maio 18, 2015

.................................................. SEBASTIÃO SALGADO: GÊNESIS


A primeira vez que entrevistei SEBASTIÃO SALGADO aconteceu em 1997, quando ele lançava em Lisboa o livro “Terra” (com prefácio de José Saramago e CD de Chico Buarque). 18 anos depois, voltei a encontrá-lo, desta vez em Paris - à beira do canal Saint-Martin -, na casa do fotógrafo que é também a sede da Amazonas Images, a agência que fundou em 1994 com a sua mulher, Lélia, depois de sair da Magnum. Foi uma longa e intimista entrevista ao vivo, cara-a-cara, publicada no potiguar Novo Jornal. O olhar descolorido sobre os contrastes sociais que marca a sua fotografia fez de sua trajetória, iniciada ainda nos anos 1970, um testemunho épico de flagrantes da luta do homem pela sobrevivência.

Entre 2004 e 2012, SEBASTIÃO SALGADO visitou cinco continentes, em mais de 30 viagens para regiões quase sempre inóspitas, como Sibéria, Galápagos e Papua Nova Guiné. Pela primeira vez, documentou, como frisa, “outros animais além do homem”. Retratou paisagens, fauna, flora e comunidades humanas que ainda vivem dentro de suas tradições ancestrais, imunes às transformações impostas pelo modo de vida contemporâneo. Resultou um GÊNESIS, em que ele deixa de lado os instantâneos de exclusão, miséria e opressão humana para revelar, com seu inconfundível registro em preto e branco, o que ainda se mantém quase intocado no planeta. A mudança do foco da desigualdade social para a natureza praticamente preservada que marca o projeto se deu em grande parte pelo envolvimento de fotógrafo com questões ecológicas. Em Minas Gerais, ele e a mulher mantêm desde 1998 o Instituto Terra, pelo qual desenvolvem um projeto ambiental no Vale do Rio Doce.

A exemplo de ensaios como “Trabalhadores” (1986-1992) e “Êxodos” (1994-1999), GÊNESIS é monumental. Além do livro e da exposição que tem rodado o mundo, ainda gerou um documentário, “Sal da Terra” (2014), assinado pelo cineasta alemão Wim Wenders e por Juliano Salgado, filho do fotógrafo, que concorreu ao Oscar de Melhor Documentário. Selecionei trechos de entrevistas (Zero Hora, Isto É, Guia Quatro Rodas, Carta Capital e minhas próprias entrevistas), onde SEBASTIÃO SALGADO explica seu novo projeto e sua visão de mundo. Confira.



“Nossa espécie é nova, mas tomou conta do planeta. Escravizamos as outras espécies. Se tivéssemos a capacidade de enxergar a vida como uma evolução de dezenas de milhares de anos, compreenderíamos a nossa origem e o nosso lugar, até concluir algo simples e importante: somos natureza.”



“Hoje somos extraterrestres no nosso próprio planeta, não conhecemos nada sobre pássaros e plantas. Não temos a noção de que somos apenas uma espécie no meio de milhares. As árvores, por exemplo, são as responsáveis em manter a água no solo e o oxigênio no ar. Mas a cada dia cortamos mais árvores e poluímos mais a água e o ar. Temos que voltar em direção à Terra.”



“Tinha acabado de lançar o Êxodos e estava profundamente deprimido, afundava no pessimismo. Vi coisas terríveis na África e na antiga Iugoslávia. Pensei então em um projeto para denunciar a destruição e a poluição das florestas.”



“A gente não está seguro da nossa sobrevivência. Hoje, com esse aquecimento global, com o extermínio de floresta e uma série de coisas que está acontecendo, uma série de vírus, de bactérias que nós não dominamos, o conjunto hiper-grande nas grandes cidades de uma espécie só está gerando uma série de desequilíbrios. É uma série de indicadores de que a coisa não está funcionando direito. Possivelmente estejamos em instância de sermos expulsos do planeta. O planeta está começando a se livrar da gente para ele viver em equilíbrio. Se a gente compreender isso e voltar a viver em comunhão com o planeta, você tem uma possibilidade grande de se reintegrar e viver.”



