novembro 30, 2011

..................................................... LÍNGUA LUSÓFONA

pedro rosa mendes e antonio nahud
A Prefeitura de Natal (RN) e a União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA) organizaram, pelo segundo ano consecutivo, o Encontro de Escritores de Língua Portuguesa (EELP), em Natal, de 23 a 25 de Novembro. Estiveram presentes 30 escritores de países como Cabo Verde, Macau, Portugal, Timor, Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Brasil. A abertura aconteceu com o rapper e escritor Gabriel O Pensador, que brilhantemente falou sobre o tema “Poesia Escrita para a Música”. Já no encerramento do II EELP, na sexta-feira, dia 25, às 15h, foi a minha vez de traduzir o que penso em se tratando de “Literatura de Viagens”, refletindo sobre crônicas e descrições de viagens de ontem e de hoje, por meio dos livros. A viagem entendida nas mais diversas formas, como itinerário turístico, literário e interior, que contribui para um melhor conhecimento da nossa identidade, da relatividade dos quadros mentais e culturais, logo de um melhor conhecimento do mundo.  Ao meu lado na mesa, os escritores Manuel Rui (Angola), Márcio de Lima Dantas (Brasil), Rui Lourido (Portugal), Luíza Nóbrega (Brasil), Jin Guo Ping (Macau), Wu Zhiliang (Macau), Mário Máximo (Portugal) e Pedro Rosa Mendes (Portugal). O evento aconteceu na Academia Norte-rio-grandense de Letras. Segundo o presidente da Capitania das Artes (órgão de cultura da Prefeitura de Natal), Roberto Lima, Natal teve a oportunidade de conhecer as diversas culturas do universo lusófono. “A diversidade vocabular lusófona é de uma riqueza invulgar e com certeza enriqueceu os nossos intelectuais e estudantes”, disse. A imprensa portuguesa esteve presente, fazendo a cobertura do II EELP, com destaque para a revista Visão, o Jornal de Letras, o Diário de Notícias e o jornal Sol.


novembro 15, 2011

................................. O FABULOSO DESTINO DE HILDA HILST

hilda hilst
O sorriso enigmático de Hilda Hilst (1930-2004) interrogava e respondia. Um sorriso invulgar que me ocorre tão nítido, tão límpido, tendo como cenário os jardins exuberantes da Casa do Sol, um sítio a 11 quilômetros de Campinas. Eu costumava visitá-la nos finais de semanas dos primeiros anos dos 90. A poeta habitava aquele claustro desde 1966, abrindo mão da intenso convívio social para se dedicar exclusivamente à literatura. Tal mudança foi influenciada pela leitura de Carta a El Greco (1956), do escritor grego Nikos Kazantzakis, que defende a necessidade do isolamento para se aprofundar na complexidade da própria escrita. A enigmática Casa do Sol é uma residência despojada, de inspiração andaluza, com pátio interno central. Rodeando a construção, uma variedade de árvores. Entre elas, uma figueira centenária, a preferida da escritora. “Sou poeta”, confessei com pudor no nosso primeiro encontro. “Ser poeta é algo elevado, difícil...”, respondeu rindo com extravagância. Desde então, nos tornamos íntimos. Enamorado por sua inteligência incomum e comportamento liberal, deixava-me embalar pela sua voz rouca de dicção perfeita lendo Ovídio, Petrarca, John Donne, Shakespeare, Jorge de Lima, Oscar Wilde e, por fim, Henri Michaux. À noite, víamos a telenovela do horário nobre global, acompanhados por um excitante uísque escocês e intermináveis gracejos de saudável loucura. Estive ao seu lado durante a feitura de “Do Desejo” (1992), numa movediça e fugaz satisfação. Nada esgotava o seu arsenal de palavras, num consciente delírio verbal que explodia todas as fronteiras do dizer.

A dramaticidade da Casa do Sol (foto ao lado) se confundia com prospecções filosóficas sobre o tempo, a morte, o amor, Deus. As paredes intensas, rosadas, manchadas e úmidas, respiravam a solidão compartilhada e a grandeza literária, protegendo o fabuloso destino de sua moradora, uma das protagonistas fundamentais da paisagem intelectual brasileira do século 20. Fotografei Hilda dezenas de vezes em sua sozinhez, registrando a anatomia de um corpo idoso, flácido, de rugas em tom acobreado. Onde a formosura da juventude lembrando Ingrid Bergman ou Jeanne Moreau? Avançada para a sua época, ela foi musa de artistas, poetas – Vinicius de Moraes se apaixonou por ela – e milionários. Uma mulher encantadora, livre, generosa, lúcida, sarcástica, queixosa, íntegra, culta, melancólica e apaixonada por cães. Embora tenha alcançado ampla notoriedade pessoal, mastigava o estigma de não se considerar popular, ambicionando ser lida, estudada, discutida. Numa estratégia escandalosa, chamou a atenção para a sua obra por meio de suposta adesão ao registro pornográfico. Filha de família rica do interior paulista, confessou-me episódios terríveis de sua trajetória em busca do inefável, passando por contínuos dissabores, afinal a sociedade burguesa exige o meio-termo, o disfarce, marginalizando quem milita contra a hipocrisia.

