dezembro 25, 2013

.............................................................. A POESIA DE YURI HÍCARO



Poemas: YURI HÍCARO
(Pau dos Ferros, RN, 26 anos)

Ilustrações: OTTO PIENE


O CANTO DAS GAIVOTAS

Eu clamo, alucinado
Pelo começo de minha morte,
Ronca a minha campa
Em um brado sinistro.
Eu choro...
...As guitarras choram!
Não antes de sentir,
Mais uma vez o sabor da uva,
E outra vez...
Eu choro na minha partida
...As gaivotas cantam!
Não antes de admirar,
Os traços da tela,
O abismo obscuro,
A noite e o seu esplendor.
Eu caio...
...Todos caem uma vez,
E outras mais.
Não antes de mais um beijo
Na flor fogosa,
O seu cheiro, divino.
Eu me afogo na solidão
...O mundo é solitário!
Não antes de um abraço,
Um abraço platônico em Apolo.
Eu choro...
...As gaivotas cantam!


DANTESC’AZIA

Como mentem deliberadamente
Tais máquinas contemporâneas,
Tais homens inconsequentes,
Oh! Como mentem, como mentem
Esmolam-se discursos negligentes,
Óleo negro de torneiras
Escorre... Sobre leitos,
Sobre o peito de crianças,
De indigentes.
Sucumbem conteúdos, peles,
Sentimentos...
Ao meio de esgotos, aracnídeos,
Teias de podre existência,
Gritos lentos,
Humanóides,
Liberal mentira de máquina cardíaca...
Azia, dantesca azia,
Liberais mentiras de máquinas cardíacas!


LAMENTO

Lamento sufocar minha
estupidez nestes versos...
ignorantes
ignorados;
Lamento liberar
meu absurdo,
meu sonho
para um mundo vigiado;
ignoro não ser escutado,
um fingimento...pragmático.
Eu sinto
as lágrimas que escorrem,
o fogo que queima,
o vôo subestimado
com o sufocar dos meus lamentos.
Eu lamento tudo isso,
freneticamente,
com o sinzelar de alguns cigarros...
pensamentos.
É misto o meu segredo
o meu veneno,
um escremento a lamentar
o escremento,
o veneno a envenenar
o meu lamento...
É o lamento a alimentar
o meu momento.


QUANDO JÁ NÃO BASTA...

Dê-me as ferramentas
E eu removerei o mundo,
Mas não
Me deixe
Só...
Eu preciso de você para suportar.
Dê-me as pedras
E eu subirei o topo de tudo...
Basta você me aceitar.
E todo cuidado é pouco.
Como no
Blues...
Quieto,
Nobre e macio... solto... só.
Perdoe-me por te querer a todo
Preço,
Quando já não basta a minha
Alucinação.
Quero-te a todo custo
E ao teu perdão.


INANIÇÃO

Da minha boca
Aberta e muda,
Saem gritos inaldíveis.
A minha rua
Não é mais a mesma,
E a minha visão dela
Difere da tua...
Encaro minha razão inútil.

Fecho os olhos
E adormeço, como no cinema...

A minha pele
Conhece a minha água,
Que conhece minha terra...
A minha pele
Desconhece minha dor;

Escarro minha razão inútil.

Da minha boca
Deserta e nua,


Emergem gritos inaudíveis de ternura.

yuri hícaro


dezembro 01, 2013

.......................................... A SIMPLICIDADE É UM DIAMANTE



Ilustrações: DAMIEN HIRST


Por vezes, na vivência europeia de muitos anos, sentia nostalgia. O fato de encontrar-me fora do Brasil contribuía para reforçar um sentimento terno de pertencer à esse país. Tomado por febres românticas, sonhava com praias banhadas por águas mornas, a exuberância da Mata Atlântica, crepúsculos tropicais, chuvas pesadas, mangas encarnadas, acarajé, água de coco verde etc. O Brasil sempre foi uma grande história de amor. Por prazer, hábito ou necessidade espiritual. Entre uma entrevista e outra, um livro e outro, emocionado, voltava à terra amada. Além do coração, aguardavam-me também as sombras do mal protegendo corruptos e desalmados.

