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abril 06, 2025

................................................................................ Em NOME da POESIA

josé inácio vieira de melo, civone medeiros e eu

 
O poeta em suas imagens
nos diz algo sobre o mundo
e sobre nós mesmos, e esse algo,
ainda que pareça um disparate,
nos revela de fato o que somos.
OCTAVIO PAZ
(1914 – 1998. Cidade do México / México)
 
Todo poeta é uma flor que permanece
Espada aérea e franca
Contra a morte. Todo poeta é uma cor que permanece
No olhar sobrevivente
E na luz das manhãs que voltam sempre
RENATA PALLOTTINI
(1931 – 2021. São Paulo / SP)
 
Ilustrações:
SARAH JARRETT
(Norfolk / Reino Unido)
 
 
A minha relação com a poesia surgiu cedo. Por volta dos meus nove anos, quando frequentava a escola primária, encontrei ao acaso, para maravilhamento meu, um poema de Manuel Bandeira, “Trem de Ferro”, cuja musicalidade me fascinou. Entre os meus onze e os meus vinte e um anos, li muito poesia, dos antigos gregos aos sonetos de William Shakespeare, John Donne, Friedrich Hölderlin, Rainer Maria Rilke, Federico García Lorca, Charles Beaudelaire, Paul Valéry, Vladimir Maiakovski, Henri Michaux, Paul Celan etc. Celebrei magníficos nomes da poesia universal, que merecem cultivo, reverência e honras. Na idade da inocência, descobri na poesia de língua portuguesa uma vitalidade e uma inigualável sageza. O impacto perturbador de “Poema Sujo” (1976) de Ferreira Gullar ou os poemas secos de João Cabral de Melo Neto. Devorava livros poéticos de uma só vez. Entre sensações, me impressionei com Fernando Pessoa e outros poetas de Portugal. Ainda garoto garimpei os versos de Castro Alves, Cecília Meireles, Jorge de Lima e Vinicius de Moraes.
 
Ao trabalhar na Editora Siciliano, em 1989 e 1990, em São Paulo, como leitor de originais inéditos, alguma poesia passou pelas minhas mãos, terminando por me reunir profissionalmente com Adélia Prado, Roberto Piva, Glauco Mattoso e Bruna Lombardi. Inclusive, meu patrão era poeta, embora não muito bom, mas culto e apaixonado por poesia: Pedro Paulo de Senna Madureira, autor de “Rumor de Facas” (1989). Na trajetória cigana, conheci ao vivo – alguns com intimidade – renomados poetas, muitos prestigiados no Brasil e fora dele. Criaturas de instigante inspiração. Hilda Hilst, Vicente Franz Cecim, Waly Salomão, Maria Gabriela Llansol, Al Berto, Telmo Padilha, Paul Bowles, Lawrence Ferlinghetti, António Carlos Cortez, Mia Couto, Florisvaldo Mattos, Myriam Fraga, Jorge Telles de Menezes, Antônio Cícero, Ana Virgínia Santiago, entre outros. Domadores de palavras, amantes da língua, de seu mistério e de seu encanto. Também me relacionei socialmente com poetas vazios, piegas, doidos pela fama. A verdade é que muitos escrevem poesia, mas raros são os eleitos.
 
Fascinado, tentei ser poeta achando que seria fácil. Publiquei “O Aprendiz do Amor” (1993), “Ficar Aqui Sem Ser Ouvido por Ninguém” (1998), “Suave é o Coração Enamorado” (2006), “Livro de Imagens” (2009) e “Confissões” (2014). Tenho inédito “Na Teia do Destino Azul”. Embora tímido, participei de saraus de poesia. A primeira vez no Palácio Sotto Mayor, em Figueira da Foz, Portugal, em 1996. No ano seguinte, na “Festa da Língua Portuguesa”, no Palácio Valenças, em Sintra. No “First International Festival Naked Poets in London”, em 1998; recitais em Barcelona, Toulouse, Edimburgo, Cádiz e Gijón; no “Poesia na Boca da Noite”, em Salvador, 2006, coordenado por José Inácio Vieira de Melo e ao lado da carioca Helena Ortiz; na Casa da Ribeira, em Natal, e em João Pessoa etc. Com o passar dos anos, abandonei a poesia ou quiçá fui abandonado por ela. Concluí que jamais seria um poeta iluminado. Atualmente raramente leio poesia. Como o tempo é curto e a vida se aproxima do fim, dedico as horas de leituras a crônicas, filosofia, um ou outro romance.
 
