ao outro por muitos anos, eu quis liberá-lo do que para ele era um problema íntimo, embora intuindo que o condenava ao desassossego. Queria que navegasse sozinho para que, talvez, deixasse de pensar na vida como se fosse um fardo, um sacrifício.

Meu objetivo era um só, que ficasse bem e, por que não, em paz, embora não acreditasse na utopia. “Estamos nos separando. Sobreviveremos?”, perguntei honestamente. Ele riu sem rir, beijou-me suave, e revidou: “Não está bem da cuca. Se cuide.”. Eu disse: “Me deixe, me deixe.” E foi embora para sempre. Foi-se embora como se nada tivesse a ver comigo, como se não fosse mais seu. A partir daí, entre nós, não havia mais do que a separação. M passou a conviver com estranhos, sozinho de novo, não dizendo o que sentia, encoberto, melancólico. O coração mergulhou na solidão. Eu pressentia, na época, que ele respirava crepúsculos.


A iniciativa foi minha, queria que fosse para longe, enfim, como ele queria ser, sem ninguém, embora tivesse certeza do fracasso. Não pedi que mudasse de vida. Nem ele interferiu na minha. A mudança partiu de mim. Num lampejo, percebi e compreendi tudo. O que sei é que, ele desejava mudar, e foi o momento de ajudar a fazê-lo. M permaneceu o mesmo, da primeira a última das nossas horas, intacto, entre o denso, o amor e a fossa. O amor que nos uniu não evitou a separação. Havia um pacto mafioso, uma conivência incomum. Eu o recomendei a voar, quis fornecer os meios, apostando que devemos saber ler o que não está escrito. Mas não houve voo, resultou em um tempo sofrido.

De bom coração, ele procurava ser um sujeito simples. Ranzinza, repetia: “Inveja, vazio, indiferença - de tudo isso se compõe a vitalidade social.” Conservo CDs repletos de fotografias de M. Dividimos não apenas espaços, mas desejos e quimeras. A chegada dele da universidade costumava ser uma das melhores atrações do dia. Entre sopa, cuscuz, macaxeira, coalhada, ovos, café, aconteciam as mais extraordinárias conversas. A gente falava sobre qualquer coisa, às vezes brotavam saraus poéticos como flores brutas. Ele fazia escárnio, na intimidade, da mesquinhez, da afetação, e principalmente do vazio dos colegas e conhecidos. Lembro-me do seu abraço robusto e dos afagos trocados, do afeto no olhar e nos gestos. Eu me lembro.

Fecho os olhos e me vêm montes de livros, migalhas de cultura e de beleza, os jantares regados a vinho e o papo ameno, depois de uma sessão dupla de filmes (eu escolhia clássico, ele um atual). Certa vez encantou-se pela antiga comédia “O Fantasma Apaixonado”, de 1947. Assistimos duas vezes, ele rindo como menino travesso. Na trama, a viúva Lucy Muir (diva Gene Tierney) e sua filha (Natalie Wood) mudam-se para um chalé na costa inglesa assombrado pelo fantasma do antigo proprietário, um capitão da Marinha (excelente Rex Harrison). Lucy fica sem dinheiro, e o fantasma resolve ajudá-la a escrever um livro baseado em suas aventuras, gerando uma atração além do céu e da terra. Assim é a adorável produção da Fox dirigida pelo mestre Joseph L. Mankiewicz. Temporada de intermináveis tertúlias cinematográficas, religiosas, políticas, literárias, filosóficas. Varávamos noites celebrando a palavra.

Dizia-se ateu, mas tenho dúvidas. Não apreciava políticos, considerando o Molusco Lula da Silva um verme. Dizia que só mesmo o comprometimento - ou melhor, o fanatismo - ideológico podia justificar a inocência do ex-presidente petista. “Há coisas que eu não tenho muito certeza”, desabafava. “Não tenho provas porque todos os jornais que informam sobre Lula são jornais do sistema, um sistema muito de esquerda, socialista.” Não respeitava o Partido das Trevas, desconsiderando o jeito de pensar e agir da sigla. Não valorizava os esquerdismos populistas, aqui e em lugar nenhum. Sem interesse político, achava que doutrinação não constrói nada de bom.


