novembro 01, 2015

..................................... OS CORONÉIS: A SAGA do CACAU


antonio parreiras

Publicado no jornal Agora (BA)
Edição Especial do Centenário de Itabuna, 2010.


Nas Terras do Sem Fim qualquer pedaço de mata era cobiçado. Metade deus, metade diabo, homens vindos de longe lutaram como bárbaros para fazer fortuna. Penso no sangue dos CORONÉIS - os grandes proprietários de fazendas na época de ouro do cacau, no sul da Bahia -, deles e de outros, dando cor à terra onde nasceram os frutos mais da discórdia do que da concórdia. Embora bárbaros, tiveram o seu valor, construíram cidades que recebemos de herança. Eles tinham poder de vida e morte sobre seus subordinados. Em “Tocaia Grande” (1984), narrativa do filho ilustre Jorge Amado, conta-nos essa história do ponto de vista do peão, do pobre desgraçado, do jagunço por força da sorte.

Os ricos produtores de cacau eram denominados coronéis sem que possuíssem de fato o título militar. Na região sulbaiana, o título virou sinônimo de homem próspero e influente. Segundo o historiador Adelindo Kfoury, os CORONÉIS DO CACAU são uma mistura de lenda e realidade. Heróis ou sanguinários vilões, não são unicamente frutos do imaginário engenhoso de Jorge Amado ou Adonias Filho. Libertinos, audazes, violentos, desalmados, sagazes, impiedosos, ambiciosos, emblemáticos e rudes, desbravaram o sul da Bahia, no final do século 19, enfrentando desafios homéricos, lutando contra a natureza bruta, recebendo em troca a fartura e fazendo história. Pela posse de terras selvagens, utilizaram o trabalho árduo, dominação pela força, e regras acima das leis vigentes; instigando caxixes e tocaias.

armando vianna
Ao fim das lutas pela conquista das matas, quando os caxixes substituíram as tocaias nos recentes conflitos entre os coronéis do cacau pela posse das áreas devolutas, sobraram jagunços pelas estradas indo e vindo sem rumo certo, oferecendo-se para matar a módico pagamento, matando de graça para roubar

(JORGE MADO, “Tocaia Grande”)

No começo, a riqueza natural das grandes áreas cercadas por Mata Atlântica. Dezenas de homens se embrenharam na floresta hostil para desmatá-la. No seu interior construíram as roças e fazendas de cacau. Começaram pobres, sem dinheiro e sem instrução, subindo na vida pegando no facão, na espingarda papo amarelo, alimentando-se de carne seca, farinha e rapadura. Viviam em casebres, dormindo em redes ou esteira. Em “Terras do Sem Fim” (1942) e “Tocaia Grande”, celebrados romances de Jorge Amado, encontramos a descrição do processo de ocupação, luta pela terra, disputa acirrada. Desse clima de contendas e desconforto, em meio ao perigo, índios, animais selvagens e doenças, surgiu a personalidade mítica dos destemidos CORONÉIS DO CACAU.

Através deles e de milhares de humilhados e massacrados, que não tiveram a mesma sorte, vilas e cidades nasceram para a glória da região. Os CORONÉIS DO CACAU transformaram as Terras do Sem Fim em palco para seu poder, fazendo-se obedecer, elegendo representantes políticos, usurpando propriedades, manipulando autoridades e, quando tudo isso não saciava a cobiça, mandavam jagunços assassinar os pequenos cacauicultores em emboscadas, ou esses, acossados, acabavam por trabalhar para o próprio algoz, e consequentemente perdiam suas roças. Muitas vezes, o trabalhador bom de tiro complementava a mão de obra agrícola com a de jagunço ou cabra (guarda-costa) do coronel.


palacete berbert de castro, ilhéus, 1910
coronéis do cacau de ilhéus
Temidos e admirados, os CORONÉIS DO CACAU eram ativos participantes da vida social grapiúna(*), líderes legitimados pelo voto, quase sempre conquistado pela força do dinheiro, das armas e controle das instâncias públicas – a justiça e a polícia. Eles não tinham limite de gastos: bebiam champanhe francês como aperitivo, perdiam fortunas na jogatina, acendiam charutos com notas de quinhentos mil réis. Frequentavam bordeis de luxos, como o famoso cabaré Bataclan, habitado por prostitutas escolhidas entre as mais belas, muitas delas de origem europeia, as famosas polacas, todas sob o comando de Antonia Machado, a “Maria Machadão” da ficção de “Gabriela, Cravo e Canela (1958). Mas existiam outros cabarés, além de amantes espalhadas pelas fazendas e cidades menores.

