junho 25, 2012

................................................................ TRÊS MULHERES GRAPIÚNAS

alceu pólvora

CANDINHA DORIA
(atriz)

nahud e candinha

Considerada a primeira da história do teatro itabunense, Maria Cândida Pereira Doria subiu ao palco pela primeira vez aos sete anos de idade. Senhora apaixonante, de vida intimamente ligada à arte, destacou-se na ribalta grapiúna dos anos 1960. Sempre elegante, ela esteve na inauguração de uma das minhas exposições de pintura, “Destroços da Realidade”,1988, e no lançamento do meu primeiro livro, “O Aprendiz do Amor”, 1993. Longe de Itabuna, quando passava por lá ia visitá-la no Centro de Cultura Adonias Filho. 

No final dos anos 1980, CANDINHA DORIA me disse que pensava em voltar à atuar, na pele da Amanda Wingfield de “À Margem da Vida”, de Tennessee Williams. Infelizmente, não concretizou o sonho. Em 2005, ela partiu para o outro lado da lua, aos 95 anos. Nós sabemos o que perdemos. Deixou uma lacuna que talvez nunca seja preenchida, pois artistas humanistas de sua envergadura não se fabricam mais e dificilmente terão alguma chance de vingar no pântano atual do individualismo e da maledicência. Aleluia, Candinha! Saudades!

EVA LIMA
(atriz e produtora cultural)

O teatro sobrevive no território da emoção. Atraído desde sempre por este universo libertário, escrevi peças para algumas atrizes (“Das Sombras”, para Daniela Escobar; “Águas, Luas Doidas”, para Eva Lima; “Sonhos que Mentem”, para Rita Assemany; e “Duas Mulheres Bem Comportadas”, para Cláudia Magalhães). O texto que fiz para a espevitada EVA LIMA se perdeu. Uma pena, tinha o seu encanto. Contava a história da governanta do escritor francês Marcel Proust, então nos seus últimos dias de vida. Também não existe cópia de um vídeo-poema que dirigi para a TV Cabrália (Bahia) com Eva como protagonista, versos de Cyro de Mattos e música de Erick Satie. 

A trajetória dessa atriz iluminada começou na primeira metade da década de 1980. Projetou-se como uma das referências do teatro grapiúna. Entre o sonho de artista e a difícil arte da sobrevivência, atuou em “Transe”, “Itabuna Alves do Amor Divino”, “A Feira”, “Dona Flor e seus Dois Maridos” etc. Como a prostituta Ana de Amsterdã de “Calabar – Elogio da Traição”, de Ruy Guerra e Chico Buarque de Holanda, na Sala Zélia Lessa, primou pela pela sensibilidade exata. Depois de temporada fértil em Salvador, participando inclusive de filmes (a sua cena em “Eu Me Lembro”, de Edgard Navarro, é inesquecível), voltou a morar em Itabuna, virando a cidade de cabeça pra baixo como valorosa produtora cultural. 


A arte transforma mentes e corações. A arte existe, justamente, para ser uma manifestação diferenciada do corriqueiro, do demasiado humano. Através de metáforas, alegorias e recursos estilísticos, o milenar teatro existe pela perseverança de gente talentosa como Eva Lima. Bravo, Evita!


SONIA COUTINHO
(escritora e dramaturga)

Não nego o fascínio pela literatura da itabunense Sonia Coutinho. Ainda estudante, ao bater com os olhos pela primeira vez em suas palavras nunca mais deixei de admirá-las. A obra em questão, “O Jogo de Ifá”, de 1980, faz referências a deusas e divindades do universo afro-brasileiro. SONIA COUTINHO pertence a frutífera geração de Hélio Pólvora, Florisvaldo Mattos, Cyro de Mattos e Telmo Padilha. Com ênfase no psicológico, suas protagonistas são mulheres independentes, aventureiras, artistas, jornalistas e intelectuais. Radicada no Rio de Janeiro, a contista e romancista (também jornalista e tradutora) se dedica a prosa que traduz o fluxo de consciência, como na antologia de contos “Os Venenos de Lucrécia”.

Premiada duas vezes com o Jabuti da ABL, recebeu em 1994 o título de Mestre em Teoria da Comunicação com a tese-ensaio “Rainha do Crime — Ótica Feminina no Romance Policial”. Em 2008, adaptei um dos seus contos para o teatro, “Na Penumbra com a Deusa Loura”, direção de Matheus Saron. Foi a aproximação mais íntima que tive com a autora. Nunca cheguei a conhecê-la pessoalmente. Decepcionada, ela não pisa os pés em Itabuna. Compreendo perfeitamente. 

