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junho 29, 2017

............................................... MADRID – a CIDADE dos PECADOS



 
!Madrid, Madrid; qué bien tu nombre suena,
rompeolas de todas las Españas!
La tierra se desgarra, el cielo truena,
tú sonríes con plomo en las entrañas
ANTONIO MACHADO
(1875 - 1939. Sevilha / Espanha)

Fotografias:
ANTONIO NAHUD e anônimos


A capital espanhola me conquistou. Ruas bonitas, prédios históricos bem conservados e povo receptivo. Sem falar no expressivo Palácio Real, nas praças, restaurantes, mercados e cafés. Morei dois anos nela sem me acostumar ao verão extremamente quente, tampouco ao inverno cinza e gelado, mas me rendi aos seus encantos. Sempre que posso volto para rever a bela cidade de ruas arborizadas, parques e jardins fascinantes. MADRID foi minha porta de entrada na Europa, em 1994. Vivendo nela, adorava comer tapas - deliciosos e variados petiscos de jámon (presunto), atum e tomate ralado, batatas bravas, tortilla, lulas, camarão etc.-, passar tardes no labiríntico parque Del Retiro, frequentar a Cinemateca Madrilena e o Museo del Prado. Noites de farra em Chueca, ex-paraíso dos bêbados e drogados transformado em animado bairro LGBTs. Nele encontrei um grande amor: um jovem rico e sedutor consumido pelos excessos. Vivemos juntos algum tempo. Chueca esta semana recebe a Parada do Orgulho Gay Internacional, a World Pride 2017. “Sou a prefeita da maior cidade do Orgulho”, disse ano passado a prefeita Manuela Carmena ao público na Praça Colón.

eu vivi em madrid de 1994 a 1996
O coração da cena gay (el ambiente) é uma praça acanhada, escondida num quarteirão. Ela abriga bares e serviços especializados quase que exclusivamente para uma comunidade homossexual dinâmica. Inúmeros bares, discotecas, cafés, hotéis, saunas, agências de viagem, livrarias. Este reduto, antes decadente, transformou-se numa zona fashion e vibrante. Entretanto, MADRID não é somente a ferveção de Chueca, possui majestosos monumentos e museus sensacionais, além de ser uma das cidades mais alegres da Europa. Costuma-se dizer que é a “Capital dos Pecados”. Os madrilenhos sabem viver. Comem bem, bebem bem, fazem sexo bem, aproveitam bares e boates, dormem à tarde... A cidade para das 14 às 17 horas para a siesta. Os espanhóis amam festas, e caem na loucura sem freios em uma vida noturna de diferentes estágios. No começo da noite, entre 18h e meia-noite, adolescentes ocupam as ruas. A maioria se reúne em parques e praças para o botellón, litros de vinho tinto misturados com coca-cola, resultando no calimocho. A bebida causa incontáveis ressacas.

basílica de san francisco
Por volta das 23h, o público maduro deixa os restaurantes e procura os bares, que cobram entrada e tocam pop-rock espanhol e internacional, ideal para a clientela calibrada. Os bares fecham por volta das 3h, exatamente o horário em que as discotecas começam a lotar. Aliás, discoteca não carrega nenhuma conotação pejorativa, enquanto club normalmente se refere a prostíbulo. Fundada pelos mouros por volta de 860, durante o reinado de Mohammed I, quinto emir de Córdoba, MADRID deve o seu nome ao árabe Mayrit er Magerit, significando “local de muitas fontes”. Após a ditadura do General Franco (1892 - 1975), de 1936 a 1973, ela se desenvolveu extraordinariamente. A inquietação de cineastas, músicos e escritores trouxe novos ares. Esta renovação fez com que a cidade consolidasse a sua posição próspera no que diz respeito à economia, indústria, cultura, educação e tecnologia na Península Ibérica.