O deslumbre desconcertante do texto hilstiano mistura gêneros e linguagens. Babélico, refinado, irreverente, polifônico e múltiplo, numa busca literária mística. Resulta numa visão de angústia e, ao mesmo tempo, de êxtase. Com fervoroso amor pela originalidade, registra um intenso trabalho de linguagem e de musicalidade, um imaginário poético no qual questionamentos metafísicos se mesclam com fatos cotidianos. Sou leitor apaixonado de Hilda Hilst,  e jamais me esquecerei dos momentos rutilantes que passamos juntos. Hildinha, num dia infeliz, deixou de falar comigo por ciumadas, conspirações, calúnias, coisas tolas de parasitas que sobreviviam de sua solitude. Fiquei abatido, sofri, mas sabia que tinha que ser assim, já havia acontecido com outros freqüentadores da Casa do Sol. Ao morrer, não me espantei, pois a sua morte estava anunciada há décadas. Essa grande poeta morria a cada instante desde muito antes de conhecê-la. Portanto, apenas saiu do corpo ao encantamento, rumo ao enigma. Mudou-se para Marduk, o planeta reservado aos poetas, como acreditava. Mas o embevecimento diante da sua criação cresce à medida que as novas gerações percebem a transgressão da sua linguagem complexa, tentadora e relevante. Ave, poeta!

com o namorado cássio reis, em paris, 1957

novembro 13, 2011

..................... A FACA NÃO CORTA O FOGO: HERBERTO HELDER



“a acerba, funda língua portuguesa,
língua-mãe, puta de língua, que fazer dela?
escorchá-la viva, a cabra!
transá-la?
nenhum autor, nunca mais, nada,
se a mão térmica, se a técnica dessa mão,
que violência, que mansuetude!
que é que se apura da língua múltipla:
paixão verbal do mundo, ritmo, sentido?
que se foda a língua, esta ou outra,
porque o errado é sempre o certo disso”


“A Faca Não Corta o Fogo” (2008) vem interromper catorze anos de silêncio, no que diz respeito a publicação, por parte de HERBERTO HELDER, um dos poetas mais originais da poesia portuguesa contemporânea. Poeta discreto, que recusa entrevistas ou prêmios literários, fugindo da fama e chegando a invocar num raro depoimento: “Meu Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro”.


 

novembro 12, 2011

...................................................... O CASTELO DE RILKE

fotografia de rudolph koppitz
Majestosa edificação de grande estatura, cujas dimensões, estética e imponência despertam admiração, à beira do mar Adriático, quase inacessível, o Castelo de Duíno sobrevive ao esquecimento. O príncipe italiano Carlo Alessandro e o seu mordomo argentino José Gustavo são os mais recentes moradores desse monumento artístico e cultural imortalizado nos versos de Rainer Maria Rilke (1875 - 1926), que viveu nele de 1910 a 1912, então propriedade de sua amiga e mecenas, a princesa Marie von Thurn und Táxis. Deslumbrado com “As Elegias de Duíno” (1912-1923), obra em que o poeta austríaco revela a influência do pensamento filosófico de Sören Kierkegaard, visitei o castelo-personagem nos primeiros anos deste novo milênio. Fabuloso, mesmo sem o açoite de ondas em fúria ou fantasmas de contos góticos. Ao seu lado, as ruínas de outro castelo, tal e qual eu guardava na imaginação. Portanto, há dois castelos em Duíno. Do mais velho se comenta dos cultos lunares ritualizados pelos druídas, fala-se também que teve como hóspede no século 14 o autor de “A Divina Comédia” (1304-1321), Dante Alighieri, considerado o primeiro e maior poeta da língua italiana, definido como “Il sommo poeta” (O poeta supremo).


Situado a uns vinte quilômetros da cidade italiana de Trieste, o Castelo de Duíno tem abriga um museu que conserva a memória dos tempos de glória. De uma antiga torre, notei o caminho que leva da fortaleza a praia de Sistiana, trajeto que percorrido diariamente por Rainer Maria Rilke durante sua longa estadia. Poeta hermético cujos poemas traduzem a angústia de um ser inadaptado, Rilke acumulava às suas circunstâncias vitais o fato de ser homossexual em uma sociedade repressiva. Em Duíno escreveu também os poemas que compõem a obra “A Vida de Maria” (1913), os quais o compositor alemão Paul Hindemith viria a musicar. Trabalhando com os limites sensoriais da existência e da melancolia, a sua poesia traduz o fundamento da busca de ser. Para ele, a poesia não podia ser senão mística, no sentido em que a existência humana só poderia encontrar a sua salvação através da linguagem poética, aspirando ao plano da totalidade, ou seja, a de uma dizibilidade absoluta e redentora. As Elegias apresentam a morte como uma transformação da vida em uma realidade interior, gerando um todo unificado, uma experiência cósmica. Ainda hoje me lembro do impacto da primeira leitura desses versos: “Pois o belo apenas é o começo do terrível, que só a custo podemos suportar, e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha destruir-nos. Todo o anjo é terrível”.

manuscrito de "elegias de duíno"
Propriedade de família nobre, muito antiga, de origem Bergamasco, os Torre e Tasso, o Castelo de Duíno se aproxima dos mil anos de existência, destacando-se durante séculos com uma intensa  alegoria social, artística e cultural ao receber Marcel Proust, Valéry, Einstein, a atriz Eleonora Duse e outras gigantes das artes. Durante a Primeira Guerra Mundial, bombardeado e arruinado, posteriormente renasceu das cinzas. Atualmente, além de receber literárias peregrinações, é também um negócio turístico-empresarial alugado para seminários ou celebrações de casamentos. Os visitantes se encantam com “Rocca Degli Usignoli”, um superficial espetáculo de luzes e sons. Seguramente não é um castelo de contos-de-fadas, mas se tornou imortal por sua história, pelos versos de Rilke e pela visão privilegiada do Adriático.

