Mostrando postagens com marcador Caio Fernando Abreu. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Caio Fernando Abreu. Mostrar todas as postagens

outubro 14, 2018

.................. MARCELINO FREIRE: “O NOSSO TEMPO é DOENTE”




Ilustrações: DAVID TANNER
(Richmond, Virginia / EUA)

Entrevistei MARCELINO FREIRE 
para os jornais “A Tarde” e “Tribuna do Norte” 
2006


Nascido em 1967, no alto sertão de Pernambuco, Marcelino Freire vive em São Paulo desde 1991. Faz parte da nova geração de escritores brasileiros, designada “Geração 90”. Publicou “Angu de Sangue” (contos, 2000), “eraOdito” (aforismos, 1998/2002), “BaléRalé” (contos, 2003) e “Contos Negreiros” (contos, 2005), vencedor do Prêmio Jabuti. Editou a “Coleção 5 Minutinhos” e organizou “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século”. Atualmente prepara, em parceria com o escritor Santiago Nazarian, a antologia “Contos para Ler Fora do Armário”, e escreve seu primeiro romance. Tealizou o “Balada Literária”, projeto de 2006 que reuniu dezenas de escritores pelas ruas de São Paulo. Agora se apresenta no I Encontro Natalense de Escritores (ENE).

Quais são suas primeiras lembranças em relação à literatura? Como essa arte conquistou você?

Lembro sempre do Manuel Bandeira. É ele minha memória mais antiga. Lá pelos meus nove anos, li um poema do Bandeira chamado “O Bicho”. A partir dali quis ser um poeta. Um tuberculoso. Um doente. Bandeira me doutrinou a ser doente. Quando descobri que Bandeira era pernambucano igual a mim, senti uma chance. Eu poderia fazer o que ele fazia. Bandeira foi a minha porta de incêndio para a literatura. Por causa dele conheci Drummond, João Cabral, Cecília. Ah! No mesmo período, comecei a fazer teatro. Comecei escrevendo para teatro. Em resumo: a poesia e o teatro me salvaram. Ou melhor: arruinaram-me de vez. Estou doente até hoje. Tomado, entende?

Bancou do próprio bolso o seu primeiro livro, você. Como foi isso?

Banquei os meus primeiros livros. Comecei pelo “AcRústico”, em 1995. Um livro de contos muito ruim. Mas que foi importante para que eu exorcizasse aqueles textos da gaveta. Não tem coisa pior: do que conto olhando para você. Querendo sair à rua. Eu já estava morando em São Paulo quando fiz o meu primeiro livro. Não aguentava só ficar trabalhando em São Paulo. E eu queria ser escritor. Então resolvi, em vez de reclamar, ir à labuta. Paguei a impressão em suaves e humilhantes prestações. Depois veio meu livro “eraOdito”, de 98.

Recebeu palavras de incentivo de colegas?

A gente encontra gente muito generosa pela frente. A gente nunca está sozinho. Digo assim, na redoma. Conheci o João Alexandre Barbosa (crítico literário pernambucano que morreu recentemente) em São Paulo. Ele ouviu uma leitura de um conto meu, feita por mim, e me indicou à Ateliê Editorial. Grande incentivo ele me deu. Ele me apadrinhou. Além da indicação para publicação, escreveu o prefácio para o meu livro “Angu de Sangue” (em 2000) e o publicou na revista Cult. E por aí tudo foi caminhando. Mas foi preciso eu ter feito o “AcRústico”, o “eraOdito”, ter penado muito, enfim, assado. Ninguém aparece, assim, vapt, de uma varinha-de-condão. Longe disso. Tudo faz parte de uma trajetória, de uma história, de um ziguezague qualquer, sei lá. A estrada é longa, longa...

Como reage diante da crítica que resmunga sobre a violência na sua literatura?

Costumo dizer que eu não escrevo “sobre” violência. Escrevo “sob” violência. Dizem sempre que meus contos são violentos, meus personagens são todos doentes. Doentes estamos todos, ou não? O nosso tempo é doente, violentamente. Eu sou um escritor deste meu tempo, do aqui e do agora. Quem quiser “felicidade”, “conforto”, não vá ler os meus livros. Vá atrás de autores de auto-ajuda. E mais: dizem idem que eu só escrevo sobre gente mal-sucedida. Eu respondo: eu não estou preocupado com gente bem-sucedida. Meus livros não são empresariais. Eu faço é literatura, entende?

