novembro 10, 2011

................................................... EM LOUVOR DA NOIVA DO SOL

newton navarro
Quando me deparei com Natal fui enfeitiçado por uma ternura inexplicável, atordoante, que não me largou mais, num caso de amor à primeira vista. Noutras paragens, sentia uma lírica saudade da essência potiguar. Não conseguia esquecer os efeitos fugazes de luz e movimento, a despreocupação com contornos, a aversão aos tons sombrios e os enquadramentos originais, tudo isso envolto numa aura de alegria de viver. Na Vila de Ponta Negra, onde morei inicialmente, diante daquela imensidão azul do Oceano Atlântico, confirmei a gamação por esta terra. Para conhecê-la realmente, passei a andar sem destino pelas ruas do Centro Histórico, Ribeira e Petrópolis, Alecrim e Tirol, descobrindo sobrados de outros tempos, sebos, igrejas, mercados populares, botecos, becos e ruelas. Pouco a pouco montei um quebra-cabeça urbano, concordando com o poeta Bosco Lopes: “As muitas outras cidades que me perdoem, mas Natal é fundamental”. Nesta cidade, o meu espírito foi tomado pela tranqüilidade, abençoado pelos braços suaves do mar, as dunas brancas, o moroso rio Potengi ao crepúsculo, os dias ensolarados, os cajueiros frondosos, a gente acolhedora e cativante, as luas incendiadas e o vento permanente. Entre perplexo e alumbrado, conheci poetas e prosadores arrojados, líricos e trágicos. A “Noiva do Sol” do folclorista Luís da Câmara Cascudo - o seu totem, ícone incontestável, historiador oficial com mais de cem livros publicados - me seduziu. No entanto, meu guia, meu mestre, foi – e continua sendo – Diógenes da Cunha Lima, um poeta afiado, um amigo constante. Aprendi com o Professor Diógenes que “há em Natal um sentimento de que qualquer coisa de boa está para acontecer”. A sua sabedoria me aproximou da poesia de Ferreira Itajubá, Myriam Coeli e Luís Carlos Guimarães; dos desenhos de Newton Navarro e das cores sóbrias de Dorian Gray Caldas; da prosa de Sanderson Negreiros, Oswaldo Lamartine e Nei Leandro de Castro; do jornalismo de Carlos Peixoto, Cassiano Arruda Câmara, Marcos Aurélio de Sá e Vicente Serejo. Entre o rio e o mar, mistérios e sortilégios, piso o mesmo chão de piratas franceses, aventureiros holandeses, enfadonhos lusitanos e militares norte-americanos ávidos por farra e miscigenação. Cidade de tipos pitorescos, de extravagantes, de pavões impressionistas, de liturgia mundana, de um curioso e dinâmico colunismo social (um segmento desvalorizado ou em extinção noutras capitais). Terra de geografia amável; de oiticicas, craibeiras, juazeiros, acácias, paus d`arcos, sucupiras em flor e até um baobá; do Solar Bela Vista, do Forte dos Reis Magos, do Teatro Alberto Maranhão e da Coluna Capitolina Del Pretti; da permanência e vigor de artistas que retratam em seu trabalho sua cidade interior, cenográfica, inventada e verdadeira, única. Natal é hoje uma das capitais que mais crescem e se modernizam no Brasil, talvez a menos violenta, com uma população de mais de 800 mil habitantes e uma significativa qualidade de vida. Cidade sem tempestades, clara e serena, aberta e cordial, por vezes provinciana. A “esquina do continente” que recebeu da NASA o título de detentora do ar mais puro e renovável do continente sul-americano. É também um dos quatro pontos mais estratégicos do mundo, ao lado de Gibraltar, Suez e Bósforo. Fundada num dia de Natal, em 1599, o nome do município tem origem no latim “natale” e, obviamente, na data de sua fundação. É o meu porto, uma paisagem adotada por seu calor humano, a certeza de bons amigos, o seu sol majestoso e sua gente. Amo Natal. Muito obrigado, bem-amada, pela dádiva deste retorno, pela doçura acolhedora e a amorosa intimidade. As minhas palavras de poeta beijam o seu coração.

8 comentários:

TARCISIO CAVALCANTI disse...

Obrigado pelo belo texto.

Tomei a liberdade de editá-lo no meu modesto blog.
http://paulotarcisiocavalcanti.zip.net.

Atenciosamente,

ANA CLÁUDIA BEZERRA BARROS disse...

AMIGO,

PARABÉNS!!!!!!!!!!

ESTÁ FANTÁSTICO, MARAVILHOSO...

Patrício Jr. disse...

li o artigo. senti muito orgulho de estar no meio de uma lista tão nobre. obrigado pela lembrança. é um belo texto!

Valéria Oliveira disse...

legal Antonio.
valeu demais a citação.
bjao

Ailton Medeiros disse...

Li e gostei.

João Marcelino disse...

Li e só tenho a agradecer o carinho e olhar que tens sobre minha obra. Muito obrigado. Estou em Mossoró dirigindo o Chuva de Bala no País de Mossoró!!!!!!!!!! Grande abraço!!!!!

Ana Cláudia Bezerra Barros disse...

Amigo Antonio,

Ai de nós! se não existissem os Poetas e os Escritores, eternos Leitores e escritores da alma Humana.

Você não é só um leitor e escritor da alma humana, você é, voce sente, você faz nos sentirmos cada vez mais humanos.

Muito obrigada, por você existir em nossas vidas.

. disse...

Caro Antonio,

parabéns por esta bela homenagem! Gostei do blog e voltarei a visitá-lo.

Grata pela visita e comentário.

Abraço,
Ane