outubro 19, 2012

............................... OS ALQUIMISTAS


A palavra ALQUIMIA vem do árabe “al-khemy” e quer dizer “a química”. Esta ciência começou a se desenvolver por volta do século III a. C., em Alexandria, o centro de convergência da época e de recriação das tradições gregas, pitagóricas, platônicas, estoica, egípcias e orientais, obtendo grande êxito na metalurgia, na produção de papiros e na aparelhagem de laboratórios, mas não conseguindo seu principal objetivo: a PEDRA FILOSOFAL. Os preceitos e axiomas alquímicos encontram-se na misteriosa “Tábua Esmeraldina” (a esmeralda era considerada como a pedra preciosa mais formosa e mais cheia de simbolismo: “a flor do céu”), um dos quarenta e dois livros da doutrina hermética atribuídos a Hermes Trimegisto. Nascida em lenda e mistério, a ALQUIMIA usava fórmulas e recitações mágicas destinadas a invocar deuses e demônios favoráveis as operações químicas. Por isso, muitos alquimistas foram acusados de pacto com o demônio, presos, excomungados e queimados vivos pela Inquisição da Igreja Católica, na Idade Média. Então, por questão de sobrevivência, os manuscritos alquímicos foram elaborados em formas de poemas alegóricos, incompreensíveis aos não iniciados.

Unindo noções de química, física, astrologia, arte, metalurgia, medicina, misticismo e religião, a prática ancestral mais difundida da ALQUIMIA é a busca da “Pedra Filosofal”, mítica substância que teria o poder de transformar tudo em ouro e, mais ainda, de proporcionar a quem a encontrar, a vida eterna e a cura de todos os males. Segundo os estudiosos, porém, os valores alquímicos vão muito além. Suas metas são simbólicas, o que significa que na verdade seus praticantes visam algo maior: a transmutação espiritual. Assim sendo, o famoso ELIXIR DA LONGA VIDA nada mais seria que um recurso próprio do organismo humano, capaz de conceder àqueles que realizam o longo processo de purificação espiritual uma vida dilatada ao infinito. É também digno de registro as muitas descobertas feitas por alquimistas em seus laboratórios, nas suas tentativas para atingir a “Pedra Filosofal”: água-régia (mistura de ácido nítrico e clorídrico), arsênico, nitrato de prata, acetato de chumbo, bicarbonato de potássio, ácidos sulfúrico, clorídrico, canfórico, benzóico e nítrico, sulfato de sódio e de amônia, fósforo, a potassa cáustica (hidróxido de potássio, que permitia a fabricação de sabões), entre muitas outras descobertas.

O processo alquímico é o principal trabalho dos alquimistas (frequentemente chamado de "A Grande Obra"). Trata-se da manipulação dos metais e da fabricação da “Pedra Filosofal”. As matérias-primas do processo alquímico são, entre outras, o orvalho, o sal, o mercúrio e o enxofre. De um modo geral, é descrito de forma velada usando-se uma complicada simbologia que inclui símbolos astrológicos, animais e figuras enigmáticas. O orvalho é utilizado para umedecer ou banhar a matéria-prima, o sal é o dissolvente universal. Os outros dois elementos, mercúrio e enxofre, são as principais matérias-primas da ALQUIMIA. O enxofre é o princípio fixo, ativo, masculino, que representa as propriedades de combustão e corrosão dos metais. O mercúrio é o princípio volátil, passivo, feminino, inerte. Ambos, combinados, formam o que os alquimistas descrevem como o “coito do Rei e da Rainha”. O sal, também conhecido por arsênico, é o meio de ligação entre o mercúrio e o enxofre, muitas vezes associado à energia vital, que une corpo e alma.