Contou-me sobre a universidade em São João del-Rei como refúgio de socialistas-comunistas, jovens robotizados, massificados, personagens de um romance de George Orwell. Na época, o estudante M fazia de conta que estava tudo bem, na onda da galera, acompanhando colegas em manifestações e palestras, dormindo em acampamento do MST. Mas não se deixou iludir. Os seus argumentos eram incisivos: “Lula, Dilma e companhia são a escória que deixou o Brasil de joelhos perante criminosos de colarinho branco e bandidos de rua que assaltam e matam pessoas inocentes.” Tinha uma birra homérica da Dilma. “É só vê-la discursar para perceber que a esquerda é uma farsa”, gozava. “Eleger um troço desse não dá.” Também não apreciava Aécio. Não tinha a menor consideração.

Quase sempre foi um companheiro lúcido, amigo, amoroso; faz falta. No primeiro encontro, ambos estávamos no auge do desencanto em relação ao estado decadente do país. Nessa estação eu andava insensível. Convivemos muitos anos. A separação foi a primeira morte de M. Talvez ele volte, apesar de tudo, dizia pra mim mesmo. Até não saber mais. Estava fatigado. O meu corpo e eu, e a ausência.


2
o suicídio
ELE DEBAIXO da TERRA, EU em CIMA

O fim só a Deus pertence e não tem corpo.
ANTÓNIO BARAHONA
(Lisboa, Portugal. 1939)

A morte transforma tudo. Enquanto um homem for vivo não se sabe exatamente aquilo o que ele é. Uma vez morto, fora do espetáculo, passa a ser retrato 3X4 no interesse humano. Naquela manhã, a janela da sala estava escancarada. A infinita vegetação da reserva militar, vista do alto, parecia miragem. Ninguém visível nas proximidades. Rilke, gato black persa, meu e de M, mostrava-se inquieto, e não era habitual. Dizem que o infortúnio aconteceu na noite de 7 de julho de 2016. Enforcou-se à beira-mar, em Galinhos, no bucólico vilarejo que nos fazia afortunados. A notícia nefasta me feriu fatalmente. Fui cortado a navalha. Ele morto. Rilke olhava para mim. Podia olhar quanto vezes quisesse, ele estava morto. Por mais que eu chorasse, não acreditávamos. Mas acabou. Ele não estaria aqui outra vez. A mensagem que deixou dizia mais ou menos: “Meu caminho terminou. Aqui eu paro. Está tudo bem. Ninguém tem culpa. Cansei da humanidade”.

Desconfiei do seu fim. Não vi o corpo formoso em decomposição após dois dias - de sol quente - pendurado em uma humilde casa na Rua Ilha Amarra Negra, centro da comunidade de pescadores. O túmulo não me convenceu. Não acreditava que tivesse tirado a vida em uma rua chamada Ilha Amarra Negra. Soava contraditório. Não podia ter acontecido. Foi encontrado com camisa e bermuda pretas, larvas pelo corpo, com projeção do globo ocular e língua.  Morreu por asfixia provocada pelo enforcamento. Esse homem especial tinha apenas 29 anos. A sua partida deixou saudade. Se agora ouvisse o ronco da motocicleta e ele entrasse e viesse até mim! Parece-me que esses instantes em que eu de fato escutei a moto e seus passos a seguir foram os mais felizes de minha vida inteira. O fato é que pernoita em mim. E se por acaso me vem à memória, ativa o aroma sedutor da conivência.

É dia ainda, o corpo ausente se instala vagaroso, enquanto envelheço na nômade solidão das aves. Onde anda o amigo? Que caminho tomou e que escolha fez? Perde a sensibilidade, o bom senso, o olhar crítico ou a razão uma criatura que convive com o amor e que repentinamente dele abre mão? O primeiro encontro aconteceu em um verão potiguar, e como gente criativa, era natural o interesse pelas linguagens artísticas. Frequentávamos os espaços culturais da cidade, discutindo, com sensibilidade, aquilo que víamos. Arte da qual nos nutríamos e que servia, ou deveria ter servido, para nos constituirmos como pessoas sensíveis. Até porque, aos olhos da maioria, éramos diferentes.