junho 17, 2012

....................................................... O ELOGIO DA VIAGEM

miró
Uma das melhores sensações da vida é a de chegar a uma cidade desconhecida e tentar perceber-lhe os contornos. A expectativa da diferença da língua, dos costumes, dos rostos, da paisagem. Uma estrada nova desenhada pelos nossos medos, impulsos e finalidades, um vestígio de infância e do sentido de descoberta que os meninos conhecem e os homens crescidos ignoram. Na idade adulta, só o amor provoca essa estranheza, essa agonia de estar sem desejar estar, de partir sem saber para onde, de ir sem perguntar. Peter Pan que sou, não aceito a morte do desejo de viajar, não aceito lugares onde o meu coração não pulsa. A viagem é uma porta sempre aberta, uma lâmpada que arde na noite sem se apagar, um mistério como uma chuva de estrelas cadentes. A viagem é como um par de asas que substitui sapatos. Nos dias de tédio, de revolta contra os políticos que fingem que nada é culpa deles, de angústia provocada pela barbárie de todos os preconceitos, conforto-me com as recordações de viagem, levando-me a alegrias serenas. Em geral, o ruim é esquecido. Não há nada mais enfadonho do que falar de problemas na alfândega, da sujeira das ruas de Roma ou da péssima comida de Londres. Viajar significa contar o sublime do visto e vivido, aprender com o desconhecido ou somente fugir da rotina cotidiana?

Lembro com embevecimento do canto do Alcorão numa noite marroquina, do inverno nos Pirineus espanhóis, da casa em Londres de Vivien Leigh (a mimada Scarlet O’Hara de “...E o Vento Levou”), dos antros delirantes do Bairro Alto lisboeta, do cheiro de cacau na rodovia Ilhéus-Itabuna, das dunas intermináveis de Galinhos, das noites poéticas de Sintra, de um encontro místico no parque El Retiro em Madri, de certas identificações com museus e livrarias parisienses, de um barco durante uma estranha madrugada de lua cheia em Boipeba, da magia da Floresta Negra na Alemanha, dos bosques austríacos montanhosos, de daiquiris em Cuba e museus italianos. Não viajar é evitar o imprevisto. Viajar limpa a alma, aclara o pensamento. O desconhecido autoriza-nos a enxergarmos diferente, sem as contrariedades e os naufrágios do cotidiano. A viagem deixa-nos livres para sermos poéticos e falharmos à vontade. Livres para procurarmos o que não existe. Viajar é um santo remédio contra o provincianismo, a monotonia ou a maledicência de quem não tem mais o que fazer. Foi com o pé na estrada que muitos escritores e poetas construíram sua obra: Michaux, Algiéras, Rimbaud, Ginsberg, Whitman, Gide etc. No dia em que eu não puder viajar, nem aquela viagem interior que é a do leitor de livros, o mundo terá para mim o tamanho de uma pequena gaiola de aço, e eu serei um pássaro mudo. Mas não quero pensar nessa impossibilidade, prefiro ver-me como um poeta-aventureiro até o último dos meus dias.

armstrong
Cada viajante tem a sua arte. Como dizia Paul Bowles e Bruce Chatwin, grandes escritores-viajantes ou vice-versa, “o importante é ser viajante, nunca turista”. O turismo vive de folclore e vaidades, destruindo simultaneamente as cidades litorâneas do nordeste brasileiro como as selvas de Costa Rica para construir hotéis, arrecadar muito dinheiro e operar como bálsamo para uma classe acomodada entediada. É só comparar, por exemplo, Pipa ou Porto Seguro, o que foram um dia com o que são hoje. Tenho a sorte de ter elegido uma profissão que me permite viajar, abrindo os olhos para a beleza das coisas simples da vida. Eu gosto de explorar as cidades de noite e de madrugada. Nunca deixo de ir ao cinema ou ao teatro mesmo que não entenda o idioma. As igrejas e os templos fora da rota turística são indispensáveis, assim como os mercados populares, as zonas sórdidas, os cemitérios, os bares frequentados por artistas fracassados, os mosteiros, os bosques e os rios. Não se descobre segredos de um mundo que já está descoberto. Visitar a Torre Eiffell ou o Corcovado é pura redundância. É enfadonho visitar muitos monumentos em poucas horas, gastar rolos de fotografias, ouvir o lengalenga de guias. Bom é passear suavemente, sem destino, parar, observar.

É preciso viajar para deixar a cabeça girar e evoluir o cérebro. Primeiro elegendo um destino como se elege um amante. Haverá que intuir, perguntar, ler, arriscar. Conheço muita gente que procura impor a sua forma burguesa de férias. Falam de compras fantásticas em Nova York, discotecas enlouquecidas em Ibiza e hotéis de sonho em Cancun. Os cruzados da Idade Média viajavam para salvar a alma e viver aventuras. Os turistas obcecados pelo consumo apenas enganam o vazio de suas existências. Viajar é pedir pouco, não ter medo, apostar no inesperado, compreender que o movimento cura a melancolia. Como dizia Robert Louis Stevenson, outro escritor-viajante, “quando viajo peço somente o céu sob meu corpo e um caminho para os meus pés”.

