maio 18, 2012

............................................... VIVER e MORRER em LONDRES

câmara cascudo passeando de riquexó em moçambique, áfrica, 1963
REVISTA PREÁ
Editor: Mário Ivo Cavalcanti 


VIVER E MORRER EM LONDRES

por Antonio Nahud

Morar no estrangeiro nunca esteve presente nos meus objetivos de vida, nem mesmo em meus sonhos. Porém, em 1994, surgiu uma oportunidade concreta de trabalhar como assessor de comunicação de um grupo teatral na Galícia, Espanha. Resolvi arriscar, afinal, como disse Pablo Neruda, “morre um pouco a cada dia quem nunca arrisca algo novo”. O trabalho não deu certo, o diretor era um tirano. Coloquei minha mochila nas costas, Rainer Maria Rilke no coração e parti, primeiro para Madri, depois Barcelona, Lisboa, Sintra, Tanger e, em 1999, estava em Londres, buscando aprender uma nova língua e disposto a novas aventuras e desventuras durante esse tempo como peregrino nas terras de Charles Dickens. Alojei-me inicialmente em Wimbledon, um distrito ao sul de Londres, em um prédio vitoriano de dois andares com tijolos aparentes, simpático, embora povoado por corvos gordos e histéricos que me assustavam.

O que primeiro me surpreendeu foi a população da capital inglesa: uma mistura de diferentes povos, culturas e religiões. São estimados em mais de 300 os idiomas falados nessa Torre de Babel. Tinha a sensação do que é estar na esquina do mundo e, por outro lado, a noção de como o mundo é minúsculo. Aos olhos de um observador distraído, Londres tem um estilo único: ruas inteiras de casas com a mesma fachada. Mas uma observação mais atenta mostra uma arquitetura herdada de diferentes momentos históricos: a Londres romana, a medieval, a elisabetana, a georgiana, a vitoriana, a moderna, etc. Para quem chega pela primeira vez tudo parece encantador: uma cidade organizada, funcional, com transporte público, lazer e policiamento eficientes. A Londres turística é umas das cidades mais visitadas do planeta. Realmente é bela e merece ser explorada. Porém, ir além do turismo, ou seja, mergulhar na vida cotidiana dos seus habitantes e na rotina dos subúrbios foi minha opção. O choque inicial aconteceu ao visitar, à noite, a praça onde viveu a minha escritora favorita, Virgínia Woolf, descobrindo um verdadeiro açougue humano. Vultos circulavam discretamente, não sendo possível enxergar seus olhos de bichos noturnos sedentos de sexo. Escondiam-se nas sombras, nos plátanos, nos arbustos, à espera da presa certa. Acontecia bem rápido. Nada de beijos, apertos de mãos ou conversas fiadas. Os ingleses se encontravam e copulavam ali mesmo. A liberdade era total. Foi quando eu constatei que aquela cidade era diferente de todas as cidades que eu conhecia.

Conheci também a Londres “barra-pesada” nos bairros de Harlesden e Brixton, onde vivem predominantemente indianos, caribenhos – jamaicanos, principalmente - e muitos africanos. Juntam-se a esta população mais antiga, imigrantes vindos dos mais diferentes países e uma inacreditável quantidade de brasileiros nas ruas, nas lojas e no transporte público. Normalmente escutava alguém conversando em português. Harlesden e Brixton são bairros de pobres num país rico.  A Londres que o turista não faz questão de conhecer ou nem sabe que existe. A Londres indiana, negra e multicultural, com cara de sofrida e cansada. Os custos de moradia não são baixos. Geralmente os imigrantes dividem quartos e pagam uma média de 50 libras por semana.  Eu compartilhava um antigo casarão com uma canadense, um francês, um italiano e uma argentina. Uma verdadeira piração, eles só pensavam em sexo, drogas alucinógenas e encher a cara de vinhos baratos. Já o meu objetivo era absorver a arte local. Quando não estava no cursinho de inglês de última qualidade ou lendo no Hyde Park, freqüentava os fabulosos museus, shows pop’s ou eruditos gratuitos, teatros, galerias de arte, bibliotecas etc., participei de encontros literários alternativos, li poemas meus ao lado do velho beatnick Lawrence Ferlinghetti e, totalmente pelado, diante de um público numeroso, interpretei poemas de Hilda Hilst e Ferreira Gullar no projeto “The Naked Poets”.