O termo poesia vem do grego poíesis e indica a ideia de criar. Segundo Aristóteles, a poesia seria o “impulso do espírito humano para criar algo a partir da imaginação e dos sentimentos”. A atividade poética foi sempre marcada por uma forte relação com a religião e com a filosofia, sendo que a maioria dos textos sagrados e reflexivos possuem linguagem poética. Há uma simbologia misteriosa na permanência da poesia ao longo dos séculos. Sua importância é inegável. Há poesia que arranca lágrimas. Outras cospem indignação social ou produzem risos. Os poemas líricos e idílicos provocam suspiros. Em síntese, a poesia habita mentes e corações. Por incrível que pareça, mesmo com a televisão e a internet, a poesia não morreu. Em alguns nichos ela continua presente. Clubes de poesia, blogs, casas de poetas, grupos nas redes sociais. Primeiro, porque a beleza ainda tem lugar no espírito dos homens. Segundo, porque é um jorro incessante e insuscetível de maravilhas, desde que surja numa alma soberana acima de qualquer suspeita. Se possível, emocionada.  
 
Movimentos poéticos congregam abnegados que escrevem e declamam e publicam. E não se recusam a prestigiar espaços onde a poesia é bem recebida e pode se abrigar na cultura local. Na há dúvida de que precisamos de poetas. Um mundo poético ganha colorido, é mais terno e afetuoso. Faz falta a popularidade da poesia, faz falta a poesia no dia a dia, até a sentimental ou confessional, a ruim mesmo. Faz falta a poesia Romântica, Épica, Erótica, Folclórica, Histórica, Política, Étnica. Ou poesia sem qualificação. Mera poesia. Poesia e nada mais. O mundo precisa de mais poesia e de menos incompreensão. De esperança, não de desalento. A poesia é remédio para o mal-estar social que angustia e que dá a sensação de que a humanidade regrediu e menospreza o grau civilizatório que tanto demorou a conquistar. Poesia é essencial para a sociedade consumista, cuja rotina robotizada e impessoal rouba os raros instantes de sensibilidade e nos faz escravos da burocracia, da agenda woke; da maldade, das mentiras e do desespero autoritário da ideologia de esquerda. 
 
eu e o poeta claudius portugal
O poeta está noutra dimensão, enxerga enigmas no cotidiano. O poema é um peixe inquieto em um imenso rio. Ele às vezes desce ao fundo para repousar entre pedras. Há nele uma sabedoria que vem do obscuro antigo. Um saber alquimista que se constrói pela audácia inventiva – difícil, cuidadosa, apaixonada. Há na poesia um pressentimento, uma significação enamorada entre os ritmos, determinadas metáforas e o mais íntimo, semelhante ao que parece existir entre certas palavras e o que elas traduzem. O poema verdadeiro não persegue o extraordinário. Corresponde a uma energia intimista. Sua expressividade é uma questão de convicção. Ou de emoção. Abre-se um caminho no pensamento, conquistando a possibilidade do poema. Um caminho de interrogação, ética e intelecto, em consonância com o misterioso. Através do oculto, que é a causa e consequência do poema, se traduz pensamentos e imagens que são, paradoxalmente, o que nos protege, nos paralisa e nos lança no afastamento de nós mesmos.
 
Escrever um poema é uma afirmação de liberdade. Escapa ao definido propondo invenções em que o efêmero possa viajar sem destino. Contra toda a lógica, em nome de uma literatura construída segundo mecanismos insólitos e tendo como horizonte um universo improvável. No verso se recolhe a diferença e o poema toma a estrada da solidão, da deambulação que rarefaz a significação. Poetar é um dos mais antigos ofícios do mundo. Como guardiões da história, os poetas gozavam, nos tempos antigos, de uma posição particularmente elevada. Muitas sociedades, como a Grécia Antiga, cultuavam poetas, tais quais Homero, como figuras mitológicas, e muitos governos, como o Império Romano, homenageavam e patrocinavam poetas nativos, como aconteceu com Virgílio e Horácio. Tal como a própria poesia, considerada patrimônio de monges e filósofos, reis e profetas. Durante a era imperial do Japão, versejar fazia parte integrante da vida na corte. A reputação de um nobre podia subir ou cair devido a um simples improviso poético – era um índice do seu valor.
 
É natural que o poeta, como aqueles que escrevem em prosa, utilize o enredo e a cronologia. Enquanto o prosador se confina geralmente a frases, parágrafos e capítulos, o poeta utiliza outras combinações de sons e sentidos, sempre com o objetivo de intensificar o material de que dispõe sua verdade lírica. Para Samuel Taylor Coleridge, notável poeta romântico britânico, do século XVIII, nessa capacidade reside a glória do poder poético. Existem muitos métodos de exaltação e muitas maneiras de a despertar e de a exprimir através da linguagem. A humanidade leva milhares de anos explorando os idiomas sem esgotá-los. Essa busca desenvolveu o melhor que o vocabulário tem para oferecer, e os poetas acumularam meios-padrão de uma temática convencional. Ao longo desse processo, a poesia foi-se tornando cada vez mais sofisticada; e de tal modo que, por vezes, acaba por se distanciar do alcance do leitor comum. Na atualidade, talvez seja sobretudo entretenimento da indústria cultural.
 