Literatura marginal, maldita... São clichês?

Podem chamar a minha literatura de “marginal”, de “maldita”, de “homossexual”, de “panssexual”, sei lá. Só nunca irão chamar de literatura “comportadada”, “tradicional”, literatura “que-não-fede-nem-cheira”. Podem me acusar, rotular de tudo, menos que eu tenho uma literatura “frígida”. Essa nunca! O que eu escrevo pode até não prestar, mas é coisa assim, urgente, viva. É assim, em resumo: eu escrevo para me vingar.

Como anda o romance “Gonza-H”? De que se trata?

Está em banho-maria. Andei lendo e detestando. Estou escrevendo um outro, chamado “Urubu Come Carniça e Voa”. Essa é uma frase, trecho de um poema do poeta pernambucano Miró. Conhece? Grande figura! Li recentemente esse poema e achei que dava para ser o título de uma coisa que eu estou escrevendo, além do “Gonza-H”. Não sei se vou conseguir terminar um desses romances. Ave! Meu fôlego é curto. E romance é um inferno. Eu termino um primeiro capítulo e vou dormir com o segundo capítulo. Putz! E eu quero é dormir. Eu prefiro dormir a escrever. Meu sono, esse sim, é sagrado!

A temática homossexual de alguns de seus cantos causou polêmica. Vê nisso alguma importância? Crê na literatura gay como gênero literário?

Não sei se causaram polêmica. Meus contos são o que são. E estão aí para serem os mais verdadeiros. Digo assim: “pau a pau” com o que eu quero escrever. Dizer, gritar. Alguma coisa me agonia, eu quero me livrar, entende? Urrar isso, passar adiante. Passo o vexame adiante escrevendo. É isso. Sempre tenho um conto de temática gay, desde o “AcRústico”. Mas é só a temática. O conto não é gay, digo assim, como gênero. É apenas um conto como outro qualquer. E até nem chamo os meus contos de “contos”. Chamo de “cantos”. O que eu escrevo é música. E música não tem sexo, não é?

Recentemente li um artigo sobre “Monstro que Chora (Dramas Homossexuais)” (1957), do carioca Jorge Jaime.  Diz-se que é um romance ousado e pessimamente escrito. Conhece? Existe uma literatura homossexual nacional? Quem é o nosso Christopher Isherwood? Caio Fernando Abreu, Trevisan, Cassandra Rios?

Eta danado! Não conheço esse “Monstro”. Fiquei curioso, enfim. O bofe é bonito? Olha: eu não saberia dizer se há uma literatura homossexual brasileira. Tenho preguiça até de pensar. Sei que gosto deveras dos textos do Caio Fernando, do João Silvério. Do estilo da Cassandra. Admiro mesmo. Aproveito até para dizer que eu e o escritor Santiago Nazarian estamos organizando uma antologia chamada “Contos para Ler Fora do Armário”. Sai no ano que vem. Mas não é uma antologia de autores homossexuais. Reúne alguns contos com essa temática e só. Tem lá o Caio, o João Silvério, o Mário de Andrade, o Rubem Fonseca, o Marçal Aquino, o Paulo Henriques Brito... Inclusive, não teremos apenas contos no livro. Vão entrar ensaio, reportagem... E até fotos.
                         
Quais são as suas regras de sobrevivência no meio literário?

Escrever, escrever, escrever. Só temos essa arma: escrever.

Qual o papel da mídia hoje dentro do mercado literário nacional?

Não podemos nos descuidar dela. Aliás, creio que foi sempre assim: desde o Machado de Assis. Escrever e aparecer e publicar nos jornais e ser resenhado, creio. O fato é que hoje a disputa é maior. Não sejamos inocentes. Uma vez a Rosa Montero, escritora espanhola, falou que antes ela escrevia porque não sabia falar. Hoje ela disse que precisa falar para continuar escrevendo. O escritor virou uma estrela popular, de alguma forma. Além de escrever, ele precisa falar, viajar, divulgar o seu rebento. Não vejo mal nisso. Desde que o peixe não seja podre, o negócio é gritar. Sempre foi assim. No gogó. É preciso dizer, ressaltar: escritor não é santo. Nunca foi. Luto contra isso: essa imagem solene do escritor. É preciso descer do pedestal. Enfim. E ir à briga. Movimente-se!

O que espera do I Encontro Natalense de Escritores?

