fevereiro 27, 2014

............... O AMOR NÃO TEM SEXO: ELEMENTOS DA HISTÓRIA GAY



Ilustrações: 
SEBASTIAN MORENO


Do grego “homos” (igual) e do latim “sexus” (sexo), o conceito homossexual se refere a quem sente atração por outro(a) do mesmo sexo. Cunhado em 1869 pelo jornalista e advogado húngaro Karol Maria Kertbeny, após surgir o uranismo – em referência ao discurso de Pusânias em “Banquete” de Platão – defendido pelo jurista alemão Karl Heirnrich Ulrichs, em 1862. Kertbeny e Ulrichs compreendiam a homossexualidade como “condição inata, que se manifesta através de impulsos e desejos”, em oposição a “invertido”, portador inversão sexual. Lésbica, do latim Lesbos, uma ilha grega, diz-se da mulher que se sente atraída por outra mulher. O bissexual se relaciona com indivíduos de ambos os sexos. De origem inglesa, gay (alegre, jovial) rotula o sujeito homossexual.

Transgênero engloba grupos diversificados de pessoas que têm em comum a não identificação com comportamentos e/ou papéis esperados do sexo biológico, determinado no seu nascimento. Performático, o drag queen se traveste de maneira espalhafatosa e cômica para apresentações em eventos ou casas noturnas. Queer - “esquisito” ou “estranho” -. durante muito tempo foi ofensivo. Hoje denomina quem rompe com normas heterossexuais estabelecidas. Alguns programas de TV, ativistas e publicações utilizam esse conceito. Chama-se crossdreser quem usa peças de vestuário ou se veste totalmente como o sexo oposto, não significando que seja homossexual. Androginia se refere ao que não é feminino nem masculino. Hermafrodita vem de hermafrodito, da mitologia grega, filho de Hermes e Afrodite nascido com órgãos sexuais de ambos os sexos.

O relato homossexual mais antigo está no “Gênesis”, capítulos 18 e 19, da “Bíblia”: a cidade de Sodoma, destruída em decorrência do alto grau de promiscuidade em que vivia sua população, foi cenário do conflito entre Lot e alguns homens que desejavam se relacionar sexualmente com os anjos enviados por Deus. As sociedades hebraicas convivam com a homossexualidade. Os habitantes das ilhas Salomão, Fiji e Nova Guiné exercitavam a homossexualidade ritualística em 8.000 a.C.. O primeiro casal do sexo masculino que se tem notícia, Niankhkhnum e Khnumhotep, viveu por volta de 2.400 a.C., no Egito. Existem registros deles se beijando. Comum na antiga Grécia, as relações amorosa entre homens eram praticadas (e até defendidas) por gregos ilustres como Sócrates, Platão, e Aristóteles. Sendo o mais comum um mais velho com outro mais jovem, chamado efebo. Os registros de sexo lésbico na Grécia são conhecidos a partir de Safo, da ilha de Lesbos, em meados de 612 a.C.. Poeta, escreveu sonetos enaltecendo o amor entre mulheres. De seu nome, surgiu o safismo.

São abundantes as fontes históricas sobre a prática homossexual na Roma Antiga, sua atitude social e aceitação. Em obras literárias, pinturas e esculturas. No primeiro século, Suetônio e Tácito contam a generalização de matrimônios entre homens, sem restrições. O imperador Nero se casou com alguém do seu sexo, e o fez em duas ocasiões públicas: no papel de noiva com o liberto Pitágoras; e como noivo de Sporus, a quem mandou castrar. O historiador Edward Gibbon afirma que dos doze primeiros imperadores somente Cláudio se interessava exclusivamente por mulheres. Todos os outros tinham amantes do sexo masculino. Ao chegarem ao Brasil, em 1500, um dos aspectos da cultura ameríndia que mais escandalizou os colonizadores portugueses foi a homossexualidade entre os índios: homens eram chamados de“tibira” , as índias lésbicas de “çacoaimbeguira”. O tráfico negreiro trouxe nova pimenta ao amor homossexual no nosso país. Estão documentados escravos homossexuais, provenientes de diversas etnias africanas. Chamados de “quimbanda”, os nativos de Angola, e “adé”, na língua yorubá da Nigéria. Os amantes do mesmo sexo eram conhecidos como “aló”.