Em 11 de Março de 2004 sofreu uma série de atentados terroristas com mochilas-bomba colocadas em quatro comboios, levando a vida de 191 pessoas e deixando mais de 1900 feridas. Eu estava em MADRID nesta época, passava alguns dias com o compromisso de entrevistar atores espanhóis, e me recordo da comoção, do transe geral. Assustador. Na minha trajetória, algo semelhante à morte de Lady Diana de Gales (1961 - 1997), justamente na mesma semana em que estive em Londres pela primeira vez. Por todos os cantos a sua arquitetura revela a elegância que consagrou o império espanhol ao longo dos séculos. Edifícios esplendorosos, praças e monumentos exuberantes dividem espaço com uma cidade moderna, que pode ser percorrida quase que totalmente de metrô. À noite é ainda mais especial. A iluminação é deslumbrante. Três dos melhores museus de arte do mundo estão em MADRID: Prado, Thyssen e Reina Sofia, garantindo um padrão de excelência em arte. Eles podem ser encontrados ao longo do Paseo del Prado, em uma zona conhecida como “Triângulo Artístico”. Esse trio formidável fez da capital um dos paraísos mundiais da arte.

Maior cidade da Espanha, além de ser muito acolhedora, MADRID tem muitos lugares para visitar, sendo rica em arte e história. Ah, Plaza Mayor, Puerta del Sol, Fuente de las Cibeles, monastério El Escorial e impressionantes registros pictóricos de Diego Velásquez, El Greco e Goya. Como esquecê-la? Jamais. Fui amado, aprendi muito, escrevi um livro de contos em sua homenagem, “Retratos em Preto e Branco - Contos Góticos de Madrid” (1996) e falo bastante nela em “Se Um Viajante numa Espanha de Lorca” (2005). Ah, síntese entre modernidade e história, mosaico complexo de povos e culturas, refletindo encantadora diversidade. Com seu charme singular, ela encanta e nos acolhe. Uma cidade para ver, sentir e se apaixonar… para descobrir e redescobrir. Não me cansaria de caminhar e caminhar e caminhar e me perder tantas quantas forem as vezes até conseguir sair do Parque del Retiro, sentar em frente ao Palácio de Cristal e tão somente apreciar a paisagem e tomar notas líricas. Estou sempre louco pra voltar. Amo esta cidade em que estive mais uma vez este mês de junho. Mais uma vez derramado de emoções.

el angel caído, escultura de ricardo beliver,
1877, no parque del retiro

10 TESOUROS de MADRID

01
PARQUE del RETIRO

Um antigo retiro de lazer da Corte para passeios de barco e descanso ao ar livre. Foi criado entre 1630 e 1640 e tem uma área de 118 hectares. Os jardins foram concebidos pelo florentino Cosme Lotti (1571 - 1643).

02
PUERTA del SOL

Neste local que se encontra o quilômetro zero das estradas espanholas, e também o relógio que faz tradicionalmente a contagem decrescente para a entrada do novo ano em 31 de dezembro com a multidão comendo 12 uvas para ter boa sorte. É a praça mais popular de Madrid. O movimento é bem grande, chegando a ser até um pouco caótico. Destaque para a estátua do Urso e da árvore de blueberry – símbolo da capital.

03
MUSEO la REINA SOFIA

Museu nacional de arte do século XX. Coleções de Pablo Picasso, Joan Mirò e Salvador Dalí. Sua obra mais conhecida, “Guernica”, um painel pintado por Picasso em 1937. Tem biblioteca especializada em arte.

04
PALÁCIO REAL

A residência oficial do família real. Com uma área de 135 000 km² e 4318 quartos, é o maior palácio real na Europa. Foi construído no mesmo local onde se encontrava um outro palácio, denominado de Real Alcázar de Madrid, destruído por um incêndio que durou três dias, no ano de 1734. As obras começaram a 6 de abril de 1738, quando se lançou a primeira pedra. O seu arquiteto foi Giovanni Battista Sacchetti. O interior do edifício destaca-se pela sua riqueza, tanto pelo uso de todo o tipo de materiais nobres como por estar ricamente decorado por artistas como Goya, Velázquez, El Greco, Rubens, Tiepolo e Caravaggio.

