dezembro 12, 2016

****** POESIA-BRASIL: 20 LIVROS PARA NOS LEVAR ALÉM



Ilustrações:
ALEXANDER CALDER
(1898 - 1976)
e GIANNI SARCONE
(1962)


20 LIVROS de POESIA BRASILEIRA, por Antonio Nahud

O poeta Ferreira Gullar, recentemente falecido, partilhava da opinião de quem se faz poeta cria um mundo paralelo: mais bonito, mais intenso, mais significativo, bem acima da realidade imediata. Através da poesia muitos autores encontram condições para expressar sentimentos típicos da alma humana. No entanto, nem sempre é fácil compreender/sentir o texto poético, mas um livro de poesia não deixa de ser um companheiro perfeito para relaxar na rede, ler no ônibus ou mesmo viajar com ele.

Ler poesia não é um hábito popular, nunca foi. Não são todas as pessoas que conseguem compreender a linguagem de um bom verso e interpretá-lo com uma visão mais aprofundada. Cantada, falada ou escrita, a poesia emociona. Ela se desdobra em poesia social, reflexão existencial, metalinguagem, nostalgia. Passa pelo barroco, arcadismo, romantismo, parnasianismo, simbolismo, pré-modernismo e modernismo. Marcada por grandes nomes, que nos legaram grandes obras, a obra poética brasileira elaborou um estilo próprio. Nesse cenário, diversos poetas deixaram sua marca por meio da subjetividade e poder reflexivo dos poemas que criaram ao longo da trajetória profissional.


O “Cinzas & Diamantes” listou vinte livros fundamentais de poesia. Não foi fácil. Complicado, afinal são estilos diferentes num mesmo mar literário. Essa variedade é positiva porque cria um acervo rico em opções, satisfazendo os gostos de todos os apaixonados leitores. Reuni um rico material de palavras que se unem e se transformam nos mais belos versos. Pura artimanha de poetas conscientes e dotados das melhores ferramentas para escrever.

Uma lista que percorre a trajetória poética brasileira. Versos e reversos de autores esfomeados pela busca da expressão. Eles mergulham em viagens de liberdade interior e dessa forma - deliberada e voraz - criam uma poética que transcende o tempo, os limites, e que emociona a cada leitura. Essas obras alcançam força e beleza que não se acanham diante da construção poética. Confira a lista abaixo:

paulo leminski
01
INVENÇÃO DE ORFEU
(1952)
de Jorge de Lima
(União dos Palmares, Alagoas. 1893 - 1953)

Mesmo nos olhos havia
uma clara geografia.
Mesmo nesse fim de mar
qualquer ilha se encontrava,
mesmo sem mar e sem fim,
mesmo sem terra e sem mim.
Mesmo sem naus e sem rumos,
mesmo sem vagas e areias,
há sempre um copo de mar
para um homem navegar.
Nem achada e nem não vista
nem descrita nem viagem,
há aventuras de partidas
porém nunca acontecidas.

02
POEMA SUJO 
(1976)
de Ferreira Gullar
(São Luís, Maranhão. 1930 – 2016)

azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha
que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor
e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo
(não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia

03
DO DESEJO 
(1992)
de Hilda Hilst
(Jaú, São Paulo. 1930 – 2004)

Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer? E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
No desejo nos vêm sofomanias, adornos
Impudência, pejo. E agora digo que há um pássaro
Voando sobre o Tejo. Por que não posso
Pontilhar de inocência e poesia
Ossos, sangue, carne, o agora
E tudo isso em nós que se fará disforme?

04
ESTRELA DA VIDA INTEIRA
 (1966)
de Manuel Bandeira
(Recife, Pernambuco. 1886 – 1968)

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive


05
ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA 
(1953)
de Cecília Meireles
(Rio de Janeiro, RJ. 1901 – 1964)

Que andor se atavia
naquela varanda?
É a Chica da Silva:
é a Chica-que-manda!

Cara cor da noite
olhos cor de estrela.
Vem gente de longe
para conhecê-la.

(Por baixo da cabeleira,
tinha a cabeça rapada
e até dizem que era feia.)

Vestida de tisso,
de raso e de holanda
- é a Chica da Silva:
é a Chica-que-manda!

Escravas, mordomos
seguem, como um rio,
a dona do dono
do Serro do Frio.

(Doze negras em redor,
- como as horas, nos relógios.
Ela, no meio, era o sol!)

Um rio que, altiva,
dirige e comanda
a Chica da Silva,
a Chica-que-manda.

06
O CÃO SEM PLUMAS 
(1984)
de João Cabral de Melo Neto
(Recife, Pernambuco. 1920 – 1999)

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.
O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.
Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.
Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.
Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

07
ESPUMAS FLUTUANTES 
(1870)
de Castro Alves
(Castro Alves, Bahia. 1847 – 1871)

Vem! É tarde!  Por que tardas?
São horas de brando sono,
Vem reclinar-te em meu peito
Com teu lânguido abandono! ...
'Stá vazio nosso leito...
'Stá vazio o mundo inteiro;
E tu não queres qu'eu fique
Solitário nesta vida...
Mas por que tardas, querida?...
Já tenho esperado assaz...
Vem depressa, que eu deliro
Oh! minh'amante, onde estás? ...