Tomar muita cerveja. E rever o meu irmão, que mora por aí. E estender a discussão. E ser feliz. Apesar de tudo, e da literatura: ser feliz. É isso. Valeu e abração.

marcelino freire


julho 30, 2017

............................................. O REALISMO SUJO de JOHN FANTE




ESCRITA, BEBIDA e SOBREVIVÊNCIA

Siempre es así. Cuando crees que la tierra está exclusivamente
poblada por Mierdas, encuentras una perla
WILLIAM S. BURROUGHS
(1914 - 1997. San Luis, Missouri / EUA)
Marica (1985)

Fotografias:
EMMANUELLE MARCHADOUR


Bebia como um condenado, e sempre retratou sua própria vida nas histórias que escrevia. Sua trajetória mistura a jornada entre os gordos cheques dos estúdios de cinema e o foco na carreira literária. Esse é JOHN FANTE (1909 - 1983), figura lendária da literatura norte-americana. Seu pessimismo gritante e humor cáustico, tanto em sua vida como em sua obra, refletem uma rebelião contra a sociedade convencional. “Guru” de talentos reconhecidos como Raymond Carver e Charles Bukowski, sua criação é uma das mais inovadoras da literatura contemporânea. De olho no cotidiano, ele lançou o chamado “realismo sujo”.

Segundo disse, tentou “ser o melhor escritor do mundo”. Deixou como legado pelo menos duas obras extraordinárias, “Pergunte ao Pó” (1939) e “Sonhos de Bunker Hill” (1982), que estavam entre os livros preferidos do gaúcho Caio Fernando Abreu. Hollywood desperdiçou o talento de JOHN FANTE, reduzindo-o a um mero roteirista de encomenda sem qualquer obra cinematográfica de substância. Após ver um filme roteirizado por ele, “Pelos Bairros do Vício / Walk on the Wild Side” (1962), saboreando café com conhaque, no primeiro ano da década de noventa, conversei com Caio Fernando Abreu sobre a narrativa e a caracterização dos personagens do pai de Bandini. Sua violenta energia e visão de mundo são admiráveis. 

john fante
Defensor fervoroso de Fante, o papa do underground literário Charles Bukowski se ocupou durante toda a vida, e com afinco, de evidenciar o importante que para ele era a obra de JOHN FANTE, um escritor considerado até então medíocre, carente de recursos, um desconhecido. O romance “Pergunte ao Pó” vendeu apenas 3 mil exemplares quando lançado, porque o editor não tinha dinheiro para divulgá-lo. Em 1980, veio a reedição com prefácio de Bukowski e a descoberta mundial. Um estranho na terra prometida, feito um santo ou um criminoso com ordem de busca e captura, o escritor nada tinha a perder, e numa rotina encharcada de álcool, escreveu a vivência dos derrotados. Acabou seus dias em uma confortável casa em Malibu, na Califórnia, cego, com as pernas amputadas devido a diabetes que padecia, mergulhado num coração ferido, apostas e ditando romances para a mulher, a poetisa com interesse em magia branca, Joyce Smart.

Nascido em Denver, Colorado, o jovem candidato a escritor enviou um conto ao famoso H. L. Mencken, editor da revista literária “The American Mercury”, que foi publicado. Para ganhar a vida e sustentar a numerosa família de quatro filhos, que nunca levou a sério, trabalhou em Hollywood roteirizando filmes, vendendo a alma ao diabo e publicando apenas quatro livros em quase quarenta anos. O segundo deles, “Espere a Primavera, Bandini”, de 1938, conta com o irresistível protagonista alter ego do autor, Arturo Bandini. Lembro-me adolescente, trabalhando num escritório de arquitetura para pagar os estudos, identificado com as peripécias de Bandini, sonhando em viajar, vivenciar aventuras e escrevê-las.

Em 1952, JOHN FANTE obteve sucesso comercial com o romance “Um Casal em Apuros”, e a adaptação para o cinema o levou a nomeação ao Oscar de Melhor Roteiro. Em 1957, passando temporada em Roma, convidado pelo poderoso produtor Dino De Laurentiis, morava em um apartamento renascentista, com chofer e criada. A meta era desenvolver um roteiro - nunca rodado - sobre São Genaro. Na época, foi contratado por um decadente Orson Welles como colaborador de um programa radiofônico patrocinado por uma firma de cosméticos. Para o diretor Michael Curtiz (“Casablanca / Idem”, 1942) cobrou 350 dólares por uma hora de trabalho em uma cena de “São Francisco de Assis / Francis of Assisi” (1961). Federico Fellini também tentou tê-lo como parceiro, mas não houve acordo financeiro.