“É fabuloso. Uma vez em Galápagos, eu vi um albatroz voltando de viagem, porque eles viajam uma semana e voltam. Eles têm uma grande capacidade de se manter no ar. Mas são péssimos para aterrissar. Eles se embolam, saem cheio de poeira. E ele veio andando para a namorada dele. Uma cena maravilhosa! Ele vem dançando. Ela vai dançando. Eles se aproximam. Não se tocam, voltam atrás, roçam a beira da asa, voltam. Uma cerimônia que dura meia hora. Até que tem um momento em que eles tocam o bico. Mas quando tocaram o bico, ele se mandou de um lado, se escondeu e ela também. Aí eu perguntei ao guia o que ouve. “Ele acabou de descobrir que não era a namorada dele”. É muito fabuloso. E eles são fiéis a vida inteira. Ele descobriu que estava fazendo uma traição. Foi um drama! Tão fantástico.”



“Fisicamente foi muito duro. No norte da Etiópia, por exemplo, saímos de uma cidade chamada Lalibela com destino ao Parque Nacional de Simien. Em linha reta, são 850 quilômetros. Fizemos esse caminho a pé pelas montanhas, porque não tem estradas. No trajeto, passamos três vezes dos 4 mil metros de altitude. Essa viagem foi excepcional. Primeiro, porque eu já tinha 64 a 65 anos, e conseguir fazer um trajeto desses nesta idade é um desafio. Segundo, porque eu descobri coisas que nenhuma das pessoas que foram comigo sabiam.”



“Fotografia é minha forma de vida, o que eu penso, meu aparato de ideias, minha ideologia inclusa. Não faço para convencer ninguém, faço pelo que tenho prazer, pelo que me revolta, pelo desejo de ir a algum lugar, pela grande curiosidade. Tudo isso junto deu na minha fotografia. Não fotografo para mudar a ideia de ninguém. Se as pessoas tomaram minha fotografia como exemplo, referência que as influenciou o que posso fazer, entende? Mas não fiz nem faço nesse sentido, de fotografia como militância ou para mudar a cabeça das pessoas.”



“A fotografia, na realidade, é a memória da sociedade. São cortes representativos, são momentos que você faz da sociedade. É a verdadeira linguagem universal. A maneira de escrever cada um tem a sua, com uma vantagem para a fotografia. Ela não precisa de tradução. É realmente uma linguagem fabulosa.”



“Não sou rico, não tenho a quantidade de dinheiro necessária para viajar o ano inteiro como diletante. Durante oito anos passei dois meses em cada lugar, depois um mês editando. Acabei fazendo 32 reportagens para grandes revistas nesse período. Não é fácil. Minhas primeiras fotografias eram vendidas a US$ 100, US$ 150, hoje tenho imagens que valem US$ 100 mil. Mas isso não faz de mim um homem rico.”



“Me desloquei para uma região a uns 300 quilômetros em linha reta ao norte de Santarém, no Pará. Eles são isolados e fazem parte do grupo linguístico tupi-guarani, o que nos faz saber que são originários da costa brasileira. Foram andando para o meio da selva em um movimento que, calcula-se, levou uns 3 mil anos até chegarem onde estão hoje. Eles têm uma cultura riquíssima, e os homens e as mulheres são muito lindos.”



“A fotografia mudou muito, mas o objeto artístico, de alta qualidade, continua do mesmo jeito. A grande revolução do digital foi a destruição da fotografia de papel. Antigamente, a gente saía de férias com uma maquineta, na volta o fotógrafo do bairro copiava o filme, você colocava as fotos num álbum, chegava alguém na sua casa e você mostrava. Na festa de aniversário, todo mundo tirava foto. Passados uns anos, você olhava outra vez aquelas fotos e via seus meninos já rapazinhos. Era realmente a sua história, a sua memória. Hoje, com esse negócio de fotografar tudo com o telefone, as pessoas fotografam muito e não copiam para papel, não guardam. Acabam trocando de fone, perdendo as imagens. Hoje você não vive com a imagem, mas com a tomada dela, a emoção da hora, e não se volta muito a ela depois. Daqui a pouco, você tem milhares de fotos, e aquilo não te interessa mais. E fica por isso mesmo. Resultado: aquela memória fabulosa que a gente tinha com a fotografia acabou.”



“Eu passei mais de 40 anos fotografando aspectos sociais, imagens às vezes duras. Chegou uma hora que eu queria ver o planeta. Tive uma vontade muito grande de me aproximar da natureza e da ecologia em Gênesis. E tive de me organizar muito para fazer isso. Foram oito anos. Me ofereci o maior presente que uma pessoa pode se dar na vida.”