castelo de duíno

novembro 11, 2011

............................................... A CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO

lord frederick leighton
Por cerca de dois anos um pedófilo foi meu colega de trabalho. Tinha ojeriza da situação, mas não podia ser diferente, pois o mesmo tinha “costas largas” - a proteção de um cidadão público populista (fato que evidencia o cuidado de averiguar os compromissos morais e éticos de políticos antes de votarmos neles). A figura aracnídea recebia meninos humildes de onze, doze anos, cochichava intimidades, passava discretamente uns trocados e, rindo bonachão, dizia com falsa naturalidade: “Apareça lá em casa hoje à noite para assistirmos a partida de futebol”. Certa vez toquei no assunto, lembrando o disparate dos seus quase 60 anos, mas ele se fez de santo: “Não os maltrato e nem aceito que usem drogas, apenas nos estimulamos sexualmente e, se são de boa índole, arranjo um trabalhinho para ajudar no sustento. O que os conservadores não admitem é que os maduros são assediados por esses ninfetos. Eles anseiam pela sacanagem desde cedo. Sempre foi assim e nenhuma lei irá mudá-los”. “Cuidado, um dia a casa pode cair repentinamente na sua cabeça”, alertei. A casa nunca caiu. Mesmo sendo de conhecimento geral, tal perversão sobrevive abonada por uma conspiração política silenciosa. O mesmo acontecia até a pouco tempo com a pedofilia praticada por sacerdotes da Igreja católica. Era um tema tabu, ninguém ousava abrir o bico. Felizmente a casa caiu, e de uma só vez, num barulho dos diabos. Vítimas de abusos sexuais por padres, cardeais e bispos, estão nas páginas dos jornais de todo o mundo. Ainda assim, o Papa Bento XVI continua na defensiva. Sente-se atacado de forma injusta. Fala de uma campanha difamatória orquestrada pela mídia. Não duvido de que os meios de comunicação, com freqüência, sensacionalizam notícias e criam estados de opinião excitados... até que outras notícias substituam o interesse do cidadão. Acontece com casos de corrupção política, desastres naturais, mortes de celebridades etc. Porém, desta vez, sem dúvida, o Papa está equivocado. São “difamações” as referências às dezenas de ocorrências documentadas de abusos sexuais a menores em inúmeras países? São “difamações” as reportagens, obviamente incômodas, que denunciam a negligência das máximas autoridades católicas, durante décadas, que acatam a conspiração do silêncio e permitem que pedófilos continuem na missão pastoral, arruinando a vida de meninos, meninas e adolescentes? No entanto, a Igreja católica não deve ser o bode expiatório de uma sociedade doente. A pedofilia sempre existiu sob diversas formas, tanto entre as famílias burguesas e sua falsa moral, como entre humildes proletários, que prostituem seus filhotes em troca de dinheiro. Não podemos esquecer também que a internet está cheia de fotos eróticas de menores e que a publicidade estimula cada vez mais a sexualidade infantil. Concluindo, é um tema tratado com hipocrisia generalizada.

novembro 10, 2011

................................................... EM LOUVOR DA NOIVA DO SOL

newton navarro
Quando me deparei com Natal fui enfeitiçado por uma ternura inexplicável, atordoante, que não me largou mais, num caso de amor à primeira vista. Noutras paragens, sentia uma lírica saudade da essência potiguar. Não conseguia esquecer os efeitos fugazes de luz e movimento, a despreocupação com contornos, a aversão aos tons sombrios e os enquadramentos originais, tudo isso envolto numa aura de alegria de viver. Na Vila de Ponta Negra, onde morei inicialmente, diante daquela imensidão azul do Oceano Atlântico, confirmei a gamação por esta terra. Para conhecê-la realmente, passei a andar sem destino pelas ruas do Centro Histórico, Ribeira e Petrópolis, Alecrim e Tirol, descobrindo sobrados de outros tempos, sebos, igrejas, mercados populares, botecos, becos e ruelas. Pouco a pouco montei um quebra-cabeça urbano, concordando com o poeta Bosco Lopes: “As muitas outras cidades que me perdoem, mas Natal é fundamental”. Nesta cidade, o meu espírito foi tomado pela tranqüilidade, abençoado pelos braços suaves do mar, as dunas brancas, o moroso rio Potengi ao crepúsculo, os dias ensolarados, os cajueiros frondosos, a gente acolhedora e cativante, as luas incendiadas e o vento permanente. Entre perplexo e alumbrado, conheci poetas e prosadores arrojados, líricos e trágicos. A “Noiva do Sol” do folclorista Luís da Câmara Cascudo - o seu totem, ícone incontestável, historiador oficial com mais de cem livros publicados - me seduziu. No entanto, meu guia, meu mestre, foi – e continua sendo – Diógenes da Cunha Lima, um poeta afiado, um amigo constante. Aprendi com o Professor Diógenes que “há em Natal um sentimento de que qualquer coisa de boa está para acontecer”. A sua sabedoria me aproximou da poesia de Ferreira Itajubá, Myriam Coeli e Luís Carlos Guimarães; dos desenhos de Newton Navarro e das cores sóbrias de Dorian Gray Caldas; da prosa de Sanderson Negreiros, Oswaldo Lamartine e Nei Leandro de Castro; do jornalismo de Carlos Peixoto, Cassiano Arruda Câmara, Marcos Aurélio de Sá e Vicente Serejo. Entre o rio e o mar, mistérios e sortilégios, piso o mesmo chão de piratas franceses, aventureiros holandeses, enfadonhos lusitanos e militares norte-americanos ávidos por farra e miscigenação. Cidade de tipos pitorescos, de extravagantes, de pavões impressionistas, de liturgia mundana, de um curioso e dinâmico colunismo social (um segmento desvalorizado ou em extinção noutras capitais). Terra de geografia amável; de oiticicas, craibeiras, juazeiros, acácias, paus d`arcos, sucupiras em flor e até um baobá; do Solar Bela Vista, do Forte dos Reis Magos, do Teatro Alberto Maranhão e da Coluna Capitolina Del Pretti; da permanência e vigor de artistas que retratam em seu trabalho sua cidade interior, cenográfica, inventada e verdadeira, única. Natal é hoje uma das capitais que mais crescem e se modernizam no Brasil, talvez a menos violenta, com uma população de mais de 800 mil habitantes e uma significativa qualidade de vida. Cidade sem tempestades, clara e serena, aberta e cordial, por vezes provinciana. A “esquina do continente” que recebeu da NASA o título de detentora do ar mais puro e renovável do continente sul-americano. É também um dos quatro pontos mais estratégicos do mundo, ao lado de Gibraltar, Suez e Bósforo. Fundada num dia de Natal, em 1599, o nome do município tem origem no latim “natale” e, obviamente, na data de sua fundação. É o meu porto, uma paisagem adotada por seu calor humano, a certeza de bons amigos, o seu sol majestoso e sua gente. Amo Natal. Muito obrigado, bem-amada, pela dádiva deste retorno, pela doçura acolhedora e a amorosa intimidade. As minhas palavras de poeta beijam o seu coração.