Pouco antes de morrer, aos 74 anos, justamente quando seus livros voltavam a ser publicados, escreveu “1933 Foi um Ano Ruim” (1985), “Rumo a Los Angeles” (1985) e “A Oeste de Roma” (1986). “Dago Red”, de 1940, foi reeditado em 1985 como “O Vinho da Juventude”. Passou a infância basicamente no triângulo escola-família-igreja. A juventude foi dura. Criou-se num lar entre intermináveis discussões, falta de dinheiro, insultos xenófobos e manifestações anti-católicas, defendendo-se do hostil mundo exterior com frequentes brigas e a prática do boxe. Herdeiro do espírito aventureiro paterno, trocou a igreja pela biblioteca pública, começando a escrever aos 20 anos. Cansando-se da universidade em seis meses de frequência, mudou-se para onde se tornaria um dos seus cronistas, Los Angeles.

Sua sobrevivência cotidiana com a mente direcionada para converter-se em uma “celebridade das letras” está impressa em seus vigorosos relatos. À imagem de Knut Hamsun, um dos seus escritores favoritos, passou fome, vagabundeou sem descanso, habitou sórdidos motéis, envolveu-se com garotas nada sérias, trabalhou em uma fábrica de conservas, e se embriagou todos os dias, montando escândalos públicos e proclamando-se um gênio incompreendido. Em busca do reconhecimento do talento, uma máscara para esconder uma espantosa desintegração social, coseu com humor macabro as experiências dramáticas de Arturo Bandini, um escritor-filósofo malandro e vaidoso protagonista de uma sublime tetralogia.

A crescente reputação como criador de histórias, de emotividade à italiana, abriu para ele as portas dos estúdios. Livre da fome e de roupas remendadas, pagou o preço do conforto atando-se a melodramas cinematográficos baratos, muitas vezes parodiando sua própria origem, em títulos como “A Vida Tem Dois Aspectos / East of the River” (1940), sobre o bairro nova-iorquino Little Italy. Como roteirista ganhava mil dólares por semana, mas foram filmados apenas oito de seus trinta roteiros, aos quais desprezava. Francis Ford Coppola projetou adaptar “The Brotherhood of the Grape” (1977), que o escritor considerava o seu melhor trabalho e aquele que o havia feito chorar mais. Retrata uma rude figura paterna em uma família italiana em crise. Mesmo com contos em revistas importantes, como “Harper´s” e “Esquire”, seus romances foram durante muito tempo recusados pelas editoras.

Bebedor incontrolável, péssimo pai e marido, JOHN FANTE podia acabar a noite falando porcarias com um companheiro ébrio da talha do premiado com o Nobel William Faulkner ou destruindo seu Plymouth contra um poste telefônico de Hermosa Beach. Em entrevista, um dos seus filhos, Dan, afirmou: “Não era um cara legal.”. As memórias tumultuadas da relação pai e filho foram parar em livro. “Meu pai teve muito azar, mas ele também construiu sua própria má sorte. Era um homem muito difícil, insultava pessoas. Não era nada político”, garante Dan Fante. Caprichoso, o escritor teve um jaguar, um pit-bull branco de nome Rocco e uma Baretta calibre 22. Entre um romance e outro, o tempo não jogou limpo com sua ambição de reconhecimento literário.

O diagnóstico de diabetes em 1955 fez com que sua carreira tomasse um baque. As complicações da doença ocasionaram cegueira. Mas não foi desculpa para que ele parasse de escrever. Passou então a ditar as histórias para sua mulher, Joyce. O editor de poesia do jornal “Los Angeles Times”, Ben Pleasants, e Charles Bukowski resgataram JOHN FANTE do anonimato. Fascinado pela leitura de “Pergunte ao Pó”, Bukowski rodou o bairro de Bunker Hill, onde se situa o esfomeado Arturo Bandini, para se sentir como o personagem por um dia. Seu alter ego, Henry Chinaski, manifesta em “Mulheres” (também em “Pedaços de Um Caderno Manchado de Vinho”), que seu autor preferido era John Fante. “F-A-N-T-E”, enfatiza. Por fim, Bukowski convenceu a Black Sparrow Press a republicá-lo, após anos de esquecimento. Ele visitou o ídolo no hospital e lhe dedicou “Love is a Dog from Hell”: “Para Fante, que me ensinou como. Hank”.