Sinônimo de prosperidade, seus palacetes eram sobrados faustosos mobiliados com requinte europeu. Eles viviam no mais elevado estilo. Os trabalhadores sergipanos, mergulhados na exuberância da natureza, eram oprimidos no salário que mal recebiam, nos preços extorsivos dos gêneros de primeira necessidade (geralmente vendidos pelo próprio dono da fazenda), nas jornadas excessivas de trabalho e na ausência de serviços básicos, como educação e saúde. Com a ajuda fundamental deles, os municípios de Ilhéus e Itabuna, no sul da Bahia, viveram uma época de prosperidade econômica em consequência da grande produção de cacau da região, que alcançou altos preços no mercado internacional. A fama de Ilhéus e Itabuna correu mundo. Junto com ela chegaram imigrantes estrangeiros, principalmente comerciantes sírio/libaneses, então chamados de “turcos”. Eles sobreviviam como mascates, indo de fazenda em fazenda vendendo de tudo um pouco, e imprimindo a culinária árabe como uma das características da região cacaueira baiana. Os navios aportavam trazendo aventureiros em busca de riqueza fácil. 

benedito de paula
Buxixos envolvendo os CORONÉIS DO CACAU sempre foram populares entre os grapiúnas, muitas vezes ganhando dimensão bem distantes da realidade. Sabe-se que graças a eles, no auge da lavoura do cacau, o sul da Bahia chegou a ser responsável por 40% da atividade financeira do Estado. Hoje, são ex-deuses, relíquias do passado, e o cultivo do cacau passou da opulência à decadência. Mas a saga dos plantadores de cacau dificilmente será esquecida. Os populares romances do itabunense Jorge Amado jamais permitirão, reacendendo riquezas fundadas em episódios sangrentos, atentados e arruaças. Em Ilhéus, Misael Tavares foi o mais poderoso  dos coronéis. Em Itabuna, ficaram na história nomes como José Firmino Alves, Henrique Alves dos Reis e Paulino Vieira.

coronel firmino alves
coronel basílio, sinhô badaró, de ilhéus
Na trajetória da humanidade há um repertório sem fim de eventos como esses acontecidos no sul da Bahia. Tudo o que houve foi tanto para o bem como para o mal. O mais importante de tudo é a volta que a vida dá em torno desses eventos, e nós todos dentro deles, evoluindo para construir novos mundos sem a bandeira do sangue. Nas cidades de Itabuna e Ilhéus muito do fausto antigo se perdeu, prédios de época se arruinaram ou foram derrubados (como o adorável Castelinho, em Itabuna). Os herdeiros esbanjaram a fortuna dos pais, praticando todo tipo de extravagância. Apareceram doenças nas árvores e nos frutos. Mergulhados em dívidas, os herdeiros dos CORONÉIS DO CACAU viraram as costas para a região. Na memória, a opulência vivida no lugar que se viu um dia como um Eldorado.

(*) Chame-se grapiúna aquele que nasce no sul da Bahia. A designação tem origem tupi, sendo corruptela de igarapé-una (igarapé, pequeno rio; una, preta) ou de igaraúna (igara, canoa; una, preta) com a queda da vogal e a contração das sílabas gara.




luiz labozetto



SAIBA MAIS – BIBLIOGRAFIA

Au Brésil. Deux regions de Bahia (1896-1937) (1992), de Antônio Fernando Guerreiro de Freitas;
“Os Coronéis do Cacau” (1995), de Gustavo Falcón;
“Gabriela, Cravo e Canela” (1958), de Jorge Amado;
“Tensões do Tempo: A Saga do Cacau na Ficção de Jorge Amado” (2001), de Antonio Pereira Souza;
“Terras do Sem Fim” (1942), de Jorge Amado;
“Tocaia Grande” (1984), de Jorge Amado.



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