abril 14, 2018

************** MUNDOS POSSÍVEIS: ESCURO e CLARIDADE



Tudo é quietude:
Escuro e claridade,
Livro e flor.
RAINER MARIA RILKE
(Praga, República Checa. 1875 - 1926)

E lá vou eu de novo,
sem freio nem paraquedas
MILLÔR FERNANDES
(Rio de Janeiro, RJ. 1923 - 2012)

Fotos: ANTONIO NAHUD por MORVAN FRANÇA
(Belo Horizonte, Minas Gerais. 1987 - 2016)
Ilustrações: EDVARD MUNCH
(Løten, Noruega. 1863 - 1944)


AUTO-RETRATO

Os homens são ensinados a não serem emotivos e não creio que seja certo. Não acho difícil chorar. A última vez que fiz foi há alguns dias, pensando em como os estranhos podem ser gentis. À medida que envelheço, meu temperamento se torna mais suave. A melancolia ranzinza não demora mais. É um sopro que desaparece no ar. Não é ruim sentir as emoções em vez de enterrá-las. Em busca de sensações, viajo desde os treze anos de idade. Hoje já não muito, ando praticando a viagem como um estado constante, afinal a vida é viagem, dizia Sêneca. Nasci para viajar, tornando-me um escritor viajante. Curiosamente, viajando descobri significâncias no próximo e no mais secreto de mim mesmo; viajando ocorreram encontros marcantes, fora do quadro civilizacional das raízes, que me ensinaram o valor do despojamento, da gentileza, hospitalidade e compreensão.

Uma vez atirado ao mundo, para além do porto natal, nunca mais soube regressar inteiramente. Perdi o sentido de fronteiras, marchando por um destino contraditório, e nada detém a aventura cigana, nada me fez parar por dezenas de anos. A finalidade talvez seja a auto-educação, aceitando-me como um cidadão do mundo. Tive de lapidar um diamante baiano bruto. A voz poética formou-se em desmoronamentos, na contraluz, em conversas partilhadas com desconhecidos, na voragem de não ser importante ou desimportante.

As viagens moldaram-me em uma espécie de homem da estrada, como o Shane de Alan Ladd, em busca do espírito de um lugar para nele encontrar as coordenadas universais. Como poeta de rupturas, cada cidade me transmuta a um novo sentimento, e incoerente, torno-me cada vez mais alienígena e mais sensibilizado com o fracasso humano. Viajo para aprender e sobreviver. Se estamos vivos somente pelo pitoresco, pela ambição fajuta, pela fotografia nas redes sociais ou compras de bugigangas inúteis, somos estúpidos, terrivelmente estúpidos.

Giro em torno do eixo;
sobre um ponto no espaço
desço, vertical: casa poética.
À minha volta,
o mundo de cristal.
Ninguém me acompanha
nesta superfície estranha
e luminosa.
CONFISSÕES (2014)

Apesar dos avanços tecnológicos que temos agora, ainda acho que as coisas estavam melhores há décadas. Estamos trabalhando muito para sobreviver dignamente, faltando tempo para considerar o que realmente significa ser humano. Não aproveitamos a tecnologia para facilitar nossas vidas e estamos sujeitos à considerável manipulação e ajustamento. Nasci grapiúna, geminiano, sob a benção de Santo Antônio e Oxóssi em um tempo familiar, tradicional e benéfico. Vim ao mundo pouco depois da meia-noite, em Itabuna, sul da Bahia, terra dos frutos de ouro. Nas veias sangue libanês, indígena, sergipano, português. Meu pai, arrebatado, ofertou no mesmo dia da natividade uma celebração aberta para qualquer um, com músicos, churrasco e cachaça em praça pública.

Nasci filho mais velho do galã Antônio José, advogado de humilhados e ofendidos. Ele partiu para o outro lado da lua moço, levando a imagem de um homem desiludido e honrado, camisas de seda, anéis de rubi e admirável apego a fauna e a flora da Mata Atlântica. Devo a dona Lurdinha, dama amável e generosa, o que existe de melhor em meu coração, se acaso existe. A bondade é, no fim das contas, o sentimento mais precioso. E ela tem de sobra. De família tradicional falida, cresci atormentado por dificuldades financeiras. No entanto, havia proteção, fraternidade, irmãos de bom coração (hoje, os advogados Neto e Paulo Manchinha, o médico Urbano, o arquiteto Marc e a doce ginecologista Anna Áurea) e a espetacular vivência na Fazenda “Bela Vista” perfumada pelo cacau. Mamma mantém a residência urbana onde tudo começou, na Né Abade, bairro Pontalzinho. Guardo lá tesouros: diários, livros, filmes, álbuns de fotografias, sossego, amor.

O poeta em mim exigia uma profissão diretamente relacionada com a escrita. O jornalismo surgiu como uma prática da qual poderia tirar benefícios para a criação literária. Na época, pareceu-me que ser jornalista era uma profissão heroica, particularmente apropriada para escritores. Para um autor, o jornalismo pode constituir um desafio para a própria obra, um estímulo para abertura de novas perspectivas. Acho estimulante esse modo de pensamento da comunicação que parece avançar em círculos, repetitivamente, voltando ao mesmo ponto. Foi altamente contagiante durante muitos anos. Mas ando cada vez mais distante. Interiorizei conceitos que não combinam com sua prática – um caminho que me leva ao claro-escuro do ser – e que são estruturantes para a minha atual visão do mundo.

estas árvores invisíveis
campos sem sombra
carcará cortando o ar
são sortilégios
para desnortear desilusões.
LIVRO de IMAGENS (2009)

Atitudes perante a vida ensinaram-me a viver o despojamento do ego para dar espaço ao divino, na vivência de uma religação cósmica, de indivíduo que cultiva virtudes. Procuro depuração e decantação. Por isto, no momento, vejo o jornalismo como uma profissão de risco. Não nego que sou bicho estranho, que voa e pousa, dispara e contempla. Desde menino tenho compaixão pelos miseráveis; desde menino me sinto atraído pelo misterioso, o oculto, em uma mediunidade espontânea que me torna compassivo ao meio ambiente. Percebo vultos, ouço vozes inexistentes, creio em criaturas que não vejo.