A biografia de JOHN FANTE foi publicada por Stephen Cooper em 2000. Ele faz parte da nata literária dos anos 1930-40 de escritores que viveram do ofício de roteirista de Hollywood. Gente do naipe de Raymond Chandler, Nathanael West, Budd Schulberg, Faulkner, F. Scott Fitzgerald, James M. Cain e Dorothy Parker. Não seria nada mal tomar uma taça de vinho tinto seco em sua memória. Que viva o mestre!

Barcelona, Espanha
09 de julho de 2005


CINCO FRAGMENTOS de “PERGUNTE AO PÓ”

O mundo era pó e ao pó voltaria.

Tudo o que era bom em mim me emocionou naquele momento, tudo o que eu esperava do profundo e obscuro significado da minha existência. Aqui estava a placidez interminável e muda da natureza, indiferente à grande cidade; aqui estava o deserto abaixo dessas ruas, ao redor dessas ruas, esperando que a cidade morresse para cobri-la com a areia eterna uma vez mais.

Tornava-me um estranho dentro de mim, era como todas aquelas noites calmas e os altos eucaliptos, as estrelas do deserto, aquela terra e aquele céu, aquele nevoeiro lá fora, e eu viera para cá com nenhum propósito exceto o de ser um mero escritor, ganhar dinheiro, ser reconhecido e toda aquela baboseira. Ela era melhor do que eu, tão mais honesta que fiquei enojado de mim e não podia enfrentar seus olhos cálidos.

Não fiz perguntas. Tudo o que eu queria saber estava escrito em frases torturadas na desolação do seu rosto.

Saí para uma caminhada pelas ruas. Meus Deus, aqui estava eu de novo, perambulando pela cidade. Olhei os rostos ao meu redor e sabia que o meu era como o deles. Rostos drenados de sangue, rostos tensos, preocupados, perdidos. Rostos como flores arrancadas de suas raízes e enfiadas num vaso bonito, as cores se esvaindo rapidamente. Eu tinha que sair daquela cidade.



novembro 15, 2016

............................................. CAIO F. - A VIDA APESAR de TUDO




E o futuro é de sangue, de aço, de vaidade. E vermelhos
azuis, braços e amarelos hão de gritar: morte aos poetas!
Morte a todos aqueles de lúcidas artérias, tatuados
de infância, de plexo aberto, exposto aos lobos. Irmão.
Companheiro. Que dor de te saber tão morto.
HILDA HILST
(1930 - 2004. Jaú / São Paulo)

Ilustrações:
BERNARD BUFFET
(1928 - 1999. Paris / França)


De acordo com o escritor mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke, é na literatura que reside “o esplendor da linguagem. Um povo sem literatura é um povo sem alma, sem história, sem memória.” Infelizmente, a maioria dos escritores não permanece, não resiste ao tempo, isso é óbvio. Não é o caso do gaúcho CAIO FERNANDO ABREU (1948 – 1996. Santiago / Rio Grande do Sul), vinte anos após sua morte, o autor de “Morangos Mofados” (1982) continua sendo lembrado. Considerado um dos principais contistas do Brasil, sua ficção se desenvolveu acima dos convencionalismos, evidenciando uma linguagem fora dos padrões.

Conheci CAIO FERNANDO ABREU pessoalmente, fomos amigos. No inverno de 1989, ao chegar a Registro, pequena cidade no interior de São Paulo, soube que eu dividiria quarto de hotel com ele, o homenageado de um encontro de literatura marginal, coordenado por Leila Miccolis e Urhacy Faustino. Como um dos escritores convidados, passamos três dias numa correria de palestras, entrevistas, leituras poéticas, restaurantes e bares, sem tempo para conversa mais profunda. Ele, ferino e resmungão, não parecia feliz. Sombrio, magreza excessiva e grandes olhos de desalento davam ao escritor um aspecto vampiresco. Muito jovem, fiquei assustado com a sua dor travada, evitando estar ao seu lado o máximo que podia. Na última noite, após bebedeira em um restaurante, conversamos sobre literatura e cinema. Ele se empolgou ao recordar a atriz Odete Lara, um dos seus ícones, e me tratou com aspereza ao ouvir que eu só lera uma única obra sua, o citado “Morangos Mofados”, talvez seu único sucesso, deixando evidente a fome de reconhecimento. Caminhamos pela cidade deserta, fomos barrados num clube suburbano proibido para brancos e houve um momento, num curto espaço de tempo, em que ele me deu sua mão, e andamos assim, íntimos.