O Velho Continente refinou-me, alargou horizontes. Circulei em famosos festivais de cinema, participei de encontros literários, conheci escritores célebres, castelos medievais e palácios barrocos, tomei banho de sol às margens do Rio Sena, dormi inúmeras noites na germânica Floresta Negra, frequentei a Tate Gallery e o Louvre, ouvi a música épica de Richard Wagner na Baviera, concertos de Nina Simone, espetáculos de Pina Bausch e Robert Wilson. Enfrentei duras provas, algumas vertigens, solidões, terremotos do coração. Fazendo o mel de inumeráveis encontros e desencontros, numa aventura nada heroica, sem me levar demasiado a sério, aprendi que o requinte não só beneficia e um belo dia voltei ao Brasil. Em busca de perfumes, encantos sedosos e cumplicidades guarnecidas, terminei por encontrar a simplicidade. Não deixa de ser um tesouro. Afinal, como escreveu um dos meus escritorores favoritos, Paul Bowles: “A simplicidade é um diamante”.



novembro 04, 2013

.......................................... CAMINHANDO pelas RUAS de TANGER

paul bowles

Ilustrações:
HENRI MATISSE


Despertei interesse pela literatura de PAUL BOWLES (1910-1999) ao ver “O Céu que nos Protege / The Sheltering Sky” (1990), de Bernardo Bertolucci. No filme, o escritor tem participação especial como um misterioso idoso, em um café, que diz não ser turista, mas viajante. Assim, aproximei-me de uma narrativa nada convencional. Jovem ainda, ele publicou alguns poemas em revistas. Como muitos da sua geração, embarcou para Paris, conhecendo Gertrude Stein, que o aconselhou a viajar a Tânger, onde passou um verão, tocando Mozart. A música era outra paixão. Ele compôs para peças de teatro, colaborando com cineastas e dramaturgos como Orson Welles, Elia Kazan, William Saroyan e Tennessee Williams. Artista multifacetado, autor de romances, contos, poemas e livros de viagens, traduziu autores marroquinos e transcrições de contos tradicionais do Marrocos recolhidos oralmente.

truman capote, jane e paul bowles
Entre a majestosa solidão do Saara e a tranquilidade doméstica da ilha tropical no Ceilão – propriedade extravagante e selvagem que manteve durante alguns anos na costa de Weligama –, PAUL BOWLES percorreu incessantemente os caminhos do globo. Uma curiosidade inesgotável alimentou um fluxo constante de viagens, em que alternou a deslocação com a permanência. Passou temporadas na Argélia, França, Índia, Ceilão e outros países. Mesmo viajando por diversos países, foi o Marrocos que tocou o coração do escritor norte-americano, aonde chegou pela primeira vez aos 21 anos, voltando dezoito anos depois para ficar definitivamente. 

Eu não escolhi morar em Tanger de forma permanente. Isso foi alheio a minha vontade. Minha estadia devia ser de curta duração, tinha a intenção de ir para outro lugar, ainda e sempre, sem jamais me fixar definitivamente. A preguiça me fez postergar a partida. Depois veio o dia em que tive que me render às evidências: o mundo não apenas estava muito mais cheio do que há apenas alguns anos, mas os hotéis estavam piores, as viagens menos agradáveis e a maioria dos lugares menos bela do que antes. A partir de então, cada vez que me encontrava em outro lugar, tinha imediatamente vontade de estar em Tanger. Se estou aqui até hoje, é apenas porque este é o lugar em que me encontrava quando compreendi que o mundo estava mais feio e que não tinha mais vontade de viajar, disse-me.

PAUL BOWLES se casou em 1937 com Jane Auer, depois Bowles, também escritora, lésbica, autora da obra-prima “Duas Damas Bem Comportadas / Two Serious Ladies” (1943). A vida de Jane foi atormentada e marcada pela doença e a sua obra, escrita até aos trinta anos de idade, compõe-se apenas desse romance, da peça teatral “In the Summer House” (1953) e de sete contos que foram publicados sob o título “Plain Pleasures”. A turbulenta relação do casal é retratada no romance “O Céu Que nos Protege / The Sheltering Sky”, primeiro sucesso editorial de Bowles, publicado em 1949 e ocupando o primeiro lugar da lista de best-sellers do “New York Times”. Este romance, como de resto, toda a sua obra ficcional, reflete o absurdo do mundo moderno, a crueza, a corrupção. Aliás, nos romances e contos do escritor não há culpados, há uma hierarquia de valores, uma explicação do humano sem julgamentos.