novembro 09, 2011

.............................................. MELANCOLIA NO REINO DA BAVIERA

ludwig II
Bizarro, estranho e hipersensível, o rei Ludwig II da Baviera (1845–1886) governou entre devaneios de soberania, derivada de um direito divino e das pressões de uma monarquia moderna. Entusiasta da arquitetura, da sua época data o Palácio de Linderhof, o Palácio de Herrenchiemsee - cópia do Palácio de Versalhes - e o Castelo de Neuschwanstein, hoje um dos principais pontos turísticos da Alemanha e inspiração do palácio da “Cinderela” de Walt Disney. Conheço todos eles, são maravilhosos! Erguidos na magnífica paisagem da Alta Baviera, decorados por horizontes delirantes obtidos por meio de destrezas teatrais, com florestas pintadas - impérios de fábulas onde as folhas das árvores são pedras preciosas. Como um autocrata de tempos antigos, Ludwig criou montanhas e geleiras cenográficas, além de estepes e desertos. À noite, sob a lua, em um lago artificial iluminado por centenas de velas, deslizavam cisnes negros e barcos sofisticados com rapazes semi-nus, enquanto a orquestra, composta por músicos escolhidos a dedo, embriagava de melodias a alma do louco real. Esse homem jovem e belo ansiava o sonho impossível de um mundo de sagrada formosura. Nascido em Nymphenburg, Alemanha, Ludwig II, príncipe da Baviera e depois rei da Baviera, Duque de Zweibrücken e Conde Palatino do Reno, não se interessava por questões políticas, levando uma existência de reclusão, ao mesmo tempo em que patrocinava espetaculares obras musicais, teatrais e arquitetônicas. Logo que ascendeu ao trono, tornou-se patrono do extraordinário compositor Richard Wagner, chamando-o para morar em sua corte, pagando suas dívidas e lhe dando uma vida confortável, como bem merecia. Pressionado pelos ministros e demais políticos para se casar e dar um herdeiro ao trono, noivou a Duquesa Sophie Wittelsbach, mas o compromisso  se desmanchou rapidamente. Os seus diários revelam uma homossexualidade latente e mal resolvida, mesmo passando a maior parte do tempo em companhia masculina, numa intimidade erótica com o fidalgo Alfons Weber, o ator Josef Kains e o estribeiro-mor Richard Horning. Destronado em conseqüência da perturbação mental, de gastos excessivos e de alianças com políticos estrangeiros indesejáveis, terminou seus dias confinado no Castelo de Berger, próximo ao Lago Starnberger, no qual morreu afogado juntamente com o psiquiatra que o acompanhava. Sua morte misteriosa, aos 40 anos, nunca foi explicada. O cineasta italiano Luchino Visconti narrou sua história conturbada no deslumbrante “Ludwig – A Paixão de um Rei / Ludwig” (1972), com 247 minutos de duração e Helmut Berger no papel principal.