caio, lygia fagundes telles, robby cardoso e hilda hilst
No ano seguinte, em São Paulo, nos reencontramos duas vezes numa mesma semana: nas residências de Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst. Eu trabalhava na Editora Siciliano, braço direito de Pedro Paulo de Senna Madureira, e costumava visitar escritores por exigência profissional. No apartamento da autora de “Horas Nuas”, um Caio gentil lembrou Registro com ironia e fez uma comparação inusitada: “Antonio parece galã de cinema dos anos 50. Algo entre John Gavin e James Garner”.  Nunca mais deixou de me chamar Gavin ou Garner, dependia do entusiasmo. Na Chácara do Sol de Hilda Hilst, em Campinas, o clima fechou, tempestuoso. Temperamentais, rancorosos, eles haviam cortado relações há alguns anos e Caio tentava recuperar o tempo perdido de uma antiga amizade iniciada em 1968, em plena ditadura militar, quando foi perseguido pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), refugiando-se no sítio da escritora. Não deu certo, a poeta, dura, abriu a boca sem piedade e ele partiu revoltado. Uma situação tensa e mal resolvida.


CAIO FERNANDO ABREU adorava escrever cartas, assinando muitas vezes como Caio F. - o primo brasileiro da alemã “Christiane F. Drogada e Prostituída”. Ele se dava alcunhas. Em suas cartas, numa espécie de voyeurismo literário, tomamos parte da intimidade do escritor, sabendo de peripécias angustiadas. Demonstrando enorme disposição para o diálogo e a troca, ele escrevia para amigos e também para se apresentar a escritores que não conhecia, expressando admiração. Assim fez amizade com Hilda, Clarice Lispector, Nélida Piñon, entre outros. Morando em diferentes cidades, escrevia loucamente, em um ritmo alucinante. No fundo, entre o fuxico e o desabafo, suas cartas tinham função terapêutica.

caio e eu, 1989
Nascido em Santiago do Boqueirão (RS), jovem ainda mudou-se para Porto Alegre, onde publicou seus primeiros contos. Cursou Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, depois Artes Dramáticas, mas abandonou para dedicar-se ao trabalho jornalístico. Em 1973, deixando tudo para trás, viajou para a Europa, lavando pratos, fazendo traduções e se virando. Andou pela Espanha, Estocolmo, Amsterdã, Londres e Paris. Retornou a Porto Alegre em fins de 1974, com os cabelos pintados de vermelho, usando brincos e se vestindo com batas de veludo cobertas de espelhos. Em 1983 transferiu-se para o Rio de Janeiro e em 1985 passou a residir novamente em São Paulo. Dedicou-se ao jornalismo em revistas como “Pop”, “Nova”, “Veja” e “Manchete”. Foi editor de “Leia Livros” e colaborou nos jornais “Correio do Povo”, “Zero Hora”, “O Estado de S. Paulo” e “Folha de S. Paulo”. Vivemos uma estranha, amarga e comovente amizade. Criatura de mistérios e pânicos, telefonava altas horas da noite, deprimido, bêbado, desabafando num monólogo duro. Algumas vezes estive no seu apartamento na Haddock Lobo e, vez ou outra, saímos pelos bares sórdidos do centro da cidade. Era uma amizade fadada ao fracasso, sem confiança ou afeto, talvez somente por minha conexão com Hilda. Terrivelmente inseguro em relação a sua literatura, o escritor duvidava do seu talento e maldizia os deuses por não escrever como Clarice Lispector ou a própria Hilda Hilst.

Eu temia suas palavras perversas, tristeza absoluta, descrença, críticas ácidas. Na época, ainda inédito em livro, fiquei muito feliz ao receber algumas linhas escritas por ele sobre meus contos: “A literatura de Antonio Nahud submerge o leitor num mundo intrépido de terror e tremor, de beleza indescritível e de uma fascinante prospecção filosófica sobre o tempo, a morte, o amor, o horror, o sexo, a busca”. Hoje consigo dizer, fazia o possível para evitá-lo. Emocionalmente instável, hiper-sensível, frágil e infeliz, nesse período CAIO FERNANDO ABREU sofria demais. Ele tinha explosões repentinas de cólera, seguidas de um silêncio assustador. Via nos otimistas seres imperfeitos e indignos de contar com sua amizade. Abominava a esperança. Numa madrugada, no Sujinho, chorou sem motivo aparente, lamentando não ser levado a sério como escritor. “Como não, Caio? Muita gente admira Morangos Mofados”, apaziguei. “Somente porque falo de drogas e sexo.”. Foi o nosso último encontro.