08
SENTIMENTO DO MUNDO
 (1940)
de Carlos Drummond de Andrade
(Itabira, Minas Gerais. 1902 – 1987)

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microcopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais noite que a noite.

09
O LIVRO DAS IGNORÃÇAS 
(1993)
de Manoel de Barros
(Mato Grosso. 1916 – 2014)

O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.

10
TODA POESIA 
(2013)
de Paulo Leminski
(Curitiba. 1944 – 1989)

quando eu vi você
tive uma ideia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e você tem amor bastante

11
IARARANA 
(1979)
de Sosígenes Costa
(Belmonte, Bahia. 1901 – 1968)

E Tupã-Cavalo brotou a mataria
E as sementes nasceram e se viu que era cacau
E o cacau já estava crescidinho
e saía com uma força...
e saía com um forção
que benza-te Deus meu pé de feijão!
mas ele dava na gente  a tirar broto de cacau
deu facão a caboco para tirar broto de cacau
e o cacau desbrotado ficou parrudo
e bonito como danado.

12
PARA VIVER UM GRANDE AMOR 
(1962)
de Vinicius de Moraes
(Rio de Janeiro, RJ. 1913 – 1980)

Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.
E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.
Não sei bem se é casa
e é torre ou se é templo:
(Um templo sem Deus.)
Mas é grande e clara
Pertence ao seu tempo
– Entrai, irmãos meus!

13
GALÁXIAS 
(1984)
de Haroldo de Campos
(SãoPaulo, SP. 1929 – 2003)

um livro
é o conteúdo do livro
e cada página de um livro é o conteúdo do livro
e cada linha de uma página
e cada palavra de uma linha
é o conteúdo
da palavra da linha da página do livro
um livro ensaia o livro
todo livro é um livro de ensaio
de ensaios do livro
por isso o fimcomeço começa e fina
recomeça e refina
e se afina o fim
no funil do começo
afunila o começo no fuzil do fim
no fim do fim recomeça o recomeço
refina o refino do fim
e onde fina começa e se apressa
e regressa e retece
há milumaestórias na mínima unha de estória
por isso não conto
por isso não canto
por isso a não estória me desconta ou me descanta
o avesso da estória
que pode ser escória
que pode ser cárie
que pode ser estória
tudo depende da hora
tudo depende da glória
tudo depende de ir embora
e nada e néris e reles e nemnada
de nada e nures de néris de reles de ralo de raro

14
OS ÚLTIMOS DIAS DE PAUPÉRIA
 (1984)
de Torquato Neto
(Teresina, Piauí. 1944 – 1972)

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

15
O MEL DO MELHOR 
(2001)
de Waly Salomão
(Jequié, Bahia. 1943 – 2003)

SAUDADE é uma palavra
Da língua portuguesa
A cujo enxurro
Sou sempre avesso
SAUDADE é uma palavra
A ser banida
Do uso corrente
Da expressão coloquial
Da assembleia constituinte
Do dicionário
Da onomástica
Do epistolário
Da inscrição tumular
Da carta geográfica
Da canção popular
Da fantasmática do corpo
Do mapa da afeição
Da praia do poema
Pra não depositar
Aluvião
Aqui
Nesta ribeira.

SAUDADE é uma palavra
O sol da idade e o sal das lágrimas

16
POESIA COMPROMETIDA COM A MINHA E A TUA VIDA 
(1975)
de Thiago de Mello
(Barreirinha, Amazonas. 1926)

Para os que virão
Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.
.
Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.
.
Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda pessoa
do plural.

17
A CALIGRAFIA DO SOLUÇO E POESIA ANTERIOR 
(1996)
de Florisvaldo Mattos
(Ilhéus, Bahia. 1932)

com um facho de auroras no coração;
vértebras de assombro;
âncoras de fomes invasoras;
choro duro de homens e fornalhas;
moedas de crepúsculos;

(18)
POESIA ENCONTRADA
 (1978)
de Telmo Padilha
(Itabuna, Bahia. 1930 – 1997)

De repente esse sussurro
de vozes no vento
e não é o mar que fala.

De repente essa esperança
e não vem das pedras.

De repente o ar se enche
de vozes
e não é a noite que fala.

O mar escuta.

19
INVENTÁRIO 
(1981)
de Myriam Coeli
(Manaus, Amazonas. 1926 – 1982)

Entre sombra e pedra
desfolhada rosa
solitário espinho
que, alado e mudo,
perpassa o tempo.
(O tempo do tempo,
que tempo já era).

20
K: O ESCURO DA SEMENTE
(2005)
de Vicente Franz Cecim
(Belém, Pará. 1946)
Tudo vem como sombra do Um e para o Um volta como sombra. Aqui, na breve Residência, a vida, imersos nesta luz cheia de penumbras em que somos e não-somos, pois permanecemos sendo lá no Um enquanto aqui até parece que somos, as sombras estão no Vários, e se tornam coisas