outubro 08, 2017

................... EMANOEL ARAÚJO – MATEMÁTICA e PAIXÃO



do papel
ao cedro,
à tinta
esmaga
volume e forma
e cor
a percutir
a vista,
le coeur,
the heart

“Emanoel I”, 1973
ILDÁSIO TAVARES
(Gongogi, Bahia. 1940-2010)

Durante alguns meses trabalhei em uma galeria de arte paulistana, editando o trimestral “Jornal Skultura”. Esta semana encontrei em uma das incontáveis pastas-arquivo uma das edições, número 30, junho de 1990. Nela entrevisto o consagrado artista plástico e curador EMANOEL ARAÚJO (Santo Amaro da Purificação, Bahia. 1940). Na capa, “Fálico Exu”, de 1987. Comoveu-me, tinha dado como material perdido. 27 anos passados, releio editorial e entrevista.

EDITORIAL
Falar da arte do baiano EMANOEL ARAÚJO é enveredar pelos caminhos místicos da Bahia de Todos os Santos, mergulhar no afro, no próprio passado do Brasil. Sua história resgata a raça negra, a injusta escravidão, fauna e flora exóticas, Barroco, cultura do candomblé etc. A arte deste escultor, desenvolvida em ritmos e cores, também se confunde com a arquitetura. Aprendiz de marceneiro aos 10 anos de idade, ex-entalhador, seu grande salto aconteceu quando passou da gravura para a escultura, nos anos 70.

Para uma análise mais detalhada da sua obra, conhecida internacionalmente, o “Jornal Skultura” dedica-lhe este número, recordando suas principais criações em 30 anos de carreira. Isto para documentar uma arte que começou tímida, desenhada a nanquim e guache, e mais adiante se destacou por sua força e geometria vibrante. 

Os deuses do artista encontraram soluções para uma arte sensitiva.

ENTREVISTA
EMANOEL ARAÚJO - MATEMÁTICA e PAIXÃO

O escultor baiano EMANOEL ARAÚJO figura na reduzida lista de artistas brasileiros respeitados no exterior. Nascido em Santo Amaro da Purificação, terra que gerou a cantora Maria Bethânia, 49 anos de idade, ele está celebrando 30 anos de carreira. Diz se sentir recompensado pelos deuses e que sua trajetória como artista “aconteceu naturalmente, em um ritmo que foi se desenvolvendo”.

“As dificuldades maiores aconteceram na juventude, inclusive porque era difícil o desenvolvimento profissional do artista no Brasil. Mesmo assim, foram anos gratificantes em todos os sentidos. Eu, que sempre digo que sou do século XIX, porque nasci numa cidade onde o bonde era puxado por um burro, envolvi-me com gente ‘contemporânea’, gente que não para de produzir inclusive nos momentos mais duros.”


Neto e bisneto de ourives, um dos treze filhos de Guilhermina Alves de Jesus e Vital Lopes de Araújo, EMANOEL ARAÚJO deixou a cidade natal planejando estudar arquitetura em Salvador. Terminou matriculado na Escola de Belas Artes da Universidade da Bahia. Nessa época, mostrou seus primeiros trabalhos em exposição na Biblioteca Pública.

“Aos dez anos de idade fui trabalhar com um excelente entalhador, Eufrásio Vargas, que me mostrou uma palmatória e recomendou que me dedicasse com afinco a aprender. Gostei da sua oficina e ele se entusiasmou com o meu trabalho. Eu fazia entalhes de móveis déco, à moda dos anos 40. Depois fui para a imprensa oficial e voltei a estudar. Terminei o ginásio aos 19 anos. Minhas primeiras criações foram feitas a nanquim e guache. A combinação tornava o desenho ‘lavado’, lembrando uma gravura.”

Aluno do conhecido gravador e pintor Henrique Oswald, EMANOEL ARAÚJO logo se destacou entre os colegas da Escola de Belas Artes, uma novidade em sua vida, já que, ao longo da infância-adolescência, foi expulso por insubordinação de vários colégios. Politicamente ativo nos conturbados anos 60, fez parte dos Centros Populares de Cultura, de greves e manifestações. Entre as mobilizações desta época, participou na Bahia da campanha pela alfabetização liderada pelo educador Paulo Freire. Desenhou a campanha ideológica e trabalhou como cenógrafo em várias peças polêmicas, de Bertolt Brecht a Nelson Rodrigues, dirigidas por Carlos Murtinho, Orlando Senna e Álvaro Guimarães.

“A minha obra sempre foi, em um certo sentido, política. Procuro explorar o lado expressionista da vida. Busco a arte pública. Já decorei uma cidade inteira para o carnaval (Salvador, 1967), criei incontáveis cartazes e cartões de Natal, dirigi um museu. Acho que a grande arte é a obra que está nas ruas. A criação é mais completa quando é pública. Quando procuro o debate social estou procurando a ‘participação’, ser um artista interferindo no social. Não quero ficar trancado dentro de um ateliê, alienado, distante. Acho que o artista, em um país como o nosso, pode e deve contribuir por todos os meios que tiver ao seu alcance.”

Inquieto, EMANOEL ARAÚJO expandiu sua arte através de exposições e ilustrações de livros. Não era mais o garoto que tinha conflitos com o pai ourives que exigia que o filho continuasse sua profissão. Do apoio incondicional da mãe, nunca abriu mão. “Nós éramos cúmplices. Eu sentia o seu imenso poder maternal.”, diz o artista. Ao longo dos anos alinhou em seu currículo dezenas de exposições individuais e coletivas no Brasil e no mundo. Foi premiado pelo Museu de Arte Contemporânea de São Paulo – e pela primeira vez - em 1966. Em 1983 se destacou como o Melhor Escultor da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). 

Após xilogravuras abstratas de motivos florais e figurativos, inspiradas em plantas e frutas da Bahia, encontrou seu real caminho em esculturas monumentais, sob o signo do geométrico. “Vejo a gravura como uma espécie de escultura, já que nasce de uma matriz tridimensional. A escultura no meu caso foi um processo de continuidade. Queria invadir o espaço, partir para a madeira, criar em concreto e ferro.”, diz o escultor.