Depois de seis meses sem ter evoluído muito no aprendizado do inglês, andando com malandros italianos e espanhóis, mergulhei numa inesperada depressão. Sentia falta do sol, das cores tropicais, da balbúrdia nordestina. Não suportava o tempo cinzento, chuvoso e úmido. Nessa época calamitosa, escrevi os meus melhores poemas - épicos, humanos. Eu me sentia morto, mas renascia subitamente diante de “A Alegoria do Amor”, de Paolo Veronese, na National Gallery. Eu me sentia morto, mas renascia subitamente diante de Nina Simone cantando em um pequeno teatro. Eu me sentia morto, mas renascia subitamente diante de Dame Judi Dench interpretando Shakespeare no Old Vic. Eu me sentia morto, mas renascia subitamente diante das gravuras espiritualizadas de William Blake. Eu me sentia morto, mas renascia subitamente diante dos templos gregos no Museu de História Natural. Passei um ano mergulhado nessa estranha melancolia ávida por momentos de beleza artística. Terminei por ficar amigo da escritora Doris Lessing – prêmio Nobel de Literatura -, tomava chá com ela e saciava sua curiosidade sobre os costumes brasileiros. Tive um romance estúpido com o fútil ator inglês Rupert Everett (de “O Casamento do Meu Melhor Amigo” e “O Marido Ideal”), que me levava para elegantes casas de campo ou reuniões festivas em Chelsea, Richmond e West Hampstead, os bairros mais caros de Londres. Acostumado com a péssima comida da cidade, vivendo a base de fish & chips (bacalhau frito com batatas fritas), com Rupert provei maravilhosos pratos típicos da cultura inglesa, como o delicioso beef Wellington, yorkhire pudding ou cornish pasty. No entanto, normalmente estava sozinho, enxergando vultos assombrados – que voavam ou saiam da terra diante de meus olhos arregalados -, passando dias inteiros nos bucólicos cemitérios, e escrevendo, escrevendo como um demente.

Não tinha conhecidos brasileiros, evitava-os. Jamais ia aos eventos organizados pela Embaixada do Brasil, descartando seus convites. Sabia que era muito comum entre os brasileiros a máxima de que brasileiro não deve confiar em brasileiro que vive no estrangeiro. Sabia de histórias horríveis de conterrâneos legalizados que denunciavam patrícios em situação ilegal ao Home Office (órgão da imigração). A grande maioria dos brasileiros que vive em Londres não valoriza a cidade. Acaba entrando num espiral de trabalho–casa e, no máximo, um churrasco de fim de semana com seus parceiros “brazucas”. Não sabe absolutamente nada que vá além do círculo da comunidade brasileira. Essas pessoas falam muito pouco inglês e conhecem quase nada da cultura local. Um desperdício. Eu fazia justamente o contrário, virando a “verdadeira” Londres de cabeça pra baixo e distante de qualquer churrascaria ou bares tupiniquins. Tinha o costume de freqüentar, sem sair de meu bairro, restaurantes espanhóis, mexicanos, italianos, franceses, árabes, turcos, japoneses, chineses, indianos, nepaleses e gregos.


Nunca achei o povo inglês frio e antipático. Seria simplificar demais o tema. Aprendi que toda metrópole é fria e antipática. Entretanto, se vivo numa grande cidade, não estou atrás de sorrisos ou delicadezas. O que existe em Londres é uma indiferença generalizada. Algo que pode ser muito bom, por um lado, já que ninguém se mete na sua vida e nem questiona suas manias, mas também ruim porque nos faz sentir isolados. Nessa terra, o frio predomina, o egoísmo é notório e o sonho da independência financeira não passa de uma mera utopia. O inglês típico é bastante sisudo, talvez por isso beba tanto para se soltar. E como bebe. É muito comum encontramos homens e mulheres completamente embriagados, jogados nas ruas e no metrô. O pub é uma instituição sagrada. Para saber como os ingleses são de verdade basta freqüentar um pub e interagir com as pessoas. Nesses bares clássicos, eles se soltam e celebrarem a vida.