Pela primeira vez em Londres hospedei-me no apartamento de um velho amigo de infância, um escultor, na agradável Wimbledon. Ele preparava jantares perfeitos, dava dicas das melhores galerias e chamava-me para ver os debates da inteligente Germaine Greer na BBC. Não era bem o que queria. Mudei-me para um prédio vitoriano invadido por jovens, sem energia elétrica, aquecimento ou água canalizada, num turbulento bairro de negros e imigrantes: Elephant and Castle. Do meu imenso quarto no último andar, iluminado por velas em candelabros, escrevi diversos poemas e organizei reuniões festivas. Banhava-me em banheiros públicos. Bastante divertido e enriquecedor, e eu só deixei-o quando neo-nazistas ameaçaram atear fogo no local. Eles haviam queimado uma família de hindus uma semana antes. Perigos existem, mas o êxito de uma viagem depende principalmente do aprendizado, da paixão, da descoberta e nada disso se encontra em grupos turísticos ou numa loja de souvenires. Deixo de lado as mordomias dos nossos costumes burgueses e parto para o desconhecido. Ou seja, viajo sem problemas pré-concebidos. O que posso dizer com a experiência própria de anos como viajante, é que minha vida cresceu e minha origem é só uma peça que completa meu quebra-cabeças interior. Entre outras coisas porque minha memória - intelectual, espiritual, erótica - tornou-me um sem pátria.

vladimir kush

junho 02, 2012

.. HILDA HILST: DESEJO DE COMPREENDER E SER COMPREENDIDA

hilda hilst
Genial, mística, irreverente. A escritora paulista HILDA HILST morreu aos 74 anos, em 2004. No início da década de 1990, inquilino na Casa do Sol, Parque Xangrilá, Campinas (SP), compartilhei segredos, vontades, pavores da autora de “Qadós” (1973). A residência da poeta não tinha tapetes no chão, nem cortinas nas amplas janelas. O fungo desenhava mapas miúdos nas paredes. Floresta majestosa de livros, papéis, lápis coloridos, canetas orientais, cristais, caixas, arcas, armários coloniais, uma lareira habitada por morcegos. No jardim, palmeiras, mangueiras, figueira centenária que atendia súplicas. Compromissada com presságios e premonições, entre viagens astrais e prognósticos, a majestosa senhora enxergava bolas douradas e nebulosos vultos de lábios violáceos em trajes de época. Quando não estava aborrecida, em noites de finíssimo timing cômico, a poeta recordava o passado frenético, cavando um fosso entre lenda e realidade.

nahud, sergio, hilda e aldo dantas

Após inúmeras farras, aos 34 anos, impressionada com a leitura de “Cartas a El Greco”, do grego Nikos Kazantzákis, isolou-se em Campinas. Ela começou a escrever para se livrar do fantasma da esquizofrenia. Por causa do pavor, fez da palavra uma experiência espiritualizada, múltipla em fervor místico, em metafísica e indagação filosófica. O grotesco e o lúdico, aliados a erudição e ao experimentalismo visceral da linguagem. Numa liberdade diante da sintaxe, muitos períodos hilstianos são incompletos, e a pontuação segue lógica particular. Ela precisa que o leitor aceite a palavra que lhe é ofertada, tornando-se capaz de atentar ao sentido da própria existência, num contraponto ostensivo à mediocridade. Na poesia, prosa de ficção, teatro ou crônicas, HILDA HILST demonstra que há salvação possível a partir do esforço individual motivado pelo desejo transcendente de conhecimento. Uma obra imperdível.


QUATRO VEZES HILST

“eu Nada, eu nome de Ninguém, eu à procura da luz numa cegueira silenciosa” 
de “A Obscena Senhora D”

“Ah. Vontade de sacudir a todos. Como é que suportam esse buraco vazio? Como é possível ir até o fim da própria vida sem perguntar ao menos: por que é que estou vivo?” 
de “Tu Não Te Moves de Ti”

“Eu sou aquele que é, o Homem disse. Eu sou aquele que não, eu digo. O nu. Sem nada. O todo partido, partindo a palavra. O que vê o mar, o céu mas não vê nada. O cego. O que se faz presente pela ausência. O acrobata sobre os fios do tempo. Segura-se aqui ali nas texturas da seda, esgarça o eu segura, despenca. O corpo da linguagem. O meu corpo.” 
de “Kadosh”

“É triste explicar um poema. É inútil também. Um poema não se explica. É como um soco. E, se for perfeito, te alimenta para toda a vida. Um soco certamente te acorda e, se for em cheio, faz cair tua máscara, essa frívola, repugnante, empolada máscara que tentamos manter para atrair ou assustar. Se pelo menos um amante da poesia foi atingido e levantou de cara limpa depois de ler minhas esbraseadas evidências líricas, escreva, apenas isso: fui atingido. E aí sim vou beber, porque há de ser festa aquilo que na Terra me pareceu exílio: o ofício de Poeta.” 
de “Cascos & Carícias & Outras Crônicas”

nahud e hilda
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