Filho de Ogum, Orixá guerreiro que protege ferreiros e entalhadores, EMANOEL ARAÚJO é de ascendência africana de raízes Nagô (Iorubá brasileiro) e ameríndia. Em 1976 esteve na África, e o impacto deu início a uma nova e surpreendente fase profissional. Segundo o crítico de arte e professor de Arte da Universidade da Cidade de Nova Iorque, George Nelson: “Cada peça escultórica de Araújo é uma meditação equânime entre matemática e paixão.”.

“Em 1986 dei aulas em Nova Iorque, no The City College. Era um curso de graduação em Artes Gráficas. Se quisesse, passava seis meses lá e seis meses aqui, mas preferi voltar. A verdade é que não me sinto muito à vontade em salas de universidades. O professor Henrique Oswald, da Escola de Belas Artes da Universidade da Bahia queria que eu assumisse o seu lugar. Eu é que nunca quis saber da vida universitária. Instituições tiram nossa liberdade. O quero é ser artista. Sempre foi o meu desejo.”

Ele já é o artista que sempre desejou ser. Trabalha o ferro em peças de robustas dimensões. Monumentos autossustentáveis integrados ao urbanismo de cidades como Salvador, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo. Pietro Maria Bardi, diretor do Museu de Arte de São Paulo (MASP), disse dele: “Num certo sentido, voltado a construção. Suas peças metálicas são moduladas com talento formal e destacam-se quando servem a arquitetura, dando relevo, integração e animação.”

Na escultura nacional, EMANOEL ARAÚJO admira Brecheret, Caciporé Torres, Vlavianos, Krajcberg e Franz Weissman, entre outros. Sobre sua obra, diz que atualmente é mais sintética: “Evolui para planos de luz, para a ciência de certos momentos, de pequenas sutilezas. Meu trabalho está mais leve, a procura de um espaço que vai se definindo aos poucos, que se desdobra e continua. No que faço coexistem a arte africana, ideias populares e o Barroco baiano.”


Completando 30 anos de carreira, o artista teve sua escultura “A Roda” instalada na Estação Barra Funda, em São Paulo capital. Nela, o giro da roda, ritmo apressado, tensão, busca recorrente, a matemática. Em pleno metrô, a arte pública desejada por Emanoel. Bela. Talentosa. E pública.

Antonio Nahud
São Paulo, SP. 1990.

GALERIA de FOTOS
 

 
 

agosto 17, 2017

.............................................................................................. INDIQUE um LIVRO



Qualquer que seja a substância das almas, a minha e a dele são feitas da mesma coisa. 
Emily Brontë 


ANTONIO NAHUD e O MORRO dos VENTOS UIVANTES
Quadro “Indique um Livro” - “Programa Virtuall”






Único romance escrito por Emily Brontë (Thornton, West Yorkshire, Reino Unido. 1818 - 1848), lançado em 1847. Considerado um clássico da literatura. Li, pela primeira vez, quando tinha uns 13 anos de idade e mudou minha percepção quanto à literatura. Ele me despertou definitivamente o gosto pela escrita.

Conta uma história de amor amaldiçoado e de vingança, uma intensa e inesquecível história de amor. Sua estrutura dramática resulta do choque de vontades, através de uma rica mistura de romantismo e realismo, transbordando de paixão, turbulência e misticismo.

O MORRO dos VENTOS UIVANTES  já foi adaptado mais de vinte vezes para o cinema, rádio e TV. É um dos meus romances preferidos. Eu me vi em Heathcliff, eu sou Heathcliff. Caminho pela vida possuído pelo “amor intenso e inesquecível". Capaz de morrer por ele. Desde menino.





as irmãs bronte por patrick bronte
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julho 30, 2017

........................... O REALISMO SUJO de JOHN FANTE



ESCRITA, BEBIDA e SOBREVIVÊNCIA

Siempre es así. Cuando crees que la tierra está exclusivamente
poblada por Mierdas, encuentras una perla
WILLIAM S. BURROUGHS
Marica (1985)

Fotografias:
EMMANUELLE MARCHADOUR


Bebia como um condenado, e sempre retratou sua própria vida nas histórias que escrevia. Sua trajetória mistura a jornada entre os gordos cheques dos estúdios de cinema e o foco na carreira literária. Esse é JOHN FANTE (1909-1983), figura lendária da literatura norte-americana. Seu pessimismo gritante e humor cáustico, tanto em sua vida como em sua obra, refletem uma rebelião contra a sociedade convencional. “Guru” de talentos reconhecidos como Raymond Carver e Charles Bukowski, sua criação é uma das mais radicalmente inovadoras da literatura contemporânea. De olho no cotidiano, ele lançou um gênero chamado “realismo sujo”.

Segundo disse, tentou “ser o melhor escritor do mundo”. Deixou como legado pelo menos duas obras extraordinárias, “Pergunte ao Pó” (1939) e “Sonhos de Bunker Hill” (1982), que estavam entre os livros preferidos do gaúcho Caio Fernando Abreu. Hollywood desperdiçou o talento de JOHN FANTE, reduzindo-o a um mero roteirista de encomenda sem qualquer obra cinematográfica de substância. Após ver um filme roteirizado por ele, “Pelos Bairros do Vício / Walk on the Wild Side” (1962), saboreando café com conhaque, no primeiro ano da década de noventa, conversei empolgado com Caio Fernando Abreu sobre a narrativa e caracterização dos personagens do pai de Bandini. Sua violenta energia e perturbadora visão de mundo são admiráveis. 

john fante
Defensor fervoroso de Fante, o papa do underground literário Charles Bukowski se ocupou durante toda a vida, e com afinco, de evidenciar o importante que para ele era a obra de JOHN FANTE, um escritor considerado até então medíocre, carente de recursos, um desconhecido. O romance “Pergunte ao Pó” vendeu apenas 3 mil exemplares quando lançado, porque o editor não tinha dinheiro para divulgá-lo. Em 1980, veio a reedição com prefácio de Bukowski e a descoberta mundial. Um estranho na terra prometida, feito um santo ou um criminoso com ordem de busca e captura, o escritor nada tinha a perder, e numa rotina encharcada de álcool, escreveu a vivência dos derrotados. Acabou seus dias em uma confortável casa em Malibu, na Califórnia, cego, com as pernas amputadas devido a diabetes que padecia, mergulhado num coração ferido, ressentimentos, apostas e ditando romances para a mulher, a poetisa com interesse em magia branca, Joyce Smart.

