novembro 15, 2016

................................. CAIO F. - A VIDA APESAR DE TUDO



E o futuro é de sangue, de aço, de vaidade. E vermelhos
azuis, braços e amarelos hão de gritar: morte aos poetas!
Morte a todos aqueles de lúcidas artérias, tatuados
de infância, de plexo aberto, exposto aos lobos. Irmão.
Companheiro. Que dor de te saber tão morto.
HILDA HILST

Ilustrações:
BERNARD BUFFET
(1928 - 1999)


De acordo com o escritor mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke, é na literatura que reside “o esplendor da linguagem. Um povo sem literatura é um povo sem alma, sem história, sem memória.” Infelizmente, a maioria dos escritores não permanece, não resiste ao tempo, isso é óbvio. Não é o caso do gaúcho CAIO FERNANDO ABREU (1948 – 1996), vinte anos após sua morte, o autor de “Morangos Mofados” (1982) continua sendo lembrado. Considerado um dos principais contistas do Brasil, sua ficção se desenvolveu acima dos convencionalismos, evidenciando uma temática própria, juntamente com uma linguagem fora dos padrões.

Conheci CAIO FERNANDO ABREU pessoalmente, fomos amigos. No inverno de 1989, ao chegar a Registro, pequena cidade no interior de São Paulo, soube que eu dividiria quarto de hotel com ele, o homenageado de um encontro de literatura marginal, coordenado por Leila Miccolis e Urhacy Faustino. Como um dos escritores convidados, passamos três dias numa correria de palestras, entrevistas, leituras poéticas, restaurantes e bares, sem tempo para conversa mais profunda. Ele, ferino e resmungão, não parecia feliz.

Sombrio, magreza excessiva e grandes olhos de desalento davam ao escritor um aspecto vampiresco. Muito jovem, fiquei assustado com a sua dor travada, evitando estar ao seu lado o máximo que podia. Na última noite, após bebedeira em um restaurante, conversamos sobre literatura e cinema. Ele se empolgou ao recordar a atriz Odete Lara, um dos seus ícones, e me tratou com aspereza ao ouvir que eu só lera uma única obra sua, o citado “Morangos Mofados”, talvez seu único sucesso, deixando evidente a fome de reconhecimento. Caminhamos pela cidade deserta, fomos barrados num clube suburbano proibido para brancos e houve um momento, num curto espaço de tempo, em que ele me deu sua mão, e andamos assim, íntimos.

caio, lygia fagundes telles, robby cardoso e hilda hilst
No ano seguinte, em São Paulo, nos reencontramos duas vezes numa mesma semana: nas residências de Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst. Eu trabalhava na Editora Siciliano, braço direito de Pedro Paulo de Senna Madureira, e costumava visitar escritores por exigência profissional. No apartamento da autora de “Horas Nuas”, um Caio gentil lembrou Registro com ironia e fez uma comparação inusitada: “Antonio parece galã de cinema dos anos 50. Algo entre John Gavin e James Garner”.  Nunca mais deixou de me chamar Gavin ou Garner, dependia do entusiasmo.

Na Chácara do Sol de Hilda Hilst, em Campinas, o clima fechou, tempestuoso. Temperamentais, rancorosos, eles haviam cortado relações há alguns anos e Caio tentava recuperar o tempo perdido de uma antiga amizade iniciada em 1968, em plena ditadura militar, quando foi perseguido pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), refugiando-se no sítio da escritora. Não deu certo, a poeta, dura, abriu a boca sem piedade e ele partiu soltando fogo pelas ventas. Situação tensa e mal resolvida, aparentemente sem cura.


CAIO FERNANDO ABREU adorava escrever cartas, assinando muitas vezes como Caio F. - o primo brasileiro da alemã “Christiane F. Drogada e Prostituída”. Ele se dava alcunhas. Em suas cartas, numa espécie de voyeurismo literário, tomamos parte da intimidade do escritor, sabendo de peripécias angustiadas. Demonstrando enorme disposição para o diálogo e a troca, ele escrevia para amigos e também para se apresentar a escritores que não conhecia, expressando admiração. Assim fez amizade com Hilda, Clarice Lispector, Nélida Piñon, entre outros. Morando em diferentes cidades, escrevia loucamente, em um ritmo alucinante, alimentando-se intelectualmente com esse hábito, em um tempo em que não existia e-mail nem facebook e as cartas tardavam dias para chegar. No fundo, entre o fuxico e o desabafo, suas cartas tinham função terapêutica.

caio e antonio nahud, 1989
Nascido em Santiago do Boqueirão (RS), jovem ainda mudou-se para Porto Alegre, onde publicou seus primeiros contos. Cursou Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, depois Artes Dramáticas, mas abandonou para dedicar-se ao trabalho jornalístico. Em 1973, deixando tudo para trás, viajou para a Europa, lavando pratos, fazendo traduções e se virando. Andou pela Espanha, Estocolmo, Amsterdã, Londres e Paris. Retornou a Porto Alegre em fins de 1974, com os cabelos pintados de vermelho, usando brincos e se vestindo com batas de veludo cobertas de espelhos. Em 1983 transferiu-se para o Rio de Janeiro e em 1985 passou a residir novamente em São Paulo. Dedicou-se ao jornalismo em revistas como “Pop”, “Nova”, “Veja” e “Manchete”. Foi editor de “Leia Livros” e colaborou nos jornais “Correio do Povo”, “Zero Hora”, “O Estado de S. Paulo” e “Folha de S. Paulo”.