05
PLAZA MAYOR

Próxima à Puerta del Sol, no centro comercial. Construída em 1619, foi palco de execuções e torturas. Impactante, destaca-se como um dos símbolos da cidade. Existem ao todo nove entradas para ela.

06
PALÁCIO de CRISTAL

O edifício tem data de 1887 e em conjunto com o lago artificial, torna o local belíssimo. Exibe obras de arte contemporâneas. Trata-se de uma estufa com finalidade de cultivo ou manutenção de plantas exóticas. Inicialmente albergou uma exposição de plantas da flora argentina.

07
MUSEO del PRADO

O mais importante museu da Espanha e um dos mais importantes do mundo. Apresenta preciosas obras de arte e foi mandado construir por Carlos III (1716 - 1788), tendo sido inaugurado somente no reinado de Fernando VII (1784 - 1833), em 1819. Destaque para os cerca de quinhentos desenhos de Goya. Duas salas, no segundo andar, mostram rotativamente, por razões de conservação, esta importante e rica coleção.

08
CATEDRAL de ALMUDENA

Localizada no centro, possui quase 102 metros de comprimento e 73 de altura e, junto ao Palácio Real, forma um conjunto arquitetônico impressionante. Consagrada por João Paulo II numa das suas visitas à Espanha, sendo a primeira catedral abençoada pelo papa fora de Roma. Sua construção foi iniciada em 1883.

09
GRAN VIA e PLAZA de ESPAÑA

Uma das mais importantes praças de Madrid, de onde parte a Gran Via, principal artéria da cidade. Contém um conjunto de esculturas do famoso personagem Dom Quixote, em homenagem ao escritor Miguel de Cervantes. Super movimentada dia e noite, a inquieta Gran Via tem lojas, bares e teatros.

10
FONTE de CIBELES

Rotatória que divide o centro e os bairros Retiro e Salamanca. Nela se encontra a emblemática Fonte de Cibeles. Este monumento foi construído no século XVIII e foi baseado num desenho de Ventura Rodriguez de 1782, sobre a deusa Cibeles (deusa grega da fertilidade). Ao redor existem quatro prédios simbólicos: Palácio de Buenavista, Palácio de Linares, Banco de Espanha e Palácio das Comunicações. 

GALERIA de FOTOS


eu em madrid, 2004

março 10, 2016

................ O ENGENHOSO FIDALGO D. QUIXOTE de LA MANCHA

 

 
Ilustrações: 
GUSTAVE DORÈ, OCTAVIO OCAMPO
 e SALVADOR DALÍ

publicado na revista “beco das palavras”
 
 
Em janeiro de 1605 apareceu a primeira edição de EL INGENIOSO HIDALGO DON QUIJOTE de la MANCHA, idealizado por um maduro e sofrido espanhol. De imediato se transformou num êxito de vendas em vários países. O autor, MIGUEL de CERVANTES SAAVEDRA (1547-1616. Alcalá de Henares / Espanha), sem educação formal, dramaturgo sem fortuna, pouco antes trabalhava como cobrador de impostos nas aldeias, montado num asno, e ao mesmo tempo escrevia poemas, novelas e peças teatrais. A falência do banco de Simón Freire de Lima, onde depositadora parte do arrecadado, conduziu-o a infortúnios que abalou sua reputação e o levou ao confinamento presidiário. Não era novato em prisões, durante cinco anos foi prisioneiro de corsários e um dos dois mil escravos do harém masculino do rei da Argélia. Sem imaginar a significância que a sua obra adquiriria na literatura universal, CERVANTES escreveu a primeira parte das andanças de Alonso Quijano, um fidalgo de uns 50 anos que perdeu o juízo de tanto ler novelas de cavalaria (muitos populares na época), numa prisão de Sevilha. Meses antes de morrer, famoso, finalizou a saga do “covarde-heroico”.

miguel de cervantes
Não é uma obra fácil de classificar. DOM QUIXOTE tem diversos traços barrocos – como a preocupação com o ponto de vista, o rebusco deliberadamente excessivo de linguagem e o tropo recorrente do engano, dos erros que ameaçam nossas tentativas de ver e, especialmente, interpretar o mundo. Para Michel Foucault, o Quixote dramatiza a própria transição entre a episteme renascentista e a clássica. O foco desta dramatização é o próprio Quixote, um personagem que vê o mundo inteiro através de uma lente de similitude – tudo se reduz e retorna à realidade dos romances de cavalaria.