castelo de neuschwanstein

novembro 08, 2011

......................................................................... DAS TREVAS


A Peste Negra impregnou o meu imaginário ao assistir “O Sétimo Selo / Det Sjunde Inseglet” (1956), de Ingmar Bergman, e ler “A Peste / La Peste” (1947), de Albert Camus. Perturbado, tive uma série de pesadelos noites seguidas. Somente o Holocausto nazista – a perseguição e extermínio sistemático de cerca de seis milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial - me chocaria com tamanha intensidade. Essa epidemia matou 75 milhões de pessoas em todo o mundo, um terço da população do século 14. Durante esse período de trevas, a Igreja católica foi questionada, seitas e novas formas de pensamentos prosperaram. As minorias inocentes - os leprosos e os judeus  - foram perseguidas impiedosamente, queimadas vivas e acusadas de serem a causa da peste. Tudo se iniciou nos porões dos navios mercantes, que vinham da China, em 1348, trazendo milhares de ratos esfomeados e contaminados pela bactéria “Pasteurella Pestis”. Eles encontraram nas sujas cidades européias um ambiente favorável para a sua reprodução - os esgotos corriam a céu aberto e o lixo se acumulava nas ruas. As pulgas dos ratos transmitiram o bacilo da peste nos homens, expandindo a doença com velocidade e resultados desastrosos. Após adquirir a bactéria, apareciam nos seres humanos gânglios azulados de pus e sangue nas axilas, virilhas ou pescoço. Em seguida, vômitos e febre alta. A morte era certa, não havia cura para a peste bubônica (apelidada na época de Peste Negra) e a medicina ainda engatinhava. Para piorar a situação, a Igreja católica se opunha ao desenvolvimento científico e farmacológico. Quem tentava desenvolver remédios era perseguido e condenado à fogueiras como bruxo. A doença só foi realmente estudada cientificamente e identificada alguns séculos depois. Relatos mostram que faltavam caixões e espaços nos cemitérios para enterrar os defuntos. Os mais pobres eram jogados em valas comuns, enrolados em trapos, ou abandonados, pela própria família, nas florestas. Suas residências eram saqueadas ou queimadas. Essa epidemia cruzou as fronteiras com facilidade, somente controlada com a adoção de medidas higiênicas nas cidades medievais. Calcula-se que, nas áreas mais afetadas da Europa, mais da metade da população pereceu. 

......................................................... SOBRE O FIM DO MUNDO

turner
O homem é um ser enigmático. Obcecado pela vertigem do desconhecido, muitas vezes se deixa levar por profecias que narram o fim do mundo. Escrevo a propósito da especulada profecia Maia.  Essa antiga civilização - cujo império teve seu apogeu entre 250 e 900 d.C. onde hoje é o México e a América Central -, realmente inventou um calendário preciso, complexo e holístico, adivinhando com exatidão vários acontecimentos - como a chegada do homem branco em suas terras, comandado pelo sanguinário espanhol Hernan Cortez, em 8 de Novembro de 1519. Esse mesmo calendário anuncia que algo de muito grave se passará no solstício de inverno de 21 de dezembro de 2012. Tão terrível que o mundo tal como o conhecemos desaparecerá. Já os profetas medievais garantiram que no século 21 o aquecimento global provocará uma mudança do campo magnético terrestre, levando a um desastre global. Em termos históricos, em todas as civilizações da antiguidade surgiram profecias de um fim próximo. Sempre foi assim e, possivelmente, assim continuará sendo. Muitas dessas profecias trágicas dizem que a humanidade encontrará o seu fenecimento desencadeado por enchentes apocalípticas, chuvas de asteróides de impacto mortal ou fulminada por terremotos, tsunamis, erupções vulcânicas e outros desastres. Os cientistas descartam essa paisagem tão drástica, embora um ou outro acredite no drama inevitável que terá origem no derretimento das calotas polares. Portanto, o propagado aquecimento global é fator de destruição gradativa e progressiva do planeta em que vivemos. Basta lembrarmos as ocorrências recentes de desequilíbrio climático em diferentes pontos da Terra. Foram registrados no ano passado, 245 desastres naturais em todo o mundo, causando cerca de 7.000 mortes. Não devemos nos enganar, a administração dos recursos naturais tem se mostrado, de modo geral, a pior possível. O lixo produzido por um modelo de existência consumista e descartável polui os mananciais de água, inclusive os mais profundos. A emissão de gases poluentes é uma realidade em uma sociedade deslumbrada por máquinas movidas a fontes combustíveis. A falta de reposição equilibrada do que é velozmente sugado (árvores, água etc.) se transformou em um hábito irresponsável em dimensões inimagináveis, justificando uma comiseração pessimista. Há movimentos ecológicos tentando a redução desse comportamento inconsequente, mas são ínfimas as mudanças significativas. Sendo assim, o fim do mundo é inevitável? Os Maias estavam corretos? Com a palavra, o leitor.

novembro 07, 2011

................................................. O ENIGMÁTICO CONDE ALQUIMISTA

conde saint-germain
O Conde de St. Germain, misterioso aventureiro do século XVIII, renomado e admirado, após a sua morte de data incerta, foi adotado como símbolo religioso por grupos místicos. Segundo os relatos antigos, ele era imortal e alquimista, possuindo o elixir da juventude e a pedra filosofal. “Um homem que sabe tudo e que nunca morre", afirmou Voltaire. De personalidade hipnótica, nunca ninguém o viu comer ou beber publicamente. Jean-Jacques Rousseau declarou ser Saint Germain a mais fascinante e enigmática personalidade que já conhecera. A origem de sua  fortuna também é um enigma - ele presenteava pedras preciosas de alto valor sem que ninguém soubesse de onde procediam. Nutria também admiração por culturas orientais, meditava durante horas e ao acordar relatava visitas feitas a terras distantes. Ascético e celibatário, exercia habilidades curativas utilizando ervas medicinais. Sua juventude "eterna" parecia ser mantida pela alimentação equilibrada e dons misteriosos. Várias testemunhas afirmaram a imagem imutável do Conde, que nunca deixou de aparentar mais de 40 anos. Madame d'Adhemar, biógrafa e dama da corte da rainha Maria Antonieta, conheceu-o em Paris, em 1760, e narra, em suas memórias, que reencontrou-o no velório do Duque de Berri, em 1815, ou seja, 55 anos após, e que incrivelmente ele parecia o mesmo de tantos anos antes, não havia envelhecido. St. Germain formou sociedades secretas, ocupou posição proeminente entre os Rosacruzes, os Maçons e os Cavaleiros Templários, escrevendo um único livro, “La Três Sainte Trinosophie” (inédito no Brasil). Hoje em dia, segundo religiosos, é um dos “Chohans dos Sete Raios”, relacionado com a evolução no plano físico cósmico, ou seja, o "Mestre Ascenso do Sétimo Raio", emanando a chama violeta, uma poderosa força espiritual, um fogo sagrado de intenso brilho.