O suave ambiente do Norte da África, bem como a tolerância que então se vivia no que respeita a experiências homossexuais e a utilização de drogas, parecem ter constituído atrativos e a casa de PAUL BOWLES em Tanger passaria a ser o centro de peregrinação da geração beat, incluindo Allen Ginsberg, William S. Burroughs e Gregory Corso, e também de meio mundo gay das letras e das artes: Jean Genet (que se apaixonou pelo Marrocos e exigiu ser enterrado lá), Truman Capote, Tennessee Williams, Joseph Losey, Luchino Visconti, Salvador Dali, Francis Bacon, Gore Vidal, Carson McCullers, John Cage, Cecil Beaton, Djuna Barnes, Henri Cartier-Bresson.  Enquanto Bowles deixava-se seduzir por garotos árabes, sua esposa sofreu um derrame cerebral em 1957 e não se recuperou até sua morte, em 1973.

paul bowles
“Tive sempre a vaga certeza de que em algum momento da minha vida entraria num lugar mágico que, revelando-me os seus segredos, daria-me sabedoria e êxtase”, disse-me no nosso encontro. Um ano antes dessa confissão, com carta de apresentação de um amigo jornalista do “El País”, procurei-o num outono bastante quente, mas ele não se encontrava no Marrocos. Doente, com graves problemas ósseos, procurava curar-se em um hospital de Madri. Não dei por perdida a viagem, visitando os cafés que ele frequentava, conversando com seus conhecidos, passando diversas vezes pela rua de Campoamor, onde residia. No início de l998, voltei a Tanger e fui gentilmente recebido por PAUL BOWLES, que era conhecido na cidade como “l'écrivain américain”

A primeira impressão que tive foi a de estar diante de um anjo muito velho, cansado da experiência terrestre. Os olhos azuis e penetrantes revelavam desamparo, como um animal maltratado. Quando apertei a sua mão, tive receio de ser demasiado rude diante de tamanha fragilidade. Ele riu, perguntando: “O que faz um brasileiro em Tanger?”. “Vim vê-lo, Mister Bowles”, respondi com voz tímida. “Há coisas mais interessantes por aqui”, continuou com o mesmo sorriso delicado, convidando-me a sentar, enquanto o criado nos servia chá de hortelã. A casa, de simplicidade franciscana, tinha encanto próprio e cada objeto possuía personalidade. Observei os livros - não muitos para um escritor -, papéis empilhados, o salão mal iluminado e a leve claridade de minúsculas janelas. Um pássaro estranho não parava de cantar, competindo com a bonita música instrumental vinda de outro compartimento. “O que mais gosto é música. Poderia ter sido compositor”, confessou melancólico. “O senhor é compositor”, afirmei, lembrando-me das peças compostas para orquestra, piano, bailado e voz. Ele nada respondeu, ficando em silêncio por algum tempo, os olhos gélidos perdidos no invisível.


Quando voltou a olhar-me, perguntei sobre a passagem por Tanger de célebres amigos gays - Tennessee Williams, Allen Ginsberg, Gavin Lambert, Truman Capote e Gore Vidal, entre eles. Respondeu-me que estava cansado da sua história, do passado, de falar de gente e livros. Não havia arrogância no tom de voz. “Não gosta de conversar sobre suas viagens?”, insisti. “Uma pessoa está sempre mudando e nunca chega a parte nenhuma. Mas chegar a algum lugar não é necessário. Morrer sim. Tudo o que é inevitável é necessário”, afirmou com sabedoria. Após novo e curto silêncio, animou-se, convidando: “Vamos caminhar pelas ruas de Tanger? Mas não posso demorar, receberei um cineasta argentino (Edgardo Cozarinsky, que filmou “Fantômes de Tânger” com Bowles como ator) ainda hoje”. E assim aconteceu. Caminhamos durante horas pelas ruas de Tanger, enquanto um ou outro o cumprimentava e eu me sentia feliz como passarinho. Nunca mais voltaria a ver PAUL BOWLES, ele morreria no ano seguinte, em l999, aos 89 anos. Fascinante, inconformista visceral, é um dos grandes viajantes eruditos do século XX, e o seu legado – musical e literário – evidencia, em toda a sua originalidade, sofisticação e versatilidade, a aventura, o talento e a mestria que caracterizam a sua vida e obra – sempre indissociáveis.


outubro 01, 2013

................. PAULO COELHO: “MEUS LEITORES SÃO INTELIGENTES”



ANTONIO NAHUD esteve com o escritor carioca PAULO COELHO em 2004, no Fórum das Culturas Barcelona. O diálogo entre eles, publicado à época no jornal A Tarde, é reproduzido aqui.