Uma VIDA sem SOSSÊGO

A existência errante, numa história de privações, levou CERVANTES à batalha de Lepanto, planejada para dar um golpe mortal nos turcos e onde o escritor terminou por inutilizar a mão esquerda para sempre. Não se sabe o dia exato do seu nascimento, nem a cidade onde nasceu (sabe-se da província, Alcalá de Henares), tampouco onde foi enterrado. Nos últimos anos de vida escreveu sem parar, em verso e prosa, cada vez mais original e vitalista, com popularidade crescente: manuais de crítica literária, dramaturgia cômica, novelas. Além de excelentes prólogos. É a época de “Novelas Exemplares” (1613), “El Viaje al Parnaso” (1614), “Ocho Comedias y Ocho Estremeces Nuevos” (1615), “Los Trabajos de Persiles” (1616), “Segismunda” (1616).

Nascido numa família mergulhada na penúria, MIGUEL de CERVANTES peregrinou em várias cidades em busca de melhores condições de vida, influenciando sua produção literária. Aos 21 anos, em Madri, estudou retórica e arte poética por um breve tempo, fez versos e ensinou letras para crianças. Ao participar de um duelo, ferindo o oponente, procurou evitar a prisão e o corte da mão direita, severa pena estabelecida pela justiça real, fugindo para Roma. Servindo, cerca de um ano, ao cardeal Giulio Acquaviva, visitou Milão, Florença, Palermo, Veneza, Parma, Ferrara. A Itália renascentista em vigorosa abolição artística, destacando escritores e pintores, influenciou a criação do escritor. Alistando-se como voluntário no exército, na expedição Liga Santa, novamente é ferido numa sanguinária batalha de afirmação imperial que dizem ter vitimado 30 mil soldados numa só manhã. Passou seis meses se recuperando, conhecendo a italiana Silena, em Nápoles, futura mãe do seu filho Promontório. Nada mais se sabe desse relacionamento. O silencio de CERVANTES em relação à sua vida afetiva é quase total.

PRISÕES e COBRANÇAS

Saudoso da Espanha, retorna. Na travessia marítima, seu barco é capturado pelos turcos, tornando-se prisioneiro durante cinco anos com infrutíferas tentativas de fuga. A duras penas, a família paga o resgate de 500 escudos de ouro, um alto preço, e CERVANTES volta a Madri. Nos meses seguintes, tenta trabalho em Lisboa e nas Índias, mas nada consegue. Em 1583, conhecido como homem de letras, autor de “La Galatea” e obras teatrais aplaudidas (“Los Tratos de Argel”, “La Destrucción de Numancia” etc.), engravida Ana de Villafranca, casada. Estigmatizado, abandona a corte moralista.

Em Esquivias, num pequeno povoado, casa-se com uma garota de menos de 20 anos, Catalina de Salazar y Palacios, de certa nobreza de sangue. Desta união, nascem vários filhos. Atormentado psicologicamente, deixa a família para trabalhar na Andaluzia como coletor de azeite e cereal para a Armada Real. Durante muitos anos ocupa esse ofício ingrato, levando-o a conflitos constantes com a igreja e os camponeses. O seu próximo trabalho, cobrando tributos na província de Granada, não o livra de uma pobreza cada vez mais agravada. Como disse, termina na prisão e, assim, inicia a escrita da obra-prima DOM QUIXOTE, finalizada em 1615 com 126 capítulos e quase mil páginas, dezoito anos passados.