novembro 06, 2011

.............................................................................. VERGONHA

goya
Os anos 1960 passaram para a história como uma época de inovação e inquietude, influenciando radicalmente mudanças de comportamento. A palavra de ordem era "quero que vá tudo pro inferno". Tempo de cabelos longos, roupas coloridas, misticismo oriental, música rebelde e drogas alucinógenas. A moda era não seguir a moda, representando um conceito de liberdade, de sociedade underground, à margem do sistema oficial. Foi a década da minissaia criada pela estilista inglesa Mary Quant, da pílula anticoncepcional, do sexo livre, de movimentos civis em favor dos negros (Black Power), da homossexualidade (Gay Power) e da libertação feminina (Women`s Lib); da contestada guerra do Vietnã, dos hippies pregando a paz e o amor; da Revolução Cultural na China, da Primavera de Praga; dos Beatles, de Jimi Hendrix, Janis Joplin e da música de protesto, com Bob Dylan e Joan Baez à frente; do Concorde viajando em velocidade superior à do som, das excursões à Lua; de ícones da beleza natural como as atrizes Jean Seberg, Anouk Aimée e Jane Fonda, ou modelos como Twiggy e Veruschka; de John F. Kennedy, Che Guevara e Martin Luther King; do cinema de Jean-Luc Godard, Glauber Rocha e Michelangelo Antonioni; do impacto da Arte Pop; das idéias e dos livros de Sartre, Simone de Beauvoir, Carlos Castañeda e Hermann Hesse; dos transplantes de coração; da Nouvelle Vague e do Cinema Novo, de “Hair” e do Teatro Arena; do Movimento Tropicália com Tom Zé, Torquato Neto e Os Mutantes; do festival de Woodstock, reunindo cerca de 500 mil pessoas em três dias de música, sexo, LSD e haxixe. No Brasil, vivia-se à sombra de uma ditadura militar e de um capitalismo troglodita. Essa ditadura arruinou famílias e carreiras, torturando e matando sem piedade de 1964 a 1985. Caracterizou-se pela censura, perseguição política e repressão. A crise se arrastava desde a renúncia do presente Jânio Quadros, em 1961. O vice de Jânio, João Goulart, assumiu a presidência com um populismo de esquerda. Temendo uma guinada do Brasil para o socialismo, os conservadores organizaram uma manifestação contra Jango, reunindo uma multidão pelas ruas do centro da cidade de São Paulo, na chamada “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”. Para evitar uma guerra civil, Jango covardemente abandonou o cargo, refugiando-se no Uruguai. Os militares tomaram o poder. Com o Golpe, decretou-se o Ato Institucional Número 1 (AI-1), cassando mandatos políticos de opositores ao regime vigente. O general Castello Branco, eleito presidente pelo Congresso Nacional, dissolveu os partidos políticos. A partir de 1967, com o general Costa e Silva no poder, a UNE (União Nacional dos Estudantes) organizou, no Rio de Janeiro, a “Passeata dos Cem Mil”; greves de operários paralisaram fábricas; a guerrilha urbana se organizou, assaltando bancos e seqüestrando embaixadores para obter fundos para a luta armada. Resultou no Ato Institucional Número 5 (AI-5), aumentando ainda mais a repressão militar e policial. Em 1969, com um novo presidente, outro general, Emílio Garrastazu Medici, uma severa política de censura controlou jornais, revistas, livros, peças de teatro, filmes, músicas e outras formas de expressão artística. Milhares de professores, estudantes, políticos e artistas foram investigados, presos, torturados, assassinados ou exilados. A ordem era calar a boca de qualquer opositor ao regime tirano. Para espionar os cidadãos, criou-se o SNI (Serviço Nacional de Informações). O DOI-Codi (Destacamento de Operações e Informações e Centro de Operações de Defesa Interna) atuava como núcleo de investigação e repressão desse governo. A polícia aniquilava passeatas com cassetetes e gás lacrimogêneo, recebendo como resposta, pedras, bolas de gude (contra a cavalaria da PM), coquetéis molotov e idealismo. Nas escolas, o clima era de exaltação a pátria, ensinando-se que os perseguidos eram antipatriotas. A propaganda vendia um Brasil maravilhoso. Nos vidros dos carros, os adesivos diziam: “Brasil - Ame-o ou Deixe-o!”. Uma mentira infame. Hoje, embora não tão divulgada como se deveria, temos consciência de que essa longa ditadura militar foi uma das práticas políticas mais abomináveis da nossa história. Uma vergonha.

