fevereiro 20, 2016

........ JOSÉ SARAMAGO: "ESCREVO para DESASSOSSEGAR"



Entrevistado por ANTONIO NAHUD
(Lisboa, Portugal, 2002)

Jornal A Tarde / Cultural (BA)

Ilustrações: 
CASPAR DAVID FRIEDRICH


Cada lançamento de JOSÉ SARAMAGO provoca expectativas. Prêmio Nobel de Literatura de 1998, seu mais recente romance, “A Caverna”, conclui uma festejada trilogia iniciada com “Ensaio Sobre a Cegueira” e “Todos os Nomes”. Questiona a humanidade e sua desrazão. “Entramos na era da burocracia absoluta, caminhamos para a ignorância. O homem, cercado de informação, perplexo, perde sua capacidade de indignação, de racionalidade mínima”, disse o escritor.

Nasceu em 1922, na aldeia de Azinhaga, Alentejo português, região sul do país, produtora de azeitona, cortiça e trigo. Nunca pensou em se tornar escritor, comprando seu primeiro livro aos 18 anos. Aos 25, escreveu e publicou “Terra do Pecado”, voltando à literatura depois dos 40, com os versos de “Poemas Possíveis”, 1966. Trabalhou como mecânico, desenhista, editor, jornalista. Em 1975, desempregado, resolveu tentar sobreviver como escritor. Deu certo. Publicado em 40 idiomas, escreveu também “Levantado do Chão”, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “História do Cerco de Lisboa”, “Memorial do Convento”, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, entre outros.

A primeira vez que entrevistei JOSÉ SARAMAGO foi em 1997, numa coletiva, no local onde o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado lançou em Lisboa o livro “Terra” (com prefácio do escritor português). Anos depois, estive no lançamento em praça pública de “A Caverna” (2001). Desta vez, combinamos a entrevista em um café com vistas para o majestoso Castelo de São Jorge. Cheguei 15 minutos antes do horário marcado. Ele estava esperando, acompanhado da esposa Pílar del Río. Da varanda alta, vê-se bonitas colinas, o rio Tejo, tufos de alfazema, pombas gordas e barulhentas. Sisudo, o escritor assina um exemplar de um dos seus livros para um garçom.

Ele vive na vulcânica ilha Lanzarote, refúgio cercado de azul atlântico, no arquipélago das Canárias. Visita mensalmente Lisboa. Suas mãos se movem expressivas, as sobrancelhas sobem e descem, o olhar triste como os fados de Amália Rodrigues. 

A entrevista foi tranquila. Inesquecível pelos sorrisos irônicos do escritor a cada pergunta.

O senhor tem uma relação difícil com Portugal. Vive em outro país. Os portugueses, entretanto, insistem em anunciá-lo como seu representante oficial.

Eu não posso e nem quero representar Portugal. Nada do que penso transmite tal ideia. As circunstâncias me levaram a viver em Lanzarote. Como poderia continuar em Portugal depois da proibição de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”? Fiquei indignado, triste. Além do mais, Jorge de Sena vivia no Brasil e depois nos Estados Unidos, Eduardo Lourenço vive na França. Muitos outros escritores e poetas portugueses viveram ou vivem fora daqui. O importante é que pago os meus impostos. Nunca houve uma ruptura com o meu país. Não sou um exilado como dizem os meios de comunicação. Chegaram a me chamar do Salman Rushdie português.

Costuma visitar sua aldeia no Alentejo?

Acredito que sou filho do tempo em que vivo e não do lugar em que nasci. Digo isto porque a vila onde nasci não é a mesma após setenta anos. Estive lá um dia desses. Mudou completamente a paisagem. Havia extensões incríveis de oliveiras que foram arrancadas. É outro mundo, não é o mundo da memória.

Vive atualmente numa ilha tranquila. Se sente distante do mundo?

Não vivo distante do mundo. Estou sempre viajando, venho a Portugal todos os meses. Escrevo livros que atestam que tenho um certo interesse e algumas ideias sobre o mundo e os seres humanos.

Acredita na possibilidade de um mundo justo?

Acredito que temos que fazer algo para tornar o mundo mais justo. Precisamos buscar soluções para os problemas. Efetivamente, não adianta a crença num mundo melhor se continuarmos de braços cruzados, apenas acreditando em conceitos como esperança e utopia. É preciso nos indignar. Ou melhor, deveríamos refletir seriamente sobre o que está acontecendo no mundo, na economia, na ecologia. Tempos de desigualdade, indiferença, racismo.

Por que se zanga quando é descrito como pessimista?

Porque não sou pessimista, apenas enxergo a realidade. É só olhar o mundo para ver o que está acontecendo: o desespero de milhões de pessoas vivendo miseravelmente. Aparentemente existe o protótipo de um mundo feliz, mas ele é feliz para poucos. O mundo é um pesadelo, e poderia não sê-lo, existem muitas formas de contornar a situação.