Durante anos, estudei no tradicional Colégio Divina Providência, amando a literatura graças à dedicação de um professor, Ruy do Carmo Póvoas, e ao convívio fraterno com o excelente contista Hélio Pólvora. Aos 17 anos, após meses poupando cada centavo, torrei a pequena fortuna em viagem mundana de um ano ao Rio de Janeiro, entregando-me de corpo e alma à farra carioca: frequentei cinematecas, exposições de arte, festinhas excêntricas e namorei a todo vapor - tudo devidamente anotado em “Diários”. Desta época, restou a lembrança do poeta e compositor Antonio Cícero e do escritor argentino Manuel Puig, que brilhava os olhos quando eu recordava cenas criminais de clássicos do cinema.


Quando se é jovem, as emoções são apaixonantes e transitórias. Continuando os estudos, voltei à Bahia. No final da década de 80, editei o mensal “Narciso”, o caderno de cultura do jornal “Agora” e escrevi para diversos outros periódicos, inclusive críticas e artigos sobre arte e comportamento. Polêmico e ousado, embora tímido, arrisquei-me durante dois anos como repórter na TV Cabrália (Rede Manchete). O impulso seguinte: a grande São Paulo. Em cerca de dois anos – por sinal, conturbados -, estudei cinema com Carlão Reichenbach e resisti como assessor de comunicação do arrogante José Aristodemo Pinotti e leitor de inéditos da Editora Siciliano. Na selva de pedra, que quase me arruinou, tive o privilégio de conviver com Hilda Hilst, Caio Fernando Abreu, Lygia Fagundes Telles e Pedro Paulo de Senna Madureira.

tua lembrança
posso tocá-la de tão próxima
nesta noite de sutilezas e argúcias
SUAVE é o CORAÇÃO ENAMORADO (2006)

A literatura corre com o rio do tempo e do ser, mais do que ao autor ela pertence à sociedade. Nenhum virtuoso acredita no culto do escritor enquanto entidade independente, porque sabe que a literatura é na sua essência uma proposta de partilha. O autor é um pesquisador de harmonias pré-existentes no cosmo, seja ele o microcosmo humano individual ou o infinito universo do qual faz parte. Devemos tudo aos antecessores, então, no processo criativo, saldamos essa dívida de gratidão por tudo o que nos foi dado para continuar a construção da voz literária. Se é inútil? Talvez, mas também é significativo para os nossos sonhos.


O secreto, enquanto símbolo, exprime a imensa força catalisadora das transformações. A sensibilidade, o pensamento lúcido e a imaginação poética são poderosas ferramentas na evolução das sociedades. Aspiram a harmonia da relação homem-vida. A linguagem literária que me interessa é de natureza panteísta, apela ao regresso dos tempos e à fusão do homem com a natureza, ao sossego da alma equilibrada com o meio envolvente. Mais do que nunca precisamos da natureza, caminhando com ela, e não contra ela. Defendo o estado contemplativo e criativo como imperativo para a sobrevivência na caótica e enfadonha modernidade. Apelo à literatura contra o grosseiro materialismo dominante. Nesta tradição me inscrevo e escrevo.

Sortudo na conquista de preciosas amizades, perdi uma ou outra por imaturidade ou egoísmo. Ao redor, íntimas e cúmplices, destacam-se mulheres de valor, já que admiro o universo feminino. Em 1993, após prêmios literários sem importância e apadrinhamento do bom poeta Telmo Padilha, veio o júbilo da estreia literária em “O Aprendiz do Amor”, revelando publicamente uma literatura com tendência para a desilusão, vagando na complexidade do pensamento e desconfiada da razão. Inquieto, desanimado e confuso, parti para a Europa em 1994. Procurava respostas para questões incômodas. Encontrei algumas. Outras, talvez nunca encontre. No estrangeiro aprendi a importância da disciplina, do amor e da amizade. Sobrevivia no Velho Continente das entrevistas publicadas em jornais e revistas do Brasil (“Folha de S. Paulo”, “O Tempo”, “A Tarde”, “Continente Multicultural”, “Profashional”, “Tribuna do Norte” etc.) e de trabalhos despretensiosos: de cozinheiro na Andaluzia a modelo desnudo de escola de belas artes em Madri.

O amor é um belo delírio condenado à incerteza. O amor renasce quando menos se espera. O amor é aquilo que, ao mesmo tempo, nos cega e nos ilumina.
PEQUENAS HISTÓRIAS do DELÍRIO PECULIAR HUMANO (2012)

De fato, deixei-me contaminar por diferentes expressões artísticas. Existe um constante fluxo de influências entre o que escrevo e o cinema, teatro, música, artes plásticas. Desenvolvi este conceito de deslimitação dos modos de expressão. Esta é a essência da literatura que aprecio. “Se um Viajante Numa Espanha de Lorca”, publicado em Portugal em 2005, é um exemplo deste caminho pessoal de tendência deslimitadora de gêneros literários.

Colaborei com veículos de comunicação portugueses (“Diário de Notícias”, “Público”, “Jornal de Sintra”, “Foco”, “Veludo” etc.) e espanhóis (“La Vanguardia” etc.). Morei longas temporadas nos domínios de Fernando Pessoa (Lisboa, Sintra e Cascais), Espanha (Barcelona, Madri, Cádiz e Pontevedra), França (Paris) e Inglaterra (Londres). Em Portugal, publiquei três livros. Guardo na memória conversas fraternas, em terras lusas, com os escritores José Saramago e Maria Gabriela Llansol. Cobri festivais de cinema e encontros literários, entrevistando cerca de 200 celebridades, algumas premiadas com o Nobel ou o Oscar. Com espontaneidade, relatei viagens por trem, mar e auto-estradas. Enxergo cidades, mesmo as desaparecidas como Tróia ou Babilônia, nas vozes daqueles que as descrevem. Elas vivem por meio dos seus escritores, como eram, como foram um dia. A Paris de Proust está em seus livros. A Moscou de Leon Tolstoi, a Florença de Rilke, as terras do sem fim de Jorge Amado etc.

