outubro 03, 2019

....................................... O MUNDO VIOLENTO de ELLROY




“O papel da literatura é induzir compaixão mostrando às pessoas o que o mundo realmente é e explicando como se dão mudanças pessoais nos indivíduos.”
JAMES ELLROY

Ilustração: 
EDWARD HOPPER
(Upper Nyack, Nova York, EUA. 1882 - 1967)

Em entrevista ao jornalista ANTONIO NAHUD, em Madri, Espanha, 2001, o autor fala sobre seu novo romance.


Poeta urbano impiedoso, JAMES ELLROY (Los Angeles, Califórnia, EUA. 1948) afirma que seus livros de prosa pessimista “cospem o mal, cospem o diabólico”. A sua biografia revela uma infância dura, expulso da escola e de casa, dormindo em parques e sob viadutos, drogas, álcool em excesso, delinquência juvenil, cárcere e violência ininterrupta – tudo narrado, anos depois, no livro “Meus Lugares Obscuros”. Depois veio a literatura, a redenção. Tinha mais de 30 anos quando publicou o primeiro livro. Diz que escreve romances policiais porque é obcecado por crimes violentos desde a infância, quando a mãe foi encontrada morta por um dos inumeráveis amantes dela, em Los Angeles. Ele tinha 10 anos.

Em Madri, apresentou seu mais recente romance, “Seis dos Grandes”, um calhamaço de quase 900 páginas e segunda parte da “Trilogia Americana”, iniciada há cinco anos com “América”. É uma narrativa documentada por fatos policiais e notícias de jornais, produto do trabalho de documentação do autor. A trama se inicia no dia do assassinato do presidente John F. Kennedy, em 1963, numa série de conflitos raciais. Um agente do FBI chega a Dallas para eliminar um suposto assassino e estuprador negro. O sangue jorra forte à sombra da Ku Klux Klan, J. Edgar Hoover, a máfia, o tráfico de drogas e os anticastristas, ou seja, todo a infâmia do império norte-americano, ao lado de assassinos de aluguel com sentimentos e prostitutas com escrúpulos.

Ele diz que não lê os colegas “para não ser influenciado”. Considera-se “como Tolstói para o romance russo e Beethoven para a música”. Não tem televisão nem telefone celular. Escreve à mão e conta com uma secretária para digitar seus livros. Autor de muitos romances (“A Dália Negra”, “Jazz Branco”, “Sangue na Lua” etc.), considerado o mestre atual do policial noir, comparado a Raymond Chandler e Dashiel Hammett, chegou ao sucesso com “Los Angeles: Cidade Proibida” (1997), graças à adaptação para o cinema de Curtis Hanson, com Russel Crowe, Kevin Spacey e Kim Basinger.

O escritor tem hoje 53 anos, mas aparenta mais. É esguio e elegante. Com mais de 1,90m de altura e alma atormentada, JAMES ELLROY diz que o sonho norte-americano é feito de lixo, violência e mentiras. Confira a entrevista:

Seus personagens são severamente julgados. Não entendo como o comparam a Raymond Chandler, escritor cujos detetives e mulheres fatais são amorais.

Procuro uma viagem moral, descrevendo homens e mulheres nessa viagem. Julgo meus personagens com severidade e creio que este novo livro tem uma forte base moral, além de honra, amor, humor e decência. Quanto a Chandler, era um péssimo escritor. Não entendia bulhufas de policiais.

O senhor parece preferir os policiais aos detetives particulares.

Claro. Os investigadores privados não entendem nada do assunto. São amadores bisonhos.

Acredita que os escritores devem julgar costumes e pessoas como um cronista da miséria moral?

Não sou cronista, sou um escritor. Não opinaria sobre a pena de morte, os distúrbios raciais em Cincinnati ou o governo Bush. Não sou um crítico cultural dos EUA. Não aceito esse tipo de limitação. Não gosto de me encerrar em categorias literárias.

Como gostaria de ser definido?

Um conservador. Sou a favor da pena de morte. Há certas pessoas que não merecem viver… Aprovo o controle do comércio de armas. Sou um homem que odeia o niilismo, odeia a promiscuidade, odeia a rebeldia institucionalizada, odeia os psicopatas e odeia o rock and roll. Parece incrível, mas gosto de música clássica.