O ponto débil de M era o orgulho. Ele gostava de viver distante de Deus, da família, das regras sociais, da rotina, do sistema. Era uma questão de temperamento. Mas isso é orgulho, eu dizia, alfinetando. E continuava: - e um tanto estúpido, uma atitude ingênua, uma atitude romanesca. Fugitivos do convencional urbano, subíamos montes, e depois da árdua caminhada, já tranquilos, a gente deitava de mãos dadas como anjos vencidos, em silêncio, e só despertávamos do transe pelos raios ofuscantes do sol que não deixava um só instante de fustigar. Devorávamos com excelente apetite as provisões, quase sempre frutas e vinho. Longe do cotidiano das metrópoles, a vida nos parecia exatamente como é: cheia de beleza e boa de viver. Porém, nem sempre foi assim.

Fomos perseguidos, feridos, condenados por almas sebosas. De certa forma, conseguiram nos separar. Sofremos injúrias, acossados, enganados por alucinações. E quando alguém está sendo perseguido, detesta o que lhe acontece, detesta as pessoas que causam isso – está num mundo de terror. Suspeita até do amor, acha que deve existir alguma coisa por trás... uma traição... uma segunda intenção... uma armadilha... Soube do falecimento de M. por rede social. Eu nada sabia dele nos últimos tempos. Quando tentavam contar-me fuxico, evitava o golpe com habilidade. Dois meses antes, mudando-se para Galinhos, procurou-me. Estava triste. Ficava inesperadamente em silêncio. Estava com medo. Medo de nós. Do que nos poderia acontecer. Tomamos vinho. O vinho muda muito. O medo se dissolve. Então, disse-me algo inolvidável, deixando-me em transe: “O sentimento não pode se conter, como a flor não pode conter sua fragrância. Tenho procurado me resgatar das trevas. Um dia, quem sabe, saio da caverna.”

Absoluto fã de Jim Morrison, poeta e vocalista da banda de rock psicodélico “The Doors”, terminei influenciando o moço mineiro a amá-lo. Ao visitar Paris, não deixo de ir ao túmulo do roqueiro, no Cemitério do Père-Lachaise. Não rezo, leio poemas de Charles Baudelaire e Arthur Rimbaud. Certa vez, surpreso, me vi diante do show doméstico de M interpretando poemas do roqueiro. Muito emocionante, e sensual. Pena que não permitia ser filmado ou fotografado. Em um aniversário meu, à fantasia, surgiu de Jim. Parecia reencarnação. Ao saber da sua segunda morte, coloquei Jim Morrison nas alturas, dancei e chorei, como chorei, pelos menos uns cinco dias estupidamente aos prantos. Jorrava como se fosse água.


3
Visões
O TEMPO não APAGA

Em nada te acrescento; o meu amor
Não pode adiantar-te ou comover-te.
Aqui estão os meus fins nas tuas mãos.
Ensina-me os meus sins com os teus nãos.
DANIEL JONAS
(Porto, Portugal. 1973)

Estremeci, como se alguém me tivesse tocado no ombro. Não era ninguém, e através da janela o dia acordava na ponta dos pés. Ainda embalado com as encantações da noite, percebi estar sendo observado. Nunca planejei encontros póstumos. O inacreditável nascia no fato de senti-lo próximo. Procurei não deixar perceber o assombro, nem uma só vez. Permaneci tranquilo, não senti medo. Sempre soube que os seus dias na terra seriam curtos. Não havia retorno. Andava por um triz. Eu costumava inventar artifícios para empolgá-lo. Como se fosse de cristal, M era inadaptado, apreciador e defensor das diversas manifestações culturais, voltado para os aspectos sensíveis e humanistas da vida. Inteligente, respeitava e defendia as minorias. Eram reveladoras nossas incursões pelo interior do Rio Grande do Norte. Dois amantes ávidos de poesia e aventuras, algumas inocentes, outras nem tanto.