Em 1999, morando em Londres, entrevistei Doris Lessing, participei de sarau ao lado do maluco bardo beat Lawrence Ferlinghetti e interpretei poemas, peladão, no Naked Poetry (Poesia Nua). Ainda no país de Shakespeare, encontrei estima verdadeira na pele do jovem cientista político catalão Joan Sebastian Ribas. Vivemos juntos sete anos. A hora do adeus foi ingrata: aconteceu em um tribunal. Simples e brilhante, Joanzito fala naturalmente oito idiomas. Em 2003, de férias no Brasil, aceitei um inesperado trabalho na Petrobras, em um projeto terceirizado de comunicação; a seguir, os costumes potiguares, escrevendo a biografia do carismático poeta Diógenes da Cunha Lima. Ainda nos trópicos, investi na co-produção de shows e peças de teatro, em Salvador; e publiquei livros, entre eles, “ArtePalavra – Conversas no Velho Mundo” (2003). Colocando outra vez o pé na estrada vaguei por Andorra, Cuba, México, Escócia, Áustria e Grécia. Nesta época, troquei ideias com o escritor norte-americano Paul Bowles, no Marrocos, pouco tempo antes do seu falecimento; e passei meses lúdicos - quase hippies - na Alemanha, Itália e Açores.

Vem-me à cabeça uma imbecilidade: qual será o último livro que lerei antes do apocalipse pessoal e o que representará para os últimos instantes de vida?
SE UM VIAJANTE numa ESPANHA de LORCA (2005)

A relação entre criação e experiências mundo afora é óbvia na literatura. Infelizmente, os que partem e jamais voltam ou os que partem e regressam, os “estrangeirados” – como eu -, continuam a ser, embora mais atenuadamente, uma realidade que gera incomodo. Existe um aspecto tradicional no pensamento coletivo, uma inclinação para aceitar com reservas e suspeitas qualquer inovação. Fechamo-nos demasiado em torno de nós mesmos, em hábitos e rotinas com os quais abafamos o vazio, ou nos deixamos abalar pelo que vem de fora com suas peculiaridades. São facetas do jogo entre o novo e o tradicional, em que o antigo é mais novo do que se julga e o novo não tão novo assim quanto deixa supor. 

Outra vez no sul da Bahia, em 2008, procurei fazer a coisa certa como vice-diretor do Centro de Cultura Adonias Filho; escrevi por mais de um ano a polêmica coluna “Curto / Circuito”, no “Diário do Sul”; dirigi e apresentei o programa de colunismo social eletrônico “Fina Estampa”, na TV Itabuna; editei blogs informativos bastante visitados (“No Silêncio da Noite”, “El Gitano”, “Três Vezes Bahia” etc.); aceitei convites de bienais e festas literárias em distintas cidades brasileiras; e meu “Livro de Imagens” (2008) foi publicado pela Fundação Pedro Calmon, órgão cultural do governo baiano. Terminei por não me defender das emboscadas políticas com grandeza de alma, e ao perder a confiança nos valores vigentes parti mais uma vez.

O maravilhoso de viver é que há a possibilidade de surpresas primorosas. Depois de anos com o pé na estrada, acreditei em Natal – a Noiva do Sol, capital do Rio Grande do Norte - como o lugar imperativo para passar muitos anos. O campo propício para sonhos poéticos. Natal e seu sol ardente receberam-me de braços abertos, mudando o ciclo da minha vida em muitos sentidos. Cresci como ser humano, conheci uma nova cultura, fiz amigos, vivenciei uma belíssima e trágica história de amor, ganhei prêmios e título de cidadão natalense, publiquei livros e uma revista, além de serenar o coração impulsivo. Ando escrevendo sem pressa, ouço jazz e da casa diante do mar observo infinitos, estrelas cintilantes, a lua e a imensidão da maturidade.

Nunca me senti privilegiado ao entrevistar celebridades, muito pelo contrário, às vezes mergulho na crença de ser um estúpido paparazzi, um Marcello Mastroianni perseguindo famosos em “A Doce Vida”.
ARTEPALAVRA – CONVERSAS no VELHO MUNDO (2002)

Está em curso uma baderna do que entendemos por literatura. Os modos de dizer estão confusos. A discussão em torno da literatura tupiniquim ignora o essencial: o papel do escritor na sociedade. Gosto de pensar que somos uma espécie de reserva ética da humanidade, que deveríamos ser consultados por políticos. Enquanto guardiães de uma tradição antiquíssima, coloco-me como intérprete do imenso coração que tudo engloba.

Os escritores contemporâneos perderam o estatuto na sociedade, sobrevivendo entre o excêntrico e o toma lá dá cá. Quando há participação na coisa pública, muitas vezes detecta-se o puxa-saquismo, agravante da intolerável falta de moral. Um famigerado criminoso da guerra dos Bálcãs, com elevadas responsabilidades políticas, antes do conflito foi um reconhecido poeta. Vejo o escritor como um exorcista de demônios, nunca o demônio dele próprio. Talvez os escritores devam recuar para transcender, afinal escritores doutrinados, envolvidos na infâmia partidária, é frustrante e doloroso. É imperioso repensar o papel do escritor, embora me pareça que estamos condenados. Os escritores, creio, são uma espécie de anjos em uma humanidade anestesiada e esvaziada na sua profundeza. Acredito que fazer literatura é um bom remédio para sanar enfermidades íntimas e sociais.

todo desejo tem sua inocência
todo olhar um código
toda aventura um perigo
quem irá me surpreender?
LIVRO de IMAGENS (2009)

Escrever exige dedicação e concentração. Após o romance “Homem sem Caminho”, finalizado ano passado e inédito, mergulhei em um texto que está quase pronto, “O Idoso Desejado”, uma trama policial inspirada em um ancião inglês que vi sentado certa vez em um café de Tânger, fumando cachimbo e sorrindo compreensivamente para o que acontecia ao seu redor. Magro, seco, barba elegante, vestia-se discretamente e não tirou o chapéu. Havia fleuma e reserva nos olhos azuis que fitavam com brilho divertido, irônico até, a clientela local. Exalava calma, mistério e sabedoria pragmática anglo-saxônica. Aquele homem octogenário não tinha um grama de gordura a mais no corpo. Não se alimentava pelo prazer da degustação, mas pelo conhecimento exato e científico do mundo vegetal e animal.