Ilustrações:
WILLIAM BLAKE


No início dos anos 1970, PAULO COELHO vivia o movimento hippie, perambulando pelo mundo em busca de uma suposta verdade esotérica. Com pouco dinheiro, loucuras na cabeça e canções em parceria com o mítico roqueiro Raul Seixas, ninguém daria um tostão por sua escrita. Trinta anos depois, aos 57 anos, a história é outra: figurinha carimbada na lista de best-sellers de dezenas de países, membro da Academia Brasileira de Letras, acumula prêmios e condecorações, além de viajar com requinte e assédio constante da mídia.

De passagem pela Espanha, ele é um dos 120 escritores convidados para o Fórum das Culturas Barcelona 2004. Ao lado do perseguido Salman Rushdie (“Versos Satânicos“) faz parte do debate “O Valor da Palavra“ (El Valor de la Paraula), organizado pelo Pen Club catalão.

paulo coelho

MUITOS ESTRANGEIROS PENSAM QUE VOCE É ESPANHOL. TALVEZ PORQUE ALGUNS DE SEUS LIVROS RETRATEM A ESPANHA.

Exato. Já me perguntaram algumas vezes. Fico feliz porque gosto da Espanha, falo muito sobre este país e tenho afinidade com ele, mas sou brasileiro e vejo o mundo como brasileiro. Vivi em Madri seis meses, depois de uma peregrinação à Santiago e foi uma temporada lúdica. Sou também apaixonado por touradas. Mas jamais perderei minha raíz, minha identidade brasileira.

MESMO INCOMODADO COM O REPÚDIO DE COLEGAS, INTELECTUAIS E CRÍTICOS BRASILEIROS.

Não me preocupo com eles. Estou pouco ligando para tais comentários. É uma atitude natural, afinal comecei a publicar aos quarenta anos e logo me tornei um grande êxito. Eles não se conformam com isso. Existe também o fator inveja. Mas não faço parte de nenhum grupo literário, tenho meus leitores e sou Paulo Coelho, um escritor best-seller com a ajuda de Deus. Sei também que nenhum sucesso é eterno. O essencial é não perder a naturalidade, porque o leitor não aceita fórmulas, não quer repetições. Eu escrevo sobre os temas que me preocupam e não sobre as coisas que os outros gostariam de ler. Meus leitores são inteligentes. Se eles encontrassem uma fórmula perpétua nos meus livros já teriam me abandonado. Eu me surpreendo com o que escrevo. Isso é que dá vida a minha escrita.

FICA MAGOADO QUANDO CLASSIFICADO COMO ESCRITOR DE LITERATURA ESOTÉRICA?

Claro. Os meus livros são diferentes desse tipo de literatura. Não brinco com a inocência das pessoas. Falo da magia de pessoas comuns, do cotidiano de todos nós. Meus personagens lutam e enfrentam provas iniciáticas para seguir vivendo. Tenho um estilo que busca a simplicidade, sendo direto sem ser superficial. Não desaprovo quem bebe, fuma ou se diverte. O chato é que as pessoas procuram situar o novo com um modelo conhecido. Já fui comparado à Castañeda, Gibran e Stephen King. Não tenho como evitar essas comparações. O que sei é que sou escritor.


O QUE PROCURA EXATAMENTE AO ESCREVER UM LIVRO?

Descobrir-me. Tenho uma inquietude e uma maneira de viver a vida que ao escrever passo a compreendê-la melhor.

EM 2000, NA FRANÇA, FOI CONDECORADO COMO CHEVALIER DE L`ORDRE NATIONAL DE LA LEGION D`HONNEUR. APRECIA SER HOMENAGEADO?

Seria hipocrisia dizer que não ligo para homenagens, mas a melhor homenagem é o leitor fiel. Todos os prêmios que recebi foram dados por eles.

SE SENTE VAIDOSO POR SER O AUTOR DE LÍNGUA PORTUGUESA MAIS LIDO EM TODO O MUNDO?

Sinto que é uma grande responsabilidade. Procuro, em todos os países que visito, falar um pouco dos escritores de língua portuguesa. No entanto, penso que a literatura lusófona está cada vez mais conhecida. O Nobel de Saramago contribuiu para essa divulgação.


CITE UM ESCRITOR BRASILEIRO QUE LEMBRA EM ENTREVISTAS E PALESTRAS FORA DO BRASIL.

Jorge Amado. Eu o admiro, sempre foi um dos meus escritores favoritos. Ele e o argentino Borges. Eu creio no que disse Borges, há somente quatro histórias para narrar: a de um homem e uma mulher, a luta pelo poder, o triângulo amoroso e viagens. Fico com a última, pois viajando se aprende a ser tolerante e aberto para todas as coisas deste vasto mundo.