Também se enfada quando consideram sua literatura pessimista?

Não gosto de discutir esse tema, não leva a nada. Não existe o pessimismo puro, da mesma maneira que não existe o otimismo puro. O que posso dizer é que não sou pessimista, apenas tenho uma visão do mundo bastante pessimista.

A literatura deve sensibilizar o leitor?

Não vamos embarcar em ilusões, no otimismo. Sensibilizar o leitor? Não sei se o leitor quer ser sensibilizado. A missão do escritor, se existe alguma, é não se calar. Deveria ser a missão de todas as consciências.

A sua criação não é fácil. Muita gente não consegue compreende-la.

A ideia não é escrever pensando que todo mundo vai compreender sua literatura. A questão está em cada um de nós fazer da melhor maneira possível o que sabemos fazer. Seria um erro fazê-lo pior, podendo fazê-lo melhor. Acredito que a criação de um escritor deve estar ao alcance de todas as pessoas, para que elas procurem e possam entendê-la. O caminho é cultura ao alcance de todos. Sei que há livros meus que muita gente não entende, e tenho que declarar, muito humildemente, que há livros que não entendo, que não estão ao meu alcance.

Por que escreve romances?

Faço romances porque não aprendi a escrever ensaios. Mas não tenho imaginação. O romance, como eu o vejo, mudou muito, não é mais como os magníficos romances do passado que contavam histórias sobre a vida das pessoas. Eu não o vejo como um gênero literário, mas como um espaço criativo em que cabem o ensaio, o drama, a filosofia, a ciência. Tenho a história que quero contar limitada ao essencial. Então, sem perceber, entro com reflexões filosóficas, deixando os personagens de lado por instantes. O autor se intromete, mas não estava previsto inicialmente.

O autor se funde ao narrador?

Não acredito no narrador. Ele não existe, é uma invenção. O que está no texto é um senhor chamado autor e nada mais. Ele, muitas vezes, finge que é narrador.

Camilo José Cela disse numa entrevista que após ganhar o Nobel foi preciso muita força de vontade e saúde para não se esgotar completamente.

Verdade. Eu fiquei cansado. Não fazia outra coisa senão viajar. Foram muitos congressos, entrevistas, lançamentos, apresentações, doutoramentos honoris causa. Cela havia me avisado que o ano imediato ao prêmio é perdido. Mas não me queixo.

A cultura se move geralmente por modas. Se eu afirmar que os brasileiros estão interessados na literatura portuguesa, como é fato citando sua obra e a de Lobo Antunes, não estaria dando importância a um modismo passageiro?

As modas não são negativas. Sem moda seguiríamos como antes. É bom que surja algo diferente, mesmo efêmero. Algo sempre permanece. Inclusive alguns autores que estão na moda. Se existe no Brasil a moda da literatura portuguesa, que eu não creio, passaremos a vender um pouco mais. Não deixa de ser interessante.

Saramago não é seu verdadeiro sobrenome...

Fui o primeiro Saramago da família. O empregado do registro civil fez uma pequena confusão. Sou um Souza. Saramago é uma planta que nos tempos da minha infância, e até antes, as pessoas da minha aldeia, em épocas de crise, digamos, comiam. Gosto do meu sobrenome, não queria ser chamado de José de Souza.

Finalizando. Escreve dia após dia?

Escrevo diariamente para desassossegar. Não desejo me abandonar à comodidade. No fundo, o que procuro saber com a minha escrita é essa coisa tão simples e que não tem resposta: quem somos. Quando esgotar o que tenho a dizer, terei a sensatez de parar de escrever.


fevereiro 13, 2016

................................................ HOUVE UMA VEZ UM “VERÃO DA LATA”



Ilustrações: 
ANTONIO GUERRERO

O documentário “Verão da Lata” (2014), dirigido por Tocha Alves e Haná Vaisman, recordou-me um extraordinário momento de minha juventude. Eu costumava passar o verão inteiro num mesmo lugar, desde que marítimo e precioso. No famoso VERÃO DA LATA (1987-88), acampei em Olivença, sul de Ilhéus, acompanhado por uma dezena de amigos em três grandes barracas, entre muitas outras de jovens das cidades das redondezas. Um acampamento improvisado, alternativo, amigável, solidário. Gente novinha, sem dinheiro, sendo feliz em um dos mais belos pontos do litoral ilheense. Um paraíso praticamente desabitado (logo construíram um pavoroso condomínio residencial).