Ao levantar-me, ele afastou a cadeira para eu passar, os nossos olhares se cruzaram, e foi neste momento que resolvi contar a sua possível história. Eu sempre quis ter um avô com quem conversar sobre as coisas estranhas do mundo, as coisas do peito e do pensamento. Um avô que me garantisse as portas da percepção, se abertas com cuidado e atenção, como amplos ciclos de vida, em uma visão ampliada do universo. Um avô que aprofundasse as virtudes da temperança e da harmonia, que penetrasse comigo nos segredos das paixões humanas, e não menos importante, que me ajudasse a tornar-me tolerante e compassivo comigo próprio e com os outros. Então, criei na ficção um garoto solitário que sonha com esse octagenário único, esse homem mais velho especial. Ao avistá-lo em seu trono ilusório, decidi raptá-lo, levando na memória ao templo da narrativa. É intriga que remete ao clássico “O Colecionador”, de John Fowles, ou “As Sete Mulheres de Barba-Azul”, de Anatole France. 


Tendo facilidade de adaptar-me a mudanças inesperadas, encaro desafios com encantamento. Gosto de renovações. Sem lamentações, o roteirista de cinema e TV que nunca deu para ser seria mestre em reviravoltas. Acredito em explorar territórios desconhecidos para encontrar a essência. Afinal, quem não corre riscos perde a chance de se surpreender. Escrever não é apenas sentar à mesa consigo mesmo, na solidão da noite. É escutar o espírito do mundo. Pode ser que, no fim da existência de carne e osso, deixe poucos rastros nítidos da passagem na terra, mas irei com o coração saciado, satisfeito com a fantasia aventureira; ciente que amei demais, escrevi mil e uma vezes, estudei, viajei, fortaleci a alma e li tudo o que pude, e ainda assim parti consciente de que nada sei.



fevereiro 21, 2018

................................................................. ANATOMIA da AUSÊNCIA

morvan frança por antonio nahud. 2014


A luz que de ti me vem
devolvo-a
amorosamente
a tudo quanto existe
ALBERTO de LACERDA
(Moçambique. 1928 - 2007)

Fotos: 
MAX WANGER
(Los Angeles, EUA. 1978)
e ANTONIO NAHUD

ouvindo Leonard Cohen

1
separação
TEMPOS que MUDAM

O pessimista deve inventar para si mesmo, a cada dia, outras razões para existir; é uma vítima do “sentido” da vida.
E.M. CIORAN
(Rășinari, Romênia. 1911 - 1995)

Não é fácil se refazer de uma história romântica. O fim da ronda do amor é como um sonho minado. Falo com conhecimento de causa, eu vivi em um campo de relâmpagos. Hoje, no fundo do coração, guardo a ternura - durante uns poucos anos - de um jovem fotógrafo de Minas Gerais. Creio que ele jamais soube como me esforcei para tornar nosso encontro sagrado, e sua própria existência menos tristonha. Entre o que vou revivendo e lembrando, entre eu que vivo aqui em cima e o moço cabeludo que morre lá embaixo, há poesia. “Me contradigo? Muito bem, me contradigo”, diz um verso de Walt Whitman. No momento, deitado em uma rede de veludo azul, deixo de lado a leitura do poeta e fico a observar um pássaro no alto da mangueira. Ele não é real, empoleira-se no jardim da memória. Esse jardim, resgatado de uma casa que nos abrigou, não é senão uma terra perdida no que se foi para sempre. Talvez a nostalgia, repentina e lírica, resulte de um presente em que compreendo alguma coisa do amor, não muito, desembaraçando-me do ressentimento.

Alguns fatos foram riscados pelo tempo, pela mente, pela medicação que apagou precisamente o que poderia ser desagradável, dando destaque ao lisonjeiro. De longe, parece mais convincente. À volta do jardim, até os limites da emoção, a memória voa revendo movimentos dos cabelos selvagens de MORVAN, surtos de criatividade, beijos na penumbra, olhares significativos, apertos de mãos às escondidas. Para além dos jogos telúricos, a fabulosa trajetória do nosso destino juntos algumas vezes esteve por um fio. O amado era exasperado, frágil como se fosse feito de cristal, e ousado, com conceitos originais que se diluíam na desordem dos dias. 

Como eu e tantos outros, marcava nos livros frases que considerava expressivas, como a de Friedrich Nietzsche encontrada dia desses: O desespero é o preço pago pela autoconsciência.. Ele existia no limite do mar inacessível. Banhava-se no niilismo. Sobrevivia porque estava em seu poder morrer quando lhe fosse conveniente. Nas semanas iniciais da união, em uma repentina crise de lágrimas, revelou-se indefeso, desiludido, rebelde - situação estranha que me deixou perturbado. Muito se passou, inclusive diversos anos. De consistente, permaneci com a ética da importância do estar vivo.

A luz solar nas dunas pinta o panorama com cores prateadas. Caminho pela praia urbana, pertinho de casa, apreciando o mar calmo, e em vez de falar sozinho sem propósito ou de lamentar a ausência, anoto recordações. Ainda não sei se confesso só pra mim ou pra nós dois. Para MORVAN degustar essas impressões sentimentais eu teria que saber onde está, e faz tempo que não sei. Em todo caso, está bem longe. Não sei bem se tais reminiscências são apropriadas, mas tenho confiança na importância do amor porque é sinal de transcendência. Depois de colados um ao outro por diversos anos, eu quis liberá-lo do que para ele talvez fosse um enigma, sem imaginar que o condenava ao desassossego. Queria que navegasse sozinho para que deixasse de pensar na vida como um fardo, um sacrifício.