“Com dois anos de preparação, oito de fotografia e mais dois de pós-produção, passei grande parte da minha vida dentro desse projeto. Foram, em média, oito meses por ano viajando, naquele que talvez possa considerar o período mais rico da minha carreira. Gênesis fecha um ciclo com os projetos que fiz antes, sobre as guerras na África, trabalhadores e refugiados. Agora, tive a chance de conhecer locais fabulosos e aprender a respeito da minha relação com o planeta e com outros seres humanos. Convivi com grupos que representam o que fomos 10 mil anos atrás. Fui bem recebido. O homem é um ser gregário por natureza. Minha impressão é que a agressividade surgiu depois de certa organização espacial.”



“Possivelmente sou um dos fotógrafos que mais trabalhou em fotos sociais no mundo e acho que não poderia ter feito outra coisa melhor. Mas há uma década fiz uma pesquisa e descobri que praticamente metade do planeta estava como no dia da Criação. Isso é espantoso se pensarmos no formigueiro humano que se tornaram as grandes cidades. Então me coloquei como desafio fotografar esses lugares. Momentos desse trabalho compõem Gênesis”.



“Quando você passa um tempo com as pessoas e elas compreendem o seu trabalho, que você deseja mostrar a dignidade, a personalidade delas, a maneira como vivem, elas têm orgulho de participar. Os nenets, do norte da Sibéria, por exemplo. Eles montam e desmontam suas casas todos os dias. À noite a gente comia junto, discutia junto questões cotidianas. Se eles matam uma rena, também tomam o sangue, e sempre aparece alguém com uma garrafa de vodca. É como uma família. Aprendi com eles algo que nós perdemos na nossa sociedade: o conceito de essencial. Temos uma quantidade enorme de coisas. Compramos, acumulamos e não usamos. Se você der aos nenets um presente que eles não possam transportar no trenó, eles não aceitam. Eles possuem apenas o necessário para subsistir em uma condição climática extrema e são tão felizes quanto uma pessoa que vive em um grande apartamento em São Paulo.”



“No início da história escrita da humanidade, na antiga civilização egípcia, pessoas já habitavam a Floresta Amazônica. Temos a obrigação de conhecer e proteger esse legado cultural e ambiental.”



“Concebi esse trabalho como uma homenagem ao planeta. Decidimos identificar as partes puras do planeta, no sentido de ajudar a preservá-las.”



“Uma viagem maravilhosa. É quase uma fotografia antropológica. Posso dizer que tem horas que faço uma viagem no tempo, no Velho Testamento. Você vai vendo as diferenças no que diz respeito aos humanos, aos outros animais. Comecei o Gênesis nas Ilhas Galápagos porque li um pouco a Teoria da Evolução das Espécies, do Charles Darwin. Fui para lá para tentar compreender o que ele compreendeu. Eu ia de barco de ilha em ilha. As tartarugas galápagos evoluíram de maneira diferente de uma ilha para outra. Para mim foi uma escola fabulosa.”



“Para eu fazer uma foto direitinho, para eu poder fotografar o animal de perto, tenho que ter uma aproximação. Ele tem que me autorizar a entrar no território dele. Tive de encontrar uma forma para poder fotografar as tartarugas, e a única forma foi me colando de joelhos, na altura dela. Ela veio se aproximando de mim e eu comecei a andar devagarinho para trás. Ela compreendeu que eu estava respeitando o território dela. A partir daí ela veio direto, se aproximou, começou a me olhar. Eu respeitei a distância, a dignidade e pude trabalhar sem problemas. Quando isso acontece, você começa a ver que contaram uma mentira imensa, que nós somos o único animal racional. Todos são racionais dentro da racionalidade deles. E você descobre que está num planeta integrado, autodependente. E nós, como animal que dominou, não vemos, não respeitamos. Nós destruímos o habitat, dominamos, executamos. A nossa urbanização é uma expulsão.”




“Ecologia nunca foi política e nunca foi considerada dentro do orçamento de nada, de ninguém. A mata foi um lugar do qual as pessoas aprenderam a ter medo. Até pouquíssimos anos, desenvolvimento e progresso era destruir a floresta.”



“Na realidade, eu tenho uma oportunidade de frequentar cortes representativos de sociedades que estão em várias idades. Eu estava trabalhando com um grupo em Sumatra, e também os bushmen no Botswana, que é um grupo de caçadores e coletores que vivem exatamente como viveram há cinco mil anos. Eles vivem da caça, não conseguem plantar nada. Para eles, o conceito de agricultura não existe. Eles extraem da natureza o que a natureza dá para eles. Eles vivem no Deserto de Kalahari e são capazes de tirar raízes que dão água suficiente para um grupo de oito a dez pessoas beberem durante um dia. Eles conhecem o que pode comer ou não, como a cobra pica. Eles conhecem a natureza como a linha da mão deles. Eles ainda têm uma varinha que com três ou cinco segundos eles preparam o fogo. Andar com eles em janeiro, na época de chuva mostra que eles fazem um abrigo em poucos minutos antes da chuva cair.”