CANTO à LIBERDADE

Havia uma grande rivalidade entre CERVANTES e Lope de Vega. Foram amigos por certo tempo, antes que a vaidade e a inveja os separassem. Os eruditos consideram, inclusive, que o prólogo de DOM QUIXOTE, carregado de sonetos, goza do famoso esnobismo de Lopes. Cervantes inventou o romance moderno com aventuras que divertem e fazem pensar. Ítalo Calvino, escritor italiano, disse que o protagonista-título lutando contra moinhos de vento é tão memorável que é mencionado mesmo por quem não leu o livro.


O peruano Mario Vargas Llosa, em “Uma Novela para o Século XXI”, enxerga a ficção como tema central da obra de Cervantes, em razão das fantasias literárias. Lembra, também, que é um canto à liberdade, como confirma Quixote ao dizer “La libertad, Sancho, es uno de los más preciosos dones que a los hombres dieron los cielos; com ella no pueden igualarse los tesoros que incierra la tierra ni el mar encubre.”

DOM QUIXOTE: MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS

CERVANTES é a alma da Espanha. William Faulkner lia DOM QUIXOTE a cada ano. Especialistas em literatura aconselham que é preciso lê-lo pelo menos três vezes antes de morrer. Obra magistral, considerada a mais perfeita em língua espanhola e um dos trabalhos literários mais aclamados de todos os tempos, relata a trajetória errante de um cavaleiro e seu fiel escudeiro, Sancho Panza. O acerto ao criar um personagem cuja demência consiste em desfazer ofensas e amparar debilitados, implica numa ânsia eterna e desesperada por justiça. Sancho homenageia as pessoas simples, muitas vezes mais sábias e sensatas que os próprios patrões.

o filme de g. w. pabst
Juntos, com maior ou menor proveito, Dom Quixote, montado no cavalo Rocinante, e Sancho cruzaram os séculos, através da paisagem ibérica, em especial a região de Castilha e La Mancha, chegando a Zaragoza e Barcelona, vendo o mar pela primeira vez. Das páginas do livro clássico passaram para espetáculos teatrais, dança, circo, ilustrações, pinturas, quadrinhos, animação e cinema. Nem sempre tiveram sorte. O cinema, por exemplo, nunca fez uma versão digna do livro. Em 1933, Georg Wilhelm Pabst rodou sua adaptação protagonizada por Feodor Chaliapin Sr., do teatro russo. Outros célebres atores repetiram o feito: Peter O’Toole, Fernando Fernán-Gómez, Fernando Rey, Jean Rochefort.

A bufonesca disparidade da dupla foi melhor recompensada nas artes plásticas. Eles foram uma tentação inspiradora para desenhistas, escultores e pintores, desde a publicação até os dias de hoje. A fecundidade desta aliança foi captada por monstros sagrados como Goya, Delacroix, Corot, Gustae Doré, Pablo Picasso, Salvador Dalí, Daumier ou Pollock, entre dezenas de outros.

Em 2002, 100 conceituados escritores de 54 países escolheram DOM QUIXOTE como o melhor livro de todos os tempos. Segundo a Unesco, depois da Bíblia, é a obra mais lida mundialmente. Uma assombrosa unanimidade une milhares de leitores. Como poucos livros, ele nunca deixou de ser lido, citado, admirado, respeitado e interpretado de diversas formas, renascendo ano após ano no imenso mar que são os sentimentos, curiosidades, vontades e frustrações humanas presentes no seu enredo.
                                                                   

Publicado no jornal A Tarde Cultural


janeiro 08, 2015

............................... MIGUEL RIO BRANCO: no ESPÍRITO da COR


 
 