Meu objetivo era um só, que ficasse bem e, por que não, em paz. “Estamos nos separando. Será que sobreviveremos?”, perguntei honestamente. Ele riu sem rir, beijou-me, e revidou: “Não está bem da cuca. Se cuide.”. Eu disse: “Siga sua felicidade.” E foi embora para sempre. Foi-se embora como se nada tivesse a ver comigo, como se não fosse mais seu. A partir daí, entre nós, não houve mais do que a separação. Passando a conviver com desconhecidos, no deserto existencial, não dizia o que sentia, encoberto, apático. O coração atrapado na teia da solidão. Eu pressentia, na época, que ele respirava crepúsculos.


A iniciativa foi minha para que fosse para longe, enfim, como ele queria, caminhar sem ninguém. Nunca pedi que mudasse hábitos. Nem ele interferiu na minha ilha literária. Naquelas semanas finais do romance, houve um lampejo, um frenesi. O que sei é que ele desejava mudar, e foi o caso de ajudar a fazê-lo. MORVAN permaneceu o mesmo, da primeira a derradeira das nossas horas, intacto, entre o denso, o amor e a fossa. Infelizmente, o amor que nos uniu não evitou a separação. Acreditei que sabia ler o que não está escrito. Enganamos=nos, resultando em uma farsa sofrida.

Homem de bom coração, procurava ser um sujeito simples. Ranzinza, repetia: “Inveja, vazio, indiferença - de tudo isso se compõe a vitalidade social.” Conservo CDs repletos de fotografias nossas. Dividimos espaços, desejos e quimeras. A chegada dele da universidade costumava ser uma das melhores atrações do dia. Entre sopa, cuscuz, macaxeira, coalhada, ovos, café, aconteciam as mais extraordinárias conversas. A gente falava sobre qualquer coisa, às vezes brotavam saraus poéticos feito flores brutas. Na intimidade, ele fazia escárnio da mesquinhez, da afetação, e principalmente do vazio dos colegas e conhecidos. Lembro-me do abraço robusto e dos afagos trocados, do afeto no olhar e nos gestos. Eu nunca vou me esquecer.

ana cláudia bezerra barros e morvan
Fecho os olhos e me vêm montes de livros, migalhas de cultura e de beleza, os jantares regados a vinho e o papo ameno, depois de uma sessão dupla de filmes (eu escolhia um clássico, ele um atual). Certa vez encantou-se pela antiga comédia “O Fantasma Apaixonado”, de 1947. Assistimos duas vezes, rindo como meninos travessos. Na trama, a viúva Lucy Muir (diva Gene Tierney) e sua filha (Natalie Wood) mudam-se para um chalé na costa inglesa assombrado pelo fantasma do antigo proprietário, um capitão da Marinha (excelente Rex Harrison). Lucy fica sem dinheiro, e o fantasma resolve ajudá-la a escrever um livro baseado em suas aventuras, gerando uma atração além do céu e da terra. Essa adorável produção da Fox, dirigida pelo mestre Joseph L. Mankiewicz, fez parte da nossa vivência enamorada, enfeitiçada por intermináveis tertúlias cinematográficas, religiosas, políticas, literárias, filosóficas. Varávamos noites celebrando a palavra, a arte e o querer bem.

Dizia-se ateu, mas tenho dúvidas. Não apreciava políticos, considerando Lula da Silva um verme. Falava que só mesmo o comprometimento - ou melhor, o fanatismo - ideológico podia justificar a inocência do ex-presidente petista. “Há coisas que eu não tenho provas”, desabafava. “Não tenho provas porque os jornais que informam sobre Lula são jornais do sistema, um sistema de esquerda, socialista.” Renegava o Partido das Trevas, desconsiderando o jeito de pensar e agir da sigla. Não valorizava os populistas de esquerda ou direita, aqui e em lugar nenhum. No fundo, não tinha real interesse político.

foto de morvan frança
Achava que doutrinação não constrói nada de bom. Retratou a universidade em São João del-Rei como refúgio de socialistas-comunistas, professores e alunos doutrinados, personagens de George Orwell. O estudante fazia de conta que estava tudo bem, na onda da galera, acompanhando colegas em manifestações e palestras, dormindo em acampamento do MST. No entanto, não se deixou iludir. Os argumentos eram incisivos: “Lula, Dilma e companhia são a escória que deixou o Brasil de joelhos perante criminosos de colarinho branco e bandidos de rua que assaltam e matam pessoas inocentes.” Tinha uma birra homérica da Dilma. “É só vê-la discursar para perceber que a esquerda é uma farsa”, gozava. “Eleger um troço desse não dá.” Também não apreciava Aécio. Não tinha a menor consideração.

Companheiro lúcido, cúmplice, apaixonado. Talvez ele volte, apesar de tudo, dizia pra mim mesmo após a separação. Até não saber mais nada sobre ele, seguindo a rotina terrivelmente fatigado, decepcionado. 

morvan por antonio nahud. 2014
2
suicídio
ELE DEBAIXO da TERRA, EU em CIMA

O fim só a Deus pertence e não tem corpo.
ANTÓNIO BARAHONA
(Lisboa, Portugal. 1939)

A morte transforma tudo. Enquanto um homem for vivo não se sabe exatamente aquilo o que ele é. Uma vez morto, fora do espetáculo, passa a ser retrato 3X4 no museu imaginário da história da humanidade. Naquela manhã, a janela escancarada da sala exibia a infinita vegetação da reserva militar. Vista do alto, parecia miragem. Ninguém visível nas proximidades. Rilke, black persa, nosso felino, mostrava-se inquieto, e não era o habitual. Fala-se que o infortúnio aconteceu na noite de 7 de julho de 2016. Enforcou-se à beira-mar, em Galinhos, no bucólico vilarejo que nos fazia afortunados. A notícia nefasta me feriu fatalmente. Fui cortado a navalha. Ele morto. Rilke olhando para mim. Podia olhar quanto vezes quisesse, ele estava morto. Por mais que eu chorasse, não acreditava. Mas acabou. Ele não estaria aqui outra vez. Deixou mensagem despedindo-se, mais ou menos assim, não me recordo bem: “Meu caminho terminou. Aqui eu paro. Está tudo bem. Ninguém tem culpa. Cansei da humanidade”.