“O grupo do Sumatra tem um conceito de religião que já esta nas coisas. Você tem um deus na natureza que você tem que honrar. Por exemplo, eu queria caçar macacos com eles. Eles disseram que para eu poder ir eles tinham de pedir autorização aos deuses. Mas quais deuses? Deuses da plantas, do vento… Eles têm que caçar um porco do mato numa cerimônia, que, na realidade, é uma captura. Eles trazem o porco do mato e sacrificam. E eles pegam uma parte perto do intestino do porco e colocam contra o sol e leem se eu posso caçar com ele ou não. Ali que a natureza vai dizer. E para eles não tem um deus que vive no firmamento. É o vento, as árvores… Mas tem um deus.”



“Eu tenho um iPod de 60 gigas que tem mais ou menos uns 800 CDs completos. Levo tudo. Onde eu viajo levo minhas músicas. Ouço música brasileira. Adoro música clássica. Todos os países que vou eu procuro as músicas interessantes. Leio muito, principalmente porque estou muito dentro de avião. Em relação ao cinema, eu vejo também. Eu tenho um filho, que faz cinema. Tenho outro filho, o Rodrigo, que tem Síndrome de Down, que é pintor. Estamos ligados ao mundo da imagem. E a Lélia é uma das melhores diretoras artísticas que conheço. Ela tem capacidade visual e gosto fino. Estamos dentro do movimento da imagem.  A imagem é nossa vida.”



“As duas únicas linguagens que não necessitam de tradução são a fotografia e a música. E a fotografia é, possivelmente, a linguagem mais acessível e universal que possa existir.”


A exposição GÊNESIS divide-se em cinco núcleos geográficos

PLANETA SUL

Da Antártica e da Patagônia, há paisagens de geleiras e animais como pinguins, leões-marinhos e baleias. Outras fotos mostram a fauna e a flora das Ilhas Malvinas (Argentina), das Ilhas Diego Ramírez (Chile) e das Ilhas Sandwich (território britânico, pertencente às ilhas da Geórgia do Sul).

SANTUÁRIOS

Inclui paisagens vulcânicas e a fauna do arquipélago Galápagos (Equador), além de povos isolados e da vida selvagem na Nova Guiné, na Guiné Oeste, em Sumatra (ilha da Indonésia) e na ilha de Madagascar.

ÁFRICA

Nos desertos da Namíbia e do Saara, revela uma série de lugares pouco visitados. Da vida selvagem, há os gorilas encontrados nas fronteiras de Ruanda, Congo e Uganda. Entre as tribos, estão os Himba da Namíbia, os Dinkas do Sudão e os Omo Sul da Etiópia, além de povos do Deserto Kalahari, em Botswana, e de ancestrais comunidades do norte da Etiópia.

TERRAS DO NORTE

Apresenta paisagens raras do Alasca, do Colorado (EUA) e do Parque e Reserva Nacional Kluane (Canadá). Há também cenas do extremo norte da Rússia, incluindo o local de reprodução do urso polar, na Ilha Wrangel, e a península de Kamchatka, na ponta mais oriental do país. O núcleo ainda mostra a população indígena Nenet do norte da Sibéria

AMAZÔNIA E PANTANAL

Na Floresta Amazônica, flagra povos indígenas como os Zo’e do Pará, que até os anos 1980 estavam isolados. Na Venezuela, apresenta o Tepui, as formações geológicas consideradas as mais antigas da Terra. E do Pantanal apresenta a vida selvagem.


SEBASTIÃO SALGADO

Nasceu em 1944 em Aimorés, Minas Gerais. Estudou Economia na Universidade Federal do Espírito Santo e tornou-se um dos maiores fotojornalistas do mundo, tendo seus trabalhos “Êxodos” e o atual Gênesiscomo referência fundamental na fotografia. Também trabalhou nas principais agências de fotografia do mundo, a Magnum e a Gamma. Em 1981, ganhou fama mundial após ser o único fotógrafo a registrar a tentativa de assassinato do então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan. Em Paris, mantém a agência Amazonas Images, pela qual percorre diversos cantos do mundo em trabalhos que investigam a relação do homem com o trabalho e a natureza e povos em diferentes níveis de sociedade.

ANTONIO NAHUD entrevista SEBASTIÃO SALGADO

(Novo Jornal, RN, 2015)