"Guernica", de Pablo Picasso

novembro 05, 2011

......................................................... HOMENS E LOBISOMENS

“o lobisomem” (1589), de goltzius

O mito do Lobisomem nasceu na Grécia. Diz-se do homem que pode se transformar em lobo - ou em algo semelhante - em noites de lua cheia, voltando à forma humana ao amanhecer. A imagem mais comum é a de uma criatura do mal, percorrendo a noite à caça de vítimas. Essa lenda teve poderoso impacto na Europa do séc. XV, resultando em mais de 30 mil ações judiciais contra supostos lobisomens. O termo correto para definir o lobisomem é licantropo (derivada do rei mítico Licaão), da licantropia, uma doença mental em que vítima  pensa que é um lobo. Tem origem em desejos sexuais reprimidos.

A LENDA

Ao desafiar ou destruir magos influentes, o homem se torna lobisomem. A metamorfose acontece na primeira noite de lua cheia após o encantamento e transformação inicial é traumática. Alguns lobisomens herdam a maldição de pai ou mãe. Outros se tornaram lobisomens pela mordida de um lobisomem. Quando um casal tem sete filhas e o oitavo filho é homem, esse menino está condenado a ser lobisomem. Também tem o mesmo destino o rebento de mulher amancebada com padre.Todos eles sentem um incontrolável desejo de sangue na época de lua cheia e quase sempre matam suas vítimas. Nessas noites, visitam sete partes da região onde vivem, sete pátios de igrejas e sete encruzilhadas. Por onde passam, apagam as luzes e atacam pessoas, uivando de forma horripilante. Para quebrar o encanto é preciso acertar o bicho com balas de prata ou untadas com cera de vela queimada em três missas de domingos ou missa-do-galo, na meia-noite do Natal.

novembro 04, 2011

................. HOUVE UMA VEZ UM VERÃO NA FLORESTA NEGRA


Em 2005, passei o verão na Floresta Negra (em alemão, Der Schwarzwald). Amei esse lugar de tradição mitológica, região montanhosa e do lendário rio Danúbio, situado na zona mais quente da Germania, onde a neve se derrete facilmente e os passeios são afáveis. Acampei numa área de carvalhos, faias e abetos de tronco e folhas escuras - por isso a Floresta se chama Negra. Samambaias e dedaleiras adornam a paisagem, enquanto giesteiras e lupinus brotam ao longo das estradas. Um inacreditável éden para aqueles que se deleitam com a flora e apreciam trilhas ecológicas. A porção central da Floresta Negra oferece uma variedade de paisagens naturais  mescladas harmoniosamente. Na região montanhosa, uvas do tipo Pinot Noir crescem selvagemente, debruçando-se sobre o vale no Alto Reno. São duzentos quilômetros de mata, pequenas montanhas e lagos, surgindo inesperadamente castelos e vilas que parecem de contos de fadas, com pequenos chalés com telhados triangulares e tijolos vermelhos, torres medievais e catedrais góticas. Em Heidelberg, o "Caminho dos Filósofos" segue um caminho por dentro da mata, subindo a montanha, numa vista belíssima: castelos, o rio Neckar e a universidade mais antiga da Alemanha. Às margens do formoso Neckar, em Lauffen, nasceu um dos meus poetas favoritos, o romântico Friedrich Holderlin. Os bonitos, grandalhões e adoráveis germânicos da região preservam suas tradições, principalmente quando se trata de comida e bebida. Eles preferencialmente bebem – e como! - cerveja e vinho; e comem com prazer carne de animais selvagens como javali, coelhos e cervos - lembro com água na boca do extraordinário filé de javali. No começo da era cristã, os romanos iam a Floresta Negra para tomar banhos nas fontes naturais de águas medicinais. A região foi utilizada como descanso do imperador romano Caracala, que reinou entre os anos 211 e 217. Isso há 1800 anos. Séculos depois, a Floresta Negra continua formosa, misteriosa e ideal para o cultivo harmonioso da relação homem-natureza. 

a casa onde nasceu o poeta holderlin

novembro 03, 2011

.................................................................. CRIME DE GUERRA

bomba “fat man”

Sob a denominação de Código Projeto Manhattan - desenvolvendo e construindo armas nucleares em nome dos Estados Unidos da América, Reino Unido e Canadá, e coordenado pelo físico Robert Oppenheimer em três laboratórios secretos -, diversos testes atômicos foram realizados em 1945, culminando no lançamento de bombas fulminantes nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki. Pouco antes do bárbaro bombardeamento, o presidente Harry S. Truman declarou na maior cara de pau: "Se eles não aceitam os nossos termos, podem esperar uma chuva de ruína vinda do ar nunca antes vista nesta terra". Hiroshima foi atacada em 6 de agosto de 1946. Três dias mais tarde, aconteceu o bombardeio de Nagasaki. Os norte-americanos justificaram a necessidade de forçar a rendição do Japão imperial, mas o que se evidenciou foi uma arrogante demonstração de força militar. As estimativas do número de mortos chegam a 250 mil, sendo mais elevadas quando contabilizados os falecimentos posteriores devido a exposição à radiação. A detonação da “Little Boy”, como era conhecida a bomba atirada em Hiroshima, destruiu tudo num raio de dois quilômetros e meio, devastando a vegetação e a estrutura da cidade. Já a “Fat Man”, jogada sobre Nagasaki, causou  idêntica destruição. A radioatividade se espalhou, provocando chuvas ácidas e contaminado lagos, rios e plantações. Os sobreviventes somente foram atendidos dias depois da tragédia, ocasionando a morte lenta e agonizante de milhares. Até os dias de hoje, os descendentes dos habitantes afetados sofrem efeitos da radioatividade. A rendição incondicional do Japão em 15 de agosto de 1946 determinou o fim da Segunda Guerra Mundial. O papel dos bombardeios atômicos na rendição, assim como seus efeitos, foram submetidos a debates desencontrados. Para muitos, eles deram um ponto final na guerra, salvando vidas que seriam perdidas em ambos os lados se a planejada invasão do Japão tivesse ocorrido. Outros acreditam que os bombardeios atômicos foram desnecessários, afinal a rendição era inevitável. Leo Szilard, um dos cientistas de importância fundamental no desenvolvimento da bomba atômica, argumentou que “Se os alemães tivessem lançando bombas atômicas, ao invés de nós, teríamos considerado como um crime de guerra, e sentenciado à morte e enforcado os considerados culpados desse crime”.