Diversas personalidades da literatura, cinema e de todas as outras artes foram homossexuais. O escritor francês Marcel Proust, segundo biógrafos do autor de “Em Busca do Tempo Perdido”, frequentava assiduamente os points gays da Paris de sua época. O poeta Paul Verlaine se notabilizou não apenas por sua obra, mas também pela conturbada relação com o também poeta Arthur Rimbaud durante quatro anos. Ele abandonou a esposa e vagueou com o amado genial pela noite boêmia de Paris. Alucinados por absinto e drogas, deixaram rastros de escândalos na sociedade parisiense. Admiravam-se, mas os temperamentos fleumáticos de ambos e a diferença de idade resultavam em frequentes explosões emocionais. Num desses descontroles, Rimbaud, ébrio, após uma discussão com Verlaine, espetou uma faca na mão deste. Mais tarde, Verlaine comprou uma pistola e disparou dois tiros em Rimbaud, ferindo-o ligeiramente num pulso. À custa do tresloucado ato, o autor de “Sagesse” foi condenado a dois anos de cadeia.

Apesar da fama de mulherengo, o poeta inglês George Gordon Byron, famoso como Lord Byron, mantinha também relações afetivas com rapazes. Casado durante 50 anos com uma mulher, o escritor alemão Thomas Mann apreciava jovens, tendo fixação em Klaus, seu filho. A homossexualidade de Mann foi revelada em seus diários íntimos, abertos 20 anos após sua morte. Através do livro “Diário de um Ladrão” Jean Genet - autor das peças “O Balcão” e “As Criadas” – se assumiu publicamente nos anos 1940. Documentos divulgados recentemente dizem que o escritor francês André Gide desejava garotos. Ele, que revelou sua homossexualidade aos leitores, iniciou-se sexualmente aos 24 anos, com um jovem árabe, descrito num de seus livros como Ali.

Autor do ambíguo “O Retrato de Dorian Gray”, um dos maiores romances da literatura universal, Oscar Wilde foi preso por causa do namoro com o jovem Alfred Douglas. Ele passou dois anos encarcerado e viveu o resto da vida no exílio. Passando-se por heterossexual, enquanto mantinha um amante secreto, o escritor e dramaturgo T. S. Eliot manteve uma relação homossexual de mais de dez anos com John Hayward. Jean Cocteau se relacionou com o escritor Raymond Radiguet até a morte deste, aos dezenove anos, fato que o deixou arrasado. Ele, que se dizia feito para a amizade, não para o amor, colecionou amantes, entre eles o ator Jean Marais. Autor do clássico “Pé na Estrada / On the Road”, inspirador de toda uma geração, Jack Kerouac nunca assumiu sua bissexualidade. Certa vez afirmou que a sua primeira experiência sexual com uma mulher foi traumática. Sua mãe o definia como um heterossexual “com pouco interesse em garotas”.

O escritor argentino Manuel Puig, autor do best-seller “O Beijo da Mulher-Aranha”, era homossexual. Já a vida íntima do escritor e poeta Mário de Andrade, um dos fundadores do modernismo, é uma incógnita, mas muitos dizem que era homossexual. O autor de “Macunaíma” não foi o nosso único escritor a manter mistério sobre sua vida sexual. Pedro Nava, de “O Círio Perfeito”, e Lúcio Cardoso, de “Crônica da Casa Assassinada”, nunca se assumiram. Hoje se sabe que eram homossexuais. Casado, W. Somerset Maugham manteve um caso sério com Gerald Haxton, com quem passava boa parte do ano. Um vivia nos Estados Unidos e o outro na Europa, e escritor costumava atravessar o Atlântico para encontrar o amante.


Da longa lista de escritores gays, Hans Christian Andersen, notabilizado por fábulas como “A Pequena Sereia”; o norte-americano Truman Capote, de “À Sangue Frio”; Henry James, o japonês Yukio Mishima, o poeta português Fernando Pessoa e Federico Garcia Lorca, assassinado na Guerra Civil Espanhola. No teatro, a presença homossexual sempre foi intensa, destacando-se Christopher Marlowe, William Shakespeare e Tennessee Williams, de “Um Bonde Chamado Desejo”. A grande paixão da escritora lésbica norte-americana Gertrude Stein respondia pelo nome de Alice B. Toklas. Conheceram-se em 1906 e em 1910 passaram a morar juntas. Gertrude costumava assinar cartas pelo casal. Depois de sua morte, a inconsolável Alice se dedicou a publicar toda a obra da amada. O casal está sepultado no mesmo túmulo, no cemitério Pére Lachaise, de Paris. A poeta norte-americana Elizabeht Bishop viveu uma relação homoerótica assumida com a paisagista brasileira Lota de Macedo Soares, criadora do Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro.