Nascido em Denver, Colorado, o jovem candidato a escritor enviou um conto ao famoso H. L. Mencken, editor da revista literária “The American Mercury”, que foi publicado. Para ganhar a vida e sustentar a numerosa família de quatro filhos, que nunca levou a sério, trabalhou em Hollywood roteirizando filmes, vendendo a alma ao diabo e publicando apenas quatro livros em quase quarenta anos. O segundo deles, “Espere a Primavera, Bandini”, de 1938, conta com o irresistível protagonista alter ego do autor, Arturo Bandini. Lembro-me adolescente, trabalhando num escritório de arquitetura para pagar os estudos, identificado com o glamour das peripécias de Bandini, sonhando em viajar, amar, vivenciar aventuras medíocres e escrevê-las.

Em 1952, JOHN FANTE obteve sucesso comercial com o romance “Um Casal em Apuros”, e a adaptação para o cinema o levou a nomeação ao Oscar de Melhor Roteiro. Em 1957, passando temporada em Roma, convidado pelo poderoso produtor Dino De Laurentiis, morava em um apartamento renascentista, com chofer e criada. A meta era desenvolver um roteiro - nunca rodado - sobre São Genaro. Na época, foi contratado por um decadente Orson Welles como colaborador de um programa radiofônico patrocinado por uma firma de cosméticos. Para o diretor Michael Curtiz (“Casablanca / Idem”, 1942) cobrou 350 dólares por uma hora de trabalho em uma cena de “São Francisco de Assis / Francis of Assisi” (1961). Federico Fellini também tentou tê-lo como parceiro, mas não houve acordo financeiro.

Pouco antes de morrer, aos 74 anos, justamente quando seus livros voltavam a ser publicados, escreveu “1933 Foi um Ano Ruim” (1985), “Rumo a Los Angeles” (1985) e “A Oeste de Roma” (1986). “Dago Red”, de 1940, foi reeditado em 1985 como “O Vinho da Juventude”. Passou a infância basicamente no triângulo escola-família-igreja. A juventude foi dura. Criou-se num lar entre intermináveis discussões, falta de dinheiro, insultos xenófobos e manifestações anti-católicas, defendendo-se do hostil mundo exterior com frequentes brigas e a prática do boxe. Herdeiro do espírito aventureiro da família paterna, trocou a igreja pela biblioteca pública, começando a escrever aos 20 anos. Cansando-se da universidade em apenas seis meses de frequência, mudou-se para a terra onde se tornaria um dos seus mais formidáveis cronistas, Los Angeles.

Sua sobrevivência cotidiana com a mente direcionada para converter-se em uma “celebridade das letras” está impressa em seus vigorosos relatos. À imagem de Knut Hamsun, um dos seus escritores favoritos, passou fome, vagabundeou sem descanso, habitou sórdidos motéis, envolveu-se com garotas nada sérias, trabalhou em uma fábrica de conservas, e se embriagou todos os dias, montando escândalos públicos e proclamando-se um gênio incompreendido. Em busca do reconhecimento do talento, uma máscara para esconder uma espantosa desintegração social, coseu com humor macabro as experiências dramáticas de Arturo Bandini, um escritor-filósofo malandro e vaidoso protagonista de uma sublime tetralogia.

A crescente reputação como criador de histórias, de emotividade à italiana, abriu para ele as portas dos estúdios. Livre da fome e de roupas remendadas, pagou o preço do conforto atando-se a melodramas cinematográficos baratos, muitas vezes parodiando sua própria origem, em títulos como “A Vida Tem Dois Aspectos / East of the River” (1940), sobre o bairro nova-iorquino Little Italy. Como roteirista ganhava mil dólares por semana, mas foram filmados apenas oito de seus trinta roteiros, aos quais desprezava. Francis Ford Coppola projetou adaptar “The Brotherhood of the Grape” (1977), que o escritor considerava o seu melhor trabalho e aquele que o havia feito chorar mais. Retrata uma rude figura paterna em uma família italiana em crise. Mesmo com contos publicados em revistas importantes, como “Harper´s” e “Esquire”, seus romances foram durante muito tempo recusadas pelas editoras.


Bebedor incontrolável, péssimo pai e marido, JOHN FANTE podia acabar a noite falando porcarias com um companheiro ébrio da talha do premiado com o Nobel William Faulkner ou destruindo seu Plymouth contra um poste telefônico de Hermosa Beach. Em entrevista, um dos seus filhos, Dan, afirmou: “Não era um cara legal.”. As memórias tumultuadas da relação pai e filho foram parar em livro. “Meu pai teve muito azar, mas ele também construiu sua própria má sorte. Era um homem muito difícil, insultava pessoas. Não era nada político”, garante Dan Fante. Caprichoso, o escritor teve um jaguar, um pit-bull branco batizado com o nome de Rocco e uma Baretta calibre 22. Passou mais de 20 anos entre um romance e outro, e o tempo não jogou limpo com sua ambição de reconhecimento literário.

O diagnóstico de diabetes em 1955 fez com que sua carreira tomasse um baque. As complicações da doença ocasionaram cegueira. Mas não foi desculpa para que ele parasse de escrever. Passou então a ditar as histórias para sua mulher, Joyce. O editor de poesia do jornal “Los Angeles Times”, Ben Pleasants, e Charles Bukowski resgataram JOHN FANTE do anonimato. Fascinado pela leitura de “Pergunte ao Pó”, Bukowski rodou o bairro de Bunker Hill, onde se situa o esfomeado Arturo Bandini, para se sentir como o personagem por um dia. Seu alter ego, Henry Chinaski, manifesta expressamente em “Mulheres” (também em “Pedaços de Um Caderno Manchado de Vinho”), que seu autor preferido era John Fante. “F-A-N-T-E”, enfatiza. Por fim, Bukowski convenceu a editora Black Sparrow Press a republicá-lo, após décadas de esquecimento. Ele visitou o ídolo no hospital e lhe dedicou o poema “Love is a Dog from Hell”: “Para John Fante, que me ensinou como. Hank”.