Não havia água doce ou energia elétrica. À beira-mar, contemplado por rochas, coqueiros e árvores úmidas, retorcidas e sombrias, de porte médio - nunca soube o nome delas. Ainda não tinham inventado o celular nem as redes sociais. Máquinas fotográficas eram raras nas mãos de adolescentes. A boa das férias era passar horas em volta da fogueira, falando sobre amores inventados ou extraterrestres, flertando, cantando ao som de violão, bebendo um coquetel de vodca com frutas, vendo as estrelas. Noites que se repetiam arrastadas, dengosas, elétricas. O único inconveniente eram as muriçocas, que atacavam impiedosas. Quando um ou outro amigo sumia na calada da noite, o buchicho brincalhão era fatal, assim como as risadinhas inocentes de gozo.

Numa desses noites lúdicas, alguém contou para o grupo sobre o inesperado carregamento de latas de maconha despejado no litoral brasileiro, espalhando-se por praias cariocas e paulistas.  Inclusive, leu um pequeno recorte de jornal sob a luz de um isqueiro. Não lembro do informante, certamente um estranho de passagem. A informação gerou polêmica. Nossa galera não usava drogas, mas tinha conceito libertário, não se incomodava com consumidores, muito pelo contrário. A história correu de boca em boca. Poucos acreditaram nela, diziam que era folclore, uma incrível fábula “viajante” de usuário de maconha.

Semanas mais adiante, no primeira quinzena de janeiro de 1988, um príncipe carioca se instalou com sua minúscula barraca azul turquesa, próximo à nossa. Sozinho, cabelos longos ao vento, belo, sobrenome Buarque de Holanda (isso, parente de Chico). Olhos entre o verde e o azul, de grandes gatos do mato, olhos glaucos, iluminados. Nos tornamos inseparáveis. “Baby” tocava flauta, cantava, surfava, lia poemas de Pablo Neruda e quase sempre estava lombrado pelos sortilégios da cannabis. No nosso segundo encontro, sério e me analisando, contou que encontrara três latas de maconha em Ubatuba, na Praia Grande, vendeu duas por 500 dólares cada, e com a grana inesperada resolveu passar uns meses viajando sem destino pelo Nordeste, enquanto consumia o “presente divino” da terceira lata.

Apresentou-me à dita cuja: uma lata metálica, sem rótulo. Abriu para eu ver o que tinha dentro. O conteúdo era altamente prensado. No meio do material, alguns pedacinhos de jornal escritos em letras estranhas indicavam a procedência oriental da carga. Exigiu segredo. Confiava que eu não contaria a ninguém. E assim aconteceu. Os tempos eram duros, ainda flagelados pelo fastasma da ditadura. Depois do carnaval, separamos-nos, ele tinha de seguir seu caminho adiado por semanas e eu voltar aos estudos e à família tradicional. Choramos, “Baby”. A felicidade não aceitava a separação. Grudados ao sol ardente, tomados pelas lágrimas, ônibus buzinando, ficamos de nos encontrar mais adiante, nas férias juninas. Isso nunca aconteceu. Não tivemos a chance de um segundo encontro. Nos anos 2000, casualmente, vi o seu retrato na coluna de Joyce Pascowitch, ao lado de uma bonita esposa e um filhote no colo. Olhei detalhadamente o seu rosto durante uns dez minutos. Não era o mesmo. O nosso afeto havia se perdido para o nunca mais.


Desde que ele partiu, passei a defender com unhas e dentes a veracidade da história DA LATA, embora soubesse poucos detalhes concretos. Pedi informações ao meu pai, um advogado leitor diário de vários jornais, e ele se irritou, disse-me que não era assunto para garotos decentes. Deixei pra lá. Os anos passaram e terminei por esquecer “Baby” e o VERÃO DA LATA. Em 2014, ganhei o livro “O Verão da Lata: Um Verão que Ninguém Esqueceu, do jornalista Wilson Aquino. Assustei-me, resgatando subitamente a história amorosa perdida no jardim da memória. “Baby” outra vez avalanche no coração. Procurei identificar amigos antigos, seria bom conversar, esclarecer detalhes, mas todos estavam distantes, mortos, inacessíveis. Pesquisei sobre o assunto, por fim chegando ao documentário “Verão da Lata”, exibido no canal History.

O histórico VERÃO DA LATA ocorreu no Brasil entre 1987 e 1988. Fato emblemático, marcou uma geração, e ganhou repercussão na mídia, em livros, música e documentário. Popularizou-se no imaginário popular durante alguns anos. Todo mundo conhecia alguém (ou terminaria por conhecer) que havia encontrado uma das 15 mil latas de maconha que flutuaram nas praias brasileiras. A fama delas foi eternizada com a música “Veneno da Lata”, de Fernanda Abreu, em 1996. Até correu um boato que um famoso diretor de uma emissora de TV teria acumulado 600 latas em sua casa em Angra dos Reis e que teria comprado vários freezers para estocar o material.