Parti de Londres levando na bagagem muitas histórias, aprendizado, amizades conquistadas e uma experiência de vida que me fez crescer. Aprendi muito em relação ao mundo, esta aldeia global que cada vez está mais complicada. Pude olhar, ver e sentir de perto uma Londres marcada por fronteiras. Vivi as fronteiras da língua, da raça, das etnias, do dinheiro... Ainda assim, a minha condição de exilado voluntário reforçou o idealismo poético de um viajante que não se cansa de se surpreender, de se emocionar com o que encontra ao longo do caminho. Desse modo, misturando países, línguas, costumes, angústias, alegrias e descobertas, insuflei frescura natural no coração inquieto, procurando o Graal dentro de mim mesmo e fugindo do confinamento existencial claustrofóbico. Será que foi um desperdício de vida? Talvez. Como escreveu o poeta chinês Zhang Kejiu: “Quando a imobilidade não é satisfatória, somos livres para viajar”. E assim, fico imaginando como seria fértil um mundo sem fronteiras, onde as pessoas pudessem ir e vir, ficar e voltar quando bem quisessem...


maio 14, 2012

............ DANIELA PACHECO entrevista ANTONIO NAHUD


JORNAL DE HOJE
(Natal, Rio Grande do Norte)
14 de Maio de 2012

O JORNAL DE HOJE - Antonio, como surgiu a ideia de produzir esse livro?

Em 2010, a Edittus, editora da Universidade de Santa Cruz (Uesc), no sul da Bahia, convidou-me para publicar algo em prosa. O prazo para entregar o material era curto, mas eu tentei não perder a oportunidade recolhendo contos meus publicados ao longo dos anos em cadernos literários, antologias e blogues, além de compilar inéditos e escrever um ou outro conto especialmente para o livro. Surpreso, notei que havia uma harmonia, um fio condutor nessas narrativas curtas. Mas a editora rejeitou o coquetel sexual, cruel e muitas vezes desiludido, pedindo algo dentro de suas normais editoriais acadêmicas. Recusei-me a suavizá-lo, passando os últimos três anos trabalhando nos originais, muitas vezes intensificando ainda mais a violência interior dos personagens.  Este ano, outra editora, desta vez do Ceará, propôs editá-lo, mas a situação se repetiu e eu resolvi assumir o risco e publicá-lo por conta própria. Algo que não acontecia desde o meu livro de estreia, “O Aprendiz do Amor”, de 1993.

O JORNAL DE HOJE - Quanto tempo você precisou para selecionar os textos que entrou neste livro? E, o que norteou as escolhas?

Não houve uma seleção propriamente dita. Antes deste livro, havia publicado apenas um livro de contos, em Portugal, “Retratos em Preto & Branco – Contos Góticos de Madrid”. Todos os outros contos estavam guardados no baú à espera de atenção. Juntei-os, num total de 64, e felizmente se casaram na irreverência emocional.

O JORNAL DE HOJE - Fale um pouco sobre esse livro?

A minha escrita procura a intuição e o intimismo, o misterioso e o ritmo cinematográfico. Destaca as obsessões humanas, os sentimentos exacerbados e a interferência do invisível. “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano” ajuda a compor o retrato, bastante nítido, de minha trajetória literária. São contos minimalistas, viscerais e até cruéis, em torno dos sentimentos mais difíceis, mas também mais definidores do homem urbano da atualidade. Um livro sem concessões num emaranhado de imagens chocantes e neo-realistas.

O JORNAL DE HOJE - Quando você fala que "os contos são minimalistas, viscerais e até cruéis" o que pretendente expressar com isso? Exemplifique.

Eles foram escritos sem amarras, como uma catarse. Não há pudor ou moralismo. Falo de solidão, esquizofrenia, ações inconsequentes, paixão, abandono, densidade etc. Tudo em poucas palavras; muitas vezes determinados contos nem completam uma única página do livro. Procuro mostrar a banalização das histórias cotidianas de todos nós. Sei que isso já foi contado e recontado, de Tchekhov a Rubem Fonseca, mas é sempre atraente descrever mais uma vez um mundo sem descanso, sem afeto e sem perdão. Trabalho com a surpresa, a estranheza e o macabro, fugindo do naturalismo regionalista ou da linguagem tosca da televisão e da web. Acredito na ficção como forma de investigar a natureza humana, não como entretenimento fácil. Os meus personagens obedecem a algum chamado, enfrentando ou sucumbindo aos seus demônios, entregando-se às próprias obsessões, entre o mítico e o real. Essas “pequenas histórias” reveladas neste livro podem ser uma odisseia perturbadora se vivenciadas. E todos nós temos nossas “pequenas histórias”.

francis bacon
O JORNAL DE HOJE - Em geral, o que lhe inspira?