Os poetas sabem que as regras de poesia são meramente convencionais e recorrem com frequência a curiosos artifícios, na esperança de encontrarem novas maneiras de alargarem as potencialidades da linguagem. Inventam recursos que tiram partido das possibilidades de rima e intensificam as repetições gramaticais. Christopher Smart, singular poeta do século XVIII, escreveu uma composição de 73 versos sobre o seu gato, começando cada verso com a mesma palavra. A construção produz efeito, mas serviu apenas para esse poema. Nos anos 70 do século passado, os concretistas criaram a expressão pós-tudo, buscando com engenhosidade afirmar uma impressão de que nada mais de novo havia a fazer ou dizer na poesia, depois das mais variadas experimentações. Assim, tirando partido do fato de a poesia ser mais lida do que ouvida, criaram figuras visuais que conferem ao poema um sentido excêntrico. Escreveram poesias sobre um cone de sorvete, um edifício, uma árvore, um animal, cuja configuração é a do próprio tema, em complexos e, segundo minha opinião, infantis jogos de sons e espaços.
 
O interesse pelo que os poetas podem dizer sobre a vida e sobre nós próprios leva o leitor a procurar aspectos mais vastos de poesia, semelhantes a certas composições em prosa. Percebe-se que os poetas continuam criando e transmitindo significado a diversas finalidades, inclusive com repetições e associações de maior intensidade. Afinal o verso pode variar no tipo, na extensão, no número de sílabas e na acentuação, nas repetições e combinações de som. A configuração mais popular de poesia no Ocidente foi a epopeia. Seguiram-se, em popularidade, aquelas que subordinavam a narrativa aos comentários do autor: poesia meditativa, poesia visionária e poesia satírica, por exemplo. E temos, por último, uma outra tão popular que quase eclipsa as anteriores: a composição musical. No geral, nenhum desses gêneros se confina a regras estritas. O que não tem qualquer inconveniente, exceto aos olhos de teóricos que gostariam de classificar e rotular todo o universo.
 
eu e hilda hilst na casa do sol
Tal como o romance, que escapa constantemente a qualquer definição, também a poesia não merece ser estigmatiza em métricas e elementos fixos. Para a maior parte dos leitores, essa liberdade encoraja uma equivalente abertura de espírito a todas as possibilidades de expressão literária. A poesia não está necessariamente ligada a modelos específicos de verso. Na verdade, pode não ser escrita em verso, e nem tudo o que é escrito em verso é poesia.  Apesar da ausência de métrica e rima, esta frase de Franz Kafka é poesia: “Os cães de caça brincam no pátio, mas a lebre não lhes escapará, embora ainda neste momento corra veloz pela floresta”. Poesia é um termo honorífico, usamo-lo para exaltar uma determinada escrita de fundamental expressividade. Mas também o empregamos para descrever os efeitos dessa significância sobre nós próprios, e para identificar as imagens e temas do mundo exterior que parecem estimular efeitos emocionais profundos. Na linguagem popular das redes sociais, é comum o emprego das palavras poesia e poético como sinônimos de beleza, inspiração e elevação de ideias para filmes ou fotografias.
 
A poesia é a linguagem da imaginação e das paixões. Relaciona-se com o que causa prazer imediato, ou reflexão, à mente. Atinge a sensibilidade, porque apenas o que nos afeta da maneira mais íntima deve ser um tema de poesia. A poesia é a linguagem universal que o coração conecta à natureza e a si próprio. Ela não é uma simples distração frívola de uns quantos leitores desocupados, constitui a tradução e deleite da humanidade em quase todas as épocas, representando os objetos, não como são propriamente, mas tal como são traduzidos por pensamentos e sentimentos, numa infinita variedade de combinações de energia cósmica. Na sua capacidade de iluminar, o poema talvez seja ao nível do humano a proximidade do absoluto, o vislumbre do impensável na sua sensibilidade infinita. Quanto a mim, um suspeito escritor de plantão, só posso dizer que recomendo a leitura e a escrita da poesia. Faz enorme bem para a alma.
 
prefácio ATUALIZADO em abril de 2025
escrito para o livro “Poemas Dispersos”, de 2006
organizado por Elenilson Nascimento
 
CECÍLIA MEIRELES
CANÇÃO EXCÊNTRICA
FONTES
“ABC da Literatura” (1934)
de Ezra Pound
 
“O Arco e a Lira”
(1956)
de Octavio Paz
 
“A Criação Literária: Poesia”
(1967)
de Massaud Moisés
 
“De Poesia e Poetas”
(1943)
de T. S. Eliot
 
“Nos Passos da Poesia – A Pedagogia do Texto Lírico”
(2005)
de António Carlos Cortez
 
“O que é Poesia?”
(2014)
de Souza Dias

 

DEZ POETAS e DEZ POEMAS
(por data de nascimento)
 
01
WILLIAM BLAKE
(1757 – 1827. Londres / Reino Unido)
 
O JARDIM do AMOR
Eu fui ao Jardim do Amor,
E vi algo jamais avistado:
No centro havia uma Capela,
Onde eu brincava no relvado.
 