A biografia de JOHN FANTE foi publicada por Stephen Cooper no ano de 2000. Ele merece homenagens. Faz parte da nata literária dos anos 1930-40 de escritores que viveram do ofício de roteirista de Hollywood. Gente do naipe de Raymond Chandler, Nathanael West, Budd Schulberg, Faulkner, F. Scott Fitzgerald, James M. Cain e Dorothy Parker. Não seria nada mal tomar uma taça de vinho tinto seco e encorpado em sua memória. Que viva o mestre incompreendido!

Barcelona, Espanha
09 de julho de 2005


CINCO FRAGMENTOS de “PERGUNTE AO PÓ”

O mundo era pó e ao pó voltaria.

Tudo o que era bom em mim me emocionou naquele momento, tudo o que eu esperava do profundo e obscuro significado da minha existência. Aqui estava a placidez interminável e muda da natureza, indiferente à grande cidade; aqui estava o deserto abaixo dessas ruas, ao redor dessas ruas, esperando que a cidade morresse para cobri-la com a areia eterna uma vez mais.

Tornava-me um estranho dentro de mim, era como todas aquelas noites calmas e os altos eucaliptos, as estrelas do deserto, aquela terra e aquele céu, aquele nevoeiro lá fora, e eu viera para cá com nenhum propósito exceto o de ser um mero escritor, ganhar dinheiro, ser reconhecido e toda aquela baboseira. Ela era muito melhor do que eu, tão mais honesta que fiquei enojado de mim mesmo e não podia enfrentar seus olhos cálidos.

Não fiz perguntas. Tudo o que eu queria saber estava escrito em frases torturadas através da desolação do seu rosto.

Saí para uma caminhada pelas ruas. Meus Deus, aqui estava eu de novo, perambulando pela cidade. Olhei os rostos ao meu redor e sabia que o meu era como o deles. Rostos drenados de sangue, rostos tensos, preocupados, perdidos. Rostos como flores arrancadas de suas raízes e enfiadas num vaso bonito, as cores se esvaindo rapidamente. Eu tinha que sair daquela cidade.






julho 06, 2017

............... VIAGEM a EUROPA: GALANTE AVENTURA


  
para Marc Mendonça

Enche minha loucura de palavras
ou deixa-me viver na minha calma
e para sempre escura noite d'alma.
FEDERICO GARCÍA LORCA
(Fuente Vaqueros, Andaluzia, Espanha. 1898-1936)

Fotos: ANTONIO NAHUD


VIAJANDO com POESIA

Viajando serenizo o coração, aprendo, escrevo, contemplo, entrevisto, rejuvenesço. Viajar me faz ver e ser poesia. Na vida, para quem sabe enxergar, há poesia, há rima, há mistério, há beleza sempre. Sinto-me indefinível, numa espécie de embriaguez de satisfação, em uma dessas alegrias de viver que nos invadem sem se saber exatamente por quê. Junho de 2017 foi abençoado, enfeitiçado, de charme suave, de encanto inesperado. Terno luxo estrangeiro. Vivenciando este mês profundamente, sobre um planeta perdido na imensidão do Universo, vejo as cores sentidas do mais íntimo sem aclará-las demais e sem obscurecê-las. Celebrando um aforismo do escritor francês Gustave Flaubert, “A mínima coisa contém sua importância”, relembro em texto e imagem 33 SIGNIFICÂNCIAS de 33 dias entre Espanha e Suíça. Como aprecio polêmicas, a lista vai por ordem de preferência. Confira.

01
ALHAMBRA, JARDINS e FONTES
Granada, Espanha

Caminhei cerca de quatro horas nesta esplendorosa e labiríntica edificação moura. Localizada no andaluz sul da Espanha, combina luz, arte, água, decoração e arquitetura. Seguramente, uma das maiores maravilhas da história da humanidade. Palácios, pátios, muralhas, azulejos, fontes e jardins, inúmeros jardins gloriosos e infinitos. O perfume de jasmim nos deixa em êxtase. Rosas robustas e dezenas de outras flores nos conduzem ao paraíso terrestre. Ele foi construído pelos califas Ismail I, Yusuf I e Muhammad V, entre 1238 a 1492. Pelos seus salões circularam eruditos, cientistas, guerreiros, artesãos e mercadores, contribuindo para a reputação de Granada como um centro cultural.

02
GRUYÈRES – O CASTELO e a PEQUENA CIDADE
Gruyères, Suíça

Essa cidadezinha medieval tem uma beleza de cartão postal. Ela encontra-se numa pequena colina, com um castelo e três museus totalmente diferentes. 800 anos de cultura e história regional convivem, ao mesmo tempo, com o famoso queijo produzido na região.

03
A CASA do ESCRITOR
FONDATION JAN MICHALSKI – pour L'écriture et la Littérature
Montricher, Suíça

Na localidade de Bois Désert, rodeada de natureza em estado puro, de frente ao lago Geneva e aos Alpes suíços. Conhecida também como Maison de l´Ecriture. Na sua moderna e hipnotizante biblioteca, encontrei livros de Jorge Amado, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Rachel de Queiroz e João Ubaldo Ribeiro. Para jamais esquecer.

04
JANTAR para 13
Restaurante chinês do Grand Hotel Kempinski
Genève, Suíça

Na grande mesa redonda, gente fina, divertida e culta. Entre taças de champanhe Moët et Chandon (blanc et rosé), a ceia foi iniciada com uma pergunta inquietante: “Como será o mundo em 2050? Conte pra gente”. Respostas espantosas (em português, inglês, espanhol e francês). Éramos treze. O autor de “O Alquimista”, imortal Paulo Coelho, pediu que fosse colocado um ovo no centro da mesa, quebrando qualquer possibilidade de maldição para o grupo. No menu, pato, camarão e porco à chinesa.

na imagem, da direita à esquerda:
Jaime Koren
Maria Nazaré Azevêdo (embaixadora do Brasil na ONU)
Paulo Coelho (escritor)
DCL Neto (advogado)
Roberto Azevêdo 
(diretor-geral da Organização Mundial do Comércio - OMC)
Barbara Fazzari Tschanen (banqueira)
Antonio Nahud (escritor)
Marcelo Mendonça (arquiteto)
Christina Oiticica (artista plástica)
Paula Sendas
Robert FvV
Alexandre Murucci (artista plástico)
e Wilma Kaufman Skeffington.

