janeiro 09, 2013

................... A MALTRATADA CAPITAL BAIANA É COISA NOSSA

antonio nahud no bomfim, salvador

Imagens: Morvan


Há tempos, Salvador foi considerada exemplo de integração entre homem, cidade e natureza. Ela encanta pelo rico patrimônio arquitetônico, beleza panorâmica, explosão de energia afro-baiana e opções de lazer, gastronomia, cultura. Atualmente, agoniza, vivendo uma falsa democracia. A sujeira toma conta de avenidas, ruas e praças. A violência opressiva gera paranoia. A cena artística, tristemente, perde vigor, com o broxante “axé music” monopolizando mentes e corações e enchendo o saco. Maravilhas como as praias de Itapoan ou a Lagoa de Abaeté, cantadas em prosa e verso por nomes de excelência como Dorival Caymmi e Gilberto Gil, foram corrompidas pelo progresso troglodita. Movimentar-se nesta metrópole molestada exige paciência, muita paciência. Não há metrô (iniciadas em 1997, as obras ainda não foram finalizadas, enchendo o bolso de políticos) ou transporte ferroviário, corridas de táxi são um tiro (alguns taxistas abusam, circulando por caminhos mais distantes), ônibus passam quando bem entendem, sem horários concretos (pontos de parada sem bancos e geralmente sob calor escaldante, beiram o sadismo). Locomover-se de automóvel pode ser traduzido em aceitação de estacionamentos lotados, engarrafamentos absurdos e, na pior das hipóteses, assalto num sinal fechado.

igreja do bonfim

Descuidadas, fabulosas esculturas que enfeitam diversos pontos da cidade, de Mário Cravo Júnior a Siron Franco, estão sujas ou enferrujadas. O Pelourinho, cartão-postal reconhecido internacionalmente que passou por um trabalho delicado de restauração, semi-abandonado, entrega-se a um comércio impessoal e ganancioso. O turismo cultural definha, com o poder público indiferente ou nocivo à arte. Este verão, em plena alta temporada de dezembro, não havia em cartaz espetáculos teatrais, exposições ou shows de qualidade, somente a bisonha carnavalização de Cláudia Leite e trupe. No entanto, o governo estadual gasta tubos de dinheiro anunciando que cada vez mais produz cultura, “unindo o popular e o erudito”. Será que alguém acredita? Criação artística não combina com conformismo. O Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM) e a Fundação Casa de Jorge Amado estavam (ainda estão?) em reforma, gerando a indagação. Como uma cidade turística fecha as portas de órgãos culturais em um mês de grande visitação? Felizmente, a Caixa Cultural Salvador, salvou a pátria com uma estimulante mostra do artista multimídia Caetano Dias. Porém, no tempo que estive no local, juro que não apareceram outros visitantes interessados em experimentações formais. Dei um pulo também no Palacete das Artes Rodin. Faz-me bem o esplendor do casarão de 1912 e o simpático café ao ar livre. O que não me convence é o caro investimento na permanência em solo baiano de réplicas em gesso (!) do pai da escultura moderna. Parece-me caipira. Museus de verdade mudam cidades.

azulejo português

A formosura da paisagem é fragmentada pelas preocupações com a selvageria, a economia e outras mazelas. Bolsas coladas ao corpo, medo de desconhecidos, narrativas trêmulas de crimes e outros delitos morais, aglomerados humanos cada vez mais urbanos, anônimos e desencantados. A propaganda oficial anuncia 20 mil policiais nas ruas, mas seguramente 19 mil devem ser invisíveis. Terreiros de candomblé fecham as portas, reduzindo a dimensão espiritual do cotidiano. O centenário de Jorge Amado é lembrado sem profundidade... Ai, que desolação. Vivenciei o boom da Salvador mística, efervescente, dionisíaca e sedutora dos anos 1980. O brilho se perdeu. Nos últimos tempos, na maior cara-de-pau, a administração pública estadual e municipal vem arruinando-a. São governantes merecedores de vaias e chuvas de ovos podres. Eles abortaram a missão de propor políticas culturais. Não ouvem, estudam, aplicam, avaliam ou renovam essas políticas. Poucos protestam, sem qualquer insurreição uniforme à vista.

igreja do bonfim
Nascido em terras grapiúnas, amo incondicionalmente a Bahia, mas não há como fechar os olhos e fazer de conta que tudo está bem. Salvador pede socorro, a tradição e o contemporâneo não conseguem dialogar. Os vândalos não pouparam o paraíso, deixando a sociedade convivendo com os escombros da civilização dizimada. Imperdoável. Precisamos clamar por transformações urgentes, resgatando virtudes nativas contagiantes e colocando novamente Salvador na ideia de viagem como uma aventura enriquecedora do espírito. No mínimo, oferecer-lhe um olhar cúmplice - consolo inútil, de qualquer modo, uma manifestação de solidariedade, um indício de que há pessoas preocupadas com a degenerescência cultural. E é bom que sejam muitas e seu número cresça, sobretudo na mídia, cuja conivência com o asneirol da cultura pop enche qualquer um de vergonha.

nahud no forte de montserrat