Tinha os portões fechados, e “Proibido”
Era a legenda sobre a porta escrita.
Voltei-me então para o Jardim do Amor,
Que outrora dera tanta flor bonita,
 
E vi que estava cheio de sepulcros,
E muitas lápides em vez de flores;
E em negras vestes hediondas os Padres faziam rondas,
E atavam com nó espinhoso meus desejos e meu gozo.
 

02
KONSTANTINOS KAVÁFIS
(1863 – 1933. Alexandria / Egito)
 
MAR MATUTINO
Parar aqui. Mirar um pouco a natureza.
Lampeja o azul-turquesa. Praias amarelas.
Tudo, à luz, se embeleza, à grande luz que alumbra.
 
Parar aqui. Mirá-la assim, quase miragem
(se me antepôs deveras, só por breve instante).
E estando aqui, não relembrar só meus fantasmas:
anamnese, ilusões – esses ícones do êxtase.
 
 

03
RAINER MARIA RILKE
(1875 – 1926. Praga / Tchéquia)
 
SOLIDÃO
A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.
 
Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:
 
então, a solidão vai com os rios…
 
 

04
VLADIMIR MAIAKOVSKI
(1893 – 1930. Baghdati / Geórgia)
 
O AMOR
Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zoo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o enxame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
Camaradas!
atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que
doravante
a família
seja
o pai,
pelo menos o Universo; a mãe,
pelo menos a Terra.
 
 

05
W. H. AUDEN
(1907 – 1973. York / Reino Unido)
 
BLUES FÚNEBRE
Detenham-se os relógios, cale o telefone,
jogue-se um osso para o cão não ladrar mais,
façam silêncio os pianos e o tambor sancione
o féretro que sai com seu cortejo atrás.
 
Aviões acima, circulando em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Pombas de luto ostentem crepe no pescoço
e os guardas ponham luvas negras como breu.
 
Ele era norte, sul, leste, oeste meus e tanto
meus dias úteis quanto o meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto.
Julguei o amor eterno: quem o faz se engana.
 
Apaguem as estrelas: já nenhuma presta.
Guardem a lua. Arriado, o sol não se levante.
Removam cada oceano e varram a floresta.
Pois tudo mais acabará mal de hoje em diante.
 
 

06
ARSENY TARKOVSKI
(1907 – 1989. Elisavetgrad, / Império Russo
- atualmente Kropyvnytskyi / Ucrânia)
 
Todo o instante que passávamos juntos
era uma celebração, como uma epifania,
no mundo inteiro, nós dois sozinhos.
Eras mais audaciosa, mais leve que a asa de um pássaro,
estonteante como uma vertigem, corrias escada abaixo
dois degraus de cada vez, e me conduzias
por entre lilases úmidos, até ao teu domínio,
no outro lado, para além do espelho.
 
Éramos conduzidos, sem saber para onde;
como miragens, diante de nós recuavam
cidades construídas por milagre,
havia hortelã silvestre sob os nossos pés,
pássaros faziam a mesma rota que nós
e no rio peixes nadavam correnteza acima
e o céu desenrolava-se diante dos nossos olhos.
Enquanto isso o destino seguia os nossos passos
como um louco de navalha na mão.
 
 

07
HILDA HILST
(1930 – 2004. Jaú / São Paulo)
 
II – DEZ CHAMAMENTOS ao AMIGO
Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida altivez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora
 
Há tanto tempo sua própria tessitura.
Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.
 

08
FERREIRA GULLAR
(1930 – 2016. São Luís / Maranhão)
 

SUBVERSIVA
A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.
 
E só depois
reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça
 
E promete incendiar o país
 

09
PAULO LEMINSKI
(1944 – 1989. Curitiba / Paraná)
 
RAZÃO de SER
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
 
 

10
VICENTE FRANZ CECIM
(1946 – 2021. Belém / Pará)
 
PARA ADORMECER AQUELE que VELA
Há montanhas em sonhos
tão antigas,
onde sonham
os grãos da areia que te sonha
O que sobrevive na hora
que apaga a última claridade?
De quem faz a Noite a vontade?
Dia ou homem,
uma túnica de rancor é o que eles vestem,
e as montanhas vêm rugir
Caladas
Se veio o Tempo,
é que é tempo de colher sob as estrelas
o centeio negro com mãos mais brancas, caiadas
 

