junho 25, 2018

........................................... CRÔNICAS da FLORESTA NEGRA




Durante três meses, em 2005, viajei de trem e carona, sem pouso certo. Semanas na Alemanha, Itália e Áustria, principalmente na Floresta Negra germânica e na Toscana.

Escrevi o que vi, senti e imaginei, resultando no livro inédito CRÔNICAS da FLORESTA NEGRA. Terminei por perdê-lo. Esta semana encontrei uma cópia em uma velha pasta. Uma belíssima surpresa.

São seis crônicas, uma dezena de poemas e um único ensaio: “Investigação de um Poeta Acima de Qualquer Suspeita: Rilke no Castelo de Duíno”. Pretendo publicá-los neste blog .

Confira a primeira.

01 
RELÂMPAGOS RASGANDO a NOITE


Cada um de nós é vencido apenas pelo destino que não soube dominar. Não há derrota que não tenha um significado e não represente também uma culpa.
STEFAN ZWEIG
(Viena, Áustria. 1881 - 1942)

Ilustrações:
KARL SCHMIDT-ROTTLUFF
(Chemnitz, Alemanha. 1884 - 1976)


Nunca se deve lamentar o que passou, repito, convicto, ao atravessar a clareira no alto da montanha, sob um céu de chumbo iluminado subitamente por trovões, relâmpagos e raios. A pertinência de viver intensamente, sem nostalgia sofrida, exige técnica e persistência. Lúcido, desfruto os últimos dias na Floresta Negra. Diante dos olhos confusos, a inexistência, o desatino. Os repetidos rasgos de luz na noite esmagam a razão, abrindo insustentáveis precipícios n’alma. Diminuo os passos, acalmado pela chuva gélida, atento ao enigma. Trilho uma estrada úmida, salpicada por ramos espinhosos de framboesas maduras, em direção à selva de faias.

Na entrada da mata, em uma tenda, dois nórdicos grandalhões, saudáveis como lendários vikings, preparam o Tchai (chá de gengibre, cardamomo, canela, cravo-da-índia, anis e algumas ervas secretas), invocando sensações alegóricas e emanando um forte odor de madeira aromática. Aceito uma xícara de chá. Insone no diálogo interior voluptuoso, mergulho em uma inexplicável e secreta metamorfose. Cada vez mais fundo. Procuro manter-me firme, não me desviando o mínimo que seja do destino estabelecido, pois sei que neste instante sou capaz de rastejar feito um perigoso réptil ou voar como um ágil falcão.

Caminho entre árvores gigantescas, pisando em folhas mortas, ao encontro da barraca violeta camuflada no reino vegetal. A tempestade repentina vai-se. Catando galhos para a fogueira, recordo o menino que fui pernoitando em uma fazenda de cacau. As chamas emolduram a memória poética. Alma livre, nada me pertence. A vida além da imaginação. Não piso em terra firme. As palavras fogem para longe, mal são ditas se desconstroem. Chovem desejos infindáveis, desconhecidos, assustadores. Chove o amor imortal.

Distante da Bahia de Todos os Santos, na Floresta Negra, na terra dos Nibelungos, sul da Alemanha, florescendo no espírito de vales e montanhas de contos de fadas. Personifico um homem-lobo, um selvagem, o Knulp de Hermann Hesse. Nu, sem energia elétrica, água potável, televisão, celular, computador, automóvel e outros méritos fonte da indolência. Que alívio! Que triunfo de viver! À vista, somo pessoas de quase cinquenta países, percebendo uma Torre de Babel às avessas, pois parecem entender-se perfeitamente. Mais de duas mil figuras participam desta vivência comunitária com toque da Sherwood de Robin Hood.


Freaks, hippies, alternativos, malucos, artistas, religiosos, ativistas sociais e ambientais. Fugitivos do urbano injusto, do mercenário, fraternalmente em comunhão com a natureza. Repartimos o pão com desconhecidos, comendo juntos com singeleza. Em outros tempos, agrupamentos com conceitos parecidos foram acusados de heresia, perseguidos e massacrados. Entre eles, os Cátaros, da Irmandade do Livre Espírito, na Idade Média. Ouço essa história da boca do italiano Gabriele. Ele e sua esposa veneziana, Ada, estão numa barraca próxima. Costumamos compartilhar a fogueira, alimentos, leituras e conversas. Pouco antes de dormir, ele toca flauta, quase sempre Mozart.