05
RIO RÓDANO
Genève, Suíça

O mundo humano é parcial, cruel e dominado por ilusões. O não-humano que nos fortalece permanece oculto, é o que não enxergamos, o fantástico, talvez o mais essencial. Neste momento, o fantástico invade minha alma e inunda o cotidiano. À beira do rio, eu o saudei, numa bonita identificação com as águas azuladas e transparentes.

06
MUSÉE D`ART et D`HISTOIRE: a ARTE RELUZ no MAIS ÍNTIMO
Genève, Suíça

O ato artístico é diferente de todos os outros atos: é um ato de amor e mistério, de entrega e densidade, de fome e sede, de abismo e poesia. Ele é eterno, renascendo através do olhar telúrico das novas gerações. Em Genéve, nos arredores da Cidade Antiga, fui tomado de paixão por um museu do qual desconhecia: Musée D`Art Et d`Histoire, o maior museu da cidade, construído em 1910. Entrada gratuita, sem filas nem controle excessivo, raros visitantes. A fachada é decorada com esculturas de Paul Amlehn e seu interior abriga uma grande coleção de obras de arte e objetos que cobrem o período da Pré-História a meados do século 20. Milagrosas obras de arte, de Renoir a Van Gogh, de Rodin a Giacometti. A grande magia foi conhecer novos pintores, principalmente suíços. Em frente ao museu, uma delicada praça cheia de árvores e com enorme escultura de Henry Moore. No setor de história, uma coleção de armas do século XV, XVI e XVII que só tinha visto em filmes: escudos, armaduras, pistolas, canhões, capacetes etc.

07
O TÚMULO do MESTRE CEGO
Genève, Suíça

O escritor argentino Jorge Luis Borges (1899 - 1986) marcou minha vida. Literatura preciosa. Cego, cinéfilo e de memória privilegiada, recordava-se com detalhes de diálogos e cenas de filmes clássicos. Morreu em Genève. Não podia deixar de visitar a casa onde viveu seus últimos anos e seu singelo túmulo. Nele, uma nave viking esculpida na pedra e inscrições em um idioma que não consegui identificar. Um corvo me seguiu o tempo inteiro. Talvez fosse o espírito de Borges. Ele amava “O Corvo”, de Edgar Allan Poe.

08
BAR GIGER: DENTRO do ALIEN
Gruyères, Suíça

Pintor e escultor, o suíço H. R. Giger (1940-2014) fazia obras de uma estética fantasmagórica e surreal. Ele criou a criatura título do clássico de ficção-científica “Alien”, de 1979. Giger produziu muito em seus 74 anos de vida. No caminho para conhecer mais sobre o artista, visitei HR Giger Museum e Giger Bar, em Gruyères. O museu foi criado em 1998 dentro de um castelo medieval. Na cidadezinha merece destaque o Giger Bar: teto, paredes, mesas, cadeiras, tudo é inspirado em elementos do artista, com arcos de ossos misturados ao teto de um castelo. É como entrar na criatura do Alien.

09
LA FONTAINE PERSONNIFIÉE / A FONTE PERSONIFICADA  
De 1837. Pintada por Jacques-Laurent Agasse
Musée d`Art et D`Histoire
Genève, Suíça

Nascido em Genève, Agasse (1767 - 1849) foi famoso por ser exímio detalhista e com frequência era chamado e contratado para pintar animais. Passou a morar na Inglaterra, para onde se mudou aos 33 anos. Em Londres ficou muito conhecido pintando quadros de animais exóticos e de esportes. Foi também exímio retratista de nobres montados em seus cavalos de raça. Morreu em Londres, aos 82 anos, paupérrimo e praticamente esquecido. Eu não conhecia sua pintura. Fiquei arrebatado. Ela tem vida, pulsa ainda hoje. Um bom artista pouco falado.

10
NOITE IMORTAL
ANIVERSÁRIO no RESTAURANTE LES ARMURES
centro antigo de Genève, Suíça

Jantando no restaurante Les Armures, no centro antigo de Genebra, na noite do meu niver. Excelente serviço. O que comi? Pato ao molho de framboesa. Acompanhado de um ótimo tinto suíço. No décor, armaduras medievais e naturezas mortas do talentoso Michel S. Para guardar no coração. Merci.

11
No TEMPO das DILIGÊNCIAS
CIDADE CENOGRÁFICA
Almería, Espanha

Realizei um sonho antigo ao visitar a cidade cenográfica de Almería, mais exatamente a oeste de Tabernas, na Andaluzia. Fica no único deserto europeu. Uma região de colinas irregulares, calor infernal e leitos secos de rios. Nesta paisagem árida, o genial cineasta italiano Sergio Leone dirigiu clássicos do faroeste spaghetti, entre eles “Por Um Punhado de Dólares” (1964) e “Três Homens em Conflito” (1966), onde ciganos representavam índios e mexicanos. Vários outros filmes foram realizados no local, inclusive um Indiana Jones de Steven Spielberg. Atualmente, encenam-se shows para turistas cinéfilos, com roubos de banco, brigas de saloon, duelos e deboche de prostitutas baratas. Fiquei comovido, lembrando-me dos meus queridos pai (Antonio) e mano (Paulo Manchinha) fãs de western como eu. Montei cavalo e circulei de diligência pelas ruas de Henry Fonda, Clint Eastwood, Giuliano Gemma, Charles Bronson e Franco Nero.