O FÓRUM DAS CULTURAS BARCELONA APOSTA NA PAZ E NA SOLIDARIEDADE EM UM MUNDO MARCADO PELA GANANCIA E PELA VIOLÊNCIA. O QUE PENSA DESTE EVENTO?

É uma proposta positiva, que poderá trazer bons resultados. Vivemos em um mundo conduzido por padrões de condutas, padrões de qualidade, de beleza, de eficiência, de sabedoria. Acreditamos que existe um modelo para tudo e que seguindo tal modelo estaremos seguros. Não é verdade. O certo é que vivemos num mundo perigoso, mas também muito rico, que ainda permite que as pessoas se aproximem e troquem impressões. Creio que é preciso uma maior preocupação com a espiritualidade, pois esta preocupação leva à solidariedade e não ao egocentrismo, como muitos querem fazer crer.

VOCÊ ESTÁ RICO?

Dizem que sou o segundo escritor mais lido do mundo. Pode ser, mas a grande riqueza é ter meus livros publicados. Mas concordo que ganhar dinheiro com nossos sonhos é algo especial, que respeito.

ALÉM DE ESCREVER, MUITOS ESCRITORES TRABALHAM NOUTRAS ATIVIDADES PARA PAGAR SUAS CONTAS. NÃO É O SEU CASO. SE CONSIDERA UM PRIVILEGIADO?

Com certeza vivo um sonho, mas todo sonho implica desafios. E o sonho literário é um desafio permanente. Assim que terminar de conversar com você e seus colegas, irei para o computador terminar uma coluna para um jornal do Brasil e logo depois será a hora da minha palestra. Não é um desafio? Mesmo vivendo o nosso sonho, nada é fácil. Pode ter certeza.


agosto 26, 2013

........... O PENSAMENTO ORIGINAL de DIOGENES DA CUNHA LIMA

diogenes da cunha lima por morvan frança

Desde jovem tive o privilégio de conviver com notáveis. Adolescente, imaturo, compartilhava as reflexões eruditas do contista Hélio Pólvora, acumulando ensinamentos, e resultando em descobertas literárias e firmeza de vontade para não desistir da escrita. Cismado, taciturno, reservado, irônico e mente acesa, ele era o meu anti-herói favorito. No Rio de Janeiro, aos dezessete anos, magricela e curioso, passei tardes na Cinemateca do MAM com o escritor argentino Manuel Puig. Após exibição de filme clássico em preto e branco, entre um gole e outro de café, soube muito de cinema hollywoodiano. O autor do best-seller “O Beijo da Mulher Aranha / El Beso de la Mujer Araña” (1976) encontrava no cinema do passado fantasiosas soluções para a vida tacanha, refletindo essa obsessão nos seus romances. Nessa época, solto como Rimbaud, relacionei-me com o bardo Antonio Cícero, abrindo caminhos para a poética transcendental de Jorge de Lima, Wally Salomão e Paulo Leminski, entre outras. Enquanto isso, rabiscava versos e contos inseguros, em busca de méritos próprios.

Mais adiante, morando em São Paulo, aconteceu a amizade conluiada com a poeta Hilda Hilst. Foram dois anos passando finais de semana com ela, na Casa do Sol, em Campinas. Hildinha, rigorosa como lâmina afiada, colocou-me na parede: o mundano ou a escrita. Ela não acreditava no artista “em cima do muro, nem lá nem cá”. Abriu meus neurônios para a cultura grega, o Oculto e seus seres invisíveis, e a literatura de entrega incondicional, de Safo a Guimarães Rosa. Poucos anos depois, em Sintra, a hora e a vez da benção existencial-literária de Jorge Telles de Menezes, intelectual de nobre potencial poético e ser de dignidade cintilante. Passei uma boa temporada em sua bucólica casa à beira mar. Tive momentos de descobertas, embora curtos, com as escritoras Maria Gabriela Llansol e Doris Lessing, respectivamente em Sintra e Londres. Em Tânger, no Marrocos, passei uma tarde com o autor de “O Céu Que nos Protege / The Sheltering Sky” (1949), Paul Bowles. Parecíamos antigos amigos, abraçados pelas ruas, tagarelas, misturando espanhol e inglês, falando do ofício literário, literatura beat, Jean Genet, erotismo marroquino e a necessidade de solidão e silêncio.