 
Claude Lévi-Strauss diz que o odor e a audição são os sentidos mais próximos da alma. As fotos de MIGUEL RIO BRANCO concedem à visão a mesma proximidade e imediatismo que deveriam ser privilégios dos sons e das fragrâncias. Suas imagens exalam, secretam, inebriam, exsudam, tresandam – de maneira instantânea e fulminante. São palpáveis e degustáveis. Sua sensualidade é visceral, ardente, desconcertante. Daí a pertinência de sua citação do antropólogo: “Antes de mais nada, penso no Brasil como um perfume queimado.” A fotografia brasileira tem dois grandes coloristas: Miguel Rio Branco e Walter Firmo. Firmo é lírico, Miguel Rio Branco é trágico. Firmo é impressionista, Miguel Rio Branco é expressionista. Firmo tem a jovialidade do chorinho. MIGUEL RIO BRANCO, o dilaceramento e a pungência estridente do tango – mas com urucum e tintura de pau-brasil na veia. Eis o que diz Sebastião Salgado sobre ele: “Capta a umidade das cores tropicais do Brasil, a fera luz que transfigura rosas, verdes e azuis. Ele entra no espírito da cor, penetrando seu âmago como nenhum outro fotógrafo de hoje que trabalha com a cor. Talvez se beneficie do fato de ser também artista plástico e cineasta: usa a cor como um pintor e a luz como quem faz cinema.”


Suas fotos evocam Goya e Francis Bacon. Personagens em carne viva, pesadelos grotescos, penumbras espanholas. Uma geografia física e humana que se endente de Sevilha, Paris, Bilbao a Salvador, Rio, Marabá, passando por Havana e a Nova Iorque dos chicanos e dos mendigos do Bowery. Ele trabalha muito com marginais. Suas naturezas mortas são também marginais: tatuagens, cicatrizes, mutilações, inscrições pungentes, ladrilhos rachados, paredes violetas, remendos, couros furados. MIGUEL RIO BRANCO é a luz de seu país sofrido, com iemanjás nas prateleiras. Suas fotos tendem às vezes à abstração e lembram a aniagem de Burri, as garrafas de Morandi, os violetas exaltados de Yves Klein, as prisões sombrias de Piranesi e a arte bruta de Dubuffet. Sua passagem por um matadouro nos remete a Rembrandt e a Soutine.


“Entre os Olhos o Deserto” (1997), uma de suas instalações, foi feita com três projeções nas quais mais de 400 imagens se sucedem. A variedade de tempos e a combinação de imagens criam um ritmo hipnótico, acentuado por fusões e sobreposições. Realizada em 1996, no “In-Site”, uma exposição bienal que ocorria na fronteira entre México e Estados Unidos, a obra trata da aproximação de dois gêneros clássicos da fotografia: o retrato e a paisagem. De um lado, retratos de olhos, de outro, registros do deserto e da fronteira, cenas urbanas e de ruínas, todos locais carregados de nostalgia. A trilha sonora combina canções populares norte-americanas com a música “Gymnopédie n.1”, de Erik Satie (1866 - 1925). Em instalações criadas na década de 1990, exibe projeções fotográficas juntamente com recortes de jornais, cacos de espelhos ou retalhos de tecido. O espectador percorre assim um mundo em fragmentos, composto por imagens dramáticas. Utilizando recursos como transparências, justaposições, cortes e colagens, MIGUEL RIO BRANCO cria situações de continuidade e descontinuidade. Para alguns críticos, sua produção situa-se no limite entre arte, fotografia e cinema.


O escritor João Antônio, que trabalhou com ele na série dedicada à Academia de Boxe Santa Rosa, na Lapa, disse: “Suas fotos não são populistas. São cruéis, mas equilibradas por uma autêntica candura.” E no ensaio de David Levi Strauss, que abre um de seus livros, a propósito da sua poesia trágica: “Ela se concentra em dois pontos essenciais – a coragem e a inelutabilidade da derrota. Isso é representado pelas imagens, mais do que ilustrado por elas.” Essas imagens são originais, inéditas, nunca dão a sensação de déjà vu. A obra de MIGUEL RIO BRANCO provoca sensações fortes de erotismo, dor, desolação, isolamento, perda, nostalgia, saudade, ardência, mas sem usar adjetivos visuais. Ele é um poeta das coisas cabralinas, das texturas – da pele morena e mameluca – da mancha de sangue como um toque rubro de Goeldi no mundo sombrio.