Sou observador.  Presto atenção nas atitudes das pessoas, captando suas reações, ouvindo discretamente histórias contadas publicamente. É um exercício existencial fabuloso, minha literatura necessita disso. Desde moleque sou assim: um voyer de doidos, operários, domésticas, grã-finos, religiosos etc. Por fim, anoto os tópicos do cotidiano em um bloco, seja uma frase, o resumo de um caso cabuloso ou de reação despropositada. Eles se tornam o embrião de futuros contos. Muitas vezes, seduzido por rostos desconhecidos, invento na hora a história supostamente real deles. Por exemplo, filtrando um rosto masculino em um ônibus, imagino: Este trintão entediado chegará em casa e abrirá uma latinha de cerveja, jogando a camisa e os sapatos num canto, ligando a tevê no volume mais alto e nem mesmo dando boa noite para a esposa que está fazendo as unhas”. Meus contos surgem exatamente assim. Junto fatos cotidianos com experiências pessoais e referências artísticas.

O JORNAL DE HOJE - Conte pra gente como é o dia-dia de um escritor como você?

Sou um escritor brasileiro, nordestino, “rebolando” para sobreviver dignamente. Aprendi a aproveitar os dias ao máximo.  Pelas manhãs, atuo como assessor de comunicação do professor Diogenes da Cunha Lima. Na parte da tarde, cuido de projetos culturais de encomenda, pontuais. Quando a noite cai, escrevo crônicas para jornais e revistas de outros estados, alimento dois blogues, leio, vejo filmes, escrevo e respondo e-mails, rabisco projetos. Quase não tenho vida social. Deixei de ver televisão porque roubava o meu tempo. Como um dia me disse a poeta Hilda Hilst, e eu duvidei, “há um momento na vida que é preciso escolher: a literatura ou a vida”. Ela estava certíssima. Talvez por isso bons escritores deixem de escrever ao longo do caminhoMas não é nada fácil. Exige, acima de tudo, paixão, obstinação, perseverança e muita energia. E eu amo todas as atividades profissionais que pagam meus vícios e virtudes. Sou humildemente grato por sobreviver da escrita em seus diversos aspectos.

O JORNAL DE HOJE - Uma das suas grandes paixões é o cinema. Em algum dos contos deste livro você abordou esse tema?

O cinema faz parte de minha literatura. Eles se misturam. Algumas vezes no ritmo, outras vezes em citações. Este livro está impregnado do universo sombrio e bizarro do diretor canadense David Cronenberg. Mas não só o cinema, a literatura de outros escritores e a pintura também estão presentes nestes contos. Tem muito de Edgar Allan Poe, de Dalton Trevisan, de Lúcio Cardoso, do pintor irlandês Francis Bacon. Não é à toa que a exposição fotográfica “A Face Oculta”, do mineiro Morvan França, que fará parte do lançamento do livro, traduz em imagens esse mix de referências artísticas e humanas.

O JORNAL DE HOJE - Então, fale para gente alguns dos temas que abrilhantam este livro?

Todos nós somos criaturas frágeis. Portanto, a essência deste livro é a fragilidade humana. Mas cabe quase tudo na complexa rede de relações sociais que retrato: o policial, o fantástico, o terror, o intimismo, o erótico ou o melodrama. 

O JORNAL DE HOJE - O que o leitor pode esperar desta viagem literária?

Pretendo despertar uma reação emocional no leitor, mais do que intelectual. Quero incomodá-lo, cutucar o seu íntimo. Sendo assim, ofereço uma espécie de síntese da liberdade interior. Um terreno turvo, uma mistura explosiva de delicadeza e desassossego. Resumindo: as dificuldades impostas por um mundo de identidades partidas, ou melhor, dominadas pela insuficiência de qualquer identidade.

francis bacon
O JORNAL DE HOJE - Fale um pouco sobre a sua trajetória literária?
Escrever é excitante, uma viagem! O que procuro nesta viagem? Consolação, justificação, alegrias, inocência, amor à vida. Assim tem sido minha vida literária. Filho de um advogado intelectual, li Dostoievski e Flaubert por volta dos 13 anos. Depois do curso de comunicação, parti para São Paulo, vivenciando intimidades com Hilda Hilst, Caio Fernando Abreu e Lygia Fagundes Telles. Apaixonado pelos escritores viajantes, mudei-me para a Europa e por lá fiquei doze anos. Toda essa experiência diversificada e rica alimenta minha trajetória literária.