Embora a ALQUIMIA não seja atualmente considerada uma ciência, tal como o conhecimento científico é hoje concebido, e sim uma visão espiritual mais preocupada com antigas tradições do que com a descoberta de novidades, ela é entendida como uma ancestral da química moderna e da própria medicina. Fonte inesgotável de fascínio e encantamento, intrigando profundamente sábios de todas as épocas e latitudes, a ALQUIMIA levou grandes pensadores - como São Tomás de Aquino ou Isaac Newton – a se dedicaram ao assunto. Tudo isto não significa, porém, que ela seja hoje um saber generalizado e facilmente acessível a todos, bem pelo contrário, continua tão obscura e enigmática como nos tempos remotos de Hermes Trismegisto ou Maria, a Profetisa, confundindo-se atualmente com a história de ordens herméticas, como os Rosa-cruzes.

A psicologia moderna também incorporou muito da simbologia da ALQUIMIA. Carl Jung reexaminou a simbologia alquímica procurando mostrar o significado oculto destes símbolos e sua importância como um caminho espiritual. Mas com certeza a maior influência da ALQUIMIA foi nas ciências ocultas. A arte alquímica também inspirou numerosos livros, mas nenhum deles tem uma linguagem facilmente acessível. Diz-se que estes textos “ocultam segredos abertamente”, pois enquanto que os versados conseguem discernir o seu significado, os leigos não veem senão amontoados desconexos de palavras: para além dos símbolos caracteristicamente alquímicos, como o “Leão Verde” ou o “Ouroboros”, abundam os enigmas, os trocadilhos e assonâncias. É a chamada LINGUAGEM DOS PÁSSAROS ou “Linguagem Verde”. Essa busca pela “Pedra Filosofal” é, em certo sentido, semelhante à busca pelo “Santo Graal” das lendas arturianas, ressalvando-se que as lendas arturianas não são escritos alquímicos. Em seu romance “Parsifal”, escrito entre os anos de 1210 e 1220, Wolfram von Eschenbach associa o SANTO GRAAL não a um cálice, mas a uma pedra que teria sido enviada dos céus por seres celestiais e teria poderes inimagináveis. Também na cultura islâmica desempenha papel importante uma pedra, chamada “Hajar el Aswad”, que é guardada dentro de uma construção chamada de Kaaba, considerada sagrada, tornando-se objeto de culto em Meca.

Talvez uma das mais interessantes ideias dos alquimistas seja a criação de vida humana a partir de materiais inanimados. Não se pode duvidar da influência que a tradição judaica teve neste aspecto, pois na cabala existe a possibilidade de dar vida a um ser artificial, o GOLEM. O conceito do homúnculo (do latim, homunculus, pequeno homem) parece ter sido usado pela primeira vez pelo alquimista Paracelso para designar uma criatura que tinha cerca de 12 polegadas de altura e que, segundo ele, poderia ser criada por meio de sêmen humano posto em uma retorta hermeticamente fechada e aquecida em esterco de cavalo durante 40 dias. Então, formaria-se o embrião. Outro alquimista famoso que tentou criar HOMUNCULUS foi Johanned Konrad Dippel, que utilizava técnicas bizarras como fecundar ovos de galinha com sêmen humano e tapar o orifício com sangue de menstruação. Podemos observar que esta ideia dos alquimistas ficou profundamente marcada na consciência da humanidade, e tem aparecido regularmente no imaginário popular, na forma de monstros, como nos mangás japoneses ou no mais famoso deles, Frankenstein, da obra literária de Mary Shelley. Hoje em dia, a ALQUIMIA voltou a se evidenciar no dia-a-dia das pessoas em best-sellers como a série de livros “Harry Potter” ou o “O Código da Vinci”. Na novela “Fera Ferida”, da Rede Globo de Televisão, o ator Edson Celulari interpretava um alquimista de nome Raimundo Flamel. Paulo Coelho, o escritor brasileiro de maior sucesso internacional, também estudioso da ALQUIMIA, publicou vários livros que citam o tema, especialmente “O Alquimista”, “Brida”, “As Valkírias”, dentre outros.

Acima de tudo, a ALQUIMIA deixou uma mensagem poderosa: a busca da perfeição. Em um mundo tomado pelo culto ao dinheiro a à aparência exterior, em que pouco o homem busca a si próprio e ao seu íntimo, as vozes dos antigos alquimistas aparecem como um chamado para que o homem reencontre seu lado espiritual e superior; ou a que, na mais simples das análises, tenha um qualquer objetivo na vida.