COMO BROTA um VERSO
 
Rainer Maria Rilke
 
Ah, mas que significam os versos, quando os escrevemos cedo?! Devia-se esperar e acumular sentido e doçura durante toda a vida e, se possível, durante uma longa vida — e então, só no fim, talvez se pudessem escrever dez versos que fossem bons. Porque os versos não são, como imaginam as pessoas, simples sentimentos… Eles são experiências. Para escrever uma única linha, um simples verso, é preciso ter visto muitas cidades, muitas pessoas e muitas coisas; é preciso conhecer os animais, sentir como os pássaros voam nos céus e perceber o movimento de uma flor que se abre pela manhã. É preciso evocar caminhos por regiões desconhecidas, em encontros inesperados e separações longamente previstas; em dias da infância ainda não esclarecidos; nos pais que tivemos de magoar quando nos traziam uma alegria e nós não a compreendemos (era uma alegria para outro); em doenças de infância que começam de maneira tão estranha, com tantas transformações profundas; em dias passados em quartos calmos e em manhãs à beira-mar; 
 
no próprio mar, em mares, em noites de viagem que passaram sussurrando alto e voaram com todos os astros — e ainda não é bastante poder pensar em tudo isto. É preciso ter recordações de muitas noites de amor, das quais nenhuma foi igual a outra; de gritos de mulheres no parto e de parturientes leves, brancas e adormecidas que se fecham. Mas também é preciso ter estado ao pé de moribundos, ter ficado sentado junto a um morto numa casa de amplas janelas abertas e aos ruídos que vinham por acessos. Mas não basta ter recordações. É preciso saber esquecê-las quando são muitas, e é preciso revestir-nos de paciência infinita até que regressem à mente. Pois essas mesmas recordações ainda não são tudo de que é preciso. E só quando chegarem a fazer parte de nossas entranhas, quando se converterem em aspectos e gestos de nosso ser, quando já não têm nome e já se não distinguem de nós mesmos — só então é que pode suceder que, numa hora muito rara e estranha, façam surgir a primeira palavra dum verso que brota.
 
 
“Se as portas da percepção estivessem livres,
tudo se mostraria ao homem como é, infinito.”
WILLIAM BLAKE
O Casamento do Céu e do Inferno (1793)
 
  EU e os POETAS
 
com telmo padilha
com diogenes da cunha lima
com josé inácio vieira de melo
com paulo de tarso correia de melo
com helena ortiz
com myriam fraga
com rita santana
com neuzamaria kerner
com ramon vane
com urânia azeredo bittencourt


março 13, 2024

............................................................. A JUVENTUDE da SANTA MÃE

 

Mãe! São três letras apenas,
As desse nome bendito:
Três letrinhas, nada mais...
E nelas cabe o Infinito
MÁRIO QUINTANA
(1906 – 1994. Alegrete, Rio Grande do Sul / Brasil)
 
Ilustrações: 
TERENCE CLARKE
(1953. Reino Unido)
 

em memória ao incentivo à leitura
dado por meu Pai, com jornais,
livros e revistas em quadrinhos.
 
em memória ao Pai
que pressentia a injustiça social
que se oculta no fundo daquilo
que para outros é a justiça.
 
 
Os sentimentos fazem parte de histórias e lembranças. Enigmáticos são os caminhos do coração. Aqui está minha cândida Mãe. Ungida pela fé, esse mistério que põe no espírito a bondade humana. Não creio que ela seja dada à meditação. Todavia, algumas vezes deve ter refletido sobre sua notável trajetória. Foi boa filha, boa esposa, é boa mãe e boa avó. Foi boa dona de casa, boa cozinheira, boa conselheira. Sabe ser amiga, compreender as fraquezas humanas e estender a mão a quem precisa. O traço singular de sua personalidade, talvez o mais marcante, é a generosidade, sem nunca precisar humilhar ninguém. Reina em casa e, em todo caso, faz bem as coisas. Acredita no Bom Deus e sabe que tudo se passará de acordo com as regras sagradas e não devemos nos atormentar com o destino. Tive a bênção de ser filho dessa senhora virtuosa.
 
Ela foi o alicerce na construção e consolidação do homem que me tornei. Eu hoje sou melhor por ter essa honra de um querer bem maternal a toda prova. Encarando a verdade face a face, meu presente esforço para retomar os fatos e contar sua caminhada me enche, a seu respeito, de uma simpatia cúmplice. A passagem do tempo ilumina a memória e nosso relacionamento. Alimento com substância alquímica para tentar fazê-la viver ou reviver. Eu a amei primeiramente com um amor egoísta e distraído, como a maior parte das crianças. Depois, com uma afeição feita sobretudo ao hábito, perturbada por uma juventude inquieta. Por fim, experimentei um sentimento de ternura, misturado ao alívio de acreditar estar protegido por essa guerreira da perigosa aventura de viver, amparado em sua lição cotidiana de valores morais.
 
