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| Leonardo da Vinci |
Em “Terras do Sem Fim” (1942) e “Tocaia Grande” (1984), celebrados romances de Jorge Amado, encontramos a descrição desse processo de ocupação, da luta pela terra, da disputa acirrada. A partir desse clima de contendas e desconforto, em meio ao perigo, aos índios, animais selvagens e doenças, surgiu a personalidade mítica dos destemidos coronéis. Através deles e de milhares de humilhados ou massacrados, que não tiveram a mesma sorte, vilas e cidades nasceram para a glória da região dos frutos de ouro, como eram conhecidas as amêndoas do cacaueiro. Os coronéis transformaram esses lugares em palco para os seus mandos, fazendo-se obedecer, elegendo representantes políticos, usurpando propriedades, manipulando as autoridades e, quando tudo isso não saciava a cobiça, mandavam jagunços assassinar os pequenos cacauicultores em emboscadas, ou muitas vezes esses acossados acabavam trabalhando para os próprios perseguidores, e conseqüentemente perdiam as suas roças. Temidos, às vezes admirados, eram ativos participantes da vida social grapiúna (*), líderes legitimados pelo voto, quase sempre conquistado pela força do dinheiro, das armas e controle das instâncias públicas – a justiça, a polícia e a cobrança de impostos.
Eles não tinham limite de gastos: bebiam champanhe francês como aperitivo, perdiam fortunas na jogatina, freqüentavam cabarés, acendiam charutos com notas de quinhentos mil réis e bancavam luxuosamente prostitutas estrangeiras. Sinônimo de prosperidade, seus palacetes eram sobrados faustosos mobiliados com requinte europeu. Viviam no mais elevado estilo. Os trabalhadores, vindos dos sertões da Bahia e de Sergipe, mergulhados na exuberância da natureza, eram oprimidos de todas as formas: no salário que mal recebiam, nos preços extorsivos dos gêneros de primeira necessidade geralmente vendidos pelo próprio dono da fazenda, nas jornadas excessivas de trabalho e na ausência de serviços básicos, como educação e saúde.
A fama de Ilhéus e Itabuna correu mundo. Junto com ela chegaram imigrantes estrangeiros, principalmente turcos e libaneses, que sobreviviam como mascates, indo de fazenda em fazenda vendendo de tudo um pouco, e imprimindo a culinária árabe como uma das características da região cacaueira baiana. Os navios aportavam trazendo aventureiros em busca de riqueza fácil. Outros se deslocavam em animais ou mesmo em longas caminhadas, à procura do lucro certo e transformando a sociedade grapiúna em um misto de sotaques. No auge da lavoura do cacau, o sul da Bahia chegou a ser responsável por 40% da atividade financeira do Estado, num lucro inegável. Hoje, os coronéis, ex-deuses, são relíquias do passado e o cultivo do cacau passou da opulência à decadência. Porém, a saga dos plantadores de cacau dificilmente será esquecida, graças aos populares romances do itabunense Jorge Amado a aventura de uma pequena região se tornou conhecida em todo o Brasil e mundo afora, numa narrativa sedutora que relembra riquezas fundadas em episódios sangrentos, atentados e arruaças.
(*) Chame-se grapiúna aquele que nasce no sul da Bahia. A designação tem origem tupi, sendo corruptela de igarapé-una (igarapé, pequeno rio; una, preta) ou de igaraúna (igara, canoa; una, preta) com a queda da vogal e a contração das sílabas gara.


11 comentários:
Parabéns!!!! Nota 1000
Antonio,
Muito bom seu artigo.
Cyro de Mattos
Olá meu amigo querido!
Que belo texto! A revista também tá muito bacana. Parabéns!
Fico toda orgulhosa e derretida.
Posso publicar este artigo sobre os "coronéis" na edição de junho do Jornal do São Caetano? Tenho uma coluna "Projeto Memória" onde ele cairia muito bem. Aguardo contato.
Bjss no coração. Te amo! Vera
meu querido,
fico pensando nesses homens - metade deus, metade diabo - embrenhados na mata lutando como bárbaros para conseguir fortuna. fico pensando no sangue, deles e de outros, que deu cor à terra onde nasceram os frutos mais da discórdia do que da concórdia. mesmo bárbaros tiveram o seu valor porque, de certa forma, construíram cidades que recebemos de herança. lembro bem de tocais grande onde jorge nos conta a história do ponto de vista do peão, do pobre desgraçado, do jagunço por força da sorte. mas penso também que na história da humanidade há um repertório sem fim de eventos como esses narrados pela nossa região... então, amado, tudo o que acontece é tanto para o bem como para o mal. porém o mais importante de tudo é a volta que a vida dá em torno desses eventos, e nós todos dentro deles, evoluindo para construir novos mundos sem a bandeira do sangue. foi isso o que seu texto me deixou de reflexão.
se der pra vc publicar lá no s seus comentários, faça-o. eu sempre me atrapalho na hora de postar minhas opiniões.
bom texto, o seu. parabéns para o bem dos seus leitores.
Neuzamaria Kerner
www.neuzamariakerner.blogspot.com
Tens um jeito peculiar de escrever que eu aaaaaaaaaaadoro...!!! Abçs
Júnior vou colocar o artigo na edição do centenário de Itabuna do Jornal Agora. Um abraço.
Amigo
Você tem talento e uma inteligência excepcional.Muita destreza e perspicácia.
Interessante ler "CANTO DE AMOR E ÓDIO A ITABUNA" de Telmo Padilha. Reflexões, Artigos, Crônica e Entrevistas.
Beijos "de" coração.
Ana Amelia
Pois é, Neuzamaria, e nas nossas veias corre o sangue dessas criaturas desembestadas...
Estou a segui-lo e recomendando. Parabéns.
http://richard-widmarck.blogspot.com/2010/06/cinzas-e-diamantes-vamos-ler.html
Obrigado, caro Richard. Também não deixarei de visitar o seu blog.
Abraços,
É curioso que eu tomei conhecimento destes coronéis, através da célebre tele novela "Gabriela, Cravo e Canela", a primeira a ser apresentada na televisão portuguesa e teve um acolhimento absolutamente extraordinário.
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