O JORNAL DE HOJE - E quais são seus próximos projetos?

Vivo o presente. Nele, planejo para breve uma antologia em livro com os melhores textos do meu blog cinéfilo “O Falcão Maltês”. Penso também na possibilidade de editar um caderno cultural, publicar um romance e interpretar publicamente poemas. E como já não sou nenhum menino, sonho em ir morar no litoral potiguar, montando um jornal quinzenal e uma pequena editora. Já não me identifico com grandes cidades. A vida provinciana, por incrível que pareça, seduz-me. A vida é cheia de surpresas. Veremos o que o futuro me reserva. 


maio 03, 2012

............................... APRECIAÇÃO CRÍTICA: RUY PÓVOAS

édouard-henri avril

“A escrita mente, é um refúgio e a presença em combustão da inexistência.” É justamente isso que pensa um dos muitos personagens destas PEQUENAS HISTÓRIAS DO DELÍRIO PECULIAR HUMANO narradas por Antonio Nahud. Não sigo seus caminhos, mas participo de várias de suas crenças. De fato: a escrita é um refúgio, pois quem “vive” não tem tempo para escrever. As histórias de Antonio são realmente pequenas, como são pequenas as histórias da maioria esmagadora dos humanos. Algumas são muito pequenas mesmo. Exemplo disso: “O Inocente”, “Paisagem ao Longo da Estrada”, “O Vicioso”, “O Jardim do Achado e Perdido. Nem por isso, menos densas que as demais. Aliás, a densidade das “Pequenas Histórias...” chega a ser esmagadora. O autor crê nisso, seu texto revela-nos isso. Faz parte de sua escritura.

Para além da densidade do texto, os personagens são submetidos a uma espécie de tomografia computadorizada que lhes revela as mazelas do corpo, da mente e do espírito, gestoras de delírios. E delírio é tomado na acepção de estado de obnubilação da consciência, com ilusões ou alucinações e nunca como êxtase espiritual. É isso: para os personagens deste livro, a existência é uma moléstia que produz delírios. E para compor o desfile dos delirantes, Antonio não teme pôr em palco os personagens em plena crise de delírio. O resultado disso é que vem a público aquilo que só é narrado nos confessionários católicos, nos consultórios dos terapeutas e psiquiatras, nos quarto-de-consulta de terreiros, tendas e centros afro-brasileiros, nos quartos de dormir de muitas casas: o lado sombrio do humano, sua rede de treva, que a maioria teima em negar ou ignorar.

Na urdidura das PEQUENAS HISTÓRIAS DO DELÍRIO PECULIAR HUMANO, muitas vezes o autor intercala uma frase única que faz o leitor entender que o narrador é de outra estirpe. E isso é o suficiente para que o leitor tenha certeza: aquele personagem nada tem a ver com o seu autor, embora o autor obrigue seu personagem a se expor: um belo jogo de esconde-esconde. Há uma espécie de foco especial na personalidade masculina: “Os homens não deveriam ter nomes, são tão parecidos uns aos outros”; “Os homens são formados numa única e tradicional escola de cinismo”; “É preciso entender as entrelinhas hipócritas do universo masculino”. O banal da personalidade masculina chega até aos antropônimos. Eles são “Petrônio”, “Eustáquio”, “Bernardo”.

Ora, prefaciar uma obra é tentar traçar um roteiro para uma possível leitura, apontar marcos, frisar conotações. Antonio Nahud, no entanto, se interpõe: “Não preciso explicar os meus versos. Escrever é uma emoção intelectual particular”. Aí, arma-se um dilema para o exercício da crítica: se não explicar, fazer o quê? É justamente isso que o crítico, antes de tudo, precisa aprender: não explicar, pois a arte não se explica. A explicação tira, elimina, destrói as possibilidades das múltiplas interpretações. É isso: esses contos são para serem sentidos. Apenas, através do sentimento, é possível alcançar um mínimo de compreensão para com aqueles que deliram. A eles, já basta o fardo do delírio de viver aquilo que os santos afastam, as igrejas condenam, as religiões chamam de escuridão.