O tempo passou sem que eu soubesse como. Conhecer bem as pessoas é quase sempre descobrir relevos e riquezas inesperados. Os seis filhos (Neto, Urbano, Paulo, Marcelo, Anna Áurea e eu) de Lurdinha sempre foram sua prioridade, e ela até se anula para dedicar total atenção a todos. Compartilhamos anos cúmplices. De grande beleza, Mamãe é um exemplo. Iluminada, resiliente, incapaz do mal. Nas ruas em que moramos, era uma discreta mãezona da vizinhança. Sobrava delicadeza para distribuir com parentes e vizinhos. Tocando o lar o dia inteiro, também cantarolava, ouvia rádio, via telenovelas e lia as revistas femininas típicas. A sua risada é linda, além do olhar suave de apurados olhos negros. Uma senhora deslumbrante! Todos são encantados por ela. É o nosso orgulho, nosso maior amor.
 
O ciumento Papai a amava apaixonadamente, mas infelizmente morreu jovem e ela continuou na cara e na coragem protegendo seus filhos, sem cogitar outro relacionamento. Eu mudei de cidade e de país, mas meus sentimentos por ela permaneceram blindados. Com a alma em choro, disfarçava o semblante de uma Mãe de filho ausente. Quem se deu bem foram meus irmãos, que ganharam a minha cota no carinho diário. Afinal, amar é como uma chuva fertilizante dentro da alma; é benevolência que se mantém firme, independente do tempo e da distância. Estou longe do alcance dos seus braços, mas diariamente nos falamos. Ela costuma encerrar seus telefonemas com um “Filho, eu te amo, sinto saudades”. Emocionante. Que Deus a continue abençoando.
 
Os Anjos quebram as regras e fazem milagres para os honestos e generosos. Mamãe nunca esteve ciente das suas qualidades. Ela pensa mais nos outros do que em si. Toda sua vida se resume a uma série de sacrifícios para sua família, seus amigos e até mesmo para pessoas que nem são tão próximas. O Céu sabe disto. Neste momento, ela está atravessando um período doloroso. É uma senhora idosa, beirando os 90 anos, fisicamente frágil, entretanto lúcida. Precisando de cuidados apurados, fechou sua casa e foi morar com um dos filhos, Urbano, sua esposa Rafaela e dois netos meninos. Tem cobertura médica, fisioterapia, boa alimentação e afeição familiar. Os filhos sempre por perto. Católica incondicional, assiste missa na TV, faz palavras-cruzadas, recebe visitas, passa os sábados na sua fazenda Bela Vista, em Itapé. E após altos e baixos ao longo da existência, é de se surpreender sua crença no próximo. Os turbilhões dramáticos, as dificuldades privadas, a preocupação por aqueles que queria ajudar. Levou em suas costas um fardo muito pesado, mas sem merecer! Bem pelo contrário, suas lutas, sua coragem para vencer os obstáculos, causam admiração. Raramente as emoções negativas tomam conta da sua mente, nem sua alma se cansou. Jamais assumiu uma carga tóxica, tampouco construiu uma muralha entre ela e os bons sentimentos. Na juventude de Lurdinha, as mulheres criavam muitos filhos com a diferença de idade de um ano, um ano e meio, de um para outro. Uma diferença muito pequena, uma escadinha. Tudo era mais difícil, mais lento, demorava mais. Mas havia cuidado, zelo.
 
Não tinha máquina de lavar, fralda descartável, produtos sofisticados de limpeza. Os pisos eram de tacos, precisavam ser encerados para mantê-los limpos e brilhantes. O vestuário durava, reaproveitado pelos irmãos mais novos. Não havia utensílios ultramodernos, mas as roupas sempre limpas e passadas, a casa organizada, a comida na mesa, os filhos educados e respeitosos. A mulher daquele tempo não tinha as facilidades da mulher de hoje. Os filhos lavavam a louça, limpavam o chão, molhavam plantas, alimentavam os animais, ajudavam no serviço doméstico. Sobrecarregada, a Mãe reforçava princípios, o certo e do errado, cuidava da agenda dos filhos. Cumpria o papel de proteger o núcleo familiar. Lurdinha é dessa época em que as donas de casa faziam milagres.
 
Ela nasceu em 27 de abril de 1936. Ganhou o nome Maria de Lourdes, e o apelido de Lurdinha. Nasceu na minúscula Brejinho, sul da Bahia, entre Buerarema, Ferradas e Itapé. Filha da durona Nininha e do dócil Pedro. A partir dali o itinerário da enorme mulher que seria. Desejada, nasceu no decorrer de um dia ensolarado. Nasceu na sequência de um ritmo rural. Nasceu beirando o então formoso Rio Cachoeira. De um lado a outro do cenário, a beleza natural, o caminho caminhando, o deslumbre quando o tempo se suspende, e se permite parar a contemplar o espaço sem tempo. Ali admirava a vista que estendia-se até a mata de cacau, batendo nas paredes do céu. Havia uma ladeira e uma casa branca plantada no alto, sem energia elétrica, com três degraus para acessá-la.
 