Qual o seu leitor ideal?

Escrevo fundamentalmente para a gente que quer escapar da realidade e se meter em novos mundos, mesmo que neste mundo encontre o maligno. Eu respeito meus leitores escrevendo de maneira visceral, com muitas descrições e um uso consciente da repetição, linguagem própria e rica em detalhes e uma trama complexa.

Como traduziria os Estados Unidos?

A melhor coisa dos EUA é o capitalismo, o quase apartheid do sistema de governo, as duas casas do Congresso, direitos de Estado. É um fato que é uma república que representa a democracia. E acredito ser imperativo que os EUA permaneçam como um poder dominante. Tenho uma visão mais militar que social da história.

Qual o seu presidente dos EUA favorito?
           
São dois grandes presidentes do século 20: Roosevelt e Ronald Reagan. Roosevelt iniciou os programas sociais e Reagan ofereceu suspensão de impostos para todo mundo.

Diversas obras suas foram adaptadas para o cinema com muito sucesso. “Los Angeles: Cidade Proibida” foi indicado para nove Oscars e ganhou dois. Gosta dos filmes que foram feitos a partir de seus livros?

É só uma forma de ganhar dinheiro. Eles ferram seu livro com o roteiro e lhe dão um bom dinheiro. O melhor filme feito de um de meus livros foi “Los Angeles: Cidade Proibida”. Me rendeu um bom dinheiro. É uma versão mais romântica de meu livro, que é muito mais sobre corrupção institucional e racismo. Mas também reconheço isso como um trabalho de arte que não criei.

O que tem feito além de promover seu mais recente romance?

Ando estudando a história do fascismo, para o próximo livro. Descobri que não há diferença entre fascismo e comunismo.

O que se deve esperar de “Seis dos Grandes”?

A leitura de uma obra-prima, ou melhor, a segunda obra-prima de três obras-primas chamadas “Trilogia Americana”. Tomo personagens e fatos verídicos e fictícios e os uno de tal forma que o leitor crê que tudo é real.

 
 
 
 
 
 
 
 

 

setembro 03, 2019

................ ZUENIR VENTURA - TESTEMUNHA de seu TEMPO




Jornalismo e literatura são irmãos gêmeos que nasceram muito diferentes 
e que hoje são mais parecidos do que nunca.
ZUENIR VENTURA

Fotos:
GERMAN LORCA
(São Paulo, SP. 1922)

Por ANTONIO NAHUD. 2007


Autor do best-seller “1968 – O Ano que não Terminou”, lançado em 1988 e atualmente na 40ª. edição, o mineiro, criado no Rio, ZUENIR VENTURA (Além Paraíba, Minas Gerais. 1931) se define como carioca: Como todo bom mineiro, e vice-versa. Em quase meio século como repórter, redator e editor, trabalhou em publicações brasileiras famosas, entre elas, o “Jornal do Brasil” e as revistas “Senhor”, “O Cruzeiro” e “Fatos & Fotos”. Ganhou o prêmio Wladimir Herzog de Jornalismo em 1989 e o Esso de Reportagem em 1994. É colunista do jornal “O Globo”, da revista “Época” e do site www.nomimino.com.br       

Autor de realista e humorado, ele publicou “Cidade Partida” (1994), sobre a chacina em Vigário Geral; “O Rio de J. Carlos” (1998), em parceria com o cartunista Cássio Loredano; “Inveja – Mal do Século” (1998) etc. Também roteirizou o documentário “Paulinho da Viola – Meu Tempo é Hoje” (2003). Nesta entrevista, diz: “O leitor deve desenvolver antídotos contra o poder da imprensa”. Confira a entrevista:

O escritor precisa ter um papel transparente na sociedade?

Para o escritor, não deve ser obrigação desempenhar uma função social. Mas se ele estiver envolvido com seu tempo, acabará tendo esse papel, querendo ou não.

Como traduz o mercado literário nacional?

O mercado literário brasileiro se caracteriza por um paradoxo: apresenta uma extraordinária produção (há editoras que publicam um livro por dia) e um baixo consumo. Lê-se pouco por razões econômicas e culturais: os livros são caros, os leitores não têm dinheiro e nem o hábito da leitura.