Vivemos uma estranha, amarga e comovente amizade. Criatura de mistérios e pânicos, telefonava altas horas da noite, deprimido, bêbado, desabafando num monólogo duro. Algumas vezes estive no seu apartamento na Haddock Lobo e, vez ou outra, saímos pelos bares sórdidos do centro da cidade. Era uma amizade fadada ao fracasso, sem confiança ou afeto, talvez somente por minha conexão com Hilda. Terrivelmente inseguro em relação a sua literatura, o escritor duvidava do seu talento e maldizia os deuses por não escrever como Clarice Lispector ou a própria Hilda Hilst.

Eu temia suas palavras perversas, tristeza absoluta, descrença, críticas ácidas. Na época, ainda inédito em livro, fiquei muito feliz ao receber algumas linhas escritas por ele sobre meus contos: “A literatura de Antonio Nahud submerge o leitor num mundo intrépido de terror e tremor, de beleza indescritível e de uma fascinante prospecção filosófica sobre o tempo, a morte, o amor, o horror, o sexo, a busca”.

Hoje consigo dizer, fazia o possível para evitá-lo. Emocionalmente instável, hiper-sensível, frágil e infeliz, nesse período CAIO FERNANDO ABREU sofria demais. Ele tinha explosões repentinas de cólera, seguidas de um silêncio assustador. Via nos otimistas seres imperfeitos e indignos de contar com sua amizade. Abominava a esperança. Numa madrugada, no Sujinho, chorou sem motivo aparente, finalmente lamentando não ser levado a sério como escritor. “Como não, Caio? Muita gente admira Morangos Mofados”, apaziguei. “Porque falo de drogas e sexo. Somente por isso”. Foi o nosso último encontro cúmplice.


Voltei a vê-lo mais duas ou três vezes, rapidamente, na redação da revista Interview e em vernissages nos Jardins. Ele dizia: “Como vai, Gavin?”, e nem ao menos esperava resposta. Portador do vírus HIV, seu aspecto debilitado evidenciava a tragédia, mas nunca conversamos a respeito da doença que o consumia. Era um tempo difícil para os portadores dessa enfermidade. Tinham pouco tempo de vida, em geral às voltas com tratamentos penosos. O coquetel veio depois. Alguns biógrafos dizem que ele descobriu-se portador do vírus da AIDS na França em 1994. Não é verdade. Em 1990, muito abalada, Hilda conversou comigo à respeito.

Debochado e louco por sexo, Caio se rotulava como devasso. À vontade com sua condição homossexual, numa época de intolerância militar, brincava dizendo que escreveria um gigantesco livro chamado “Os Homens que Eu Tive”, versão gay de “Mulheres”, de Bukowski. Ele é um bom contista. Retrata a cultura pop, entre o bom humor e a tragédia, mas sempre permeado por afeto. Econômica e pessoal, apresenta uma visão exacerbada do mundo urbano moderno. Escreveu, entre outros: “Ovo Apunhalado” (1975), “O Triângulo das Águas” (1984, Prêmio Jabuti), “Onde Andará Dulce Veiga?” (1990, filmado em 2008 por Guilherme de Almeida Prado, com Maitê Proença) e “Ovelhas Negras” (1996).

Sem despedidas, em 1994, CAIO FERNANDO ABREU partiu para a derradeira temporada europeia, a convite da Casa dos Escritores Estrangeiros, escrevendo de lá bonitas crônicas para o jornal “O Estado de S. Paulo”. Em 1992, Hilda rompeu bruscamente comigo, motivada por um ensaio que escrevi sobre sua vida e obra. De volta a Bahia, nada mais soube sobre o dramático e infeliz amigo. Em 1996, quando morreu, aos 47 anos, eu vivia longe, em Madri. Ele passou os últimos meses de vida na casa dos pais, cuidando de roseiras e canteiros de arruda, alecrim e manjericão.

Uma das suas maiores aflições era a falta de dinheiro. Ganhou prêmios, foi traduzido para vários idiomas, mas não conseguiu resolver os problemas financeiros, vivendo modestamente. Reclamava frequentemente, dizia estar apertado, torcia para um dia ficar rico. Pensou muitas vezes em desistir da literatura. “Não desisto de teimosia meio-burra”, disse-me. Felizmente foi teimoso até o fim, deixando uma obra marcante, farta de sensibilidade.


TODA a OBRA de CAIO FERNANDO ABREU

INVENTÁRIO DO IRREMEDIÁVEL 
(1970)

LIMITE BRANCO 
(1971)

O OVO APUNHALADO
(1975)

PEDRAS DE CALCUTÁ 
(1977)

MORANGOS MOFADOS
(1982)

TRIÂNGULO DAS ÁGUAS
(1983)

OS DRAGÕES NÃO CONHECEM O PARAÍSO
(1988)

antonio nahud e caio
AS FRANGAS
(1988)

A MALDIÇÃO DO VALE NEGRO 
(co-autor, Luiz Arthur Nunes, 1988)

ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA?
(1990)

OVELHAS NEGRAS
(1995)

ESTRANHOS ESTRANGEIROS 
(1996)

PEQUENAS EPIFANIAS 
(1996)

GIRASSÓIS 
(1997)


FRAGMENTOS: 8 HISTÓRIAS E UM CONTO INÉDITO 
(2000)

A VIDA GRITANDO NOS CANTOS 
(2012)

POESIAS NUNCA PUBLICADAS DE CAIO FERNANDO ABREU 
(2012)

CAIO FERNANDO ABREU: DE A A Z 
(2013)


DOIS OU TRÊS ALMOÇOS, UNS SILÊNCIOS.
Fragmentos Disso que Chamamos de “Minha Vida”

CAIO FERNANDO ABREU

Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

(Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", 22/04/1986)



antonio nahud com leila miccolis e amigos em registro (sp), 1989