Na noite passada, Gabriele me contou que esteve recentemente na Polinésia, no vale luxuriante da Ilha de Maui, entre dois vulcões. Inicialmente não sabia a que ponto essa viagem seria importante para ele. Lá conheceu Kahuna Alamea, xamã de poderes extraordinários, uma mulher pequenina, vestida de branco, que irradiva sabedoria, calor e uma bondade milagrosa. “Pode acreditar em mim, nunca mais conseguirei esquecê-la!”, disse-me, continuando: “Kahuna significa Guardiã dos Segredos”. Na sua partida percebeu o chamamento mágico ao receber dela um presente valioso: o Talismã da Chama Sagrada. “Você vê, meu prezado Gabriele, a Chama Sagrada é o Sétimo Raio dos Arcanjos. Ele repara os destinos em perigo”, ouviu de Kahuna.

Segurou o talismã com cuidado. No momento em que nele tocou, o rosto de Deus apareceu claramente. Um sorriso radiante de felicidade iluminou o seu rosto. Símbolos de sorte e de proteção circularam lentamente à sua volta. O Talismã da Chama Sagrada está ligado à Memória Astral, à Biblioteca do Céu, onde cada alma e cada acontecimento estão registrados. Não somente o passado e o presente de cada pessoa estão nela escritos, como cada pessoa pode nela encontrar as suas possibilidades futuras e os destinos possíveis.

Ele tem o poder de curar feridas secretas e de programar o destino. Corta as conexões nefastas, transformando as energias negativas em positivas, o Azar em Sorte, o Mal em Bem. Gabriele continuou falando no silêncio da noite. Ele acreditava no que dizia. Estava convencido. Sem curiosidade diferenciada, embora o caso fosse mágico e belamente narrado, decidi ir dormir. “Chegou o momento de uma virada no destino e passar à ofensiva!”, foi a última frase dele que ouvi. Ao acordar no amanhecer chuvoso a barraca do casal tinha desaparecido. Provavelmente nunca mais voltarei a ver os belos Gabriele e Ada, mas foi um encanto os dias e noites passados com eles. E a flauta faz falta.

O sistema organizacional da comunidade itinerante, nestes meses de gélido verão germânico, funciona através de colaboração voluntária, gente disposta revezando-se na tenda da cozinha, servindo refeições, lavando tachos, preparando fogueiras e ensinando o que sabe fazer melhor. Não se come carne, não se bebe álcool. O haxixe é tolerado. Fumo tabaco Golden Virginia e tomo café para combater o frio. Dezenas de circenses amadores animam a festa pagã: acrobatas, palhaços, saltimbancos, malabaristas, dançarinos, cuspidores de fogo, pernas-de-pau e contorcionistas. Na nervura dos troncos, na terra, no voo, borboletas, abelhas, caracóis, formigas, besouros, grilos, aranhas, joaninhas, lacraias e incontáveis insetos não identificados.


Pássaros inesperados. Flores-do-campo de diversas cores e tamanhos. Girassóis, roseiras silvestres, cardos. Paisagem de beleza exata, um deleite para os olhos. A harmonia local deita por terra ambições materiais, despertando ações solidárias. Justamente o que mais faz falta neste milênio tribal de fanatismo tatuado, valores ultrapassados, epidemias de depressão, corrupção e violência. Gozando o bem-estar, no doce sopro da noite, submeto-me a presságios. Acima de tudo, ao ser tocado pela cumplicidade dos invisíveis, a esperança renasce. Um ligeiro arrepio percorre-me. O que está para além da escuridão, da noite azulada absoluta?. Evitando reflexões obscuras, presto homenagem a joia do pensamento dócil escrevendo versos.

01
Estou sentado na mata com o caderno de apontamentos.
Anoitece sobre as vigilantes árvores
e brilha o mistério enquanto contemplo e escrevo  
À volta derrama-se a escuridão de sombras e nostalgia.
Percebo a partida e o regresso, a morte e a vida.
Dentro de mim borbulha o mais puro sortilégio!

02
Quando alguém vai, como eu, na aventura de viver
tudo é possível, paisagens tornam-se vigorosas
algo soterrado brota em estranha compulsão
algo libertado e mitológico viaja no oculto

03
Creio no homem solitário,
ao mesmo tempo homem e anti-homem.
É complexo acostumar-nos a nós mesmos.
É complexo desacostumar-nos de nós mesmos.

As chamas da fogueira acentuam o paraíso. Pedras, relva, folhas e troncos iluminados cintilam. De uma fresta na copa das árvores, surgem estrelas. A existência inquestionável, imutável. Guardarei na memória a dança das árvores ao vento. Movo-me em sossego, na maior discrição. Tudo conhecido, tudo inteiramente novo. Como um relâmpago rasgando a noite, comungo o sentimento de navegar ainda mais longe nas águas do simbólico. Em mim, distante da imaturidade, descubro plenitude modelada. Relaxo, deitando a carne desnuda no chão de terra batida, ao lado da fogueira, confiando no destino. O mais leve movimento faz-me perder a razão e sonhar. Uma lição para não esquecer.

Alemanha, 2005