12
AQUELE que SABE VIVER
VINCCI SELECCIÓN ESTRELLA del MAR
Marbella, Espanha

Nenhum celular-smartphone ou rede social pode nos tirar a verdadeira felicidade de usar nossos sentidos em relação aos lugares e às pessoas. Continuei a saga europeia em Marbella, na Costa do Sol, em um belíssimo e luxuoso hotel, Vincci Selección Estrella del Mar. Marbella é um dos balneários mais exclusivos da Europa, frequentado pelo jet set internacional e estrelas de cinema. Recanto solar, encantador e muito caro. Como sempre, a Espanha me seduz. O grande charme desse país é a capacidade do espanhol de aproveitar a vida.

13
PRAIA de SAN PIEDRO: o PROFUNDO MAR AZUL
Parque Natural Cabo la Gata, Almeria, Espanha

Passei um dia na Praia de San Piedro, no Parque Natural Cabo de Gata, em Almería. Uma formosura exclusiva. Vai-se de barco através de um mar transparente. Praia de nudismo, alternativa, longe do insensato mundo. Penhascos elevados de rocha vulcânica, enseada isolada, um castelo milenar em ruínas, jujubeiras, espinhosas e milhares de aves migratórias que param no local, indo ou vindo da África. Sem pudor, tirei a roupa e mergulhei em águas gélidas.

14
NA CINEMATECA SUÍÇA
Genève, Suíça

A gentileza me fascina. Fui super bem recebido na Cinemateca de Genève, conheci toda ela, da sala de exibição à administração. Um sonho! Saí com folhetos e livros sobre o cinema suíço (presente dos funcionários!). Nos próximos dias, um ciclo em homenagem ao italiano Marcello Mastroianni. Pura emoção. Sou cinéfilo e fã de Marcello.

15
A TRILHA da VIAGEM: MAXIME MANOT’

Descobri as canções do cantor e compositor francês Maxime Manot’, 26 anos, cuja voz e talento demonstrado em vídeos autorais estão fazendo pessoas do mundo inteiro quererem falar um pouco mais a língua francesa só para poder acompanhá-lo no canto. Maxime nasceu em Corbeil-Essonnes, cidade próxima à Paris, e começou a carreira aos 15 anos pela paixão pela música, mas, principalmente, pelo rock e tocou em várias bandas como baixista. Em outubro de 2015 lançou seu projeto solo, atingindo um público considerável na web e conquistando milhares de pessoas com covers de clássicos franceses como “Ne Me Quitte Pas”, “Je l’Aime à Mourir” e “L’Hymne à l’Amour” com sua noiva Saïna Manotte, que também é cantora. Os vídeos fizeram tanto sucesso que estão perto de atingir, juntos, 10 milhões de visualizações no Facebook e possuem outros milhares em seus respectivos canais no Youtube. Com a base desse sucesso todo o cantor aproveitou para lançar o seu primeiro EP “Slow” em novembro de 2016, após ter lançado o seu, também primeiro, vídeo clipe “Courir après des Rêves” em maio do mesmo ano. Com influências que vão desde o pop da Beyoncé e Michael Jackson, até o reggae de Bob Marley e o jazz de Dexter Gordon e Miles Davis, Maxime também busca referências nas próprias músicas francesas clássicas como Edith Piaf entre muitas outras.

16
SANGRIA, VINHOS de RIOJA e TAPAS ANDALUZAS
Andaluzia, Espanha

Nós vivemos de incertezas e pequenas alegrias, levados pela água da vida que nos afogará a qualquer momento. É preciso saber viver. Dar o melhor do nosso coração, enxergar significâncias, compreender que nada é para sempre e aproveitar o hoje. Em Marbella, vivendo a beleza de existir, aprendi a fazer a verdadeira sangria, uma combinação refrescante de vinho tinto, licor de ervas, limonada e laranjada. Um drinque delicioso. Como acompanhamento, saboreei calamares fritos. São rodelas de lula passadas na farinha de trigo e fritas em azeite. Servidos com uma fatia de limão. Bom demais! Sou um bom cozinheiro, aprendi muita coisa observando o talento culinário da minha amada mãe. Cozinhar é um dos maiores prazeres da vida. Por onde passo, descubro novas receitas. A cozinha andaluza é famosa pelos peixes grelhados, calamares (lulas) fritos, gazpacho, jamón serrano, carne de porco e cozidos. A paella é prato valenciano, mas bastante popular nas bandas andaluzas. Embora complexa, sei prepará-la tranquilamente. De novidade, levei para os finais de semana no Brasil, Huevos a la Flamenca, um prato cigano simples de ovos com legumes e chouriço picante assados. Delicioso. O maravilhoso são os preços. Com 20 euros (cerca de 60 reais) ia ao mercadinho e voltava carregado de cogumelos, atum fresco, porco temperado, jamón, sucos naturais de laranja e cenoura, vinho tinto Rioja (menos de 2 euros cada), verduras, patés franceses, pimentões assados, queijos variados, cerveja belga, pão de cereais etc. Uma loucura. No Brasil não gastaria menos de 500 reais e com qualidade inferior.

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GRAN VIA: a VIDA é BELA
Madrid, Espanha

Juntando atrasos habituais da TAP e uma longa espera para a conexão Lisboa-Madri, foram quase vinte horas de viagem. Zonzo, abatido e cansado, assim que coloquei os pés na Espanha a boa disposição surgiu imediatamente. Tomei um banho no hotel e fui bater perna às 21h no centro histórico da capital espanhola. Que beleza! A Gran Via cheia de gente risonha, Chueca fervendo em plena terça-feira, a FNAC aberta até meia-noite, nenhum perigo de violência à vista. Muito bom. A paz é uma maravilha. Um presente estar com a mala cheia de sonhos na cidade dos meus sonhos.

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Nos ALPES SUÍÇOS: POESIA SEMPRE
Suíça

Poesia para viajar, poesia para contemplar, poesia para ser feliz, poesia para cantar, poesia para chorar, poesia para lutar, poesia para resistir, poesia para recordar, poesia para virar flor.