Todos eles tiveram importância capital nessa errância de escritor viajante. No entanto, nenhum marcou-me tanto – consequentemente, vida e arte - como Diogenes da Cunha Lima, o Poeta do Baobá. Mestre, amigo, ele suaviza corações com personalidade justa, cortês e generosa. Difícil escritor feito ele, com tamanha elegância moral. Não é de formalidades vazias e protocolares. A arrogância, mesquinhez, inveja, vingança e deslealdade, típicas da rotina de trocentos bocós de sucesso, não fazem parte do seu universo. Para ele, a vida é bela e a literatura, a família e a amizade são joias raras que devem ser celebradas. Anda sorrindo, mesmo quando triste. Da memória baú de tesouros, inesperadamente lança numa conversa um fértil poema ou causo instigante e divertido. Lembra com frases exatas conversas com pessoas que conheceu ao longo da vida. Considerando Luis da Câmara Cascudo seu mestre, é um  dos maiores divulgadores do legado deixado pelo historiador potiguar.

De temperamento vulcânico, no bom sentido, Professor Diogenes pode a qualquer momento ter rompantes de irreverência humorada e vertente experimental. Tem uma maneira única de sobreviver, movimentando-se com intimidade no universo literário do Rio Grande do Norte e cultivando autores sofisticados como referência. Enxerga o que há de melhor no próximo, deixando-nos sem ação com elogios hiperbólicos. Mas pode ter certeza que ele acredita no que diz. Em “O Livro das Revelações” (2013) escreveu a meu respeito: “O poeta e jornalista tem um dos melhores textos do país e é mestre em fazer e conservar amigos”. Que responsabilidade! Ao ler esse comentário pela primeira vez, embasbaquei, garimpando pedaços de mim no amável julgamento. 

Fomos educados em extremidades opostas, revelando-se circular, e assim nos aproximamos. Partilhamos idêntica paixão literária e enxergamos nela o sentido da vida. Sei que há um ou outro espírito de porco que não valoriza nossa amizade, circulando indiretas abestadas. Certa vez, no café da Livraria Saraiva da capital potiguar, um repórter fotográfico, depois de me fotografar, perguntou-me cínico: “Como vai seu pai?”. “Morto e enterrado”, respondi. “Falo do doutor Diogenes”, insistiu. A maldade deixava os seus olhos opacos, áridos. Mas não me abalou, muito pelo contrário, sinto-me honrado em ser amigo e trabalhar com o Professor. É fortuna das grandes, ele é de singularidade exemplar, de destreza verbal estimulante e inteligência em constante motivação. Engana-se quem pensa que pode menosprezar a grandeza do seu legado literário. Ele é um dos grandes da literatura nordestina.

Não nasceu para se entregar, sofrer, desistir ou se amargar. Liberto pela imaginação, nunca descamba para a derrota, acenando com soluções. O bom senso renasce das cinzas em questão de segundos. Admiro sua escrita solidária e versátil, equilibrada entre a sabedoria e o encanto habitual do poeta diante do mundo. Ele escreve sob o compromisso de entender as pessoas, colocar-se no lugar delas, compreendê-las sem as julgar. Tenho um caderno onde reproduzo meticulosamente, há anos, os trechos que mais me comovem em seus livros, sempre acompanhados por duas ou três linhas de comentários singelos e cuidadosos. Talvez um dia eu o publique, algo assim como “A Literatura do Professor”. Penso em reescrever mais adiante sua biografia, lançada em 2004, esgotada, com novo título: “O Professor Revisitado”.

Aprecio o pensamento original. Sei que se todo mundo pensa igual, ninguém pensa nada. Então, louvo o pensamento personalizado. Parafraseando George Orwell, todos os homens são iguais, mas alguns são menos iguais do que os outros. Ainda bem. Cá entre nós, Professor Diogenes da Cunha Lima é um deles. Portanto, é uma honra e uma sorte está por perto para continuar ouvindo sua palavra que não esmorece, altissonante e autêntica.          

antonio nahud e diogenes da cunha lima


agosto 17, 2013

.......................... “LITERATURA é UM JOGO de VIDA e MORTE”