Lar antigo de rede no alpendre, assoalho, sala de jantar e cozinha de chão pintado, fogão a lenha. Um lírico jardim com jasmineiros, rosas cor de vinho, palmeirinhas, laranjeiras e cafeeiros. Lírios-verdes na relva, um tufo azul de ásteres entre a harmonia dos tons cinza e prateado. Nos dias de chuva, a conversação ao lado do fogo eram o melhor refúgio. Sua boa memória guardou as primeiras lembranças da fazenda modesta de idílicos campos de pastagem. Um pasto na frente da residência rústica, galinhas, porcos e patos. Barcaças de cacau. Cacimba. Num curral, duas vacas e cavalos. Casa de farinha. Mais adiante, uma lagoa e um ribeirão, onde se lavava roupa e pescava pitú e acari, de jereré. O núcleo familiar Mendonça tinha um jovem e respeitoso ajudante, Saturnino, que também colhia o cacau naquele reino encantado.
 
O cheiro de café gordo e de pão fresco vindo da cozinha. Um copo de leite no curral. No café da manhã, comiam ovos, cuscuz, mugunzá, coalhada e arroz doce. No almoço, carne fresca, lombo, ensopado, feijão e arroz.
Se distraia com o voo de pássaros migradores lá no alto, sol a pino. À noite, luz de fifó e diante deles a deslumbrante lua dourada e estrelas cintilantes. Ninguém deixava de rezar antes de deitar-se. Isolada do mundo, perto do lugar havia somente outra fazenda, a de Pedro Cordeiro. A parente mais próxima, a avó Silvina, morava em Ferradas. Lurdinha viveu nesse paraíso até os sete anos de idade, onde aprendeu a ler com a Mãe Nininha. Na superfície de sacos de pão, rascunhou com lápis, a mando da sua primeira professora, a letra L do seu nome várias vezes naquele papel cinzento.
 
Minha saudosa avó, Nininha, nasceu na divisa com Sergipe, em Cachoeira da Abadia. Eu era apaixonado por ela. Fazia um bife picante de dar água na boca e me defendia da fúria verbal de Papai diante dos meus chiliques atrevidos. Meu avô, o sertanejo Pedro, nasceu em Itabaiana, Sergipe. Quando seu irmão, o sergipano Brás, mudou para Ferradas, ele decidiu comprar uma pequena fazenda por perto. Era um senhor tranquilo, vivia sem aborrecimento. Testemunhei e dou fé: lembro-me dele sentado numa cadeira que parecia um trono, na calçada da sua casa, proseando. Eu sentava no seu colo, enquanto ele cheirava rapé. Branco, baixo, de bigode, fumante de tabaco de rolo, não discutia nem tratava mal ninguém.
 
O que acrescentar ao que se sabe dele? Aos 48 anos de idade, desposou Nininha, de 23 anos, uma garota mandona, de coração parcimonioso e modestas carícias. Foram morar na fazenda onde Maria de Lourdes nasceu. Terra de secas e de cheias. De céu e de bichos. De luzes e sombras. Das águas correntes do rio e das águas paradas do açude. Quatro anos depois foi a vez de Maria do Socorro, que Lurdinha cuidava, colocando no colo infantil. Começava assim a surgir a mãe santíssima que ela tanto saberia ser. A irmãzinha morreu aos seis meses de idade, vitimada por uma febre ardente, chamada “mal de sete dias”. É possível que se tratasse de uma febre tifoide. Por fim, nesse retiro bucólico, nos verdes dos chãos, nasceu a caçula, a indomável Maria Rita. O progresso um dia destruiria essa paisagem. Ela viveu ali, em todo caso, durante sete anos, nas mais puras alegrias da infância.
 
Uma tal vida agreste parece, em nossos dias, ultrapassada ou deprimente, ou ambas. Mas Lurdinha não conserva más lembranças desse tempo. Oito décadas mais tarde, evoca esse passado com entonações enternecidas e sorrisos discretos. Como sempre, cada vez que ela se voltava para o mundo de vastos campos de solidão, a vida estava presente. Com seu imprevisto, sua natural defesa, sua doçura vez ou outra e sua quase plenitude. Foi de seu pai, que, segundo parece, herdou essas maneiras delicadas que são o sinal exterior de uma amenidade e de uma elevação de espírito verdadeiras. É uma daquelas mulheres que estão determinadas a fazer o melhor possível dentro da sociedade tal como ela é. Ela se divertia indo com a família à feira, aos sábados, em Ferradas. Faziam compras em Itabuna, no final do ano.
 