morvan por a. nahud. lagoa encantada,
bahia. 2013
Duvidei do seu fim. Não vi a carne em decomposição após dois dias - de sol escaldante - pendurado em uma casa humilde na Rua Ilha Amarra Negra, centro da comunidade de pescadores. O túmulo não me convenceu. Não acreditava que tivesse tirado a vida em uma rua chamada Ilha Amarra Negra. Soava contraditório. Não podia ter acontecido. Encontrado com camisa e bermuda pretas, larvas pelo corpo, com projeção do globo ocular e língua, morreu por asfixia provocada pelo enforcamento. Esse homem especial tinha somente 29 anos. O desaparecimento deixou saudade. Se agora ouvisse o ronco da motocicleta e ele entrasse! Parece-me que esses instantes em que eu de fato escutei a moto e seus passos a seguir foram os mais felizes de minha vida inteira. 

O dia se arrasta vagaroso, enquanto envelheço na nômade solidão das aves. Por onde anda? Que caminho tomou e que escolha fez? Perde a sensibilidade, o bom senso, o olhar crítico ou a razão quem convive com o amor e que repentinamente dele abre mão como um pássaro que voa? Nos conhecemos em um verão potiguar, e como gente criativa, era natural o interesse pelas linguagens artísticas. Frequentávamos os espaços culturais da cidade, discutindo, com sensibilidade, aquilo que víamos. 

O orgulho era o seu ponto débil, teimando em se distanciar de Deus, das regras sociais, do sistema, dos sentimentos conservadores. Era uma questão de temperamento. Mas isso é orgulho, eu dizia, alfinetando. E insistia: é um tanto estúpido, uma atitude ingênua, uma atitude romanesca. Fugitivos do convencional urbano, procurávamos lagoas paradisíacas, e depois do banho rejuvenescedor, já relaxados, a gente deitava na areia, de mãos dadas, como anjos vencidos, em silêncio, e só despertávamos do transe pelos raios ofuscantes do sol. Ele aproveitava a oportunidade para captar imagens únicas. Sua sensibilidade estética me fascina. O efeito etéreo e mágico de sua obra a torna única e inconfundível. São fotografias minimalistas e mágicas que só podem ser definidas no superlativo. Nessas aventuras longe da capital, devorávamos com excelente apetite provisões de frutas e vinho. A vida nos parecia como é (ou devia ser): cheia de beleza e boa de viver. Para nossa desilusão, nem sempre foi assim.

morvan-jim
Enganados por alucinações, sofremos injúrias. E quando alguém está sendo perseguido, detesta o que lhe acontece, detesta as pessoas que causam isso – está num mundo de terror. Suspeita até do amor, acha que deve existir alguma coisa por trás... uma traição... uma segunda intenção... uma armadilha... Eu fui informado do seu falecimento através de uma rede social. Nada sabia dele fazia tempo. Quando tentavam contar-me fuxico, evitava a maledicência com diplomacia. Meses antes, perto da mudança para Galinhos, ele me procurou. Estava triste. Ficava inesperadamente em silêncio. Estava com medo. Medo de nós. Do que nos poderia acontecer. Eu não me rendi, receoso das inesperadas represálias do destino. No caso, não havia possibilidade de retorno. Até o gato Rilke sabia dessa verdade, fingindo acostumar-se com a ausência.

Fã absoluto de Jim Morrison, poeta e vocalista da banda de rock psicodélico “The Doors”, indiretamente influenciei o moço mineiro a amá-lo. Ao visitar Paris, não deixo de ir ao túmulo do roqueiro, no Cemitério do Père-Lachaise, lendo Charles Baudelaire e Arthur Rimbaud. Certa vez, surpreso diante do show doméstico, aplaudi com ênfase MORVAN interpretando sensualmente poemas do roqueiro. Pena que não permitiu ser filmado. Em um aniversário meu, à fantasia, surgiu de Jim. Parecia reencarnação. Ao saber da sua morte, coloquei Jim nas alturas, dancei e chorei, chorei e dancei, como chorei, pelos menos uns cinco dias estupidamente aos prantos. Jorrava como se fosse água.

morvan frança por antonio nahud. maxaranguape, rn. 2013

3
assombro
O TEMPO não APAGA

Em nada te acrescento; o meu amor
Não pode adiantar-te ou comover-te.
Aqui estão os meus fins nas tuas mãos.
Ensina-me os meus sins com os teus nãos.
DANIEL JONAS
(Porto, Portugal. 1973)

Estremeci, como se alguém me tivesse tocado no ombro. Não era ninguém, e o dia acordava na ponta dos pés. Ainda embalado com as encantações da noite, senti estar sendo observado. Não planejei encontros póstumos, mas o inacreditável nascia no fato de senti-lo próximo. Procurei não deixar me dominar pelo assombro, permanecendo tranquilo. Não senti medo. Desconfiava que os seus dias na Terra seriam curtos. Andava por um triz. Eu costumava inventar artifícios para empolgá-lo. Ele era inadaptado, apreciador e defensor das diversas manifestações culturais, voltado para os aspectos sensíveis e humanistas. Inteligente, respeitava e defendia as minorias. Eram reveladoras nossas incursões pelo interior do Rio Grande do Norte. Dois amantes ávidos de poesia e aventuras, algumas inocentes, outras nem tanto.

morvan por a. nahud.
chapada diamantina, bahia, 2012.
Lembro-me dos passeios a bordo do barco Paraíso Perdido. De motocicleta, desbravamos caminhos rurais no Nordeste brasileiro. Estacionada a moto na paisagem bonita, ali ficávamos curtindo os cenários e imaginando, entre outras coisas, um futuro cada vez mais plural, livre de preconceitos e armadilhas. Possivelmente menos provinciano. Semanas após o infeliz enforcamento, passou a visitar-me em sonhos, calafrios, sombras, sussurros, sinais. Tudo perfeitamente telúrico, atraente e misterioso como um thriller de Amenábar. Se eu falasse detalhadamente sobre isso, se eu o fizesse, o que eu falaria? Eu falaria sobre devaneios lambuzados de erotismo? Aconteceu muitas vezes, mudando apenas o panorama, às vezes mar, outros na montanha ou floresta. Nos sonhos, beirando o aquático, repetem-se águas (mar, rio, fonte), luz solar e uma pequena, antiga e encantadora cidadela. 