Em 19 de setembro de 1987, na cidade do Guarujá, no litoral paulista, foram encontradas as primeiras seis latas com maconha. Após serem apreendidas pela polícia, o caso começou a ganhar destaque nas páginas policiais e, principalmente, na boca do povo. O episódio insólito começou quando o Solana Star,  de bandeira panamenha, partiu de Singapura, no sudeste asiático, rumo aos Estados Unidos, com 22 toneladas de maconha. O objetivo era chegar ao litoral norte do Rio de Janeiro, distribuir a mercadoria entre outros dois barcos e seguir para os Estados Unidos. A grande surpresa era como a droga estava escondida: em latas de 1,5 kg cada, recheadas com maconha conservada em mel. Latas fechadas a vácuo, que era uma coisa recente, misturadas a latas de suco de tomate, como se fosse um único carregamento. Os planos foram frustrados quando o chefe do grupo foi preso em Nova Iorque. O governo norte-americano avisou o Brasil da chegada do barco cheio da droga, mas os traficantes souberam de antemão que o negócio tinha vazado.

No encalço dos bandidos, a Marinha brasileira disponibilizou a fragata Independência, a sua mais moderna embarcação marítima de guerra. Fizeram baitas operações, e não encontraram o Solana Star e seus sete tripulantes – cinco norte-americanos, um haitiano e um costarriquenho. Avistando um contratorpedeiro brasileiro e com receio de serem presos, os traficantes internacionais jogaram toda a carga no mar a umas 100 milhas da costa. Cerca de 15 mil latas, com maconha comprimida. As latas boiaram, e começaram a aparecer uma a uma, primeiro no litoral fluminense, depois no paulista, até chegar à praia do Cassino, no extremo do Rio Grande do Sul. Durante várias semanas, latas foram lançadas nas praias brasileiras. As embalagens recheadas com cannabis de excelente qualidade, causaram uma corrida à lata entre usuários, mercenários e autoridades.

Antes de ganhar maciçamente o noticiário, os falatórios sobre as latas de maconha eram tratados com descrédito. Mas o assunto era real e se espalhou rapidamente, virou caso de polícia, originou uma busca pela novidade verde enlatada. No auge da caça às latas, a Polícia Federal paralisou todos os outros casos e focou apenas naquela investigação. Sem conseguir prender a tripulação, fez uma rigorosa operação para recuperar as latas. Também coibiu a atuação de traficantes de oportunidade. Algumas pessoas achavam as latas e depois vendiam seu conteúdo, como o meu amigo “Baby”. Encontradas pela polícia, pegavam até seis anos de prisão. Por outro lado, traficantes anunciavam vender a maconha da lata, oferecendo a droga de sempre enlatada.

A ação conjunta das Polícias Militar, Federal e até Marinha apreendeu apenas 3.292 latas, das 15 mil que foram despejadas no oceano. A maioria delas foi recuperada por banhistas que as encontravam boiando no mar. Se o produto chegasse ao destino final teria rendido cerca de US$ 90 milhões (R$ 351 milhões) aos traficantes. Foi um tempo em que surfistas iam ao mar procurando um brilho que denunciasse as latas. Outros alugavam barcos e iam longe da costa ou a ilhas costeiras para achá-las. Com a fama que o assunto ganhou no Brasil, abrir a lata se transformou em ritual, e, numa “homenagem” informal criou-se a gíria “da lata” para se referir a algo quando é de qualidade. Fala-se: “essa comida tá da lata”, ou “refrigerante da lata”, essas coisas. Ainda hoje a expressão é sinônimo de algo excepcional. O comediante Jô Soares, em uma crônica na revista Veja, disse que 1987 não será lembrado por nenhum acontecimento político, econômico ou esportivo, será lembrado como o ano da “lata”. Tem toda razão.


Finalizando a história: após o descarte da mercadoria, o barco ficou atracado vários dias na Baía da Guanabara antes da polícia descobrir seu paradeiro. Os traficantes passaram sorrateiramente pela alfândega sob a alegação de motor quebrado e hospedaram-se em Copacabana. Dos sete tripulantes, seis escaparam pelo aeroporto do Galeão. Restou um que se declarou cozinheiro. Identificado como Stephen Skelton, ele deveria ter saído do país junto com os comparsas, mas se apaixonou por uma brasileira e resolveu ficar. Detido pelas autoridades, condenado a 20 anos de prisão, cumpriu apenas um ano e foi extraditado. Com a conclusão do caso, o barco permaneceu apreendido até ser leiloado. Seu nome foi alterado mais duas vezes, passando de Solana Star para Charles Henri e, por último, Tunamar. Teve um final trágico, naufragando em outubro de 1994, matando 11 tripulantes.