Lembro-me de passeios a bordo do barco Paraíso Perdido. Desbravamos caminhos rurais no Nordeste brasileiro. Estacionava a motocicleta no morro que emoldurava a paisagem e ali ficávamos curtindo os belos cenários e imaginando, entre outras coisas, uma vida cada vez mais plural, livre de preconceitos e armadilhas. Menos provinciana. Semanas após seu infeliz enforcamento, passou a visitar-me em sonhos, calafrios, sombras, sussurros, sinais. Se eu falasse detalhadamente sobre isso, se eu o fizesse, o que eu falaria. Eu falaria sobre os sonhos lambuzados de erotismo? Acontece vez ou outra, muda apenas o panorama, às vezes mar, outros na montanha ou floresta. Repete-se uma pequena cidade histórica, bonita.

Falo sobre a veracidade dos fatos: um conto de amor e perda em uma sociedade que destruiu tudo isso. Brutalmente, foi uma separação amarga e uma morte grotesca. A passagem da vida a não-vida é triste. M um dia desapareceu. Então, considerei a terceira morte: separação, suicídio, impressões. Ele partiu para todo o sempre ciente de que o mundo continua com os mesmos oceanos à volta, as mesmas fomes, as mesmas injustiças, as mesmas mentiras, os mesmos prejuízos. Ele me acompanha em versos, fotografias, canções, filmes, paisagens. O afeto é cristalino. Nenhuma outra pessoa me marcou tanto. Ao pensar nele, tudo o que vem a mente é prazer e um poema anônimo, que ouvi de seus lábios:

esperar que voltes é tão inútil como o
sorriso escancarado dos mortos na
necrologia dos jornais

e no entanto    de cada vez que
a noite se rasga em barulhos no elevador e
um telefone se debruça de um sexto andar

sinto que ainda ficou uma palavra minha
esquecida na tua boca

e que vais voltar
para
a
devolver

A história de um amor iluminado e do pior dos infortúnios chegou ao fim. Então adeus. Adeus. Adeus, Morvan.


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11 POEMAS PRESENTEADOS

Gratidão pela felicidade. Ela foi farta. Por exemplo, M copiando poemas à mão, deixando em lugares estratégicos para casualmente eu os encontrar. Acertava na seleção, apreciei todos eles. Além de galante, a atitude foi proveitosa, ao desconhecer a maioria dos bardos, eu procurava garimpar sua poética. Confira abaixo onze deles. Excelentes, praticamente desconhecidos no Brasil.

POEMA 1
31, 23, WHATEVER

Tenho 31 anos e estou cansado.
Todos os sítios me vão parecendo, finalmente,
igualmente maus.
Todas as pessoas, incluindo as que gostam de mim,
insuportáveis.
Não encontro sentido nem para o que faço
nem para as coisas que deixo por fazer.
Olho para os outros
com a absoluta certeza de quem vê
não semelhantes,
serenos, resignados, envilecidos extraterrestres.
Olho para mim
e sinto-me como se não tivesse outros com quem partilhar.
Para onde quer que eu olhe,
a insuportável mentira que faz ninho, germina, destila
este tempo, este país, este modo de viver
a que chamam
progressista, tolerante, solidário, democrático,
avançado, europeu, e melhor e melhor
que todos os existidos,
que todos os possíveis.
Este modo de viver
onde falta tudo o que foi nomeado.
Que desfez a classe trabalhadora sem uma única bala,
que encarcerou as consciências sem uma única grade,
que me afasta sem um único cassetete,
que me exclui sem um ferro candente,
sem sequer uma estrela amarela na lapela.

Este tempo
de trajes novos,
de Imperadores.

ANTONIO ORIHUELA
(Moguer, Espanha. 1965)


POEMA 2

Virá a morte e terá os teus olhos -
esta morte que nos acompanha de manhã à noite, insone
surda como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma vã palavra,
um grito mudo, um silêncio.
Assim os vês, cada manhã
quando te inclinas só
ante o espelho. Oh querida esperança,
naquele dia saberemos também nós,
que és a vida e és o nada.

Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como largar um vício,
como ver no espelho
ressurgir um rosto morto,
como escutar uns lábios fechados.
Desceremos o remoinho, mudos.

CESARE PAVESE
(Santo Stefano Belbo, Itália. 1908 - 1950)


POEMA 3
A NOSSA VEZ

Outros virão depois de nós,

Mais pacientes, mais teimosos,
Mais fortes ou mais hábeis.

Hão-de saber extrair à terra
Mais do que nós.

E hão-de ter como suporte
O canto que foi cantado

Quando era a nossa vez.

EUGÈNE GUILLEVIC
(Carnac, França. 1907 - 1997)


POEMA 4
NÃO é QUE MORRA de AMOR, MORRO de TI

Morro de ti, amor, de amor de ti,
da urgência da minha pele de ti,
da minha alma de ti e da minha boca
e do insuportável que sou sem ti.

Morro de ti e de mim, morro de ambos,
de nós, desse,
desgarrado, partido,
me morro, te morro, nos morremos.

Morremos no meu quarto em que estou só,
na minha calma em que faltas,
na rua onde o meu abraço vai vazio,
no cinema e nos parques, nos elétricos,
nos lugares onde o meu ombro serve de almofada à tua cabeça
e a minha mão tua mão
e tudo isso te sei como eu mesmo.

Morremos no sítio que emprestei ao ar
para que estejas fora de mim
e no lugar onde o ar se acaba
quando te deito a minha pele por cima
e nos conhecemos em nós, separados do mundo,
ditosa, penetrada e também interminável.

Morremos, sabemo-lo, ignoram-no, nos morremos
entre os dois, agora, separados
de um para o outro, diariamente,
caindo-nos em múltiplas estátuas
em gestos que não vemos
em nossas mãos que nos necessitam.

Nos morremos amor, morro em teu ventre
que não mordo nem beijo
nas tuas coxas dulcíssimas e vivas
na tua carne sem fim, morro de máscaras
de triângulos obscuros e incessantes.
Morro do meu corpo e do teu corpo,
da nossa morte, amor, morro, morremos
no poço do amor a todas as horas,
inconsolável, aos gritos,
dentro de mim, quero dizer, te chamo
te chamam os que nascem, os que vêm
de trás, de ti, os que a ti chegam.
Nos morremos, amor, e nada fazemos
senão morrermos mais, hora após hora,
e escrevermos e falarmos e morrermos.

JAIME SABINES
(Tuxtla Gutiérrez, México. 1926 - 1999)


POEMA 5
PARA FAZER o RETRATO de UM PÁSSARO

Pinta primeiro uma gaiola
com a porta aberta
pinta a seguir
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro.
Agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta.
Esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada
sem te mexeres…
Às vezes o pássaro não demora
mas pode também levar anos
antes que se decida.
Não deves desanimar
espera
espera anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro.
Quando o pássaro chegar
se chegar
mergulha no mais fundo silêncio
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho
com o pincel.
Depois
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar nalguma das penas
Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
e agora espera que o pássaro se decida a cantar.
Se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar.
Então arranca com muito cuidado
uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro.

JACQUES PRÉVERT
(Neuilly-sur-Seine, França. 1900 - 1977)


POEMA 6
A LIFE of ERRANDS

If You Are Lucky
You Will Grow Old
And Live
A Life of Errands.
You Will Discern
What People Need
And Provide It
Before They Ask.
You Will Drive Your Car
Here And There
Delivering and Fetching
And Neither The Traffic
Not The Weather
Will Bother You
In the Least.
You Will Whip Down
The 405
To San Diego
To Pick Up An Acorn
For Someone's Proverb
And So On And So Forth.
In Spite Of The Ache
In Your Heart
About The Girl You
Never Found
And The Fact That
After Years Of
Spiritual Rigour
You Did Not Manage
To Enlighten Yourself
A Certain Cheerfulness
Will Begin To
Arise Out Of Your Crushed
Hopes And Intentions.
How Thirstily
You Embrace Your
Next Commission:
To Sift Through
The Sunglasses
At A Lost And Found
In Las Vegas
Just A Few Hours
Across The Desert.
Your Hair Is White
You Have Breasts
And A Gut
Over Your Belt
You Are No Longer A Boy,
Or Even A Man
But A Sense Of Gratitude
Enlivens Every Move
You Make.
Yes, Sir, These Are The
Very Gold-Rimmed Pair
She Left In The Plastic Tray
Beside The Dollar
Slot Machines.
No, Sir, I Am Not Lying.