Falo sobre a veracidade dos fatos. Falo sobre um conto de amor e perda. Falo sobre uma separação amarga e uma morte grotesca. A passagem da vida a não-vida é triste. MORVAN um dia desapareceu. Partiu para todo o sempre ciente de que o mundo continuaria com os mesmos oceanos à volta, as mesmas fomes, as mesmas injustiças, as mesmas mentiras, os mesmos prejuízos. Nenhum outro amor me marcou tanto. No dia a dia, ao pensar nele, de imediato me vem uma sensação de bons sentimentos e um poema anônimo, que ouvi dos seus próprios lábios:

foto de morvan frança

esperar que voltes é tão inútil como o
sorriso escancarado dos mortos na
necrologia dos jornais

e no entanto    de cada vez que
a noite se rasga em barulhos no elevador e
um telefone se debruça de um sexto andar

sinto que ainda ficou uma palavra minha
esquecida na tua boca

e que vais voltar
para
a
devolver

A história de um amor cristalino e do pior dos infortúnios chega ao fim. Então adeus. Adeus. Adeus, MORVAN.


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Ele costumava copiar poema à mão, deixando em local estratégico para que eu, ao acaso, o encontrasse. Acertava na seleção, pois apreciei todos eles. Além de galante, a atitude de MORVAN era proveitosa: ao desconhecer a maioria dos bardos, eu procurava garimpar sua poética. Confira abaixo onze deles. Excelentes, e praticamente desconhecidos no Brasil.

POEMA 1
31, 23, WHATEVER

Tenho 31 anos e estou cansado.
Todos os sítios me vão parecendo, finalmente,
igualmente maus.
Todas as pessoas, incluindo as que gostam de mim,
insuportáveis.
Não encontro sentido nem para o que faço
nem para as coisas que deixo por fazer.
Olho para os outros
com a absoluta certeza de quem vê
não semelhantes,
serenos, resignados, envilecidos extraterrestres.
Olho para mim
e sinto-me como se não tivesse outros com quem partilhar.
Para onde quer que eu olhe,
a insuportável mentira que faz ninho, germina, destila
este tempo, este país, este modo de viver
a que chamam
progressista, tolerante, solidário, democrático,
avançado, europeu, e melhor e melhor
que todos os existidos,
que todos os possíveis.
Este modo de viver
onde falta tudo o que foi nomeado.
Que desfez a classe trabalhadora sem uma única bala,
que encarcerou as consciências sem uma única grade,
que me afasta sem um único cassetete,
que me exclui sem um ferro candente,
sem sequer uma estrela amarela na lapela.

Este tempo
de trajes novos,
de Imperadores.

ANTONIO ORIHUELA
(Moguer, Espanha. 1965)


POEMA 2

Virá a morte e terá os teus olhos -
esta morte que nos acompanha de manhã à noite, insone
surda como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma vã palavra,
um grito mudo, um silêncio.
Assim os vês, cada manhã
quando te inclinas só
ante o espelho. Oh querida esperança,
naquele dia saberemos também nós,
que és a vida e és o nada.

Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como largar um vício,
como ver no espelho
ressurgir um rosto morto,
como escutar uns lábios fechados.
Desceremos o remoinho, mudos.

CESARE PAVESE
(Santo Stefano Belbo, Itália. 1908 - 1950)

roberta reis, morvan e fahda maron



POEMA 3
A NOSSA VEZ

Outros virão depois de nós,

Mais pacientes, mais teimosos,
Mais fortes ou mais hábeis.

Hão-de saber extrair à terra
Mais do que nós.

E hão-de ter como suporte
O canto que foi cantado

Quando era a nossa vez.

EUGÈNE GUILLEVIC
(Carnac, França. 1907 - 1997)


POEMA 4
NÃO é QUE MORRA de AMOR, MORRO de TI

Morro de ti, amor, de amor de ti,
da urgência da minha pele de ti,
da minha alma de ti e da minha boca
e do insuportável que sou sem ti.

Morro de ti e de mim, morro de ambos,
de nós, desse,
desgarrado, partido,
me morro, te morro, nos morremos.

Morremos no meu quarto em que estou só,
na minha calma em que faltas,
na rua onde o meu abraço vai vazio,
no cinema e nos parques, nos elétricos,
nos lugares onde o meu ombro serve de almofada à tua cabeça
e a minha mão tua mão
e tudo isso te sei como eu mesmo.

Morremos no sítio que emprestei ao ar
para que estejas fora de mim
e no lugar onde o ar se acaba
quando te deito a minha pele por cima
e nos conhecemos em nós, separados do mundo,
ditosa, penetrada e também interminável.

Morremos, sabemo-lo, ignoram-no, nos morremos
entre os dois, agora, separados
de um para o outro, diariamente,
caindo-nos em múltiplas estátuas
em gestos que não vemos
em nossas mãos que nos necessitam.

Nos morremos amor, morro em teu ventre
que não mordo nem beijo
nas tuas coxas dulcíssimas e vivas
na tua carne sem fim, morro de máscaras
de triângulos obscuros e incessantes.
Morro do meu corpo e do teu corpo,
da nossa morte, amor, morro, morremos
no poço do amor a todas as horas,
inconsolável, aos gritos,
dentro de mim, quero dizer, te chamo
te chamam os que nascem, os que vêm
de trás, de ti, os que a ti chegam.
Nos morremos, amor, e nada fazemos
senão morrermos mais, hora após hora,
e escrevermos e falarmos e morrermos.