miguel rio branco
BRASILEIRO do MUNDO

Filho de diplomata, 68 anos, nasceu na Espanha, onde morou até os três anos. O detalhe geográfico, entretanto, não o impede de se considerar um brasileiro acima de tudo. Brasileiro do mundo: morou na Suíça, EUA, Portugal e Argentina. Um dos mais destacados fotógrafos brasileiros do cenário contemporâneo, sua carreira profissional começou em 1964 com uma exposição de pintura em Berna, Suíça. Em 1966, estudou no New York Institute of Photography e em 1968 na Escola Superior de Desenho Industrial do Rio de Janeiro. No início dos anos 1970, trabalhou como fotógrafo e dirigiu filmes experimentais. Em 1972, começou a expor seus trabalhos de fotografia e continuou a dirigir curtas e longa metragens durante os nove anos seguintes. Dentre seus curtas-metragens, “A Jaula” (1969) e “Apaga-te Sésamo” (1985). Dentre seus longas-metragens podemos citar “Revólver de Brinquedo” (1971) e “Dayse das Almas deste Mundo” (1991).

Desde 1980 é correspondente da Magnum Photos. Entre os seus prêmios de fotografia, o Grande Prêmio da Primeira Trienal de Fotografia do MAM de São Paulo (1980) e o Prix Kodak de la Critique Photographique, Paris (1982). Participou de mostras renomadas e exposições individuais ao redor de todo o mundo. Sua obra figura entre as principais coleções de arte, dentre as quais a do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM); Museu de Arte Moderna de São Paulo (MASP); Centro George Pompidou, Paris; San Francisco Museum of Modern Art; Stedelijk Museum, Amsterdam; Museum of Photographic Arts of San Diego; Metropolitan Museum of New York etc. As fotografias de MIGUEL RIO BRANCO foram publicadas em inúmeras revistas de prestígio: Stern, National Geographic, Geo, Aperture, Photo Magazine, Europeo, Paseante etc.


Seu trabalho sempre teve um acentuado aspecto experimentalista. Entrelaçando fotografia artística e documental, construiu sua identidade na busca pessoal por criar recortes da realidade ricos em poesia. Logo que começou a mostrar suas fotos, destacou-se pela predileção por cores saturadas e pelo alto contraste de suas imagens preto e branco. Conhecido principalmente por seu trabalho com a cor, explora em suas fotos os contrastes cromáticos, a diluição dos contornos, os jogos de espelhamentos e as diversas texturas, criando atmosferas por meio do uso da cor e da luz. A passagem do tempo, a violência, a sensualidade e a morte são temas constantes. Na série “Pelourinho” (1979), MIGUEL RIO BRANCO fotografa o Maciel, parte mais antiga do bairro do Pelourinho, em Salvador, Bahia, local bastante degradado, ligado à prostituição. Retrata pessoas com rostos na penumbra, marcados por cicatrizes e também se interessa por casas arruinadas. Capta o que resta de dignidade nas situações cotidianas do local, em ambientes cercados pela violência e pela solidão.

Ele também é conhecido por suas fortes opiniões. Num recente Paraty em Foco, mostrou uma visão desmistificada acerca da função social do fotojornalismo: “A fotografia humanitária que vai mudar o mundo é um blefe. Ela funciona por um tempo, e não vai atingir muitas pessoas. Além disso, a questão da imagem está absolutamente deturpada. Vivemos em um mundo em que tudo é marketing”, analisou. Além disso, afirmou que a fotografia se liga a realidades que nem sempre se quer ter contato e discorreu sobre os momentos em que sentiu frustração: “Depois de um certo tempo, você não usa a fotografia para mostrar o mundo. Usa a fotografia para mostrar você”. Quanto à fotografia brasileira, MIGUEL RIO BRANCO diz: “Temos muita gente interessante, como Sebastião Salgado e Mário Cravo. O que precisamos é de pessoas mais abertas a uma linguagem pessoal, menos dependentes do mercado.” É autor dos livros “Dulce Sudor Amargo” (1985), “Nakta” (1996), “Miguel Rio Branco”, “Silent Book” (1997) e “Entre os Olhos, o Deserto” (2001).