Autora de “Orlando”, a escritora Virginia Woolf se sentia atraída por mulheres. Uma delas, Vita Sackville-West, foi o seu maior amor. Estudiosos da obra da escritora asseguram que o personagem da ficção “Orlando” foi inspirado em Vita. Marguerite Yourcenar, a primeira mulher eleita para a Academia Francesa de Letras, viveu um romance de quatro décadas com Grace Frick. Ela escreveu romances que versam sobre a homossexualidade, entre eles “Memórias de Adriano”. Uma biografia póstuma revelou que Greta Garbo, a grande diva do cinema, manteve um affair com a roteirista, teatróloga e poeta Mercedes Acosta. Além, de Garbo, sabe-se do lesbianismo de inúmeras outras estrelas da época de ouro do cinema, de Claudette Colbert a Arletty, de Alla Nazimova a Lizabeth Scott.

Apesar do falatório sobre sua intimidade, Rock Hudson negou a maior parte da vida sua homossexualidade. A revelação ocorreu nos anos 1980, quando o ator admitiu ser portador do HIV. Pouco tempo depois, faleceria. Como Rock, o escritor brasileiro Caio Fernando Abreu admitiu publicamente sua homossexualidade ao ser contaminado pelo mesmo vírus.  A AIDS também levou o cantor Cazuza. Sua dor foi estampada nos meios de comunicação de massa, aparições públicas e canções. Ele faleceu aos 32 anos de idade. O bailarino russo Rudolf Nureyev também morreu em consequência da AIDS. Sua vida sexual permanece em boa parte na obscuridade, mas se sabe que teve um longo caso com o ator Anthony Perkins, de “Psicose”. Acreditou-se durante muito tempo que o compositor Tchaikovsky tinha se suicidado. A versão mais recente para a sua morte é bem diferente: ele foi “induzido” ao suicídio por causa de uma relação homoerótica com um membro da família imperial russa. Ele costumava confidenciar suas experiências com homens ao irmão, também homossexual.

Cole Porter, casado, nunca deixou de se relacionar com rapazes. Ao tomar conhecimento da homossexualidade do marido, Linda Porter preferiu continuar o casamento. Ela era amiga, conselheira, fã e companheira de Cole, menos sua amante. Na extensa lista de artistas homossexuais encontra-se o pintor, poeta e inventor Leonardo da Vinci. Está documentado um processo em que o acusa de, juntamente com outros três homens, manter relações sexuais com um rapaz de 17 anos, modelo num dos ateliês em que ele trabalhou. O escultor renascentista Michelangelo também era gay, assim como o pintor irlandês Francis Bacon.

Primeiro latin lover do cinema, Rodolfo Valentino provocava suspiros. Mas poucos sabiam que era homossexual. Seus casos gays estão retratados em seu diário. A homossexualidade do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini não era segredo. O que chocou o mundo foi sua a morte trágica, assassinado por um garoto de programa. Biógrafos do lendário James Dean asseguram que ele costumava jogar dos dois lados, com uma certa queda por homens mais velhos. Também homossexuais, Alexandre o Grande, Caravaggio, Nijinsky, Paul Bowles, Luchino Visconti, Allen Ginsberg, Vincente Minnelli, Michael Stipe (vocalista do grupo REM), Rob Halford (vocalista da banda de heavy metal Judas Priest), Pedro Almodóvar, François Ozon, Alexander McQueen, Jodie Foster, Joan Baez, George Cukor, Michel Foucault, John Cage, Gore Vidal, James Baldwin, Christopher Isherwood, Franco Zeffirelli, Frida Kahlo, Rainer Werner Fassbinder etc.