JAIME SABINES
(Tuxtla Gutiérrez, México. 1926 - 1999)


POEMA 5
PARA FAZER o RETRATO de UM PÁSSARO

Pinta primeiro uma gaiola
com a porta aberta
pinta a seguir
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro.
Agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta.
Esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada
sem te mexeres…
Às vezes o pássaro não demora
mas pode também levar anos
antes que se decida.
Não deves desanimar
espera
espera anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro.
Quando o pássaro chegar
se chegar
mergulha no mais fundo silêncio
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho
com o pincel.
Depois
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar nalguma das penas
Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
e agora espera que o pássaro se decida a cantar.
Se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar.
Então arranca com muito cuidado
uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro.

JACQUES PRÉVERT
(Neuilly-sur-Seine, França. 1900 - 1977)


rodrigo klyngerr, luciana oliveira e morvan

POEMA 6
A LIFE of ERRANDS

If You Are Lucky
You Will Grow Old
And Live
A Life of Errands.
You Will Discern
What People Need
And Provide It
Before They Ask.
You Will Drive Your Car
Here And There
Delivering and Fetching
And Neither The Traffic
Not The Weather
Will Bother You
In the Least.
You Will Whip Down
The 405
To San Diego
To Pick Up An Acorn
For Someone's Proverb
And So On And So Forth.
In Spite Of The Ache
In Your Heart
About The Girl You
Never Found
And The Fact That
After Years Of
Spiritual Rigour
You Did Not Manage
To Enlighten Yourself
A Certain Cheerfulness
Will Begin To
Arise Out Of Your Crushed
Hopes And Intentions.
How Thirstily
You Embrace Your
Next Commission:
To Sift Through
The Sunglasses
At A Lost And Found
In Las Vegas
Just A Few Hours
Across The Desert.
Your Hair Is White
You Have Breasts
And A Gut
Over Your Belt
You Are No Longer A Boy,
Or Even A Man
But A Sense Of Gratitude
Enlivens Every Move
You Make.
Yes, Sir, These Are The
Very Gold-Rimmed Pair
She Left In The Plastic Tray
Beside The Dollar
Slot Machines.
No, Sir, I Am Not Lying.

LEONARD COHEN
(Westmount, Canadá. 1934 - 2016)


POEMA 7

A luz no lago, esconde-se atrás do muro,
Invadem o quarto os cheiros misturados das flores.
Na borda do biombo, o pó que a borboleta espalhou,
Na janela lacada, a mancha amarela da abelha.
Deixa esses papéis oficiais para os escriturários,
Há um criado para cada funcionário público honesto.
Vamos de cavalgada ouvir os poemas um do outro.
Que há de tão urgente nesses assuntos em que perdes o coração?

LI SHANG-YIN
(Qinyang, China. 813 d.C. - 858 d.C.)

antonio nahud e morvan frança

POEMA 8

como lobos em período de seca
crescemos por toda a parte
amamos a chuva
amamos o outono
um dia até pensamos
em enviar uma carta de agradecimento ao céu
com uma folha de outono como selo de correio
acreditávamos que as montanhas desapareceriam
os mares se dissipariam
apenas o amor seria eterno
de súbito separamo-nos
ela gostava de sofás compridos
e eu de longos navios
ela gostava de sussurrar e suspirar nos cafés
eu gostava de saltar e gritar nas ruas
e, apesar de tudo,
os meus braços vastos como o universo
estão à espera dele

MUHAMMAD AL-MAGHUT
(Salamiyeh, Síria. 1934 - 2006)

POEMA 9
«CÂNTICO NEGRO»

Cago na juventude e na contestação
e também me cago em Jean-Luc Godard.
Minha alma é um gabinete secreto
e murado à prova de som
e de Mao-Tsé-Tung. Pelas paredes
nem uma só gravura de Lichtenstein
ou Warhol. Nas prateleiras
entre livros bafientos e descoloridos
não encontrareis decerto os nomes
de Marcuse e Cohn-Bendit. Nebulosos
volumes  de qualquer filósofo
maldito, vários poetas graves
e solenes, recrutados entre chineses
do período T'ang, isabelinos,
arcaicos, renascentistas, protonotários
– esses abundam. De pop apenas
o saltar da rolha na garrafa
de verdasco. Porque eu teimo,
recuso e não alinho. Sou só.
Não parcialmente, mas rigorosamente
só, anomalia desértica em plena leiva.
Não entro na forma, não acerto o passo,
não submeto a dureza agreste do que escrevo
ao sabor da maioria. Prefiro as minorias.
De alguns. De poucos. De um só se necessário
for. Tenho esperança porém; um dia
compreendereis o significado profundo da minha
originalidade: I am really the Underground.

RUI KNOPFLI
(Inhambane, Moçambique. 1932 - 1997)


POEMA 10
INÍCIO ESQUECIDO

Num tapete de água
vou bordando os meus dias,
os meus deuses e as minhas doenças.

Num tapete de verdura
vou bordando os meus sofrimentos vermelhos,
as minhas manhãs azuis,
as minhas aldeias amarelas e os meus pães de mel amarelos também.

Num tapete de terra
vou bordando a minha efemeridade.
Nele vou bordando a minha noite
e a minha fome,
e a minha tristeza
e o navio de guerra dos meus desesperos,
que vai deslizando p’ra mil outras águas,
para as águas do desassossego,
para as águas da imortalidade.

THOMAS BERNHARD
(Heerlen, Países Baixos. 1931 - 1989)

POEMA 11
BASTA

Viver não basta queremos sonhar
em jardins encantados florestas com árvores
que transformam serras mecânicas em rosas e pão

Andar não basta queremos pairar
sobre ruas em que tanques e porta-aviões
se desfazem em leite e mel

Comer não basta queremos beijar
gente bela basta que
seja gente.

ULLA HAHN
(Kirchhundem, Alemanha. 1945)



No RIO SENA
paris, frança
2016