As editoras estão atentas para absorver os novatos? Existe um caminho a se seguir? Que conselhos daria aos editores?

Não é que não estejam preparadas. O problema é que as editoras são empresas e, como tal,  não podem correr riscos econômicos. Elas precisam ter lucro. Editar um novato é sempre uma aventura. Não sei que conselhos daria a elas. Aos jovens, eu sugeriria que publicassem pela internet.


Julga que a literatura brasileira contemporânea é essencial?

Essencial, não sei. Mas importante, sim.

Já encontrou o equilíbrio entre jornalismo e literatura? Esse dualismo existe? Por exemplo, sofreu pressões, como escritor, para pender para um lado ou para o outro?

Acho que me inclino mais para o jornalismo. Mas não acredito que as duas atividades sejam incompatíveis.

Um dos méritos da sua linguagem é consolidar uma visão de mundo, de certo universo brasileiro antenado. Ela é também genuinamente universal, pelo que contém de drama humano. Como foi chegar a essa síntese desde “1968 – O Ano que não Terminou”?

Para isso, o jornalismo foi fundamental, como linguagem e como temática. Ele é que permite essa imersão na atualidade, sempre prenha de dramas e comédias.

Qual foi a sua intenção ao escrever “1968”? Esperava a repercussão recebida?

Foi recuperar um tempo que a ditadura tentou apagar da história, pela censura e pelo esquecimento. De jeito nenhum esperava a repercussão que teve. Achava que não passaria da primeira edição e ele já está na 40ª.

Machado de Assis nasceu, morreu e falou do Rio de Janeiro do século XIX. Nascido em Minas, acha que é sua sina exorcizar os demônios cariocas?

Como todo bom mineiro sou carioca, e vice-versa. Daí minha obsessão pelo Rio, que, como cantou Fernandinha Abreu, é o purgatório da beleza e do caos.

Temos uma crítica literária que reconhece uma obra literária sem se ater basicamente ao que já está consolidado?

Na universidade deve haver, mas nos jornais e revistas é difícil, até porque é da natureza da imprensa trabalhar com o já consumido e consolidado.

É mais fácil atacar ou elogiar alguma coisa ou alguém do que fazer crítica de verdade?

É muito mais fácil atacar. Aliás, está na moda falar mal. É hoje um marketing de grande sucesso.

Certa vez declarou que “o ideal seria que o leitor, o ouvinte e o espectador olhassem para a imprensa sempre com uma certa desconfiança”. Ainda pensa assim? A imprensa está em crise?

Continuo pensando assim. O leitor deve desenvolver antídotos contra o poder da imprensa. O mito de que somos o “Quarto poder” nos fez muito mal. Não temos que ser poder, mas contra-poder. Quanto à crise, pelo menos uma ela está vivendo: a crise da linguagem escrita. Estamos perdendo a guerra contra o áudio-visual.


A nossa imprensa tem um certo fascínio pelas coisas ruins ou será uma tendência mundial, de uma sociedade banalizada que precisa de chacoalhadas sórdidas?

Acho que é um problema planetário. Para nós, jornalistas, de maneira geral, notícia boa é notícia ruim, o que é uma deformação. Mas o leitor também não é inocente nessa história.

Ao passar pelas revistas “Senhor” e “O Cruzeiro”, duas mitológicas publicações, o que levou delas?

A revista “Senhor” foi uma das mais bem sucedidas experiências de vanguarda jornalística. Muitas de suas inovações, principalmente no plano gráfico, ainda são atuais. Quanto à revista “Cruzeiro”, ela foi uma escola de reportagem.

O que acha do jornalismo ensinado nas universidades?

Acho que a solução para o ensino de jornalismo seria uma parceria da universidade com as empresas. Em vez de uma ficar falando mal da outra, as duas deveriam desenvolver uma troca permanente de experiências.

A crônica de costumes é literatura ou jornalismo? Ou seria uma coisa e outra?

Eu diria que é simplesmente crônica, esse gênero democrático e generoso, situado entre o jornalismo e a literatura e onde cabe tudo.

Você tem uma epígrafe que o acompanhe? Um mote que o defina aos participantes do I Encontro Natalense de Escritores?