Nos anos 1940, pesquisa sexual coordenada por Alfred Kinsey demonstrou que 37% dos entrevistados tiveram algum tipo de relação homossexual ao longo da vida. Um estudo mais recente diz que a quantidade de pessoas que tiveram experiência homossexual pode chegar a 40%, mas indivíduos exclusivamente gays são em torno de 10% da população. Um jornal de Uganda publicou em 2010 uma lista de homossexuais locais com a manchete: “Enforque-os”. O ato infame gerou protestos, inclusive de entidades de defesas dos Direitos Humanos e governos de outros países. Em 2011, o ativista gay africano David Kato foi espancado até a morte em sua casa. No mesmo ano, uma organização chamada Avaaz lançou uma campanha pela internet contra o “estupro corretivo” de lésbicas na África. Um dos casos mais recentes, o da sul-africana Millicent Gaika. Ela foi amarrada, espancada e estuprada diversas vezes pelos seus agressores.

A Organização Mundial da Saúde retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais em 1990. No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia não a considera um desvio de comportamento desde 1985. Em 1975, a Associação Americana de Psicologia deixou de enxergar a homossexualidade como doença, o que faz dela pioneira. A partir de 1991, a Anistia Internacional considera a discriminação contra homossexuais uma violação dos Direitos Humanos. 

A relação sexual e/ou coabitação com espécies do mesmo sexo foi registrado em cerca de 1,5 mil animais – insetos, aves, crustáceos e mamíferos. 25% dos machos cisne-negro são gays. Eles procriam com a fêmea e, depois que ela bota os ovos, o casal cuida deles, e também dos filhotes. Por serem mais fortes, os casais de cisnes machos garantem os melhores territórios, dando aos filhotes maiores chances de sobrevivência. Um terço das fêmeas do albatroz se une como casais lésbicos para criar seus filhotes. Os cisnes negros e os albatrozes são apenas duas entre as 70 espécies de aves que formam casais do mesmo sexo. Esse tipo de união sexual é comum em dezenas de espécies de mamíferos, inclusive entre leões e elefantes. Algumas zebras só fazem sexo com parceiros do mesmo sexo.

Biólogos dizem que alguns animais são realmente gays, enquanto outros têm relações gays, mas não são homossexuais. Eles se relacionam homossexualmente por diferentes motivos: reforçar a hierarquia, pedido de desculpas, alianças, aprendizado sexual, para cuidar dos filhotes, por engano e por prazer. Por exemplo, entre as morsas os machos dominadores “comem” os dominados para deixar claro quem manda no pedaço. Os bisões-machos também usam o sexo homossexual como reforço do poder do líder da manada.


fevereiro 06, 2014

.................................... SAINT-EXUPÉRY no RIO GRANDE DO NORTE

jean cocteau

Só se vê bem com o coração,
o essencial é invisível aos olhos

(Le Petit Prince, 1943)



Entre 1929 e 1931, um fidalgo piloto da companhia aérea Latécoére (atual Air France), transportadora do correio aéreo Europa-Argentina, pousou algumas vezes no Rio Grande do Norte, reabastecendo a aeronave. Às vezes, cansado, passava dias. Ele se hospedava no palacete do português Manoel Duarte Machado, conhecendo num terreno do anfitrião o gigantesco baobá de Natal. Encantado com o pôr-do-sol do Rio Potengi, disse se tratar do mais belo do mundo. C'est merveilleuse!, completou o futuro escritor Antoine de Saint-Exupéry

Mais de uma década depois, em 1943, ele publicou “O Pequeno Príncipe / Le Petit Prince”, fábula apaixonante de várias gerações de leitores, traduzida em 120 línguas. Segundo livro mais lido de todos os tempos - vendeu cerca de 50 milhões de exemplares (o primeiro? “A Bíblia). Conta a história de um piloto de aviação que sofre um acidente, caindo no deserto. Encontra um garoto estranho que diz morar em um asteroide chamado B-612. Sua maior preocupação são os grandes baobás que poderão destruir o seu habitat. Para resolver o problema, ele viaja, trocando pensamentos com pessoas, animais e até uma rosa frívola, inspirada na esposa salvadorenha do autor, Consuelo, autora de “Memórias da Rosa”, narrando a vida apaixonada do casal. 

saint-exupéry
Na terra do sol, Saint-Exupéry conheceu jornalistas, escritores e intelectuais, muitos deles apresentados pelo popular colega piloto, Jean Mermoz (1901 - 1936), que convivia com a sociedade natalense e cortava o coração de muita gente com sua formosura. Nome de rua em Natal, Mermoz desapareceu no Oceano Atlântico, a caminho da capital potiguar. 