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O SONHO do CAVALEIRO MOURO
VIRGEN DE LAS ANGUSTIAS
Granada, Espanha

Não tenho religião exata, cultivo uma fé pessoal, incluindo o que aprendi de mais generoso no budismo, catolicismo, chama púrpura, paganismo, deuses gregos e afrodescendentes. Emocionado com a data de onze meses de falecimento de Morvan França, companheiro memorável, procurei um santuário para derramar o bem por sua alma. Devoto de Nossa Senhora e crédulo em Anjos, ajoelhei-me diante da belíssima e magnânima Virgen de las Angustias, padroeira de Granada, e inesperadamente chorei, chorei muito. Nada disse, nada pedi. Não foi preciso, senti que a Virgem lia o coração saudoso, atendendo a prece traduzida em lágrimas. Chorando, mas sereno, deixei a Iglesia de las Angustias e caminhei sem destino num jardim andaluz de fontes cristalinas e flores encantadoras. Não havia viva alma, somente eu, a dádiva da Virgem, o amor humano imortal e a força épica da natureza. Deitei sob uma frondosa árvore e, de súbito, adormeci. Sonhei que era um guapo cavaleiro mouro. Nos braços, o corpo morto e desnudo de Morvan. Disse:

Me acorda para dormir em ti
Meus mundos acordam para ti
Acende minhas estrelas mortas mais perto de ti
Me sonha longe deste meu mundo poético
De volta ao passado das maravilhas
Me alimenta, me vive, morre em mim mais perto de ti
Mais perto de mim para ti
Mais perto da luz do bem querer
Torna-me mais forte, torna-me mais próximo de ti
Enxergando a beleza da vida por ti e por mim

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MINHA VIDA no VELHO CONTINENTE
Apartamento de varanda na marina
Almerimar, Espanha

Contrataram-me para escrever um livro sobre economia sustentável, retratando a transformação de Almería, na Andaluzia, antes uma paupérrima região árida e atualmente próspera exportadora de frutas, legumes e verduras de qualidade. Apartamento alugado na bela e pequena Almerimar (Espelho do Mar), numa marinha povoada por restaurantes, bares e barcos de luxo. Uma cidadezinha acolhedora, tranquila, limpíssima, jardinada, violência zero, tem de tudo (hospital de ponta, supermercados, teatro, cinema, campo de golfe etc.). Fiz pesquisas, escrevi e viajei muito pelos arredores. Foi um prazer.

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No PATEK PHILIPPE MUSEUM
Genève, Suíça

Nome de topo quando se fala de fabricantes de relógios. Criada em 1851 por Antoni Patek e Adrien Philippe, a marca suíça é sinônimo de elegância, luxo e requinte. São também os relógios mais caros e desejados. No espetacular museu, toda a história da empresa, além da coleção particular de relógios dos primeiros proprietários. Alguns deles com mais de 500 anos.

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HENRY MOORE no PARC de L’OBSERVATOIRE
Genève, Suíça

Em frente ao Musée d’Art et d’Histoire, em uma colina com vista da cidade, está o Parc de l’Observatoire onde está a fabulosa escultura do britânico Moore (1898-1986), “Reclining Figure: Arch Leg”. O artista foi influenciado pela arte mexicana pré-colombiana, pelo construtivismo russo e também pelo surrealismo, apresentando em suas obras surreais uma visão bastante humanista e orgânica, inspirando-se na natureza e no homem para compor formas.

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GENÈVE: na CAPITAL da PAZ
Suíça

A Suíça é um dos países mais lindos que já visitei. Genéve, uma das suas principais cidades, além de ser o mais importante centro financeiro do mundo e de ter um sistema educacional imbatível, também é conhecida como “Capital da Paz”. Ruas calmas e arborizadas, gente bonita e educada, visual encantador. Tudo organizado, tudo limpo. Beirando os rios Arve e Ródano, de águas azuladas, um enfileirado de prédios de bancos e marcas mundialmente conhecidas e ao fundo a beleza dos majestosos alpes.  Tenho circulado por lugares fascinantes. Viajar é uma das coisas que mais acrescenta alegria no coração e conhecimento na vida. O poeta cresceu com essa aventura. Senti o dedo de Deus. Fui ave sem rumo. Vivi um cancioneiro europeu, de encantamentos, das águas, das árvores, das auroras, dos crepúsculos. Uma convocação geral de arte, história, torres, fontes, pedras, vozes, mistérios, luares, natureza, reverberações. O prazer de viver.

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COROA da RAINHA ISABEL, a CATÓLICA
Granada, Espanha

Isabel I de Castela é uma das soberanas mais famosas de todos os tempos. Poucos monarcas conseguiram governar como ela os destinos do reino de maneira tão intensa. Ao lado de seu marido e rei, Fernando II de Aragão, ela foi uma das fundadoras da Espanha moderna e passaria para os arautos da História com o epíteto de Isabel, a Católica. A eles se deve o ataque definitivo ao poder muçulmano na Península Ibérica (conquista de Granada em 1492). Protegeram Cristóvão Colombo (que acabaria por chegar às Américas). Os túmulos dos reis católicos e a preciosa coroa de Isabel podem ser vistos na Capela Real da Catedral de Granada.

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CHARUTO CUBANO MONTECRISTO
Almerimar, Espanha

Durante dois ou três dias fumei charutos cubanos. Um raro aroma, sabor e força. Fundada em 1935, a marca Montecristo homenageia o célebre romance de Alexandre Dumas e é uma das mais conhecidas no mundo. Representa o Habano forte, rijo, bravo e sem concessões. Um dos mais cobiçado, está no pedestal de qualquer definição que se possa fazer do Havano.

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COMILANÇA em ROQUETA del MAR e ARREDORES
Roqueta del Mar, Espanha

Na bonita e turística cidade da Costa do Sol almocei em grande estilo com empresários espanhóis. Um festival de peixes e mariscos. Na despedida, mais adiante, jantei em condomínio à beira mar, perto de Roqueta del Mar, num fantástico churrasco compartilhado com argentinos, colombianos e espanhóis. Uma noite inesquecível regada a muito vinho.

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SEDE da ONU (ORGANIZAÇÃO das NAÇÕES UNIDAS)
Genève, Suíça

Desenho uma existência habitada pela inquietude.