Às vezes, Antonio se esquece de sua juventude e assume, na condição de expositor das chagas humanas, o papel de um idoso senhor. Chega, mesmo, a usar vocábulos pertinentes àquela faixa etária: “urzes”, “rutilâncias”, “plátanos”. Depois, dá um salto e aborda as fileiras de cocaína, os cigarros de maconha, a obsessão pelos prazeres sexuais, digamos, não convencionais. Justamente, nesse salto, as chagas são reveladas e os mais conservadores estremecerão.

A solidão, a sozinhez, a perdedeira fazem parte do caldo de cultura que alimenta a dor e instala o delírio. Isso ocorre, no entanto, como fatalidade. As pessoas nunca querem ser sós, são vítimas de uma impositura: elas mesmas. Quanto mais desejam companhia, quanto mais buscam parcerias, mais se enredam em si mesmas, tornando-se companhias insuportáveis. E quando o universo providencia alguém que lhes acompanhe, elas fogem, correm como loucas, para a solidão, outra vez. É a partilha que fica impossível de ser realizada, pois não basta dividir o ambiente, o salário, os objetos. Quem não sabe partilhar sentimentos e ideias vai compor a procissão dos que desfilam nas PEQUENAS HISTÓRIAS DO DELÍRIO PECULIAR HUMANO. É justamente por não compreender isso que um dos personagens termina perguntando a si mesmo: “Mandam-me a alguma missão secreta ou pago pecados?”. Em tal situação, falta a aceitação do sentimento que dissolveria as causas do delírio, porque falta fraternidade entre os humanos. Ainda somos, até hoje, muito ignorantes para aceitarmos o conselho: “Confessai-vos uns aos outros.” E por não aceitarmos o conselho em sua verdade simples e cristalina, uns transformaram a confissão em sacramento; outros, em material para o ganha-pão.

A densidade necessária para que a narrativa seja curta sem perder a sua essência faz com que certos enfoques tenham nitidez exacerbada. Por isso mesmo, Antonio Nahud Júnior chega ao nível do hiperbólico: “As sereias de Homero nadam no seu sangue, levadas por correntes violentas.” Aliás, a hipérbole faz parte do universo do escritor. Seus ódios e amores podem ser facilmente convertidos um no outro: o mesmo traço de personalidade de um personagem, embora deletério, quase um elogio, é punido severamente em um outro. No desfile que ele obriga seus personagens a realizar, virtude e pecado são apenas resultantes da alternância do ângulo de observação. Por isso mesmo, nem o amor é um valor absoluto: “O amor é um belo delírio condenado à incerteza. O amor renasce incessantemente. O amor é aquilo que, ao mesmo tempo, nos cega e nos ilumina”.

Nas PEQUENAS HISTÓRIAS DO DELÍRIO PECULIAR HUMANO, ocorre uma procissão de juventude. Parece até que os velhos estão imunes ao delírio. Isso acontece porque, depois que se vive a juventude, os desejos são amainados, os ódios são aplacados e os estandartes provisórios são abandonados nos desvãos da estrada do existir. Isso, no entanto, não chega a ser um bem: “velhice é um erro, um mal-entendido entre o corpo e o espírito, uma traição do tempo”. Se a velhice é um erro e a mocidade é a fase do delírio, o que restaria ao humano, então? Escrever, talvez. No entanto, “a escrita mente e é um refúgio, a presença em combustão de um mundo inexistente”.

Resta, portanto, a cada um de nós, pessoas ou personagens, apenas viver. Viver na plenitude do sentimento, para que o delírio não nos assuma e venhamos a compor o desfile trágico-cômico e, por isso mesmo doloroso, das pequenas histórias.

RUY DO CARMO PÓVOAS
Poeta, Mestre em Letras Vernáculas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) 
e ex-Professor Titular de Língua Portuguesa da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC)

william adolphe bouguerau

..............................“PEQUENAS HISTÓRIAS...” na MÍDIA

"o beijo", de toulouse-lautrec

Lançamento de 
PEQUENAS HISTÓRIAS DO DELÍRIO PECULIAR HUMANO 
repercutiu em blogues, jornais, revistas. 
Agradeço a todos. De coração.

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JORNAL POTIGUAR NOTÍCIAS 
(Parnamirim, RN)
1 de Maio de 2012

REVISTA “SOLTO NA CIDADE”  
(Natal, RN)
1 de Maio de 2012