ANTONIO NAHUD entrevista ALEXANDRE BONAFIM

Ilustrações:
ÍTALO TRINDADE

Nascido em Belo Horizonte, aos oito anos de idade o poeta  ALEXANDRE BONAFIM mudou-se para a cidade de seus pais, Franca, no interior de SP. Aos 32 anos, fixou residência em São Paulo, a fim de concretizar seu curso de doutorado. Atualmente mora em Goiânia e é professor de literaturas de língua portuguesa da Universidade Estadual de Goiás, unidade de Morrinhos. Publicou poemas e contos em importantes antologias. É mestre em estudos literários pela Unesp de Araraquara e doutor em literatura portuguesa pela USP. O seu mais recente livro “O Secreto Nome do Sol” (Editora Patuá, 2013), sensual e provocador, investe numa poética inteligente e emocionada, estruturada com segurança cintilante em imagens líricas que são reafirmações do valor da vida e da própria poesia. O contraste entre a vida real e o onírico expressa uma permanente sensação de exílio. No coração deste belo livro, a honestidade sensível – e por vezes melancólica - do autor entusiasma a leitura.

POR QUE SE TORNOU POETA?

Eis um grande mistério: como se gesta um poeta? No meu caso, creio que desde a infância eu estive profundamente ligado à busca de Deus. Conversava muito com Ele, ainda criança, como se a divindade fosse um interlocutor presente, vivo aos meus olhos. Essa sensibilidade já era, digamos, o princípio da poesia em mim. Todo poeta acaba criando uma espécie de mito pessoal, de cunho lírio. Pois bem, para mim a poesia está intrinsecamente ligada ao sagrado. Não sou necessariamente religioso, mas sinto que na palavra, em seu cerne, palpita o enigma de tudo, a grande vertigem do movimento cósmico. Eu apenas me deixo guiar pelo sopro das palavras, permitindo que o poema teça, em mim, a sua vida, a sua seiva. Nesse sentido, o fundamento da minha existência é a poesia. Sem ela, com certeza eu seria outro ser, outra pessoa.


DEDICA MUITO TEMPO À POESIA?

Dedico todo o meu tempo à poesia, apesar de ela se manifestar por mecanismos secretos. Nunca escrevo um poema movido pela vontade. É necessário irromper o momento exato, iluminado, celebrante, em que a carne, num frêmito, se deixa mover pela força da poesia. Então, o poema nasce, quase sempre num jato. Depois vem o paciente trabalho de lapidar e de compor o livro. Todos os meus livros são cuidadosamente engendrados, pensados como um organismo, uma mandala. Agora, apesar desse instante rápido, fulgurante, em que poesia se mostra a mim, há a permanente labuta diária com a palavra. Todos os dias eu leio os poetas, desde os contemporâneos aos clássicos, num permanente exercício de aprendizagem. Sem leitura, sem o conhecimento do patrimônio cultural de nossa humanidade, dificilmente um escritor pode se tornar poeta legítimo. A escrita não se sustenta sem fecundação, sem germinação. É como um bailarino, um pianista, que nunca estudou, nunca treinou. Ele estanca o movimento, pois não há a seiva da aprendizagem, do estudo, da análise, o conhecimento dos mecanismos de sua arte. Por isso eu sou sempre um aprendiz. Mesmo sentindo que hoje, a minha voz já maturou, já encontrou sua dicção, seu diapasão.

QUAL FOI O MELHOR ELOGIO QUE JÁ RECEBEU EM RELEÇÃO À SUA POESIA?

Olha, creio que tive vários momentos de felicidade ao ouvir a leitura do outro. Por exemplo, o prefácio de “A Outra Margem do Tempo”, escrito pelo grande romancista Álvaro Cardoso Gomes. Foi incrível o que ele escreveu e até hoje me emociona. Outro instante de muita beleza foi o recital, bem ao estilo grego, feito numa cidade baiana incrível, chamada Maracás. Esse recital foi apresentado por um grupo chamado Concriz, composto em sua maioria por adolescentes e crianças. A leitura desses jovens foi algo que estrondou em mim, que me deixou estarrecido ante a beleza. Eu fiquei em êxtase. Inclusive, parecia-me que a minha escrita era de outra pessoa, de um ser maior que eu... Foi um dos momentos mais lindos de minha vida. Tenho de agradecer ao querido amigo, o poeta José Inácio Vieira de Melo, que me oferendou esse instante de iluminação.


A SUA POÉTICA TEM REVIRAVOLTAS INESPERADAS?