LIVROS para SE APROFUNDAR no ASSUNTO

“Anfiteatro da Sabedoria Eterna”, de Heinrich Khunrath;

“O Arcano Hermético”, de Jean d'Espagnet;

“Atalanta Fugiens”, de Michael Maier;

“Aurora Consurgens”, de São Tomás de Aquino;

“A Aurora dos Filósofos”, de Paracelso;

“Baopozi”, de Ge Hong;

“A Carruagem Triunfal do Antimônio”, de Basilio Valentim;

“Coelum Philosophorum”, de Paracelso;

“A Fabricação de Ouro”, de Francis Bacon;

“O Parentesco dos Três”, de Wei Boyang;

“As Seis Chaves”, de Eudoxus;

“Tabula de Esmeralda”, de Hermes Trismegistus;

“Teorias e Símbolos dos Alquimistas”, de Albert Poisson;

“O Tesouro dos Alquimistas”, de Jacques Saudoul;

“O Tratado Dourado”, de Hermes Trismegistus;



outubro 06, 2012

................................... DAS SOMBRAS: HILDA HILST


DAS SOMBRAS
Fragmento do 2º Ato

Peça de ANTONIO NAHUD


“Se as portas da percepção se purificassem,
cada coisa apareceria ao homem tal como é, infinita”
WILLIAM BLAKE


HILDA (Bebendo e fumando) Tenho pouquíssimos amigos, pessoas de quem gosto realmente são raras. Há coisas que nos vem à mão, há vidas com muita sorte, a minha, por exemplo, mas também fiz velhacarias, nunca tive afeição ao dinheiro, só que se o homem a quem eu amava era rico, eu dizia que queria casa dinheiro jóias champagne. Sem problemas, sem remorsos. Quando digo velhacarias quero dizer que são consideradas assim no entender dos outros. Eu achava normalíssimo que um homem rico me desse dinheiro porque ainda era muito pouco, ainda que fosse muito o dinheiro, para o ouro que sou como gente, entende? Claro que tive a sorte de ter amantes muito ricos, e pai e mãe com algum dinheiro, e ainda heranças. Claro que fui muito auxiliada pelas fadas, mas também tive horas chatas demais, onde tinha de fazer a mais maravilhosa amante e estava louca para soltar uns bons peidos e coçar as canelas. Se fosse pobre daria um jeito de conseguir dinheiro de qualquer maneira, menos matando, porque não mato nem mosca nem barata nem nada. Mas arranjaria. Não sei por que falo sobre estas recordações mortas. Sei que me foi dada essa coisa tão difícil que é o saber escrever, o sentir agudo para curtir o de dentro, a vida muito funda. Pausas só quando acabo um livro, aí tomo porres, fico besta, brinco de mundana, como ontem quando me vesti como uma princesa, com um antigo modelo Denner, chamei um táxi e fui para um desses inferninhos de beira de estrada bossa rudes motoristas de caminhão e vagabundas decadentes. Fiquei tomando um uísque barato no balcão e toda a fauna me olhava pelos cantos dos olhos, ninguém se aproximava. Sorri para um homenzarrão tipo Rivelino, mas que não parecia pederasta como este, e perguntei: “O que pensa do tempo perdido de Proust?”. Nada respondeu, óbvio, e apertou a minha mão com força e virou boca adentro o pequeno copo de conhaque, de um só gole, depois pediu café, coca-cola e outro conhaque. Voltei para casa naquele monstruoso automóvel carregado de abacaxis. Ele apenas perguntou, A madame é casada?. Madame? Madame do cu. Estou ficando louca varrida. Mas na hora de escrever não tem quem me faça perder a cabeça, ninguém, nem nada, e na verdade só tenho a ver com gente que escreve, com os bichos também. Sou mais bicho que gente, um bicho raro que escreve.

(Abre um champagne, serve-se. Dança languidamente sem música, sofrida e solitária.)