Voltei a vê-lo mais duas ou três vezes, rapidamente, na redação da revista Interview e em vernissages nos Jardins. Ele dizia: “Como vai, Gavin?”, e nem ao menos esperava resposta. Portador do vírus HIV, seu aspecto debilitado evidenciava a tragédia, mas nunca conversamos a respeito da doença que o consumia. Era um tempo difícil para os portadores dessa enfermidade. Tinham pouco tempo de vida, em geral às voltas com tratamentos penosos. O coquetel veio depois. Alguns biógrafos dizem que ele descobriu-se portador do vírus da AIDS na França em 1994. Não é verdade. Em 1990, muito abalada, Hilda conversou comigo à respeito. Debochado e louco por sexo, Caio se rotulava como devasso. À vontade com sua condição homossexual, numa época de intolerância militar, brincava dizendo que escreveria um gigantesco livro chamado “Os Homens que Eu Tive”, versão gay de “Mulheres”, de Bukowski. Ele é um bom contista. Retrata a cultura pop, entre o bom humor e a tragédia, mas sempre permeado por afeto. Econômica e pessoal, apresenta uma visão exacerbada do mundo urbano moderno. Escreveu, entre outros: “Ovo Apunhalado” (1975), “O Triângulo das Águas” (1984, Prêmio Jabuti), “Onde Andará Dulce Veiga?” (1990) e “Ovelhas Negras” (1996).

Sem despedidas, em 1994, CAIO FERNANDO ABREU partiu para a derradeira temporada europeia, a convite da Casa dos Escritores Estrangeiros, escrevendo de lá bonitas crônicas para o jornal “O Estado de S. Paulo”. Em 1992, Hilda rompeu bruscamente comigo, motivada por um ensaio que escrevi sobre sua vida e obra. De volta a Bahia, nada mais soube sobre o dramático e infeliz amigo. Em 1996, quando morreu, aos 47 anos, eu vivia longe, em Madri. Ele passou os últimos meses de vida na casa dos pais, cuidando de roseiras e canteiros de arruda, alecrim e manjericão. Uma das suas maiores aflições era a falta de dinheiro. Ganhou prêmios, foi traduzido para vários idiomas, mas não conseguiu resolver os problemas financeiros, vivendo modestamente. Reclamava frequentemente, dizia estar apertado, torcia para um dia ficar rico. Pensou muitas vezes em desistir da literatura. “Não desisto de teimosia meio-burra”, disse-me. Felizmente foi teimoso, deixando uma obra interessante.


TODA a OBRA de CAIO FERNANDO ABREU

INVENTÁRIO do IRREMEDIÁVEL (1970)

LIMITE BRANCO (1971)

O OVO APUNHALADO (1975)

PEDRAS de CALCUTÁ (1977)

MORANGOS MOFADOS (1982)

TRIÂNGULO das ÁGUAS (1983)

Os DRAGÕES NÃO CONHECEM o PARAÍSO (1988)

eu e caio
As FRANGAS (1988)

A MALDIÇÃO do VALE NEGRO (1988)
co-autor, Luiz Arthur Nunes

ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA? (1990)

OVELHAS NEGRAS (1995)

ESTRANHOS ESTRANGEIROS (1996)

PEQUENAS EPIFANIAS (1996)

GIRASSÓIS (1997)


FRAGMENTOS: 8 HISTÓRIAS e um CONTO INÉDITO (2000)

A VIDA GRITANDO nos CANTOS (2012)

POESIAS NUNCA PUBLICADAS de CAIO FERNANDO ABREU (2012)

CAIO FERNANDO ABREU: de A a Z (2013)


DOIS ou TRÊS ALMOÇOS, uns SILÊNCIOS
Fragmentos Disso que Chamamos de “Minha Vida”

CAIO FERNANDO ABREU

Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, acorrentado. Ele para. Os dois se olham. Cintilam. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito joias encravadas no dia-a-dia.

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

Publicado no jornal “O Estado de S. Paulo”, 22/04/1986.



eu com leila miccolis e amigos em registro (sp), 1989