Entre hábitos, costumes e tradições, era amada pelos pais – “meu pai era um dengo comigo” – e colecionava bonecas de pano costuradas pela Mãe. Em dezembro, hospedavam-se na casa da avó Silvina, justamente para a festa de Nossa Senhora da Conceição, no dia 8. Havia missa e procissão, e Lurdinha se divertia com Ana, uma negra criada pela avó. Brincavam de fazer caretas e com as sombras ao longo da parede. Mas o velho mundo desmoronava. Quando chegou a época de ir a escola, a avó e os pais mudaram-se para Itapé, comprando casas no centro da cidade. Comportada, um pouco encabulada, Lurdinha cresceu com todos gostando dela. Carinhosa e tímida, nunca foi danada nem namoradeira, muito pelo contrário. 
 
mãe e pa
Sem pompas e adereços, ela e a prima Terezinha eram as mais belas garotas do pequeno lugar. Orminda, Belinha e Marieta, suas melhores amigas. No final de semana, cheirando a alfazema ia ao cinema. Amava o aventureiro sedutor Errol Flynn e guardou no coração o drama romântico “Suplício de uma Saudade”. Fez aula de corte e costura com Dona Isabel. Aprendeu a cozinhar. Ia às festas no São João e Natal. Numa delas, na metade da década de 1950, dançou com um rapaz de terno branco e gravata, e rendeu-se aos encantos dele. Filho do fazendeiro Zé Bispo, Antônio estudava em Aracaju e depois em Belo Horizonte. Proprietário de armazém de compra de cacau em Itapé, meu avô e filhos estavam sempre por lá. Quase cego, tinha como traço dominante, o fazer amizades. Alegre e conversador, gostava de bater perna. O namoro durou quatro anos com cartas de amor, noivado e casamento na Catedral de São José, em Itabuna, com Luzia Alves e Gervásio Santos – outra saudade - como padrinhos.
 
Protegida na sombra masculina daquele que viria a ser meu Pai, e estimulada pela paixão primeira, deixou a casa dos pais e foi construir sua vida matrimonial. Lua de mel em Ilhéus e na fazenda dos sogros bem-sucedidos. Casa grande reformada em Itapé e finais de semana em Itabuna, na rua Rui Barbosa. O casamento foi um teste para seu coração materno. Mais aí já é outra história, um dia talvez eu conte. Segundo um ditado judaico, ao criar o mundo, Deus percebeu a dificuldade que teria para estar em todos os lugares; e aí inventou as Mães. Quanto a isso, eu posso constatar a divindade na maternidade por experiência própria. Vi e pude sentir em Dona Lurdinha uma santa que ilumina com sua bondade e apascenta com sua fé cada um dos seus filhos e as pessoas sob a sua estufa de amor. A vida muito lhe deu e muito lhe tirou. Sua presença incentivando os caminhos éticos para minha entrada na maturidade foi imprescindível para os meus futuros passos.
 
Das ondas de boa vontade que emanam dela, abriu a ponte do mundo pra mim, diante da estranha zona de sombra de onde viemos e para onde voltaremos. Eu saí do seu ventre num parto que de tão normal ela considerou uma hora mágica e feliz. O eu bebê berrou no tapa da parteira Dona Aída por volta da 1h da madrugada. Sendo assim, essa crônica pretende ser a expressão da profunda gratidão a Nossa Senhora Lurdinha. Rogo ao Bom Deus, irradiar sobre essa santa Mãe, suas melhores bençãos, e de nos conceder a felicidade de lhe conservar ainda durante longos anos em boa saúde, na afeição sincera dos seus filhos, noras e netos, e muito particularmente de seu filhinho maior, um amante das palavras poéticas.
 

DEZ FRASES INSPIRADORAS
 
01
“Tudo aquilo que sou, ou pretendo ser, devo a um anjo, minha mãe.”
ABRAHAM LINCOLN
 
02
“Mãe, na sua graça, é eternidade.”
CARLOS DRUMMOND de ANDRADE
  
03
“Sinto que no céu, os anjos, sussurrando uns aos outros, 
não encontram entre os ardentes termos de amor 
nenhum que expresse mais devoção do que o de ‘mãe’.”
EDGAR ALLAN POE
  
04
“Mãe é aquela pessoa para quem você corre quando está em apuros.”
EMILY DICKINSON
  
05
“No coração das mães se encontra sempre o perdão.”
HONORÉ de BALZAC
 
 06
“Um amor tão poderoso quanto o de sua mãe por você 
deixa sua própria marca. Ter sido amado tão profundamente 
nos dará alguma proteção para sempre.”
J. K. ROWLING
 
07
“A mãe é eterna, o pai imortal.”
MIA COUTO
  
08
“Os homens são o que as mães fazem deles.”
RALPH WALDO EMERSON
 
 09
“Os filhos são para as mães as âncoras da sua vida.”
SÓFOCLES
  
10
“Os braços de uma mãe são feitos de ternura e os filhos dormem neles.”
VICTOR HUGO