Nascido em Lyon, em 1900, família rica, Saint-Exupéry passou a infância em um castelo. Foi um dos pioneiros da aviação comercial e serviu ao exército francês como piloto de guerra na luta contra o nazismo, desaparecendo em voo secreto de reconhecimento entre Provence e o sul da Córsega, em 1944. A causa da sua morte permanece um enigma: ataque inimigo, falta de combustível ou suicídio?

Ele esteve na Guerra Civil de Espanha e, por engano, quase foi fuzilado pelos republicanos. Na II Guerra mundial, completou missões perigosas no Mediterrâneo, Saara e Andes, sofrendo acidentes, inclusive sérias fraturas cranianas. Como jornalista, trabalhou na Espanha, Rússia e Alemanha. Autor de obra curta, de sucesso imediato, celebrando a fraternidade e o humanismo, adaptada para o rádio, cinema e desenhos animados. Jean Renoir quase filmou “Terra dos Homens”. Em 1974, Stanley Donen fez a sofrível versão cinematográfica de “O Pequeno Príncipe”.

desenho de saint-exupéry

O prestígio do escritor se resume em cinco ou seis livros, entre eles, “Correio do Sul” (1929), combinando amor, voos e o deserto exótico; o denso “Voo da Noite” (1931); “Terra dos Homens” (Grande Prêmio de romance da Academia Francesa, 1939), falando da gradual metamorfose interior de um piloto; “Piloto de Guerra” (1942), uma meditação sobre o destino da humanidade em guerra, e “Carta a Um Refém” (1943). Um ano antes de morrer, escreveu o seu livro mais popular, “O Pequeno Príncipe”, muitas vezes confundido como apenas uma criação infantilObra profunda, enigmática e metafórica, é a realização suprema do seu autor, unindo e dando coerência ao seu trabalho. Um diálogo íntimo com o leitor. Postumamente, surgiriam “Cidadela” (inacabado), “Cartas à sua Mãe” (1910 - 44) e “Um Sentido para a Vida” (1956), coletânea de artigos e reportagens.

Em Natal, o escritor foi entrevistado pelo jornalista Nilo Pereira, do Diário de Natal, e fotografado pelo italiano Rocco Rosso, encarregado do setor de rádio e comunicação da LatécoéreAlguns moradores possuíam autógrafos do aviador, na época uma profissão considerada heroica e charmosa. Testemunhas se lembram das subidas de  Zé Perri - seu nome brasileiro -, na torre da matriz para apreciar a luz do sol sob a cidade, como alguém que vê sinais mágicos no crepúsculo. 

Aventureiro, escritor, piloto, viajante, desenhista e humanista são algumas das facetas de Saint-Exupéry. Fez sete mil horas de voo, patenteou dezenas de invenções para melhorar a qualidade dos aviões. Fotografou Natal e seus habitantes, expondo as imagens no Grupo Escolar local (atual Fundação José Augusto). Segundo o poeta potiguar Diogenes da Cunha Lima, expert na história do seu Estado, essas fotografias se perderam. Conhecido pelos mais íntimos como Saint-Ex, era amigo de Maurice Maeterlinck, André Maurois, André Breton e Greta Garbo. Nos 50 anos de sua morte, em 1994, sete biografias francesas retrataram sua vida, de piloto desastrado dado a quedas a herói extravagante. No seu centenário, em 2000, brilhou em documentários, revistas literárias, palestras e debates.

Não era um escritor ambicioso, parecendo-lhe suficiente ser piloto. Via a literatura como um hábito natural, fundamental mesmo era pilotar aeronaves. Extraordinário caso de escritor de sucesso em vida, na França existem restaurantes com o nome de seus romances e no Japão há um museu dedicado a ele. No Brasil, pode-se escutar “O Pequeno Príncipe” na voz de Paulo Autran e com trilha sonora de Tom Jobim. Sua influência nunca cessou. Figura entre os grandes escritores da literatura francesa, e sua obra capital continua seduzindo crianças e adultos, numa prosa que mistura memória, reflexões, fábula, filosofia, poesia, algum surrealismo e proposta ética. Não é menor o seu talento pictórico, e suas ilustrações provocam impacto.

Como os grandes escritores viajantes, de André Gide a Henri Michaux, Saint-Exupéry convida o leitor a viajar por sua escrita, traçando observações poéticas e uma experiência interior que se dilata. Ele mordeu as estrelas, surgindo no Rio Grande do Norte como um lampejo, um cometa. Sem dúvida, uma visita ilustre.
jean cocteau