Não vim à Terra para julgar nem para condenar; vim para olhar e depois contar. Não sou juiz nem promotor, sou uma testemunha de meu tempo. Um jornalista.



agosto 02, 2019

............................................. EL INTERROGATÓRIO: MADRI, 1995

antonio nahud em madri, 1995


“No fundo do homem, em seus mares longínquos, sonolento intranquilo em eternidade que se acaba. Lá se hospeda os escondidos. O sensato se dilui. Não há fotografia que se lembre, nem sorte nem palavras nem ardor. É o fundo mais fundo impossível de chegar.”

IMAGENS: EUSEBIO SEMPERE
(Onil, Espanha. 1923 – 1985)

Encontrei casualmente esta entrevista em um antigo diário. Na época, eu morava em Madri, Espanha. Informal, simpática e reveladora, confirma que a vida é bela.


01
Três cosas más importantes que el sexo.

Filmes clássicos, viajar, vinho tinto.

02
¿Cree que hay vida después de la muerte?

O aprendizado acumulado em nossa vã existência não se acaba de uma hora para outra.

03
Un partido para merecer su voto, debe proponerse.

Seria muito acertado candidatos independentes. Os partidos são decepcionantes, geralmente corruptos.

04
¿Prefiere amar o estar enamorado?

Após anos de leituras e filmes românticos, desejo intensidade, mistério, sabedoria, amor.

05
¿Que no perdona a un amigo?

Servidão, ironia, indiferença, mesquinhez. Mas não guardo rancor. Sei que ninguém deve estar condenado à perfeição.

06
¿Es usted delas que dice que se iría a viver al campo?

Aprecio a beleza e a generosidade da natureza, a vida terna, os valores caipiras, o ar puro.

07
¿De que no sabe nada y le gustaría saber mucho?

Botânica, biologia, ocultismo.

08
¿Que enfermedad le acosa con frecuencia?

Melancolia.

09
¿Que teme por encima de todo?

A miséria e a mediocridade.

10
¿Que disfruta y qué detesta de los niños?

O universo infantil me encanta pouco. Gastei o fervor da meninice na infância. Cresci com muitos irmãos, visitas de amigos e primos da mesma faixa etária. Não havia privacidade, era bacana e surreal.
nahud em madri, 1995

11
¿Como quisiera ser de viejo?

Culto, refinado, tranquilo. Sem ânsia sexual ou sentimental. Um Somerset Maugham, um Thomas Mann, uma Marguerite Yourcenar.

12
Una manera de mori que no quisiera para usted.

Abandonado, queimado, decadente. Prefiro a morte súbita.

13
Un deporte para practicar y otro para ver.

Não aprecio competição. Nadaria se fosse sócio de um clube com piscinas imensas, térmicas. Para ver, a elegância do tênis, o esplendor do hipismo e a energia do vôlei.

14
¿Cuál es su programa de televisión favorito?

Televisão me entedia. Interesso-me por filmes antigos, documentários, shows gravados e os contos assombrados de Spielberg.

15
¿A quién lee con mayor interés en la prensa?

Bernard-Henry Levy, em “El Mundo”. Um belíssimo cronista.

16
Entre su casa y su trabajo. ¿un bosque o una autopista?

Um parque com árvores e raros visitantes. Feito o de “Blow-up”, na cena em que David Hemmings fotografa Vanessa Redgrave.

17
¿Para que ahorra?

Não economizo. É uma virtude que Deus não me deu. Gasto tudo o que ganho.

18
¿De todo lo que ha hecho en la vida, ¿que es lo que le hace sentirse más satisfecho?   

A ligação amorosa familiar, viagens pela Europa e África, palavras escritas com honestidade, amores românticos.

19
¿Que le falta a su casa para ser perfecta?

Sou cigano, utilizo espaços para armazenar livros, cartas, textos, discos, filmes e álbuns de fotografias, para um dia perder tudo de uma só vez.

20
¿Que se trae entre manos?

A vontade de aprender, conhecer países, melhorar como ser humano e publicar alguns romances inéditos.

21
No quisiera morirse sin...

A publicação de mais alguns livros, casar-me, assistir a montagem de um texto teatral meu, conhecer a Grécia, viajar internacionalmente com Mamãe e ler os sete volumes de “Em Busca do Tempo Perdido”.