a tripulação do enola gay lançou a bomba atômica “little boy” em hiroshima

novembro 02, 2011

........................ UM CASO DE DIVÓRCIO: GUY DE MAUPASSANT

desenho de margaret mee

“Entro com maior freqüência no local onde ficam as orquídeas: as minhas feiticeiras preferidas. Seu aposento é baixo, sufocante. O ar úmido e quente umedece a pele, faz arfar a garganta e tremer os dedos. Essas filhas estranhas vêm de regiões pantanosas, ardentes e insalubres. São atraentes como sereias, mortais como venenos, admiravelmente bizarras, enervantes, assustadoras. Existem aqui algumas que parecem borboletas com asas enormes, patas esguias e olhos! Porque elas têm olhos! Elas me olham, me vêem esses seres prodigiosos, inverossímeis, essas fadas, filhas da terra sagrada, do ar impalpável e da quente luz, essa mãe do mundo. Sim, têm asas, olhos e matizes que nenhum pintor pode imitar, todos os encantos, todas as graças, todas as formas que possam sonhar. Têm o flanco oco, aromático e transparente, aberto para o amor é mais tentador que toda a carne das mulheres. Os inimagináveis desenhos de seus pequenos corpos lançam a alma em êxtase no paraíso das imagens e das volúpias ideais. Estremecem em seus caules como se quisessem voar. Voarão? Virão até mim? Não, é meu coração que voa sobre elas como um macho místico e torturado de amor”.

novembro 01, 2011

............................................. UMA TRAGÉDIA NORTE-AMERICANA

ethel e julius rosemberg

Os judeus comunistas norte-americanos Julius (1918 – 1953) e Ethel Rosenberg (1915 – 1953) foram executados após serem condenados por espionagem, acusados de passar informações sobre a bomba atômica para a União Soviética, numa pena de morte ainda hoje controversa. Ex-líder da Liga Jovem Comunista, Julius se casou com Ethel desde 1939, formando-se em engenharia elétrica e trabalhando para o exército norte-americano como técnico de radar. Segundo a confissão de um ex-agente da KGB, ele foi recrutado pelos russos em 1942, oferecendo documentos confidenciais da Companhia Emerson Electric que revelavam segredos de estado. Em 1950, descobriu-se que o físico Klaus Fuchs, um refugiado alemão, passara aos soviéticos, durante a Segunda Guerra Mundial, importantes documentos contendo informações sobre pesquisas nucleares. Este terminou por dedurar o sargento David Greenglass, que por sua vez entregou o cunhado Julius e a irmã Ethel. O julgamento dos Rosenbergs começou em 6 de março de 1951, atraindo espetacular atenção da mídia e se transformando numa peça propagandística de anti-comunismo. O governo norte-americano não havia se recuperado da derrota na China, liderada pelo comunista Mao Tse-Tung, tampouco da massacrante Guerra da Coréia. Entre o julgamento e a execução, houve uma série de protestos e acusações de anti-semitismo. Jean-Paul Sartre chamou o caso de "um linchamento legalizado que mancha de sangue toda uma nação". Outros, incluindo não-comunistas como Albert Einstein e artistas como Dashiell Hammett, Jean Cocteau, Pablo Picasso, Fritz Lang, Bertolt Brecht e Frida Kahlo, também protestaram. Até mesmo o conservador Papa Pio XII condenou a execução. Indiferente aos apelos, o juiz do caso afirmou que eles haviam cometido "pior que assassinato". A condenação serviu como combustível para as investigações de "atividades anti-americanas" do senador Joseph McCarthy. A Casa Branca se viu inundada por milhares de cartas e telegramas contra a pena de morte do casal. Centenas de pessoas se concentraram do lado de fora da prisão de Sing-Sing, em Nova York, onde Julius e Ethel estavam encarcerados, portando faixas e cartazes que exigiam a libertação dos acusados. No entanto, o casal foi executado, e sem nada ter revelado. Julius morreu após a primeira sessão de choques elétricos, enquanto Ethel continuou com o coração batendo. Então foram aplicadas mais três séries de eletrocussão, o que resultou em uma grande quantidade de fumaça saindo de sua cabeça. Documentos divulgados em 1995 provaram que Julius Rosenberg era o chefe de uma importante rede de espionagem soviética e que Ethel estava a par das atividades do marido. Eles recebiam dinheiro e material fotográfico da KGB. Mesmo assim, a condenação do casal a morte na cadeira elétrica foi um ato político cruel, deixando profundos traços de indignação na consciência coletiva mundial. Portanto, nunca é tarde para se comover com uma das últimas frases de Ethel: “Somos jovens, demasiados jovens para morrer".