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PIELES
Espanha

Uma tempestade de títulos cinematográficos singulares, únicos e inéditos. Um show de talentos. Cinéfilo como sou, confesso ter ficado zonzo com a diversidade de filmes espanhóis e franceses recentes. Alguns deles nunca tinha ouvido falar. Filmes que jamais chegarão ao Rio Grande do Norte, quiçá ao Brasil. Natal precisa de um cineclube para exibir estas preciosidades. Merecemos uma cinematografia abrangente. Cinema não é só entretenimento hollywoodiano e comédia erótica brasileira. Encantou-me a animação francesa “A Garota Sem Mãos” (2016), de Sébastien Laudenbach, uma fábula cruel para adultos inspirada em conto dos Irmãos Grimm e com desenho homenageando o fauvista Henri Matisse. Um drama sensível e original. Palmas. Outra joia, o espanhol “Pieles” (2017), estreia do diretor Eduardo Casanova, aborda figuras bizarras que, por este motivo, vivem escondidas ou se unem com seus semelhantes. Entre elas, uma garota de rosto deformado, outra com o ânus no lugar da boca. Impressiona e comove.

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A MORTE de um TOUREIRO
Andaluzia, Espanha

Fascinado por touradas desde que li aos 13 anos “O Sol Também se Levanta”, de Ernest Hemingway. Como renego o politicamente correto, imbecilidade estimulada para os de pouco raciocínio, nunca me preocupei com os censores anti-touradas, ciente de fatos bem mais condenáveis em famílias exemplares. Em 1994, na Espanha pela primeira vez, corri para ver uma tourada nos arredores de Madri, chorando de emoção. Ainda melhor no ano de 2005, em temporada taurina em Ronda com amigos andaluzes aficionados. Na cabeça, o mestre Hemingway e a star Ava Gardner, louca sexualmente por toureiros. Na sensual dança de vida e morte não há vítimas ou heróis, há o dia do touro e o dia do toureiro. Neste mês de junho morreu o toureiro Iván Fandiño, 36 anos, um dos mais famosos da Espanha. Chifrado no tórax por um robusto touro de um dos maiores criadores espanhóis, Baltasar Ibán. Meses antes, morreram também em plena arena Victor Barrío, Rodolfo Rodríguez – “El Pana”-, Renato Mota e José Cubero – “Yejo”. Artistas numa disputa belíssima, coreográfica, feroz. O animal de 500 Kg não é um coitadinho como alegam os “protetores de animais”, tampouco o toureiro é um frio sanguinário. Fandiño, o falecido, ganhou em 2013 e 2014 o “Orelha de Ouro”, maior prêmio do tradicional esporte. Na arena, sangrando, filmado e fotografado por milhares, disse: “Andem depressa, estou morrendo”. E morreu antes do socorro. O touro vitorioso foi ovacionado pelo público.

30
MINOR WHITE, SÍMBOLOS y METÁFORAS
Madrid, Fundação Lowe

PHotoEspaña dedicou uma de suas exposições ao influente fotógrafo norte-americano Minor Whie (1908-1976), um dos mais importantes do século XX.

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INVERNADEROS (ESTUFAS)
Almeria, Espanha

Esse entardecer foi escrito na nostalgia, no atemporal, na solidão, no lirismo contemplativo, na distância, na astúcia poética, no recolhimento furtivo, na ilusão do futuro, na amizade incondicional, no amor eterno. Ao longe, vejo a maior concentração de estufas no mundo. Tão longe quanto a vista alcança, as estufas de Almería são a horta da Europa. Uma cidade de vegetais de tamanho uniforme espera cada dia centenas de caminhões que os levam para diversos continentes. Um mar de plástico que pode ser visto da Lua. Impressionante.

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ESCULTURA do AUTOR do CRISTO REDENTOR
Genève, Suíça

A escultura de 38 metros de altura e mais de mil toneladas levou cinco anos para ser concluída. O francês Paul Landowski (1875 - 1961) modelou as peças na França. Depois elas foram enviadas para o Rio de Janeiro via navio, em pedaços encaixotados. A inauguração aconteceu em 1931. Famoso e respeitado, o artista produziu mais de trinta e cinco monumentos da cidade de Paris. Em Genève, descobri um belo monumento de sua autoria, “Muro dos Reformadores”, que se encontra no Parque dos Bastiões. Apoiado nas antigas muralhas da cidade. O grande muro foi construído em 1909 em comemoração ao 400º aniversário de João Calvino. Os grandes personagens da Reforma estão representados em forma de estátuas e baixos-relevos imponentes. No centro, erguem-se João Calvino, Guillaume Farel, Théodore de Bèze e John Knox. Dos lados estão representadas as personalidades que disseminaram a Reforma na Europa. Landowski morreu aos 86 anos em Boulogne-Billancourt, um subúrbio de Paris, onde um museu dedicado ao seu trabalho tem mais de 100 obras em exposição.

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Na FUNDAÇÃO PAULO COELHO
Genève, Suíça

Eu me identifico com o vaga-lume, que reluz no vale,
nas noites de mistério. 

CAMINOS

De la ciudad moruna
tras las murallas viejas,
yo contemplo la tarde silenciosa,
a solas con mi sombra y con mi pena.

El río va corriendo,
entre sombrías huertas
y grises olivares,
por los alegres campos de Baeza

Tienen las vides pámpanos dorados
sobre las rojas cepas.
Guadalquivir, como un alfanje roto
y disperso, reluce y espejea.

Lejos, los montes duermen
envueltos en la niebla,
niebla de otoño, maternal; descansan
las rudas moles de su ser de piedra
en esta tibia tarde de noviembre,
tarde piadosa, cárdena y violeta.

El viento ha sacudido
los mustios olmos de la carretera,
levantando en rosados torbellinos
el polvo de la tierra.
La luna está subiendo
amoratada, jadeante y llena.

Los caminitos blancos
se cruzan y se alejan,
buscando los dispersos caseríos
del valle y de la sierra.
Caminos de los campos...
¡Ay, ya, no puedo caminar con ella!

ANTONIO MACHADO
(Sevilha, Espanha. 1875 – 1939)

diogenes neto, antonio nahud e marc mendonça