LEONARD COHEN
(Westmount, Canadá. 1934 - 2016)


POEMA 7

A luz no lago, esconde-se atrás do muro,
Invadem o quarto os cheiros misturados das flores.
Na borda do biombo, o pó que a borboleta espalhou,
Na janela lacada, a mancha amarela da abelha.
Deixa esses papéis oficiais para os escriturários,
Há um criado para cada funcionário público honesto.
Vamos de cavalgada ouvir os poemas um do outro.
Que há de tão urgente nesses assuntos em que perdes o coração?

LI SHANG-YIN
(Qinyang, China. 813 d.C. - 858 d.C.)


POEMA 8

como lobos em período de seca
crescemos por toda a parte
amamos a chuva
amamos o outono
um dia até pensamos
em enviar uma carta de agradecimento ao céu
com uma folha de outono como selo de correio
acreditávamos que as montanhas desapareceriam
os mares se dissipariam
apenas o amor seria eterno
de súbito separamo-nos
ela gostava de sofás compridos
e eu de longos navios
ela gostava de sussurrar e suspirar nos cafés
eu gostava de saltar e gritar nas ruas
e, apesar de tudo,
os meus braços vastos como o universo
estão à espera dele

MUHAMMAD AL-MAGHUT
(Salamiyeh, Síria. 1934 - 2006)

POEMA 9
«CÂNTICO NEGRO»

Cago na juventude e na contestação
e também me cago em Jean-Luc Godard.
Minha alma é um gabinete secreto
e murado à prova de som
e de Mao-Tsé-Tung. Pelas paredes
nem uma só gravura de Lichtenstein
ou Warhol. Nas prateleiras
entre livros bafientos e descoloridos
não encontrareis decerto os nomes
de Marcuse e Cohn-Bendit. Nebulosos
volumes  de qualquer filósofo
maldito, vários poetas graves
e solenes, recrutados entre chineses
do período T'ang, isabelinos,
arcaicos, renascentistas, protonotários
– esses abundam. De pop apenas
o saltar da rolha na garrafa
de verdasco. Porque eu teimo,
recuso e não alinho. Sou só.
Não parcialmente, mas rigorosamente
só, anomalia desértica em plena leiva.
Não entro na forma, não acerto o passo,
não submeto a dureza agreste do que escrevo
ao sabor da maioria. Prefiro as minorias.
De alguns. De poucos. De um só se necessário
for. Tenho esperança porém; um dia
compreendereis o significado profundo da minha
originalidade: I am really the Underground.

RUI KNOPFLI
(Inhambane, Moçambique. 1932 - 1997)


POEMA 10
INÍCIO ESQUECIDO

Num tapete de água
vou bordando os meus dias,
os meus deuses e as minhas doenças.

Num tapete de verdura
vou bordando os meus sofrimentos vermelhos,
as minhas manhãs azuis,
as minhas aldeias amarelas e os meus pães de mel amarelos também.

Num tapete de terra
vou bordando a minha efemeridade.
Nele vou bordando a minha noite
e a minha fome,
e a minha tristeza
e o navio de guerra dos meus desesperos,
que vai deslizando p’ra mil outras águas,
para as águas do desassossego,
para as águas da imortalidade.

THOMAS BERNHARD
(Heerlen, Países Baixos. 1931 - 1989)

POEMA 11
BASTA

Viver não basta queremos sonhar
em jardins encantados florestas com árvores
que transformam serras mecânicas em rosas e pão

Andar não basta queremos pairar
sobre ruas em que tanques e porta-aviões
se desfazem em leite e mel

Comer não basta queremos beijar
gente bela basta que
seja gente.

ULLA HAHN
(Kirchhundem, Alemanha. 1945)

NO RIO SENA