Já teve no passado, quando eu ainda era um escritor em busca de uma voz, de uma dicção. No início, quando ainda não temos experiência, somos muito suscetíveis às nossas leituras. Eu me lembro que eu travei ao ler a obra da Orides Fontela. Tudo o que escrevia saia orideano... Hoje ainda sinto que, ao ler um poeta que me toca, eu sofro a influência, mas já há uma espécie de filtro, de entremeio. A leitura se adensa e se transforma exatamente naquilo que eu sou. O poema nasce, claro, sob o signo do outro, mas já talhado exatamente por aquilo que sou, pela linguagem já maturada. Pelo outro, empreendemos um encontro com nossa verdade essencial. Agora, é claro que não podemos nos acomodar. Escrever sempre a mesma coisa cansa. Às vezes, ao sentir que eu me esgotei, tento buscar outros rumos, detonar a minha linguagem e edificar algo diferente. Foi o que aconteceu com “O Secreto Nome do Sol”. É um livro com vários matizes, vários meios expressivos. Eu vou do poema longo ao epigrama, da linguagem explosiva ao verso conciso, enxuto. Queria um livro de vários tons, várias pinceladas. Creio que foi uma aventura muito frutífera para mim. Aprendi muito ao compor tal livro.

GOSTA DE LEITURAS PÚBLICAS?

Eu sou tímido... Participei apenas de uma leitura pública, o “Quinta Poética” do Raimundo Gadelha, na Casa das Rosas em São Paulo... Foi uma experiência interessante. Em breve, devo participar do “Chama Poética” da Fernanda de Almeida Prado... Vamos ver... Creio que será um desafio também muito instigante.


SENTE QUE ESTAMOS, DE FATO, DEIXANDO PARA TRÁS A CULTURA DO LIVRO?

Essa questão tem me angustiado ultimamente. Vivemos em um mundo da crise da leitura. As pessoas se perdem na balbúrdia das novas mídias, das tecnologias da última hora. Em tudo isso há linguagem, mas uma expressão rasteira, sem profundidade. Em nossa era, parece-me que o livro tornou-se obsoleto, mesmo nas versões eletrônicas. Todos querem viver intensamente, movidos pelo conto de fadas do consumo, querem viajar, postar fotos no facebook, expor-se até os ossos. Quem vai parar o bonde da correria por dinheiro para ler “A Montanha Mágica” do Thomas Mann? Hoje o que mais tem no Brasil é escritor. Mas quantos estão de fato exercitando a leitura? Elaborando um trabalho fecundado pelo estudo? Há muita banalidade, muita despretensão. Literatura é um jogo de vida e morte. É necessário doar-se até as vísceras, jogar-se nesse abismo luminoso e fraturar todos os ossos. Eu tenho pavor de literatura lúdica, de literatura engraçadinha, que quer ser vanguarda apenas para causar impacto. O verdadeiro impacto da literatura é de cunho filosófico, de húmus existencial. A forma pela forma não muda o mundo. É preciso, claro, uma preocupação com o meio expressivo, isso é fundamental, mas também é imprescindível uma cosmovisão de amplitude para se fazer verdadeira literatura.  

EXISTE UMA IDADE EM QUE O POETA ESTÁ NO AUGE DE SUA FORMA?

Bem, acredito que isso depende de cada caso. Há poeta de idade avançada escrevendo coisas imaturas. O contrário também existe, é o caso do Rimbaud. Acho que isso depende de toda a formação cultural de um escritor e, claro, do talento também.


QUAL O SEU PRÓXIMO PROJETO?

Agora estou me dedicando à prosa. Finalizando um livro de contos. O título, ainda provisório, é “Fêmea Desnuda no Campo de Girassóis”. São sete contos, com sete mulheres, cada qual vivendo um drama, uma experiência crucial. Em todos, elas se desnudam movidas por interesses e motivos diferenciados. Há também inúmeros romances martelando em minha cabeça, mas ainda sinto que não estou preparado... Também escrevi, recentemente, um novo livro de poemas. Devo lançá-lo no próximo ano...

FALE SOBRE “O SECRETO NOME DO SOL”.

Ah, esse livro foi uma aventura, uma felicidade, um encantamento supremo. Primeiro porque foi editado pelo querido Eduardo Lacerda, um poeta-editor. Depois teve a bela capa do Leonardo Mathias. Eu escrevi certos poemas movido pelo delírio da felicidade. É o caso do “Ciclo do Amigo”, onde me desnudei completamente, criando imagens oníricas para detalhar o encontro amoroso. Em tal livro, verti minha paixão pelo grande Luis Cernuda, pelo António Ramos Rosa, pelo Eugénio de Andrade e Sophia de Mello Breyner Andresen. Sou apaixonado pelos ibéricos.

alexandre bonafim por joão alvarez